27 de outubro

Eu já estou longe de casa. Como eu sei? Não, não olhei pra trás – nunca é algo sábio a se fazer se você está indo de encontro a um destino irreversível. Apenas o som das explosões ficava mais próximo, e os minutos passavam – afinal de contas, eu estou andando, não dando passos no mesmo lugar. E meus pés doem.

A verdade é que é inútil me preocupar com isso. Com os pés doendo, eu quero dizer. É até um bom sinal – quer dizer que eu ainda tenho pés. Pode parecer uma constatação idiota numa situação normal, mas na guerra isso significa ser sortudo. E embora eu ainda não tenha chegado à linha de frente, eu já estou na guerra. Falta comida, não durmo nem um quarto do que necessito, e se meus pés doem como agora, não posso parar pra descansar, tenho que continuar marchando. Até eles sangrarem, se for necessário. Mas não há razão pra reclamar disso. Perto de todo o sangue que eu verei nos próximos dias...

Um avião acaba de passar por cima de mim. Blin... duas vezes mais tranquilo se soubesse que minha casa está segura. Bem, eu não tenho asas, não posso fazer nada contra esse daí. Espero que ela saiba ativar as defesas. E que ela pense nisso. Numa hora dessas, não é lucro ter sido criada num país que ninguém ataca. Caramba, é difícil acreditar que isso existe.

Foi um longo caminho desde a minha casa. A habitação do Lituânia já ruiu pela metade. Aquele retardado do Polônia não conseguiu segurar o invasor nem por dez dias. O front está a leste de Kovno [1]. Lituânia tenta retomar a cidade; vou ajudá-lo; se eu conseguir, vou reivindicá-la para mim. Aos poucos ele voltará a ser um com a mãe Rússia.

Honestamente, esse pessoal têm que fazer botas melhores. A qualidade delas caiu muito nos últimos anos. Se a neve estivesse um pouco mais grossa, meus dedos já teriam congelado e caído. Assim que eu voltar pra casa, os responsáveis serão localizados e executados.

Viu: rasgou!

01 de novembro

Cheguei ao front antes de ontem. Já consertei minhas botas. De qualquer maneira, isso é provisório. Pego de algum cadáver, mais tarde. O problema vai ser o tamanho.

Eu disse que cheguei ao front, mas o mais correto é dizer que o front chegou até mim. Não estamos mais em Kovno. Tivemos que correr para Daugavpils, na casa do Letônia, porque o Lituânia foi feito prisioneiro. Não sei se o Alemanha vai ficar com ele dessa vez, ele anda meio farto de sustentar países pobres, mas têm uma gana insanável de território. Realmente, não sei. Talvez o deem ao América de novo. Se bem que ele não está nessa guerra... ainda... e acho que ninguém lhe daria um centavo por bem. Jura que o amam, aquele lá. Coitado.

Pior que isso foi que perdi três dedos da mão esquerda. Levaram a província de Kaliningrad e tudo em volta. Isso o Alemanha não devolve nem pagando; já foi terra dele. Doeu, mas não pude fazer nada, estava muito longe e ainda estou.

Deixe estar, que eu os pego. Apenas preciso encontrá-los, se escondem como cobras. Na verdade, nem sei quantos deles estão realmente atirando na gente. Podem ser todos, ou um só, com armas muito potentes. Bem, não devem ser todos, tem alguém incomodando muito o Estônia lá em cima. Eu correria em socorro dele, se Letônia não estivesse em situação mais grave. O inverno o pegou mal dessa vez, padece de febre. Quase não tem força para atirar, e perdemos terreno a cada dia. Droga de fronteira larga que eu tenho. Bem, tudo vai dar certo no final.

08 de novembro

Perdi o Letônia também. Eu dormia quando o levaram. Naturalmente que me bateram pra roncar, mas despertei a tempo e consegui lançá-los longe antes que me liquidassem. O que me preocupa é que eram só o Inglaterra e o Alemanha. Onde estão França, Espanha, Itália e os outros, então? Espero descobrir antes que eles me contem.

12 de novembro

Descobri; apenas, meus espiões chegaram tarde demais, porque eu já estava vendo a coisa acontecer.

Aqueles malditos invadiram as minhas irmãs! E teriam invadido o Finlândia, se ele não tivesse dado passagem. Mais tarde eu ajusto as contas com aquele covarde. Agora eles marcham por cinco caminhos pra cima de mim. Já não duvido que haja gente tentando entrar pela Sibéria, também. É bom armar-me por este lado. Mandar nem que seja meia companhia para lá, e o General Inverno faz o resto – é a área dele.

E agora, onde eu me concentro? Se derrotarem a Bielorrússia, têm o caminho aberto para Moscou; é de lá que eu estou abatendo quem entra pela Letônia. Mas o Estônia já não está aguentando a barra, e da casa dele até São Petersburgo é um pulo. E agora?

Com a Ucrânia não me preocupo; mandaram os irmãos italianos para lá. Me admira o Alemanha ainda acreditar, depois de tantas provas em contrário, que aqueles dois prestam para alguma coisa. Ela os derrotará num piscar de olhos. Isso se não se apaixonarem por ela, e nesse caso são eles que correm perigo.

