Capítulo 13

- Eu sei quem sou, e você, quem é? – Perguntou o fumante.

- Nick, do CSI. Não está lembrado de mim? Que susto!

O outro não deu mostras de tê-lo reconhecido, mas Nick lembrava bem dele, embora o tivesse visto, por pouco tempo: era o parceiro de Roy Burton!

- Susto? Rapaz, se eu sofresse do coração, já estaria morto, à essa altura! – Disse Soffer, dando mais uma tragada, em seu cigarro.

- Mas o que faz aqui, seguindo nossa Catherine?

- Depois de o Brass falar que ela tem uma foto do assassino, bem... fiquei preocupado. E como deixei o trabalho agora, resolvi segui-la e ver se tudo estava bem.

- Tivemos a mesma idéia Sr... Sr... Desculpe, não me lembro do seu nome. Só nos referimos a você como o parceiro de Roy. – Disse Nick sorrindo.

- Soffer. Ben Soffer. – Apresentou-se também sorrindo.

Nick de fato, não se lembrava do nome dele; a apresentação fora muito rápida e na hora, Nick não estava interessado em nomes. Soffer não o deixou pensar muito tempo.

- Bom, já que você está aqui, não há necessidade de eu permanecer também – fez uma pausa e apontou a arma de Nick. – Vejo que ela está bem protegida!

Nick olhou para a arma e sorriu. Se esquecera completamente dela. Guardou-a novamente no coldre, enquanto o detetive dava partida no carro. O CSI ainda pensou um pouco e resolveu estacionar no mesmo lugar do Volvo.

Catherine já tomara banho e se aprontava para cair na cama, com seu pijama verde, de malha, com guarda-chuvinhas brancos, estampados na blusa, quando a campainha tocou. Soltou um sonoro palavrão e, perguntou a si mesma quem seria cretino o bastante, para tocar a campainha àquela hora. Resolveu atender à porta, antes que a casa toda acordasse.

No corredor, encontrou sua mãe, que com cara de sono, deixava seu quarto, para ver, quem estava tocando. Catherine a empurrou de volta a sua cama e disse que ia ver, quem era. Lilly conhecia bem, a filha que tinha. Ela voltou a dormir, pensando que não queria estar na pele do infeliz, que estava na porta.

Quando Catherine abriu a porta deu com Nick, sorrindo para ela.

- Nem vem, Nick! Acabamos de nos ver, o que aconteceu?

- Olá, fico feliz em te ver também, a propósito! Vou ter de ficar de fora, ou vai me convidar a entrar?

- E eu tenho escolha? Entre, mas espero que sua desculpa seja boa! – Falou afastando-se, para ele entrar.

Nick contou-lhe sobre a pseudotocaia do detetive, sobre sua atitude e só conseguiu um ar enfadado da loira, que preferia estar dormindo, a levar esta conversa.

- Eu possivelmente, salvei a sua vida e esse é o agradecimento que recebo? Sabe que o nome dele é Ben Soffer?

- Sei. E daí? – Desafiou a loira.

- E daí, que ele pode ser o B, do diário.

- Ora, Nick...

- Por que não? Ele não seria nem o primeiro, nem o último tira corrupto.

Catherine pareceu despertar de vez. Ela foi com ele até a cozinha, onde ela fez café para eles. Ficaram repassando o crime do circo desde o começo, verificando se não tinham deixado nada escapar.

Às 09h45min , Brass esperava por Ben Soffer. Na madrugada anterior, tinham se desencontrado, mas Ben deixara um recado sobre a mesa:

Brass

Esteja pronto que eu passo pra te pegar às 9: 45 h. Vamos ao enterro de Roy. Depois terá uma recepção, na casa do capitão da Narcóticos. Você vai, não vai?

Ben Soffer

E, com uma pontualidade britânica, Soffer chegou bem na hora. Brass entrou no carro e zarparam. Soffer pisava no acelerador. Dava como justificativa, o fato do enterro ser às 10 h. O capitão resmungou algo, sobre estar vivo, para acompanhar o enterro. O outro achou engraçado o comentário.

