Mágoa alheia

— Mas eu estou vendo mãos dadas?

À indagação de James, eu imediatamente recolhi a minha mão, porém Sirius a puxou de volta, envolvendo-a nas suas.

— Sim, está — ele disse tranquilamente — agora só faltam vocês se assumirem.

Peter corou, e James riu brevemente, ficando sério um segundo depois.

— Eu disse que daria certo, não disse? Foi bom tentar.

Olhei confuso para Sirius. Então James já sabia?

— James e eu conversamos muito sobre o meu sentimento por você, Remmy — ele disse, abraçando-me — e me apoiou totalmente.

— Então vocês estão realmente juntos? — indagou Peter boquiaberto — Achei que era brincadeira.

— Estamos — Sirius aparentemente se deliciava com a confusão no rosto de Peter — por que, você é contra?

— De forma alguma — apressou-se a dizer — acho absolutamente aceitável.

Sirius deu um sorriso significativo a James, que provavelmente passou despercebido por Peter.

— Então, vamos aproveitar o domingo e dar uma volta?

E fomos, aceitando o convite de James. Eu e Sirius estávamos juntos, então, há pouco mais de uma semana. Naquele domingo, os meninos haviam acabado de chegar de viagem, mas não pareciam nada cansados, pelo contrário, estavam bem dispostos. Caminhamos pelos jardins e sentamo-nos à beira do Lago Negro, nosso lugar favorito em Hogwarts.

— E desde quando vocês estão juntos? — indagou James à nossa frente.

— Desde o Natal — respondeu Sirius beijando meus cabelos, já que eu me encontrava posicionado entre suas pernas, encostado ao seu peito, enquanto ele me enlaçava, apoiado ao velho carvalho em que sempre ficava.

— Fico feliz por vocês, de verdade — James hesitou por meio segundo — ele gosta muito de você, Remus. Muito mesmo.

— E eu dele — eu disse meneando o rosto para a direita e erguendo-o, à procura dos lábios de Sirius, que também procurava os meus. Beijamo-nos apenas com um leve tocar de lábios — eu o amo.

Ao contrário do que era esperado, James não fez nenhuma piada, mas apenas nos contemplou com certo carinho, e uma ternura que eu nunca vira em seu rosto.

— O amor ás vezes me assombra — desabafou — com sua força.

— Está gostando mesmo dela — afirmou Sirius, e arrepiou-me o fato de sua voz estar tão perto de meu ouvido.

— Estou apaixonado, Padfoot — confessou, encolhendo os ombros — como nunca pensei que pudesse estar. Não consigo sequer olhar para nenhuma outra garota.

Peter ergueu-se com alguma dificuldade, fazendo-me lembrar de sua presença. Tive um vislumbre de seu rosto desolado, e então ele desatou a correr, deixando-nos, sem dizer palavra alguma.

— Ele gosta mesmo de você — disse Sirius com muita naturalidade, e eu me assustei, pois imaginava que eles desconfiavam dos sentimentos de Peter, como eu, mas não que conversassem sobre isso.

— E eu gosto de Lily. O que é que se faz?

— E a menina do Dia das Bruxas? — formulei apenas uma das muitas perguntas que eu tinha a fazer

— Coitadinha — James deu um sorriso amargo — estava mesmo interessada em Peter. Irrompeu em lágrimas quando ele disse que gostava de outra pessoa — olhou por trás dos ombros — de mim, no caso.

— Ele disse à garota que gostava de você?

— Não. Peter contou o milagre, ocultando o santo.

— É melhor você abrir o jogo com ele de uma vez.

— Tenho pena, Sirius.

— Pena não é um sentimento que se dedique a alguém — senti-me intrometido, mas quando dei por mim, já havia falado — ademais, logo você estará com Lily.

— Você acha? — James indagou ansioso, felizmente, ignorando a minha intromissão.

— Acho — eu disse sinceramente — vocês se parecem.

