Ela já não era mais capaz de organizar todos os pensamentos conturbados que passavam por sua cabeça. Ela apenas deixou o seu corpo cansado descansar na cama king size. E através de uma respiração ofegante um pequeno sorriso brotou em seu rosto, o que ela não fez questão de suprimir, como ela tanto já havia feito durante toda sua vida. Sorrir parecia ser algo tão simples agora.

E era simples. Essa era a simplicidade que ela havia sonhado por tantos anos. Ela não deixou passar despercebido o pedido que ela tinha feito em seu aniversário de sete anos. Ela desejou ser feliz, e para a menina sonhadora que era naquela época, felicidade se resumia a viver de uma forma simples. E com Emma ela conseguia se sentir assim. Ela poderia se permitir voltar a sonhar de novo, igual uma vez há tantos anos já havia feito.

O sono veio e ela nem relutou contra isso. Nunca fora do tipo de dormir durante o dia, mas a vontade de adormecer e entrar num mundo infinito de sonhos lhe pareceu tão natural que seus olhos foram se fechando automaticamente ao mesmo tempo em que um pequeno sorriso estampava seu rosto.


Sentada a frente se seu espelho Regina finalizava o seu modelito colocando o brinco de pérolas que sua mãe tinha separado para que ela usasse na festa de mais tarde. Já estava com o vestido tomara que caia de gala na cor rosa chá e seus cabelos presos num coque clássico que deixavam seus ombros a mostra para que destacasse o colar de ouro branco que ela usava.

Em seu rosto um sorriso ensinado por Cora dia após dia. "Lembre-se de minhas palavras Regina. Você pode estar despedaçada por dentro, mas seu rosto sempre mostrará um sorriso. Sorria Regina. Não, está falso esse sorriso. Sorria de novo. Precisa melhorar... Não estou vendo naturalidade. Sorria, porque sua imagem é o que mais importa."

Malditas palavras que sua mãe insistia a cada dia falar. Maldito sorriso que lhe doía tanto demonstrar. Era tudo tão falso, assim como sua vida.

Era aniversário de casamento de seus pais e o sonho que Regina tinha era comemorar a data com algo bem íntimo, apenas com ela e seus pais... E mais ninguém. Era um dia que ela gostaria de passar em família, mas não era o que acontecia, pois Cora todo ano fazia desta data o acontecimento do ano.

Todas as festas dadas por sua mãe eram grandiosas, regadas de todo o luxo que pudesse ter. Nada que ficasse abaixo do padrão de Cora Mills. E Cora sabia bem como organizar uma festa esplendorosa. Os eventos organizados por ela estavam sempre entre os assuntos mais comentados e badalados.

A alta elite nova-iorquina frequentava em peso cada festa organizada por ela, e ninguém reclamava de nada, já que no dia seguinte a família Mills estampava as colunas sociais dos jornais mais importantes.

Isso era o que Cora mais desejava para sua vida. Status social, fazer parte de uma elite consumista... Mas, não era o que Regina queria. Na realidade ela ainda nem sabia o que queria de sua vida, porém ela não tinha chance de verbalizar nada do que queria. "Regina, isso não é comportamento de uma dama. Olha os modos! Senta e cruza as pernas como uma menina comportada."

Regina tinha apenas treze anos, mas já sofria com as cobranças cada vez mais excruciantes da mãe. A cada ano que passava Regina adquiria mais responsabilidades, muitas delas não condizentes com a idade que possuía. Em dia de festa então tudo se tornava mais exaustivo do que o costume. Tinha que passar por cada ritual de beleza imposto pela mãe, a fim que se tornasse a mais bela entre todas as mulheres.

Regina não se importava com a beleza. Ela apenas queria ser feliz.

Já completamente arrumada para a festa de mais tarde, Regina desceu até o seu jardim para tomar um pouco de ar para ver se aquele aperto em seu coração diminuísse pelo menos um pouco. A história sempre se repetia. Era como se um peso se apoderasse de seu coração a cada uma das festas que Cora organizava.

E esse peso só era dissipado ao fim de cada noite... Ou apenas podia ser amenizado. Ela não poderia explicar a angústia que já pairava sobre o seu triste coração. Viver com uma mãe como Cora era complicado.

Sua vontade era deitar-se naquele gramado que se perdia de vista e aproveitar a brisa daquele fim de tarde. Tudo parecia ser tão convidativo. Aquela grama verde que quase brilhava de tão chamativa se misturando ao brilho maduro do sol se pondo.

Até que a realidade se fez presente. O vestido de gala que quase a deixava sem poder se locomover, aquela falta de ar que sempre lhe acompanhava quando Cora lhe apertava com força o corpete que ela lhe obrigava a usar. Uma mistura trágica.

Ela apenas queria ser uma menina de treze anos como todas as outras.

