O chão do cemitério era tão frio quanto as palavras daquele que agora deixava o lugar. Naquele amontoado de pó e epitáfios, não havia lugar para a felicidade. Todo aquele ambiente exalava morte e dor. Era o que ela estava exalando também. Ela e o cemitério eram um só. Eram iguais.

Eram um só. Como ela e ele. Como ele dizia. Como o que fazia.

Um só.

A lápide de Lisa Sheffield foi a única testemunha que nunca poderia contar o que aquela garota fez na sua frente. Mas não, não foi nada surpreendente. Foi até esperado: ela ficou do mesmo jeito que estava. Baixou os olhos, os pensamentos, os desejos e despedaçou-se de dentro para fora.

De dentro para fora. Como uma purificação.

"Acabou... Acabou... É assim que o fim chega? Dessa forma tão...? É assim que se acaba...?" – ela repetia sem parar, lavada em prantos e desesperança. Definitivamente, agora estava por sua conta. – "Não há mais ilusões... Eu não tenho mais pra onde fugir... Acabou..."

O que lhe restava? Enfrentar de cabeça erguida tudo aquilo onde estava envolvida sem seu consentimento? Não. Ela não queria isso.

'Eu não quero mais um amanhã... Quero que acabe...'. Lisa nunca ouviu isso de seu túmulo. Ninguém, nem o cemitério, uma unidade viva, nem o vento, nem os insetos. Ninguém ouviu-a dizer aquilo.

Um pensamento solitário como sua silhueta.

Seven Sisters
Petit Ange

"(...) And all the fears you hold so dear
Will turn to wisper in your ear
And you know what they say might hurt you".
Duvet (BoA).

Décima Quarta Noite: A Cidade Falsa e Verdadeira.

Até então, o único beijo que havia dado em alguém foi... Não, ela nunca fora desses carinhos. Nunca gostou dessas intimidades que prendiam as pessoas. E, na única vez em que tomou a iniciativa, a pessoa em questão estava desacordada. Foi algo 'premeditado', algo que, mesmo não tendo consciência, ela quis. Entretanto, agora era diferente.

No começo, ela quis fugir. Debater-se e correr para bem longe. Enfrentar os habitantes da cidade era mais encorajador do que aquilo.

Mas havia um par de braços prendendo-a, impedindo sua fuga. Sentiu-se totalmente sem reação. Sempre achou que o amor e essas intimidades banais fossem algo designado para os outros, não para si. As pessoas 'saudáveis e normais' mereciam desfrutar dessas besteiras. Ela sempre tinha mais o que fazer. Manteve-se indiferente, aquela foi sua salvação. E agora, no meio daquela chuva e daquele beijo, ela pegou-se desejando que aqueles sentimentos idiotas pudessem ser dela também.

Fechou os olhos lentamente, como que hesitando ao entregar-se àquele momento. Até pouco tempo atrás, achou que fosse morrer tendo apenas no histórico um beijo desesperado. E agora, aquilo caiu por terra. Não havia mais o frio da tempestade nem do medo, aquilo acabara.

Só restou a calmaria nos braços daquele garoto até ele afastar-se.

"Archer..." – ela sussurrou, mas, na verdade, devia ter sussurrado seu próprio nome. Era com ela mesma que estava assustada.

"Ah é, me desculpe... Eu esqueci..." – ele sorriu. E, então, a boca dele desceu até o ouvido da garota. – "Eu te amo, Aileen."

Se fosse possível sentir um calor insuportável debaixo de uma tempestade torrencial, ela só o soube naquele momento.

"Não é uma mentira, é...?" – não conseguiu perguntar outra coisa.

"Claro que não, idiota! Eu falo sério, juro." – abraçou-a de novo, extasiado por sentir de novo algo que achou que não encontraria mais.

"...Mesmo?"

"Sim."

