Ano 7 parte 2

Tudo normal em Londres. O país se recuperava economicamente após a saída da União Europeia, a população vivia tempos otimistas, e o governo continuava a articular os velhos jogos de poder que ora trazia alguns benefícios à população, ora dizia respeito apenas aos próprios interesses e de seus pares. Até a frente do pub Caldeirão Furado, o assunto da vez era a grande vitória de virada do Manchester City em cima do Liverpool em um lance espetacular do brasileiro Gabriel de Jesus. Como bons ingleses, também comentavam cinicamente a respeito das novas eleições e de como os candidatos tanto do partido trabalhista quanto do partido conservador pareciam serem personagens fracassados e frustrados saídos de um romance ruim de Nick Hornby. Reclamavam, também, de como o preço da cerveja estava alto demais para o gosto aguado que vinham de seus copos, mas que eles beberiam mesmo assim.

Santana, como uma boa londrina, sentia falta do humor inglês que podia praticar nos bairros que gostava de frequentar na cidade. Londres exalava vida em seus cantinhos nervosos repletos de cozinha internacional, sem esquecer da velha e boa comida ruim local a base de batata cozida e peixe frito. Se ela pudesse, aproveitaria a última semana de férias que teria para aproveitar a cidade junto com Lily. Mas o reencontro com a namorada foi difícil, tenso e diferente.

Lily recebeu Santana e Rachel no aeroporto junto com Harry Potter, Juan Lopez e mais dois aurores. A chosen one abraçou o pai, cumprimentou Harry Potter e beijou Lily com paixão e tristeza.

"O que foi?" Lily perguntou ao ver a namorada chorar.

"Depois, ok?"

Santana foi levada para a casa dos Potters e hospedada no quarto de sempre, que dividiria com Rachel. Tudo estava diferente. Havia proteção extra na casa e Harry Potter falava em planos emergenciais, como mudar com a família para a velha casa dos Black, que herdou do padrinho, Sirius.

Santana e Rachel ocuparam o quarto enquanto eram observadas por Lily. Era hora.

"Rachel, posso ficar com Lily as sós um instante?"

Rachel franziu a testa, mas depois concordou. Ela observou a mudança de comportamento da irmã desde o dia em que Quinn voltou para a Inglaterra para ficar aos cuidados de Athena Milles. Santana ficou mais triste e estressada. As circunstâncias contribuíram, mas era algo fora do normal, e ela não tinha noção do que estava angustiando tanto.

Santana sentou-se na cama que iria ocupar. Estava desconfortável, mas precisava fazer isso. Pediu para que Lily sentasse à frente, na cama que Rachel ocuparia.

"O que foi San?"

"Lily, nos próximo dez minutos você vai terminar o namoro comigo."

"O que você fez?" Lily levantou-se nervosa, mas Santana sinalizou para que ela se sentasse.

"Por favor. Escute toda a história. Deixe eu te contar tudo sem interrupções. Depois você pode terminar comigo, pode me bater e me expulsar da sua casa. Eu não me importo porque eu mereço. De acordo?"

"Ok?" Lily estava trêmula. Não era a única. Santana também estava.

"Ok, então." Santana respirou fundo. "Nessas férias, como sabe, depois que eu sofri uma emboscada em Nova York, os aurores me mandaram para Kohadjo, até para facilitar o trabalho de me vigiar. A cidade é um pouco maior que Hogsmeade, é um tédio, como eu já te contei. Numa tarde, Rachel, Quinn e eu pegamos uma garrafa de tequila da adega de Sue Sylvester. A gente brincou de responder perguntas e essas coisas. Ficamos bêbadas. Minha mãe e Sylvester chegaram de surpresa por causa de uma notícia ruim. Enfim, minha mãe nos mandou tomar uma ducha fria. Quinn e eu usamos o mesmo banheiro e... eu estava bêbada e Quinn também. Lily, eu juro que eu realmente não estava pensando direito. Só sei que Quinn e eu estávamos dividindo o chuveiro e, de repente, aconteceu. A gente fez sexo. Foi inesperado, não houve um clima, planejamento e nada dessas coisas. Acho que a gente estava com tesão por causa das perguntas que fizemos uma para a outra. Era uma brincadeira boba em que respondíamos coisas se já tínhamos transado, masturbado, essas coisas. Junte isso com o álcool e depois o chuveiro... só sei que eu estava no lugar, na hora e nas condições erradas. Eu não amo Quinn do jeito que eu te amo. Eu não planejei nada disso, mas aconteceu." Santana fez uma pausa. Ela olhou para os próprios dedos e ficou com a cabeça abaixada. Disse num tom contido, lágrimas já escorriam pelo rosto. "Eu me dei conta da burrada que fiz minutos depois. Não ajudou em nada o fato da minha mãe ter contado sobre a volta de Evans para Hogwarts e que eu deveria ficar nos Estados Unidos com Rachel. Eu discordei, disse que não poderia fugir agora e concordei em me submeter ao treinamento sub-humano de Sue Sylvester antes de voltar. As condições eram que Rachel também treinasse e que Quinn voltasse para Londres. Eu não poderia fazer nada disso com ela ali presente. A culpa já estava me corroendo e se Quinn ficasse, só iria piorar. Então essas foram as minhas férias Lil. Sofri um atentado, fui mandada para Kohadjo, cometi um erro com Quinn e comi o pão que o diabo amassou." Santana limpou as lágrimas. "Eu sei que estou te ferindo nesse exato momento, mas Lily, isso está queimando dentro de mim há um mês. Eu quero contar isso pra você há um mês, mesmo sabendo de todas as consequências ruins, mesmo sabendo da dor que isso causaria em você. Porque, Lily, isso dói em mim. Mas aconteceu, eu não posso voltar no tempo. Eu só posso me desculpar de todo meu coração, e aceitar a sua decisão."

Lily estava atônita. Os sentimentos dentro dela estavam em rebuliço. Ela queria entender e até perdoar, mas ela também queria se levantar daquela cama e dar uma surra em Santana e em Quinn. Ela queria gritar, expulsar Santana da casa dela, terminar o namoro e nunca mais a ver na vida dela. Santana chorava enquanto Lily ficou ali em pé, diante da namorada. A ruiva limpou lágrimas de decepção e de raiva. Então ela se levantou da cama, saiu do quarto e correu para o próprio, onde poderia ficar sozinha e chorar de raiva pelo resto do dia.

...

Santana estava impaciente. Ela chegou em Londres, teve a conversa que precisa ter com Lily, e fazia três dias que não tinha resposta alguma. Nada. Verdade que Santana não deixou o quarto de hóspedes, a não ser para usar o banheiro. Ela não cruzou com Lily em nenhum momento. Contou a história para Rachel, e a irmã, por sua vez, lhe deu algumas notícias sobre a circulação e o ambiente da casa.

Rachel soube da escapadela entre Quinn e Santana em Kohadjo ainda nos Estados Unidos. Ela ficou confusa no primeiro momento porque jurava que havia um certo clima surgindo entre ela e Quinn, como no dia em que se beijaram. Decidiu que havia entendido tudo errado, e que talvez Quinn estivesse projetando nela o que sentia por Santana. O treinamento que ela foi submetido foi pesado, mas nem de longe tão exaustivo quanto o de Santana. Querendo ou não, isso fez com que as irmãs se unissem mais.

"Ninguém nem fala o seu nome na casa." Rachel deu a notícia à irmã. "O que eu consigo entender perfeitamente."

"O lado bom é que semana que vem estaremos todos no expresso." Santana suspirou. "Então eu terei de enfrentar o diabo em pessoa. É bem mais animador, sabe?"

"Nem me fala. Às vezes acho que deveríamos ter aceitado a oferta de Ilvermorny."

"Você deveria ter aceitado. Sabe da minha opinião."

"Eu não ia de deixar sozinha."

"Não é questão de me deixar sozinha, Rach. É sobre eu ficar tranquila sabendo que você está segura."

A conversa foi interrompida quando ouviram alguém bater a porta. Lily não esperou alguém responder se poderia ou não entrar. Era a casa dela e o mau-humor havia tomado conta há dias. Ela simplesmente se deu ao direito.

"Eu preciso conversar contigo, Santana." Lily disse determinada.

"Vou tomar um copo d'água. Com licença." Rachel saiu do quarto, passando pela Gryffindor com todo cuidado para não esbarrar.

Lily entrou no quarto. Estava com o rosto sério, concentrado, os braços estavam cruzados e a postura ereta, como quem tentava se agigantar para dominar o lugar. Santana permaneceu sentada na cama. Na verdade, ela não sabia como agir.

"Não quer sentar?"

"Estou bem em pé." A voz de Lily era dura, decidida.

"Ok."

"Assim como eu não te interrompi quando você fez aquela confissão horrenda, espero que você faça o mesmo agora."

"Ok." Santana engoliu seco.

"O que você fez foi repugnante, vil, desonroso. E nada nesse mundo, absolutamente nada justifica o que você fez. Nem a sua bebedeira, nem o seu estresse. Nada. Eu não quero saber de detalhes, e não quero simplesmente saber nenhuma história que envolva esse dia, Santana Lopez. Só quero que você saiba que enquanto você casualmente transava com Quinn Fabray num chuveiro, eu fiquei aqui ajudando a lutar contra a lavagem cerebral que Evans está fazendo entre os nossos colegas. Nossos colegas! Eu estava fazendo por você, e também porque a nossa causa é justa. Porque isso é maior do que você. Porque a gente precisa vencer esses parasitas. É por isso que eu ainda vou estar ao seu lado, Lopez. Mas a nossa relação é outra história. Vai levar tempo para eu te perdoar e voltar a confiar em você. Se isso por um acaso acontecer algum dia. Apesar de tudo, eu não me sinto preparada para deixar você livre. Então se você quiser que algum dia nós possamos voltar, faça por onde."

"Eu não sei se entendi direito, Lil... você não quer terminar, mas não quer ficar comigo e nem quer que eu fique com mais ninguém?"

"Não é tão confuso assim."

"É um pouco confuso sim. É como se você exigisse que eu me torne uma freira até que você decida me perdoar ou não."

"Exemplifica muito bem."

"Ok... se é o que você quer, eu aceito."

"Você aceita?"

"Lily, o que eu fiz foi horrível. Eu aceitaria qualquer punição que você impusesse."

"Até parar de falar com Quinn?"

"Eu iria tentar de verdade não falar com ela. Só que eu não sei se posso cumprir essa promessa. Eu cometi um erro, não ela. Entende? Eu não posso punir Quinn mais do que eu já fiz. Além disso, ela é uma aliada."

"Bom, eu também não sei se eu gostaria disso. Tornaria as coisas muito fáceis pra você e para ela. Você está certa sobre ela ser uma aliada. Depois que ela voltou a Londres, não fez nada além do que lutar pela nossa causa. Enfim, espero que estejamos entendidas."

"Sim, estamos."

"Minha mãe fez pudim de gelatina e você não saiu do quarto desde que chegou. Sinceramente, eu acho nojento comer em cima da própria cama."

"Eu concordo."

"Ótimo!" Lily apontou para a porta. Santana hesitou por um momento antes de levantar-se.

Não sabia como se portar diante de Lily. Era estranho querer abraça-la, pegar na mão dela e simplesmente não poder. Acenou timidamente assim que passou pela namorada. Um aceno era razoável. De certa forma, Santana estava aliviada. Era um recomeço.

...

Era véspera do embarque para Hogwarts, quando Santana finalmente deixou a casa dos Potters para visitar o Beco Diagonal. Lily disse que precisava comprar material escolar de última hora e pediu (exigiu) que Santana a acompanhasse. A chosen one não queria. Estava deprimida demais para enfrentar o público. Mas ela cumpriu a promessa em aparecer publicamente pela primeira vez desde que deixou Londres no início das férias.

Sentiu o impacto das ações de Zabini e Samuel. Os olhares dirigidos a Santana eram quase agressivos, como se, de alguma forma, ela tivesse passado a ser a senhora das trevas, a articuladora de um golpe de estado perverso.

"Eu odeio isso." Resmungou para Lily e Rachel.

"Você deveria ter aceitado terminar os estudos em Ilvermorny." Lily fechou o cenho. Havia certo rancor no tom de voz dela.

"Não iria melhorar em nada a situação e só iria facilitar as coisas para ele." Santana suspirou.

Ela olhou para uma das caixas de venda do Profeta Diário e observou a manchete. Havia uma foto de perfil de Santana que foi tirada ainda na Rússia reaproveitando uma matéria com o perfil do time de Hogwarts. A direita, uma foto de Samuel também de perfil, como se ele estivesse encarando a adversária. A letra X estava estampada entre as duas imagens. Acima, a manchete: "A profecia realmente existe?" Logo abaixo havia um parágrafo das discussões a respeito da veracidade dela e da credibilidade dos dois personagens principais.

"É um jogo político, sabe?" Quinn se aproximou de surpresa, provocando desconforto em Lily e Santana. A cara de susto não passou despercebida por Quinn, que, a julgar pelo franzido na testa de Lily, era possível que Santana não guardou segredo. Ela respirou fundo e decidiu continuar com a linha de pensamento. "O outro lado quer vender a ideia de que a profecia é falsa. Que não passa de uma desculpa para que a ministra da Magia e o seu pai possam justificar um golpe para ter mais poder. O seu pai e os outros da Ordem e da Armada não podem negar e nem confirmar a profecia. Se eles negam a profecia, confirmam a tese do outro lado. Se eles afirmam a profecia, serão acusados de negligência porque não agiram para evitar o mal maior. Em ambos cenários, o governo da senhora Granger sai enfraquecido, e a liderança do seu pai à frente dos aurores é questionada."

"Acha que não sei?" Lily disse com desprezo e voltou-se para as duas irmãs. "Meu pai me mandou passar duas semanas com meu irmão em North Walshan e proibiu que a gente lesse o Profeta Diário. Obviamente eu não obedeci, mas o tempo que passei com Al foi muito proveitoso para formular algumas estratégias."

