Nota da autora: Hora de checar o Toby novamente:
Capítulo 14: Portas
Toby progrediu bastante desde que foi separado de seus amigos. Ele amarrou a outra ponta da corda em sua pequena cintura para não se perder. Até agora, isso o estava ajudando muito a não dar voltas, mas o Labirinto era maior do que pensava. A bobina da corda estava diminuindo rapidamente em suas mãos e ele não sabia quanto tempo mais ela o ajudaria. Eventualmente, ele teria que abandonar a corda e continuar sem ela, o que o deixava assustado de fazer sem seus amigos para acudi-lo.
Num certo ponto, ele achou numa pedra uma flecha desenhada com o que parecia ser giz vermelho. Ajoelhou-se para ver melhor e percebeu que parecia mais com o negócio que Sarah punha nos lábios quando queria ficar bonita. Não que ela não seja bonita, mas por alguma razão ela acha que precisa ficar bonita. É aquele tubo com uma coisa que ela põe quando vai sair para um encontro e quer que o garoto note seus lábios por alguma razão. Não sei por que ela faz isso; seus olhos são bem mais bonitos que seus lábios, e quem se importa com lábios de qualquer maneira? Você os usa para falar. Talvez os garotos que saem com ela precisem ler os lábios para saber o que ela está falando? Mas isso é bobo. Bem, o que quer que essa coisa vermelha seja, parece com a coisa vermelha que a Sarah usa. Me pergunto de onde veio. Será que foi da última vez que a Sarah esteve aqui? Mas por que ela estava com a coisa de lábio com ela? Ela não tinha uma corda, como eu? Toby ficou parado por um momento, pensando sobre o batom na pedra. Talvez ela não soubesse como usar uma corda. Talvez tudo que ela tinha era o negócio de lábio e estava usando isso para mostrar o caminho. Mas por que não vejo mais setas? Parece que esta é a única.
Toby pensou por um momento, e então olhou para ambos os lados: o que a flecha apontava e o oposto. A flecha parecia apontar para um beco sem saída. Ela não poderia ter ido por este lado, poderia? Se essa é a flecha dela mesmo e não algum truque do Rei dos Duendes para eu ir pelo caminho errado. O outro caminho parecia mais promissor, então ele foi àquela direção. Mal deu dois passos, no entanto, quando ouviu alguém chamá-lo,
"Perdido, não é?"
Ele virou-se. Onde ele achava ser um beco sem saída um momento atrás, havia agora duas portas de madeira ornamentadas, cada uma guardada por um par de estranhas criaturas. Cada par segurava um escudo – um azul com um retângulo curvado, e outro vermelho com um diamante – a parte mais engraçada para Toby é queuma criatura de cada par estava de ponta cabeç criaturas estavam de pé atrás dos escudos, mas embaixo de cada escudo havia uma cabeça. Toby podia ver os pés correspondentes próximos ao topo do escudo, e quatro pares de mãos seguravam os lados do escudo firmemente. Era uma das coisas mais estranhas que Toby já viu; inconscientemente deu uns passos para frente para ver melhor.
"Creio que perceberá," disse o Azul #1 (o do topo), "que estava indo na direção de um beco sem saída." Todas as quatro criaturas riram.
"Não, não estava. O caminho seguia reto naquela direção." Toby virou-se para apontar ao corredor o qual estava indo e encontrou pedra. Olhou para baixo e viu que sua corda estava presa entre o que haviam sido os pilares da entrada deste corredor, mas estavam firmemente juntos, como se nunca tivesse uma abertura lá. Toby puxou a corda, mas estava bem presa entre eles. Felizmente, ela não estava cortada, só encravada entre as pedras. Entretanto, Toby percebeu que não havia como voltar atrás.
Como um eco de seus pensamentos, Vermelho #1 explicou, "O único jeito é tentar uma destas portas. Uma delas leva para o castelo no centro do Labirinto, e a outra-"
"Ba, ba, ba bummmmmm!" As outras três criaturas disseram em coro.
"Leva para a morte certa!" Azul #1 concluiu com um floreio adequadamente desagradável.
"OooOOOOooooh," as quatro criaturas murmuraram em pavor.
"Como saberei por qual ir?" chorou Toby. Ele estava mais que um pouco frustrado diante desta reviravolta de acontecimentos. Não estava preparado para isto e, sendo somente um garotinho, não sabia o que fazer.