"Obrigada, Archer..." – aninhou-se no ombro molhado do rapaz. – "Eu também... Sempre o amei..." – e corou, como a inexperiente que era, ao dizer-lhe isso.

O oásis veio mais uma vez quando ele beijou-a. Nunca achou que aquilo pudesse ser tão bom. Não, pelo menos, com as narrações risonhas das outras meninas da escola, que ela ouvia casualmente, ou com aqueles filmes românticos e chatos. Mas, agora era sua vez de ser romântica e chata, como aquelas pessoas eram. E, diferente do que sempre imaginou, estava gostando.

Um arrepio inconsciente passou-lhe o corpo quando ele deslizou as mãos por suas costas úmidas. Entreabriu mais os lábios, sem querer, e o corpo rendeu-se. Uma dor aguda, porém, pronunciou-se no seu membro inferior.

"...Ah, espere."

"Hã? O que foi?"

"M-minha perna, eu acho..." – e ela pegou-se envergonhada por encerrar daquele jeito algo pelo qual ela estava, secretamente, esperando.

O garoto tocou em seus cabelos, como quem acha engraçado, e olhou para a perna dela. Lá estava a pior mordida, é claro, aquela que ganhou sabe-se lá de quem nas escadarias daquele mesmo prédio. E ela continuava sangrando.

"É verdade!" – ele ficou num estado de alerta ao ver isso. – "Vamos sair daqui, você precisa cuidar disso, Aileen."

"É, mas... Mas..."

"Nada de 'mas'. Vem cá." – ajoelhou-se.

Aquela mesma pose. Quando eles se conheceram, ela achou que o garoto dos olhos azuis e arma na mão fosse deixá-la sozinha de novo, mas ele apenas ajoelhara-se e virou para oferecer-lhe as costas. Amparo, era isso. E a albina sorriu, não se fazendo de rogada desta vez.

Aceitou o amparo dele, sendo erguida do chão. E, desta vez, ele não tocou na sua bunda. Muito bom.

"Ei, você aprendeu a lição." – ela comentou, rindo das lembranças do fato passado.

"Quê? Ah, claro." – o rapaz também pareceu lembrar. – "É... Depois de ouvir a sua voz chata berrando porcarias, é impossível continuar."

"EI!"

"Ainda vai me estuprar se eu te encher o saco?"

E, diferente do que pensou que ia fazer, ela só abriu um largo sorriso e descansou sua cabeça na dele.

"Vou sim! E anda logo, minha perna está latejando!"

"Dar à vítima a ilusão de que ela manda em alguma coisa é uma tática tão básica e antiga quanto o mundo, sabia?"

"De tarados pervertidos, talvez."

"...Talvez."

"Você não ousaria...!"

"Eu ousaria?"

Um beliscão provou o contrário. E um gemido contido selou o entendimento do presente fato.

"Aie, sua...!"

"Ah é, e eu quero a minha mochila. Ela caiu lá embaixo..." – e a garota fez uma cara de quem nem havia beliscado aquele que estava levando-a em segurança há pouco.

"Tá louca se tá achando que eu vou des..."

Mais um beliscão.

"...Ai, ai, tá bom... Eu vou." – suspiro.

"Obrigada."

XXXxxxXXXxxx

Ao largá-la no apartamento para ir pegar (com a ameaça de coisas muito piores que simples beliscões) a mochila que a garota deixou cair quando também quase caiu com ela, Aileen suspirou. A perna ainda latejava e sangrava, e sinceramente, ela tinha medo de ver o quão ruim estava aquele machucado.

Sem maiores alternativas, ela dirigiu-se até o banheiro. E lá, tirou sua calça. O sangue que começava a coagular-se grudou na mesma, tornando mais difícil e dolorido o processo de arrancá-la. Com um brusco puxão, ela livrou-se da peça incômoda, e sentiu a dor e o sangue escorrer de novo, com ainda mais rapidez agora. Suspirando pesadamente pela falta de sorte, encheu-se de coragem para tentar encarar aquele banho.

