Capítulo 14: "A parte que faltava"
As primeiras semanas de férias foram tranqüilas. Ginny aproveitou para descansar e esvaziar a mente. Depois disso, com o casamento de Gui e Fleur cada vez mais próximo, Molly começou a encher todos de tarefas, levando as pessoas à loucura. A data estava programada para o final de julho. Colin e Blaise chegariam alguns dias antes para passar um tempo com a ruiva. Não tinha conversado com Eleonor ainda para saber quando a amiga ia chegar.
– Graças a Deus que estão aqui – suspirou Ginny, enquanto os garotos se acomodavam em seu quarto. – Assim não preciso mais dividir o quarto com a Fleuma – revirou os olhos, arrancando risos do casal de amigos.
Ouve uma tensão estranha entre Rony, Harry e Blaise a princípio – provavelmente porque ele era sonserino e tinha sido melhor amigo de Draco por tanto tempo.
– Em que podemos ajudar? – prontificou-se Colin, chegando à cozinha da Toca e Molly, muito satisfeita, arranjou tarefas fáceis para os dois.
– Ginny, pode, por favor, ir lá fora limpar o jardim?
– Sim, mamãe – disse ela monotonamente, acenando para os amigos e saindo.
Logo depois, Harry cruzou a porta e foi até ela, sorridente.
– Quer uma ajuda com isso? – perguntou ele.
– Pode ser.
Em silêncio, continuaram a juntar as folhas do chão com acenos de varinha.
– Então, vocês conseguiram entrar no Ministério?– perguntou ela.
– Não tivemos resposta ainda – disse ele, dando de ombros. – Hermione falou que você também quer trabalhar no Quartel-General.
– Sim, mas preparando poções – disse Ginny. – Ainda não conversei com Eleonor sobre isso, ela disse que ia me avisar quando começassem as inscrições...
– Ainda não me acostumei com o fato de vocês serem amigas – disse Harry. – Depois de ela ter ficado com Malfoy...
Aquele comentário foi como uma alfinetada. A ruiva parou de cortar os galhos de uma planta com a varinha e encarou o garoto.
– Isso é passado – respondeu secamente. – E Malfoy nem mora mais nesse país, então não vejo porque não ser amiga dela...
– Calma, Ginny – riu ele. – Só estava comentando.
– Certo – disse ela, voltando a acenar com a varinha perigosamente.
Sentiu os olhos verdes nela. Harry aproximou-se e colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. Ginny se lembrou que pretendia evitar ficar sozinha com ele, mas tinha se esquecido. O moreno segurou seu pulso e ela parou novamente de podar os arbustos.
– Então – ele falou relutante, fazendo a garota o encarar. – Você já superou tudo isso?
– Tudo isso o quê? – perguntou, fingindo não entender.
– Seu namoro com o Malfoy.
Ginny sustentou seu olhar, mas não respondeu. Sentiu-se encurralada, como ele costumava fazer quando estavam em Hogwarts. Lembrou da vez que ele a agarrou e Draco deu um soco na cara dele.
"Droga, Harry" pensou ela, enquanto ele passava o polegar pela sua bochecha.
– GINNY! – ouviram Molly chamar e Harry afastou-se no mesmo instante.– Venha aqui!
– Tenho que ir – murmurou e saiu, agradecendo sua mãe por tê-la livrado daquela situação.
A ruiva contou para Colin e Blaise naquela noite o que tinha acontecido no jardim.
– Ele ainda está afim de você, amiga – disse o grifinório.
– Não acredito nisso – murmurou ela cansada. – Não há possibilidade de isso acontecer, não agora...
Ginny passou a mão pelo rosto.
– Ele me... "beijou" no verão passado.
– O quê? – exclamaram os dois em uníssono.
– Sim – ela revirou os olhos. – Não foi nem um beijo pra valer, foi mais um murro com os lábios...
Dizendo isso, os amigos caíram na gargalhada.
– Por que você não me disse? – perguntou Colin.
– Eu nem me lembrava, não foi nada demais mesmo...
