13. O CHALÉ
Dr. Jung inspecionou o pulso esquerdo de Serene e colocou um bálsamo sobre a pele avermelhada. "Isso deve resolver," ele murmurou, enrolando uma gaze em volta do pulso dela. "Aqueles amadores do Ministério não foram muito gentis, foram?"
Ela rangeu os dentes quando se lembrou da satisfação com que a bruxa tinha tatuado o seu pulso com o símbolo da pequena lua. Invisível para todos, exceto para aqueles que conheciam o feitiço para mostrá-la, a tatuagem proclamava que ela era a alma gêmea de um lobisomem. A bruxa tinha usado as agulhas de tatuagem como protesto silencioso, deixando claro que não concordava com a decisão de Serene. Com a tatuagem, era oficial. E Serene a via quase como uma aliança de casamento. Ela coçava e queimava demais. Mas afinal, o que era uma pequena tatuagem comparada com a ferida cruel que Remus tinha sofrido...
Ela olhou para o outro lado do quarto, na direção da cama onde o paciente estava deitado, tão imóvel e pálido como antes. Doze horas haviam se passado depois da mordida e o Dr. Jung tinha mandado todos os amigos e a família irem para casa dormir, deixando apenas Serene no hospital.
Uma enfermeira tinha arrumado uma maca para Serene, ao lado da cama de Remus, mas ela não tinha sido capaz de se acalmar o suficiente para fechar os olhos e tinha passado o resto da noite ouvindo a respiração pesada de Remus.
"Isso é realmente necessário?" Ela tocou as correntes de prata que prendiam Remus na cama.
"Não, não é!" Dr. Matilykos rosnou. "Tecnicamente ele nem é um lobisomem até a próxima lua cheia!"
"É um procedimento padrão do hospital com todos os lobisomens." o médico mais jovem tentou acalmá-los. "E legalmente, ele é um. Mesmo agora."
"Mas a prata…" Serene acariciou os dedos de Remus. "... vai queimar a pele dele."
"Alergia à prata é um sintoma de licantropia. Uma vez que o Professor Lupin foi recentemente reinfectado, não vai fazer mal a ele. Ainda. E existe uma atadura entre a prata e a pele."
Dr. Jung mostrou a ela que a pele do pulso do paciente estava sem bolhas ou queimaduras. "A prata o mantém em sua forma humana. Uma vez que ele esteja sob seus cuidados, você deve decidir se você vai mantê-lo acorrentado. Pode ser recomendável, às vezes. Pelo menos quando ele estiver perto de se transformar."
"Eu me sinto tão... fraca" Serene admitiu e esfregou os olhos cansados com as costas das mãos.
"Você realmente não precisa ser médica para lidar com a situação, Serene." disse o Dr. Jung gentilmente. "Apenas estar perto dele. Cuidar dele. Tocá-lo. Ele vai se recuperar da mordida por ele mesmo, sem nenhum problema."
"Mas..."
"Vai haver uma dor considerável. E febre." Pavlos Matilykos se desencostou da parede e começou a andar pelo quarto. Ele parecia exausto, doente, como se uma única palavra ou um mero empurrão fossem nocauteá-lo.
"Mas provavelmente não será pior do que a dor que ele enfrenta todos os meses. Existem ervas que ajudam a curar a mordida." Ele parou em frente à cadeira dela e olhou para ela. "A coisa mais importante é que você vai estar com ele."
O médico mais jovem escreveu uma lista de ervas e passou-a para Serene. "Eu creio que a lista de Abby Lupin inclui a maioria destas, se não mais. Ela fez algumas descobertas importantes que nós vamos pesquisar nas próximas semanas."
Serene empurrou sua cadeira para trás, incapaz de continuar sentada por mais tempo. "Então ele vai acordar e tudo vai ficar bem?"
"Ah..." Dr Jung estremeceu e olhou para o companheiro. "Não... não exatamente... bem."
Ela empalideceu. "O que você quer dizer?"