"Nós não podemos te ajudar," disse Vermelho #2 (a criatura cuja cabeça saía debaixo do escudo vermelho).
"O quê? Então como vou passar?"
"Não sabemos qual é qual, meu garoto," explicou Azul #2.
"Os que estão no topo, porém, eles sabem tudo." Vermelho #2 gesticulou às duas criaturas que estavam acima. Como se esperassem sua deixa, Azul #1 e Vermelho #1 surgiram parecendo apropriadamente inocentes.
"Quem, nós?" Azul #1 disse.
"Não pode perguntar para ambos, contudo. Só pode perguntar para um de nós qual porta é a certa," disse Vermelho #1.
"Mas por quê?" perguntou Toby.
"Bem... são as regras," respondeu Azul #1. "Não fazemos as regras, Jareth faz. Só as seguimos."
"Ok, então é só escolher um de vocês para perguntar, e vai me responder? Parece bem fácil."
"Nós precisamos te avisar, entretanto. Somente um de nós diz a verdade; o outro sempre mente," replicou Vermelho #1.
"São as regras. Ele é o mentiroso," acusou Azul #1.
"Não sou o mentiroso; você é!" Vermelho #1 retorquiu.
"Mentiras! Mentiras! Mentiras!" gritou Azul #1.
As duas criaturas de baixo acharam a teatralidade de seus homólogos muito divertida e estavam rindo alto pelas mãos. Mas Toby achou isso mais confuso ainda. Sentiu-se pequeno e burro. Pela primeira vez desde que veio ao Labirinto, duvidou de si mesmo. Nunca foi bom em charadas e esta era muito complicada para seu cérebro de garotinho digerir.
"Eu...eu...eu não sei qual escolher! Sou só uma criança, como vou saber?"
Os porteiros olharam com simpatia para o garoto, como se compreendessem sua condição.
"Nós nunca entendemos, meu garoto," Vermelho #1 replicou.
"Mas são as regras," Azul #1 disse. "Pergunte algo e a porta se abrirá. Só tome cuidado para escolher a certa!"
"Oooh," gemeu Toby. "Nunca vou conseguir." Sentou-se com as costas na parede e pôs o rosto em suas mãos. Ele ainda era jovem, então a única coisa que pensava em fazer quando estava magoado ou bravo era chorar. Então ele chorou. Nunca vou conseguir ter a Sarah de volta agora! Achei que seria fácil, mas não é! Que belo herói eu sou. Sou muito burro para resolver essa charada. Sarah era mais velha que eu quando veio; aposto que entendeu logo. Mas não consigo! Não sei como! Estou preso aqui no meio do labirinto e não posso sair. Não posso salvar a Sarah. Aposto que ela queria ter um irmão mais esperto. Agora nós dois estamos presos aqui para sempre!
Toby estava tão preocupado em sentir pena de si mesmo, que não ouviu o bater de asas ou o click-click de garras nas pedras. Na verdade, só quando sentiu um forte beliscão em seu braço, percebeu que não estava mais sozinho.
"AI! Isso doeu!" Toby olhou para cima com olhos vermelhos e viu-se encarando os lustrosos olhos pretos de um galo. "Por que você foi fazer isso? Pássaro idiota."
"Desculpe-me. Eu não gosto de ser chamado de idiota, garotinho." E com um alto cocó, o galo inclinou sua cabeça num jeito bem galo e continuou a encarar Toby.
Toby ficou boquiaberto. O que quer que estivesse esperando, não era um galo falante. Em casa, quando ele falava com animais, eles não respondiam. Ele falava com Merlin toda hora porque o cachorro era seu amigo, mas Toby nunca o ouviu falar.
"V-v-você fala?" Toby disse com voz trêmula, ainda boquiaberto, ao galo preto a sua frente.
"Bem, não estou fantasiando, garoto."
"Huh?"
"Esquece."
"Desculpe por ser rude," Toby replicou um pouco mais corajoso. "De onde venho, animais não falam. Principalmente galos."
"Tem algum problema com galos?"
"Não...eu...só...é só que...bem," Toby enrubesceu, constrangido com o quão rude soava. "Eu nunca conheci um galo falante antes."
"Tudo bem. Eu não falo com qualquer um. Não há ninguém inteligente de verdade para conversar por aqui. Ou não percebeu?" O galo levantou sua cabeça na direção das portas e lançou aos guardas um olhar condescendente. Os quatro apenas riram em silêncio.