– Ele fez isso quando você tava namorando com Draco? – foi a vez de Blaise perguntar.
Ginny assentiu.
– Que cara de pau – disse o sonserino. – Até eu que sempre fui galinha nunca encostei um dedo em alguém comprometido.
– Pelo menos isso, né Zabini – disse Colin, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha, arrancando risadas deles.
Faltando dois dias para o casamento, Eleonor chegou. Ela contou que já havia inscrito o nome de Ginny em uma seleção que haveria para um estágio no Ministério.
– Muito obrigada – disse a ruiva novamente durante a janta. Tinham colocado uma mesa só para as "crianças", porque não cabiam todos na da cozinha.
– Para com isso, não foi trabalho nenhum...
– E agora? O que eu faço?
– Tem que esperar uma carta que diz o dia de sua entrevista – explicou, depois de beber um pouco do seu suco. – Eu já fiz a minha para o quartel-general, estou esperando a resposta...
– Você vai tentar o quartel? – perguntou Rony, que se sentava na frente dela.
– Sim.
– Harry, Rony e Hermione estão aguardando a resposta também – explicou Ginny.
– Ah, legal – sorriu Eleonor.
Rony retribuiu com um sorriso suspeitosamente bobo que Ginny achou muito estranho. Hermione pelo visto também não gostou muito daquilo.
Antes de dormir, Ginny resolveu tomar um banho.
– Oi – murmurou, entrando no quarto. – Eles já estão dormindo?
– Acho que sim – sussurrou Eleonor. Ela estava deitada na cama de Ginny, que tinha sido aumentada magicamente para que coubessem as duas.
Com apenas a luz de cabeceira ligada, viu o rosto mal iluminado da garota. Terminou de secar os cabelos e deitou-se.
- Boa noite – disse, apagando o abajur.
Virada de costas para Eleonor, não conseguia dormir. Não sentia sono. Fechou os olhos, pensativa. Ainda não acreditava que Harry pudesse estar afim dela. Por um momento, teve vontade de contar o que ele tinha feito naquela noite que ele não lembrava, porque tinha bebido demais. Será que se Draco não tivesse socorrido ela do garoto embriagado eles não teriam saído no dia dos namorados? Ou será que o sonserino teria convidado ela mesmo assim?
Inquieta, Ginny revirou-se na cama e encarou o teto. Percebeu que Eleonor ainda estava de olhos abertos e a encarava.
- Não consegue dormir? – perguntou ela.
- Não – disse Ginny, virando-se para a amiga. – E você?
- Também não – sorriu Eleonor.
A luz da lua que entrava pela janela iluminava fracamente as duas garotas.
- Estou pensando em Severo – disse ela.
- E eu em Draco – disse a ruiva tristemente.
As duas sorriram abobadas.
- Se há dois anos alguém me falasse que você estaria na minha cama e nós estaríamos conversando sobre homens – começou Ginny –, eu atacaria a pessoa com uma boa azaração para rebater bicho papão.
Eleonor riu baixinho, tapando a boca.
- O que vocês vão fazer agora? – sussurrou a ruiva.
- Não sei – respondeu. – Não tem o que fazer... Temos vidas separadas pra seguir.
- Que chato isso – disse Ginny. – Acho que vocês dois se gostavam de verdade, não é?
- Acho que sim – suspirou Eleonor. – Bom, eu nunca tinha sentido nada igual antes...
- Sei como é isso.
- É – disse a morena. – Mas eu não sei se isso é amor – uma pausa. – Você acha que amava ele?
- Sim, eu acho – respondeu Ginny. – Mas ele disse que me amava e foi só passar alguns meses longe que resolveu fugir com outra garota.
Eleonor a encarou com os olhos piedosos, enquanto a ruiva perdeu-se nos pensamentos em silêncio.
- Sabe – recomeçou Ginny. – Às vezes, eu acho que ele vai voltar.
Sentiu um aperto no peito ao pronunciar aquelas palavras que antes mantivera só para si mesma.
- Que vai aparecer aqui arrependido – ela suspirou. – É completamente improvável e idiota, mas não consigo evitar...