"A 'cura' que ele tomou como você pode lembrar é chamada Tabula Rasa, Lousa branca. E o nome é bem adequado, como nós suspeitamos. Quando o Professor Lupin acordar, ele vai ser exatamente o que o nome diz. Uma lousa branca. Sem nenhuma memória.
Serene ficou boquiaberta. "Nem mesmo a família dele?" ela conseguiu perguntar. "Hogwarts? O nome dele?"
Dr Jung sacudiu a cabeça. "Nada. Mas você não deve se preocupar. Assim que o vírus da licantropia for cedendo, as lembranças vão voltar. Assim que ele se transformar na próxima lua cheia, ele vai voltar a ser o mesmo de antes.
"E melhor, é o que nós esperamos." uma ruga se formou entre as sobrancelhas de Matilykos. "Uma vez que você, como alma gêmea dele, com certeza vai fazer de tudo para completá-lo."
Serene virou de costas e olhou para a parede. Ela podia ouvir vozes vindas da rua, através da janela. Os primeiros aromas da primavera entravam no quarto. O dia inteiro ela havia sentido vontade de empurrar todos os médicos e enfermeiras para o lado e levitar Remus para fora do prédio. Ele precisava de ar.
Espaço aberto. Chás de ervas e ungüentos, isso ela poderia fazer. Até mesmo canja de galinha, se fosse necessário. Mas como ela poderia curar a alma de Remus?
"Como?" ela perguntou suavemente, mais para as paredes do que para os médicos.
Dr. Jung se levantou e a abraçou, afetuosamente. "Não se preocupe muito, Serene. Pavlos gosta muito de discursos apaixonados."
"Eu não." murmurou o médico mais velho, mas Serene percebeu um sorriso por trás das palavras dele.
"É muito mais fácil do que parece, realmente." o Dr Jung tentou encorajá-la. "Volte para Hogwarts, assegure-se de que os amigos dele vão estar por perto quando ele chegar. Ame-o. Essa é a coisa mais importante, eu acho. Amor. Um lar. Amigos."
"Uma companheira. Território. A matilha." traduziu Dr Matilykos e bateu no ombro dela, uma rara expressão de solidariedade. "Em quatro semanas, quando ele se transformar, e a memória dele voltar, ele vai se lembrar disso também."
Ela fechou os olhos, cansada. Quando ele falava, parecia tão simples. Tão natural.
"Eu tentarei."
Depois do almoço, Abby e Jerome não puderam ficar longe por muito tempo. A mãe de Remus tocou o rosto do filho. Não estava frio e úmido como antes da mordida, estava quente. Muito quente.
"Ele já está com febre." ela estava preocupada.
"O corpo dele está lutando contra a infecção." Dr. Jung moveu sua varinha devagar sobre a testa do paciente e acenou, satisfeito. "É a reação que estávamos esperando."
"Como…" Abby engoliu em seco. Ela tinha prometido a si mesma que ficaria calma, mas olhar para o filho naquele estado era muito difícil. "Posso ver a mordida?"
A enfermeira levantou o lençol com cuidado e revelou a faixa no peito do bruxo. Um aceno da varinha e as ataduras se afrouxaram.
Serene estremeceu. A mordida no lado esquerdo de Remus era tão profunda que o osso branco da costela aparecia. Carne e pele estavam rasgadas e misturadas, mesmo assim, a ferida parecia estar começando a cicatrizar.
"Não é com a ferida que vocês devem se preocupar." o médico explicou. "Ela vai ficar curada incrivelmente rápido. Mas vamos ter que esperar até a lua cheia para ver se a re-infecção deu resultado."
"E o que vai acontecer se não der?" Serene cobriu os dedos inertes de Remus com a sua mão.
"Pense no vírus da licantropia como uma coisa que vai ajudá-lo a sobreviver à transformação." Dr Jung levantou a cabeça e olhou diretamente nos olhos dela. "Seu corpo vai tentar mudar nas próximas semanas, e quanto mais forte a lua puxar, mais forte será a necessidade. O paciente se sente como seu sua pele estivesse ficando muito apertada, como se fosse sufocá-lo."
