Capítulo XIII

Assuntos Pendentes

Mary Jane fechou a porta do dormitório das raparigas, com força. Caminhou até à sua cama e deixou-se cair, agarrando uma almofada, onde enterrou o rosto. Queria chorar, mas os seus olhos teimavam em permanecer secos.

Ele é um monstro! Como é que eu me pude apaixonar por aquele imbecil? Porque é que eu não me apaixonei antes pelo Cedric, ou pelo George, ou pelo Lee? Porquê?

Respirou fundo, tentando aplacar a sua raiva. Ergueu o rosto, consciente de que não iria chorar, por mais vontade que tivesse. Atirou a almofada para longe e dirigiu-se à casa-de-banho, onde lavou a cara com água fria.

Observou o seu aspecto ao espelho. Como esperava, tinha um ar enraivecido e descomposto. O seu cabelo estava num rebuliço, todo emaranhado, o que lhe dava um certo ar de louca.

É isso. Eu estou louca! Caso contrário, não estaria a perder o meu tempo com aquele cobarde!

Baixou o olhar para a blusa e, torcendo o nariz, constatou que estava suja de sangue. Voltou para o quarto, enquanto tirava o seu manto. Começou a desabotoar a blusa, para vestir uma lavada.

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Fred entrou na sala comum dos Gryffindor, a correr. Derrubou alguns alunos do primeiro ano, que se preparavam para sair pelo buraco do retrato. Não parou para se desculpar.

Olhou em volta, preocupada e ansiosamente. Não vislumbrava a loira em lado nenhum…

– Fred, o que é que se passa com a MJ? – perguntou Hermione Granger, sentada num dos cadeirões. – Ela foi para o dormitório… Estava com uma cara!

O rapaz não lhe respondeu, limitando-se a avançar em direcção à porta dos dormitórios femininos. Abriu-a e começou a subir as escadas, o mais depressa que podia.

Subitamente, as escadas desapareceram sob os seus pés, dando lugar a uma rampa. Escorregou, acabando por aterrar no chão da sala comum. Levantou-se, ignorando todas as gargalhadas, e olhou em volta, pensando numa maneira de subir.

– Hei, miúdo, empresta-me a tua vassoura! – pediu, virando-se para um rapazinho franzino, de ar assustadiço.

O rapaz, mais por medo do que por vontade de ajudar, entregou-lhe a sua vassoura, tremendo muito.

Fred montou a vassoura e ergueu-se nos ares. Transpôs a porta que dava para a escadaria dos dormitórios das raparigas e começou a subir, acompanhando a rampa.

Parou à porta do dormitório do sexto ano, um pouco ofegante. Sentia o seu coração a martelar horrivelmente contra o seu peito. Abriu a porta e entrou, com a vassoura debaixo do braço.

A loira encontrava-se de costas para ele, no entanto, ao ouvir a porta a ser aberta, virou-se num ápice. Tinha a blusa quase totalmente desabotoada, o que fez com que o rapaz ficasse de boca aberta.

Ela gritou, apressando-se a fechar a blusa.

– O que é que tu estás aqui a fazer? – guinchou, atrapalhadamente.

O rapaz recompôs-se daquela visão inesperada e engoliu em seco, antes de responder, numa voz rouca:

– Nós temos de falar!

Ela vestiu a capa, por cima da blusa aberta, muito corada.

– Não há nada para falar! – retorquiu, firmemente.

– Há, sim! Temos de esclarecer o que se passou! Eu quero explicar-te…

– Ah, agora é que queres esclarecer as coisas? Pois bem, agora é tarde! – gritou ela, com os olhos brilhantes. – Eu desprezo-te, Weasley! Tu limitaste a magoar todos os que te rodeiam, até mesmo os amigos!

– Amigos? Estás a referir-te ao Lee? – bradou ele, numa voz histérica. – Que grande amigo que ele me saiu! A curtir com a miúda de quem eu gosto…

– Tu não percebeste nada, pois não, Weasley? – acusou ela, numa voz indignada. – Não se passa nada entre mim e o Lee! Nós somos só amigos!

– Se é isso que entendes por amigos… Então, também andaste a beijar o Diggory? – replicou ele, vermelho de raiva.

– Não! Mas isso também não te interessa, pois não? Eu não te devo explicações do que faço ou deixo de fazer! Eu posso andar com quem quiser!