North Walshan era onde os cadetes da academia de formação de aurores faziam a maior parte do treinamento de três anos. Como a academia ficava numa fazenda e sempre havia mais cômodos do que cadetes, Harry achou que o lugar seria seguro suficiente para a filha se distanciar dos problemas na capital. O chefe auror usou a desculpa de que Lily precisava visitar Albus e Scorpius, que estavam indo para o segundo ano como internos do lugar. Que isso traria ânimo ao irmão.

"Vamos comprar logo o que você precisa." Santana disse para Lily. Estava muito desconfortável com a situação e queria sair dali e ir para longe de Quinn o mais rápido possível.

"Claro."

Lily pegou a mão de Santana, mostrando territorialidade para a suposta concorrente, e a puxou em direção ao beco da lateral loja de usados. Quinn e Rachel acompanharam as duas. Lily visualizou o prédio que precisava alcançar e só então aparatou, levando Santana consigo. Quinn sabia para onde elas iriam. Ela segurou o braço de Rachel e fez o mesmo. Desaparataram na lateral do prédio e subiram até o sótão do Ollivanders. Lá encontraram Henry Ollivander, neto do famoso Garrick Ollivander. Como era costume, os negócios sempre pulavam uma geração e foi justo o neto que assumiu a loja, uma vez que o pai, Lars, não tinha o menor talento nem como administrador e nem como fabricante e pesquisador de varinhas.

Henry sorriu para as garotas. Era um homem que estava próximo dos 40 anos, pai de uma garota pequena, fruto do casamento com uma squib. Tinha gestos suaves, aristocráticos, longos cabelos negros que começavam a ficar grisalhos e usava bigode e cavanhaque estilo mosqueteiro: modismo que adotou desde que passou boa parte da juventude em Paris. Quando liberou acesso ao cômodo, as meninas se viram diante de Gail Travis, Finn Hudson, Hugo Weasley, Marley Rose, Aurora Bloom, Sugar Motta, Lysande e Lorcan Scamander, Mike Chang, Jane Hayward, Ryder Lynn, Mercedes Jones, Blaine Anderson, Kurt Hummel e Glory Watson.

"O que está acontecendo aqui?" Santana estava claramente confusa e voltou-se para Lily, que ainda segurava a mão dela.

"Santana e Rachel, essa é a ordem do Hipogrifo."

"O quê?" Rachel se manifestou, uma vez que Santana estava sem-palavras.

"Se me permite explicar." Finn tomou a frente, com o meio-sorriso estampado no rosto. "Lily e eu fomos a um dos fóruns abertos que Samuel tinha convocado. Lily deve ter comentado contigo que foi nada bonito. Nós entendemos que a situação vai piorar muito neste ano e que você vai precisar de toda ajuda possível. Então nós reunimos aqueles que realmente acreditam que você é a escolhida, que a profecia é legítima, e começamos a ter encontros não só para treinar, com também para discutirmos coisas, trocarmos ideias, ajudar uns aos outros. Começou comigo, Lily e Hugo. O grupo foi aumentando... Quinn juntou-se a nós assim que ela voltou dos Estados Unidos. Foi assim que fundamos a Ordem do Hipogrifo."

"Ordem do Hipogrifo?!" Santana ainda estava perplexa.

"É o seu patrono." Marley explicou com um sorriso acanhado no rosto.

"Você sabia disso e não me disse nada?" Santana voltou-se para Lily.

"Eu ia contar quando você chegasse, mas você decidiu me fazer uma surpresa também." Lily encarou Quinn com desgosto.

O gesto confirmou as suspeitas de Quinn, que suspirou e olhou para o lado, tentando parecer indiferente. Ela não tinha nenhum arrependimento do que ela e Santana fizeram, mas lamentava o constrangimento.

"Seus pais e seus tios sabem disso?" Rachel continuou a perguntar.

"Eles estão cientes desses encontros." Hugo explicou. "Meu pai até achou a ideia brilhante."

"Ronny Weasley concorda com isso? Desculpe Hugo, mas ele me odeia. Eu não consigo visualizar ele dando suporte a um grupo que é para me ajudar de alguma forma."

"Meu pai não gosta mesmo de você." Hugo disse revirando os olhos. "Só que isso não faz a menor diferença. Depois..." Hugo evitava encarar Rachel. "Querendo ou não, estamos no mesmo barco. Não é só você e sua família que está em cheque, Santana. Todos nós temos uma boa razão para estarmos aqui. Só não tenho certeza quanto Sugar..."

Com todo bullying que Sugar Motta sofria por conta das garotas em Slytherin, e porque Rachel, Quinn e Santana eram as únicas pessoas da casa que a trata com alguma decência, não era de se surpreender que ela se tornasse uma aliada.

"Ok..." Lily bateu no ombro da namorada. "O que vai ser agora, capitã?"

"O quê?" Santana franziu a testa.

"Esta é a sua armada. Lidere!"

Santana acenou e então procurou olhar para cada um dos integrantes. Finn Hudson era tolo, um sujeito pouco inteligente e precisava lutar contra muitos dos preconceitos que carregava, mas ele tinha o coração no lugar certo. Marley Rose e Sugar Motta tinham em comum o fato de ambas sofrerem bullying de pessoas como Priscila Lestrange e Kitty Wilde. Glory Watson era a garota que participava do coral do professor Flitwick que se envolveu no caso de estupro que expulsou Puckerman da escola. Não era difícil imaginar porque alguém como ela, considerada uma antissocial depois do caso com Puck, se afiliasse a um grupo como aquele. Santana não estava surpresa por os gêmeos Scamanders estarem no grupo: eram filhos de Luna, a grande heroína excêntrica da batalha de Hogwarts na segunda guerra bruxo. Havia um legado considerável no sangue dos dois. Santana não tinha referências sobre Jane Hayward e Ryder Lynn. Sabia que os dois eram integrantes ocasionais do coral de Rachel.

Mercedes, Kurt e Blaine eram amigos mais próximos de Rachel por causa também do coral, e Santana sempre considerou os três como pessoas decentes. Aurora Bloom e Gail Travis eram jovens com fortes ideais. Naturalmente eles estariam no grupo. Lily e Hugo são parte do clã. Santana sabia que Scorpius e Albus só não estavam ali porque treinavam na academia de formação de aurores. Rose era jogadora profissional de quadribol. Quinn? Para onde ela iria? Santana ficou na frente de Mike Chang. De todos ali, ele era quem colocava em si a culpa mais pungente por causa da morte de Brittany. Santana também não tinha conseguido superar a perda. Era primordial que os dois trabalhassem com tais sentimentos. Se Mike estava ali, disposto a ser capitaneado por ela, era porque ele pensava que o grupo lhe daria suporte a uma possível vingança. Ela estendeu a mão para o amigo, que correspondeu ao cumprimento cheio de significados.

"Muito bem..." Santana voltou-se para o grupo como um todo. "Eu fiquei sabendo das besteiras que Samuel anda dizendo. Eu sei que o discurso dele pode parecer épico para muitos miolos moles racistas que existem por aí. A gente não pode combater isso na força, mas precisamos estar preparados de todas as maneiras. Vai ser o inferno, pessoal. Não vou mentir, mas vamos passar por um verdadeiro inferno. Por isso, se alguém quiser desistir, vou entender completamente." Voltou-se especificamente para Lily. "Ninguém aqui tem responsabilidade comigo, nem a obrigação de estar aqui por causa de profecias, por isso que eu vou entender se vocês quiserem se afastar." Olhou diretamente para Lily.

"Eu não sei vocês, mas o meu pai é um crápula que merece estar preso, minha mãe nunca fez um esforço que fosse para me proteger, minha irmã está morta e os meus parentes não são muito melhores." Quinn postou-se à frente do grupo. "Eu sou falha, eu aprendi a encarar o mundo de uma forma distorcida, tornei-me uma sobrevivente. Sofri coisas horríveis e fiz coisas horríveis. Eu me tornei uma pessoa fechada por conta disso. Mas quando eu conheci Santana Lopez, tudo mudou. Ela não ligava para a minha família ou para o meu dinheiro, e isso foi uma mudança e tanto. Eu a aceitei como ela é, e ela me aceitou como eu sou. Ela continua a me aceitar mesmo depois de eu ter feito coisas horríveis contra ela. Eu a traí por medo, e ela me perdoou. Recentemente, eu a traí por ciúmes. Não foi realmente minha intenção, mas eu acabei a manipulando a fazer algo que a feriu mais uma vez. E que feriu Lily. Ainda assim, aqui estou, como parte do grupo, pronta a lutar por essa causa, porque eu sei do valor das pessoas que aqui estão, porque esta é a família que eu escolhi." Quinn fez uma pausa e se posicionou de frente para Santana e Lily, e passou a falar diretamente para a melhor amiga. "Peço desculpas pelo que te fiz passar mais uma vez. Mas saiba que eu te amo, que eu acredito em você. Não interessa se a profecia é ou não verdadeira. Nosso problema é real. Nosso inimigo é real. A ameaça é real. Eu acredito que você possa nos liderar quando o momento chegar."

"Obrigada Quinn." Santana respondeu.

Lily ainda estava muito magoada para perdoar Santana e Quinn. Por isso decidiu ficar em silêncio por enquanto. O dia em que ela e Quinn teriam um acerto de contas estava para chegar. Por hora, ela procurou se afirmar mesmo que gestualmente. Deu um passo adiante, entrelaçou os dedos com os da namorada e encarou a rival. Ela toleraria a presença de Quinn por estarem no mesmo barco, mas deixou claro que ela não era idiota.

...

A tensão estava insuportável na viagem do expresso até Hogwarts. Simpatizantes de Samuel se aglomeravam nos primeiros vagões. Havia os opositores às ideias de supremacia, mas que não simpatizavam com Santana. Havia ainda alguns poucos que estavam com Santana. Essas pessoas eram basicamente a Ordem do Hipogrifo. Santana queria ficar longe do debate político em que se transformou a polêmica. Quem dera se ela apenas deixasse Quinn falar por ela. Oras, Quinn não era uma Ravenclaw, mas era a pessoa mais inteligente que conhecia, e com habilidade única para oratória. Santana tinha a menor paciência discussões em praça pública. Ainda assim, quando viu Samuel em cima de uma mesa discursando em um dos vagões, ficou curiosa.

"... é uma imposição absurda que precisamos resistir." Samuel dizia com a ponta da varinha encostada no próprio pescoço devido a feitiço que usava para amplificar a voz. "De repente é como se tivéssemos de ferir nossas crenças para aceitar aquilo que o Ministério da Magia está nos impondo. Precisamos nos unir e dar um basta! Precisamos dar um basta neste processo que nos coloca à margem em favor daqueles que querem destruir nosso modo de vida."

"Quem quer destruir nosso modo de vida?" Santana se impôs no fim do vagão, também utilizando o feitiço para amplificar a própria voz. Isso fez com que todos os olhares se voltassem para ela.

"Aqui está a maior personificação daquilo que estou explicando." Samuel apontou para Santana. "A Gryffindor infiltrada em Slytherin. Gay. Ateu. Half-blood de primeira geração. Amante do modo de vida dos muggles. A suposta profetizada destruidora do nosso mundo."

"Você está viajando?" Santana retrucou, tentando vencer o ruído da plateia. "Sim, eu fui colocada em Slytherin. Desde então não fiz nada além de honrar o nome desta grandiosa casa. Sim, você está certo sobre outras coisas. Eu sou gay, detesto religião, sou mestiça de sangue e de raça. Sinceramente, adoro sentar num pub e observar os muggles cuspindo a nossa charmosa ironia inglesa enquanto bebem seus enormes copos de cervejas vendidas a 6 libras. Eu adoro essas pequenas coisas. Só que porque gosto de fazer isso, não quer dizer que eu vou forçar todo mundo ao meu redor a fazer o mesmo. As pessoas são livres para fazerem o que bem entenderem, Evans. Livres."

"Claro!" Samuel sorriu irônico, abrindo o braço para dramatizar ainda mais a performance. "Tão livres que deveríamos acabar com tudo e seguir esse modo de vida, certo? Não é o que você e todos o que estão da apoiando querem? Você, Hermione Granger, Harry Potter... são hipócritas opressores que usam o fato de ter destronado um tirano com sérios problemas mentais para instituir outro tipo de tirania que condena os puros de sangue."

"Mas você tem merda na cabeça?" Santana respondeu perplexa. "Ninguém quer o fim do nosso mundo. Ninguém quer absurdas fusões, ninguém quer o fim da nossa cultura como você está dizendo. O que queremos é que puros sangues, mestiços, nascidos muggles e squibs, que Gryffindors, Slytherins, Ravenclaws e Hufflepuffs possam conviver em paz. Que exista debates, claro, que se tenha discussões... isso faz parte de um ambiente democrático. O que não dá é ver um idiota como você fazendo discurso de ódio em cima de apontamentos falsos! Sabe qual é o nosso problema? É que ao nos fecharmos culturalmente, fechamos nossos olhos também para a história da qual também fazemos parte, que também nos afeta. Fechamos os olhos para fato de que Evans proclama discursos nazistas, e permitimos que isso aconteça."

Santana olhou para a plateia que acompanhava o embate entre alguém que foi claramente treinado, e outro que falava apenas com a paixão. Mal percebeu no quanto estava ofegante, que seu coração estava acelerado depois do discurso. Ainda mais importante, mal tinha percebido que aquela foi a primeira vez que estivera no mesmo ambiente que Samuel Evans em muito tempo. Aquele jovem, que tinha a mesma idade que ela, era o seu destino. Era estranho pensar a respeito: de que não importa o resultado, para ela, Samuel Evans era a própria personificação da morte.

"O que é um nazista?"

Santana saiu do transe quando um garoto que tinha jeito de ser um calouro do primeiro ano prestes a experienciar a longa e louca jornada em Hogwarts. Era só moleque de descendência indiana com olhos brilhantes e cheios de expectativas, que talvez não compreendesse o embate que estava acontecendo no vagão.