"Ele vai tentar arrancar a pele, se arranhar para tirar a pele humana." O lábio inferior de Abby tremeu.
"É a infecção que permite que o corpo humano sobreviva à mudança. De outra forma, a dor, o choque, seriam muito severos."
"Quanto tempo ele vai ficar no St. Mungo's?" Jerome estava do outro lado da cama, com a mão no ombro de Remus, concentrando-se apenas no filho. Havia dor, mas agora ela parecia suportável. "Nós podemos levá-lo para casa?"
Pela primeira vez o Dr. Matilykos falou. "Ele não pode ficar aqui. Mas vocês também não devem levá-lo para Sherwood."
A voz dele parecia um leve rosnado e o Dr. Jung instantaneamente cruzou o quarto para ficar perto do lobisomem em um canto perto da porta, casualmente segurando o braço dele, como se fosse uma âncora para a sanidade e humanidade.
"Sherwood é onde ele foi mordido a primeira vez. Já é o território de algum lobisomem."
Serene entendeu imediatamente. "E o St. Mungo é o seu."
Ele inclinou a cabeça.
"Sugiro que vocês o levem de volta para Hogwarts." Matilykos disse. "Ele vai se sentir seguro lá. É o lugar que ele escolheu, o lugar dele."
Hogwarts. A idéia de voltar ao castelo, para os alunos, para… Harry Potter… deixou Serene pálida. Ela não podia voltar para lá. 'Nem mesmo por Remy?' perguntou uma voz suave dentro do coração dela.
De repente ela sentiu alguém pegar sua mão e apertá-la. Era Dumbledore, que tinha entrado silenciosamente no quarto. "Não se preocupe agora." ele acalmou-a. "Vamos encontrar um jeito."
"Uma maneira de estar em Hogwarts e ao mesmo tempo não estar?" A voz dela estava amarga. "Uma maneira de salvar o mundo e ao mesmo tempo salvar o homem que amo?"
"Exatamente." o Diretor sorriu. "Existe um pequeno chalé entre a casa de Hagrid e o Salgueiro Lutador. Fica no terreno de Hogwarts, mas é longe o suficiente do castelo, e perto o suficiente do Salgueiro, caso necessário. É pequeno, mas dá para duas pessoas. E – isso é muito conveniente, devo admitir – a proprietária não é outra que não a sua amiga, Claire Winterstorm."
"Serviria?" Serene perguntou ao Dr. Matilykos.
Ele concordou.
"Como vocês vão transportá-lo para o Norte?" Jerome perguntou franzindo a testa.
"Há rumores de que o pai de um certo aluno possui um carro Trouxa enfeitiçado." comentou Dumbledore. "Vou falar com Arthur Weasley lá no Ministério."
"Fiu." Laurel soltou a respiração, exasperada. "Por que não largamos nossas varinhas, lavamos a poeira das mãos e vamos até Hogsmeade por uma hora? Ao lado da Honeyduke's existe uma nova loja..."
"Onde um bruxo árabe frita grãos de café nos fundos da loja?" Claire suspirou e pendurou a última cortina. "Oh sim, vamos lá!"
Os braços dela doíam, suas costas protestavam e seu cabelo estava uma bagunça. Como os Trouxas conseguiam viver sem mágica ou elfos domésticos, ela não sabia. Ela já havia tropeçado em Jonah duas vezes, pois ele tentava ajudar e pegava as coisas mais curiosas das profundezas do sótão. Pelo menos Rose estava fazendo jus à sua fama de melhor bebê do mundo. Ela estava dormindo em sua cesta perto da lareira a manhã inteira, e só agora começava a fazer barulhos suaves, como miados.
Serene estava checando a lista de coisas a fazer quando Laurel e Claire, cada uma carregando uma criança, desceram as escadas do sótão.