Ele embatucou, sem saber o que dizer. Ela aproveitou para dizer tudo o que tinha entalado na garganta, há muito tempo:

– És um imbecil, Weasley! Nunca percebes nada, pois não? O George percebeu, o Lee percebeu, o Cedric também e até o Zabini! Só tu é que não… És assim tão cego? – afirmou, desesperada. – Eu podia andar com quem eu quisesse, mas não. Aqui a burra ficou à espera que fosses tu a dar o primeiro passo! Mas ainda bem que eu não disse nada; assim pude comprovar que tu não vales a pena!

Deitou-lhe um olhar de puro veneno e começou a andar em direcção à saída. Segurou a porta e, olhando para o rapaz, disse:

– Pensavas que eu era um dado adquirido, não era?

E saiu, batendo com a porta atrás de si. Escorregou pela rampa, sem se aperceber de que as escadas tinham desaparecido. Ouviu a porta do dormitório abrir-se e começou a correr, tentando não cair.

Finalmente, chegou à sala comum. Uma multidão de curiosos seguiu-a, com o olhar, mudando, depois, a sua atenção para o rapaz que a perseguia. Ele agarrou-lhe o pulso, impedindo-a de fugir.

– Eu amo-te, MJ! – admitiu, numa voz rouca.

Todos os presentes sustiveram a respiração, surpresos ou horrorizados com aquela declaração.

Ela fechou os olhos, sentindo que deles brotavam abundantes lágrimas. Ao mesmo tempo, teve a certeza de que o seu coração se tinha despedaçado.

Puxou o braço, arrancando-o das mãos do rapaz. Cambaleou em direcção à saída da sala comum, ignorando as fortes tonturas que a abalavam. Entrou na primeira sala de aulas que encontrou e deixou-se cair, chorando compulsivamente.

Sabia que Fred a tinha seguido, mas não se importou. Simplesmente, ignorou a sua presença, concentrada no seu sofrimento.

– MJ? – chamou ele, numa voz assustada.

Fred ajoelhou-se a seu lado. Segurou-lhe o queixo, com uma mão trémula, obrigando-a a olhá-lo nos olhos.

– Eu amo-te… – repetiu ele, num sussurro. – Desculpa não te ter dito mais cedo…

– Pois, e agora? Estás à espera que eu te diga que também te amo e que esqueça tudo o que tu me fizeste passar? – replicou ela, com um esgar de dor. – Eu amo-te, Fred, como nunca amei ninguém! Mas não posso voltar a sofrer, percebes? Acho que o melhor era casar mesmo com o Zabini…

– Como podes dizer uma coisa dessas? – perguntou ele, horrorizado. – Tu não podes fazer isso!

– Posso, Fred, o pior é que posso! – admitiu ela, numa voz fraca. – Mas não é o que eu quero…

Baixou o olhar, com a visão toldada pelas lágrimas.

O rapaz aproximou o seu rosto do dela, respirando pesadamente. Fechou os olhos, um segundo antes de a beijar.

Apanhada de surpresa, a jovem não teve tempo de se esquivar. Sentiu a boca do ruivo de encontro à sua, com uma delicadeza que ela nunca conhecera. Deixou-se puxar para os braços dele, carente de afecto. Enlaçou-lhe o pescoço, sentindo-se trémula.

A língua dele fez menção de entrar na sua boca, mas ela não o impediu. Simplesmente, não era capaz de o fazer. Limitou-se a corresponder, com tanto entusiasmo como ele. Sentiu um agradável arrepio e uma sensação esquisita na barriga.

– Pára. – pediu ela, quebrando o contacto das suas bocas.

Respirava com dificuldade, mas já não chorava.

– Eu gosto de ti; tu gostas de mim. Porquê parar? – perguntou ele, num fio de voz.

Ela impediu-o de encontrar a sua boca, novamente. Fred beijou-lhe, então, a testa, a face, o pescoço…

– Já te pedi para parares! – repetiu ela, numa voz mais forte. – Isto não funciona assim! Tu magoaste-me tanto, Fred!

Relutantemente, ele obedeceu. Afastou-se alguns centímetros, acabando com qualquer contacto físico que ainda pudesse persistir. Ela ressentiu-se um pouco, contudo, não o demonstrou.

– Então, o que há para dizer? – perguntou ele.

Ela olhou-o, num misto de espanto e mágoa. Era assim que ele reagia, depois de ela lhe ter aberto o coração?

