Ósculos e Amplexos
Para que complicar o que é simples?
Disclaimer: tem muita criatividade e bom gosto ao desenhar tantos homens lindos num mesmo mangá, por isso mesmo os créditos devem ser dados a ele, não a mim, que sou apenas uma fã ardorosa dos rapazes.
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Capítulo 10 – Inferno Astral
Parte II
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O final de semana se arrastara de forma penosa. O jovem aquariano resolvera se dar um descanso de dois dias e o pai não interviera. O francês via que o adolescente estava se esforçando e, caso se empenhasse além do limite, excesso estudo poderia ser mais uma fonte de grande estresse para o rapaz e isso não era saudável.
Apesar disso, ainda ficava um pouco apreensivo com as notas baixas de Hyoga, pois sabia que não era por falta de estudo, mas por problemas com a família e sua própria sexualidade.
Em todo caso, achava que por enquanto essa era a melhor maneira de lidar com loirinho. Deveria manter-se por perto. O problema é que por mais que estivesse por perto, não estava próximo do adolescente, ao menos não tanto quanto gostaria ou como ele via que Hyoga era de Milo.
Ah, claro, o escorpiano. Passaram praticamente dois dias falando apenas o que era extremamente necessário. Pelos céus, como preferiria que ele berrasse e esbravejasse, teria resolvido a querela entre eles em dois tempos, mas não conseguia quebrar a casca em que o grego se enfiara e agora se encontravam numa situação ridícula como aquela. Dois adultos sem se falar? Absurdo!
Com a mente fervilhando em mil pensamentos concomitantes, convenceu a si próprio de que resolveria um problema de cada vez, por grau de urgência.
Na segunda-feira, portanto, em seu intervalo para o almoço, pegou o telefone e discou rapidamente o número do amante, esperando que ele atendesse. Segundos se passaram e ouviu a voz grave do outro lado da linha a cumprimentá-lo.
— Aioros? — Indagou o francês quando o sagitariano atendeu ao celular. —Acho que estamos precisando conversar.
— Verdade, Kamus. Eu te pego em casa hoje?
— Não, eu me viro, pode deixar. Mas que tal aquela praça junto ao colégio? Até que é discreta.
— Combinado. Te vejo às seis. — E desligou.
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Na hora acordada, Kamus tirou o telefone do bolso e verificou que havia uma chamada não atendida do namorado. Ligou imediatamente para ele, que respondeu:
— Já cheguei. Estou nas mesas de xadrez.
— Estou indo.
Chegou à parte das mesinhas em poucos instantes. Sentou-se no banquinho de concreto que ficava em frente a Aioros, o qual já estava acomodado e, como não havia ninguém por perto, deram-se um selinho em cumprimento.
— Acho que estamos aqui pelo mesmo motivo. — Comentou o francês tranqüilo. Pela postura do amante, podia prever o que iria advir daquela conversa.
— Então… vamos parar de nos ver, certo? — Comentou Aioros sem muita cerimônia. Ainda mais pelo olhar que outro ostentava.
— Acho que sim. Sinto muito por Hyoga ter te destratado quando você foi à minha casa da última vez.
— A culpa não é sua, Kamus. Hyoga já tem discernimento para saber o que deve e o que não deve fazer. Ataque de adolescente é a coisa mais normal do mundo, esqueceu que eu era completamente impossível na idade dele? — Riu com leveza. — Ele só estava com ciúmes de você.
— Mas ele exagerou. Ele sabe que por mais que eu me relacione com quem quer que seja, ele é a pessoa que eu mais amo. — Dito isso, debochou de si mesmo ante a frase tão açucarada que dissera — Essa coisa piegas de pai, não tem como fugir.
— Será que sabe mesmo? Ainda mais porque Hyoga acabou de passar por uma situação péssima. A mãe descobriu sobre a sexualidade dele da pior forma possível e ele só pode contar com você.
— Eu sei disso, mas eu não posso apenas viver em função dele. Até porque, quando ele voltou para casa, eu já estava com você, Aioros.
— De fato… Entendo que deve ser difícil conciliar as duas coisas. Sem ofensas, mas nunca pensei em ter filhos por esse motivo. Já basta o que eu tenho de sobrinhos.
— Não ofendeu. Eu também nunca me imaginei ser pai aos dezesseis anos.
— Kamus, eu gosto de você, mas você tem muita bagagem. Esses seus problemas cardíacos e um filho adolescente são uma carga muito grande para você e para quem quer que você estiver se relacionando. Eu não sei lidar com isso e, honestamente, não é o que eu espero de um relacionamento.
— Claro. Eu entendo. Senti isso desde o início do nosso caso, mas com o passar do tempo, eu fui me apegando de alguma forma. Você foi meu primeiro "namorado", por assim dizer. E quando você diz problemas cardíacos quer dizer meus episódios depressivos, não?
— Exatamente… Apesar disso, decidi que poderíamos levar nosso caso à frente porque eu sentia algo em você que achava particularmente interessante. E tudo porque aquele menino adulto que eu torturava quando pequeno, me beijou com um alto grau de curiosidade.
— Confesso, sou culpado. Primeiro eu te beijei porque queria mandar Máscara da Morte à merda, mas você me pegou de jeito. Honestamente, eu estou cansado de sempre tomar o primeiro passo, a primeira iniciativa num relacionamento, isso cansa.
— Eu senti que você estava me analisando.
— E estava. — Sorriu o aquariano — Queria saber como seria entregar o comando do beijo para a outra pessoa, por isso me deixei levar por você.
— O que você queria era uma pessoa com quem pudesse transar sem te deixar na responsabilidade de todo o ato… — constatou o grego.
— Não só isso. Gostei de me envolver com alguém mais velho. Aprendi algumas coisas que posso levar para frente. — Sorriu de uma maneira um pouco pervertida, encontrando o mesmo sorriso nos lábios do moreno.
— Voltando ao assunto de Hyoga, por que você não publica algum trabalho a respeito de como os pais de adolescentes gays devem lidar com a situação? Você trabalha com isso há anos e está vivenciando na pele.
— Eu não tinha pensado nisso… alguns pais não gostam de alguém "metido a esperto" venha a intervir nos assuntos da família, talvez alguns prefiram ler a respeito… mas se eu publicar algo com meu nome, vou expor Hyoga.
— Ah, Kamus, você pode usar um pseudônimo, ou mesmo lançar um romance baseado na sua vida. Ou não faz nada disso e publica algo completamente científico, baseado só na sua experiência clínica. Sei lá, para tudo dá-se um jeito.
— Vou pensar sobre isso…
Calaram-se por um tempo, olhando um para o outro, a conversa entre eles realmente fluía com facilidade. Não estavam ali para vivenciar as mágoas, apenas para acertar alguns detalhes.
— Acho que já falamos tudo, não? — Indagou Aioros com um sorriso gentil, oferecendo a mão ao outro.
— Acho que sim. — O ruivo retribuiu o sorriso e apertou a mão do outro. Levantaram-se, portanto, abraçaram-se cordialmente com tapinhas nas costas e despediram-se:
— Boa sorte, Aioros.
— Você também, Kamus. Parabéns adiantados.
— Ah, obrigado.
Dessa forma, cada um foi para o seu lado, resolver sua própria vida, sem maiores dramas e complicações.
-o-
Enquanto estava no carro, o francês ficou divagando a respeito de alguns aspectos de sua vida. Seu primeiro relacionamento com um homem terminara e nem por isso estava morrendo por dentro. Claro, sentia-se um pouco estranho por não ter mais alguém junto de si, nada mais natural. Todavia, isso não era o mais importante, outras questões estavam em sua pauta.
Deveria recuperar a confiança de Hyoga e isso levaria tempo. Certo que o loirinho nos últimos dias andava menos arredio consigo, talvez fosse obra do padrinho dele, afinal. E o adolescente pedira desculpas de maneira enviesada, mas pedira. Era sua vez de se aproximar do filho.
Outra seria sua vida profissional. Aioros tocara em um ponto interessante: um trabalho científico. Ele nunca mais havia pesquisado ou estudado nada a respeito da Psicologia. Não que odiasse clinicar ou mesmo lidar com seus alunos, mas sentia muito mais prazer quando estava lendo, estudando e escrevendo, que atuando como psicólogo.
E quanto a sua vida amorosa? Bem, essa não ia às mil maravilhas, mas não iria morrer por causa de um relacionamento mal sucedido. Se paixões fossem feitas realmente para durar a eternidade, ainda estaria com sua primeira namorada e ela seria a Nachata, como diria Milo.
Milo… volta e meia sua mente voltava-se para ele. Agora sabia que o escorpiano ainda sentia desejo pela sua pessoa e, tinha que admitir, ele era gostoso.
Desde que começara a aceitar que reparava também nos homens, havia estabelecido um padrão que poderia considerar como mais atraente. Preferia os mais altos, de ombros largos e de traços evidentemente masculinos. E ele era loiro, sempre tivera uma queda por cabelos claros, tanto que Hyoga era filho de uma loira…
E o cheiro dele? Odiava ter que lembrar a vergonha que passara quando dormiram na mesma cama na noite de Natal. Não acordara excitado pelo sonho que tivera, mas pelo cheiro de Milo, tinha certeza. Que inferno de perfume era aquele que o grego usava que o deixava tão tonto de desejo?