Ai, irmãzinha... Aguente mais um pouco, você é valente. Eu já volto. Tenho que socorrer aquele rato de escritório.

23 de novembro

Slava Bogu, slava Bogu! [2] Conseguimos retê-los em Paide. Eles têm metade da casa do Estônia, mas não avançam mais. Fiz rombos enormes nas pernas do Inglaterra. Ele fugiu se arrastando. Como, eu não sei, mas ele é bom em fugir. Agora luto só com o Alemanha aqui. Creio que o Inglaterra foi ajudar o França contra a Bielorrússia. Assim que solidificarmos a base em Paide, corro ao auxílio dela.

Ucrânia vai me facilitar o trabalho, atraindo o Alemanha para longe daqui. Combinei com ela que deixasse os italianos entrarem, e depois os aprisionasse. A qualquer hora Doitsu recebe um telefonema, e eu aproveito a distração dele pra terminar as barreiras que estamos construindo e carcar para Minsk. O front é logo abaixo, em Baranavichy. Vou descansar um par de horas antes de descer para lá, ultimamente eu quase não paro.

A noite está agradável. O pessoal comemora. Dançam, cantam. Músicas russas e estonianas. Estônia, ao meu lado, parece feliz porque estou aqui, apesar da careta de dor permanente em seu rosto. Como não doeria?, ele está partido pelo meio.

– Calma, rapaz – eu lhe digo. – Vamos retomar o resto também.

– E o Letônia? E o Lituânia? – ele pergunta, ansioso.

– Claro.

– Posso pedir uma coisa, Sr. Rússia? Não se vingue do Finlândia.

– ...

– Ele só estava com medo. Mas ele gosta do senhor, ele voltou atrás, não foi? – Letônia mentiu descaradamente. O Finlândia de fato voltou atrás, e barrou o avanço dos europeus em Oulo e em Imatra, mas apenas porque tem mais medo de mim do que de todos os europeus juntos, e eu... andei dando uma passadinha lá. Só tenho que voltar a me preocupar com aquele lado se o Suécia resolver entrar na guerra. Se bem que seria engraçado ver o desespero nos olhos do Fin.

– Sr. Rússia? – Estônia chamou, estranhando meu silêncio.

– Beba vodka, Eesti [3]. Vai parar de sentir seu pedaço faltando.

Mas isso é mentira minha. Nem a vodka cura certas coisas.

06 de dezembro

O plano sobre os italianos deu certo: cheguei sem dificuldade em Minsk, e já fizemos o França e o Inglaterra recuarem até Kobrin. Foi incrivelmente fácil. Dessa vez não usei a força, mas a esperteza. Esgueirei-me até o acampamento inglês, enquanto Bielorrússia foi ao francês, e roubamos algumas armas deles. Depois, nos colocamos na divisão entre os acampamentos, escapando por pouco dos olhares dos sentinelas, e disparamos no França com armas inglesas e no Inglaterra com armas francesas. Enquanto nos afastávamos apressadamente, já podíamos ouvir o alvoroço. Brigando entre si, foram pegos de surpresa quando os atacamos, depois, pela frente, e os rechaçamos magnificamente.

Foi uma vitória a se comentar. Houve muito sangue, porém, nessa batalha e em todas que travamos por ali. Eu e a Bielorrússia lutando juntos... nós fazemos proezas, é verdade... mas nossas mãos sempre acabam incrivelmente sujas.

15 de dezembro

Se as coisas continuarem assim, vou mandá-los para casa antes do Natal. Do Natal deles, ainda por cima. Há três dias que voltei para a Estônia, e marchamos tranquilamente pelo país, libertando cada aldeia. Bielorrússia queria vir comigo, já que os inimigos não a estão importunando mais. Achei melhor mandá-la para ajudar a Ucrânia: ela ainda retém os italianos; está numa rusga feia com o Alemanha, que tenta resgatá-los.

Estamos na fronteira sul, planejando um ataque para retomar o Letônia todo de uma vez.

Ontem recebi uma carta da Érika. Já pensava que ela tinha se esquecido de mim, e voltado para o seu país. O que seria algo sábio a fazer, na verdade. Mas não; ela manda lembranças ao Estônia, e diz que lamenta pelos meus dedos, que está preocupada comigo, e que está bem. Pergunta se não quero que ela mande mais algumas roupas, afinal, o pior do inverno está chegando. Algumas partes da epístola estão riscadas; eu gostaria de ler, odeio essas censuras de correspondência. Ainda por cima, inventaram de limitar as cartas a uma página apenas, pra os carteiros não carregarem peso demais. Haha, isso deve tê-la desesperado, Érika gosta tanto de escrever. "Coragem!", ela esmagou, no canto da folha. Está escrito na língua dela, mas essa palavra minha amiguinha já me ensinou o que quer dizer. "Isso", falou, um dia, " é uma das coisas que eu mais gosto em você, Vanek."