Já previa a dor, e quando a água quente tocou-a, ela soube o quanto doía. Permaneceu obstinadamente ali embaixo, mas a água que ia para o ralo era tingida de vermelho-vivo e não levava a sensação de dor extrema. Haviam outras feridas também, mas elas não doíam. Como aprendera por aí: o cérebro só se concentra numa dor mais forte e 'esquece' das outras.

Saindo do banheiro, depois de minutos perdidos até ela lembrar-se onde havia deixado o estojo de Primeiros Socorros, encontrou o garoto de pé perto da porta, examinando o conteúdo da mochila escura dela.

"O que está fazendo?!" – cruzou os braços.

"Checando." – ele respondeu. – "Com muita sorte, seus livros secam e ainda podem ser lidos, mas eu não levo muita fé nisso não... Ah, o ursinho precisa de um sol... E como essa coisa pesa."

"São livros intelectuais. Têm de pesar."

"Sei... Eu mesmo já li a série do 'The Black Tower'. Caso não tenha notado, não tem nada de intelectual nela."

'Como ousa insultar o mestre King?', era o que devia perguntar. Ao invés disso, num engasgo, a questão foi outra. – "Quê?! Quando fez isso?!"

"Ano passado. A biblioteca guarda muito mais do que imagina, garotinha..." – ele sorriu, deixando em cima do sofá as coisas dela. – "Vou tomar banho."

"Hum... Já está limpo..." – cara emburrada.

"Obrigado."

A albina jogou-se no sofá de coloração escura e fechou os olhos. Naqueles momentos de tensão, ela nunca achou que fosse conseguir vestir mais uma vez seu pijama, como estava fazendo agora. Nem que fosse ter outro momento de calmaria, como este que estava tendo.

O importante, porém, é que estava acontecendo. Era disso que precisava saber. Suspirou, lembrando-se repentinamente do pai. Ele estava atrás dela também. Teria levado um tiro? Na hora, nem parou para pensar nele. Mas, agora, a calma trazia os pensamentos mais incômodos.

"...Ei, quando é que dá pra tirar essas coisas, Aileen?" – ouviu a voz do garoto.

Abriu os olhos e encarou-o, exausta por alguma razão. Por mais que a visão dele sem camisa pudesse ser um colírio para ela, não tinha ânimo para demonstrar isso.

"Amanhã, eu acho."

"Sério? Ainda bem. Esses pontos são chatos." – sentou-se perto dela, suspirando.

"Não está com frio?" – chegou a questionar-lhe automaticamente.

"Incrivelmente, não..."

Eles ficaram quietos, mas nenhum deles pensou em nada. Houve apenas aquele silêncio de duas pessoas exaustas demais. Quando se está sozinho, você apenas tem os seus problemas. Mas, de alguma forma, quando dois ou mais se juntam, seus problemas também são compartilhados.

"Ei, Archer... Você atirou no meu pai?"

"O senhor Dawson? Não." – respondeu imediatamente, só então adquirindo o mesmo tom sério que ela. – "Disso eu tenho certeza."

"Como pode...?"

"Eu lembro exatamente do senhor Dawson na sua forma transformada (afinal, de alguma forma, ele tá sempre atrás de você). E, sendo assim, eu sei que ele não estava entre aqueles nos quais atirei."

"Ou seja... Ele caiu?"

"Quando fui pegar sua mochila, Aileen, eles já não estavam mais lá. Essas coisas são mais resistentes do que você pensa." – fez um beicinho inconformado. – "Quebram todos os ossos do corpo e ainda podem andar. Acredite... Eu já tentei outras coisas, antes da espingarda."

"Entendo..." – e sentiu-se definitivamente aliviada.

Sem pensar ou considerar absolutamente nada, ela inclinou a cabeça no ombro dele e deixou-se ficar ali. Sentiu seu braço enlaçá-la delicadamente. Ao menos, um lugar seguro neste mundo.

