CAPÍTULO XIV
- Foge daqui!
A voz de Okita Souji soava grave e desesperada, depois do ar lhe ter sido devolvido aos pulmões. O espadachim ergueu-se do futon e apertou o nó da sua hakama. Olhou Chiyo com desespero, que tinha uma expressão serena no rosto, como se nada se passasse. Cuidadosamente colocou suas mãos nos ombros que ela voltou a cobrir com a yukata, erguendo-a até ao seu nível. Suas mãos subiram-lhe pelo pescoço, até ficar nos limites do maxilar e beijou-lhe os lábios.
- Eu amo-te. – lembrou Okita com um suspiro – Agora foge! Por favor! Tens de fugir!
- Porquê? – questionou-o Chiyo – Para não teres de me matar como fizeste com outros? E como queres fazer com o meu pai?
Okita olhou-a, assombrado.
- Eu nunca te mataria. – garantiu em tom sério – E nem deixaria que o fizessem.
- E o meu pai? – argumentou Chiyo – Quem o defende? Todos os seus homens foram mortos, não foram? Não deixarei que me tirem o meu pai! É a única pessoa que me resta!
- Fala baixo!
A mão de Okita tapou a boca de Chiyo, cujos olhos o fitavam com ressentimento. Okita beijou-lhe a testa com devoção e deixou sua mão deslizar até aos ombros dela.
- Eu amo-te mais do que alguma vez imaginei ser possível amar alguém e é este o teu presente a mim? A morte do meu pai?
- O teu pai é o inimigo. – vincou Okita – Eu não sabia que eras filha dele. Nem sabia que ele tinha uma filha!
- Pois sabes agora. – cuspiu Chiyo.
Okita olhou-a, seus olhos assombrados pelo ódio na voz da amada.
- Estás arrependida o que aconteceu entre nós?
Chiyo olhou-o, de olhos lacrimejantes e perguntou-lhe com o tom combinando com os olhos:
- Algum dia me arrependeria?
Correu para os braços dele beijando-lhe os lábios. Depois afastou-se.
- Porquê? – questionou Chiyo – De meu único ódio nasceu o meu único amor…
- Que digo eu, então? – suspirou Okita, abraçando-a junto ao peito – Condenado a amar a filha do inimigo. E não me importa isso, porquê? Meu amor por ti ultrapassa o meu ódio pelo teu pai.
Chiyo baixou a cabeça, junto ao peito dele e depois ergueu-a.
- Não deixarei que o façam! – proferiu em tom de raiva.
Numa fracção de segundos o corpo leve correu para fora do quarto. Os olhos de Okita abriram-se em terror e seguia. Mas era tarde demais! Chiyo irrompeu pela sala e ajoelhou-se no chão em frente ao pai, de braços abertos e olhos chorosos. Os olhos dos samurais do Shinsengumi olharam-na sem compreenderem. Kondo olhou Okita na porta com ar estupefacto.
- Porque não a mataste?
Okita não o escutava, apenas olhava o corpo de Chiyo no chão, tão próxima da lâmina mortal dos seus companheiros.
- Se querem matar o meu pai, terão de me matar primeiro!
Kondo caminhou pela divisão e colocou-se á frente de pai e filha, de espada erguida:
- Que isso não seja um impedimento...
Numa fracção de segundos, o corpo de Okita colocou-se frente ao de Chiyo de espada impune.
- Nem penses em tocar-lhe!
A voz áspera de Okita gelou os músculos de todos enquanto a sua lâmina assassina lhe era apontada.
- O que raio pensas que estás a fazer, Souji? – questionou-o Kondo – Poupar vidas do inimigo?
- Esta vida não irão tirar! – cuspiu Okita com ódio na voz.
Os olhos de Chiyo olharam o amado; nunca o vira tão mortífero! Seus olhos pontiagudos, negros de raiva e sua voz, tão amável e doce, agora tão áspera e dura.
- Foge daqui, Chiyo. – proferiu Okita, sem a olhar.
A bela jovem sentiu lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto.
- Como sabe ele o teu nome, filha? – questionou-a Yoshida. – Como é que aquele cão sabe o teu nome?
- Que fique claro, Yoshida, que eu apenas estou a defender a vida da sua filha. – cuspiu Okita – A sua posso muito bem tirá-la!
Estas palavras cruéis perfuraram o peito de Chiyo como uma espada; amava-o tanto, não suportava a dor de o ver matar seu pai, que amava igualmente.
- Defender…? – repetiu, incrédulo, Kondo – Souji, porque defendes a vida dessa mulher?
- Porque a amo!
Uma interjeição de surpresa e choque percorreu todos os samurais, cujas lâminas se baixaram com o choque.
A primeira vez que a viu, o primeiro beijo, a primeira vez que fizeram amor, todos os momentos juntos, lhe passaram pela cabeça como um flashback de recordações. Okita fechou os olhos, como se recolhesse o melhor desses momentos.
- Ama-la? – repetiu Kondo – Ela é a filha do Yoshida! Enlouqueceste de vez, Souji!?
A respiração de Chiyo parecia ter parado de vez; tudo ficou claro na sua mente. Okita Souji era o inimigo. Era inimigo de seu pai, é o seu inimigo. E no entanto o seu coração, o seu corpo, a sua alma… pertencem ao inimigo. As lágrimas mancharam-lhe a pele pálida do rosto, enquanto seus raros olhos azuis fitavam o chão.
CONTINUA...