Algo lhe chamou a atenção. Barulho de gritos de dentro de sua casa. Não eram comuns burburinhos exaltados, ainda mais em dia de festa. Mas, quando Regina reconheceu a voz de seus pais no meio dos gritos, a morena resolveu descobrir o que de fato acontecia.

Vinha da biblioteca... Caminhando a passos bem leves, Regina pode ver pela fechadura seus pais aos gritos. Cora vestia um tomara que caia azul turquesa, e seu pai um terno e calça social que ela não sabia de qual marca era. Ela nunca sabia reconhecer essas marcas que eram tão importantes para sua mãe.

– Cora... – esbravejava Henry. – Eu tinha lhe dito que não queria comemorações esse ano. Nós poderíamos muito bem passar essa data em família. Eu, você e Regina. Mas, não. Você não se importa com isso. Você não se importa com a família que tem. Aliás, só se importa quando aquelas malditas pessoas começarem a chegar, aí sim você se mostrará a esposa mais exemplar. A mãe nota dez e o que mais que puder fazer para aparecer. Eu e sua filha não somos o suficiente. E nem pense em negar que sei que o status social lhe interessa mais que tudo. Mais do que sua filha, e mais do que a mim que sou seu marido.

– Henry, pelo amor de Deus. Vamos parar com essa discussão por aqui. Hoje não é dia para isso. Nossos convidados estão quase chegando.

– Que se dane a merda dos convidados. Se eu quero discutir com a minha esposa eu tenho todo o direito de fazer isso, e você fique calada e me escute.

– Que patético Henry Mills. Nem parece aquele adolescente desesperado que veio me implorar para eu fingir ser sua namorada, porque mesmo tendo todo o dinheiro do mundo era um perdedor e não tinha nem capacidade de arranjar uma namorada por seus próprios meios. Desde o começo você já sabia quais eram minhas intenções... – ela nem terminou falar quando sentiu a mão de Henry em seu rosto. – Como você se atreve a fazer isso?

– Da mesma forma que você não me respeita ao arranjar amantes por aí. Pensa que eu não sei Cora Mills. Recebi fotos do detetive particular que paguei para lhe seguir. – esbraveja o homem quase esfregando as fotos no rosto de Cora.

– Você sabe que isso é o cumulo do patético. – disse a mulher se recompondo. – Aliás, não sei por que ainda me surpreendo, pois patético você sempre foi e nunca deixará de ser. E você sabe muito bem que eu só aceitei aquele seu acordo fajuto porque eu teria os meus benefícios. Ou acha que eu ficaria naquela merda de subúrbio para sempre. Vivendo com aquela gente suja e imunda. Num lugar que claramente eu nunca pertenci. Apenas nasci na família errada e vi em você a chance de ter todo o status social que eu tanto sonhei. Não venha me falar de amor. Você sabe que nosso casamento nunca foi sobre isso. Você quer se negar isso. Você sabe que eu nunca te amei. Você foi uma tábua de salvação que me tirou daquela merda que eu nem ousaria chamar de vida.

– Essa discussão nem começou por esse assunto e não sei como chegou nele. – disse Henry ponderando sobre o que ia falar. – Eu só quero que mude o seu comportamento com minha filha. Regina não merece ser criada para ser uma pessoa supérflua como você. Eu quero que minha filha ainda tenha chance de fazer suas escolhas por si mesma. Não porque você enche a cabeça da menina de besteiras.

– Ah sim... E você quer transformar Regina na mesma perdedora que você foi? Porque você sempre foi um tonto que nunca soube aproveitar a vida que tinha... Minha filha nunca será alguém como você.

– Aí que você se engana. Eu sei que errei muito sempre seguindo tudo o que você falava, mas eu não tolerarei mais isso. Minha filha não é uma marionete onde você controla todos os passos dela.

– Você enche os olhos para falar que Regina é sua filha... – sibilou Cora.

– Regina é minha filha! – gritou o homem.

– Eu sempre achei que era estéril porque passei anos tentando engravidar de você e nunca consegui. Você se lembra disso, não é? Por quantos tratamentos eu passei achando que o meu corpo era defeituoso. Pelas inúmeras injeções de hormônios que eu tomava todo santo mês. Pelos tratamentos experimentais que passei. E sabe de uma coisa Henry Mills? Eu não era a defeituosa que sua mãe sempre abria a boca para falar. Eu nunca fui defeituosa. – nesse momento a mulher já havia perdido a compostura e gritava. – Nesse momento que eu arranjei o meu primeiro amante e não é que um mês depois eu descubro que estava grávida. Oh, como isso era possível? A Cora Mills defeituosa que não pode ser mãe. Eu sei que sua mãe deve ter pensado nisso. E calhou de não estar tendo relações sexuais com você o que me fez ter a certeza que o estéril era você. A partir daí foi fácil te enganar. Numa noite dormi com você e um mês depois anunciei minha gravidez. Todo mundo sempre achou Regina grande mesmo tendo nascido prematura. Porque ela não nasceu prematura. Ela nasceu no tempo certo. Foi fácil subornar aquele seu médico de família para ele falar tudo o que eu quisesse. É isso... Minha filha será imune ao seu gene perdedor. Ela não é sua filha.