- Você é ranzinza assim com todos, ou é privilégio meu?

- Eu sou encantador com todos! – Ironizou o capitão.

Parando num farol, Soffer aproveitou para acender mais um Marlboro e perguntar a Brass como ficara a história do diário de Burton.

- Como era previsto, ficou inutilizado!

E antes que Soffer começasse a se desculpar, foi direto e perguntou se ele conhecia Digger.

- O informante de Roy? – perguntou Soffer, equilibrando o cigarro na boca, enquanto usava as duas mãos para fazer uma curva.

- Esse mesmo. Preciso falar com ele!

- Eu não conheço seu endereço, mas conheço o beco, onde ele se encontrava com Roy.

- Já serve, me passa o endereço, por favor! – E o capitão sacou seu caderninho de capa preta, para anotar o endereço do beco.

- Vocês têm algum, creio eu, sargento O'Malley, na corporação?

- Sim, você irá conhecê-lo hoje, na casa do capitão Frasier.

O enterro transcorreu tão bem, quanto pode ir bem um enterro. É algo inevitável, mas sempre triste e que Brass, certamente gostaria de ter evitado. Agora, na casa do capitão Frasier, ele pensava na fatabilidade da morte. Pensava em Warrick. Por que a morte tinha que ser trágica e feia?

O capitão Frasier parecia mesmo talhado, para aquele difícil cargo, de dirigir a Narcóticos. Era um sujeito grandalhão, firme e que falava grosso o bastante, para levar aquele pessoal difícil, da Narcóticos, a bom termo. Não lhe invejava o cargo.

Tanto no enterro, quanto agora, Brass via que muito provavelmente, Roy Burton devia continuar o mesmo, do tempo de Academia, não tinha família, mas possuía um enorme contingente de amigos. A secção em peso estivera no enterro e agora, atulhava a casa de Frasier, que não era muito grande.

No meio dessa gente toda, foi apresentado ao sargento Francis O'Malley. O sargento remeteu-lhe à infância. Embora vestisse roupas civis (e nisso a Narcóticos se diferenciava das outras delegacias), O'Malley parecia aqueles guardas irlandeses bonachões, que faziam a ronda no quarteirão, com seus olhos azuis complacentes, seus cabelos vermelho-escuro e suas bochechas rosadas.

Conversando com O'Malley descobriu do arranjo dele e Burton, se algo acontecesse a este último.

- Mas quando cheguei lá, não encontrei diário algum!

- Não se preocupe! – Tranqüilizou-o o capitão. – O diário está comigo. Foi por ele, que eu soube de sua existência. Sabe de mais alguma coisa?

- Oh, não! Se Roy era muito brincalhão, em outras áreas, era fechado como uma ostra, no serviço.

- Ele não comentou nada com você?

- Não, como eu já disse, ele era muito fechado.

Brass suspirou desalentado. Esperava conseguir algo, com o sargento.

- Ele me deu um envelope com algumas fotografias – disse O'Malley, após pensar um pouco. – Não sei se vai ajudar em algo!

O capitão voltou a se iluminar. O'Malley era um pouco lento, mas era boa pessoa, pensava Brass.

- Que morte horrível, não? Ele não merecia: era um bom homem.

- Correção sargento: NINGUÉM MERECE!

No consultório do Dr. Haldenberg, enquanto Sara ia verificar seu curativo, Grissom era atendido, como de costume.

- Quer dizer que no sonho eu a chamei de moranguinho e a deixei arrepiada? – E Grissom tinha um sorriso de moleque levado.

- Sim... E daí?...

- E daí que eu não contei nada a ela, sobre o apelido íntimo, nem sobre ficar arrepiada, depois do beijo.

- Não? Quer dizer, que é um elemento novo, para ela? – Perguntou o médico, fazendo anotações.

Grissom não notou, mas seus olhos voltaram a brilhar, com a luz da esperança.

- Ela está começando a se lembrar, doutor?

- Ainda não... Mas o subconsciente está cutucando bastante, e isso é bom.

