Onmyou Oni

Twist 13 – Backstory of a Trick

Música de entrada: Bonds Kizuna by Antic Café

O sol mal havia se levantado quando Isuzu passara pelos alojamentos, arrastando os três rapazes que haviam se disposto a acompanhá-la em sua caçada ao trickster. Não se pode dizer que ela os acordara, pois com os fatos que tomaram conhecimento, nenhum deles conseguira fechar os olhos para descansar um instante sequer. De certa forma, isto contribuíra para que não levantassem suspeitas, pois após uma derrota como a que tiveram, era compreensível o motivo de uma noite mal dormida.

Mas ainda assim ela não se apiedava daqueles três. Mandou que tomassem café o mais rápido possível para partirem em busca do oni. Era preferível que tivessem partido logo no dia anterior. Porém o resgate foi bem planejado dando uma vantagem de algumas horas para os criminosos fugirem. Apesar disso, eles haviam visto o rosto dos inimigos, isto constituía uma boa vantagem em sua busca. Porém encontrar seis pessoas em uma grande metrópole como São Paulo era coisa quase impossível. Apesar de todos os esforços da rede de inteligência e espionagem da OZ, nada foi encontrado.

Isuzu arrastara os três rapazes por toda a cidade, vasculharam os esconderijos conhecidos, interrogaram diversos informantes, porém ninguém sabia nada. Mesmo com a descrição precisa de três dos inimigos, não conseguiram descobrir coisa alguma. Saitou omitira detalhes em sua descrição, alegando estar muito escuro para definir maiores detalhes. Obviamente o fato foi confirmado pelos outros quatro rapazes. Isto também era parte do plano de Shinsei. Conhecia seus ex-companheiros o suficiente para se assegurar de como agir para obter os resultados desejados. Este foi o motivo pelo qual eles foram levados ao salão subterrâneo após serem nocauteados.

As últimas esperanças de Isuzu em encontrar o trickster ainda naquele dia desapareceram próximo à meia noite. Um breve reluzir de esperança surgiu quando eles começaram a sentir a presença de alguns poucos grupos de onis pela cidade. Porém, estranhamente, muitos e muitos grupos de onis surgiam e desapareciam rapidamente por toda a cidade, apenas levando-os para becos sem saída de tal forma que no auge de sua irritação, Isuzu teve que ser arrastada de volta para o quartel general. Os outros líderes compreenderam a situação e decidiram ser necessário postergar as buscas para outra ocasião e os rapazes estavam dispensados até segunda ordem.

Parecia uma obra divina, pois isto os deixava livres para encontrarem Shinsei no dia seguinte no concerto. Eram coincidências demais, certamente havia alguém por trás daquelas aparições repentinas. Mas isto não lhes interessava agora, poderiam obter algum esclarecimento se encontrassem Shinsei. Kyoshiro os lembrara então que o companheiro demonstrou que possuía muita habilidade em manipular os eventos da maneira que desejava e a ida deles ao teatro poderia ser parte do plano. Como ele havia dito em seu último encontro, eles foram mantidos vivos para que pudessem informar à OZ sobre a existência de uma organização agindo nas sombras para atrapalhá-los. Portanto, uma vez que eles já cumpriram o papel, qual a garantia de que em um futuro encontro, o resultado fosse tanto mais trágico para eles?

Hideki e Saitou, no entanto estavam decididos a ir, sabiam que era arriscado, mas sentiam que era necessário. Kojirou por outro lado se sentia persuadido a buscar informações por outros meios. Eiji, diferente de seu irmão tinha a opinião de que se fossem em grupo teriam mais chances, mas Kyoshiro lembrou que mesmo em grupo, eles haviam sido derrotados não havia muito tempo. Saitou lembrou que apesar de estarem em grupo, eles agiram independentemente, ou melhor, foram separados. Enquanto discutiam se deveriam ou não ir, Blue Moon surgira repentinamente atrás deles, soltando uma expressão de surpresa ao ver o panfleto jogado na mesa à frente deles.

- Eu não sabia que vocês se interessavam por concertos! Essa garota é particularmente muito boa, dizem que sua música é divina e penetra até o fundo da alma de seus ouvintes.

- Você a conhece? – indaga Saitou virando-se para Blue.

- Se eu conheço? Minha namorada é do ramo da música, ela que me apresentou. Elas se conhecem, mas não chegam a ser amigas.

- Então esta violinista é famosa?

- Se é famosa? Eu espero que vocês tenham reservado seus ingressos, pois duvido que consigam hoje. Mesmo sendo da OZ, a dificuldade de conseguir é enorme. – Blue observa a expressão de preocupação que crescia na face de seus colegas e termina. – Mas eu acho que a Fumie consegue ingressos pra vocês também.

Após agradecerem e discutirem como iriam, Blue Moon se despede dos amigos para ver com sua namorada se realmente era possível. Querendo ou não, agora os cinco rapazes iriam comparecer ao concerto. Felizmente, logo receberam a notícia de que todos poderiam entrar sem problemas, Fumie entrara em contato com a artista que disse que bastava estarem em sua companhia que ela deixaria de sobreaviso para liberarem a passagem.

O grupo se reunira no portão da frente do quartel general cuja fachada era uma partição menor do ministério da justiça. Desagradável surpresa foi encontrarem Ginnosuke quando partiam. Mal haviam atravessado a porta e lá estava ele, como se os esperasse. Saitou deu uma desculpa qualquer sobre precisarem espairecer por causa dos acontecimentos recentes e Blue Moon acrescentou que a música servia também para reanimar os espíritos, para isto, não havia nada mais indicado do que ir a um concerto, em especial da artista que iria se apresentar naquela noite. Gin simplesmente dera alguns avisos sobre artistas de espiritualidade elevada atraírem onis e entrara no prédio.

Logo estavam à porta do teatro, não havia necessidade de trajes especiais, por isso estavam todos vestidos casualmente. Não houve problemas para que entrassem, Fumie sequer necessitou mostrar seus documentos e logo foram indicados assentos reservados em uma área especial, onde podiam observar todo o grande salão do teatro.

- E então galera, quantos concertos vocês já assistiram? – pergunta Blue Moon tentando puxar assunto.