– Não sei se valerá a pena falar, mas, mesmo assim, vou dizer-te tudo o que penso. – começou ela, ocultando os seus sentimentos. – É verdade que gosto de ti, há muito tempo. Tu nunca reparaste, pois não? E, depois, quando percebeste que eu poderia andar com outras pessoas, tinhas aqueles estúpidos e infundados ataques de ciúmes!

– Infundados? Eu bem vi como o Diggory olhava para ti! E, depois do que vi hoje, não tens o direito de dizer isso! – ripostou ele, num tom de voz crescente.

– Oh, pelas barbas de Merlim, tu acreditaste mesmo? Aquilo foi só uma farsa para ver se tu abrias os olhos! – quase gritou ela, impaciente. – Se eu soubesse, não tinha concordado em meter-me naquela trapalhada… – acrescentou, num sussurro inaudível.

Fred tinha uma expressão de incredulidade estampada no rosto.

– Estás a falar a sério?

– Claro! Eu não gosto do Lee, nem ele de mim; pelo menos, desse modo. Eu não te disse já que gosto de ti, parvo? – continuou ela, franzindo o sobrolho. – Ainda não acabei. Esperei muito tempo, caladinha e sem dar nas vistas… mas não o deveria ter feito! Tu não só não percebeste as minhas intenções, como ainda foste convidar a Angelina para o baile!

Erguera-se, novamente furiosa.

– Eu sei que fui um idiota! Só que… eu tinha medo. Eu não sabia o que tu sentias por mim. Não queria estragar a nossa amizade! Mas foi isso que acabei por fazer… – disse ele, de cabeça baixa.

– Eu percebo que estivesses com dúvidas, no entanto, a partir desse momento, eu deixei bem claro que estava zangada contigo! Não compreendeste o motivo? – continuou ela, implacável.

Ele não respondeu, limitando-se a engolir em seco.

– Talvez quisesses que eu te implorasse para largares a Angelina?! Se pensaste que eu o iria fazer, enganaste-te redondamente, Weasley. Eu não sou assim!

– Não, isso não é verdade! – replicou ele, levantando-se de um salto. – Eu queria convidar-te para dançar, mas algo me impediu. Não sei o que foi… Tu estavas sozinha, à minha frente, esperando que eu te convidasse… E eu, feito estúpido, fiquei calado! – explodiu ele, esmurrando a parede.

Os seus ombros tremeram ligeira e inexplicavelmente. A jovem sentiu uma grande necessidade de o abraçar, contudo, conteve-se.

– Eu já não aguentava mais o teu desprezo! – gemeu ele, numa voz que ela nunca ouvira. – Tu não sabes o que é ser ignorado pela pessoa que mais amamos… Tu nem te dignavas a olhar para mim!

Por um instante horrível, a loira pensou que ele estava a chorar. No entanto, quando ele se virou para a encarar, tinha os olhos bem secos.

– Eu acreditei que tu andavas com o Lee! Era a explicação que eu precisava para compreender o porquê das tuas atitudes! Agora, sei que me enganei redondamente… mas não posso apagar o que aconteceu. – acrescentou, baixando a voz. – Será que me poderás perdoar?

Ela mirou o tecto, sem saber o que fazer. Por um lado, ainda se sentia muito magoada, mas, por outro, queria que todo aquele pesadelo acabasse…

– Weasley… – começou, em voz fraca.

– Não me trates assim! – gritou ele, desesperado, agarrando-lhe as mãos. – Eu não suporto isso!

Uma lágrima escorreu pela face de Mary Jane, rápida e silenciosa. Encostou as mãos dele ao seu peito. Queria que ele soubesse que o seu coração batia a uma velocidade alarmante… e que tinha sido ele que o fizera entrar naquele ritmo desenfreado.

– Fred…

– Eu quis dizer-te tudo, na noite do baile. Eu segui-te, mas não tive coragem de o fazer à frente da Delacour. – confessou ele, olhando para o chão.

Aquela última revelação amoleceu-lhe o coração e destruiu toda a sua determinação. Sem pensar duas vezes, precipitou-se para a frente e beijou-o, terna e longamente.

Quando o beijo findou, Fred lançou-lhe um olhar suplicante.

– Isso quer dizer que me perdoas?

Ela ergueu uma sobrancelha, divertida com a sua expressão.

– Eu já estou farta de estar zangada contigo, Fred. Não aguento nem mais um minuto… por isso, sim, estás perdoado.

Ele abriu um sorriso que irradiava felicidade, o primeiro que ela lhe via, desde há muitos dias. Agarrou-a pela cintura e começou a rodar com ela, pela sala, rindo.