"São pessoas que pensam que os diferentes não podem conviver." Santana explicou da forma mais simplista possível. "Os nazistas comandados por Adolf Hitler diziam que certos tipos de pessoas não eram sequer humanos. Então eles perseguiram e prenderam judeus, negros, gays, como eu, e até as pessoas que simplesmente eram opositores. Os nazistas levavam todas essas pessoas inocentes para campos de concentração para matar a todos em câmeras de gás venenoso ou de outras maneiras sórdidas. Não foi muito diferente do que Voldemort fez décadas atrás, quando perseguiu e matou muggles e nascidos muggles. E não é diferente do que vai acontecer se as ideias que Evans defende se prosperarem."

"Não sou nazista, Lopez. Eu só quero justiça."

"Justiça para todos os seus pares, Evans."

"Não é diferente do que os seus mentores fazem. São eles que estão prendendo pessoas se puro-sangue."

"Russell Fabray explorava sexualmente garotas menores de idade, além de sonegar impostos e manipular resultados de jogos de quadribol. Amber Nox, minha madrasta, e seus pais foram presos por participarem de uma célula terrorista que planejava um genocídio de muggle-borns, como a minha irmã. Genocídio! Sem falar que planejavam abertamente a minha morte. O seu melhor amigo é um estuprador. E você me diz que eram inocentes?"

Alguns dos professores que estavam em vagões vizinhos estavam perfeitamente cientes do que acontecia. Um deles era justo a senhora Flora Carrow, head de Slytherin. Flora tinha notável ambiguidade. Ninguém poderia colocar a mão no fogo para dizer com certeza de que lado ela estava. Aparentemente detestava Santana. Por outro lado, procurava conduzir a casa com um mínimo de censo de decência e justiça. A professora entrou no vagão logo por trás de onde Santana estava, conjurando um feitiço de efeito moral para assustar e silenciar os alunos.

"A mesa foi feita para sentar-se a ela, senhor Evans. Ela não é um palco." Flora disse com uma frieza capaz de congelar a espinha de qualquer pessoa. O aluno desceu da mesa, mas não antes de ser triunfantemente ajudado por outros colegas. "Quanto a você, Lopez, acredito que a sua cabine está em outro vagão."

"Sim senhora." Santana acenou. A última coisa que queria para começar o ano em chave de ouro seria procurar briga com algum professor.

"Conversamos em Hogwarts." Disse seca quando Santana passou por ela para se retirar do vagão dominado por simpatizantes de Samuel.

Santana ficou intrigada com a professora. Seja lá o que fosse, era provável que não iria gostar do teor. Ela viu que algumas pessoas da Ordem do Hipogrifo, inclusive a namorada, assistiram ao confronto. Voltou à cabine que dividia com Lily, Rachel, Finn, Hugo e Marley (Quinn não achou uma boa ideia ficar por perto e resolveu viajar com outros integrantes da Ordem do Hipogrifo). Santana e Lily sentaram juntas. Ainda havia muito que resolver entre elas, mas a filha de Harry Potter mais uma vez segurou a mão da namorada e a beijou no rosto, para a surpresa de Santana.

"Será que vai ser sempre assim de agora em diante?" Marley perguntou.

"Se for, vamos encarar." Santana disse com estranha determinação.

...

Se Santana Lopez conhecesse Raul Seixas, talvez ela estivesse cantarolando Metamorfose Ambulante. Não que ela preferisse ser uma. Estava mais para o fato de as circunstâncias a terem forçado a ser uma. Ela, Quinn e Rachel tinham acabado de sair de uma reunião com Neville Longbottom, o novo diretor de Hogwarts depois da aposentadora de Minerva Mcgonagall no período letivo anterior. Eis o problema: Flora Carrow entregou ao conselho de professores um abaixo-assinado dos alunos de Slytherin contra Santana Lopez. O argumento central era de que a escolhida não deveria continuar na casa sendo que ela era supostamente uma Gryffindor. O argumento era lógico. O problema era que se a troca fosse feita, isso confirmaria a profecia e acarretaria em problemas políticos (ainda mais) a ministra da Magia, Hermione Granger. A solução? Santana passaria a vestir uniforme com o brasão de Hogwarts. Essa era a parte que a faria parecer uma metamorfose ambulante. Neville entregou a ela o casaco que ela deveria se apresentar no salão, o mesmo modelo usado pelos novatos antes do sorteio.

Neville bateu o martelo. Decidiu destinar a Santana um quarto individual junto aos prefeitos. Quanto a Quinn e Rachel, Neville decidiu que as duas deveriam voltar aos dormitórios de Slytherin até segunda ordem. Diferente dos demais anos, os dormitórios do sétimo ano eram separados, compartilhado entre dois alunos (até quatro dependendo das circunstâncias). Quinn antecipou-se. Disse que por medida de segurança Rachel deveria ter permissão especial para dividir um quarto com ela. Que, talvez, Sugar Motta também devesse ficar com elas. Os professores não entenderam a inclusão de Sugar, mas não se opuseram.

"Pense pelo lado bom." Rachel cutucou a irmã quando as três saíram da sala do diretor. "Você e Lily serão vizinhas."

"Já nem mesmo sei se isso é algo bom." Santana puxou a cabeça para um lado e depois para o outro na esperança de alongar um pouco a musculatura dolorida. "Eu só quero ir para esse quarto e dormir."

"Simples assim?" Quinn questionou.

"Daqui a alguns minutos a gente vai entrar no salão. Querendo ou não, vocês vão se sentar à mesa de Slytherin, minha namorada vai estar em Gryffindor, onde eu supostamente deveria estar desde o início. Todos os nossos amigos, mal ou bem, tem um lugar. Inclusive Evans tem um. Longbottom vai discursar pela primeira vez como diretor de Hogwarts e os novos alunos serão encaminhados. Todos terão um lugar. Menos eu. Tenho um mundo em minhas costas, mas não me é permitido ter um lugar nele. Então, sim Fabray, eu quero dormir."

"Não seja dramática, San." Rachel deu um tapinha nas costas da irmã.

Santana acenou para a irmã apenas para encerrar o assunto. Rachel não entendia. Mesmo estando ao lado da irmã, ela não fazia a menor ideia. Ninguém consegue sentir a dor do outro. É fisicamente impossível. Procura-se entender, mas a agonia e o sofrimento são individuais. Santana começou a caminhar rumo ao salão, sendo seguida pelas outras duas jovens. Como o que foi dito, chegando ao local, todos tinham lugares, ao passo que Santana ficou em pé no fundo do salão em uma posição solitária. Será que Harry Potter sentiu algo parecido em algum momento? Seja como for, era horrível a ponto de ela não desejar o mesmo nem ao maior inimigo. Olhou para Samuel na mesa dos Hufflepuffs. A história dele era outra: Gryffindors não o queriam, mas os Hufflepuffs cultivavam um código moral que impossibilitava a expulsão dele. Os dois trocaram olhares. Samuel ergueu uma taça de suco de abóbora em direção a adversária.

Que vença o melhor.

...

"Expecto Patronum!"

Marley ficou radiante quando viu surgir da ponta de sua varinha a névoa mágica que logo se transformou em uma lebre. O simulacro do animal começou a saltitar ao redor dela. Era a primeira vez que conseguia conjurar o complexo feitiço com forma. A técnica que Santana a ensinou tornava tudo mais simples do que as explicações complicadas que o professor Mogus Tyrrell balbuciava nas aulas de Defesa Contra Arte das Trevas. Não era apenas de ter memórias felizes. Era preciso encontrar o conforto, um lugar seguro, sólido, praticamente imutável. Para Marley, essa caverna segura era pensar nos momentos em que cantarolava com a mãe dela enquanto as duas preparavam o almoço. Simples, cotidiano, seguro e cheio de amor. Obviamente que Marley teve outros momentos felizes. A questão era a constância de algo que dificilmente alguém poderia tirar dela, por mais que ela enfrentasse tragédias na vida.

Olhou para os colegas treinando na sala precisa. Quase todos estavam admirando os próprios patronos. O de Rachel era um pardal, que fazia todo sentido. Um peixe circulava Finn, o que fez Santana ironizar.

"É isso aí, Hudson. Alimente esse peixe que ele se transformará em uma orca que nem você!"

Hugo era um elefante, Sugar era um mico, Kurt era um gato, Mercedes um cisne, Blaine era um pato, os gêmeos Scamanders tinham lagartos como patrono, Glory era um cachorro. Aurora conseguia liberar a energia, mas sem conseguir definir uma forma. Lily era um cavalo (ou uma égua, dependendo do ponto de vista).

Quinn, sempre analítica, dizia que fazia todo sentido Santana e Lily terem patronos com alguma equivalência. O hipogrifo era uma derivação de um grifo com uma égua. O grifo, por sua vez, era o animal mitológico corpo metade águia e metade leão. Quinn fazia comentários a respeito do significado de cada patrono, com a autoridade que tinha como uma das alunas mais inteligentes de Hogwarts. Era considerada a mais inteligente de Hogwarts. Explicava que Sugar era um mico por ser atrapalhada, brincalhona e esperta. Aurora não conseguia dar forma porque faltava amadurecer a própria personalidade, Hugo era um elefante por sua sabedoria, memória e gentileza. Finn era um cachorro pela lealdade que possuía pela matilha. Os colegas apreciavam a explicação, que nem reparavam que Quinn sequer tentava conjurar. Quase ninguém reparava, mas o fato não passou despercebido nem para Santana e nem para Mike Chang. A primeira estava orientando os demais integrantes da Ordem do Hipogrifo e não estava em condições de confrontar a melhor amiga. Ela ainda não conseguia ter uma conversa franca e em particular com Quinn depois do que se passou nas férias. Mike era outra história.

Depois do treino que consumiu a manhã do primeiro fim de semana em Hogwarts, Mike convidou Quinn a acompanha-lo até o campo de quadribol. Era frustrante para ambos ir ao local sabendo que não teriam condições de jogar naquele ano. Quinn não seria mais convidada a entrar no time de Slytherin, porque basicamente a casa inteira não a queria ver por perto. Mike seria o novo capitão de Ravenclaw. Optou por deixar o comando nas mãos de Lorcan Scamander e se aposentou.

"Não consigo mais jogar." Mike confessou a Quinn quando os dois subiram até as arquibancadas e olharam para o campo vazio.

"Por causa da Brittany?"

"Éramos parceiros. Jogávamos de um jeito que, só de olhar para ela, sabia exatamente o que estava pensando. Era... mágico... Nunca pensei que duas pessoas pudessem ter esse entrosamento em campo e, ao mesmo tempo, a amizade que tínhamos fora dele. Não era apenas um namoro, era uma amizade profunda."

"Você a amava muito." Quinn o consolou.

"Eu a amei com tudo que eu tinha." Mike olhou para as próprias mãos e começou a estalar os dedos. "Se tudo desse certo, eu planejava pedi-la em casamento depois que a gente se formasse em Hogwarts."

"Sinto muito." Quinn olhou para baixo, como se a ponta dos próprios pés lhe trouxesse algum interesse. "Eu não sabia que o namoro de vocês estava tão sério."

"Ninguém sabia... você é a primeira pessoa... Por isso..."

"Não vou falar para ninguém, Mike. Muito menos para San."

"Ela me culpa."

"Claro que não..."

"Eu não sou cego, Quinn. Também não posso reclamar. Eu me culpo! Eu a deixei sozinha naquela festa idiota."

"É por isso que você não está conseguindo conjurar o patrono?"

"Também."

"Também?"

"É coisa com a minha família. Não sei se você entenderia."

"Mike, o meu pai me deu uma tatuagem indesejada." Quinn disse enquanto esfregou o antebraço direito. "Isso nem foi de longe a pior coisa que ele fez comigo. Talvez eu não entenda exatamente a sua dor, mas posso ter uma boa ideia."

"Meu pai é um comerciante. Ele vê o mundo por meio da administração de recursos e de vendas. É o melhor em sua função. Planeja perdas e lucros, investimentos, relações de custo-benefício. Com a família não é diferente. Eu não sou apenas um filho. Eu sou um investimento e, sendo assim, preciso agir como tal e ainda agradecer."

"Dinheiro e comida são coisas que não conseguimos transfigurar."

"É a prova de que o capitalismo é nada mágico."

Quinn gargalhou. Ela nunca prestou atenção ou se importou com as diferenças sociais e de poder aquisitivo entre os bruxos. Em parte, porque sempre foi muito rica e isolada, com o pai escolhendo quem ela deveria se relacionar e quem deveria desconsiderar. Quando era pequena, achava que o pai tinha uma árvore de galeões escondida na mansão. Queria se sentir minimamente culpada por tal descaso. Mas a economia (ou o capitalismo) nunca foi realmente a maior das causas de conflito no mundo bruxo: a busca pelo poder, este sim, era o desejo capaz de travar guerras.

Mike se levantou da arquibancada e contemplou o campo vazio. Desejou encontrar uma pedra só para tentar atirá-la até a arquibancada do outro lado. Pegou uma bala no bolso e a transfigurou. Matou o desejo e arremessou o pequeno pedaço de rocha transfigurado. Não teve força suficiente para chegar até a arquibancada oposta. Quinn apenas o observou em silêncio.

"Ela nunca me amaria da mesma forma." Mike disse em tom melancólico. "Accio pedra."

Não foi apenas a pedrinha. Várias vieram na direção dele e de Quinn. Ela foi rápida e conjurou uma barreira que os protegeu. Mike não pediu desculpas. Escolheu uma pedrinha e a arremessou. Sequer se animou quando conseguiu fazer o arremessou até a arquibancada oposta.

"Britt amava Santana. Ela me falava coisas, sabe? Que ficou com Evans para magoar Santana por causa do tal bilhete. Disse que ia terminar com ele quando descobriu que se tratava de uma conspiração. Mas mudou de ideia de repente. Em vez disso, transou com ele."

"Como assim? Mudou de ideia de repente?" Quinn lembrou da breve investigação que havia feito aos atrás, quando levantou a hipótese de que Evans manteve o relacionamento com Brittany por tanto tempo usando algo semelhante a uma poção do amor.

"De repente. Num dia, ela falou comigo que ia terminar, que o bilhete era falso e que tudo foi um mal-entendido. Uns dias depois ela vem falar comigo com um sorriso no rosto dizendo que tinha perdido a virgindade pro Evans, que foi maravilhoso e todas essas merdas."