Eles responderam que já haviam assistido shows de bandas famosas, porém era a primeira vez em se tratando de um artista solo. Fumie soltou uma sonora risada ao ouvir esta afirmação e disse que na realidade, não havia nada de diferente em relação à apresentação, porém que a artista era certamente um ponto fora do comum em se tratando de músicos. Não se tratava de menosprezar os shows comerciais que surgiam cada vez mais pelo mundo afora, mas que havia realmente algo no violino que estaria sendo tocado dentro de instantes que realmente penetrava fundo no coração das pessoas. Havia boatos de que até mesmo um suicida no auge de seu desespero se reanimava e recuperava o apego à vida apenas de ouvir um acorde tocado por ela.

- A música dela não possui letra, mas é muito fácil entender que a música dela é composta com a mensagem de prezar a vida e respeitar o próximo. – complementa Fumie. – Todos os relatos de pessoas que se dizem terem sido salvas por ela são unânimes neste ponto. Todos dizem que, ao ouvir a melodia, uma enorme esperança e vontade de viver surgem no coração e há até um assassino que diz ter se entregado após ter ouvido por acaso ela tocar na rua. Os relatos contam que ao vê-la ali, se apresentando sem pedir nada em troca, com uma melodia belíssima que penetrou no fundo de sua alma através de seus ouvidos, aquele homicida, que se considerava livre de emoções e qualquer arrependimento, sentiu o pesar por todas as vidas que tirou, caiu de joelhos ali mesmo e começou a pedir perdão. Os demais transeuntes se assustaram com a forte reação do homem e começaram a acudi-lo, porém ele afastou a todos e afirmou ser um assassino perigoso e que precisavam pô-lo na cadeia o mais rápido possível. Enquanto isso, ela não parou um instante sequer de tocar até o fim de sua canção. Quando acabou, a polícia já estava no local, prestes a levá-lo, quando a violinista pede que esperem um instante para dar uma palavra ao condenado. Ele se volta para ela e a cena de um musculoso homem de quase dois metros, se prostrando ante a uma garota de pouco menos de 1,70m foi impressionante. Após um instante para que o brutamontes recuperasse o fôlego e tornasse fitá-la, agora de baixo para cima, a musicista lhe diz que se ele havia se arrependido e realmente desejasse expiar seus crimes, que ele não deveria buscar a morte ou a violência, mas sim que após cumprir a pena que se esforçasse ao máximo para salvar as pessoas e que se sentisse compelido a praticar novos crimes que ele poderia procurá-la novamente quando desejasse. – Fumie faz uma breve pausa para observar a incredulidade estampada no rosto de seus ouvintes e então continua - Não preciso nem dizer que muitas das pessoas que assistiam à cena assustados caíram em lágrimas, inclusive os oficiais da justiça que levaram o homem quase arrastado, mas não porque ele se opusesse à prisão, mas sim por ele não conseguir se mover de tanta emoção ao ouvir tais palavras.

- Essa garota deve ser uma santa, ou algo do gênero. Essa é a única explicação pra tais atitudes.

- É bem como você diz. Por outro lado, ela também possui um forte senso de justiça, pois ela não se mantém passiva perante qualquer coisa que julgue errada. Algumas das pessoas que trabalharam com ela, dizem que às vezes é até preocupante a maneira como ela se põe em risco para impedir as pessoas de fazerem coisas erradas.

Eles continuaram divagando sobre a natureza da violinista até que as luzes diminuíssem e a cortina se abrisse. Um apresentador anuncia o inicio do show e se retira do palco, onde apenas uma luz ilumina uma tela branca. Logo a enorme silhueta de uma moça surge. Ela segura o violino em uma mão e o arco na outra. Logo nos primeiros acordes, todos entendem as palavras de Fumie. Aquele som parecia vibrar na alma deles. Eles conseguiam perceber o ki deles abrandando e se tornando menos agressivo. Eles se entreolham, mas não dizem nada, sabiam o que se passava na mente um do outro. A música realmente fazia com que todos tivessem em mente as mesmas coisas. Porém, o olhar de todos pára em Hideki que observava atônito a violinista. Sua expressão era um misto de terror, surpresa e incompreensão. Ninguém consegue dizer uma palavra, assustados pela forte expressão estampada no rosto do amigo, eles apenas olham-no enquanto este mantém o olhar fixo na garota que bailava no palco.

Ao recobrar os sentidos, Hideki rapidamente pega o panfleto e começa a procurar o nome da artista. Linda Sunshine era o nome dela, mas Hideki não tinha dúvidas. Aquela garota que agora estava a tocar a penetrante melodia era ninguém menos que Badb. O penteado, o porte físico, até mesmo os movimentos lembravam-no da batalha feroz que teve com a deusa. Ele não pronunciara uma palavra sequer, mas isto explicaria a presença de Shinsei naquele teatro. Rapidamente lembrou de seu objetivo e começou a procurar no público. Porém, um grito de surpresa ao seu lado, fez com que por um instante cessasse sua procura. Fumie apontava para a lateral do palco, onde entrava um rapaz, oriental, de cabelos pretos, divididos na franja não simetricamente. Ele tinha quase a mesma estatura da violinista e carregava um contrabaixo que começa a tocar após uma rápida pausa na melodia do violino. Blue Moon e Fumie apenas assistiam ao show sem entender como Shinsei fora parar lá. Porém os outros cinco jovens ali presentes entenderam o que Hideki havia visto que o impressionava tanto e a relação que havia entre os dois que agora faziam o show.

O casal de namorados tremia pela comoção, não sabiam dizer o que sentiam, mas certamente a aparição do antigo companheiro, após cinco anos era algo notável. Uma pequena pausa na apresentação para alguns ajustes técnicos se iniciava quando o grupo se levantou rapidamente para se dirigir ao palco. Alguns seguranças tentaram barrá-los, mas a credencial de oficiais do governo os pois de lado. E logo estavam todos na parte de trás do palco. Tanto Linda quanto Shinsei não se encontravam lá. Por mais que perguntassem, as pessoas que trabalhavam ali disseram vê-los passando, mas ninguém sabia para onde. Não havia camarins para eles. Tudo que precisavam para a produção estava ali. Eles se separaram para procurar, mas nada encontram. Quando o show recomeça, ainda estavam ali agrupados, pois para entrarem no palco, teriam que passar por eles. Infelizmente, uma porta se abriu no chão do palco e Linda surge de dentro, pulando e voando no ar enquanto toca seu violino e, ao pousar, Shinsei a pega. Assim tem inicio a segunda parte da apresentação. Novamente o rapaz conseguira antever as ações deles e driblá-los elegantemente.