"Não está com fome?"

"Você tá?"

E riu quando respondeu. – "Tá, eu também não..."

"Acho que essa é a primeira vez que a casa tá tão silenciosa. Geralmente, estamos estudando ou assistindo TV, não?" – comentou distraidamente, olhando para o teto.

"Às vezes, eu roubo uma comida ou outra de madrugada também." – sorriu.

"É, eu sei. A geladeira sempre parece mais vazia de manhã." – tocou nos cabelos dela, numa carícia fugidia.

Podia parecer estranho aquele silêncio todo. Para alguém de fora, iria parecer que os dois estavam ainda mais distantes. Mas não. Tanto Archer quanto Aileen sabiam que aquele, talvez, fosse o real sentido da palavra 'carinho'. Estavam silenciosamente apoiando um ao outro.

Parecia tão gélido, é verdade. Se fosse antes, ela diria que o rapaz não a amava como confessara há algum tempo, debaixo da chuva. Mas era mentira. Agora, ela tinha certeza de que ele também gostava dela. Aquele silêncio protegido pelos seus braços calorosos era a resposta. E talvez, por confiar naquela quietude cúmplice, foi que ela deixou escapar aquilo, como se fosse um suspiro.

"Hoje eu vi a Elise..."

"A Elise?" – ele acabou lembrando-se do que havia sido obrigado a fazer. E soube que, sempre quando ouviria este nome, iria lembrar disso. – "Quando?"

Quando enfim deu-se conta do que havia feito, meneou a cabeça, conformada. Hora ou outra, ela achava que devia contar-lhe. A exaustão também contribuía para a pouca vontade de mentir.

"De noite. Não faz muito..."

Como Aileen previa, o rapaz remexeu-se, soltando-a brevemente, e encarou-a, como se buscasse a confirmação da brincadeirinha idiota.

"Ei, isso é uma brincadeira, certo?"

"Não. Juro que a vi hoje." – confirmou com um aceno de cabeça. – "Ela estava estranha... Nem parecia a Elise que eu conheço. Mas sumiu repentinamente, como um fantasma."

"Não foi uma ilusão de ótica ou alguma coisa do tipo? Você estava nervosa." – respondeu. – "Eu também já vi coisas quando estava muito assustado."

"Tenho absoluta certeza de que era ela."

"Você descobre uma resposta... E aparecem, então, mais duas perguntas."

"Será que ela tem realmente tudo a ver com isso...?" – a pergunta da garota foi feita num tom distante, como se ela apenas estivesse pensando alto.

Aileen sentiu, então, os braços de Archer envolverem-na de forma mais possessiva do que antes. Respirou fundo, perguntando-se quando aquela sensação de pernas trêmulas iria parar quando ele chegava perto de si.

"Vamos parar de falar disso, por favor..."

"Tem razão... Mesmo que fiquemos debatendo a noite toda sobre o fato, é improvável que viemos a chegar a um acordo..."

"É por isso que eu gosto de você." – ele riu. – "Sempre prática."

"Claro, claro, conversa de todo tarad...!" – e engasgou-se de novo. – "O QUE ESTÁ FAZENDO...?!"

A pergunta tinha resposta óbvia: ele havia puxado a perna dela para si, apoiando-a no colo dele, e agora puxava para cima a parte que cobria-lhe o tornozelo da sua calça do pijama. O ato, mais obviamente ainda, fez a albina corar visivelmente até a última raiz de cabelo, afinal, a cena era perigosa, no mínimo.

"Estou checando a sua perna, Aileen." – ele respondeu, rindo do susto dela.

"E-eu... Eu estou bem! S... Saia daí, Archer, a-agora!..." – pedia, tropeçando nas palavras de vergonha.