James e Sirius se entreolharam, e eu ri. Eles provavelmente tentavam comparar uma menina baixinha e magra, de olhos verdes e longos cabelos acaju a um garoto alto, forte, de olhos negros e cabelos da mesma tonalidade escura, curto, bagunçado, e levemente espetado na parte de trás. Mas eu obviamente não falava do físico.

— As almas de vocês se parecem — expliquei — foi o que eu quis dizer.

— As almas? — James indagou confuso — Como assim, as almas?

— Como a minha e a de Sirius — eu disse sem graça, quase engolindo as palavras — elas têm o mesmo teor.

— Almas gêmeas — ele disse com um largo sorriso.

— Sim — eu me sentia feliz por poder dizer aquilo com tamanha convicção — alguém por quem você daria a sua vida.

— Sem dúvidas eu daria a minha vida por Lily.

— Aí vem problema.

Olhei à direção que Sirius indicava, e percebi, com desgosto, a presença de Regulus Black, que caminhava em nossa direção com uma expressão intrigada. Tentei me afastar de Sirius, mas ele me abraçou ainda mais forte e ficou a beijar de leve o meu pescoço, ignorando a presença do irmão.

— Mas o que é isso, Sirius? — exclamou um Regulus muito lívido.

Sirius apenas ergueu o rosto muito sereno para o irmão, fitando-o demoradamente, com um meio sorriso nos lábios.

— Sirius, o que é isso?

— Parece que temos uma família de desviados — ele disse muito tranquilo — que desgosto para a Sra. Black, não?

— Isso não tem justificativa — as palavras saíam tremidas da boca do garoto — ele é um lobisomem mestiço! — provavelmente ele soubera por intermédio de Snape.

— E o seu caso com Severus Snape tem justificativa? — Sirius demonstrava uma inabalável calma, o que me preocupava, já que eu sabia que ele estava tremendo por dentro — Ele também é um mestiço, sabia? Pai trouxa e mãe bruxa. Você, que preza tanto o sangue, não deveria sair com alguém desse tipo, Regulus.

— CALE A BOCA!

— Ah, eu não acredito que ele escondeu isso de você.

— Você não sabe o que está dizendo, Sirius...

— Sei sim, e sei muito mais do que você pode imaginar. Quer contar sobre Remus e eu para toda a escola e principalmente para nossa família? Vamos lá, eu não me importo! Estamos aqui no meio do jardim, não temos nada a esconder, não sentimos vergonha de nossos sentimentos.

— Pois deveriam!

— Cuide de sua vida, Regulus. Eu não tenho pretensão de estragar o seu romance, então, por favor, aja da mesma forma. Ignore-me, eu nunca fui mesmo o seu irmão. Nossa relação é estritamente de sangue, garoto. Há muito que eu quero me desligar daquela família, Regulus, portanto, finja que eu nunca pertenci a ela.

— É exatamente isso que você merece, Sirius, desprezo.

Dito isso, ele se retirou e não voltou mais, porém o semblante de Sirius se tornou carregado, embora ele tentasse disfarçar com sorrisos e brincadeiras. E permaneceu assim pelo resto do domingo.

Acordei pelas duas horas da manhã e notei que a cama de Sirius estava vazia. Sem fazer barulho, calcei os chinelos e me retirei do dormitório. Encontrei-o no salão comunal, sozinho, sentado em frente à lareira, como de costume.

— Sirius — tomei o cuidado de manter a voz baixa.

— Oh, Moony — chamou-me pelo apelido, fazendo sinal para que eu me aproximasse — venha aqui, meu amor.

Sentei a seu lado, ao chão, e ele passou o braço esquerdo por minha cintura, fazendo com que eu deitasse a cabeça sobre seu ombro. Beijou-me os cabelos e permaneceu assim por alguns segundos, com o queixo posicionado sobre minha cabeça.

— O que você tem? — indaguei preocupado, como estivera ao longo de todo o dia.