"Meu nome é Rook," disse o galo. Ele saltou alguns passos mais perto de Toby e curvou sua cabeça, cumprimentando-o.
"Sou Toby."
"Interessante. Então, Toby, o que você acha destas portas que o Rei dos Duendes tão gentilmente pôs em seu caminho?" Tinha mais que um toque de sarcasmo na voz do galo quando mencionou o Rei, mas foi a ênfase levemente maior que ele pôs na palavra "duendes" que fez Toby perguntar-se se Rook desgostava especialmente deles, mais do que do Rei especificamente.
"Eu odeio elas. Não sei resolver a charada. Acho que sou burro."
"Você não é burro; somente jovem. Este tipo de charada geralmente é feita para alguém bem mais velho que você resolver. Escolha a azul e pronto."
"Mas, como você sabe qual é a certa?"
"Digamos que sei meu caminho ao redor do castelo e suas terras," disse Rook.
"Tem certeza? Digo, e se você for um espião do Rei dos Duendes para me levar à morte, me impedindo de salvar minha irmã?"
O galo inclinou sua cabeça novamente e olhou nos olhos de Toby. "Você acha mesmo que o Rei iria mandar um galo falante guiá-lo à sua desgraça? Ele simplesmente te deixaria aqui para ulcerar sobre qual porta seguir. Além do mais, Jareth não te guiaria à morte certa. O Rei é muitas coisas, mas não é um assassino. Confie em mim. Passei muito tempo na sala do trono, então sei muito sobre ele. Có. Bem, bem, vamos logo, Toby. Se quer salvar sua irmã, não pode ficar sentado aqui e chorando o dia inteiro. Escolha a porta azul e vamos indo."
Toby pensou por um instante antes de responder à urgência de Rook. Ele encarou o galo, tentando decidir se era amigo ou inimigo. Ele está certo, no entanto. Mandar um galo falante para me fazer escolher a porta errada é meio estranho, mesmo para um Rei doido. E Rook diz que conhece bem o Rei e que ele não tentaria me matar me mandando para a porta errada. Mas e se o Rook não gosta de mim por alguma razão? Talvez ele seja um galo louco que odeia pessoas e gosta de vê-las sendo mortas. O Rei pode não querer me matar, mas o galo pode! Oh, o que a Sarah faria? Quando seus pensamentos focaram-se na Sarah e em seus precedentes encontros no labirinto, Toby soube o que fazer. Seus companheiros de viagem anteriores eram prova de que Sarah havia confiado em pelo menos alguns dos habitantes do Subterrâneo, o bastante para fazer amizades. Ludo era um pouco assustador quando o encontrara pela primeira vez, mas Sarah ficou amiga dele. Hoggle era desagradável e teimoso, mas também era muito leal. Toby podia ver porque Sarah iria querer ser amiga dele também. Sir Didymus era o favorito de Toby: tão aventureiro e forte e corajoso. Toby soube na hora que ele era um bom amigo. Se a Sarah pode fazer amigos aqui, por que não posso? Ela confiou nos três. Eu só preciso confiar no Rook. Além do mais, Sarah que disse para confiar nos meus instintos e meus instintos me dizem que posso confiar no Rook. Com determinação renovada, Toby levantou-se e foi para as portas.
"Ok, Rook. Então é a azul. Ei, vocês dois, saiam do caminho. Eu escolho a azul."
"Ei," gritou Azul #1. "Isso não está nas regras. Você tem que fazer uma pergunta para um de nós, e não só escolher a porta e passar!"
"Cale-se," retorquiu Vermelho #1. "Eu nunca entendi como isso tudo funciona. Só deixe o garoto passar."
Os guardas moveram-se e Toby entrou pela porta azul até o outro lado. Rook saltou ao seu lado e os dois novos amigos continuaram a jornada juntos.
Do outro lado das portas, depois de pouco tempo a corda de Toby acabou.
"Ah, não!" Toby chorou. Ele olhou para baixo, percebendo que a corda em sua cintura estava esticada. Ele não tinha mais nada de corda e não estava perto do final do labirinto.
"Não se preocupe muito com isso, garoto. Você tem Rook ao seu lado agora. Desamarre a corda e deixe-a para trás."