Uma cama para Remy, cadeiras e uma mesa, todas as pequenas coisas que uma casa precisava, elas tinham achado no sótão do chalé. Parecia que cada morador havia deixado uma coisa ou outra, e como o chalé era quase tão velho quanto Hogwarts, Serene tinha podido escolher entre quatro camas diferentes: uma vitoriana, uma gótica, uma do império e uma que ela supunha ser pré-guerra-dos-goblins.
Os elfos de Hogwarts tinham trazido roupas de cama e os elfos da Mansão Winterstorm tinham trazidos potes, panelas e cutelaria. E Laurel tinha dado a ela uma cesta cheia de pratos e xícaras de porcelana com o brasão da família Snape. Ela insistiu que Severus preferiria quebrar tudo aquilo a usar e Serene aceitou como empréstimo temporário.
A casa estava quase completa. E ainda assim...
Resolutamente, ela lutou contra a onda de medo que ameaçava sufocá-la. Ela ficaria bem. Dr. Jung tinha dito que sim. Até Abby tinha dito que confiava nela.
Só mais seis horas. Mas parecia que ela ia enlouquecer antes de Remus chegar!
Quando sentiu um puxão em sua saia, ela amassou a lista em uma bola e a jogou fora. Jonah sorria para ela, com o mais feio castiçal que ela já tinha visto, nas mãos.
"Olhe, Ene!"
"Ele encontrou isso e insiste que você use…" Laurel deu de ombros e acariciou os cabelos do menino.
"Ele pensa que é…"
"Mágico!" Jonah gritou de alegria. "Bonito!"
"Bem, se você diz, querido…" Serene colocou a monstruosidade em cima da arca.
Então ela saiu com as amigas para a nova cafeteria.
Starburst's, a nova cafeteria, estava cheia de jovens bruxos e bruxas, sentados em almofadas macias colocadas nos tapetes, bebendo café forte em xícaras delicadas. Serene ficou na fila do balcão e tentou passar para o canto onde Laurel tinha reservado um lugar para ela e para as crianças.
"Este lugar vai ser uma verdadeira mina de ouro aos sábados." falou Serene quando colocou a bandeja de café e um prato das melhores trufas de amêndoa da Honeyduke sobre a mesa baixa.
Laurel sorriu. "Mesmo agora, já posso ver estudantes que não deveriam estar aqui. Mas é meu dia de folga, então vou fingir que não vi."
Mesmo assim, alguns tapetes depois delas, dois alunos da Sonserina e um pequeno grupo da Corvinal guardaram seus livros e mochilas espantosamente rápido e saíram da cafeteria.
"Falando em ouro," Serene pigarreou e olhou para Claire. "claro que vamos pagar um aluguel pelo chalé."
"Não seja ridícula." Laurel escolheu um bolinho. "Nem você, nem Remus estão em condições de gastar dinheiro com aluguel. O salário de um professore de Hogwarts é bom com um quarto e refeições na escola, mas não se você tiver que pagar um aluguel." Ela fechou os olhos por um momento enquanto o delicioso chocolate derreteu em sua língua. "E Claire não vai aceitar dinheiro de vocês dois, vai, Claire?"
A mãe de Rose que estava olhando para a menina em seu colo, ergueu uma sobrancelha. "Desculpem-me. Estava ocupada contando os dedos de Rose." Ela sorriu. "Continuam todos aqui e perfeitos. Do que vocês estavam falando?"
"Aluguel." Serene disse rápido, antes que Laurel pudesse interferir novamente. "Agora que você é nossa senhoria, nós devemos pagar a você pelo aluguel do chalé."
"Ah sim." Claire mordeu a ponta da língua e calculou rápido. "Que tal ... 100 Galeões por semana? É um bom chalé, não é? E totalmente mobiliado."
"100 Galeões!" Laurel explodiu. "Você deve estar maluca. Os dois são pobres como elfos domésticos! Eles não podem pagar..."
Serene colocou a mão no braço da amiga. "100 Galeões é um preço justo." ela concordou. Mas perdeu a cor e ficou cabisbaixa o resto do tempo em que ficaram no Starburst's.