Pararam de rodar, continuando a sorrir. Beijaram-se, novamente, desta feita com intensidade.

Fred rompeu o beijo, de repente. Olhou para ela, franzindo o sobrolho, antes de inquirir:

– Tu não estavas mesmo a pensar em casar com o Zabini, pois não?

Ela gargalhou e abanou a cabeça num gesto negativo.

– Ainda bem. Caso contrário, ficarias viúva muito cedo. – disse ele, tentando parecer ameaçador.

Ela corou, sem conseguir evitá-lo. Ele riu-se do seu súbito embaraço e afundou o seu rosto no dela. Sussurrou-lhe ao ouvido, entre dois beijos:

– Hum, queres ser a minha namorada?

Ela ficou deliciada com aquela atitude romântica e, prontamente, esqueceu tudo o que, anteriormente, os tinha separado.

– Claro.

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Na manhã seguinte, os alunos de Gryffindor mais madrugadores depararam-se com uma cena inesperada: duas pessoas dormiam num dos sofás, tão entrelaçadas que não conseguiram identificá-las.

Mary Jane abriu os olhos, ainda ensonada. Demorou alguns segundos até se aperceber de que estava na sala comum. Recordou, então, a sua reconciliação com o ruivo, os seus beijos, os carinhos trocados, …

Abanou-o, ao de leve, mas ele não reagiu. Depositou-lhe um beijo suave, nos lábios, tentando acordá-lo. De repente, sentiu que Fred a agarrava pela cintura e correspondia ao seu beijo.

– Bom dia, dorminhoco. – sussurrou ela, erguendo-se do sofá. – Deixámo-nos dormir aqui.

Pela cabeça de Fred, passaram recordações da noite anterior. Viu-se a pegar na namorada ao colo e a trazê-la para a sala comum, onde se sentaram no mesmo sofá, de mãos dadas, mas sem dizer nada. Tudo o que era necessário dizer já fora dito.

– Pois foi. – concordou ele, espreguiçando-se.

Ela olhou em volta, surpreendida por não ter ouvido todos os alunos que se encontravam na sala comum. Corou violentamente.

Fred levantou-se e, notando que estavam a ser observados, agarrou-a pela cintura e beijou-a, em frente de todos os Gryffindors.

– Agora, já sabem todos. Não precisas de ficar envergonhada. – murmurou ele, ternamente.

Ela sorriu-lhe, num misto de embaraço e felicidade.

Nesse instante, dois rapazes desceram do dormitório masculino, aparentando desorientação e confusão. Um deles tinha cabelo ruivo e o outro era de pele escura.

– Hum, sabes que ainda tens um assunto para resolver, não sabes? – perguntou ela, calmamente, mirando George e Lee.

– Sim.

Fred avançou na direcção do irmão e do amigo, com uma expressão muito séria. Mary Jane seguiu-o, um pouco à distância, sabendo que não se deveria intrometer naquele assunto. Sentia-se uma certa tensão, no grupo.

– Lee… eu devo-te um pedido de desculpas. – admitiu o ruivo, um pouco atrapalhado. – Eu não devia ter-te insultado e, muito menos, agredido.

O negro deitou uma olhadela de viés à loira e, ao ver que ela anuía, abriu um sorriso, antes de declarar:

– Esquece isso! Eu sei que sou um óptimo actor; qualquer um acreditaria…

Os dois rapazes abraçaram-se, perante os olhares apreciadores de George e Mary Jane. Estes juntaram-se e, com apenas um olhar, ela transmitiu-lhe uma ideia bastante completa do que acontecera.

– Ah, mas devo avisar-te que, lá por seres meu amigo, não podes andar por aí a beijar a minha namorada! – comunicou Fred, sempre a sorrir.

– Namorada? Eu ouvi bem? – duvidou Lee, com um esgar de dúvida. – Ena, parabéns, pá! Afinal, aqueles dentes partidos não foram em vão!

Riram-se todos, como nos velhos tempos.

Finalmente, está tudo a voltar ao normal, pensou a loira, feliz na sua ingenuidade.

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Nota da Autora: Espero que tenham gostado deste novo capítulo! Deixem as vossas opiniões num comentário: é essencial para mim saber o que pensam!

Quero, também, agradecer os reviews que me têm mandado (Lyra, Kyfas, Nitah, Rafaela…).

Hum, devo avisar que, a partir de agora, as actualizações não serão tão rápidas como dantes, uma vez que as aulas estão prestes a começar.

Beijinhos.