A amiga segurou sua mão.
- Acho que isso é amor – ela disse. – Não deixa as esperanças morrerem nunca.
Ginny sorriu sem mostrar os dentes, triste.
- Bem que eu queria que a esperança morresse.
O casamento de Gui e Fleur foi lindo. E a festa, melhor ainda. Ginny, Eleonor, Luna, Colin e Blaise dançaram e beberam além da conta. O fato mais engraçado da noite foi Rony chamar Eleonor para dançar. Logo depois, ela reapareceu e perguntou se eles não queriam sair dali para ela se esconder.
Sentaram na grama longe da muvuca, todos com vestes caras e arrumadas, observando as luzes distantes da festa. Blaise acendeu um cigarro e ofereceu aos outros.
- Quero um – pediu Eleonor, esticando o braço e ajoelhando-se na grama para alcançar a mão do sonserino. Ela tocou a varinha e acendeu o cigarro. – Nossa, faz tempo que não fumo – acrescentou, depois de soltar uma risada.
- Desde seus tempos de baladeira em Hogwarts, Niels? – perguntou Blaise debochado.
- Ha, ha, muito engraçado – respondeu ela, erguendo uma sobrancelha. – Olha quem fala. Você era pior que eu.
- Mas eu sou um garoto – disse ele.
- Ta e garotas não podem sair por ai fazendo o que bem entendem agora? – ela perguntou.
- Claro que podem, baladeira.
Ela revirou os olhos e todos riram.
- Bom, agora todo mundo se estabeleceu emocionalmente – disse Colin.
- Até você, Niels? – perguntou Blaise, zombando novamente.
Ginny mordeu o lábio e trocou olharem com Colin e Eleonor.
- Tem alguma coisa que não sei? – perguntou o sonserino.
- Isso não pode sair daqui – disse a ruiva. – Eleonor teve um relacionamento amoroso...
- ...com Severo – completou ela.
- Severo? Severo Snape? – perguntou Blaise.
- Professor Snape? – disse Luna, que antes parecia estar no mundo da lua, agora prestava atenção na conversa.
- Oh, meu Deus! – exclamou Blaise rindo. – Você é mais safada do que eu imaginava!
- Zabini, cala a boca – disse Eleonor corando.
- Se deu bem, hein – ele piscou para ela, depois deu uma tragada.
- Como assim? – perguntou Colin, incrédulo, mas cômico.
- Ah, Snape tem seu charme – justificou Blaise. – Professor solitário e enigmático...
- Cujo coração foi roubado pela aluna – acrescentou Ginny teatralmente.
Dessa vez, até Eleonor riu junto com eles.
- E que roubou o coração do meu irmão também – disse a ruiva.
- Ah, nem me fala – disse a ex-loira, fazendo gesto de basta com a mão. – Essa eu não esperava.
- Rony é um boboca – disse Ginny. – Deve ser só uma paixonite, que nem ele tem pela Fleuma.
Eleonor bocejou e deitou-se no chão.
- O céu está lindo hoje – comentou distraída.
Luna deitou-se também e Ginny a acompanhou, segurando a vontade de rir que a bebida lhe proporcionava.
- O chão não está muito reto – murmurou ela bobamente.
Eleonor deu risada. Ginny podia ter adormecido ali, tamanha era a sonolência que sentia. Mas do nada, Harry apareceu e a pegou no colo, levando-a para o quarto.
No dia seguinte, a esperada carta do Ministério chegou, informando quando seria a entrevista de Ginny. Ela colocou sua melhor veste e quando estava conversando com o bruxo que fazia a seleção, descobriu que Snape tinha mesmo mandado uma carta de recomendação.
Impaciente, ela esperou pela resposta, que chegou pouco tempo depois. Ela entrara no estágio com mais nove outros sortudos. Eleonor, Harry, Rony e Hermione entraram na Academia de Formação de Aurores. Todos começavam dia primeiro de agosto. Juntaram-se num pub na cidade vizinha à Toca para comemorar e chamaram Colin e Blaise. Ginny voltou para casa carregada por Harry novamente.