De volta à Mansão Winterstorm, Claire colocou Rose no berço e Laurel cedeu ao apelo insistente de Jonah para dormir em uma grande almofada perto do berço de Rose.
"Eu não acredito!" ela sacudiu a cabeça, quando fechou a porta delicadamente. "Em casa ele faz um escarcéu quando sugiro que ele tire um cochilo."
Serene sorriu. "Ele está apaixonado."
"Apaixonado!" Laurel zombou. "Ele mal tem 18 meses."
A outra bruxa deu de ombros. "Aparentemente não é uma questão de idade ou razão."
Antes que ela pudesse se virar e entrar no escritório de Claire, Laurel a segurou pelo braço e gentilmente a puxou para trás. "Se não é uma questão de razão, então de quê?"
Serene olhou para o chão. "De coração, eu acho."
"Então finalmente você entendeu." Laurel sorriu e não conseguiu conter uma certa zombaria. "Levou bastante tempo, menina."
Quando ela viu lágrimas nos olhos da amiga, mordeu a língua. "Serene, você não vai nos contar qual é o seu problema?"
"Algumas vezes o amor não é bastante." a voz de Serene tremeu, mas ela manteve a cabeça erguida e os punhos cerrados. "Algumas vezes, o amor não evita que as pessoas que você ama, sejam feridas. "
Laurel afastou um cacho vermelho da testa de Serene. "Talvez você esteja certa. Mas ainda assim… O amor pode não ser suficiente, mas é a única coisa que nos protege das Trevas."
Serene fechou os olhos, subitamente pálida como a morte. Trevas. Tão… sedutoras. Nada de regras. Nem de responsabilidade. Nem culpa. Um estremecimento percorreu seu corpo e os cabelos em sua nuca se arrepiaram quando ela lutou contra as Trevas.
"Vamos entrar e falar sobre as coisas que realmente importam. Dinheiro." ela conseguiu murmurar e, evitando o olhar de Laurel, entrou no escritório de Claire.
"Nós podemos resolver a questão do aluguel logo de cara, você não acha?"
Serene engoliu em seco. Por 100 Galeões por semana, suas economias mal dariam para pagar o aluguel até a lua cheia. Até onde ela sabia, Remus havia gastado todo dinheiro que possuía naquela maldita cura que quase custara sua vida. Eles não podiam se mudar para Hogwarts - Dumbledore havia oferecido, ciente de que ela não podia correr o risco. E ela não podia lecionar lá, pelo menos por enquanto. Ela rangeu os dentes. Negócios eram negócios. Ela encontraria uma forma de sustentar o bruxo que amava, e iria fazê-lo passo a passo.
"Bem, vamos ver..." Claire abriu um grande livro razão e pegou uma pena.
"Ouça, Serene." disse Laurel suavemente. "Eu sei que você acha difícil aceitar ajuda, mas raramente tive chance de gastar dinheiro no ano passado e guardei uma boa soma em meu cofre no Gringott's. E Severus é rico, apesar de preferir cortar o braço fora a tocar na herança do pai. Nós podemos dar a você o dinheiro que precisar, como um presente, ou como um empréstimo, se você preferir."
Serene engoliu em seco, novamente e lutou para controlar as lágrimas. "Eu não vou esquecer isso, Laurel. Obrigada, mas vou conseguir passar por isso sozinha." Ela sacudiu a mão da amiga. "Mas é bom saber que temos alguém com quem contar..."
Claire olhou para a coluna que a pena havia escrito. "Bem. 100 Galeões por semana, o que dá 400 Galeões por esse mês."
Ela ignorou o murmúrio de Laurel e continuou com sua voz fria de mulher de negócios. "400 galeões, então... eu devo a você 42.838 galeões ao todo. Você prefere em dinheiro ou um depósito no seu cofre em Gringott's?"
Serene olhou para ela, momentaneamente perplexa.
Laurel franziu a testa. "Você... deve a ela?" perguntou.