Aquela noite, no carro e no jantar a conversa girou em torno de Greg. A partir de quando ele tinha se tornado um CSI? Ela o tinha incentivado e ajudado? Como?Da explosão no laboratório ela se lembrava, ainda foi surrado? Por quem? Quando? Sabia que ele tinha uma quedinha por mim?

Sim, Grissom sabia, mas hoje nada faria com que ele se sentisse infeliz. Mesmo que fosse só em sonho, ela se lembrara do "moranguinho" e do arrepio! Ele estava andando nas nuvens. Nada conseguiria abalá-lo.

Depois do jantar, Sara comunicou-lhe que ia assistir Dr. Jivago. Grissom disse que também gostaria de vê-lo, pois tinha belas paisagens.

- Sim, e os olhos do Omar Shariff estão espetaculares! UAU!

- Você sempre falou que você gostava mais, de olhos azuis...

- E gosto...

Sara mordeu os lábios. Outra vez, dera a resposta muito rápido. De novo, tinha falado sem pensar. Ele parecia um menino que acaba de ganhar um doce.

- Eu tenho olhos azuis – gabou-se.

- É. Eu sei. – Ela estava constrangida.

Naquela noite, os CSI's receberam um pedido para investigar a morte de um sujeito por degolamento, ou melhor, esgorjamento, num beco da Strip. Catherine mandou Greg e Riley achando que aquele tipo de morte, era um novo modismo, na cidade.

Eles voltaram um pouco depois, com a notícia que o nome da vítima era George Owens, embora ninguém o conhecesse pelo nome: era conhecido, nas redondezas, como Digger, um viciado, que parecia sempre estar por ali.

- Brass disse que tentou falar com ele hoje, mas já o encontrou morto. Mandou-me falar isso pra você, que você entenderia. O que ele quis dizer com isso, Cath?

A loira não lhe respondeu e perguntou o que mais, eles tinham para ela. Greg disse que não havia sinal de defesa ou luta o que significava que o assassino, devia ser conhecido da vítima. Recolheram também material, debaixo das unhas, que Greg achava que não ia dar em nada, pois ele dizia que a vítima estava limpa e, muito provavelmente, não entrara em contato, com o assassino. Ah, e Riley tinha recolhido uma bituca do chão. Era um tiro no escuro: tanto podia dar o DNA do assassino, quanto estar lá há dias, e ser de qualquer um.

- Me diga uma coisa, o cigarro era MALRBORO? – Perguntou Catherine.

O rapaz afirmou, com a cabeça e ia perguntar como ela sabia, mas fez um gesto de "não importa", ela estava tendo um ataque de "grissonite", ou seja, mistério puro, então ele resolveu deixar pra lá.

- E, Greg, para não perder tempo, use o banco de dados da Narcóticos.

O CSI saiu e ela saiu, logo atrás, indo em busca de Nick para lhe contar as novidades. O cerco ao assassino estava enfim, se fechando.

Grissom e Sara assistiram o filme juntos na cama. Ele não agüentou e dormiu bem antes do filme terminar. Ela agüentou firme aproveitando para fantasiar com aqueles olhos fantásticos, do Omar Shariff.

"Ela estava no laboratório e Greg estava dando em cima dela. Ela o incentivava, ao mesmo tempo, que olhava para a porta.

De repente, o amigo Greg tinha se transformado no Omar Shariff, o laboratório sumira, e eles estavam num tipo de cabana, nas estepes russas. Ela via a neve caindo pela janela, sem desgrudar os olhos da porta.

- Não adianta olhar: ele não vem! – Diz Omar, com seus incríveis olhos molhados.

- Ele quem? – Ela demonstra decepção, no olhar.

- Seu amor! – Ele se insinuou e muito rapidamente, lhe deu um beijo cinematográfico.

Apesar de ser quem era, ela se sentiu fria por dentro... Sem reação... Como um boneco de gelo...".