"De repente?"

"É Quinn, de repente... ela transou com Evans, e os dois ficaram que nem coelhos por meses. Você conhece a história. Só que Santana que não a queria mais, e ela ficou puta. Foi por isso que ela começou a namorar comigo. Eu aceitei ser o rebound porque eu era louco por ela. Depois, tudo melhorou. Acho que ela desencanou quando entendeu que Santana e Lily eram coisa séria. Só então as coisas começaram a fluir entre nós. E foi mágico!"

Quinn abraçou de lado o amigo, encostando a cabeça no ombro dele.

"Às vezes eu a culpo, sabe? Santana... às vezes eu a culpo. Ninguém tira da minha cabeça que Brittany foi assassinada para atingir Santana."

"Mike." Quinn acariciou o braço do amigo. "Não diga isso. Há coisas que não podemos controlar ou prever."

"Eu desejaria ter um vira-tempo!"

"Viajar no tempo só cria confusão paradoxal. Não tem a menor utilidade."

"Eu mudaria o universo para salvar ela, Quinn. Nem ligaria para a consequências."

Quinn franziu a testa e ficou pensativa. Queria poder fazer alguma coisa para tirar o amigo daquele estado de tristeza. Ao mesmo tempo, não conseguia parar de pensar nas novas informações que Mike trouxe sobre o relacionamento entre Brittany e Samuel. Sentia que deveria retomar as investigações. Pensar no que poderia estar envolvido fez o estômago de Quinn revirar. Em outro tempo, daria o benefício da dúvida a Samuel. Não mais.

...

O Profeta Diário exibia Hermione Granger na manchete de capa. Ela estava com um lindo sorriso triunfante em primeiro plano. Pessoas comemoravam atrás dela, entre elas Harry Potter, Percy Weasley e Luna Scamander. Tratava-se da vitória que o governo britânico teve no Comitê Internacional de Bruxaria a respeito do apoio político das principais nações do mundo sobre a política de combate ao extremismo que estava sendo aplicado no Reino Unido. Percy Weasley, como o atual representante do Reino Unido, requisitou uma assembleia com a presença de Hermione. Na viagem até a Irlanda, Hermione fez um discurso eloquente sobre a política que era desenvolvida no Reino Unido para precaver a ascensão de um novo lorde das trevas.

Santana lia as notícias com certa esperança. Ela estava sentada numa mesinha de canto na cozinha de Hogwarts enquanto comia uma rosquinha e tomava um chá antes de seguir para as aulas. Desde que tornou-se uma 'sem-casa' em Hogwarts que tinha evitado ir ao salão. Até que ela gostava da confusão dos elfos na cozinha. Chef Daniels era um pequeno homem enlouquecido com os pequenos ajudantes. Pela gritaria e confusão que era aquela cozinha, Santana até se surpreendia como a inusitada equipe conseguia preparar comidas tão deliciosas a ponto de causar inveja aos maiores chefs do mundo. A magia ajudava.

"Menina Santana está sorrindo." Simons surgiu na frente da estudante, a fazendo derramar um pouco do chã à mesa devido ao susto.

"Ei, narigudo."

"Menina Santana nunca sorri quando está longe da filha do Potter."

"Até parece!" Santana revirou os olhos. Não negava que amava Lily, mas se recusava a dizer que se portava como um cãozinho manso perto da outra garota, como Rachel costumava zombar.

"Por que a menina Santana está sorrindo?"

"Boas notícias!" Santana mostrou o jornal para o elfo.

Infelizmente Simons não sabia ler, mas sorriu ao ver a fotografia de uma grande aliada da espécie dele. Foi Hermione Granger que garantiu direitos mínimos aos elfos domésticos, inclusive a liberdade compulsória após anos de serviços. A maioria dos elfos recém-libertados, no entanto, se recusava a deixar a casa do patrão e continuava a trabalhar recebendo alguns sickles por mês.

"O que diz?" Simons perguntou.

"Que eu posso ser livre algum dia."

"Menina Santana não é uma escrava."

"Não sou, narigudo. Mas é como se eu fosse."

Santana fez um breve afago na cabeça da criatura mágica, o fazendo sorrir e seus olhos brilhares. Podia-se contar nos dedos das mãos das vezes que algum elfo doméstico recebia qualquer carinho de um humano. Ela saiu da cozinha e torceu pela enésima vez para não cruzar o caminho com Samuel Evans. Ela não conseguia ao menos dar o benefício da dúvida ao oponente. Tudo que conseguia pensar toda vez que via Evans era: será hoje o dia? O que prevenia o confronto direto era o fato de ele estar numa série inferior pelo ano que perdeu e pelo tremendo autocontrole de ambas partes.

A primeira aula do dia era de feitiço. Seguiu até a sala de aula que continha alunos do sétimo ano. Acenou para Lily e foi em direção a namorada.

"Oi!" Santana sentou-se ao lado de Lily sem a tocar. Naqueles dias, ela esperava que Lily tomasse a iniciativa de qualquer contato. "Oi Melissa... Bail." Cumprimentou rapidamente o outro casal.

"Como foi o café da manhã na terra dos elfos?" Melissa disse tentando soar engraçadinha, mas não conseguiu disfarçar muito bem a antipatia que sentia pela outra.

"Prefiro a companhia dos elfos do que de muita gente. Pelo menos eles são leais."

Melissa apertou os olhos com raiva. Ela despediu-se do namorado e acompanhou as garotas para dentro da sala circular em forma de anfiteatro. Havia apenas nove alunos do sétimo ano aceitos para frequentar o nível avançado da aula de feitiços. Lá estavam Quinn, Santana, Mike, Melissa, Lily, Netunus Black, Andrew Lothar, Nina Carry e Sonny Beaver. Como sempre, Lily e Santana sentaram lado a lado, com Quinn sempre próxima, ou uma fileira à frente ou atrás.

O professor Flitwick entrou em sala, fazendo as preparações devidas para a aula do dia. Alinhou três manequins, um recipiente de água vazio e uma caixa. Distribuiu uma lista para os alunos com cinco feitiços que eles deveriam fazer sem verbalizar. Cada aluno deveria cumprir a lista dos feitiços conjurados em torno dos objetos. Um a um, eles tentaram conjurar os feitiços de nível mediano para difícil sem verbalizar. Quinn e Sonny Beaver foram aqueles que conseguiram completar a tarefa com louvor. Santana foi a última ser chamada para fazer o exercício. Ela se levantou e foi até o primeiro objeto.

"Espere!" O professor a interrompeu. "Eu sei que você vai conseguir cumprir essa tarefa. Por isso quero que você tente fazer sem varinha."

"Professor... eu não sei se seria prudente." Santana ficou incerta.

"Eu sei que você treina feitiços sem varinha há anos e sei que já consegue dominar vários deles. Não espero que você possa fazer toda a lista nessas condições, mas eu gostaria muito de ver até onde poderia ir."

"Professor, os feitiços que consigo dominar sem a varinha são os básicos. Não é muito diferente do que os elfos domésticos já fazem. Eu não sei se conseguiria fazer essa lista sem a varinha e sem verbalizar."

"Tente. Vamos fazer essa experiência. Se você fizer dois corretamente, passará no teste com honras."

"Desde quando isso é legal?" Melissa se intrometeu. "A prática de magia sem varinha é uma violação das convenções internacionais. Apenas os alunos africanos são autorizados no treinamento de algumas práticas por questões culturais." Argumentou usando o conhecimento de quem se preparava para seguir a carreira jurídica.

"Não é necessariamente ilegal." Esclareceu o professor. "É apenas não-convencional e pouco eficiente. Já que Santana faz feitiços sem varinhas, como professor, é meu dever avaliar se é seguro um aluno arriscar-se em tais práticas." Olhou para a aluna e acenou. "Senhorita Lopez. Quando estiver pronta."

A primeira tarefa era fazer o manequim flutuar. Era o famoso wingardium leviosa, que era relativamente simples de se fazer verbalizado (um exercício obrigatório para alunos do primeiro ano), mas que ganhava em complexidade para que fosse possível executá-lo em silêncio. Santana apontou para o manequim com a palma da mão esquerda aberta e com os cinco dedos direcionados para o objeto. Aprendeu na prática que se executar um feitiço sem varinha com a mão aberta era muito mais fácil e seguro do que fazer apontando apenas o indicador. Fazer um feitiço sem verbaliza-lo era um ato de muita concentração. Era preciso que pensamento e vontade de fazer um determinado feitiço e o movimento da varinha estivessem perfeitamente coordenados. Fazer tudo isso sem a varinha era ainda mais complexo e perigoso pela ausência do catalizador mágico.

Santana concentrou-se e movimentou o corpo como uma breve dança. De repente, o manequim começou a flutuar. Parte dos alunos aplaudiram. Netunos e Melissa permaneceram em silêncio. O segundo feitiço era para fazer o manequim dançar. Santana levou um pouco mais de tempo para começar a executar o feitiço. Fazer feitiços sem varinha cansavam mais. Mais uma vez, ela conseguiu executar perfeitamente. Olhou para o professor achando que já era suficiente, mas Flitwick gesticulou para que ela continuasse. O terceiro feitiço era expelliarmus. Santana já havia tentado fazer o feitiço diversas vezes sem varinha com resultados longe de serem satisfatórios. Era um feitiço que exigia reflexo e rapidez. Com a varinha, Santana podia executá-lo até dormindo. Sem a varinha, ela tinha dificuldades de dosar a energia. Não por um acaso. Quando tentou fazê-lo em sala, acabou fazendo com que o manequim chocar-se violentamente contra a parede, em vez de apenas desarmá-lo. A aluna olhou constrangida para o professor.

"Continue." Flitwick incentivou.

Santana olhou para o recipiente e suspirou. Ela nunca tentou gerar água sem varinha e ali estava mais um feitiço que poderia terminar errado. Procurou concentrar-se apenas no recipiente e esquecer o resto da sala. Ensaiou alguns movimentos com a mão e optou por curvá-la em formato de concha e fez o movimento em cima do recipiente. Para a surpresa dela, e de todos ali, funcionou.

"Uau!" A própria Santana ficou surpresa.

"Eu sabia que você conseguiria!" Lily estava radiante.

"Parabéns, Lopez. Você não inundou a sala!" Quinn provocou com um pequeno sorriso no rosto. Ela estava orgulhosa da amiga.

"Isso acontecesse, era só você transfigurar essas mesas numa canoa." Santana respondeu, lembrando que, de fato, Quinn era considerada a melhor aluna em transfiguração de Hogwarts.

"Senhorita Lopez, falta um."

Santana olhou para a caixa e procurou voltar a se concentrar. Estava mais cansada do que normalmente ficaria caso estivesse usando a varinha. O último exercício era o de duplicação do objeto. Era o feitiço mais complexo dos cinco da lista. O professor Flitwick esperava que a aluna falhasse no último desafio. Era a tese que ele tentava comprovar sobre estudos sem varinha, uma vez que era um dos defensores do tratado que condicionava a prática da magia ao instrumento. Santana executou o feitiço e não foi bem-sucedida, como Flitwick previu, porém não da forma como ele imaginou que seria: a caixa não parou de se multiplicar.

"Oh, Merlin! Oh, Merlin!" Santana arregalou os olhos e deu alguns passos para trás ao ver que não conseguia conter o estrago.

"Finiti incantantem." Flitwick parou a duplicação de caixas. Fez isso da forma tranquila de um profissional que estava ali para conter as incontáveis besteiras que os alunos costumavam cometer no processo de aprendizagem. "O exercício foi interessante. Turma dispensada, menos você, senhorita Lopez."

Os alunos pegaram rapidamente os respectivos materiais e saíram quase correndo da sala para aproveitar os 20 minutos a mais que teriam de folga entre uma aula e outra. Santana, desanimada, apenas sentou-se de volta à bancada que costumava dividir com Lily.

"Sinto muito, professor." Santana lamentou desanimada e um pouco assustada.

"Foi melhor do que o esperado, mas eu recomendaria fortemente que você parasse com tais práticas." Flitwick arrumou o pequeno terno e olhou para cima, para a aluna. "Como se sente?"

"Cansada. Fazer feitiços sem uma varinha cansa muito."

"Porque a varinha otimiza e equilibra a energia mágica necessária. Quando você pratica qualquer magia sem uma, sua energia é dispersa livremente. Usar varinha é como voar de vassoura. Usar apenas as mãos é como correr 100 metros rasos. É mais impressionante, porém nada prático, entende? Você deveria parar com isso."

"Professor, o senhor sabe de algo que eu não saiba, mas que deveria saber?" Santana franziu a testa. Essas conversas em particular com professores nunca eram livres de assuntos relacionados a profecia.

"Ok..." o professor parecia tentar encontrar as palavras certas. "A senhorita sabia que Sybill Trelawney foi quem te profetizou?"

"Não senhor. Ela não está aposentada?"

"Aposenta-se da docência, mas não desse dom. Trelawney profetizou você-sabe-quem e todas as previsões mais importantes das duas últimas décadas. É algo muito interessante de se testemunhar, inclusive. Trelawney é uma farsante quando está consciente. É exagerada e excêntrica. Porém, quando entra em transe de repente, é quando tudo acontece. São essas profecias que são verdadeiras. Ela fez três correlacionadas no espaço de um mês ao seu respeito e do outro."

"Quais foram as outras duas profecias correlacionadas?"

"Não posso dizer. Porém houve um efeito colateral curioso quando Trelawney profetizou a principal. Ela desenhou num pedaço de toalha, o que é incrível porque Trelawney não consegue rabiscar nem a figura de uma árvore. Nesse desenho havia duas pessoas. Uma com varinha e a outra sem."

"O que acontece nesse desenho, professor?"

"A pessoa que está sem varinha está ajoelhada, como se esperasse pelo golpe de misericórdia."

"O senhor acredita que aprender a usar magia sem varinha vai me levar a esse cenário?"

Flitwick pegou a varinha de Santana que estava presa ao cinto do uniforme da garota e colocou o objeto nas mãos dela.