Regina não conseguiu escutar mais nenhuma palavra daquela discussão. Suas mãos trêmulas acompanhadas de uma vontade incontrolável de chorar. Todos os seus sentimentos conturbados com tudo o que havia acabado de descobrir. "Ela não é sua filha. Ela não é sua filha." As palavras de Cora ainda pareciam ecoar em sua cabeça.

Ela não sabia o que pensar... Ela não sabia como agir. Tudo parecia ser tão confuso... Muito confuso.


A festa aconteceu àquela noite como se a discussão de mais cedo jamais tivesse acontecido. Regina fora obrigada pela mãe a sorrir forçadamente para todos os convidados da festa, mesmo tendo vontade de arranjar um lugar onde pudesse se esconder e nunca mais sair.

Em determinada parte da festa, Regina conseguiu se afastar e todos e foi para o seu quarto onde só conseguia pensar na discussão de seus pais.

Henry não era seu verdadeiro pai... Cora o havia enganado o tempo inteiro. Principalmente, sua mãe não havia nascido em berço de ouro como sempre havia se vangloriado. Ela estava tão absorta em seus pensamentos que nem reparou Isabella Tink entrando em seu quarto. A garota ficou olhando Regina por alguns minutos e logo chegou à conclusão que tinha alguma coisa acontecendo com a morena.

– Regina... – chamou pela amiga, mas ela parecia estar em outra dimensão. – Regina, o que está acontecendo? – desta vez ela disse mais alto e a morena dispersou rapidamente seus pensamentos.

– Tink... – a morena disfarçou colocando um sorriso em seu rosto, o que não ajudou muito visto que a fisionomia preocupada da amiga continuava a mesma. – Não está acontecendo nada. De onde você tirou esta ideia?

– Regina, você não me engana com esses sorrisos falsos que você distribui em todas as festas. – afirmou Tink. – Você estava tão distante na festa hoje... Eu sei que não costuma comentar com ninguém sobre como o seu coraçãozinho se sente, mas eu sinto que tem algo que lhe incomoda.

– Não tem nada me incomodando. – respondeu a morena com poucas palavras. – Só estou cansada.

– Eu finjo que acredito em você Regina. Quero que saiba que assim que precisar de mim eu estarei aqui para conversar. Pode não ser agora, sei lá, pode ser daqui a vinte anos... Eu estarei esperando o dia que quiser falar.

– Você é tão otimista. Como se a vida fosse assim... – resmungou Regina pegando um livro para ler.

– Cruzes garota. Nunca vi alguém tão pessimista como você. – comentou Tink cruzando os braços e fazendo beicinho.

– Eu não sou pessimista. Apenas vejo a vida como ela é realmente. – disse Regina. – Agora me dá licença que tenho que ler esse livro para a aula.

– Esse trabalho só será apresentado mês que vem. Pode ir arranjando outra desculpa para me expulsar do quarto.

– O que você quer conversar senhorita Tink? – questiona Regina.

– Já que você desperdiçou a chance de me ter como confidente pessoal... Creio que eu que irei te alugar agora. Aquele garoto que estou apaixonada está aqui na festa e eu não sei como falar com ele. – confessou a garota com um sorriso bobo no rosto.

– Você tem treze anos garota... Você não pode estar apaixonada. Isso é tudo passageiro e num estalo acabou...

– Eu queria que minha amiga fosse um pouco mais sensível. – disse numa falsa indignação.

– Se quer uma amiga que seja mais sensível que procure outra então. – respondeu com raiva. – E além do mais eu não sou a pessoa certa a te aconselhar em nada. Eu nunca irei me apaixonar por ninguém. Tudo isso é uma besteira que não serve para nada. – Tink notou uma amargura nas palavras de Regina.

– Credo... Você está falando igual sua mãe Regina.


Regina acordou suando frio. Há muito tempo que ela não tinha esse sonho, mas ele lhe aterrorizava da mesma maneira. A morena nunca foi do estilo em ter pesadelos com monstros e coisas fantasiosas, pelo contrário, as suas memórias do passado tinham o poder de lhe deixar em pânico.

Seu coração acelerado, a dificuldade de respirar... E aquelas imagens se formando novamente em sua memória. A discussão dos seus pais, a revelação sobre a paternidade de Henry. Seus traumas do passado que sempre lhe acompanhavam por toda sua vida.

Mas, desta vez tinha algo a mais. Tink apareceu no sonho. Será que era algum tipo de sinal? Ela se recordou do que a amiga tinha lhe dito há tantos anos atrás. E num ato impulsivo ela pegou o telefone e discou o número que ainda sabia de cor.

– Tink, você se lembra de mim? – disse Regina incerta ao telefone.