Sara abriu os olhos e sentiu Grissom ressonando, bem junto a ela. Percebeu a respiração dele, em seu pescoço; a barba roçando-lhe a pele aveludada; os braços enlaçando sua cintura e seu corpo de homem, colado no dela. Tornou a adormecer. Tranqüila... Sossegada... Feliz...

- Você está sendo teimosa, Sara! - Dizia muito sério, o Dr. Haldenberg.

- Eu simplesmente, não consigo me lembrar! – Contrapôs ela, num tom de voz mais alto.

- Você também não se lembra da morte do Warrick, do espancamento do Greg e do enterrar vivo o Nick, não são fatos agradáveis e você não gostou deles. Mas bastou seus amigos falarem, pra você aceitar.

- Sim, e daí?

- E daí que você teve todos os comentários, viu fotos e cartas, Grissom explicou pra você de mais de uma maneira, vocês vivem na mesma casa, até sonhos com ele, você teve. O que mais você quer?

- Eu quero sentir, doutor! Por enquanto só sinto em sonhos. Quero sentir o mesmo, na vida real!

O Dr. Haldenberg respirou fundo. Ela era dura na queda. A personalidade forte dela podia ser muito irritante.

- Vamos fazer uma coisa diferente hoje.

- O quê? – Perguntou curiosa.

-É uma espécie de joguinho. Eu falo uma palavra e você diz uma que associa a que eu falei, ok? Não é pra pensar muito. Na verdade, quanto mais rápido você responder, melhor. Fale a 1ª coisa que lhe vier à cabeça, ok?

- Está certo, doutor! - Respondeu sem saber em quê isso iria ajudá-la com Grissom.

- Preto.

- Branco.

- Feio.

- Bonito.

- Purê.

- Batata.

- Grissom.

- REJEIÇÃO.

- Casamento.

- INCERTEZA.

- Amor.

- MEDO.

- Grissom.

- DOR.

O médico ainda falou algumas palavras mais, fazendo anotações em sua ficha, pôs seus olhos escuros, sobre ela.

- Sara, como você vê o casamento?

- Como algo assustador. Já lhe contei sobre meus pais, não? – E uma ruga surgiu na sua testa.

- Sim, mas eu me refiro ao SEU casamento. Futuro Sara, não passado.

- Bem, a referência que eu tenho, não é muito boa. E se eu tiver em mim, o gene da loucura, doutor? Como posso encarar sossegada um casamento? Filhos?

- Bobagem, Sara! Não tenho o histórico de sua mãe, em mãos, mas me parece mais, o caso de uma pessoa comum, mas um pouco sensível, que a um dado momento, fez o que fez, não agüentando a pressão...

-... E ficou louca.

- Eu não diria isso. Digamos que ela tenha tido um "abalo psicológico".

Sara sorriu e falou com ironia.

- Desculpe, esqueci que você gosta de usar essa expressão: abalo psicológico.

O Dr. Haldenberg olhou-a descontente e prosseguiu:

- Você foi pedida em casamento e aceitou.

- Mas não me casei... - Ela fez questão de responder.

- Como considera um casamento com Grissom?

- Não sei. Ainda não pensei nisso, profundamente.

- No seu sonho, você me pareceu bem satisfeita.

- Sonhos... Não são reais – disse dando um leve tapa no ar, como se assim dissipasse fantasias incômodas.

- Às vezes, como no seu caso, é tudo o que se tem. Uma vez que você não se lembra, é a única maneira de entender o que seu subconsciente deseja. Me diga uma coisa, do que você pode se lembrar, Grissom já rejeitou você?

Ela respondeu que não, mas teve uma reação estranha e visivelmente desconfortável à palavra "rejeitou". O Dr. Haldenberg fez umas anotações e pediu que ela conversasse sobre isso, com Grissom.

Ela prometeu. Sara achava em seu íntimo, que aquele bla-bla-bla, não era útil, para ela. Mantinha a cabeça fechada, pois queria uma memória instantânea. Como ela não viesse, começava a se aborrecer, com as idas ao psiquiatra.

- Uma última pergunta: desde que você voltou pra casa, Grissom te infligiu dor?