A apresentação continua, mas ele visivelmente direcionara de soslaio olhares irônicos a todos eles que se mantinham de pé, sem reação, como se dissesse "vamos, se querem me pegar, invadam o palco e exponham o nome da OZ ao mundo". O tempo passa, e finalmente a última música do repertório planejado estava sendo tocada. Porém, para a surpresa de todos, ao invés de terminarem de modo convencional, após o término da canção, ambos músicos se unem e começam a bailar pelo palco entoando a melodia de saída e uma plataforma os suspende até o balcão reservado onde estavam sentados os sete funcionários da OZ e, lá de cima, agradecem ao público e desaparecem.

Por muitos minutos, nenhum deles consegue sequer se mover. Completamente atordoados pela sagacidade com que Shinsei escapara-lhes, eles apenas se olhavam. Quando de trás deles, uma voz conhecida chama a atenção.

- Foram completamente deixados para trás de novo, não é? – diz Sakuya que ajudava a arrumar as coisas de Linda e Shinsei.

Sakuya estava acompanhada de Tiffany Suzuki, umas das donas do 13th Cat Café. Esta olha para os conhecidos cliente e cumprimenta-os com uma mesura. Ela avisa Sakuya que está tudo pronto e irá aguardá-la nos fundos do teatro. Saitou, Hideki e Kyoshiro olham para a garota que lhes informara onde Shinsei estaria com desconfiança de que talvez ela soubesse de tudo. Ela olha para eles com um sorriso irônico, mas nada fala até que Blue Moon, Fumie, Eiji e Kojirou chegam, pois estes aguardavam o fim do espetáculo do lado oposto do palco, a fim de impedir que Shinsei escapasse-lhes.

- Então, parece que o Shinsei passou a perna em todos vocês, não é? Mais uma vez ele simplesmente demonstrou que está a par de suas ações e que pode controlá-los livremente.

- E você sabia de tudo, não é, Sakuya? – retruca Saitou, com os nervos a flor da pele, mas sua fala continua calma e controlada.

- Eu sabia que Shinsei havia me pedido que lhes informasse da apresentação e que, mesmo assim, ele não iria falar-lhes uma palavra tudo que fiz foi seguir as instruções que me foram dadas.

- Isso significa que você realmente está do lado dele? – pergunta Kyoshiro.

- E vocês tinham alguma dúvida disso? Eu vou lhes avisar que Shinsei não chega a ser tão forte quanto eu em termos de poder. Mas o treinamento pelo qual ele passou nestes últimos quatro anos o tornou, certamente, um oponente mais difícil de lidar do que eu. Não digo que ele não seja poderoso, ele é. Mas o que o torna temível no campo de batalha é essa capacidade de antever todos os movimentos que ocorrerão e manipulá-los a seu favor. Além disso, ele adquiriu uma extraordinária habilidade em fisiognomia e consegue deduzir muito sobre uma pessoa através de uma simples olhada na aparência da pessoa.

- Nada disso nos importa no momento. Tudo que desejamos saber é o que ele planeja fazer! – diz Saitou impaciente.

- Isto não é segredo nenhum. Aliás, vocês sabem muito bem qual era o objetivo dele desde o princípio. Isso é algo que não irá mudar nunca nele. E é isso que faz com que as pessoas sintam-se atraídas por ele e dêem todo o apoio a sua causa.

- Então é por causa desse objetivo dele que vocês seguem suas ordens? O que vocês farão se ele na verdade for mais um charlatão como muitos que existem por aí?

- Se fosse apenas pelo objetivo que ele tanto fala, ninguém iria segui-lo. Mas a determinação que ele tem e a integridade de caráter que ele demonstra, não deixam dúvidas de que ele é capaz disso. Mas ele mesmo afirma que sozinho ninguém é capaz de realizar um grande feito. Mas por outro lado, a determinação de uma única pessoa é capaz de causar uma grande comoção e fazer com que outros se levantem por uma causa correta e justa.

- Não sei se podemos afirmar que ele continua o mesmo. O Shinsei que eu conheço jamais abandonaria Anako deixando-a, mesmo depois de morta.

- O mesmo de cinco anos atrás ele não é mesmo. Com certeza ele evoluiu muito como pessoa neste tempo. Seu treinamento não se deu simplesmente em fortalecê-lo infinitamente. Ele passou foi moldado das profundezas de sua alma, ensinaram-lhe diferentes culturas, filosofias, religiões. Ele viajou por ambientes de absoluta paz e segurança, assim como teve que sobreviver a cenários de constante guerra. Foram-lhe apresentadas pessoas e mais pessoas até que ele finalmente compreendesse o ponto primordial. Eu não sou capaz de dizer o que se passou ou se passa naquela mente brilhante. Tudo que sei é que se eu seguí-lo, estarei ajudando a criar um mundo melhor.

- Como você pode seguir cegamente as ordens de uma única pessoa? Isso é fanatismo. Por acaso ele é algum deus? – pergunta Saitou demonstrando cada vez mais sua irritação.

- Pelo contrário, ele é apenas uma pessoa comum. Tudo que ele faz é plenamente justificado e os resultados se apresentam concretamente. Ele não é nenhum messias do novo mundo, nem um deus. Todas suas ações são realizadas por pessoas e em para as pessoas. Mas se você quer mesmo falar sobre fanatismo, eu lhe pergunto. Vocês jamais se perguntaram se o que a OZ faz é realmente correto? Destruir todos os onis, indiscriminadamente, porque alguns deles cometem atrocidades? Quantas atrocidades as pessoas não fizeram no curso de nossa história? Algumas nem bem justificadas são! Mas nem por isso a humanidade deve ser extinta. Pois na mesma proporção que existem pessoas dedicadas a destruir tudo, existem aquelas que agem em benefício não do próximo, mas sim de todos. Se desejarem discutir ainda mais, podem vir, sabem onde eu trabalho, se quiserem atentar contra o nosso estabelecimento, fique sabendo que todas as pessoas que ali trabalham são fiéis ao Shinsei. E nenhuma delas foi dogmatizada como vocês que recebem ordens indiscriminadamente, muito pelo contrário! Cada um é livre para pensar da maneira que quiser, alguns questionaram-no, pois salvar onis a principio parece absurdo. Porém a verdade que ele nos mostrou claramente não deixou dúvidas. Mas não cabe a mim dizer, se quiserem saber, você precisam perguntar ao próprio. Isso se puderem pegá-lo.