"Não usar a varinha é bom para o espetáculo, mas você deveria se concentrar no que realmente funciona para o seu bem e o bem de todos."

...

Quinn soltava o pomo no ar. Era uma versão mais lenta do que a bola oficial, enfeitiçado para partidas amadoras. Ainda assim, era bastante rápido para olhos displicentes. Quinn visualizava a bolinha, acompanhava o movimento e depois a capturava. Repetia o processo. A bolinha voava, ela esperava um pouco e a capturava.

"Vai voltar ao time?"

Quinn foi surpreendida por Lily. Ela olhou para trás e viu a gryffindor entrando na torre de astronomia, que estava vazia àquela hora da tarde. Lily caminhou até a janela e observou a bonita paisagem. Então voltou-se para Quinn.

"É uma pena, não é mesmo?" Lily encostou-se contra a coluna ao lado do janelão. "Logo no ano que Slytherin tinha chances de dominar o quadribol, você e Santana estão fora do time."

"Faz parte." Quinn disse sem querer se alongar a conversa. Ficar no mesmo ambiente que Lily não era confortável. "pelo menos você terá a sua chance de se despedir de Hogwarts com um título, não é mesmo?"

"É possível. Mas não tem a mesma graça quando os principais jogadores adversários estão de fora. Você e Mike estão fora, Brittany se foi, Santana sequer mais tem uma casa para defender."

"É a vida."

Quinn queria que a conversa fosse a mais breve possível. Lily, no entanto, estudava a outra garota, como se desejasse ver além do corpo físico. Isso era perturbador. Lily cruzou os braços e hesitou por um momento fazer a pergunta. Que serventia teria naquela altura dos acontecimentos? Santana e ela estavam se acertando, então por que confrontar Quinn? Poderia ser tolo e um movimento estúpido, mas Lily precisava saber o lado da adversária.

"Pergunta logo, Potter. Eu sei que você quer saber o que e sinto por Santana, não é mesmo?" Quinn revirou os olhos.

"Já que você fez a pergunta por mim..."

"Eu já disse que eu vou ficar na minha e não vou me intrometer entre vocês duas."

"Já entendi essa parte. O que eu quero saber, por você, é o que aconteceu no dia em que vocês... você sabe."

"Bom..." Quinn olhou para o pomo de ouro enquanto conversava com Lily. "Rachel, San e eu estávamos sozinhas em Kohadjo. A gente fez uma brincadeira de responder perguntas de cunho íntimo e quem se recusasse tinha de beber. Nós três ficamos bêbadas. Então quando Shelby e Sue chegaram e nos mandaram tomar uma chuveirada para cortar um pouco da embriaguez, Santana e eu dividimos o banheiro. Foi quando aconteceu. Agora você não vai querer detalhes, não é? Isso seria doentio."

"Eu não quero detalhes, Fabray. Quero saber o que você sente por ela? A verdade."

"Eu a amo. Essa é a verdade."

"Quanto?"

Quinn segurou o pomo e o guardou. Então levantou-se, pegou a varinha e fez um gesto bem articulado.

"Expecto Patronum."

O feitiço funcionou em parte. Uma nebulosa saiu da ponta da varinha de Quinn, e era forte suficiente para espantar um dementor, caso fosse necessário. Mas não tinha forma. Como Lily não estava impressionada, Quinn resolveu esclarecer.

"Eu não conseguia executar esse feitiço, porque a minha vida nunca foi exatamente boa e livre de traumas. Mas depois daquele dia, só em imaginar o que rolou naquele banheiro, o que Santana me fez sentir apesar de tudo que passei, eu consegui executar um patrono, mesmo que ainda sem forma. Você me pergunta o quanto eu a amo? Essa é a sua resposta. O meu momento de felicidade foi quando a sua namorada me comeu e me fodeu no chuveiro."

Lily ameaçou avançar sobre Quinn. Precisou se conter. Foi ela que procurou saber, afinal. Além disso, o que Quinn teria a perder em dizer exatamente o que pensava? Por isso a Gryffindor se conteve. Ela percebeu ali que aquela sombra sempre existiria, não importava o que acontecesse. A questão era: Lily estava disposta a aceitar a realidade como ela era e enfrenta-la? Analisou os próprios sentimentos e ela odiou a si mesma por entender exatamente o que Quinn sentia.

"Guarde muito bem essa memória." Lily disse em tom duro, determinado. "Porque será a única que você terá com Santana."

...

Lily correu pelos corredores de Hogwarts. Estava uniformizada para o treinamento de quadribol e a caminho do campo. Era capitã do time que de antemão era considerado o favorito, pois contava com todos os principais jogadores e tinha uma base forte que garantia a renovação para depois que Lily e Bail se formassem. O plano daquele dia era treinar. Era. Assim que Lily viu Marley Rose, Hugo Weasley e Lysander Scamander discutindo com outro grupo de alunos aparentemente partidários a Evans, ela precisou intervir, sobretudo porque ainda era prefeita e essa era uma das obrigações dela. Pegou a varinha e conjurou uma bomba luminosa, estourada no teto acima do grupo. Os meninos se assustaram.

"O que está acontecendo aqui?" Lily chegou com autoridade.

"Esses babacas não podem passar por nós sem provocação."

Lily balançou a cabeça quando percebeu que os três Hufflepuffs estavam brigando com colegas da própria casa. Era o efeito que Samuel Evans fazia em Hogwarts.

"Rose, Weasley e Scamander, me acompanhem. Enquanto vocês, peguem o beco!"

"Aproveite o pouco de poder que ainda tem, Potter. O dia está chegando." Um dos Hufflepuffs ameaçou e virou as costas.

Lily suspirou. Aquilo era exaustivo. Era como se a guerra já estivesse começado. Todo dia havia alguma discussão, todo o dia ouvia-se alguma coisa, todo dia havia um confronto de alguma natureza.

"Vocês deveriam evitar esses canalhas." Lily bronqueou.

"Como, se a gente é forçado a conviver com eles na mesma casa?"

Hugo tinha um ponto, e a questão parecia sem solução.

"Olha, eu vou treinar e vocês, por favor, vão fazer qualquer outra coisa. Vão cantar no coral ou algo assim, ok?"

Lily seguiu para o campo e viu a equipe se aquecendo. Não havia muito mistério: só precisavam ensaiar alguns ataques e treinar um pouco das técnicas básicas. Olhou para a arquibancada e viu Santana e Kurt sentados juntos. Um, é claro, não conversa com o outro. Kurt estava lá por causa de Blaine, e Santana por causa de Lily. Mas a chosen one sequer estava prestando atenção nos treinamentos. Ela parecia mais interessada em ler um livro.

Lily precisava admitir que Santana estava se esforçando. Ela não havia se afastado de Quinn, mas mantinha certa distância, estava estudando mais, treinava com mais afinco, e procurava ter mais equilíbrio sempre que se encontrava em algum debate. Era admirável acompanhar tal evolução. Quando o treino chegou ao fim, Lily foi até a arquibancada. Cumprimentou rapidamente Kurt, que já saia dali para falar com o namorado dele.

"Está afim?" Lily jogou a goles para Santana. "Você precisa desenferrujar um pouco."

Santana acenou. Esticou o braço e esperou que uma vassoura fosse até ela, o que eventualmente aconteceu. Lily sempre se impressionava com a demonstração de poder. As duas saíram voando pelo campo, trocando alguns passes. Era apenas um exercício leve, básico, mas que estava fazendo muito bem a Santana.

"Você não perdeu o jeito." Lily elogiou quando as duas pousaram no gramado.

"Está brincando? Amanhã vou amanhecer com os braços doloridos."

Lily sorriu e Santana também. Então ela sorriu mais. Sentia falta de tais momentos, de serem apenas elas mesmas falando de coisas triviais, de rotinas com uma certa dose de humor. Lily puxou o braço de Santana e trouxe a namorada para junto de si. Sem aviso prévio, beijou a namorada pela primeira vez em semanas. Foi um beijo tênue, mas cheio de significado.

"Lil?" Santana perguntou assim que abriu os olhos. Estava aproveitando a boa sensação que a carícia lhe trouxe.

"Não estou dizendo que você está perdoada. Mas posso dizer que ao te punir, eu acabei me punindo também!" Lily abraçou a namorada e falou no ouvido dela. "Porque me privar disso aqui também foi tortura."

"Você nem sabe como!" Santana sorriu e as duas voltaram a se beijar.

"Isso me faz lembrar que eu ainda não vi o seu novo quarto."

"Não é muito diferente do seu, mas posso mostrá-lo."

Lily pegou a mão da namorada e as duas caminharam juntas com os dedos entrelaçados. Ainda havia muito para se acertarem, havia muito a se perdoar, mas era consenso entre elas que a situação de estarem juntas. Ficar separadas só as feriam profundamente. Estava mais que na hora de voltarem a se permitirem amar. Santana sabia que era de Lily, e que Lily era dela. Quinn alguma poderia quebrar esse laço.

...

O homem careca conferiu mais de uma vez as credenciais. Apontou a varinha para o visitante e nada encontrou de errado. Parecia que estava tudo no lugar: documentos batiam com a descrição e não havia traços de porções de polissuco. O visitante estava liberado.

"Pode entrar, senhor Potter. Conhece a rotina."

Harry acenou para o guarda carcerário de Azkaban. Ele odiava aquele lugar com toda as suas forças. A estrutura do prédio de segurança máxima era sólida e reforçada desde a última fuga em massa, antes da segunda guerra bruxo. As paredes eram acinzentadas, as grandes grades eram pintadas de branco, e tinha aquele cheiro horrível que exalava de dentro da prisão que parecia nunca sair por mais que a limpeza fosse feita.

Deixou a varinha e outros pertences pessoais no guichê. Caminhou pelo corredor que dava acesso a sala de visitas e também a sala de interrogatório usadas pelas autoridades, como aurores e advogados. Esses últimos circulavam com menos frequência porque só entrava em Azkaban aqueles que já estivessem sentenciados. Como autoridade máxima entre os aurores, Harry cumprimentou os carcereiros pelo caminho até chegar à sala de interrogatório. Ela era pequena, com duas portas, nenhuma janela, e mobiliada apenas com duas cadeiras e uma mesa, tão genérica quanto as que eram mostradas nos filmes. A diferença era que não havia câmeras ou um espelho para disfarçar a presença de terceiros numa sala anexa. Harry sentou-se numa das cadeiras e esperou a chegada do prisioneiro.

Dois minutos depois, Russell Fabray chega acompanhado de um carcereiro. Estava com algemas que prendiam os pulsos e os tornozelos. Harry achava que uniforme de algodão grosseiro branco com listras pretas definitivamente deveria mudar. Era depressivo demais para um lugar horrendo por natureza. Russell fez uma careta quando viu a autoridade e sentou-se na cadeira vaga, sem se importar em disfarçar no quanto estava descontente. Harry acenou para o carcereiro e pediu gentilmente para deixá-los às sós.

"Fabray." Harry cumprimentou com um aceno.

"Potter. Você me tirou em meio a minha refeição. Não espere que eu vá te agradecer por me fazer comer apenas a metade daquela gororoba horrenda que é servida aqui."

"Batata, legumes, macarrão, sucrilhos... não é um cardápio sofisticado, mas é uma comida decente."

De fato era. Ao contrário de outros tempos em que os condenados eram simplesmente jogados em um buraco imundo e comiam praticamente uma lavagem, desde a reforma que certas políticas mudaram. Azkaban era limpa pelos próprios presos como parte da condição de pouparem as respectivas famílias em desembolsar ainda mais dinheiro para cobrar parte dos custos que os presos geravam para os cofres do Ministério da Magia. Os presos tinham direito a duas refeições por dia e leite com pão no jantar. Alguns dos alimentos servidos eram produtos industrializados dos muggles, o que irritava imensamente bruxos supremacistas como Russell Fabray.

"Você não veio aqui discutir cardápio comigo, Potter. Desembucha."

"Acredito que sua esposa Judy lhe deu as notícias quando veio te visitar dois dias atrás."

"Os Tornados têm um novo dono... sim... ela disse que o time foi vendido."

"É uma boa coisa. Os Tornados vão poder voltar a jogar a próxima liga nacional. Ouvi dizer que Tony tem planos para contratar uma equipe jovem, por ser mais barata. Estão pensando, inclusive, em contratar a sua filha como apanhadora. Irônico, não?"

"Eu tive uma filha, senhor Potter. Ela morreu afogada anos atrás."

"Você deveria se orgulhar de Quinn. Ela está se saindo muito bem, apesar de tudo o que você fez com ela."

"Tudo que fiz foi educá-la."

"Não. Tudo o que você fez foi oprimir, torturar e até mandar estuprar a própria filha. Sinceramente, até hoje eu não me conformo por ela ter sido incrivelmente caridosa com um asco como você e não ter te denunciado formalmente por nenhum desses crimes."

"Acredito que o senhor também não esteja aqui para trocarmos notas de como criar filhos." Russell falou como se estivesse entediado e até revirou os olhos.

"Também não... O que o senhor sabe sobre o Mosteiro de Kotti?"

"O que sei sobre o Mosteiro de Kotti é o que todos sabem a respeito do Mosteiro de Kotti: que é um lugar sagrado para qualquer bruxo com o mínimo de orgulho e decência."

O Mosteiro Kotti é um pequeno forte construído nos Século XI no extremo norte da Escócia. O forte foi erguido pelos druídas durante as Cruzadas, que foi um momento histórico que dizimou praticamente toda população bruxa na Europa, na costa mediterrânea da África e no Oriente Médio. O mosteiro ficou conhecido como "o último refúgio". Em 1706, aconteceu a segunda guerra bruxo-muggle como consequência da Inquisição. A guerra durou apenas seis meses, mas foi um massacre que provocou a morte de 30 mil bruxos apenas na Europa, quase 80% da população total à época. O Mosteiro Kotti, mais uma vez, serviu de último refúgio a muitos dos bruxos.