É, dorogaya [4], precisarei de coragem amanhã. Mas estou confiante, sabe? Tudo conspira a nosso favor, cortamos as linhas inimigas como manteiga. Talvez não para o Natal, mas quem sabe o Ano Novo já não passaremos juntos? Então não mande as roupas. Ou mande, se quiser, mande qualquer coisa que me faça pensar em você. É sempre um bom jeito de se manter são num lugar desses. Agora eu corro e vou responder isso, rápido, antes que o mensageiro parta de novo.

17 de dezembro

Era... era uma maldita armadilha!

Eu, Estônia, Bielorrússia e Ucrânia, e a Xexênia, que eu trouxe comigo, nós entramos até o meio da Letônia calmamente. Paramos em Koknese, perto do rio, para descansar; assentamos acampamento e comemoramos em grande estilo, até tarde da noite; acabamos com toda a bebida, que já não era muita, apesar de Estônia alertar para nos mantermos sóbrios porque no dia seguinte ainda faríamos mais uma investida, retomaríamos Lituânia.

No meio da noite, eles caíram sobre nós. Havia morteiros, granadas, bazucas, metralhadoras, se duvidar até flechas e tacapes – só faltavam mesmo bombas atômicas e armas químicas, porque o América (ainda, o que muito me espanta) não entrou na guerra.

O resultado disso? Letônia novamente aprisionado por eles; Estônia, Bielorrússia e Ucrânia conquistados também, pois tinham deixado seus territórios quase desguarnecidos para me ajudarem. E eu, bem, eu estou mesmode volta em casa antes do Natal. Sangrando por todos os poros, com feridas do tamanho de pratos, e com o inimigo na minha cola.

Arrastei-me até Smolensk, velha cidade murada, onde me aquartelei. Postei-me em cima do muro e atirei até desmaiar. Acho que os afastei por um pouco. No fim das contas, estou vivo, nada mais importa.

11 de janeiro

Há quatro dias, foi Natal, mas só hoje recebemos correspondência. Levou menos tempo que da última vez, porque então estávamos mais longe.

Érika me escreveu de novo, naturalmente. Mandou mais um capote, meias, e a capa que eu tinha esquecido com ela. A carta também menciona um bolo de Natal, mas desse eu não vi nem a cor. A tinta estava borrada aqui e ali. Choro. O fiasco em Koknese deve ter chegado aos ouvidos dela, pelo menos em parte. Também, não é fácil esconder um desastre militar dessa proporção.

O limite de página única mais uma vez a impediu de dizer muito, por mais que espremesse as letras. Gostaria que ela tivesse perdido mais tempo com demonstrações de afeto, ou contando que meus huskies estão bem e inclusive os filhotes da Belila já nasceram. Não, minha amiga era objetiva; disse que eu precisava de aliados; listou alguns países que talvez aceitassem minha proposta, e deu até umas ideias do que dizer pra eles, na medida do espaço que havia.

Considerando as origens dela, deve ter jogado muito War pra adquirir uma mente hábil assim em política. A ideia me fez rir. E chorar. Que beleza, emotivo agora, é só o que me faltava.

Dane-se tudo, vou escrever pra ela, e o quanto eu quiser! Não me importa que risquem a carta inteira, não importa que rasguem as folhas excedentes, ou que ela nunca receba. Pelo menos eu coloco tudo para fora.

E redigi um verdadeiro tratado... sobre a guerra, e tudo o que me cercava. Havia até uns trechos em poesia, e coisas que eu não consegui expressar por nenhuma outra maneira, a não ser desenhando. Dobrei tudo, esmaguei num envelope, e entreguei para o mensageiro, sem olhar na cara dele. Depois subi no muro pra vigiar, e fiquei com vontade de rir do carteiro, como se eu tivesse pregado uma peça nele. Mas abafei a vontade, porque se começasse a dar gargalhadas em cima do muro, me tornaria um alvo fácil.

A noite foi tranquila, sem muitos bombardeios. Bem, porque estava havendo uma tempestade de neve. A capa chegou na hora exata. O General Inverno não carregara sobre nós com toda a sua força até então, mas agora parecia a fim de fazer isso. (Suspiro). Eu só queria um cantinho para dormir.

12 de janeiro

Resolvi seguir o conselho da Érika. Consegui arranjar as coisas para ocultar minha saída, e sobrevoei a Europa num avião camuflado. Desci na casa do Grécia. A criadinha que me abriu a porta se arrepiou e saiu correndo. Aiai, esse tipo de reação me cansa, às vezes.

Dali a pouco, lá vem o Grécia, no seu passo arrastado. Um caracol o ultrapassou, juro. De toda forma, tenho algum respeito por esse cara; a mãe dele foi, em parte, minha mentora intelectual.

– Entra, Rússia – ele disse, me chamando com um aceno. Eu o segui até o escritório. A casa do Grécia (a parte que não é ruínas, quero dizer) tem ambientes amplos e altos, com colunas decoradas e ladrilhos preto e branco no piso. No escritório, as paredes eram revestidas de veludo vermelho. Não havia quadros nem estátuas, porque todos tinham sido roubados. Grécia reclinou-se num divã; não me convidou pra sentar, mas sei que não foi por má educação, ele é mesmo desligado. – Diga... o que quer?