Ao terminar seu longo e efusivo discurso, Sakuya vira as costas para o grupo e deixa-os ali, sem reação. As palavras dela ecoavam na mente dos sete jovens, mas principalmente em Saitou. Afinal, o que havia de errado no trabalho que a OZ realizava? Os demônios não eram a fonte de todo o mal? Corrompiam a mente das pessoas, obrigando-as a atuar contra suas vontades por puro prazer. Ou, quando achavam necessário, participavam ativamente de planos maléficos para destruir a raça humana. Estas questões deixaram a todos inquietos por muitos dias. Eles continuaram em suas tentativas de recapturar o trickster, porém sempre falhavam. Muitas vezes acreditavam estar finalmente na pista certa, mas aparentemente uma força maior os desviava e impedia-os de concretizarem seus objetivos. Isso se sucedeu não somente para a captura do fugitivo, mas recentemente, nenhuma missão da OZ era bem sucedida. Diversas ocasiões, os onis eram auxiliados por misteriosos agentes e conseguiam escapar. No quartel general, os líderes se mostravam cada vez mais impacientes com as consecutivas falhas. Colocaram todos em um rigoroso treinamento e nenhum dos funcionários deixou de passar por uma reeducação. O objetivo, segundo diziam, era revigorar a determinação no espírito deles de exterminar definitivamente os onis da face da Terra.

Tal era a situação da Oni Zlayers nas semanas que se seguiram. Como não há nada de interessante para relatar da parte deles, vamos nos focar no outro extremo desta situação. Afinal, acredito que vocês devem estar curiosos para saber o que se passava com Shinsei.

Bom, vamos retomar de onde o vimos pela última vez. Eles haviam enganado completamente o grupo de Saitou e desapareceram pelo teatro. Ele havia deixado Sakuya e Tiffany de sobreaviso de que nem ele nem Linda iriam retornar ao fundo do palco, e que elas deveriam recolher seus pertences. Primeiramente elas afirmaram que ele estava sendo folgado, mas ele insistira tanto até que elas finalmente concordaram.

Não tem muito segredo em como eles deixaram o prédio. Saíram pela porta da frente, onde tomaram um táxi e desapareceram pela cidade. Linda, como vocês já devem ter entendido é uma oni, mais precisamente a entidade conhecida na mitologia celta como Badb.

Shinsei a conhecera na ocasião do incidente narrado por Fumie, em que a canção da violinista tocara profundamente o coração do assassino. Após presenciar toda a cena, o rapaz abriu caminho dentre a multidão que se aglomerara e trocou algumas palavras com a garota. Rapidamente, tornaram-se amigos. Ambos eram profundos admiradores de arte, não só da música, mas da arte em geral. Linda, ou Badb, conseguia enxergar a nobre alma de Shinsei, certa feita, chegara a comentar e questionara como uma pessoa tão jovem havia atingido um nível espiritual tão elevado. Shinsei riu e desconversou, porém a convivência dos dois tornara-os próximos e Linda cada vez mais compreendia as motivações, os objetivos e o caminho que Shinsei percorrera até chegar àquele ponto. Por outro lado, ele admirava profundamente o espírito acolhedor e benevolente de Linda que tocava a todos ao seu redor através da música.

Shinsei havia procurado-a por causa dos boatos sobre como as melodias entoadas pelo arco que deslizava pelas cordas eram capazes de tocar a alma das pessoas. Ele se interessara, pois invariavelmente os comentários diziam que até mesmo um suicida voltaria atrás em sua decisão de se matar.

Inicialmente eles apenas trocaram algumas mensagens pela internet. Mas em cada apresentação de Linda, Shinsei estava lá. Após algum tempo se correspondendo, o rapaz convida-a para conversarem pessoalmente. Nesta ocasião, Shinsei revela conhecer a identidade dela como Badb. Inicialmente, ela fica espantada e pensa que aquilo pode ser uma cilada da OZ para capturá-la. A violinista conhecia a reputação da organização há algum tempo. Shinsei explica suas motivações, mas não a convence de imediato e Linda passa a observá-lo com cautela. Porém, com o tempo, ela vê que tudo aquilo que ele lhe revelara era verdade. Neste ponto, Shinsei já havia contado toda sua trajetória desde que começou a treinar para ser um membro oficial da OZ, seu teste, suas missões, o incidente com Anako e os cinco anos que se passaram desde então.

O encontro com Linda foi o último feito de Shinsei antes de retornar para casa e iniciar seus planos. Uma vez de volta, o primeiro lugar que visitou foi o 13th Cat's Café. Certa noite, em um horário de pouco movimento, os funcionários se preparavam para encerrar o expediente, quando um rapaz, vestindo trapos, com um forte odor que toma o salão, entra pela porta e cruza o estabelecimento, até sentar-se em uma mesa nos fundos do restaurante. Todos olham para ele espantados. No entanto, sem se intimidar, sentara-se em uma cadeira qualquer e atirara os trapos que usava como cobertor no chão. Enquanto os funcionários cochichavam entre si, Sakuya atravessara o salão e postara na mesa, à frente do rapaz malcheiroso, uma xícara e lhe dissera: "Aqui está, seu capuccino de sempre, senhor. Agradeceríamos se, na próxima ocasião, o senhor pudesse usar a porta dos fundos, pois não desejamos criar uma confusão com um fugitivo da OZ". Todos os demais funcionários olham espantados para Sakuya e para o mendigo. Por fim, Tiffany se lembra e grita o nome do rapaz. Era Shinsei que havia se disfarçado de mendigo para ficar de tocaia e poder entrar quando não houvesse mais ninguém. Reiko, a dona do café se aproxima e bate na mesa para chamar a atenção do rapaz que toma calmamente a bebida que lhe fora servida. Ela pergunta ao rapaz se deveria chamar a OZ. Eles certamente dariam uma recompensa pela captura de um notório fugitivo. O rapaz simplesmente ignora-a e termina sua bebida. Agradece a Sakuya e lhe paga como habitualmente. A dona, no entanto, se irrita e puxa-o pelo braço. Afinal o que ele queria depois de sumir por cinco anos sem dar notícias e reaparecendo de repente daquele jeito? Ele então responde que veio exatamente contar o que têm feito nos últimos cinco anos. O rapaz levanta-se e começa a narrar os fatos desde o momento em que esteve naquele estabelecimento pela última vez, antes de partir para a missão que mudara o seu destino.