O rapaz sabia que ela estava bem. Afinal, se havia algo que Aileen aprendera naqueles dias de horror foi a cuidar de feridas. Tinha até um dom nato para isso (mas duvidava que tivesse paciência para lidar com outros vivos). Logo, na sua própria perna, é natural que ela tivesse cuidado bem demais.

"Será mesmo? Acho que ainda está doendo."

"N-não está não...!"

E tal qual ela pensou que o rapaz dos cabelos castanhos faria, sentiu os lábios dele encostarem-se nas bandagens de seu ferimento na perna. Mesmo sabendo que faria isso, não pôde evitar que um arrepio (que, Deus a perdoe, achou delicioso) subisse-lhe pela espinha.

"Pa-pare, Archer...!"

"É para sarar, ora essa." – e o sorriso jocoso dele só parecia instigá-la mais.

"Só dão um beijinho nessas horas... Pare, por favor..." – suspirava, mas o corpo estava mentindo, porque ele parecia dizer o oposto do que ela dizia.

"Você mesma disse que eu sou um maldito pervertido." – e ele continuava subindo.

"E-eu estava... Brincando... Ah, pare com isso, ou eu..." – calou-se. Alguma vergonha dentro dela impediu-a de falar o resto.

"Só se admitir que está gostando."

"Você... É cruel..." – um suspiro mais prolongado do que desejava a princípio escapou-lhe, deixando sua pessoa ainda mais nervosa.

"Sim, eu sei." – maldito risinho divertido.

O fato do pai ter caído de sete andares ou de ter visto Elise desaparecer como se fosse brumas de Inverno não parecia mais ter importância alguma agora. Aliás, ela sequer pensava nisso.

Quando a boca dele uniu-se mais uma vez à sua, desta vez sem chuva ou frio, ela achou que fosse desfalecer. Aquele primeiro pareceu tão bom, mas se fosse possível, este estava ainda melhor. Afinal, naquele sequer houve tempo de sentir este mesmo calor que estava apossando-se de seu corpo agora. Só houve a surpresa outrora, e agora, vinha a certeza de que o queria com ela.

Ela sentia os braços dele envolverem-na mais uma vez e o som do sofá cedendo ao seu peso. Se pudesse ainda pensar em alguma coisa, diria que aquela situação estava adquirindo um tom que sequer planejava chegar perto a princípio. Mas, algo realmente forte, no qual ela estava quase cogitando pensar, era no quanto estava irreconhecível: até algum tempo atrás, jamais achou que um dia iria estar na casa de um garoto, beijando-o na cobertura do prédio dele e depois no seu sofá. Aliás, jamais achou que fosse deixar alguém deslizar as mãos daquele jeito por suas costas esguias. Ainda mais quando este alguém, aliás, está sem camisa. Definitivamente, estava anormalmente estranha.

Ao invés de reclamar por isso, chamá-lo de pervertido ou sair correndo, ela simplesmente entregou-se àquelas sensações que ele despertava nela. Talvez devesse pensar que era estranho... Afinal, eles eram apenas estudantes normais, menores de idade... Mas não conseguia ver nada de anormal naquilo. Antes de serem tudo que ela numerou, ainda eram 'almas que se desejavam' (lera isto em algum lugar e achou muito tosco na época, mas agora, não achava nada melhor para ilustrar a idéia).

Só soube que, no fim, ela também o estava enlaçando pelo pescoço, praticamente colada ao corpo dele.

"...Eu te amo." – ouviu a voz baixa dele contra seu ouvido e arrepiou-se de novo.

Havia uma sensação imensa de exaustão em seu corpo, mas ao mesmo tempo, uma ânsia que crescia desmedidamente.

"Eu também..." – foi o que conseguiu dizer de volta.

Archer encarou-a, e então, teve vontade de perguntar-lhe algo. Mas deixou aquilo para lá, e quando Aileen achou que ele fosse beijá-la na boca outra vez, sentiu-o percorrer seu pescoço. Apertou as mãos automaticamente nas costas dele, achando aquilo tão randômico que chegava a ser prazeroso. O garoto aspirou fundo o cheiro adocicado dela, e fechou os olhos, apertando-a mais contra o corpo.