Hesitei um instante. Não, não adiantava fingir que aquela era uma simples visita cordial, por amizade. Todo mundo sabe que eu estou em guerra.

– Quero que me ajude, que lute ao meu lado – eu disse, então.

Grécia me olhou demoradamente. Eu quase pude ver a informação entrando nos ouvidos dele e indo para o cérebro, bem lentamente, e então voltando com a resposta.

– Meu povo não tem o que comer em tempo de paz, e você quer que eu me meta em uma guerra? – ele disse, por fim.

– É – eu respondi. Ele ergueu as sobrancelhas. – Vamos, eu te pago. Mando uns carregamentos de trigo pra cá, enquanto lutarmos, e mesmo depois. A Rússia é grande, mesmo que lutemos durante dez, quinze anos, não vão conquistar todas as minhas áreas cultiváveis. Eu... eu divido minha comida com você.

– Não, obrigado. Não quero arranjar encrencas com o Alemanha. No fim das contas, ainda dependo dele. Financeiramente, eu quero dizer.

– Acha que isso vai durar muito, é? Logo ele corta os recursos e pronto, acabou pra você! Kolkolkol – eu disse, nervoso. Grécia encolheu os ombros, como quem diz "Paciência!". Argh, esses europeus e seu orgulho me enojam. Pressionei minhas têmporas. – Grécia... por favor... Pelos popes ortodoxos da Rússia – implorei, apelando para o lado religioso dele.

– Ainda há? – ele questionou, levemente surpreso. – Pensei que você tinha matado todos no século passado.

Eu corei.

Fui embora da casa do Grécia, praguejando contra ele, prometendo a mim mesmo que tomaria as suas terras assim que surgisse a oportunidade. Não tinha, na verdade, intenção de fazer isso, porque essas terras não valem uma pataca hoje. E pensar que já foram privilegiadas por ficarem perto do mar.

Mas meus assuntos não estavam acabados por ali naquela tarde. Ainda tentando me ocultar, cruzei a fronteira, fui visitar o Turquia. Não vou dizer que amo aquela cara mascarada; as cúpulas redondas dos seus edifícios são praticamente a única coisa que me atrai. Já tivemos nossos problemas no passado, problemas sérios [5]. Espero que ele também considere esse "no passado".

A casa do Turquia parece um harém. É tudo o que tenho a dizer sobre isso.

– O que você quer, Rassiya? – ele perguntou, com ar de deboche, imitando a minha pronúncia do meu próprio nome. Continuava de máscara, trajando uma túnica bege, e estava também escarrapachado num divã, com uma moça à sua esquerda, servindo-lhe uma bebida quente, enquanto outra o abanava com um grande leque pela direita. Bah. Se estava com calor, era só apagar a lareira. Contive-me, e disse apenas o necessário:

– Quero que seja meu aliado.

Você?! – ele engasgou-se com a bebida, impulsionando o corpo para frente. – Logo você... Olha só, as ironias da história... Pensei que pediria comida, minerais, armas...

– Você vai ser meu aliado ou não vai? – interrompi, calmo. Por fora.

– Quais são os termos? – ele perguntou, apoiando o queixo na mão.

– Bem, bem... – cocei a cabeça. – Podemos negociar uma parte da produção da Xexênia.

– Baixo – ele disse, desinteressado.

– Toda a produção da Xexênia – subi o preço.

– Dê-me logo o território de uma vez! – ele exclamou.

– Certo, o território! Mas só se você me mandar os reforços amanhã.

– A oferta é mesmo tentadora... – comentou Turquia, acariciando o restolho de barba – mas eu recuso – completou, com um sorriso malvado. Senti ganas de destripá-lo.

– Por quê? – perguntei, com voz rouca.

– Ah. Muitos anos oprimindo meus irmãos muçulmanos do Afeganistão, Paquistão e todos os outros, na velha União Soviética. Eu quero mais. É que você. Se exploda – ele retrucou, com uma risada malvada.

Contive com dificuldade a mão que já descia ao pescoço do turco, e saí dali batendo os pés, antes que ele me entregasse pros meus inimigos. No avião, comi um dos bancos, de pura raiva – e segui para o leste. Eu tinha saído naquele dia para procurar aliados, e não voltaria sem nenhum.

Quando retornei a Smolensk, levava comigo a Armênia, o Cazaquistão, e o Azerbaijão, e estava mais calmo.

28 de janeiro

Tomaram Smolensk também. E São Petersburgo, no norte. Estamos encurralados em Gagarin. Mais dois passos, e entregamos Moscou. Eu NÃO VOU dar esses dois passos.

18 de fevereiro

Krov' [6]. Sangue, sangue, sangue, tripas e morte. Cadáveres. Gente pulverizada. Meu próprio corpo sendo furado como uma peneira. Parece que eu já nem sinto mais. Uma picada; eu olho; há esse líquido vermelho jorrando. "Dane-se", eu penso. "Só quero fazer o deles jorrar também".