A rotina de todos ficou puxada. A ruiva estudava pela manhã e trabalhava a tarde como auxiliar. Naqueles tempos de guerra, a demanda de poções era muito grande, fosse Veritaserum para interrogar suspeitos, fosse Polissuco para missões sob disfarce, fosse Wiggenweld para os aurores se curarem caso eles se ferissem durante alguma missão ou até Fluído Explosivo para possíveis batalhas. Logo nas primeiras semanas, três pessoas desistiram, tamanha era a pressão e a carga horária.
Ginny sentia-se satisfeita com a vida. Saia nos fins de semanas com Colin, Blaise e Eleonor, quando ela podia. Gostava do seu estágio. Em Novembro, os garotos tinham decidido alugar um apartamento em Londres e a ruiva resolveu que ia alugar um para si no mesmo prédio – agora que recebia salário, mesmo não sendo muito, queria investir na sua independência. Claro que sua mãe tentou convencê-la a mudar de idéia.
- Com Comensais soltos por ai não acho uma boa idéia... – disse Molly.
- Mamãe, não tem com o que se preocupar – disse Ginny. – Vou estar perto de Colin e Blaise, moramos lado a lado. Nós sabemos nos cuidar.
- Mas, querida...
- Mãe, eu não vou sumir como Percy – disse por fim. Sabia que o receio maior de Molly era aquele. – Sempre virei visitá-la, ok?
Assim sendo, Ginny mudou-se para seu pequeno apartamento em Londres. Ele consistia em uma sala com cozinha, separada por um balcão, um quarto e um banheiro. Era pequeno, mas cômodo. Trocar as cortinas foi uma das primeiras coisas que fez. Já vinha mobiliado. O sofá ficava de costas para a porta de entrada e de frente para as grandes janelas da sala, junto dele tinha uma mesinha e só. Depois de arrumar as coisas nos dois apartamentos, eles sentaram-se no sofá encardido de Ginny com cervejas amanteigadas e comemoraram.
Mas quando ela deitou sozinha na cama de casal naquela noite, sentiu que faltava alguma coisa, alguma parte. E essa parte era Draco. Imaginou como teria sido aquele dia com ele. Se o loiro tivesse se mudado com ela para o apartamento, como tinha dito que faria no verão do ano passado. Se estivessem deitados juntos agora, exaustos e felizes por finalmente terem realizado aquele desejo.
Olhou pela janela de seu quarto para o céu escuro e estrelado, visível entre o topo dos prédios altos de Londres. Suspirou, imaginando pela milésima vez Draco nos Estados Unidos – a um oceano de distância dela.
Wiltshire, Inglaterra. De novo. Na escuridão da noite, Draco enxergava a silhueta da antiga Mansão Malfoy. Ele estava parado em frente ao portão, segurando sua bagagem. Hesitava. Respirou fundo. Ao entrar, significaria voltar a viver ali depois de praticamente um ano, significaria que seu treinamento tinha acabado, significaria que de agora em diante tudo que ocuparia seu tempo seriam as missões que seu Lorde passaria.
Teve que tirar seu cantil do bolso interno do casaco para beber um gole de firewhisky.
- Você está bebendo hoje, hein – debochou Draco.
- Olha quem fala, homem do firewhisky – disse ela.
- Homem do firewhisky? – riu ele. – Se eu sou isso, o que o Blaise é?
- O homem–álcool – disse Ginny.
Não teve como conter aquela lembrança. Ele sorriu inútil e friamente. Sentiu sua mente esmagar o coração que batia fraco no peito. Onde estaria Ginny agora? Ela havia se formado fazia meses. Talvez estivesse trabalho no Ministério, talvez estivesse viajando com Colin e Blaise. Sentiu mais um aperto forte no coração ao lembrar-se dos amigos.
"Poderia estar com eles..." pensou. Mas não estava.
Aprumou-se e atravessou os portões com a cabeça erguida. Mesmo não sendo a vida que escolherá, enfrentá-la-ia dignamente.