Tomada de uma coragem que não soube de onde veio, a albina saiu de sua aparente passividade, explorando as costas desnudas dele com suas mãos. O toque delicado fez Archer retesar-se inicialmente, mas no instante seguinte voltou a relaxar, extasiado. Beijou-a nos lábios e, em seguida, foi descendo. Queria delineá-la e gravar em seus sentidos cada pedaço dela. Sabia tanto quanto ela que, talvez, estivessem indo para um caminho sem volta, mas o corpo dele estava quente como o dela, ardendo no calor do desejo que sentiam.

Amar doía, mas era a dor mais inebriante de todas. E ele entendia muito de dor. Mas agora que ela estava com ele, não havia mais dor. Só havia uma agradável sensação de liberdade. Por ela e pelas pessoas que ele amou, sua pessoa desejava um futuro. Queria um futuro com ela. Era isso que ele declamou com seus gestos quando segurou de leve o rosto dela entre suas mãos e deu-lhe um selinho sutil. E a albina compreendeu aquela mensagem silenciosa, sentindo os olhos encherem-se de lágrimas outra vez. Abraçou-o, como se quisesse protegê-lo de toda dor que aquela cidade e seus habitantes fizeram-no ter. Como se quisesse dar-lhe enfim o oposto do que todo o resto do mundo sempre proporcionou.

Ela escondeu o rosto na curva de seus ombros quando sentiu-o erguê-la do sofá e conduzi-la. Corou de leve quando viu a cama onde sempre dormia. Tudo aquilo parecia um sonho, e esta sensação só agravou-se quando foi delicadamente depositada em cima dos lençóis gelados.

"Creio que é lugar mais digno da senhorita..." – ele sorriu maliciosamente.

"Chega de conversa fiada e venha logo, Archer." – um dia, ainda iria descobrir que espírito demoníaco possuiu seu corpo quando falou aquilo.

O rapaz riu da ousadia dela e inclinou-se, beijando-a apaixonadamente. Tirou-lhe as partes de cima e de baixo do pijama num instante, e então, afastou-se para encará-la melhor. Só pôde achá-la a mais bela criatura deste mundo e, encantado, mordiscando seu pescoço, ele deslizou as mãos até o fecho do sutiã dela.

A cada peça de roupa retirada, a cada toque ousado, mais o calor que os consumia parecia aumentar. Mas não houve nenhuma precipitação, ao contrário do esperado, não houve pressa; eles tinham todo o tempo do mundo e não sabiam. Foram carícias delicadas, sempre com o cuidado de jamais machucarem-se (mais do que já estavam, porém, era impossível), sempre com a singeleza de duas crianças que ainda sim eram.

E quando nenhum dos dois queria esperar mais, foi sem pressa, sempre encarando aquelas orbes vermelhas, que ele a fez dele para todo sempre. Seus corpos moviam-se em perfeita harmonia, encaixavam e completavam-se como se houvessem sido feitos um para o outro desde o princípio. A garota gemia baixinho, como se estivessem arrancando dela aqueles suspiros, e agarrava-se em Archer como se ele fosse o único capaz de protegê-la do mundo.

Os corpos dos dois explodiram numa profusão de sensações desconhecidas que queimava-os lentamente, numa sensação inebriante, como se todas as coisas do mundo estivessem em hialina sintonia. Como se, por um momento, nada mais existisse senão aquelas mãos entrelaçadas. Foi um arrebatamento inconsciente, uma paixão devastadora e, ainda sim, extremamente calma, e os dois sentiram as almas unirem-se para sempre debaixo daquele momento.

Era o oposto de dor o que estavam sentindo.