Após o término do relato, a maioria fica atônita, afinal Shinsei não apenas vivenciou realidades extremas ao redor do mundo, mas também investigou a fundo a OZ. Obviamente para tanto, ele possuía informantes dentro da organização de extrema confiança. Por outro lado, Reiko pergunta qual o motivo de ele estar ali, contando tudo para eles. Shinsei se levanta e responde: "Eu apenas pensei que esta seria uma forma de me desculpar pela preocupação causada". A dona do café questiona quem ali iria se preocupar com alguém como ele, mas logo ouve Sakuya agradecendo-lhe e em seguida Tiffany, no fim, todos os funcionários ali admitem que estiveram preocupados com ele. No pouco tempo que ele frequentou ali como agente da OZ, ele certamente não foi apenas um cliente, pois invariavelmente causava algum tipo de confusão. Fosse com arruaceiros que surgiam de vez em quando, fosse com caloteiros. As vezes ele ficava horas ali sentado sem abrir a boca, ou pedir coisa alguma e saía da mesma forma. Talvez por isso, todos o conhecessem bem, inclusive sua relação com Anako. Por isso, o relatório de Ginnosuke, que ouviram por terceiros não foi nada convincente. Então, ao ouvir o relato do próprio Shinsei, mesmo depois de cinco anos, foi um grande alivio para todos ali. Após terminada a comoção inicial, Reiko finalmente volta a se pronunciar, dizendo: "Se você começar a frequentar este lugar de novo, vai acabar sendo pego pela OZ. Mas eu sei que você gosta muito do Capuccino da Sakuya, então para não perder um cliente da casa, quando você quiser vir, entre pelos fundos e certifique-se de que nenhum agente da OZ veja você". Do jeito dela, ela estava mostrando que também estava satisfeita com o retorno do rapaz. Porém, assim que terminaram os cumprimentos iniciais, Shinsei toca no assunto que desejava. Ele manda uma mensagem via celular e logo Linda entra no estabelecimento. Feitas as apresentações, Shinsei começa a contar seu plano para acabar com os experimentos da OZ. A princípio, ele relata a natureza das pesquisas realizadas secretamente pela organização, em seguida ele lhes conta a linha de ação que ele planejava usar e finalmente, ele termina apontando o caminho que eles iriam criar para o futuro. Mais uma vez, os funcionários do café ficam atônitos. Afinal, demônios eram demônios, a essência de todo o mal do mundo. Shinsei pede então para que escutassem Linda uma única vez. Todos voltam sua atenção para Linda, esperando algum tipo de discurso. Porém, a garota empunha seu violino e começa a tocar. O efeito da melodia afeta gradativamente os corações das pessoas ali presentes, mas todos, sem exceção se sentem revigorados, como se tivessem passado por uma epifania. Após o término da apresentação, Shinsei pergunta a opinião de todos. "Divino", "é como se meu corpo fosse preenchido de vitalidade", "é uma obra de outro mundo", "tocou meu coração". As opiniões eram expressas de diferentes formas, mas todos concordavam que era algo extraordinário. O rapaz então revela que Linda era uma oni, muito para o espanto geral. Para uma surpresa ainda maior, ele conta tudo que a violinista tem feito para fazer com que as pessoas se sentissem bem e quantas vidas ela pode salvar através da música. Sim, talvez ela fosse uma oni diferente, algo como a ovelha negra entre os onis. Porém, Shinsei revela que muitos artistas, filósofos e cientistas eram na verdade onis também. E, finalmente, ele aponta para Reiko e diz "Não é preciso irmos muito longe para vermos uma oni que é muito querida por todos aqui, não é, Reiko?" Ela fica sem reação a principio, e tenta desconversar, mas o nervosismo e a hesitação inicial não deixaram dúvidas de que Shinsei falava a verdade. A chefe que todos prezavam tanto era também uma oni. Após tantas revelações, Shinsei se levanta e diz para todos irem para suas casas. As informações precisavam ser digeridas ainda e eles precisavam de algum tempo para pensar. Felizmente o dia seguinte era feriado e o café não abriria, portanto eles teriam bastante tempo para isso. Em seguida, antes de se retirar, deixou em cima do balcão, um cartão com seu contato e desapareceu pela noite, como um mendigo. Obviamente Linda não o acompanhou, pois chamariam a atenção de quem os visse, não que houvessem muitas pessoas na rua, pois já passava muito da meia noite quando ele se retirara.

Dois dias depois, passado o feriado, todos os funcionários do café compareceram ao trabalho normalmente. Um certo ar de desconforto pairava, pois todos agora estavam cientes de que Reiko era uma oni. Esta, por sua vez permaneceu o dia todo sentada em um canto, atrás do balcão, balançando na cadeira pra frente e pra trás resmungando coisas como "o que aquele idiota tem na cabeça?" e "mas que ideia imbecil essa". Alguns clientes estranharam, pois o ambiente sempre animado era um dos atrativos daquele lugar. Sakuya fez o que pode para contornar suspeitas quando alguns agentes perguntaram preocupados sobre o clima que pairava no ar.

- Relaxem, foi apenas um breve desentendimento da chefa com a gerente. Logo tudo volta ao normal.

Passara da hora do almoço e o clima continuava tenso. Já passava das três quando Sakuya finalmente se cansou daquela situação. Ela vai até a porta, tranca-a e muda a placa para "fechado". Todos os funcionário observam-na calados, então ela se volta para dentro e começa a gritar.

- E então. O que há com vocês? A Rei-chan ser uma oni é tão assustador assim? Vocês querem fugir daqui? Eu entendo que seja surpreendente, mas o que isso muda?

- S-Sakuya-san, Você não precisa... – tenta intervir Tiffany.

- Você também Tiffany! O que há de errado com você? É você quem mais odeia esse tipo de clima pesado, mas mesmo assim ficou aí calada, como todos os outros!

- Não é bem assim! O que você queria que eu fizesse? Eu não posso simplesmente obrigar todo mundo a se sentir aliviado! Eu não ligo pro fato da chefa ser uma oni, eu conheço ela muito bem e sei que independente disso, ela é minha amiga! Mas eu não posso ler a mente dos outros, eu não sei se todo mundo pensa como eu!

- E daí? E daí se você não sabe o que os outros pensam? Ficar quieto não vai resolver nada!

- Ei, vocês duas! Acalmem-se! – intervém Reiko.

- E você! Você é a chefa aqui, vai deixar a situação continuar assim? Desse jeito não só vamos perder todos os clientes, como a OZ vai acabar desconfiando de alguma coisa!

- Que desconfiem! Aliás, se alguém tem algum problema com o fato de eu ser uma oni, pode ir à OZ fazer uma denúncia, ou pode esperar que eles venham pra falar também! Se eles resolverem fazer qualquer coisa contra o meu estabelecimento, eu ponho eles pra correr!