— Argh! — Resmungou consigo mesmo.
"Primeiro eu tenho que resolver minha situação com Hyoga, para depois me envolver com alguém. Não quero um relacionamento, mas sexo. Será que Milo toparia? Bem, ele nunca se apegou a ninguém. Quando o namoro parecia que ia engatar, largava o cara… até parece que ele só se apaixonou mesmo por mim quando éramos adolescentes."
Sentiu um ligeiro frio em seu baixo ventre. Mesmo com tantas idéias contraditórias na cabeça, não conseguia parar de pensar em como seria ter Milo na sua cama, beijá-lo, possuí-lo. Sorriu. Seria interessante.
A tais pensamentos, distraiu-se por um breve período de tempo, o bastante para levar uma bela buzinada. Ok, ele havia invadido um pouco a faixa a sua esquerda, mas nada que um leve toque de volante para o lado contrário não resolvesse.
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Ainda no caminho para casa, mudou radicalmente de direção, dirigindo a um ponto específico: uma grande livraria que ficava nas redondezas. Fez o caminho até lá o melhor que pôde, prestando atenção nas placas com os nomes das ruas, mas mesmo assim atrapalhando-se com alguns retornos e sentido (mão e contramão) de algumas ruas. O que falta de experiência na direção não fazia?
Enfim, conseguiu achar a bendita loja. Estacionou e rumou direto para a seção de Psicologia. Passou ao menos meia hora em pé procurando autores e conferindo livros sobre homossexualidade, colocando ao menos uns dez debaixo do braço. Dali arrumaria um local mais confortável para analisá-los com mais cuidado.
Quando achou que já era o suficiente, seguiu com todos os volumes e depositou-os suavemente no carpete, pois teria de ler pelo menos algumas poucas páginas antes de decidir se iria comprar algum deles ou não.
Folheou-os mais de uma vez e separou ao menos três que a princípio se coadunavam com suas próprias idéias e mais um que poderia dar mais embasamento a tese que estava pensando.
Estava distraído quando um rapaz, pouco mais velho que um adolescente, veio até si com uma cesta em mãos, ofereceu-a. Reconheceu-o como sendo um dos atendentes de loja. Agradeceu a gentileza, sorrindo-lhe e fazendo-se demonstrar que o avaliava.
O funcionário pareceu um pouco surpreso, mas discretamente não ofereceu mais nenhum de seus préstimos e saiu de junto de sua presença.
Gargalhou internamente. Que forma mais deliciosa de levar um fora! Deleitou-se de forma verdadeira com toda a postura de choque que o rapaz assumira. Havia esquecido como era gostoso provocar essa reação nas pessoas, antigamente costumava entrar em discussões e sempre se posicionar contra o resto do grupo apenas pelo prazer de ver os outros olhando para si em descrença. Havia perdido essa característica, entre tantas outras coisas.
Retomou, no entanto, seus estudos superficiais por mais algum tempo. Decidiu-se por quatro livros mesmo e resolveu que o melhor seria esticar as pernas. Com a tal cesta em mãos, iniciou uma pequena caminhada pela loja, avaliando alguns títulos de outros assuntos, mas apenas passando os olhos.
Ao chegar à seção de filmes e CDs, perguntou-se se Hyoga não gostaria de algum deles. Apesar de ter ciência que o loirinho gostava de rock e os famigerados "Foo Fighters", era tudo que sabia sobre ele. Além de que, tudo o universo de música estava na Internet para quem quisesse fazer downloads…
Dirigiu-se ao caixa e pagou sua compra. Deveria deixar a última idéia para outra oportunidade. Rumando para a saída, ainda procurou o atendente com os olhos, mas não o encontrando, caminhou com calma até o estacionamento.
A meio caminho do carro, sentiu o celular vibrar no bolso da sua calça, para só então escutar o toque. Transferiu as sacolas para apenas uma das mãos e com a outra tirou o aparelho do bolso. Vendo o nome da pessoa no visor, respirou profundamente e atendeu.
— O que é, Natasha? — Proferiu com impaciência. Retomou o caminho com um pouco mais de pressa, a fim de chegar ao carro.
— Eu quero saber o porquê de você não ter depositado a pensão desse mês. Quis dar uns dias, mas duas semanas é tempo demais.
— Ah, não! Juro que não estou acreditando! Eu disse que não ia depositar mais nada, esqueceu?
— Eu estou precisando do dinheiro!
— Vá trabalhar! — Exclamou com o alarme em punho, abrindo a porta. Sentou-se no banco bem a tempo de ouvi-la gritar do outro lado.
— Você ainda é meu marido!.
— Ex-marido.
— Não nos divorciamos, Antonie! Você tem que me sutentar!
— É Kamus para você. Eu só te devia pensão até o momento em que Hyoga ainda estivesse morando na nossa casa aí na Rússia.
— Minha! Você abandonou o lar!
— E você abandonou seu filho! — Vociferou enquanto apertava as chaves do carro na mão direita.
— Homossexualismo é contra as leis de Deus!
— E a AIDS é o castigo? De leis de Deus por leis de Deus você é casada comigo e transa com outro. Aliás, como ele está? Suportando você ou arrependido?
— Deixe Nicolai fora disso!
— Olha, Natasha, quer saber? Vamos oficializar a porra dessa separação, cansei daquela sua desculpa que seria muito trabalhoso. Trabalhoso o caraxxx! E estou avisando, quero minha parte na casa.
— Então eu quero minha parte nesse seu apartamento aí em Atenas!
— Eu só o comprei depois de nos separarmos, Ma Cherrie. — Falou as últimas palavras com desprezo.
— Quem vai dizer isso é o meu advogado.
— Vamos ver quem vai dizer o quê. Au Revoir. — Desligou. — Ah!!! E mais essa agora! Eu não mereço! — Bateu com toda a força o punho no volante.
Respirou por alguns segundos e deu a partida no carro. Saiu do estacionamento da livraria, enquanto procurava o número de Kanon em sua agenda. Colocou o aparelho no viva-voz e esperou alguns segundos até que o grego atendesse.
— Oi, Kamus… — Ouviu o geminiano ser um pouco reticente. Não sabendo o motivo, só poderia imaginar que ele estaria tomando as dores do irmão.
— Mil perdões, Kanon. Você poderia, por favor, me passar o telefone do escritório de Julian? Estou precisando muito falar com ele.
— Ele está aqui comigo, só um instante que eu passo. Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu.
— Olá, Kamus, é o Julian. Em que posso ajudar você?
— Desculpe estar tomando seu tempo com Kanon. Eu quero me divorciar, posso passar amanhã pelo seu escritório?
— Claro, sem problemas. Na parte da tarde estou mais vago. Nos vemos amanhã.
— Boa noite, então e obrigado.
— De nada.
Saiu acelerado pelas ruas de Atenas, que àquela hora já estavam um tanto mais tranqüilas, para sua sorte. Ao chegar em casa, seguiu direto para o banheiro, ávido por um banho. Rapidamente saiu do banheiro e vestiu-se.
Pegou os livros que havia comprado e os colocou sobre a escrivaninha de sua pequena biblioteca e antes de sentar para estudá-los, preparou uma garrafa transbordante de café com algumas boas doses extras de pó e se trancou. A noite seria longa.
-o.O.o-
Por volta de quatro dias depois…
"Falta pouco mais de uma semana pra aniversário de Kamus." Pensou Milo enquanto trabalhava na decoração e ampliação de uma cozinha "Ele não comentou nada a respeito disso."
— Merda! — Xingou ao deixar a régua escapar um pouco do papel, estava desconcentrado e cometendo erros bobos como aquele. Podia estar arrumando a planta no computador, mas não estava com paciência.
Largou os objetos de trabalho, na prancheta, irritado. Só retomaria àquela planta mais tarde, era isso ou correr o risco de ter que redesenhar tudo. Que raiva tinha de servir de decorador! Ainda mais com tanta coisa na cabeça.
Deixou-se cair na cadeira do pequeno escritório de casa e continuou divagando: "Kamus está agindo de forma diferente nos últimos dias. Não que seja ruim, mas… sei lá! Tem alguma coisa que eu não estou gostando nessa mudança dele, fico me sentindo… excluído? Seria essa a palavra? É, acho que sim."
Sentado desajeitadamente, ficou girando a cadeira de um lado para o outro, sem mesmo notar que tamborilava os dedos no braço dela.
"Pelo jeito a coisa entre ele e Aioros não anda muito legal, mas se algo mais sério tivesse acontecido acho que ele viria me contar. Ou talvez não. Depois daquela briga que tivemos, não estamos falando mais do que o necessário e andamos nos estranhando até no aniversário de Hyoga."
Então, escutou o som do lado de fora do cômodo de alguém que acabara de chegar em casa e deduziu que fosse o francês. Confirmou quando nenhuma voz cumprimentou quem já se encontrava no apartamento com um "boa noite" ou mesmo um "cheguei". Havia alguns dias ele estava meio trancado em si mesmo.
Será que estava com ainda mais raiva do que Milo poderia pensar? Se bem que ele estava passando bastante tempo no quarto que usava como biblioteca. Riu-se. Lembrou como fora complicado projetar aquela sala de estudos exatamente do modo que o amigo queria.