Ulick Gamp fez as negociações de paz junto à coroa inglesa, e foi a partir desses tratados que ele fundou o Ministério da Magia, como um braço secreto e integrante primeiro do governo nascente do Reino Unido. O Mosteiro Kotti foi um dos cinco locais no Reino Unido que não foi revelado a coroa britânica. A ideia é de que ele e os outros quatro locais continuem a ser o último refúgio em caso de uma nova guerra com o muggles. Daí é que vem a ideia de o Mosteiro de Kotti é um lugar sagrado para muitos dos bruxos, em especial dos puro-sangue.

Em tempos de paz, o Mosteiro Kotti é um lugar de retiro espiritual administrado por sacerdotes druidas. O que pouquíssimas pessoas sabiam era que a Ordem dos Puros atuava nos porões em Kotti. Ninguém fora da Ordem dos Puros sabia que tal organização existia. Nem mesmo Dumbledore ou Voldemort puderam conhecer simplesmente por serem mestiços.

Russell Fabray era um puro-sangue, mas não integrava a Ordem dos Puros. Nunca foi convidado, ou seja, nunca teve um mestre que o conduzisse a organização. Ele não tinha ideia do que realmente acontecia em Kotti além do simbolismo. Russell era um peão muito rico e orgulhoso demais para enxergar que ele e o grupo de ricos sonegadores que liderava eram peças manipuladas por pessoas que visavam mais o poder do que o dinheiro. Harry sabia que Russell dava importância demais a si mesmo, mas era o melhor que tinha à disposição.

"O senhor esteve lá há três anos. O que viu?" Harry procurou conduzir o raciocínio.

"Um lindo forte, jardins floridos apesar do clima pouco agradável. Havia cinco monges internos fazendo a organização e manutenção do mosteiro e apenas dois visitantes além de mim."

"Quem?"

"Virgo Wilde e Anne Lestrange."

Virgo era o sócio de Russell, pai de Kitty Wilde. Ele também estava preso em Azkaban. Anne era mãe de Priscila Lestrange, que já havia se formado em Hogwarts e atualmente estagiava no Departamento de Educação Mágica. Anne era uma conhecida supremacista e chegou a ser presa, porém foi logo liberada por falta de provas. Até esse ponto, não havia nada de estranho que os três tivessem viajado juntos para o refúgio conhecido. Estranho era que os três nunca foram pessoas espirituais.

"Se importa em dizer o que foi fazer lá?"

"O que todo mundo faz em mosteiros, Potter: procurar um pouco de paz interior."

"Tem certeza?"

"Olha, se quisesse fazer negócios, simplesmente marcaria uma reunião no meu escritório. Ou se as circunstâncias pedissem, promoveria uma pequena festa. Eu não viajaria de expresso até os confins da Escócia para ficar num lugar em que você fala sussurrando."

Harry encostou-se na cadeira. Ainda não estava convencido.

"Ainda tem contato com Aramis Black?"

"Estou na prisão. Não é que consiga construir uma vida social com as pessoas que não estão aqui. Não vejo Aramis há muito tempo."

"Triste..." Harry estava desgostoso. "Considerando que você deu a ele a virgindade da sua própria filha, pensei que tivesse alguma importância."

"Por que não vai direto ao ponto em vez de ficar fazendo perguntas inúteis?"

"O que sabe sobre os planos de Blaise Zabini?"

"Nada."

"Vocês nunca entraram em contato antes de você ser preso e ele desaparecer com Samuel Evans?"

"Blaise Zabini era um homem agradável até a tal viagem desastrosa que ele fez para a Escandinávia anos atrás. Costumávamos tomar uísque juntos na minha casa em Tutshill. Mas era uma socialização normal entre bruxos que tinham ideais em comum. Certa vez, eu propus negócios relacionados ao comércio de embarcações para bruxos, mas ele nunca ficou interessado. Depois que ele ganhou aquela cicatriz horrenda no rosto, perdeu quase toda fortuna e tornou-se um solitário. É o que sei sobre ele, além de ser o melhor com porções em todo Reino Unido."

"Então vocês nunca fizeram parte da mesma célula de supremacistas?"

"Não. Zabini tornou-se quase um fanático religioso. Um pregador. Nunca foi o meu tipo. Fico surpreso que ele tenha encontrado Evans primeiro do que nós e vocês, aparentemente."

"Cometemos um erro de julgamento."

"Por causa de Santana Lopez, posso presumir. Ela não se comporta exatamente como a escolhida cheia de ética e moral, assim como você era com a mesma idade." Russell acenou com satisfação por entender que não foram apenas eles os incompetentes. "Diga uma coisa, Potter. Por que nem Zabini e nem Evans estão presos aqui com o resto de nós?"

"Eles não cometeram ainda nenhum crime que possamos provar."

"Evans vai matar pessoas. É a natureza dele. É como ele foi doutrinado. Isso vai acontecer bem debaixo do seu nariz, devo acrescentar. Na verdade, eu acho que ele já fez. Nenhum lorde das trevas ascende praticando caridade."

"O que realmente sabe, Fabray?"

"Repito: não sei de nada."

"Acha que ele é o assassino de Brittany Pierce?"

"Esse é um erro que você e a digníssima ministra sangue ruim cometem. Vocês quiseram ser tão justos que terminaram por burocratizar nosso sistema. Ele se tornou tão ineficaz quanto dos muggles."

"Talvez. Mas o sistema te colocou aqui."

"Eu sou peixe pequeno."

"Não, você é um sonegador, um fraudador, um explorador da prostituição infantil." Harry foi contando nos dedos os crimes pelos quais Russell foi julgado e condenado.

"Garotas muggle..." Russell desdenhou.

"Seres humanos!"

"Que tiveram o privilégio de ter o mais puro esperma mágico dentro delas sem ao menos merecer uma gota que fosse."

Harry sentiu vontade de avançar sobre Russell para enchê-lo de porrada. No entanto, o trabalho como auror lhe ensinou a ter autocontrole exemplar. Caso contrário, teria sérios problemas em investigar o submundo do mundo bruxo, que não era melhor em nada do que o dos muggles.

"Você me enoja, Russell. Fico feliz que você terá mais 14 anos para apodrecer aqui dentro. Sem mais perguntas."

Harry levantou-se, arrumou o terno e saiu da sala de interrogatório com a cabeça erguida. Pelo menos, a conversa com o ser desprezível serviu para ele ter a certeza de que havia algo estranho acontecendo no Mosteiro Kotti. Por isso mandaria um auror disfarçado para investigar as rotinas dentro do mosteiro. Por outro lado, Harry deixou Azkaban perturbado com o alerta de Russell a respeito de Samuel Evans. O garoto já teria matado. Quem? Brittany? Mais alguma pessoa? Quem estava desaparecido? George Patton. Será? Harry precisava checar isso mais profundamente o mais rápido possível. Se ele conseguisse provar que Samuel Evans matou, talvez poderiam ganhar a guerra.

...

Samuel sabia que estava no caminho certo quando, ao voltar para Hogwarts, ele viu pela primeira vez um thestral. Só as pessoas que tinham conexão com a morte podiam enxergar tal criatura. Harry Potter achava que tinha por causa da mãe, mas a verdade é que ele só foi enxergar tal criatura pela primeira vez após ser impactado pela morte de Cedric Diggory. Luna Scamander também. Não bastava apenas matar, quase ser morto ou ver alguém morto. Era preciso ser impacto, ter relação com o outro. Samuel foi impactado quando matou Brittany Pierce porque, apesar de tudo, foi uma pessoa que ele chegou a amar.

Quando ele se preparou para começar a fazer todas as etapas para a fabricação de uma nova varinha das varinhas, ele pensou seriamente nas pessoas que amava e que mata-las o impactaria. Ele nunca ligou de verdade para os irmãos ou para os pais. Ficou em dúvida sobre as mulheres que chegou a amar. Quinn ou Brittany? Uma era um desejo antigo que ele nunca teve certeza se era realmente amor, mas havia algum sentimento. Brittany foi sim um amor, mesmo que por um curto período. Ele escolheu Brittany pela oportunidade. E a matou a olhando nos olhos, a segurando para que não caísse. Foi um assassinato feito com esmero, e que o fez chorar.

Isso o levou a segunda etapa. Samuel escapou à noite do castelo em direção a floresta proibida. Evitou passa próximo a casa de Hagrid e caminhou diretamente a espécie de rancho em que os thestrals circulavam. Eram criaturas horríveis aos olhos de Samuel. Diferente do que aconteceu com o unicórnio, ele não teria pena alguma em matar tal criatura. Ficou enojado pela aparência esquelética, pelas asas de morcego, pela cor escura. Thestrals podiam ser animais hostis, difíceis de serem domados. Mais do que isso, por serem animais ligados à morte, começando com a predileção por comer carne apodrecida, eles sentiam o predador e respondiam à altura.

Quando Samuel puxou a navalha, houve uma agitação. Parte dos thestrals voaram, parte ficou para enfrentar o predador e proteger a tropa. Samuel atacou os animais com mágica.

"Estupefaça!" Samuel atacava e tentava correr dos animais destemidos. "Estupefaça!" dizia repetidamente.

Mas os thestrals continuavam a proteger os seus. A asa de um deles atingiu o peito de Samuel, abrindo um corte profundo. O bruxo das trevas gritou. Foi atingindo outras vezes pela ponta afiada da asa na perna, no braço, no abdômen. Samuel gritava e gritava. Sabia que estava distante suficiente do castelo para ninguém ouvi-lo. Levou um coice e o impacto o fez perder o fôlego. Ele recuperou o fôlego. Uma fúria invadiu o peito dele. Samuel gritou e gritou e levantou-se. Pegou a adaga e correu para cima do animal que estava mais próximo. Feriu o pescoço do thestral, que relinchou de dor. Samuel estava tomado por fúria. Ele começou a apunhalar o animal como um lunático. Apunhalava sem direção, desesperadamente, gritava e apunhalava e, quando se deu conta, estava sem força, coberto em sangue que era de e do animal.

O thestral estava no chão à beira da morte. Toda tropa havia se afastado dali. Samuel encarou o animal e testemunhou os últimos suspiros. Então a morte chegou. Samuel sorriu. Pegou a adaga, a mesma que matou Brittany, e decepou o rabo da criatura.

...

"Rejeito."

Santana nem reagia mais quando passava por alguém que lhe diria uma ofensa. Sete anos sendo ofendida por Slytherins, Gryffindors, Ravenclaws e até os supostamente bondosos Hufflepuffs fez com que as provocações perdessem o efeito. O ofensor da vez foi um Hufflepuff. Santana não se surpreenderia se o garoto em questão, que parecia ser do quinto ano, fosse amigo de Samuel. Desde que voltou a Hogwarts que o seu oponente vem demonstrando incrível popularidade. Era como, de algum modo, Samuel estivesse conseguindo convencer que Santana, e não ele, era o agente das trevas. Não podia culpar os colegas. Agir conforme a própria vontade e não conforme a própria consciência, era muito mais sedutor.

"Evans é o escolhido, rejeito." Outro gritou ao passar por ela.

Santana fechou os olhos por um segundo e respirou fundo para não reagir. Seguiu em frente e viu que próximo dali estava Melissa. Não conseguia gostar da garota, mas tinha de ser simpática com ela por causa de Lily.

"Oi." Cumprimentou por ser quase uma obrigação.

"Está tendo problemas com os garotos?"

"Aquilo?" Santana apontou o polegar para trás. "Foi nada."

"Pode falar comigo se estiver com problemas."

"Eu sei." Santana tentou passar pela head girl de Hogwarts, mas Melissa a segurou pelo braço.

"Falo sério, Lopez. Eu posso te ajudar não apenas por causa de Lily, mas porque eu acredito na causa. Evans é um asshohe."

"Obrigada, Brown, mas eu estou bem. Ninguém está provocando além do que já esteja acostumada. Até porque eles têm medo de ir além comigo. Sabem que vão levar uma surra."

"Cuidado para não ser confiante demais. Você pode pagar um preço alto."

Santana não respondeu. Sabia que Melissa não estava errada: a confiança que tinha em si mesma poderia ser a própria ruina. Pensar a respeito não constava nos planos da escolhida. Pelo menos, não naquele momento. Seguiu pelos corredores do castelo, subiu as escadas e continuou a andar até um setor particularmente isolado, onde estava a sala precisa. Segundos depois uma pequena porta surgiu na parede e Santana entrou.

Lá estavam Finn conversando com Mike e Quinn de um lado, enquanto Rachel, Mercedes, Kurt e Marley estavam em outro canto rindo de alguma coisa. Todos acenaram para a líder, que se dirigiu a grupo de estudantes mais velhos.

"Ei!" Disse para os três.

"Lindo dia, não?" Finn disse parecendo animado demais.

Santana franziu a testa e olhou desconfiada para o grandalhão.

"Está nublado e o castelo está mais frio que o normal."

"Pois é." Finn continuava a sorrir, como se estivesse nervoso por alguma razão.

Santana ia fazer um comentário maldoso, mas a sua atenção foi desviada para a chegada dos gêmeos Scamanders, Aurora, Blaine, Glory e Sugar. O grupo começou a interagir como o de costume, conversando entre si, mas mantendo algumas constâncias. Kurt, Blaine e Mercedes ficavam sempre juntos. Quinn procurava ficar ao lado de Mike, os gêmeos tinham uma interação própria, Marley sempre se aproximava mais de Santana quando Lily não estava por perto.

"O que vamos trabalhar hoje?" Aurora perguntou. Ela que era uma das mais aplicadas do grupo: um reflexo da atleta que era no campo de quadribol.

"Nós vamos..." Santana olhou para trás, na esperança de ver a chegada de Lily e Hugo. Começou a ficar incomodada. Lily e Hugo eram sempre pontuais. Especialmente Hugo. "Gente, alguém vi o clã por aí hoje?"

"Eu tive aula com Hugo hoje pela manhã." Mercedes disse. "Estava tudo normal."

Santana acenou. Ela também viu Lily pela manhã, afinal, as duas haviam passado a noite juntas. No início da manhã, Lily saiu sorrateira do quarto da namorada. As duas ainda se viram no café, mas passaram o resto do dia com agendas separadas.

"Ok. Quem conhece impedimenta?"