De um clima depressivo, o ambiente passou para uma tensão absurda em apenas alguns segundos. Ninguém mais conseguia interferir na discussão. Ninguém mais ali presente no momento. Um silêncio tenso pairava, quando da porta dos fundos, entra uma garota de baixa estatura, longos cabelos negros, presos num rabo de cavalo alto, vestindo um colete de lá azul por cima de uma camisa branca de mangas curtas, uma capa de cintura e uma calça azul por dentro da bota de cano médio. Seu nome é Yumi Heiwajima. Ela entra no café com seu habitual bom-humor, dando um cumprimento geral. Yuki Battou que estava mais próxima, diz que a situação ali estava bastante pesada. Yuki é uma das funcionárias do 13th Cat Café. É uma garota de pouco mais de 1,60m, cabelos loiros e longos com uma franja reta, veste o uniforme do estabelecimento, um vestido preto de saia curta sobre uma camisa branca. Todas as funcionárias vestiam esse uniforme, exceto Sakuya, Reiko e Tiffany que eram as chefes por ali. Yuki começa a explicar a situação para Yumi, mas esta diz que não há necessidade, pois Shinsei havia lhe visitado no dia anterior e contado tudo. Ela se adianta e, intervém na discussão de maneira bem calma.

- Ora, ora. Bem que o Shin me avisou que vocês iam estar em pé de guerra hoje.

- Yumi, acho que não é uma boa hora. – diz Reiko, ainda encarando Tiffany e Sakuya.

- Pois eu acho que não tem hora melhor. Bom, pelo menos uma discussão é melhor que o clima que o Fukurou me disse que havia pela manhã. E então? Acho que o Shin realmente devia ter mais calma na maneira com que ele faz as coisas, mas eu acho mesmo que já estava ficando difícil contornar a situação.

- Do que você está falando? Estava tudo muito bem antes daquele idiota aparecer aqui depois de cinco anos e revelar para todo mundo que eu sou uma oni!

- Estava bem? Se estivesse tudo bem, o clima não estaria pesado assim só por ele ter dito isso! – diz Tiffany

- Estava muito bem sim! Milhares de onis vivem na sociedade sem causar problema algum! Enquanto ninguém sabe a coisa sempre vai bem. Mas é só descobrirem pra situação ficar assim. É igual em todos os lugares!

- É lógico! O que você esperava? Você esconde uma coisa dessas de todo mundo e acha que ninguém vai ligar? É mais que obvio que o clima fique tenso! Eu acho que foi muito bom o Shinsei ter revelado isso!

- Já chega disso! – diz Sakuya, dando um soco na mesa ao seu lado, com tanta força que esta afunda no chão. – Eu acho que isso que a Tiffany falou é basicamente como a maioria aqui se sente. Mas o que ninguém pensou é o motivo que leva ela e outros onis por aí a esconder a identidade!

- Do que você está falando Sakuya?

- Não é obvio? O mesmo motivo pelo qual a OZ caça onis. As pessoas da atualidade não estão acostumadas com a ideia de seres fantásticos andando por aí. A sociedade hoje vive pelo que acreditam ser lógico e racional. Em uma situação normal, ninguém acreditaria numa só palavra do Shinsei.

- Mas isso porque os governos trabalham para evitar que as pessoas saibam da existência de onis. – diz Yuki.

- Vocês já pararam para pensar no porquê de esconderem os onis? É muito simples na verdade. É para evitar que as pessoas se desesperem e se acomodem.

- Desesperar e acomodar? Como assim?

- O ser humano é fraco e possui pouca habilidade individual. Se soubessem que existem seres que naturalmente nascem com habilidades extraordinárias, haveriam dois grupos de pessoas. O primeiro iria rejeitar e hostilizar esses seres, pois essas pessoas teriam medo e inveja da facilidade com que outros conseguem as coisas. O segundo iria tentar viver à sombra desses seres, mas não abertamente, por fora essas pessoas iriam fingir fazer parte do primeiro grupo, mas no fundo iria viver dependendo dos onis, sem se esforçar. Na verdade, eu acho que esses dois grupos compõem um só.

- Na verdade, Yuki, haveriam três grupos distintos. – intervém Shinsei, que acabara de abrir a porta dos fundos do café. – Esses dois grupos de que falou e mais um. Mas este terceiro grupo seria uma minoria tão pequena que mal dá para classificar como um grupo distinto. Seriam pessoas que conviveriam pacificamente com os onis. Sem amor e sem ódio. Na verdade é ainda mais difícil chamar de grupo, pois essas pessoas não iriam compor uma unidade, mas sim diversos indivíduos que não ligariam para a presença dos onis. Alguns certamente iriam tentar superar as capacidades dos onis, eu diria que até conseguiriam.

- Você! O que você quer agora? Veio terminar de destruir minha equipe? Qual é o seu objetivo? Por que você revelou que eu sou um oni? Que bem isso faz ao mundo? Hein? Me diga!

Reiko cai de joelhos em prantos na frente de todos. Por alguns instantes, ninguém fala nada. Mas logo o silêncio é quebrado por Yuki.

- E-eu não ligo de você ser uma oni, chefa! Quer dizer, sempre que eu precisei, você me ajudou. Até com assuntos que não têm nada a ver com o trabalho, você sempre me apoiou.

- Bem, isso eu não posso negar. Quando eu tive a idéia de vender os pratos que eu sempre fiz, você não só apoiou a idéia, como construiu esse café. – diz Tiffany.

- E-eu também! Eu estava perdida e tinha acabado de chegar na cidade, mas a chefa me acolheu e me deu um emprego!

Um a um, os funcionários foram se manifestando e Reiko passara a chorar de emoção, por ouvir os sentimentos dos funcionários que considerava com tanto carinho. Depois que cada um expôs o que sentia, todos os funcionários deram um grande abraço grupal na chefa. Com exceção de Shinsei, Yumi e Sakuya que apenas observaram de longe.

- Você devia se juntar a eles. – diz Shinsei para Sakuya.

- Não é do meu feitio. Aliás, antes que eu me esqueça.

Sakuya então dá um soco em Shinsei por ter causado aquela situação. Mas em seguida agradece, pois agora os laços entre aquelas pessoas estava mais forte do que nunca. Por mais que todos estimassem a chefa, sempre pareceu haver uma certa distância entre ela e as demais pessoas dali.