Depois voltou a ficar pensativo. O aquariano parecia estar muito empolgado pesquisando alguma coisa, ele devia estar, inclusive, passando noites em claro. Quando o via pela manhã reparava no semblante cada vez mais cansado, mas o impulso de perguntar o que estava acontecendo era bloqueado por receio. Se Kamus não estava falando por espontânea vontade, provavelmente não queria ser incomodado.
Mas desde quando isso era barreira? Em que momento a intimidade deles havia sido abalada? Sempre tiveram liberdade para falar o que quisessem para o outro.
Não deveria se importar tanto. Seus amigos foram bem enfáticos ao dizer que o ruivo tinha a própria vida e estava tomando as rédeas dela.
Ouviu um barulho fraco e olhou diretamente para a porta, a tempo de ver o afilhado que caminhava em sua direção com um grande caderno na mão e um livro. Ele tinha um semblante frustrado que a primeira vista pareceria desesperador, mas conhecendo os dramas do russinho, resolveu ser solidário a ele e tentou ajudá-lo.
— O que houve?
— Não consigo ver a saída dessa droga questão! — Reclamou o loirinho exasperado.
— Deixe-me dar uma lida.
Pôs-se a analisar quesito indicado, rabiscando algumas coisas no caderno que o adolescente havia trazido. Depois de ter colocado alguns dados no papel, foi dar uma olhada na teoria da matéria, havia anos que não estudava Física, afinal de contas.
Feito isso, passou a explicar a solução ao jovem aquariano. Ou pelo menos a maneira de se resolver o problema e ele que se virasse em fazer os cálculos, estava sem muito saco para resolver "continhas".
Assim, deixou o rapaz multiplicando e dividindo alguns números e ficou a observá-lo. A postura de Hyoga era exatamente a mesma do francês na idade dele. Talvez não fosse à toa que os dois estivessem tendo algumas dificuldades para se entenderem, eram iguais! Só que o russinho ainda tinha mais chances de ser "modelado", ao contrário do pai que cada dia parecia ainda mais carrancudo.
— Ah, vocês estão aqui. — Comentou Kamus que acabara de chegar ao quarto com um pequeno sorriso nos lábios, ele parecia feliz com alguma coisa, ao contrário do que vinha ocorrendo.
— É, né? Finalmente você lembrou que a gente existe! — Interveio o rapaz de maneira sarcástica, fazendo desmanchar imediatamente o sorriso do rosto do pai.
Milo percebeu a tensão entre eles antes mesmo que Hyoga disparasse a frase. Dessa vez a provocação do afilhado parecia-lhe meramente gratuita.
— Hyoga, peça desculpas.
— Não!
— Peça, ou então vai passar mais uma semana sem computador.
— Ah, saco! Desculpa.
O loirinho pegou suas coisas e saiu do quarto com sua usual maneira intempestiva, deixando os dois adultos para trás.
— Por que você não o repreendeu? — Virou-se para o amigo no momento em que viu que o afilhado estava mais afastado.
— Esquece isso, Milo. — Pediu o francês com um olhar abatido. Viera dizer aos outros dois que estava com uma tese quase toda pronta e estava pensando em tentar um mestrado, mas perdera a vontade.
— Claro que não, Kamus! Você está fazendo exatamente igual aos pais de seus alunos que você sempre reclama.
— Eu não me importei por ele ter dito aquilo. Na verdade eu sei que deveria passar mais tempo com ele.
— Ah, você sabe? E por que não passa?
— Porque ele próprio me excluiu do círculo dele.
— Isso não é verdade.
— Não? Hyoga raramente me quer por perto. Na verdade, ele sempre vem contar os problemas dele a você!
— Pelos Deuses, não é porque ele queira! Ele vê que comigo tem abertura, se ele fez algo de errado eu não vou reprová-lo logo de cara e se seu filho não te quisesse por perto, não berraria por sua atenção todo o tempo!
— Você está insinuando que eu sou negligente com Hyoga. — Constatou o francês, contendo a raiva. Concordava com exatamente tudo que o escorpiano estava dizendo, mas ainda não queria se mostrar mais fraco.
— Eu não disse isso. Eu disse que ele está se comportando desse modo porque está louco de ciúmes de você. Já te passou pela cabeça que você poderia, sim, dividir seu tempo entre ele e Aioros?
— Não, além de negligente eu sou irresponsável! Deixo meu filho pra lá enquanto eu só penso em foder por aí! — A exaltação foi crescendo em si. Começou, portanto, a analisar as palavras do grego diferentemente do que sabia que ele tencionava.
— Kamus, não distorça o que estou dizendo!
— Eu não estou distorcendo! Eu estou interpretando o que você disse!
— Ah, quer saber? Vá a merda! Eu só estou tentando te ajudar. Porque ao contrário de você, odeio ver Hyoga te destratando! Aquilo que ele te disse final de semana que eu não estava é imperdoável. Caraxxx, ele mandou você engasgar com o pau de um cara, Kamus!
— Ah, quer dizer que ele te contou isso também? — Da raiva passou à vergonha. Tudo o que Milo apontava, demonstrava sua própria incapacidade em lidar com o filho. Odiava ter seus defeitos e falhas jogados em sua cara, ainda mais da maneira sincera e direta que o grego estava fazendo e sabendo que merecia ouvir aquilo.
— Contou. E contou muito mais. Contou também que sente sua falta e queria passar mais tempo com você. Eu dei um esporro nele e o que você fez? Nada! Não o castigou, não o repreendeu, nada! Só ficou com raiva dele na hora e parece ter esquecido o que ele fez. Você só está piorando o problema ao agir assim.
— Hm, pode até ser. — Rebateu cinicamente. Não havia o que contrapor.
— O que foi? Não está gostando de ouvir isso? Pois é verdade! Se você tentasse ouvir Hyoga, talvez as coisas não estivessem saindo do controle. Ele está precisando de sua atenção, Kamus, e não a quer dividir com ninguém. Por que você não tenta ser mais compreensivo com ele nesse aspecto e não passar a mão na cabeça dele?
— O filho é meu, Milo, não se meta!
O escorpiano parou de bombardear o francês com argumentos, o choque daquelas palavras fez alguma coisa dentro de seu peito apertar, talvez aquilo que tenha sido seu coração em algum outro momento. Os olhos marejaram, mas segurou a vontade de chorar, não iria mostrar ao aquariano que ele ganhara a discussão.
— Pois se lembre, meu amigo, que eu ajudei a criar esse menino desde o momento em que você pisou na Grécia novamente.
— Sim, eu me lembro, mas isso não quer dizer que você tenha alguma autoridade sobre ele.
— É verdade, eu não tenho. Mesmo assim ele me obedece e respeita, com você não é assim.
— Ah, mas depois de seus conselhos, eu estou disposto a reverter isso. Obrigado.
— Acho difícil. Afinal, como você mesmo falou, ele é extremamente apegado a mim. Talvez mais apegado do que a você.
— Mas não se esqueça que o sangue fala mais alto. Muito obrigado, mesmo, por sua ajuda durante esses anos todos. Você fez um ótimo trabalho, mas agora, não é mais tão necessário assim.
— Quer dizer então que você não precisa mais da minha ajuda?
— Não, não. Eu posso lidar com tudo sozinho.
— Então talvez seja hora de eu me mudar daqui.
— Talvez seja uma boa hora, sim.
Sustentaram o olhar por vários segundos, testando um ao outro para saber quem cederia primeiro.
Milo, no entanto, não conseguiu encarar o ruivo daquela forma por mais tempo. Era orgulhoso e queria humilhar o outro numa discussão, contudo, estava ferido. Tanto o aquariano o magoara mais uma vez ao disparar que era pai de Hyoga e não o grego, quanto ao dizer que realmente ele se mudar dali seria a melhor coisa a ser feita.
Assim, o loiro foi até o seu quarto, pegou as chaves do carro e saiu de casa sem dizer para onde ia, não devia qualquer satisfação àquele idiota mesmo, que se danasse o mundo. Só voltaria para casa no outro dia pela manhã, ou quem sabe apenas depois do expediente no escritório. Não importava, o que queria mesmo era sair dali.
Depois de percorrer alguns blocos, não resistiu. Parou na primeira loja de conveniência que avistou e comprou dois maços do cigarro que costumava fumar quando mais novo, além de um isqueiro. Mal saiu da loja, acendeu um e pôs-se a fumar.
Imediatamente após ter acendido o primeiro cigarro e dado a uma tragada, pensou em Hyoga e na conversa que tiveram poucos dias atrás. Sentiu-se um grande hipócrita, mas nem por causa disso deixou de dar uma segunda tragada muito mais longa e profunda que a anterior.
Era um alívio efêmero, mas era um alívio! Ao menos por cinco minutos iria ficar feliz com a fumaça preenchendo seus pulmões depois de tantos anos. Tentou justificar para si mesmo, alegando que não poderia ser forte todos os dias de sua vida, ainda mais quando todo seu precioso mundinho estava ruindo.
Não devia ter desafiado Kamus! Por que fizera isso para começo de conversa? O francês dera todos os sinais de que estava com raiva, por que inferno tinha que apelar para chantagem emocional e ameaçar ir embora? Só ganhara mais ressentimento.