Não recuei. Mantenho a posição em Gagarin há dez dias. Falta comida, estou ensopado e com frio, morro aos poucos, com cada tiro, mas dou os meus também. Ah, sim! Cada arranhão no meu corpo lhes custa caro. Afinal o General Inverno nos atingiu, e bate neles muito mais forte do que em mim. Nossas guerras, hoje, são mais rápidas, mas mais devastadoras, por causa da qualidade das armas. Também eu andei aprontando, não pensem que não. Então ia deixar que tomassem São Petersburgo e bombardeassem Moscou à toa? Mandei uns presentinhos a Paris e a Berlim, também. Londres é o próximo alvo, assim que aliviarem a carga aqui. Soube que estão tentando fazer o América entrar na guerra. Isso quer dizer que o necessário está começando a faltar. Torço pra que ele não venha. Mas se vier, pouco me importa. Mato ele também, ou pelo menos tento.

Todas as minhas cidades do Oeste estão queimadas. Queimo tudo por onde passo. Prefiro eu morrer de fome a deixar que eles se aproveitem dos meus cereais, minhas instalações, meus produtos, a não ser como sua pira fúnebre.

Verdade que não passo o tempo todo nesse humor acre. À noite, sento em volta da fogueira com os homens, enquanto eles cantam músicas tristes sobre o front. Mas nem essas palavras pungentes ou o som da harmônica me comovem da mesma forma. Dentro em pouco, tanto carmesim varrerá qualquer espécie de sentimento da minha alma. Estou me animalizando.

Recebi uma carta da Érika ontem. Por sorte eu estava em volta da fogueira na hora, ou era capaz de ter jogado fora sem abrir. Nem sei se entendi as palavras. Meus olhos se anuviaram, e eu senti um terrível mal estar, um desespero, como se meu coração estivesse sendo rasgado em pedaços minúsculos e atirado ao vento. Não era a dor de perder o coração, eu já senti dores piores. O que havia de ruim era o vazio que ficava... e a ideia de no que eu me tornaria após isso.

Não havia papel para responder a carta. Não havia tinta também. Peguei um graveto e o molhei numa das minhas feridas mais recentes, rabiscando com ele meu pedido de socorro no verso da folha:

Molis' Bogu za menya. Ya skhoju s uma.[7]

05 de março

O inverno, velho camarada, nunca falha comigo. Chegou tarde esse ano, espero que se vá tarde também.

Lutamos agora em campo aberto. Foram expurgados de Gagarin e dos arredores. Ainda tentam manter Petersburgo pra si, mas com as tropas da Xexênia acampadas em Sosnovyy Bor isso não dura muito. O Espanha está sozinho lá, de qualquer forma, e louco pra sair, se a essa altura não virou picolé ainda. Escudados pelos bosques, a maioria das batalhas é travada de noite, quando arriscamos sair para as estepes e catar o inimigo.

A província de Bryansk é contaminada com radiação até hoje, por causa de Chernobyl, o que deixou o Alemanha, o França e o Inglaterra com cabelos em pé, loucos para sair dali. Eu até tive esperança de que eles fossem recuar voluntariamente, mas acordei pra realidade da pior forma.

Era noite, e eu tinha saído, pra ver se sangrava uns alemães antes de voltar para meu acampamento e dormir uns minutinhos. Estava nublado, e uma camada de névoa recobria a de neve. Desci um morro, fui parar numa charneca. Nem sinal deles. Isso era preocupante. Guardei meu cano no cinto, e ergui o fuzil, marchando com ele a postos. Ainda ninguém. Cheguei à beira do campo; ele se estreitava, mais adiante dava para um pântano cercado por dois bosques.

Conforme enveredei por esse caminho, meus ouvidos captaram barulho de folhas quebradas, vindo dos dois lados. Apurei um pouco mais a audição; passos pesados e abafados à direita. O Alemanha! Aproximei-me cuidadosamente do outro bosque. Havia ruídos também, quem estaria ali? De repente, senti um leve cheiro de fumaça de cachimbo. Aí minha resposta: Inglaterra. Pressentindo o pior, relanceei os olhos por cima dos ombros. Três ou quatro vultos, um dos quais, gordo, se aproximavam em meio à névoa. O gordo só podia ser Portugal. Os outros... os irmãos Itália? Sim, com certeza o Veneziano estava ali; um dos fantasmas magros era especialmente vivo. Eu poderia derrubá-los, talvez? Não; eram idiotas, mas estavam em número maior.

A solução era fugir pelo pântano. Mergulhei os pés e em seguida me ajoelhei na neve, jogando o fuzil sobre o ombro, porque teria que usar as mãos pra não escorregar na lama mal congelada. Rastejei uns dois metros e então escutei resmungos:

– ...porque eu sempre fico com o pior? Quando não invadem minha casa, me obrigando a me refugiar nos esgotos, me botam a rastejar na lama! Tinha que ser ideia daquele maldito bebedor de chá! Tudo isso porque ele morre de inveja dos meus lindos cabelos, doido pra estragá-los. Mas deixe estar, deixe estar que um pouco dessa lama vai parar no seu chá!