Claire empurrou o livro razão para Serene. "Veja você mesma." ela sorriu. "Você pode verificar, mas tenho certeza de que minhas somas estão corretas."
Serene estreitou os olhos quando viu o título no topo da página. Dizia 'Kennedy Design'.
"O quê…" ela gaguejou.
"Bem, é o novo design de moda e a nova linha da marca de brinquedos da Winterstorm, líder de vendas no mercado internacional de brinquedos. Lyty é a primeira de todas…"
"A cobra de Jonah?" perguntou Laurel, começando a compreender. Ela sorriu, sem graça. "Sinto muito, Claire! Eu pensei..."
"Que eu estava roubando uma amiga necessitada, eu sei." replicou Claire, um pouco magoada. "Nós começamos a produção em massa do brinquedo que a Serene planejou naquela tarde em Londres. A tarde depois do concerto."
Serene olhou para cima, os olhos cheios de lágrimas. "Mas aqueles eram só esboços!"
"E daí?" Claire abriu outro razão e o passou para ela. Continha imagens que se movimentavam de bruxas bonitas vestindo roupas de tirar o fôlego. "Ninguém esperava que você as costurasse com sua varinha. Existem montes de bruxas que sabem costurar. Mas só você pode desenhar roupas como essas. Vestidos adoráveis. Vestidos elegantes. Vestidos caros." Ela sorriu com prazer. "Muito caros."
"A Winterstorm está produzindo as roupas desenhadas por Serene?" Laurel perguntou. "E as pessoas podem encomendar por esse catálogo?"
"Elas também podem comprar na loja em Hogsmeade."
"A loja?" a voz de Serene tremeu de forma suspeita. "Que loja?"
Claire esticou a mão e quando ela a abriu em frente ao nariz, uma chave dourada brilhava na palma esticada. "Sua loja, se você quiser alugar de mim..." Ela não pôde evitar uma pequena careta na direção de Laurel, e a outra mulher aceitou, dando razão a ela. "Alugar ou comprar, com o lucro que você tiver. Você desenha, eu produzo, nós vendemos juntas."
Enquanto Serene procurava pelas palavras, Laurel mostrou sua alegria e alívio abertamente. "Então você não precisa se preocupar em como vai fazer para pagar pelo aluguel do chalé!"
"Não precisava se preocupar de qualquer maneira." Claire fechou o livro. "Mas do jeito que as coisas estão, ela não vai precisar mais ensinar em Hogwarts." Ela lançou um olhar indagador na direção da amiga. "E talvez um dia ela nos conte por que tem tanto medo de voltar para a escola."
"Você quer parar de se preocupar e sentar um minuto?" pediu Laurel naquela tarde.
Elas estavam esperando a tarde inteira e Serene já estava quase fazendo um buraco no chão, de tanto andar pela sala, nervosamente.
Claire tinha levado Rose e Jonah de volta para a Mansão onde eles dormiam agora e Serene e Laurel ainda estavam esperando a chegada de Remus.
Serene parou e olhou para Laurel, seu rosto pálido, os olhos muito abertos, com medo.
"Eu não consigo."
"Oh, que bobagem!" Laurel sentiu uma leve dor de cabeça subindo por seu pescoço. Sua amiga irradiava medo. "Claro que vai conseguir. Não precisa fazer muito, basta estar aqui. E amá-lo."
"Eu não trouxe para ele nada além de dor, até agora." Serene enfiava as unhas nas palmas das mãos.
"Isso não é verdade." Laurel sacudiu a cabeça e ficou perto da janela. "Eu nunca vi Remus mais feliz do que estava nos dias depois do Natal."
"Sete dias, Laurel!" a voz de Serene falhou. "Eu o fiz feliz por sete dias! Mas como posso fazê-lo feliz pelo resto da vida dele?"
"Serene…"
"Ele não vai lembrar do que aconteceu entre nós. Mas depois da lua cheia, quando o vírus da licantropia retornar…"
"Talvez seja como você diz. Mas, antes de qualquer coisa, no estado dele, você tem quatro semanas sem lembranças ruins. Quatro semanas para aproveitar sem se preocupar com o futuro." Laurel deu um sorriso para ela. "Dumbledore uma vez me disse para viver um dia de cada vez, e eu só posso repetir o conselho dele."