"Bem feito! Quem te mandou mexer no vespeiro, Milo?" Perguntou a si mesmo, dando uma grande baforada. "Ele já tinha levantado todas as defesas contra você e você insistiu em fazer esse joguinho. Ele deixou bem claro o que queria, então lá você não fica mais."
Não deveria ter ido naquela maldita viagem! Se não tivesse deixado o aquariano por tanto tempo, ele não teria ido atrás de Aioros e, se tivesse, estaria lá para desencorajá-lo!
O pior, no entanto, era saber exatamente qual era seu problema: medo. Ele teve inúmeras oportunidades de se declarar ao francês, mas cometera o erro de pensar que uma abordagem mais sutil havia de surtir efeito. Demonstrara seu amor com todos os pequenos gestos que podia e não os via reconhecidos.
E Hyoga? Realmente, o adolescente não era seu filho, mas era como se o fosse. Ele ajudara a criar o loirinho, afinal de contas. Não podia negar que o sangue falava alto, tanto que, infelizmente, até hoje o afilhado nutria algum sentimento pela cobra peçonhenta da mãe dele. Mas seria tão pretensioso assim de sua parte amar o russinho e ter sua participação na vida dele reconhecida?
Agora lá estava ele, dirigindo rumo a um hotel para passar a noite e como companhia apenas um cigarro na mão – além dos vários outros dentro da caixa que seriam fumados em breve.
Poucos minutos depois, estava no saguão de um pequeno hotel próximo ao centro de Atenas, fazendo o check-in e rapidamente subindo ao quarto. Assim que se viu sozinho, não esperou nenhum instante para acender mais outro cigarro e tragar o mais fundo que conseguia.
Jogou as compras sobre a colcha, desabotoou a camisa, desafivelou o cinto e tirou os sapatos. Sequer tinha se apercebido que não descansara desde que chegara do trabalho. Deixou-se, por fim, cair na cama como um peso morto.
Não conseguiria mais dar um jeito na situação. O apartamento não lhe pertenciam, nem o adolescente, nem o outro homem com quem morava. Nada lá era dele, a vida não era dele e nenhum dos dois dependia de si para sobreviver. Era completamente inútil para ambos. O melhor seria mesmo sair daquele apartamento e começar a viver uma vida só sua apenas para variar.
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Assim que percebera que o escorpiano saíra de casa, soltou um urro. O francês não teve qualquer pensamento que lhe impedisse de socar a parede do escritório do loiro por tantas vezes quanto a fúria de si mesmo lhe bastasse.
Não precisava ter dito aquelas coisas a Milo. Nenhuma delas era verdade! Estava adquirindo o péssimo hábito de disparar comentários maldosos apenas para ver o outro sofrendo. Não tinha idéia de onde estava vindo essa sua veia sádica, aliás, tinha. Não queria admitir, mas estava morto de ciúmes.
Pelo motivo que fosse, não deveria ter levado a conversa com o loiro daquela maneira. Tudo bem que as pessoas se magoam quando convivem, mas por que não concordara com ele se era isso que realmente pensava. Estava perdendo as rédeas na criação de Hyoga e o escorpiano estava querendo ajudá-lo. E se Milo dissera coisas daquele tipo, é porque há muito tempo ele próprio, Kamus, havia dado abertura para isso.
Continuava a socar a parede. Nem lhe passou pela cabeça se teria que engessar a mão depois disso e tampouco se importava. Tudo que queria naquele momento era extravasar. Sentia que era incapaz de fazer as coisas de um modo coerente.
Só parou aquela autoflagelação quando teve seu braço segurado por dois braços magros, mas fortes. Olhou para o lado e viu o filho adolescente seguro a si e com os olhos arregalados de medo.
O ruivo aliviou a postura rígida que assumira. Contudo, a vergonha que sentiu ao ver o loirinho tão preocupado, o impediu de tomar qualquer atitude carinhosa com ele. Assim, desvencilhou o braço de maneira mais calma e deu um passo para trás.
— Pardon, petit.
— O que aconteceu?
— Je suis un idiot. Nous avons eu une discussion. J'ai dit quelques choses stupides qui l'ont blessé. Et alors il est parti, parce qu'il a eu… Je ne pas savoir pourquoi il est parti. Peut-être parce qu'il était si fâché contre moi…
— Pai, calma. Respire e volte a falar em grego. Não entendi quase nada!
— Desculpe, Hyoga…
— Mas por que brigaram? O que está acontecendo entre vocês dois?!
— Eu não sei! — Respondeu o aquariano mais velho ainda demonstrando claros sinais de nervosismo.
— Será que ele volta ainda hoje para casa? Não tem a ver com aquele dia no sofá, tem?
— Tem, mas é mais do que isso. Tem a ver com minha total incapacidade de me comunicar de uma maneira decente.
O ruivo olhou para o filho e viu que ele denotava uma forte tristeza.
— O que foi, Oga?
— Nada, deixa pra lá…
— Oga, se quiser conversar, por favor, pode se abrir comigo também. Não quero que a gente se distancie. Essa semana eu fui a uma livraria e vi uma porção de CD's e DVD's que você talvez gostasse, mas não comprei nenhum.
— Por quê???
— Porque eu não sei quase nada mais sobre seus gostos e sei muito menos quais álbuns você já tem ou baixou da Internet.
— Eu gosto do Foo Fighters, você sabe disso!
— Só dos Foo Fighters? É isso que eu quero dizer.
— Ah… Mas você não gosta da maioria das músicas que eu escuto, diz que eu poderia escutar menos americanos idiotas e ingleses esnobes.
— E tem como discordar que eles ainda são os donos do mundo? E nem tudo o que fazem é ruim. Seus colegas me mostram muita coisa. Eu gostei do Oasis e, mais recentemente, dos Strokes.
— Strokes? Eu tenho um monte de coisas deles! Baixei um clipe muito foda que vi na MTV.
— Milo não te proibiu de usar o computador dele? Você baixou por onde?
— Er…
— Tudo bem, dessa vez passa. Ele não precisa de mais aborrecimento.
— Então não o aborreça mais! Simples, não?
— Muito. Já jantou?
— Não.
— Vamos comer alguma coisa fora, preciso de uma espairecida.
— Legal! — Exclamou o adolescente dirigindo-se ao seu quarto para colocar uma calça e vestir um casaco, o clima ainda estava meio frio no final de janeiro.
Kamus sorriu. Ao menos uma coisa boa havia acontecido após uma briga daquelas. Entretanto, permaneceu ensimesmado, estava preocupado com Milo, mas não adiantaria ir atrás dele naquele instante. Do jeito que o grego era, seria capaz de desligar o celular em sua cara, isso se tivesse um. Só esperava que ele tivesse juízo e não fizesse nada muito idiota.
-o-
O escorpiano só chegou ao apartamento no dia seguinte à noite. Do hotel tinha ido direto para o escritório, sem querer dar o braço a torcer que havia deixado alguns desenhos importantes em casa e que iria precisar deles durante o dia.
"Desgraça pouca é bobagem" pensou ele, quando se deu conta que iria adiar alguns projetos por causa disso.
Trabalhou o dia inteiro sem ser interrompido, pois havia pedido à secretária que desmarcasse todos os encontros com seus clientes, não estava com ânimo de suportar piti de madame por causa de atrasos em reformas, ao menos não por hoje.
Só se deu conta já era hora de ir para casa quando a moça avisou-lhe que estava de saída. Provavelmente seus sócios já haviam ido também e não fazia sentido passar mais tempo lá sozinho.
Organizou suas coisas para ir embora, tendo o cuidado de conferir junto ao peito se seus pequenos objetos de escape – os quais foram seus grandes companheiros durante todo o dia – ainda estavam ali. Constatando a presença dos dois, pegou as chaves do carro e rumou para casa.
Ao chegar lá, se preparou psicologicamente para encarar os dois aquarianos. Quando entrou pela porta da sala, viu que pai e filho estavam sentados, jantando.
Sendo assim, entrou no ambiente, dando boa noite aos dois, os quais o cumprimentaram de volta em uníssono. Talvez, ter chegado como se nada houvesse acontecido fosse mesmo a melhor saída. Não fora bombardeado com perguntas incômodas a respeito de sua saída abrupta de casa e, ao que aparentava, poderia sentar-se à pequena mesa e desfrutar do pãozinho fresco que viu.
— Que merda é essa no seu bolso? — Perguntou o ruivo de forma retórica, no momento em que o grego se acomodara. A forma do bolso da camisa de Milo já dizia tudo. Teve ímpetos de atirar-se contra o escorpiano e jogar aquela porcaria no lixo, só não o fez porque sabia que a culpa era sua.
— Cigarros. E um isqueiro, já ia esquecendo. — Rebateu o outro impaciente.
— Mas… Milo… — Foi a vez de Hyoga intrometer-se. Lançou um olhar desapontado ao padrinho, mas baixou a cabeça e continuou comendo, fitando-o apenas de soslaio.
— Faça o que eu digo, não faça o que eu faço! — Respondeu ao afilhado atravessadamente — Agora, se me dão licença, vocês não vão estragar meu jantar, vou comer no meu quarto!
Assim, o loiro jogou alguns frios dentro de dois pães que se dera ao trabalho de abrir apenas com as mãos. Levantou-se, deu uma mordida generosa no sanduíche e deixou a companhia dos outros dois.