"Azaração impedimenta, você quer dizer?" Kurt disse com certo ar insolente, que lhe era próprio. "Óbvio que não, Santana. Azarações são magia das trevas. O ensino é proibido."

"Eu sei." Santana falou à armada, que estava disposta em um semicírculo para ouvi-la. "Oficialmente é proibido o ensino de qualquer azaração em Hogwarts. Sei que azarações são consideradas práticas das trevas. Mas a arte das trevas também é praticada pelos mocinhos. Pergunte a qualquer integrante da Armada de Dumbledore: eles praticavam artes das trevas, inclusive uma das maldições imperdoáveis. A armada estava em meio de uma guerra e não podia se dar ao luxo de enfrentar death eaters apenas com magia autorizada."

"Minha mãe conta essas histórias." Lorcan Scamander se manifestou. "Teve professora doida, supremacista, quando minha mãe estava no quinto ano. Ela ensinou defesa contra artes das trevas apenas teoricamente, porque não era interessante que os alunos soubessem se defender já que não havia perigo, que a volta de você-sabe-quem não passava de boato. Acabou que essa professora era uma death eater aliada do cara de cobra."

"Treinar arte das trevas não é grande coisa." Rachel complementou. "Ninguém vira um bruxo das trevas se praticar com cuidado."

"Aurores treinam arte das trevas, por Merlin!" Quinn emendou. "Não sejam tão caretas."

"Exato!" Santana acenou para os colegas e para a irmã. "Alguns de nós tiveram pais que lutaram na guerra e eles precisavam de aprender truques sujos para sobreviver. A arte das trevas não é ruim se você a pratica visando apenas a defesa."

"Desde quando você treina arte das trevas?" Glory perguntou, ainda pouco convencida da necessidade de se treinar azarações.

"Desde o meu primeiro ano..." Santana disse sem o menor traço de vergonha. "Fui uma fedelha terrível no meu primeiro ano e ainda tive uma parceira no crime para me deixar ainda mais incontrolável." Sorriu para Quinn. "Treinava tudo que pudesse usar para me defender dos revides. Comecei com pequenas coisas, brincadeiras, jinxes. Finn era a minha vítima favorita."

"Infelizmente, isso é verdade." Finn torceu o nariz ao se lembrar da época em que enfrentava Santana de frente e sempre se dava mal. Passou anos com raiva da colega por causa disso e às vezes se perguntava se tinha realmente conseguido superar.

"Você já sabia o que deveria se tornar desde aquela época?" Marley perguntou.

"Não. Essa descoberta foi mais recente. Enfim, impedimenta não é tão ruim quanto parece. É classificado como uma jinx e pode ser útil na lida com criaturas mágicas hostis ou bruxos hostis. Ele basicamente faz a vítima ficar paralisada por alguns segundos. A técnica é muito simples. Algum voluntário?" Apenas Quinn levantou a mão, o que não era surpresa. Quinn, Lily e Finn eram os que mais se candidatavam para as demonstrações. "Quinn, corra em minha direção."

As duas garotas tomaram distância. Quando Santana acenou, Quinn correu ao encontro dela. Santana apontou a varinha, fez um movimento na horizontal enquanto conjurou.

"Impedimenta."

De repente, Quinn começou a correr como se estivesse em câmera lenta. O efeito durou alguns segundos e logo ela voltou a se movimentar normalmente. O grupo ficou excitado quando viu que a jinx não era um bicho de sete cabeças. Como de costume, duplas foram formadas para que uns pudessem praticar com os outros. Rachel, Finn e Quinn já sabiam conjurar a jinxs e ficaram de monitores para auxiliar aos demais. Lily e Hugo eram outros que sabiam conjurar o feitiço. Lembrar disso fez Santana voltar a se preocupar com a namorada e com o primo dela.

"O impedimenta pode ser usado para empurrar o seu adversário." Santana voltou a explicar quando viu que o grupo conseguiu realizar o feitiço. "Finn?"

O grandalhão correu em direção a Santana. Ela conjurou o impedimenta, mas desta vez fazendo o movimento de empurrar com a varinha em seguida. Finn ficou lento e em seguida sentiu uma força o puxando para trás. Ele deu alguns passos para trás. Sabia que Santana foi comedida na força que usou: ela seria capaz de arremessa-lo alguns metros caso quisesse.

"Sei que é muito para absorver hoje, mas podemos voltar a praticá-lo no nosso próximo encontro."

"Está pensando em terminar mais cedo?" Marley perguntou.

"Não estou de saída. Quinn pode monitorar vocês."

"Vai logo procurar pela Lily, San." Quinn colocou a mão no ombro da colega. "Sei que você está preocupada e eu consigo dar conta do recado."

"Obrigada."

Santana saiu da sala precisa e foi até a sala comunal de Gryffindor para saber o que houve com Lily e Hugo. Tinha a senha e a permissão da mulher gorda, era uma Gryffindor, ainda assim se sentia estranha em entrar no território grená sem a companhia da namorada. Alguns dos alunos que estavam na sala comunal ficaram surpresos com a aparição de Santana e, no primeiro momento, se armaram.

"Ei!" Santana levantou as mãos. "Vim em paz. Estou procurando a Lily. Algum de vocês a viu por aí? Ou Hugo?"

"Não soube?" Uma garota do quarto ano falou. "Lily se envolveu numa briga com Evans durante a reunião de capitães do quadribol. Ela está na sala do diretor agora. Acho que se ela pegar detenção, vai sair no lucro."

"Obrigada."

Por coincidência, assim que saiu da sala comunal, viu a namorada subindo as escadas em direção a sala comunal. Santana correu até a namorada.

"Lil. O que houve?"

"Evans aconteceu." Ela estava furiosa, mas inteira. O que era bom no caderno de Santana. Pelo menos a namorada não se machucou na suposta briga. "Eu nunca vi uma pessoa mais dissimulada em toda minha vida."

"Ok, entendi que você está furiosa. Agora diga o que houve."

"Eu percebi que ele estava mancando. Fiz essa observação e ele foi completamente estúpido. Começamos a discutir e eu caí na armadilha. San... eu mandei Evans para a enfermaria e fui suspensa do próximo jogo de quadribol. Disseram que eu o feri no peito... um corte horrível."

"O que você usou contra ele?"

"Expulso."

"Oh droga." Santana abraçou Lily. Sabia melhor do que ninguém como o quadribol era importante na vida das duas.

"O que mais dói é ver que esse palhaço está ganhando terreno fazendo parecer que nós somos os vilões. Eu não aguento isso." Se Lily pudesse, ela quebraria alguma coisa. Talvez conjurasse uma bombarda contra a parede.

"Tudo bem, Lil. Ele ganhou essa. A gente ganha a próxima."

Santana aconchegou Lily contra o próprio corpo e a consolou. Mesmo com toda aparente calma da namorada carinhosa que consolava a amada, Santana estava furiosa por dentro. Parecia que eles estavam perdendo a batalha e a sensação era horrível.

...

"Você está ficando muito boa."

Rachel levou um susto quando Finn entrou subitamente na sala de música. Ela estava encantando o piano para tocar a partitura que ela desejava: uma magia que precisou aprender depois que ela terminou com Hugo, e o rapaz suspendeu os encontros extras para que Rachel pudesse treinar o canto. No caso, quando Finn a surpreendeu, Rachel estava ensaiando a música Torn para os próximos encontros do coral.

"Que música é essa?"

"Torn." Rachel disse sem jeito. Sorriu olhando para baixo, a fim de disfarçar o rosto corado e colocou uma mecha do cabeço atrás da orelha. "Fica melhor com uma banda do que com o piano."

"Posso ajudar? Eu toco bateria."

"Piano e bateria não formam um bom dueto. Mas nós poderíamos ensaiar alguma coisa, caso queira."

"O que você conhece além do nosso repertório?"

Finn sorriu sem-jeito. Desde que entrou para o coral com o intuito de se expressar melhor por meio da música que vinha tentando se inteirar do repertório muggle. Por mais que tentasse gostar das músicas mais atuais, terminava buscando as mais antigas. Tinha uma, inclusive, era uma nova favorita.

"Eu não sei... conhece músicas do Journey?"

"Journey?" Rachel sorriu levemente. "Eu conheço algumas. Meu pai é um fã."

"Seu pai?" Finn aproximou-se curioso. Tirando que Rachel era meia-irmã materna de Santana, nascida muggle, e que a mãe morava em Nova York, não havia muito mais que ela conhecia a respeito da família da líder do coral. "Ele é muggle, certo?"

"É sim. Ele é set designer de peças da Broadway."

"O que é isso?"

"Ele projeta os cenários das peças. Pensa nos detalhes do palco e tudo mais. É um dos melhores nesse ofício."

"Mesmo? Qual o nome dele?"

"Hiram Berry."

"Legal... seus pais estão casados?"

"Ah não..." Rachel sentou-se no banco do piano enquanto Finn colocou uma cadeira próxima a garota e também sentou-se. "Meu pai é gay." Ao ver a confusão no rosto de Finn, Rachel tratou de explicar melhor. "Eu fui fruto de uma noite embriagada entre meus pais." Vendo que Finn continuava sem entender, Rachel elaborou melhor. "Quando minha mãe voltou para Nova York, estava chateada com toda a situação que envolveu a guarda da minha irmã. Daí, um dia, meu pai a convidou para afogar as mágoas e acabou rolando. Eu fui concebida nessa noite."

"Oh... eu não sei o que pensar."

"Está tudo bem. É até legal ser fruto de uma história pouco convencional. Acho que tem tudo a ver comigo."

"Você o vê muito?"

"Meu pai? Agora não mais. Ele casou com o Leroy e eu passo a maior parte do ano aqui em Hogwarts. Fica difícil manter contato."

"Você não gosta do marido do seu pai?"

"Leroy sempre me tratou bem. Não tenho do que reclamar dele." Rachel tocou a mão de Finn, provocando uma boa eletricidade no corpo do garoto. "Sua vez. Como são seus pais?" Rachel perguntou só para continuar a conversa. Ela tinha tanta fixação por Finn que tratou de se informar de tudo que diz respeito ao jovem alto, inclusive a respeito dos pais.

"Meu pai foi auror e morreu em serviço numa emboscada quando eu tinha sete anos. Minha mãe me criou sozinha desde então. Ela é uma mulher muito corajosa e independente, sabe?"

"Você e o seu pai se davam bem?"

"Acho que sim. Ele não passava muito tempo com a gente por causa do trabalho. Mas tinha uma música que ele gostava de cantarolar. Do Journey."

"Qual?"

Finn começou a cantar Faithfully à capela. Rachel sorriu por conhecer a música e, aos poucos, harmonizou com o Hufflepuff. O solo inicial transformou-se num dueto inacreditável. Finn era um cantor limitado, mas ele conseguia crescer quando a poderosa voz de Rachel o acompanhava. Isso o fazia ganhar confiança. Ao final da música, ambos haviam feito um belo espetáculo sem plateia. A emoção estava aflorada e o beijo entre os dois aconteceu. Não foi o primeiro que trocaram. Pouco antes das férias de verão, quando a equipe de quadribol estava na Rússia, antes de acontecer o desastre com Brittany, Rachel disse abertamente que gostava do grandalhão e forçou a situação. Trocaram um beijo que foi estranho e atrapalhado. Depois, nunca mais voltaram a falar a respeito. Em parte, porque Rachel sentiu-se constrangida depois de ter forçado uma situação que não teve o final esperado, em parte porque Finn morria de medo de se meter com a irmã de Santana Lopez.

O segundo beijo que trocaram era diferente: foi espontâneo, fruto da atração que os dois sentiram um pelo outro naquele momento. Começou suave e foi aumentando em intensidade aos poucos. Levada pelo calor do momento, Rachel fez um movimento ousado e sentou-se na perna de Finn para continuar a beijá-lo com ais contato. Até que o garoto se afastou, com uma expressão de que estava engasgando.

"Oh... oh... me desculpe." Ele se levantou quase derrubando Rachel no chão.

"O que foi?"

Rachel ficou confusa a princípio, até que percebeu que Finn estava curvado, levando a mão até o pênis, como se quisesse escondê-lo. Foi quando Rachel entendeu que Finn realmente sentiu a paixão do beijo. Por mais que para ele foi constrangedor ter ejaculado no próprio uniforme, Rachel até que se sentiu envaidecida.

"Será que isso poderia ficar entre nós?" O rosto de Finn estava num tom vermelho que parecia humanamente impossível atingir.

"Isso nunca aconteceu... digo..." Apontou para o que Finn escondia nas mãos. "O beijo, por outro lado, foi bem legal."

"Eu também achei." Finn sorriu e foi genuíno.

"Será que a gente poderia... ensaiar mais vezes?"

"É! Eu gostaria de ensaiar mais vezes."

"Que tal amanhã depois do treino?"

"Seria legal."

Rachel acenou e sorriu antes de sair da sala de música. Assim que saiu, correu pelos corredores de Hogwarts com a varinha em riste, conjurando um risco de estrelas brilhantes.

...

Quinn não via a hora de Hogwarts terminar. Seria ótimo sair da escola e sumir no mundo. Quinn queria ir para bem longe da Grã-Bretanha, passar alguns anos rodando o mundo e fugir da loucura que havia se tornado a vida dela. À rigor, ela não tinha nem casa e nem dinheiro. A mãe era uma alcoólatra deslumbrada e supremacista que não ligava a mínima. O pai estava preso. Quinn não tinha direito a um centavo do que restava da fortuna dos Fabray (parte dela foi para o ralo em pagamentos atrasados e indenizações). Não havia nada que a prendesse, nem mesmo os amigos. Por que não se aventurar na África, viajar pelo Oriente Médio, conhecer a Índia? Enquanto Quinn vislumbrava, rabiscava no caderno o doce gosto que a liberdade poderia ter.

"Este deve ser o seu canto favorito em toda Hogwarts."

Quinn endireitou a postura e ficou em alerta com a presença de Samuel.

"O que quer, Evans?"

"Jogar conversa fora."

"Isso é uma biblioteca."