A bruxa ruiva respirou fundo e cerrou os punhos.
A casa estava pronta. O chão encerado brilhava à luz do fogo. As janelas brilhavam. A cama estava feita com lençóis de linho cheirando a lavanda.
"Um dia de cada vez." ela disse suavemente. "Eu vou tentar."
Então uma batida na porta a fez pular.
Laurel abriu. Sua boca se escancarou quando viu o carro vermelho de Trouxas em frente ao chalé – flutuando a três pés do chão.
"Sirius!" ela gaguejou.
Ele estendeu a mão. "Não diga! Eu sei que você não esperava me ver aqui."
Laurel franziu a testa.
Sirius acenou cansado para a parte de trás do carro.
"Dumbledore foi chamado de volta a Hogwarts. Parece que Draco Malfoy fez melhor para vencer Snape na corrida para o prêmio de 'mais detestável membro da Sonserina de todos os tempos'. Bem na hora em que o Chefe da Casa volta ao serviço." Ele esfregou as têmporas. "Bem na hora que eu estava chegando em casa."
"Você não vai nos ajudar a colocar Remus para dentro de casa…" Laurel começou, surpresa com o mau humor dele.
"Não."
Com isso Sirius se virou e foi embora, seguindo o caminho que levava do Salgueiro Lutador até a Mansão Winterstorm.
Laurel o olhou indo embora e sacudiu a cabeça.
Então ela viu Severus abrir a porta lateral da van e cuidadosamente levitar o corpo inconsciente do outro bruxo, enrolado em lençóis aquecidos.
O Mestre de Poções suspirou aliviado quando o corpo passou pela porta do chalé, e apertou a mão de Laurel.
"Carros de Trouxas!" ele rosnou. "Dê-me um tapete qualquer dia desses!" O olhar que ele deu na direção de Sirius demonstrava sua ira. "Não é de admirar que Fudge queira proibir essas coisas."
"Qual o problema com Draco Malfoy?" Laurel colocou a mão embaixo da cabeça de Remus para evitar que ele colidisse com o portal.
"Eu não sei nenhum detalhe. Parece que ele começou uma sociedade secreta." o rosto do Mestre de Poções mostrava preocupação. "Influência de Olsen."
O seu olhar cruzou com o de Laurel por um momento, tão intensamente que ela tocou o rosto dele.
"Eu nunca me perdoaria se nós perdêssemos Draco."
"Nós não vamos."
Juntos eles dirigiram Remus para dentro do chalé.
Serene ainda estava no meio da sala, as mãos apertando o encosto da cadeira.
Seu peito estava tão apertado que ela não conseguia respirar. Seu coração martelava.
Mas então, quando viu Remus, todo o medo desapareceu.
Nada mais importava.
Nem mesmo suas visões.
Ela deu um passo e tirou a mão de Laurel que sustentava a cabeça de Remus.
"Eu cuidarei dele agora." ela disse suavemente.
E sem dar mais atenção a eles, levou Remus para a cama.
Snape sorriu.
"Acho que não somos mais necessários aqui. Vamos pegar Jonah na Mansão e ir para casa."
Tudo o que Laurel pôde fazer foi concordar.
Quando Remus acordou, era muito cedo e não havia amanhecido. A luz cinza se filtrava pelas cortinas e fazia desenhos na parede. Levou algum tempo para ele perceber onde ele estava e essa simples tarefa demandou tanto esforço que ele ficou exausto. Seu corpo parecia estar todo quebrado e seus ossos doíam como se tivessem sido deslocados e colocados no lugar novamente.
Pela luz fraca ele podia ver que era bem cedo, mas o quarto não lhe era familiar. Um telhado de sapê onde a chuva martelava em ritmo constante. Duas janelas com cortinas brancas. Uma cama de quatro colunas com travesseiros macios e um edredom de penas de ganso. Ele não sabia onde estava, mas certamente não estava em…
Ele franziu a testa. Aqui não era… Não era o lugar onde ele deveria estar. Ele era… Quem era ele?