E, muito tempo depois, naquela mesma noite, enquanto Aileen Dawson dormia placidamente abraçada a ele, o rapaz Crowell soube que seria sempre ela o grande amor da sua vida: aquela com quem ele descobriu o sabor de ser adulto.

XXXxxxXXXxxx

Lentamente, seus olhos escarlates abriram-se. Sentia ainda o calor das cobertas quentíssimas do Inverno, mas havia um outro componente ainda melhor: os braços de Archer. Eles afastavam qualquer sensação ruim que ainda viesse a ter. Nem mais a dor da perna ferida ela sentia mais. Por alguma razão, tudo sumiu, deixando apenas uma sensação de contentamento.

Sentia-se outra. Um deslumbramento estonteante e agudo, uma visão que ela jamais teve antes do mundo. Agora, ela compreendia os poetas que tão inutilmente tentavam descrever aqueles sentimentos, entendia os livros que seguiam o mesmo caminho, entendia porque tantas guerras e importância para estas coisas... Ela finalmente compreendia. Podia jurar que, agora, era dona de si.

Seu pai, seus avós, as pessoas que conhecia... Todas eram suas iguais agora. E, tinha de admitir, todos os lugares nos quais ouvia falar disso estavam certos: era o ápice da existência humana. Não importava se tinha dezesseis ou trinta anos... Simplesmente era assim (bem, talvez esta fosse ser a única mancha em sua vida, mas a maioria das universitárias que conhecia, por exemplo, gabavam-se por perderem a virgindade aos dezoito ou dezenove anos, e ela estava bem mais adiantada, agora, que as mesmas... Seria, então, uma espécie de 'veterana'?!).

Virou-se, assim, para poder olhá-lo. Como notara antes, ele parecia um menino quando dormia. Vai ver, no sono é o único momento no qual podemos realmente descansar de todos os problemas. Tocou-lhe nos lábios, traçando-os, num estado terno de distração.

Só foi notar que ele estava então acordado quando sentiu-o abraçá-la pela cintura, puxando-a na sua direção até encontrar-se com os olhos dele.

"Bom dia." – foi o que disse, sorrindo.

"Bom dia, Archer." – ela respondeu.

Ele beijou seu rosto e, depois, deitou a cabeça no travesseiro mais uma vez, fechando os olhos preguiçosamente.

"Já é hora de acordar...? Tem aula hoje, né?" – segurou a mão dela, como que pedindo-lhe para compartilhar da sua opinião. – "Queria tanto matá-la..."

"Nem vem com essa, dorminhoco." – a albina descansou a cabeça no ombro desnudo dele. – "Hoje tem revisão para as provas de fim do bimestre."

"Ora, sois mais preguiçosos do que imaginava. Acaba de bater as dez da manhã."

E então, bruscamente a tranqüila atmosfera estabelecida ao acordarem foi quebrada, quando ouviram aquela terceira voz que não saiu de nenhum deles. Os adolescentes viraram-se na direção da janela do quarto e o que viram lá foi tão forte que acabou por descarregar uma sensação muito forte de susto em suas pessoas. Deixou-os estáticos, por assim dizer.

Uma jovem vestida com roupas punks e negras, de longos e sedosos cabelos cor de lavanda e olhos castanhos sem vida estava sentada ali na janela, indicando-lhes as dez da manhã de Seven Sisters: um céu escuro e espesso, sem lua, e os mesmos trovões que abalaram a noite anterior, mas desta vez, sem uma gota de chuva. Se aguçassem os ouvidos, poderiam até mesmo ouvir os grunhidos dos habitantes que ainda não saíram da eterna peregrinação de um transformado.

A escuridão da noite, enfim, tomava o lugar da gloriosa manhã.

"Bom dia aos dois, Stephan e Felicia."

Continua...

Nota: E a partir de agora, o final de Seven Sisters se aproxima... Obrigada por todo o apoio que vocês têm me dado. ^^

Próxima Noite: Alice I.