Passada a comoção, Reiko não demorou a por a casa em ordem novamente. Trocaram rapidamente a mesa destruída por Sakuya (que fora posteriormente cobrada de Shinsei) e reabriram o estabelecimento às cinco da tarde. Após o expediente, nesse mesmo dia, Shinsei revelara como estava agindo, libertando os onis que a OZ capturava. Obviamente não agia sozinho, pois seria impossível cuidar da cidade toda sozinho. Então ele pergunta se havia mais alguém disposto a ajudá-lo. A maioria permaneceu hesitante, apenas Sakuya disse prontamente que ajudaria, se ele explicasse melhor toda a situação. Tiffany e Reiko concordaram. Porém, como já estava muito tarde, ele disse que Yuki iria explicar no dia seguinte. Dito e feito, Yuki aparecera no dia seguinte, no período da tarde e explicou como Shinsei vinha libertando os onis que a OZ capturava bem debaixo do nariz dos agentes. Invariavelmente ele tinha que entrar em combate contra os agentes, mas até então nunca teve dificuldade em escapar sem sequer ser reconhecido. Yuki explica também que os onis perigosos são selados para que tenham seus poderes contidos e não possam fazer mais nenhuma maldade. Além disso, eles também trabalham cuidando para que os onis não prejudiquem as pessoas. Logicamente, ainda não são muito eficazes, pois tanto a OZ quanto os onis são muito mais numerosos que o grupo de Shinsei. Mas onde quer que estejam eles realizam o trabalho impecavelmente. Além disso, aos poucos, demônios e pessoas que são ajudados por eles passam a auxiliá-los de alguma maneira. Alguns dão informações, outros ajudam ativamente, mas pouco a pouco a influência tem crescido e mais e mais pessoas e onis são salvas. Após ouvir a breve explicação de Yuki, as três garotas concordam em apoiar a causa de Shinsei. Após concordarem em auxiliá-lo, as garotas foram testadas para que Shinsei estivesse ciente da força de cada uma. Obviamente todos os funcionários do café possuíam habilidades notáveis. Não era raro um oni invadir o estabelecimento no turno da noite. Em geral eles estavam atrás de agentes da OZ, mas quem cuidava de enxotá-los eram os próprios funcionários do estabelecimento.

Tudo isso ocorreu cerca de duas semanas antes do incidente do teatro. Desde então, Shinsei visitara o café algumas vezes, sempre quando não havia muito movimento e sempre que chegava, entrava pelos fundos e ficava em uma sala apenas para os funcionários, ao lado da cozinha, onde passava e recebia algumas informações sobre as ações da OZ e dos onis.

Quanto ao plano do teatro, Shinsei não deixara ninguém ciente além de Linda. Apenas pediu ajuda à Reiko para os bastidores, esta prontamente perguntou para suas funcionárias se alguém se dispunha. Sakuya e Tiffany se dispuseram. Na noite anterior ao concerto, Shinsei pediu à Sakuya que o auxiliasse na libertação de um oni particularmente importante para a OZ, o que significava que a segurança iria estar reforçada. Ela disse que não havia problema algum, mas Shinsei explica melhor a situação e seu plano e Sakuya concorda que era algo bem complicado, mas com a Linda e ela no trabalho, nada era realmente complicado.

No dia seguinte à visita ao 13th Cat na qual Shinsei revelara que Reiko é uma oni, além de visitar Yuki, Shinsei também fora ver seu mestre, Max. Este manteve contato constante com o rapaz. Era ele quem o direcionava, Fazia com que ele encontrasse pessoas e onis por onde quer que passasse. Graças à isso, Shinsei teve contato com profissionais atuantes em todos os campos das artes e ciências e pode compartilhar experiências e conhecimentos. A primeira coisa que Max fez ao vê-lo foi... testar sua força. Foram apenas alguns segundos de combate antes que Keiko nocauteasse ambos. Após recobrarem os sentidos, eles vêem um delicioso jantar na mesa, porém antes que os dois avançassem para a mesa, Keiko os impede. Max então nota que havia pratos a mais na mesa, fazendo com que sua esposa se enfurecesse, como ele poderia se esquecer da chegada dos próprios filhos? Ele estava tão animado com o retorno de Shinsei assim? Ela também estava ansiosa com a chegada do rapaz, mas esquecer os próprios filhos?

Não demora muito para que os filhos de Max cheguem. Eles haviam ligado enquanto os dois ainda estavam inconscientes e Keiko aproveitou o momento de paz para aprontar o jantar. Max tinha dois filhos, Akira e Dokuro. Akira é o rapaz do enorme topete pompadour e Dokuro é a garota que conjura esqueletos. Akira faz menção de cumprimentar o velho conhecido, mas Dokuro o põe de lado e pula em Shinsei, abraçando-o. Após os cumprimentos, os cinco jantam juntos, conversando calorosamente. Após a ceia, Shinsei toma um ar sério e expõe seu plano. Max diz que a idéia é uma loucura, mas que seria um bom aprendizado para o rapaz, mas afirma que não irá ajudá-lo ativamente, sua filha por outro lado diz que depois de tanto tempo, não pretende mais ficar longe de Shinsei. A principio, Akira estava em dúvida se deveria se juntar à Shinsei, mas Max o encoraja, dizendo ser seu dever como irmão mais velho proteger Dokuro.