O coração dele falhou uma batida quando percebeu que havia um vazio onde deveria haver um nome.
Ele era…
Aquilo era ridículo. Estava lá, na ponta da lingual, ele quase sentia o gosto. Mas quando achou que ia encontrar o nome, ele fugiu para o fundo de sua mente.
Sua pele ficou fria e úmida com o pânico que o invadiu quando ele percebeu que não estava sozinho naquela cama estranha, naquele quarto estranho. Havia alguém… uma mulher… aninhada nos braços dele, a respiração dela em seu peito, sua pele quente contra a dele. Seus cabelos ruivos gloriosamente espalhados, como um lençol de seda sobre o ombro dele, quando ela se movimentava em seu sono.
E por alguma razão, o pânico desapareceu. Não importava o que viesse a acontecer, onde quer que ele estivesse… quem quer que ele fosse... Isso estava certo. Esta mulher em seus braços, a cabeça apoiada em seu pescoço, era assim que as coisas deviam ser.
Puxando-a mais para perto, ele fechou os olhos e ficou ouvindo a respiração dela até adormecer novamente.
Quando Remus acordou novamente, o raio de luz na parede tinha ido para o outro lado do quarto.
Um pano frio estava sendo passado em sua testa.
Então uma voz suave de mulher perguntou: "Como está se sentindo?"
Ele pensou a respeito.
Suas costelas e o lado de seu corpo, doíam e coçavam, como uma ferida cicatrizando. Estranhamente, ele não sabia se isso era bom ou ruim. Nem se ele deveria se sentir assim...
Ele abriu os olhos.
A mulher colocava o pano de volta em uma bacia que estava flutuando a um metro do chão e deslizava em direção da cômoda perto da janela. Era a mesma mulher que tinha compartilhado a cama com ele mais cedo. Agora os cabelos dela estavam presos em uma trança e caíam sobre a roupa verde dela. A cor complementava os olhos dela, Remus pensou, e ao mesmo tempo se perguntou como sabia que os olhos dela eram verdes.
Realmente eram verdes, ele confirmou quando ela se virou para encará-lo.
"Você pode me dizer seu nome?" ela perguntou com um leve tremor na voz. "Quem é você?"
Ele franziu a testa mas, por mais que se esforçasse, não conseguiu lembrar. Estava lá, mas apenas uma sombra no fundo da mente dele. Muito longe para ser alcançado.
"Quem sou eu?" ele desistiu e olhou para ela com um medo mal disfarçado.
"Seu nome é Remus J. Lupin."
A mulher se sentou perto dele na cama e pegou a mão dele. Imediatamente, ele se sentiu mais calmo.
"Remus J. Lupin." ele repetiu devagar. "O que quer dizer o J?"
Ela sorriu e ele se aqueceu no sorriso dela como um gatinho em um raio de sol, deitado no tapete. "Eu realmente não tenho a menor idéia." ela admitiu. "Nunca perguntei, mas acho que é de Jerome. É o nome de seu pai."
"Meu pai." Novamente, a sua mente estava vazia, não lhe dava nenhuma imagem ou cheiro. "Jerome Lupin." Parecia certo.
"O nome de sua mãe é Abby. E você tem três irmãs mais novas. Livia, Helena e Julia."
Cansado, ele fechou os olhos. Ele precisava dormir e só esperava que ela pudesse ficar ali, segurando a mão dele, ou melhor ainda, abraçando-o como tinha feito na noite anterior. Mas aquilo devia ter sido um sonho...
"Remy?" a voz dela estava meio presa na garganta. "Você lembra de mim?"
E lá, na zona enevoada de sua mente, entre dormindo e acordado, havia um nome. Ele suspirou o nome, antes de sua respiração ficar calma e ele adormecer completamente.
"Sally."
Continua...