"França!", constatei, sentindo meu estômago afundar. Eu estava cercado pelo inimigo! Recuei rapidamente, para fora do pântano. A movimentação deles já estava mais evidente, mas acho que ainda não podiam me enxergar. E agora, o que fazer? Levantar e sair atirando pra todo lado? Não, isso é suicídio, me pegariam na certa.

E se eu capturasse o França como refém? Estreitei os olhos no escuro, tentando localizar aquela criatura. Ainda estava razoavelmente longe, e pela continuação dos resmungos, creio que não havia me notado. Dei outro passo na direção dele. "Não, não vale a pena. Ainda que eu o fizesse de escudo humano, eles não hesitariam em atirar. Talvez até atirassem com mais gosto."

Suspiro, desanimado. Não há saída possível, só pra baixo da terra. Pra baixo... Começo a cavar a neve com as mãos, desesperadamente. Em quinze minutos, já havia um abrigo razoável. Preocupei-me em trazer a terra e a neve de volta para cima de mim; depois cavaria mais, para deixar o lugar mais confortável. Não para meu túmulo, espero.

Bem a tempo! Dentro de instantes, ouvi a voz de comando do Alemanha.

– Descansar! Inglaterra, tudo bem por aí?

– Não me deparei com nenhum bárbaro, se é o que quer dizer – respondeu Inglaterra, secamente. – Mas esse maldito frio! - bufou. – Eu quero um pouco de cerveja quente.

– Frio! – rosnou França. – Você nem sabe o que é isso! Por acaso foi você que veio engatinhando pelo lamaçal? Você vai beber é o seu próprio sangue quente, quando eu quebrar todos os seus den...

– Não briguem, não briguem! – implorou Veneziano. – Estamos todos bem, não é?

– Itália tem razão – disse Doitsu, que obviamente estava retendo o pulso do França, e este fazendo esforços para se libertar. – Será que vocês dois não lembram o que aconteceu da última vez que começaram a brigar, nos arredores de Minsk? – ele repreendeu. Silêncio. – E você, França, pare de reclamar. Não podíamos ter vindo todos pelo mesmo caminho, seríamos presa fácil.

– Isso porque não foi você que...

– Portugal, o relatório – pediu Alemanha, impaciente.

– Ora, pois. Os gajos se acampam ali pra diante, um pouco acima. Estão armados até os c***, da cabeça aos rabos – tem uma boca suja, esse irmão do Espanha. – Sabes duma coisa? Não gostaria de ter me metido nessa! – exclamou, mal-humorado, e com sotaque.

– Eles têm alguma ideia de que deslocamos nossos acampamentos? – perguntou Inglaterra.

– Ah, garanto que não. Mas olhe que foi por pouco, quase que tenho que calar esses dois com um tirombaço. Além de andarem discutindo o caminho todo, quando chegamos perto do aglomerado, já estavam a se lançar às vodkas dos "homis", e isso é pedir a morte.

– Ai, Doitsu! – gemeu Veneziano, ao levar uma bofetada.

– Queria o quê?! Faz dois meses que não ponho uma gota de vinho na goela; aquela meleca era o único jeito de se esquentar – resmungou Romano, aparentemente colocando o queixo de volta no lugar.

– Ele tem razão – comentou Inglaterra.

– Parem de choramingar! N-nem está tão frio as-sim! Eu m-mesmo já enfrentei invernos piores nesse lugar – vociferou Doitsu, muito embora sentisse calafrios.

– Enfim, vamos ao que interessa – disse Alemanha, quando todos calaram a boca. – Já sabem bem o que têm que fazer amanhã?

– Ficar fora do caminho, e não atrapalhar – Itália repetiu a lição, prestativamente.

– ...e atirar se alguém tentar escapar – completou Romano.

– França? – perguntou. O loiroso deu um sorriso malicioso.

– Eu tenho que pegar as gracinhas das irmãs dele, e fingir que as estou aviltando, pra provocá-lo – recitou. – Não sei se vou só fingir... – e riu, fazendo o meu sangue ferver. Quase que eu dou uma de zumbi e puxo a perna dele, para ajustarmos as contas aqui embaixo.

– Portugal e Inglaterra, vocês seguram a Armênia, o Cazaquistão e o Azerbaijão, para que não possam ajudá-lo. Do Rússia cuido eu – Alemanha disse, um olhar de puro ódio iluminando seus olhos azuis.

– Seja realista, Alemanha. Você não dá conta do Rússia sozinho – disse Inglaterra, levemente zombeteiro, tragando seu cachimbo.

– Não estarei sozinho, os italianos ficarão por aqui também.

– Estará sozinho – repetiu Inglaterra.

– Está preocupado? – Alemanha, perguntou, secamente.

– Não exatamente – retrucou o outro, reabastecendo o cachimbo. – Mas um aliado a menos é sempre um aliado a menos, ainda que seja você.

– Apenas cale essa boca e faça o seu trabalho. Perto do meio dia, conduza-os em direção ao sudeste. Rússia virá pra cá, em sentido contrário. Eu o pego. Logo teremos Moscou – eles calaram-se mais uma vez, sonhando com a possibilidade. – Agora, armem suas barracas e todos pra cama.