— A culpa é sua, pai!
— Não comece! Eu não tenho culpa pelas escolhas dele! — Tomou um gole de seu café e olhou severamente para o filho, como se dissesse que o assunto estava encerrado.
-o-
Mais um dia de trabalho havia se passado e estava exausto. Os negócios estavam indo bem e ele até que vinha ganhando algum nome com suas pinturas. Não era à toa que andava tão ocupado. Pelo menos existia alguma parte boa em sua vida.
Relutara um pouco, mas a decisão foi tomada. Não adiantava mais ficar se enganando que teria alguma chance com Kamus, para que inferno ficar se torturando por aquela paixão?
"Convenhamos, eu nunca tive qualquer chance. Ele nunca olhou para mim de outra forma que não fosse a de um amigo… É, mas teve aquele episódio do sofá… alguma coisa ele sentiu por mim. Ora, cacete! Mas eu não tinha dado aquele tipo de abertura! Se o idiota confundiu uma brincadeira com uma cantada é porque é mais imbecil do que o que eu achava!"
Rodou as chaves na fechadura e andou pela casa avaliando o ambiente. Constatou com certo alívio e tristeza que estavam só ele e Kamus no local, o afilhado deveria ter ido dormir na casa de algum dos amigos. Pena, gostaria de conversar um breve momento com o adolescente, ao mesmo tempo, sentia que talvez as coisas funcionassem melhor daquele modo.
Foi ao seu quarto e começou a jogar as roupas em cima da cama. Em seguida, estava no banheiro recolhendo alguns artigos de higiene de primeira necessidade, os quais tiveram o mesmo destino.
Achando ser suficiente, abriu a porta do maleiro acima do guarda-roupa e puxou a primeira mala que encontrou, apenas não viu que em cima dela, existiam mais duas outras. Ambas viraram com tudo por cima de si, ocasionando um grande estrondo.
— ORA PORRAAAA!!! — Gritou, colocando a mão na cabeça, exatamente no lugar em que fora atingido por uma das malas.
Em poucos segundos, no entanto, viu um francês avermelhado por uma breve corrida, empurrar-lhe a porta do quarto de supetão e entrar sem ser convidado.
— O que aconteceu? Você está b… O que pensa que está fazendo? — Interrompeu-se Kamus, demonstrando estar bastante desconcertado pela visão do quarto do loiro.
— É óbvio, estou me mudando, não está vendo as malas? — Pegou uma das malditas com raiva e sacudiu-a na cara do aquariano, dirigindo-se a sua cama, a fim de enfiar seus pertences de qualquer jeito e ir embora dali.
— E pra onde você vai, idiota?
— Pra qualquer lugar, imbecil! — O grego continuou colocando suas coisas dentro das malas, sem se dignar a olhar para a outra pessoa ali presente. — Até para a casa de Saga, se for o jeito!
— Isso é por causa daquela briga de anteontem, é? Você é muito fraco mesmo! Nunca consegue resolver seus próprios problemas e vive fugindo de si mesmo!
— Eu não sou assim, Kamus! Simplesmente não quero mais ficar perto de você porque isso está me fazendo mal! — Virou-se para o aquariano, apontando para ele e mantendo uma postura de ataque.
— E por que eu te faço tanto mal assim? A culpa é apenas minha por seus problemas? Ora, faça-me o favor! Se estiver puto da vida comigo tenha coragem para dizer isso na minha cara e não ficar fugindo como .vezes você faz!
— Faça-me o favor você e saia do meu quarto. Não queira estragar o mínimo de respeito que eu ainda tenho por você!
— E o que eu te fiz, Milo? Hein? O que eu te fiz? Você vive dizendo que eu preciso colocar meus sentimentos para fora e você? Nunca diz o que sente, sempre está escondendo quem você realmente é: um homem inseguro, incapaz de resolver os próprios assuntos e de correr atrás daquilo que quer!
— Cale a boca, Kamus!
— O que foi? Cuspi algumas palavras na sua cara e você se irritou? Problema seu!
— É por isso que estou indo embora. Estou saturado de você. Nas últimas semanas quantas vezes nós brigamos desse jeito? E quase todas as vezes você começou. Quero paz na minha vida, estou indo e ponto final. Cansei de conviver com um histérico.
— …
O ruivo ficou a observá-lo encher as malas. Quando o amigo já estava fechando a última, viu-se obrigado a engolir seu orgulho e dizer:
— Milo, por favor, pense no que está fazendo.
— Sinceramente, Kamus, eu já pensei e acho que isso vai ser o melhor para mim.
— Não fuja de mim!
— Pare de me dar ordens! Aqui as chaves. Outro dia eu venho para pegar o resto. — Estendeu a mão com as pequenas peças de metal, sustentando-a no ar por alguns segundos, até ver o outro dar um passo para trás e falar.
— Fique com elas. Você pode vir a mudar de idéia. — O aquariano matinha o olhar baixo, assim como o volume de sua voz.
— Dificilmente…
Assim, o francês pegou uma das malas que o outro havia feito e dirigiu-se para fora do apartamento, sem, no entanto, olhar para trás. Se o tivesse feito, notaria o semblante pesado do loiro, mas não queria mostrar sua própria expressão abalada.
Em silêncio, seguiram até a garagem, onde Milo abriu o carro para que pudessem guardar aquele fardo. Olharam-se intensamente por alguns momentos. O ruivo teve vontade de tomá-lo num abraço, mas não conseguiu, pois o próprio escorpiano não deu nenhuma abertura para isso.
— Até outra hora. — Despediu-se o grego.
— Até.
O arquiteto deu partida no carro e saiu do prédio. Quando já havia dobrado a esquina é que se deixou chorar silenciosamente.
"É o melhor para mim…" Repetia de forma incessante. Por outro lado, se recriminava por, mais uma vez, não ter conseguido falar a verdade. Lembrou-se do que Kamus havia dito sobre não querer encarar dificuldades e sentiu raiva "Não, eu não estou fugindo!" Acelerou o carro e pôs-se a pensar onde iria dormir aquela noite.
-o.O.o-
Após assistir ao carro do grego partir, o francês voltou para o apartamento e teve de usar todo o seu autocontrole para não descontar a raiva que sentia do outro nos objetos de casa. Foi até a cozinha, preparou o café o mais forte que poderia tragar e virou praticamente duas xícaras em menos de vinte minutos e trancou-se na sua saleta de estudos, a fim de concluir o esboço do trabalho que vinha preparando.
Não estava com vontade de prestar atenção nas crises existenciais do grego. Quando ambos se acalmassem, as coisas poderiam voltar a ser como o de costume, mas antes disso, precisava terminar aquele maldito rascunho.
Não conseguiu, no entanto, pregar o olho durante a noite, assim como escrever qualquer linha do seu trabalho. Assim que pôde, ligou para o escritório e mentiu que estava doente, em seguida, ligou para a escola com a mesma desculpa.
Passou o dia tentando fazer contato com o grego no escritório, mas a secretária lhe respondia que ele estava ocupado, ou com cliente em sala, até, por fim, afirmar que seu patrão fora categórico em dizer que não iria atender qualquer telefonema vindo de sua pessoa. Ante às negativas do outro, não viu outra solução a não ser dar um tempo ao escorpiano.
À noite, contudo, decidiu que ao menos deveria deixar o filho à par do ocorrido. Se o grego voltasse para casa ou não, ele tinha o direito de saber e, na pior das hipóteses, começar a se conformar.
— Hyoga, precisamos conversar. — Comentou o francês, sentando-se na cama do quarto do filho, enquanto o loirinho escutava música e jogava no seu novo PSP.
— Diz. — Não tirou os olhos do visor, esperando que o pai fosse breve, afinal, aqueles monstros não morriam sozinhos.
— Dê pausa nessa coisa, Alexei! — Botou a mão na frente da tela, olhando mortalmente sério para o rapaz.
O adolescente ficou um pouco apreensivo. Quando o pai o chamava de Alexei era porque ele o irritara. Assim, desligou o jogo, bem como a música e pôs-se a prestar atenção no que o ruivo queria conversar e algo lhe dizia que odiaria saber.
— Você já deve ter percebido que eu e Milo andamos brigando muito esses dias.
— Notei.
— Pois é. Acontece que, para ele, a situação ficou insustentável e decidiu que o melhor a fazer seria ir embora daqui. Ontem a noite, antes de você chegar em casa, ele arrumou algumas malas e foi embora.
— O quê?! Você deixou???
— Eu não tinha como impedir, Oga! Eu tentei argumentar que ele estava de cabeça quente, mas não adiantou!
— Pra onde ele foi?
— Eu não sei.
— Milo nunca pensaria numa coisa dessas. Ele te ama demais! Não iria querer ir para longe! A culpa é sua!
— Isso é assunto meu e de Milo. Filho, eu sei que você está magoado, mas não queira se meter em minha vida.
— Droga, pai!
— Hyoga, eu estou cansado. Venho sendo tolerante por causa dos problemas que você teve na Rússia com sua mãe, pela situação com Shun e a adaptação na escola. Primeiro de tudo: me respeite. Segundo: se está frustrado, tudo bem, mas não desconte em mim, porque eu não tenho culpa se o mundo cai todas as vezes que você se decepciona.