E com isso, todos os personagens daquela fatídica noite foram introduzidos. Espere, ainda falta o misterioso rapaz de bandana! Seu nome é Ken-ichi Yamamoto, ele conheceu Shinsei enquanto este viajava pelo Japão, cerca de três anos após o incidente na base da OZ. O rapaz é, como Shinsei, descendente de japoneses e estava no Japão à trabalho. Apesar de não conhecer a OZ, desde pequeno se deparou com onis, pois sua percepção espiritual sempre foi aguçada. Mas por isso, era incompreendido tanto por seus colegas de escola como seus pais, que acreditavam que o garoto sofria de distúrbios psicológicos. Como os tratamentos nunca surtiram efeito, passaram a frequentar diversas religiões atrás de respostas. Através disso, o garoto conseguiu obter muito conhecimento sobre divindades de todos os tipos. Quanto mais pesquisava, melhor conseguia compreender a natureza dos seres que apenas ele e ninguém mais à sua volta conseguia enxergar. Com isso, o rapaz foi se tornando convencido de que havia sido escolhido para realizar a comunicação entre os humanos e os divinos. Enquanto haviam alguns desses seres que eram bastante agressivos, especialmente quando percebiam o alto nível espiritual de Ken-ichi, este passou a se dedicar à autodefesa também. Quando conheceu Shinsei, ambos tinham o mesmo alvo, porém objetivos distintos. Ken fora contratado para exorcizar uma estatua de Kannon que aterrorizava um templo budista na região, enquanto Shinsei pretendia averiguar a natureza do demônio que a possuíra. O primeiro encontro dos rapazes foi por mero acaso. Shinsei estava a ler o panfleto sobre deidades budistas do templo, quando Ken-ichi se aproximou, dizendo-lhe para respeitar os seres celestiais, pois estes poderiam se irritar com o desrespeito. Shinsei riu e perguntou se ele era algum tipo de religioso. Ken retrucou que sim, mas que não seguia realmente nenhuma, pois ele era uma pessoa que conversava com deuses e santos de todas as religiões e avisou também que o templo estava amaldiçoado e que seria mais seguro se o rapaz deixasse o local até o dia seguinte. Porém, Shinsei disse que estava interessado em uma certa estatua da deusa Kannon, muito para espanto de seu companheiro. Este insiste para que Shinsei deixasse o trabalho para um profissional do ramo, porém Shinsei diz que apesar da percepção espiritual de Ken ser bastante aguçada, ele próprio era um profissional do ramo muito mais experiente que o próprio. Após alguma discussão, eles decidem que quem conseguisse atingir o objetivo primeiro seria o vencedor. Ambos correm para o salão onde se encontrava a estátua. A principio, nada acontece, mas ao perceber o poder espiritual dos rapazes, o demônio se agita e ataca. Tanto Ken como Shin se esquivam habilmente, este observa que os movimentos de seu companheiro são bastante refinados. Porém, os golpes de Ken se mostram inúteis perante o corpo de pedra da estátua, apesar de seus esforços, ele mal conseguia arranhar aquela dura carapaça. A luta prossegue até que Ken é encurralado e no momento em que ele iria ser atingido, Shinsei utiliza a técnica "Jutaku Shinsei no Fujunbutsu Tsuiho" (técnica da expulsão da impureza do invólucro sagrado) que obriga o espírito que está possuindo a estátua a sair, injetando o ki do usuário no objeto possuído. Pela primeira vez na vida, Ken-ichi vê uma técnica que utiliza ki e fica impressionado. Shinsei facilmente captura o Tsukumogami, um tipo de espírito que, segundo a crença no Japão, possui objetos. Após a derrota, Ken-ichi admite que Shinsei é, sem dúvida, um profissional muito capaz e decide se retirar do ramo, optando por utilizar seus conhecimentos de outra maneira. Porém, Shinsei diz que seria um desperdício e diz para ele ir ao Brasil para se encontrar com Max, para ser treinado devidamente.

Uma vez no Brasil, Ken procura Max, porém, este diz que já está ocupado demais com o Baka Red (apelido que faz Ken rir), mas que lhe indicaria um mestre com bastante tempo livre. Então, Ken é encaminhado a Rei Genkai, outra de suas companheiras do tempo da OZ. Desde então, Ken-ichi tem treinado, conciliando com seu trabalho de exorcista, onde aplica diretamente seus novos conhecimentos. Assim que fica sabendo que Shinsei retornara, se põe a disposição de seu companheiro.

E com isso, resumimos os fatos relevantes para a história até então. Retomando a situação de onde a deixamos, não era só a OZ que estava com problemas. O Trickster que Shinsei havia libertado fugira naquela noite antes que ele pudesse chegar ao local.

Após nocautearem os cinco rapazes, Linda, Sakuya e Ken-ichi haviam partido, pois acreditavam que não havia necessidade de tanta gente para cuidar dos cinco desacordados. Após partirem, Akira acha que já era hora de libertarem o demônio e assim o faz. Porém, assim que consegue sair, o Trickster salta habilmente pelo galpão em que estavam e escapa por uma janela. Akira até tenta impedi-lo, porém o oni utiliza suas habilidades para confundi-lo e realiza tranquilamente sua escapada.

O grande problema é que o Trickster estava realmente se excedendo em suas travessuras, passando a atingir a população da cidade como um todo. Como ninguém conseguia fazer nada, o grau de periculosidade das brincadeiras estava aumentando rapidamente. Tanto o grupo de Isuzu quanto o de Shinsei estavam utilizando todos os recursos para encontrá-lo, porém sem sucesso. Sakuya, Ken e Dokuro interrogavam cada oni que encontravam para obter informações sobre o paradeiro do trickster. Tiffany e Reiko tentavam extrair informações dos clientes, inclusive dos agentes da OZ, sob o pretexto de o demônio estar causando problemas para o estabelecimento e para a clientela e, uma vez que suas habilidades são reconhecidas até mesmo dentro da OZ, não era estranho que elas se irritassem e tentassem capturar o demônio também. Porém nenhum dos lados obtinha progresso em suas buscas. Akira se sentia culpado por tê-lo deixado fugir e era quem mais estava se esforçando para encontrar o travesso demônio. Todas as buscas pareciam inuteis, até que certa noite, um dos onis que frequentavam o 13th Cat comenta com Reiko que possivelmente o Trickster que estavam procurando estava escondido nas instalações do metrô. Ele trabalhava como um dos operários que faziam a manutenção noturna dos trilhos e já havia algum tempo que notava que as coisas pareciam ser sabotadas e danificadas com uma frequência muito acima do normal. Isso explicaria também como o trickster conseguia se mover com tanta facilidade pela cidade. Rapidamente, Reiko passa para Shinsei as informações. Este, por sua vez, pede para que Akira e Ken investiguem as linhas do metrô, Sakuya iria ficar de observação na superfície, Dokuro e Tiffany iriam verificar as estações e Reiko continuaria no café, caso houvesse novidades.

Ao mesmo tempo, alguns membros da equipe de inteligência da OZ relatam para Isuzu que as ações do trickster estavam concentradas nas linhas do metrô. Além disso, o metrô era a única coisa que tinham noticias de ocorrências diárias de danos. Isuzu então junta uma equipe composta por Eiji e Kojirou Yamada, Kelly Chevalier e Fukurou Suzaku para realizarem a busca pelo metrô, enquanto Kenji Seishou deveria observar a cidade do alto e informar se o demônio aparecesse. Leandro, Fumie, Shinji, Yuri Schmidt e John Light deveriam percorrer a cidade em busca do trickster como habitualmente.

Parece que agora o encontro entre os dois grupos é inevitável. Em breve, uma nova batalha ocorrerá tendo o Trickster como objetivo. E este demônio? Estará ele realmente escondido nas linhas do metrô? E ele irá permanecer passivo e alheio à toda essa agitação?

Não perca no próximo capítulo!

Música de encerramento: Black Jack by Janne da Arc.