O barulho aumentou, enquanto eles fixavam acampamento no espaço entre os dois bosques, e diminuiu, enquanto, pouco a pouco, adormeciam; apenas resmungos de escassas sentinelas podiam ser ouvidos aqui e ali. Enquanto isso eu cavava, cavava, cavava...

02 de abril

É hoje que os pego! Hoje que sento a mão neles e não quero nem ver como vai acabar.

Aquelas informações recebidas por acaso foram de grande utilidade para salvar ambas as minhas irmãs. Cheguei do outro lado do pântano com as unhas sangrando de tanto cavar; duas tinham caído, fora os rasgões por causa das pedras. Mas isso não importa, porque cheguei cedo, ainda umas duas horas antes do amanhecer. Isso me dava tempo pra tomar minhas providências e escapar dos ardis deles.

Enviei alguém ao meu acampamento, com instruções para esvaziarem-no às ocultas, levando só as armas e deixando o resto para trás. Armênia, Cazaquistão e Azerbaijão deviam ficar, no entanto, e preparar-se para aprisionar Portugal e Inglaterra, assim que eles se aproximassem. Depois, deveriam rumar para o norte e ajudar Xexênia a arrancar aquele maldito Espanha de São Petersburgo antes que ela explodisse a cidade, seguindo para a casa do Finlândia a fim de intimá-lo a juntar-se a mim ou pagar o preço. Com ou sem o apoio dele, deveriam ir libertar o Estônia.

Não pedi que nenhum deles viesse em meu auxílio, a não ser meus próprios soldados, porque estava confiante que ia libertar a Ucrânia e a Bielorrússia, e elas são aliadas boas o bastante. Consegui chegar à nossa tripla fronteira pela hora da alva, e de fato, lá estavam as duas, amarradas costas contra costas, e o idiota do França lançando-lhes cantadas, acariciando os cabelos de uma, roubando um beijo da outra.

Aaah... mas eu lembro até agora da cara dele quando me avistou! Esperava me ver, é verdade, mas não tão cedo e muito menos tão perto. Levantei-o pelos cabelos imundos quando tinha se debruçado para examinar mais detidamente os... atributos superiores da Ucrânia.

– Voceeeê? – ele guinchou, desesperado, embranquecendo como cal no mesmo instante. – Mas o Alemanha não... Maldição! Fui traído! Ataque-o, Pierre!

Lancei-o ao chão com um soco digno de medalha olímpica.

E quanto ao pássaro grasnento que tentou bicar minha mão, agarrei-o e enfiei na minha bolsa pra dar de comida pro meu gato, depois.

– Aiaiai... Escute,Rússia, tudo isso não passa... não passa de um mal entendido! – ele exclamou, desesperado, arrastando-se de costas pra longe de mim, enquanto eu avançava pra ele, depois de ter cortado de um golpe as cordas que prendiam minhas irmãs. – Eu sou simplesmente uma isca, sigo ordens, não fiz por mal! Eu nunca machucaria duas petites femmes tão belas!

Eu não queria ouvir nada. Simplesmente marchava em direção a ele, e posso imaginar o susto que lhe causava, coberto de sangue e com a cara definitivamente sinistra, considerando a dureza que eu sentia por dentro. Já tinha me decidido a castrá-lo.

– Me empreste a faca, Bibi – pedi, em voz baixa.

– Não! O que você vai fazer? Não! Por favor! Decapite-me, mas isso não! – França deu um ataque histérico, quando entendeu minha intenção, e quase que foge. Minhas irmãs tiveram que segurá-lo, enquanto eu me debruçava sobre ele. – S'il vous plaaaaît [8]... – ele choramingou, enquanto eu afiava a faca na bota. – Eu te sigo até o fim do mundo, vou te servir na tua casa, pode ficar com o meu território, mas tenha piedade!...

Sem dar ouvidos, até porque eu já ia ficar com o território dele de qualquer jeito, rasguei-lhe as calças numa primeira investida e já descia a faca mais uma vez quando Ucrânia segurou minha mão.

– Chega de perder tempo com ele, Rus – ela aconselhou. – Ainda temos muito que fazer, precisamos libertar o Polônia e os outros rapazes. Depois você termina isso.

França desmaiou. Amarramo-lo, e depois as duas o acordaram aos pontapés, obrigando-o a levantar-se e seguir na nossa frente. Seguimos imediatamente para a Polônia, em marcha forçada. Ocupados comigo, Alemanha e os outros tinha relaxado a vigilância na casa dele. O mais difícil ali foi convencê-lo a vir conosco; Polônia é um tanto... avesso comigo, por assim dizer. Jura que vai me dominar e que minha capital será Varsóvia um dia. Mas no fim das contas é um eslavo, um parente, não posso deixá-lo nas mãos do Alemanha, sob pena de colocar o Lituânia e o meu oblast de Kaliningrad em alto risco.

Polônia estava fraco, não era de muita ajuda, especialmente porque atira desordenadamente, mas rumou conosco para a casa do Lituânia. A essa altura, o Alemanha já tinha percebido que eu o engabelara e, vendo a viola em cacos, subiu com os italianos para aquartelar-se na Letônia.