O jovem aquariano pegou o travesseiro atrás de si e o abraçou, apertando-o com força. Seu pai observou a cena com grande pesar. Esperava que o russinho fosse reagir daquela forma, mas ver o desenrolar da situação não era o mesmo que pressenti-la. Então, afagou-lhe as costas e observou o semblante triste do mais novo.
— Eu acho que ele vai mudar de idéia. Estou falando seriamente.
— E se ele não voltar?
— Não sei.
— …
Kamus ficou observando o filho até o momento em que se levantou e caminhou até a porta, dividido entre permanecer no quarto com o filho ou deixá-lo ficar pensando a respeito.
— Oga, vamos ao shopping, estou pensando em comprar um laptop para mim, assim você me ajuda a escolher.
— Pode ser outro dia? Prefiro ficar sozinho um pouco.
— Tudo bem, sabe onde me encontrar.
— Ok.
O ruivo pegou a porta e fechou-a com cuidado. Do lado de fora, percebeu que ficar apenas pensando no ocorrido não seria de grande valia. Desta feita, foi até o quarto de Milo disposto a organizar o resto das coisas dele.
Quando adentrou o cômodo que pertencia ao grego, não teve coragem de fazer o que estava pretendendo. Deixou tudo da maneira que encontrara e fechara a portar atrás de si.
-o.O.o-
Dia de seu aniversário e Kamus estava ali à pia da cozinha tentando de toda maneira livrar um peito de frango que havia comprado no dia anterior de toda pele e gordura. Já havia se amaldiçoado dez milhões de vezes por não ter reparado na indicação que informava a existência de ossos no corte da carne. Andava distraído como o diabo e com Milo fora, toda a responsabilidade da casa estava com ele.
Tomou um belo gole do café que havia preparado há pouco. Respirou um pouco, lavou as mãos rapidamente e entornou a caneca até o fim. Sequer se lembrava quantas tomara o dia inteiro. Passava das sete da noite e de tanto que bebera já se sentia estranho.
Levantou a mão direita e espalmou-a no ar. Ela tremia ligeiramente e sabia que era por causa da cafeína, mas não conseguia evitar ingeri-la. Havia alguns dias estava com aquela obsessão em ficar acordado… tudo por causa daquela tese que estava desenvolvendo, ao menos isso o mantinha distraído. Resolvera tirar o tempo perdido e agora estava sentindo as conseqüências disso em seu corpo.
Irritado, ouviu o telefone tocar e presumiu que era para si, afinal aquela deveria ser uma data comemorativa. Ou quase.
Que telefone irritante! Tocava sem parar. Tinha de dar conta seus amigos, colegas, conhecidos e alguns parentes distantes que estavam ligando a cada minuto para o fixo e o celular. Ainda tinha de agüentar as mesmas piadinhas de que estava mais velho. Já não queria mais tentar ser agradável ou mesmo engraçado e receptivo àquilo.
Lavou as mãos novamente e as enxugou no primeiro pedaço de pano que viu, bem a tempo de escutar Hyoga declarando que alguém o esperava na linha. Ao menos dessa vez estava com espírito de despachar a pessoa o mais rápido possível e ficar em paz mau humor.
— Alô? — Indagou pegando a extensão da sala.
— Kamus, sou eu, Marin! — Exclamou a ruiva contente do outro lado da linha. — Parabéns, meu amigo.
O aniversariante sorriu e sentou-se no sofá da sala, se fosse qualquer outra pessoa a mandaria para o inferno, mas a antiga amiga de faculdade o sensibilizou com tanta animação.
— Obrigado, Marin! Não esperava que você fosse ligar. Ainda tinha meu telefone?
— Sim, sim. Fui procurar nas minhas agendas antigas, apenas para ter certeza, porque eu tenho uma ótima cabeça para decorar números, você sabe. Já tinha se esquecido de mim?
— De maneira alguma. Mas nos distanciamos com o tempo.
— Temos que remediar isso, então! O que me conta de novidades? E como está Aioros?
— Bem, Aioros e eu não estamos mais juntos, acabamos nosso caso há poucos dias, na verdade, simplesmente decidimos que era melhor assim.
— Que pena… ele era um pedaço de homem, viu?
— Haha não sinta, porque eu não sinto. E, sim, ele era muito gostoso! E bom de boca.
— Hahahahahahaha! Zeus, eu nunca achei que trocaria confidências desse tipo com o sisudo Kamus! E aí? não há mais alguém em vista?
— Sisudo? Eu não sou sisudo! — Defendeu-se ele, denotando seu divertimento. Um minuto de sanidade no dia caía bem de vez em quando.
— Não é pouco! Só depois que a gente te conhece melhor um tiquinho é que tira a má impressão. Mas você ainda não me respondeu.
— Bem, até poderia existir, mas ele não está muito receptivo. Não é do tipo "aproximação direta e certeira".
— Ok, ele está fazendo jogo duro. Acontece… e o Milo? Como está? Sequer perguntei por ele no dia em que nos encontramos!
— Ele está bem, mas não mora mais aqui. — Respondeu com um pouco de pesar.
— Milo… é uma figura. Acho que eu nunca comentei, mas ele morria de ciúmes de mim.
— Eu percebia. Ele é ciumento demais mesmo. Ah! E aquele bebezinho que estava com você? Presumo que não seja sua sobrinha.
— Pois é! Quem disse mesmo que nunca teria filhos? E agora estou com a pequenininha chorando a noite inteira.
— Fico feliz, por você 'Rin.
— Engraçado como as coisas se modificam… Quantas mudanças aconteceram! A gente nunca sabe o que esperar, não é mesmo? Qual será a próxima?
— E quem sabe? Se bem que eu gostaria de tirar umas férias de acontecimentos bombásticos por uns meses.
— Quem é você e o que fez com o Kamus? O homem que eu conheci se entediava com qualquer rotina, ele sempre era ávido por "acontecimentos bombásticos".
— Por que eu estou ficando velho, retrógrado e reacionário? — Foi sua resposta irônica. De fato estava cansado de todas as mazelas que estavam acontecendo na sua vida, por culpa própria ou não.
— Só por isso, tem certeza? — Inquiriu ela de forma acusadora. O francês percebeu, portanto, que a amiga ainda mantinha alguma sintonia consigo, apesar dos anos de afastamento.
— Mal consigo lidar com tudo o que me vem acontecendo, imagina se vierem mais duas bruscas mudanças de direção do caminho que eu estou seguindo. Eu hei de me estabacar no primeiro poste sem direito a cinto de segurança ou air-bag.
— Exagerado… — Zombou ela cantando a palavra. — E você só tem trinta anos e já passou por muito mais problemas que a maioria das pessoas. Sempre viveu cheio de planos, mas nunca gostou muito de colocá-los em prática e, quando raramente colocava e não saíam a contento, ficava mais frustrado que o resto da humanidade.
— Você está parecendo o Milo.
— Dou razão a ele.
— Eu só quero folga de mim mesmo, Marin. Eu ando magoando todas as pessoas que estão a minha volta.
— Então gaste essa energia acumulada. Converta essa agressividade em algo útil. Quem sabe isso não alivia sua cabeça.
— Se conselho fosse bom, não se dava, se vendia. — Zombou ele.
— Então eu e você estaríamos morrendo de fome a uma altura dessas. Péssima profissão a nossa.
— De fato…
— Bem, vou andando. Feliz aniversário outra vez.
— Obrigado. Vamos marcar de nos encontrarmos qualquer dia.
— Combinado! Até outra hora.
— Até.
O aquariano desligou o telefone sem fio e encostou sua antena nos lábios. Seu coração dava pulos violentos dentro da caixa torácica, num passo tão lento que todas as vezes que sentia a batida daquele músculo, uma dor estranha tomava seu peito por completo.
Marin estava com a razão. Deveria existir alguma maneira de amenizar aquela angústia. Estava agitado e irritadiço demais para sequer conseguir relaxar, aquela semana insone era conseqüência disso, por óbvio.
Precisava mesmo gastar alguma energia. Assim, pegou a carteira em cima da mesa da sala e conferiu se havia algum dinheiro dentro dela para qualquer eventualidade.
Depois disso, foi ao quarto e trocou a camisa por uma baby look preta que, de tão justa, parecia gritar: "mamãe, sou gay!" e, só para piorar, jogou um sobretudo não muito pesado por cima dos ombros. Prendeu os cabelos de maneira desleixada e trocou seus costumeiros sapatos por tênis.
— Hyoga, vou sair! — Gritou para o filho já abrindo a porta da sala.
— Hein? Vai para onde? — Perguntou o loirinho de volta.
— Sair. Tchau.
"Que vou comer então?" Pensou Hyoga consigo mesmo. Pediria comida chinesa, provavelmente, e tudo resolvido.
-o.O.o-
"Aniversário de Kamus." Pensou o escorpiano consigo mesmo. Olhou para seu recém comprado celular e sentiu-se tentado a parabenizar o amigo. Iria precisar de um, já que não estava mais em casa. Pegou o aparelho na mão e contemplou o visor. Digitou o número do ruivo, mas não conseguiu esperar a chamada ser completada e desligou. "Estou parecendo uma menininha insegura (¬¬)."