"Bom, eu não vejo ninguém além de nós dois." Samuel tomou a liberdade para sentar-se ao lado de Quinn. "Estive pensando em nós dois. Eu tento falar contigo desde o meu primeiro ano, e desde sempre você me rejeita. Isso me faz pensar no que eu tinha de tão errado para não conseguir despertar o mínimo interesse vindo de você?"

Quinn ergueu uma sobrancelha. Então o suposto futuro lorde das trevas estava ali ao lado querendo saber porque uma garota nunca deu bola? Era até irônico.

"Você nunca me interessou."

"Mas Lopez te interessa."

"Isso é um assunto meu."

"Então você é mesmo lésbica?"

"Não é da sua conta. Se me dá licença, eu já te dei muito mais papo do que você merece em uma vida inteira."

Quinn se levantou, mas foi segura pelo braço por Samuel, num movimento que ele nunca foi capaz de fazer antes. O toque era forçoso, bruto, invasivo.

"Me solta, Evans." Quinn disse entre os dentes.

"Você deveria reconsiderar suas alianças, Fabray. É um desperdício ver alguém tão linda e pura se envolver com o lado perdedor."

"Prefiro morrer de pé ao lado de Santana, do que viver me rastejando ao lado de um bosta como você."

Samuel a soltou e sorriu. Afastou-se um passo e balançou o indicador para Quinn antes de voltar a segurar o braço dela e a puxar para si, de forma que pudesse falar em seu ouvido.

"Falei com Aramis Black... ele disse que você é apertada. Tenho pensado só nisso desde então."

O sangue de Quinn gelou. Ela empurrou Samuel o mais forte que pôde e apanhou a varinha que estava dentro do bolso do casaco do uniforme. Apontou para Samuel. Estava trêmula e insegura, sem saber o que fazer.

"Sai daqui, Evans, antes que eu te mate."

"Pense com carinho no que disse, Quinn. Sobre ficar com o lado vencedor. É uma Slytherin, esse é o seu instinto. Você não terá muito tempo para se decidir."

Samuel deu as costas para Quinn e saiu andando com tranquilidade. Mostrava para ela que era o senhor da situação, que tinha tudo sob controle. Quinn, por sua vez, desabou num choro desesperado. Ela sentou-se no chão da biblioteca e se permitiu se fragilizar por cinco minutos. Depois engoliu o choro, secou as lágrimas e levantou-se do chão. Pegou os materiais e saiu da biblioteca com a cabeça erguida. Precisa pensar no que fazer. Decisões assim não poderiam ser tomadas de cabeça quente.

...

A sala comunal de Hufflepuff era a mais aconchegante e amigável entre todas as casas de Hogwarts. Era naturalmente bem iluminada, com móveis confortáveis, tapetes macios em que se podia dormir neles. Não havia uma estante reservadas para os livros, pois estes ficavam espalhados pela sala numa demonstração que o ensino também tinha de ser confortável e aconchegante. Plantas decoravam o ambiente e deixavam o ar da casa muito mais agradável do que de todas as outras. Ninguém podia transitar pela casa com sapatos. Todos deixavam seus respectivos numa enorme prateleira em boxes individualizados e transitavam pela casa apenas em suas meias. Isso fazia de Hufflepuff também um dos ambientes mais saudáveis. Em uma das paredes havia a foto maior de Helga Hufflepuff. Em volta dela tinha dezenas de retratos menores de alunos notáveis, sendo que um deles era de Cedric Diggory.

Apesar disso tudo, Finn Hudson sentiu-se deslocado daquela casa nos primeiros anos. Era natural uma vez que ele era muito mais um Gryffindor e só não foi posto naquela casa por conta de uma manipulação. Ele só conseguiu sentir-se completamente à vontade como um Hufflepuff depois do quarto ano, quando se posicionou no papel de liderança. Finn Hudson era o notável de Hufflepuff, algo que jamais seria se estivesse em Gryffindor.

Samuel Evans nunca se importou com o lugar. Se tivesse sido postado em Gryffindor, como deveria acontecer, talvez continuasse a ser um underdog. Nos primeiros anos, Samuel só conseguia relacionar-se com Noah Puckerman. Os dois tinham histórias de vida próximas: sangue-puros, pobres e rejeitos até dentro da própria casa. Puckerman ainda se impôs pela sexualidade, pela fama de conquistador. Samuel continuou sendo underdog cada vez mais enclausurado em sua própria condição inferior. Era liderado por um colega que não nasceu para ser líder, tinha um único amigo, era rejeitado dia após dia pela garota que era apaixonado.

De repente, a realidade de ambos se inverteu. Finn Hudson entendeu que o fato de ser head boy de Hogwarts queria dizer absolutamente nada. Apenas aqueles que tinham ambições por títulos ligavam para tal. O poder era apenas simbólico, acompanhado de mais responsabilidades do que de privilégios. Samuel, por outro lado, descobriu o poder da persuasão e a da liderança. Mais e mais, ele agregava seguidores com o carisma e charme, além do poder de retórica que adquiriu com árduo treinamento. Finn agora era a imagem do perdedor, aliado de uma persona non-grata. Samuel tinha a imagem do salvador.

"Eu não tenho problemas com mestiços e nascidos muggle." Samuel dizia a um grupo que o escutava na confortável sala comunal. "Minha primeira namorada era uma nascida muggle. Ninguém pode me acusar de ser racista. O que penso é que precisamos construir uma sociedade sólida e coerente dentro da nossa tradição. O mestiço é bem-vindo, desde que ele renuncie ao seu lado muggle. O mesmo vale para o nascido muggle: ele precisa renunciar aos pais, a cultura dos pais e renascer para a nossa."

"Isso soa como uma seita, ao meu ver." Finn resmungou.

"Diz isso porque foi contaminado com os ideais da outra, Hudson. Daquela que vai destruir nosso modo de vida." Samuel voltou-se novamente para a plateia. "O que é Santana Lopez? Uma garota totalmente comprometida com a cultura muggle. Que quer ver a nossa cultura ser contaminada e substituída pela daqueles que quase nos dizimaram. Pelos opressores. Ela tem uma mãe muggle que fugiu e a deixou com o pai porque odiou nossa cultura. Mesmo assim, todo verão, lá está Santana Lopez em companhia da mãe, desfrutando a cultura deles e se esquecendo que a magia é muito mais poderosa do que qualquer tecnologia que os muggles possam inventar. E quem é a fiel namorada dela: Lily Potter. O que é Lily Potter a não ser uma integrante de uma família aficionada pelos muggles? Que faz o jogo dos muggles e que, inclusive, estimulam o relacionamento inter-racial? Estou mentindo, Hugo?" Apontou para o jovem ruivo que estava no canto da sala como um solitário.

"Não é assim. Minha mãe é uma boa pessoa." Ele disse incerto.

"Eu não estou dizendo que a nossa honorável ministra da Magia seja uma pessoa ruim, meu caro Weasley. Estou dizendo que a sua mãe ainda é comprometida com a cultura deles, ou estou mentindo?"

Hugo não soube responder e abaixou a cabeça. A música, as visitas frequentes a casa dos avós muggles, o fato de Hermione ter sugerido que Hugo entrasse no Conservatório de Música de Londres, uma escola muggle, não ajudava em nada como contra-argumento.

"As pessoas têm de ser livres para fazer suas próprias escolhas, Evans." Finn esbravejou.

"A maior metrópole bruxo do mundo fica no Brasil. A política deles em relação ao protecionismo de nossa raça é referência no mundo todo. Você sabia que se um bruxo se apaixona por um muggle, para os dois casarem, o muggle tem que renunciar a vida anterior ou será obliviado? Isso é ditadura? Não! Isso bem-senso! Não é essa política liberal que só visa a destruição de nosso modo de vida. Precisamos combate-la, precisamos combater seus defensores, ou adeus Hogwarts, adeus mágica, adeus tudo. Os infiéis vão cair!"

Os alunos de Hufflepuff reagiram com entusiasmo. Aplaudindo como se Samuel fosse o messias. Finn se retirou da sala comunal cabisbaixo. Os debates que ele tinha a oportunidade de ter com Santana e com a armada possibilitava que ele enxergasse o que os outros não conseguiam: que o discurso defendido Samuel, recebido com entusiasmo, era uma armadilha para que um ditador sanguinário pudesse chegar ao poder nos braços do povo.

...

A mesa de Harry Potter estava tomada com papéis e pastas. Era a burocracia que detestava e que não podia evitar. Em momentos de maior apuro, costumava olhar para o porta-retratos que ficava no canto menos tumultuado da mesa. Era a foto da família: ele, Ginny e os três filhos. James sorridente, feliz por cultivar os cabelos rebeldes e ondulados. James nunca teve grandes ambições, mas sempre mostrou ter posições muito firmes. Esse certo radicalismo preocupava o chefe auror. Albus era fisicamente mais parecido com Harry. Porém sempre foi mais sério, perspicaz. Harry tinha certeza que Albus seria um auror muito melhor do que ele próprio. Lily era uma mini-Ginny: impetuosa, amorosa e muito inteligente. Trabalhava para a equipe, mas tinha espírito de liderança quando precisava assumir a posição.

Ficou um tempo olhando para o porta-retratos. Ver a família o deixava com um sorriso no rosto. Ele podia passar horas admirando aquele retrato. Que se danasse a burocracia. Que se danasse o quadro de investigação que ele costumava fazer mapas mentais para pensar a respeito dos casos mais importantes.

Harry voltou para a realidade quando o magilégrafo começou a funcionar. O aparelho era de uso restrito (era preciso ter autorização do ministério da magia), geralmente utilizado pelo serviço de inteligência auror, por ser um meio de comunicação muito mais rápido do que o correio de corujas. Pegou o papel da mensagem e empalideceu.

Pegou o galeão especial e o modificou para transmitir a mensagem que precisava. Esperava que todos pudessem ver a tempo. Pegou o casaco e correu até ao escritório de Hermione Granger. Não se importou com formalidades. Invadiu o escritório da melhor amiga que, naquele momento, conversava com Teddy Lupin.

"Harry?" Ela se assustou com a invasão do amigo.

"Mione, precisamos correr."

"O quê..."

Abriu a gaveta e viu o seu galeão vibrando com a mensagem. Ela arregalou os olhos percebendo a gravidade, ainda assim hesitou. Afinal, ela era a ministra da Magia. Não poderia se acovardar. Pegou a moeda e conferiu a mensagem, como se não quisesse acreditar.

"Mas Harry..."

"Mione, eu não ligo para a posição você ocupa neste momento. Nós vamos correr. E você também, Teddy! Seus pais me matariam se eu te deixasse para trás."

"Tio Harry, eu não estou entendo..."

"Pense menos e mova mais as pernas."

Em vez de sair pela porta da frente, Hermione acionou a rede de flu que tinha no seu escritório e os três fugiram.

...

"Santana, você é louca!"

"Por quê?"

"Esse lugar me dá arrepios."

"Por isso mesmo que ele é perfeito."

Santana guiava Lily pela torre negra. O lugar era restrito aos alunos de Hogwarts, mas Santana passou muito tempo naquele lugar praticando em segredo. Passou a conhecer atalhos, pequenos segredos, inclusive as portas que não poderia abrir. Tirando as histórias macabras e pelo fato de ali ter funcionado uma prisão, a torre negra não era tão diferente do resto do castelo. Mais escadas circulares, salas, paredes grossas e talvez um pouco mais de poeira do que no resto do castelo.

Quando chegaram até o pátio da torre, Lily se surpreendeu com o lugar todo arrumado. Havia almofadas espalhadas em cima de um tapete macio. Tinha uma mesinha acessório sobre o tapete com frutas e comidinhas, além de cobertores cuidadosamente dobrados.

"Santana Lopez! Que plano de sedução maluco é esse?"

"Um perfeito." Santana beijou a namorada nos lábios com paixão.

A vida delas naquele ano estava tão difícil, que Santana achou que um gesto romântico e prazeroso vinha bem a calhar. Por isso pediu a ajuda de Simons para preparar a surpresa.

"San, e se alguém nos ver?"

"Ninguém vai nos ver." Santana apontou a varinha para o alto, e uma fina luz azulada desceu sobre o lugar. "Ninguém vem a torre negra, de qualquer forma."

"Bretzels?" Lily conferiu a mesinha de lanches.

"Seus favoritos."

"Bolo de chocolate?"

"Meu favorito."

Lily balançou a cabeça. Voltou a beijar e a abraçar a namorada.

"Você é inacreditável."

"E você é a garota mais linda do mundo, Lily Potter. Eu te amo tanto."

"Eu sei."

"Oh..." Santana fez um gesto dramático. "Não dê uma de Han Solo em mim que eu posso me apaixonar mais."

"Eu sei."

Lily coloco a ponta da língua entre os dentes. Um pequeno gesto maroto que sempre causava efeito em Santana. Ela envolveu os braços na cintura de Lily e a beijou. Foi a conduzindo devagar para deitá-la no tapete. Ficou de joelhos para tirar o casaco e a camiseta, dando um tempo para Lily apreciar a paisagem. Lily ajeitou-se no travesseiro e passou a mão preguiçosamente pelo abdômen bem torneado da namorada. Depois brincou com o limite do sutiã, passando os dedos embaixo dos seios que conhecia bem.

"Você está fazendo cosquinha passando o seu dedo assim."

"E pretendo fazer muito mais." Lily disse sedutora.

Sentou-se, deixando Santana em seu colo e as duas voltaram a beijar-se com paixão. Santana tirou o casaco de frio de Lily e ia tirar a camiseta da namorada, ao passo que Lily estava tirando o sutiã de Santana.

Foi quando ela parou de repente.

"Lil?"

"Meu galeão está vibrando."

Lily conduziu a namorada para o lado. Então ficou de joelhos para pegar a moeda no bolso de trás da calça jeans. Conjurou lumos para ler melhor o código. Ficou pálida.

"Merlin!" Lily se agitou, pegando as roupas descaradas dela e da namorada. "Você precisa se vestir rápido."

"O que foi? Você está me assustando."

"É para ficar assustada. Especialmente você!"

"Por quê?"

"Estamos sob ataque."