Foi um pouco mais difícil resgatar o Lituânia; lutamos por duas semanas sob fogo cerrado, o Alemanha descarregando sobre nós com toda a força. Tivemos baixas enormes, mas por fim conseguimos fechá-los na fronteira com a Letônia, recuperei os meus dedos, e de quebra capturamos o Romano.

Estávamos cansados, verdadeiramente estafados, e todos muito feridos, mas não pararíamos agora. Especialmente porque os ventos nos eram favoráveis: Xexênia e os outros também tinham saído bem sucedidos na sua missão, e agora marchavam, com Finlândia e Estônia, sobre a borda norte do Letônia. Só faltava mesmo o pequenino pra nosso time estar completo. Carregávamos os prisioneiros conosco, sem fechar os olhos um instante sobre eles, pois eram criaturas escorregadias; compreensível, aliás.

Os tiros incansáveis do Alemanha eram a única coisa que nos separava da completa vitória, e os socos que ele dava no Veneziano para que este parasse de abanar a bandeira branca. Ele sabia que a guerra estava perdida, mas queria lutar até o fim. Muito bem, porque eu também queria. Meu ódio por ele subira a níveis inimagináveis. Cochilando, eu sonhava com arrancar aqueles olhos azuis gelados e jogar para os corvos, em fazer cordas novas para a minha balalaica com os intestinos dele, em empalá-lo, ou amarrar o corpo a quatro cavalos, incitando-os em direções diferentes, para que o arrebentassem. Primeiro, porém, eu precisava pegá-lo.

Eles estavam cercados, acampados sob o Gaizinkalns, um monte nas proximidades da cidade de Madona, na Letônia. Eu e meus aliados rodeávamos o monte. Eles atiravam sem parar em qualquer um que se aproximasse, então decidimos simplesmente sitiá-los – ninguém entra ninguém sai, uma hora a fome os tiraria dali. A fome do Alemanha, claro, porque o Itália parecia já ter sido desacordado pela sua.

Teríamos permanecido assim quantos dias fossem necessários, concentrados apenas em abater os aviões que viessem tentar prestar socorro, mas um evento precipitou nosso triunfo.

De repente, os tiros diminuíram sensivelmente. Ele só atirava se chegávamos perto. Nos testes, fui me aproximando mais e mais, sem me importar se, eventualmente, algum projétil me acertava. De repente, ouvi um grito e um pulo no acampamento, e o Itália veio correndo até a beirada, agitando freneticamente a bandeira de paz. Quase imediatamente, Alemanha saltou sobre ele e neutralizou-o, mas dessa vez o Itália parecia estar resistindo.

– Não! Doitsu, pára! Deixa eu balançar minha gmfpdghmf! – Em seguida soou um berro do Alemanha, que parecia ter sido mordido, e o Itália gritou: – Sr. Rússia, eu quero me entregar, me pegue aqui, por favor me arranja um pouco de pasta e vinho! Me solta Doitsu, me deixa ir, fica você se quiser! – vi o cabelinho do Veneziano despontando por sobre as lonas que faziam às vezes de muros do acampamento. "Doitsu" parecia ter atendido o apelo. Isso fez o vinhófilo sentir pena. – Fica aí não, vem comigo! O Sr. Rússia vai ser bonzinho, eu sei que no fundo ele é! – "Coitado", pensei. – Oh, Doitsu, pra quê continuar aqui? Você nem tem mais muni...

– Cale essa boca! – gritou Alemanha, furioso, derrubando e silenciando o amigo. Tarde demais: eu já tinha entendido.

– Atacar – eu disse, simplesmente, sem erguer a voz, e nos lançamos todos simultaneamente sobre as barracas.

Ao mesmo tempo em que o Itália corria para junto do irmão, sendo retido pelo Finlândia, Alemanha atirava suas últimas balas e granadas desesperadamente em mim, jogando em seguida as próprias armas, as panelas e as barracas. Caminhando lentamente em direção a ele, eu as pegava no ar e as partia como se fossem palitos; a sensação de vingança no buraco onde devia estar a minha alma era algo eletrizante.

– Enfim – rosnei, agarrando-o pela gola do uniforme, e arrastando-o para junto dos outros.

– Olá, Rússia – ele disse, com um sorriso gelado. – Nos encontramos novamente.

– Sim, novamente, Alemanha. Novamente você invadiu a minha terra. Já fez as contas? Em menos de cem anos, essa já é a terceira vez.


1 Kaunas. Kovno é o nome em russo.

2 Graças a Deus, graças a Deus!

3 Estônia, em estoniano.

4 Querida

5 Catorze ou quinze guerras, segundo a página de desambiguação da Wikipedia. Algumas são interessantes. wiki/Guerra_Russo-Turca

6 Sangue

7 Rogue a Deus por mim. Estou ficando louco.

8 Por favor. "Petites femmes" é "mulherzinhas". E o começo desse vídeo explica o Pierre: watch?v=szokTY5RXaw