Leves batidas à porta despertaram-no do transe. Viu o homem idoso de cabelos esverdeados adentrar o cômodo com um sorriso bondoso. Havia se hospedado na casa de Shion e Dhoko por aqueles dias. Sentia-se bem ali, mais tranqüilo, além de ter sido muito bem recebido pelo antigo preceptor.
— Outro dilema interno? — Indagou o tibetano ao sentar na cadeira ao lado da cama do grego — Ai, meu ciático! — reclamou, para só então se apoiar com as duas mãos na bengala que adotara havia alguns anos. Acomodou-se o melhor que podia e sorriu ao seu hóspede.
— Aham.
— Sabe, Milo, nós já conversamos sobre sua situação. Não vou dizer mais nada a respeito.
— Tudo bem…
— E também não gosto da maneira que você deixou sua vida para trás.
— Eu sei…
— E que você deveria deixar de ser orgulhoso.
— Verdade.
— E eu odiei o fato de você ter voltado a fumar!
— Shion, seja justo com o rapaz. — Interrompeu o chinês, que viera logo atrás do amante, o qual pousou a mão sobre o ombro direito do escorpiano. — Kamus não tem sido a melhor das companhias e ele precisava refrescar a cabeça. Não estou dizendo que ele esteja certo, mas também não o julgue precipitadamente.
— Você sempre querendo dar a contramedida das coisas. — Reclamou o ariano, já tão acostumado com a maneira do namorado de raciocinar.
— Caso contrário não seria eu. — O libriano olhou de forma doce para o amante e falou diretamente ao loiro — Sabe, rapaz, você está coberto de razão em querer afastar as coisas que te fazem mal, contudo, você não está lidando com o problema de maneira adequada. Usar artifícios como cigarros não é uma boa saída.
— Eu me odeio por isso. — O grego estava envergonhado, mas nem por isso lhe passou pela idéia simplesmente parar de usar os cigarros. Manteve o olhar baixo, observando o ariano brincar de socar devagarzinho o chão com a bengala.
— Sabe, Milo, eu também sou movido a grandes arroubos de sentimentos. — Interrompeu Shion, chamando a atenção para si. — Eu coloco uma carga dramática muito forte naquilo que eu vou fazer e isso, por vezes, me deixa exaurido. Na sua idade eu era ainda mais passional. Imagino como esteja se sentindo sugado e confuso, acho que o que você precisa são alguns minutos de paz. Sem cobranças, sem rebuliços, só você.
— Tem alguma coisa em mente de algum lugar em que possa ir para por as idéias em ordem? Acho que para você, ficar em enfurnado dentro de casa será pior. Dois velhos não são companhia para uma pessoa da sua idade! — Comentou Dhoko divertido, oferecendo a mão de apoio para que o loiro se levantasse.
O grego aceitou ao convite do libriano, pondo-se de pé quase que instantaneamente. Olhou bem para ambos os ex-padres – o chinês já havia ido se instalar próximo ao companheiro – e decidiu que eles estavam certos. Porém, não disse uma palavra.
De imediato, abriu uma das malas que havia trazido consigo, a qual estava alocada no chão, retirando de lá um sobretudo cinza. Até que durante o dia o frio não era dos mais intensos, mas à noite a temperatura costumava cair bastante e logo escureceria. Abaixou-se novamente e, ajoelhando-se no chão, procurou por um cachecol, a fim de proteger a garganta e socou-o no bolso de dentro do casaco.
— Que saudades do tempo em que eu podia me abaixar! — Exclamou o homem mais atarracado, o qual outrora tinha uma vasta cabeleira castanha.
O escorpiano riu-se gostosamente. Abraçou ambos os anfitriões e pegou a chave do carro, a viagem que pretendia era curta, mas conseguiria estabelecer um ponto final nessa história.
— Juízo, meu filho. — Orientou Dhoko.
— Que Deus te ilumine. — Complementou Shion.
O loiro assentiu com a cabeça e começou a dirigir até o local em que provavelmente iria ficar em paz consigo mesmo. Aí sim, poderia dizer que não devia absolutamente mais nada a Kamus.
-o.O.o-
Aquele ambiente escuro lhe proporcionava uma estranha sensação.
Parecia que seu corpo não possuía mais qualquer limite, integrando-se com perfeição ao meio em sua volta. Enquanto as caixas de som explodiam numa batida ensurdecedora, seu próprio coração pulava dentro do peito, mas era a vibração sentida de fora quem de fato lhe dava vida. Ele fazia parte do todo e o todo parte de si.
Só foi posto de volta à realidade quando um braço másculo agarrou sua cintura e colou os dois corpos. O outro homem prendeu sua nuca e o beijou. Respondeu ao beijo na mesma intensidade ou ainda mais voraz. Levantou a blusa do acompanhante e passou a percorrer o tórax suado com os lábios.
Passou a mão pelos músculos definidos, os quais podia sentir contraírem-se sob a pele. O estranho abaixou os braços, apertando-lhe peito, nádegas, braços, onde quer que pudesse tocar. Ergueu a cabeça e passou a morder-lhe o lóbulo da orelha, quando o ouviu conter um gemido.
O desconhecido virou-o de costas, roçando os quadris em suas nádegas, mostrando que tinha uma ereção. Aceitou o convite e virou-se novamente para frente. Colocou as mãos por dentro da calça dele e massageou o membro rijo. Trouxe o pênis dele um tantinho para fora e olhou bem, depois, pela primeira vez é que analisou o rosto do ficante, o qual sustentava um olhar de luxúria.
— Ruivinho safado… — Comentou o homem.
— E o que você quer? — Indagou.
— Kamus! — Uma pessoa gritou seu nome enquanto agarrava seu braço. A voz era de Aioria. Fechou os olhos com ânsias de cólera. Seria possível que nem ali o deixariam em paz? — Eu não acredito no que estou vendo!
— Ei, cara, cai fora! — Ordenou o homem que estava com o francês segundos atrás, interpondo-se entre ele e o leonino.
— Cai fora você! — Empurrou o estranho, que quase socou o grego no rosto, mas foi impedido pelo aquariano.
— Eu o conheço. Dê-me cinco minutos.
— Cinco minutos, ruivo. — O brutamonte se afastou, dando oportunidade para os dois amigos se falarem.
Zangado, o psicólogo se virou para o amigo para começar a despejar sua frustração. Não tinha com quem conversar, pois afastara Milo de si e tanto fizera que o magoara, não tinha mais um namorado – a quem querendo ou não fazia algumas confidências –, estava se divorciando, tinha todos aqueles problemas com o filho e agora sequer poderia ir pra cama com quem quisesse? Toda a situação estava derretendo seus miolos!
— Ora, poxxx! Meta-se com sua vida, Aioria!
— Aquilo ali não é homem para você, Kamus!
— Isso sou eu quem tem que decidir.
— Cara, ele é conhecido aqui na boate. É o que pega todos e mais alguns e depois chuta. Não é que você não possa decidir com quem estar, mas tenha critério, pelos deuses!
— Aioria, agradeço a sua preocupação, mas eu quero fazer maus julgamentos. Eu quero quebrar a cara. E decidi que vou viver pelas minhas próprias escolhas, boas ou ruins.
— E quando você decidiu isso? — Perguntou o grego aborrecido. Pouco se importava quem era o cara ou se realmente ele era aquilo que estava dizendo, mas não se conteve em interromper aquele espetáculo público. Se o escorpiano soubesse disso (e eventualmente saberia) ficaria ainda mais arrasado.
— Quando eu senti que daquela dança eu poderia ter ganhado um boquete! — Conteve sua raiva. O leonino poderia ser taxado de bobalhão, mas não era tanto assim — Mudando de assunto… você falou com Milo esses dias?
— Falei. Me admira você ainda querer ainda saber dele.
— Como não iria querer, Aioria? Eu me importo com ele! Saiu de casa e sequer atende meus telefonemas. Preciso falar com ele, explicar algumas coisas…
— Kamus, sejamos sinceros, você não o ama. Por que quer tanto que ele volte para casa? Eu já estou sabendo do que Afrodite andou conversando com você. Você sabe o que aquele idiota sente, mas não fez nada a respeito. Milo não merece ficar aprisionado por uma paixão superficial de adolescente. Liberte-o. Você está sendo egoísta.
— Você não entenderia em mil anos o companheirismo e a cumplicidade que eu e Milo nutrimos um pelo outro. Nunca se envolveu com ninguém!
— E você já se envolveu? Aliás, já se apaixonou de verdade por alguém? Você sempre ficou pisando em terreno seguro até conhecer o meu irmão. Nunca se arriscou por relacionamento algum! Além do mais, fala de você e Milo como se tivessem algo além de amizade comum.
— Em resumo, você está dizendo que Milo deveria me esquecer, porque eu não sairei nunca desse ciclo vicioso de mantê-lo a minha mercê, enquanto eu procuro satisfação sexual fora? — Estava um pouco em choque com a constatação. Mais uma coisa sobre a qual refletir.
— Isso. Deixe Milo em paz. Não o procure.
— É sua opinião sincera, não, Aioria? — Indagou o aquariano. Estava cansado até para brigar.
— É, sim. Se fosse para rolar alguma coisa entre vocês, já teria rolado. Simplesmente não é para ser. Se não está apaixonado por ele também, de que adianta Milo voltar para casa? Só vai torturá-lo por mais quinze anos.