Toby hesitou. Deixar a corda para trás era como abandonar o único jeito de sair de lá. Apesar de saber que a corda era inútil agora, ele ainda sentia que precisava dela. Ele a trouxe junto para ajudá-lo a solucionar o labirinto, e percebeu quanta fé havia posto na corda para tirá-lo de lá. Era como o herói grego tinha derrotado o labirinto na história, então ele estava contando com ela para ajudá-lo neste labirinto. Suspirou baixo e lentamente desamarrou a corda de sua cintura.
"Acho que terei que continuar sem ela."
"Esse é o espírito, garoto. Agora, vamos indo. Temos um longo caminho para levá-lo ao castelo. As portas não foram os últimos obstáculos na sua aventura, nem de longe," o galo foi um pouco a frente de Toby, virou-se e inclinou sua cabeça, como se esperasse Toby segui-lo. "Vamos logo, não temos o dia inteiro."
Toby seguiu o galo pelo labirinto de cercas vivas intercaladas com estátuas de pedra. O frango parecia saber aonde estava indo, então Toby o seguiu sem hesitar. Já que era naturalmente curioso, Toby aproveitou a oportunidade para perguntar ao galo algumas coisas.
"Então, você disse que ficava muito no castelo. O que fazia lá? Trabalha para o Rei e tal?"
"Não. Como disse antes, eu não servia ao Rei dos Duendes. Quando disse que estava na sala do trono, quis dizer que estava presente lá, não que trabalhava lá. Geralmente eu era só...o entretenimento, por falta de melhor palavra." Toby pareceu confuso. O galo parou e virou-se para olhar Toby. "Falando sem rodeios, os duendes gostavam de me perseguir, atirar pedras em mim e rir às minhas custas. Pode ver por que não sou muito afeiçoado a eles. São criaturas bobas e gostam de fazer traquinices com animais que eles enxergam como animais ignorantes."
"Que maldosos! E você não é ig-no-rante," Toby testou a palavra em sua boca. "Você é esperto! Quer dizer, você fala."
O galo cacarejou zombando, "Os duendes também. A habilidade de falar nem sempre significa que o cérebro tem um alto nível de inteligência. Até trolls falam, mas não quer dizer que conseguem somar dois mais dois, se é que me entende."
Toby não entendia, mas encolheu os ombros prudentemente, e tomou um gole de sua garrafa d'água meio vazia.
"Resumindo, Toby. Os duendes são meio estúpidos. Eles nem sabem que eu falo, e nem vou contar a eles. Duvido que faria alguma diferença de qualquer maneira. Acho que nem o Rei sabe, e se sabe, acha divertido que os duendes provoquem um pássaro bem mais esperto que eles. De qualquer modo, me cansei disso. Ouvi conversas sobre um menino que veio ao labirinto para salvar sua irmã, e decidi que seria bom dar aos duendes o gosto do próprio veneno."
"Então, me ajudando, você está se vingando deles por serem tão maus?"
"De certa maneira. Além do mais, eu gosto de você, garoto. Você tem coragem. Qualquer um com a coragem para desafiar o Jareth e tentar derrotá-lo em seu próprio jogo – especialmente na sua idade – vale a pena conhecer. Tenho que te falar, você é uma criança bem corajosa. A última pessoa que veio ao labirinto era duas vezes mais velha que você. Ela o derrotou, mas foi difícil. Naquela época, era um bebê que o Rei trancou em seu castelo, e ela tinha que salvá-lo antes que fosse transformado num duende. Mas faz muitos anos e vamos pensar no presente. Vamos indo antes que escureça."
Conforme andavam, Toby pensou sobre o que Rook havia dito. Um bebê? Como isso soa familiar? No livro, o Rei dos Duendes tinha um bebê, o irmão da princesa. E a última pessoa aqui foi Sarah? Por que ela viria atrás de um bebê? Que bebê? Confuso novamente com o que não entendia, Toby focou-se no que sabia no momento: ele sabia que podia confiar em Rook. Os duendes eram maus com ele, e ele queria mostrar a eles, ajudando ao Toby. Eu gostaria de me vingar também, se me jogassem pedras e me chutassem toda hora. E não é só isso, ele gosta de mim também, pensou Toby. Ele me acha bem corajoso e valente. Gosto disso.
Ele sentia-se bem em ter alguém que o chamava de corajoso, mesmo sendo um frango falante.
Nota da autora: Isso é tudo por enquanto! Espero que tenham gostado! Depois voltaremos à Sarah. =)
Nota da tradutora:
Traduzido por Mika.
Revisado por Soneca Corp., constantemente à procura da revisão perfeita.