— Valeu, cara, você foi honesto. — Pegou a mão do grego e apertou-lhe com firmeza, dando-lhe um soquinho no ombro com a outra mão. Pediu mais uma bebida no bar e voltou à pista de dança.
— Ex-namorado? — Indagou um homem moreno, o qual estava sentado num banquinho próximo onde ele e o francês estiveram discutindo. Ele tinha um copo de chope na mão e uma capa que cobria os ombros.
— Pior. — respondeu sorrindo, o cara era bonito, talvez aquela conversa fosse promissora. — Amigo meu.
-o.O.o-
Enquanto isso, no apartamento…
O jovem aquariano olhou para seu celular e reparou a hora. Quase meia noite e seu pai ainda não havia chegado. Estivera jogando todo o tempo e só agora viera se aperceber de que Kamus ainda estava fora. Resolveu ligar para o celular dele, mas ouviu o aparelho gritar na sala.
Achou estranho dessa vez. O pai não era de sair sem avisar e muito menos de deixar o celular em casa. Ele poderia ter saído com Aioros, mas nunca mais o ouvira comentando a respeito do namorado… melhor assim!
Ainda estranhando, procurou na agenda um número específico e apertou o botão de chamar. Esperou apenas alguns toques e ouviu a voz conhecida do outro lado.
— Diz, Hyoga, o que é que manda? —Milo inquiriu um tanto alegre ao atender o telefonema. — Ei, você não deu esse número a Kamus, deu? — Perguntou preocupado.
— Não, não dei. Como estão as coisas? E que barulho é esse?
— É o vento. Estou perto do mar. Eu vou bem e você como está?
— Indo. Você por acaso não teria notícias do meu pai, teria?
— Não falo com Kamus há dias. — Replicou o grego um tanto irritado, pois a maioria dos amigos resolvera lhe fazer a mesma pergunta durante todo o dia. Não queria mesmo conversar com o francês tão cedo.
— Ah, saco! Ele saiu há horas e deixou o celular em casa.
— Sem querer ser grosso, mas eu não tenho nada a ver com o que seu pai faz ou deixa de fazer, Hyoga.
— Mas eu pensei que…
— Olha, Patinho, eu sinto muito, mas as coisas não vão mais ser como eram antes. — Suspirou. O pequeno russo mal poderia imaginar o quanto.
— E o que eu faço se ele não voltar?
— Você não precisa de babá, Hyoga. Mas se acontecer de alguma coisa, você sabe que Mu e Shaka moram aí embaixo, além de que existem Mime e Ikki do outro lado da rua.
— Tá… Se cuida…
— Você também.
-o.O.o-
Kamus voltou à pista após a conversa com o amigo leonino. Gastar energia para conter a agressividade… Marin havia dado um bom conselho.
Não havia retomado à sessão de amassos com o brutamonte anterior. Todavia, reconheceu dentre os presentes alguém que poderia fisgar e conseguir sua desejada sessão de sexo oral. Chegou próximo a um rapaz e começaram a dançar juntos.
Não sabia de onde vinha tirando tanta energia. Estava dançando desde o momento em que a boate abrira até agora. Mais de duas da manhã e sentia que ainda poderia ficar por ali até o dia amanhecer e mais um pouco depois disso.
Entornou o copo de vodka que havia pedido há pouco e pôde, finalmente, dançar com mais liberdade, sem se preocupar se iria ou não derramar seu precioso líquido cristalino.
Chamou o rapaz para um beijo e logo estavam se agarrando na parede da boate. Quando os gestos estavam ficando mais ousados, deixou sua calça ser desabotoada e começou a ser masturbado. Oh, isso sim iria relaxá-lo.
Finalmente, quando estava prestes a atingir seu orgasmo, olhou para baixo e viu o rapaz que tinha seu membro na boca e, mesmo assim sentiu vergonha de si próprio. A melhor de todas as sucções em seu sexo não iria apagar a sensação de miserabilidade que trazia consigo havia alguns dias. Ficou ainda mais vazio por dentro.
Esperou alguns instantes até se recuperar por completo do gozo. Pediu para que o rapaz se levantasse, deu-lhe um selinho, mas disse que precisava ir embora. O outro não pareceu gostar muito, mas deixou por isso mesmo.
Foi até o banheiro, disputando espaço entre os casais, conseguiu aliviar a bexiga e aproveitou para lavar o rosto com água fria. Pensou no rapaz que acabara de fazer sexo consigo. Grande coisa… o que ele queria mesmo era exatamente o que havia dito a Aioria: companheirismo e cumplicidade e isso só conseguiria com Milo.
Amaldiçoou-se pela bilionésima vez por tê-lo abordado como quem quer apenas uma "foda rápida" como aquela que acabara de ter. E depois todas as outras coisas que havia feito. Onde diabos aquele grego imbecil havia se enfiado? Precisava falar com ele.
O francês foi até o caixa e pagou sua conta. Estava um pouco tonto por causa do álcool, mas achou que poderia levar o carro ainda. Entretanto, quando começou a olhar muito atentamente para o chão, viu que era melhor não arriscar.
— PUTA QUE PARIU! — Desistiu da idéia do táxi ao se lembrar de onde ele poderia estar. Táxi nenhum iria chegar lá com a velocidade suficiente que ele precisava.
Tratou de correr até seu carro e girar as chaves na ignição e correu para uma ponte que ficava nos arredores de Atenas. Não era possível que aquele idiota estivesse lá!
-o.O.o-
— Belas ondas. — Comentou Milo para si mesmo, enquanto as via quebrar lá embaixo.
Olhou para o lado e deu alguns passos à frente. Adiante havia um poste de luz que iluminava a paisagem desolada. Dessa forma, subiu no alambrado, sustentando-se com a mão direita na coluna da qual pendia a luminosidade, oferecendo-lhe uma posição privilegiada.
CONTINUA…
Mural Explicativo da Ilía:
(Ainda sem notas de rodapé Muahuahuahuahua).
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK XDDD
Quem leu a primeira parte do capítulo de ontem pra hoje e ficou se perguntando: ai, meu deus, quando é que Ilía vai publicar a segunda parte? Ela demora quase um ano entre um capítulo e outro ¬¬'
Bem, eu queria colocar o capítulo que trata do suicídio on-line no dia do aniversário de Kamus. Puro capricho meu. Como ficou gigantesco, para variar, Illy me sugeriu que eu deveria dividi-lo. Não gostei muito no início, mas resolvi aceitar – eram quase 75 páginas Affffff .
Sim, Aioros e Kamus acabaram. Para felicidade quase geral da nação.
Eu entendo que todo mundo espere ver o francês e o escorpiano juntos, mas o que tem de absurdo em Kyu ter passado um tempo com o Oros? Se fosse com Saga aposto que ninguém iria reclamar u.u *aperta o Aioros rejeitado*.
Minha intenção desde o começo é uma Milo e Kamus (ou como ta na moda: Poison&Ice – não gosto do termo, mas pegou, fazer o quê?), só que queria abordar as coisas de um ângulo um pouco diferente.
E, sério, relacionamentos começam, acabam, recomeçam .
Nunca conheci um casal que tenha ficado para sempre desde o início dos tempos, pode até existir: Bono Vox, meus avós e olhe lá, porque eu não levo muita fé no Bono.
Ao final das contas, o cx é de Kamus e ele dá pra quem ele quiser. Para mim, ressalvadas as convicções religiosas de cada um e o "tempo certo", o sexo deveria ser liberado se feito com responsabilidade. É tão necessário ao animal em você quanto dormir ou comer.
Afora minhas filosofagens ^^" que mais eu poderia comentar?
Ah, ta uma bonita lua lá fora, já pararam para olhar? XD
Obrigada às pessoas que comentaram capítulo passado, mesmo ele tendo sido postado apenas ontem, já recebi 10 reviews *o* eu pensava que não ia ter tanta repercussão, tava bastante insegura *chuta pedrinha*
Enfim, parabéns, Kamus \o/
Beijos de monte para todo mundo =* Já recomecei a responder aos comentários, por favor, deixem e-mail ç.ç
Ilía.
PS: To muito mais contente hoje. Falar faz mesmo bem u.u
E, de fato, Dhandara não merece um único lampejo de minha preocupação, mas também não pode ficar incólume. Nada de sair de vítima dessa história toda.
Porém, ao menos uma coisa boa eu posso dizer:
Com muito orgulho, apresento um novo grupo com o intuito de traduzir fics para o português: o Illy-chan e Grupo GW Traduções (o link está nos favoritos do meu profile).
Ele é formado por eu mesma, a Illy-chan HimuraWakai, Aninha_Saganokai, Marlon Kalango, Blanxe, Kuu-chan e a Aryam MacAllyster.
Estamos nos concentrando em fics com o enredo não tão usual.
Cansou de Duos bonequinhas de louça, Quatres chorões irritantes, Heeros paredes que andam, Trowas completamente apáticos e Wufeis estressados além da conta? (Eu cansei XD)
Nossa meta principal é apresentar fics estrangeiras com bons enredos, mesmo que elas às vezes tratem de casais pouco tradicionais.
Os clássicos não morrem, porém, por incrível que possa parecer, esses novos pares ficam muito bem juntos *fã de Trowa e Duo*.
Todas as combinações são válidas, desde que bem escritas.
Beijões novamente.