— Meu irmão, Remmy — ele disse com um suspiro cansado, erguendo a cabeça e prendendo o olhar no teto.

— Está preocupado porque ele sabe sobre nós?

— Não, de forma alguma. O problema é que fico triste pelo destino de Regulus. Ele é tão ingênuo, tão influenciável...

— Você tem medo que ele caia para o lado das trevas?

— É o que todos esperam dele, não é? Eu sei que Regulus vai se dar muito mal como um Comensal da Morte. Isso não é para ele, sabe? Meu irmão é um garoto fraco, sensível... Ele morreria logo, Remmy.

— Converse com ele, então. Tente fazê-lo entender isso.

— E você acha que não tento? Mas ele diz que sou a escória da família, e coisas desse tipo. Eu sei que ele vai ver que está errado, mas temo que seja tarde demais.

— Infelizmente não podemos mudar certas coisas do destino, Sirius. Eu ainda não entendi porque a minha mãe morreu, se era tão jovem, linda, bondosa.

— O mundo não é perfeito, minha vida.

— É sim — tomei a sua mão direita e beijei-a — ao menos para mim, quando estamos juntos.

— Você tem razão — Sirius cariciou o meu rosto, olhando-me nos olhos, me deixando mais uma vez tonto com aqueles orbes azul-acinzentados — a vida pode ser muito mais simples do que imaginamos. Por exemplo, aqui com você, eu sou a pessoa mais feliz do mundo, mesmo com todos os meus desgostos.

Dito isso, beijou-me nos lábios da forma mais terna, delicada. Sirius tratava-me como se fosse quebrável, frágil demais para suas mãos.

— Vamos dormir? — sussurrou — Estou cansado.

E a partir daquela noite nós passamos a dormir juntos, abraçados, sem que importassem os olhares rancorosos de Anthony Dipper. Era bom dormir com Sirius, eu me sentia em paz, e quando tinha algum pesadelo, o que era bem frequente, eu tateava no escuro e procurava-o ao lado direito da cama, encontrando-o de braços sempre estendidos a mim, com todo o seu calor e o seu carinho. Então aconchegava-me ao seu peito e o medo se dissipava, sendo substituído por um sono sem pesadelos.

Os dias que sucederam foram tão perfeitos quanto poderiam ser. Sirius e eu andávamos de mãos dadas pela escola, e não nos ofendíamos com os olhares curiosos ou os cochichos desaprovadores dos colegas, ao contrário, até nos divertíamos com a indignação que causávamos. É claro que não trocávamos beijos em público, mas apenas carinhos inocentes. Regulus Black já não nos falava nada, talvez por temer que o seu relacionamento fosse revelado ou por puro cansaço, ou até por saber que não tinha assim, um moral tão intacto para condenar a sexualidade de Sirius.

Mas, como os dias mais quentes que se encerram em uma forte tempestade, no auge de nossa felicidade o medo nos veio visitar, e ele tinha a terrível forma de uma velha cigana. Eu já não me lembrava dela, daquela longínqua tarde no mercado com minha falecida mãe, mas todo o seu discurso veio à tona quando a vi à minha frente.

Fazia uma fria manhã de fevereiro e eu tentava me recompor da noite anterior, que fora a de minha transformação. Dessa vez apenas Sirius havia ido comigo, já que Peter e James haviam pegado uma detenção exatamente para aquela noite. Os raios de sol, muito apagados, entravam pelas frestas da velha janela de madeira da Casa dos Gritos, fazendo visíveis as mínimas partículas de pó ao chão, que subiam lentamente, girando. Naquela noite de lua cheia, eu havia me embrenhado nas profundezas da floresta e acabei me ferindo mais do que o de costume. Sirius apenas me encontrou pela manhã, já em forma humana, envolveu-me na capa negra que trajava e me levou de volta à Casa dos Gritos. Nem bem havia aberto os olhos e ela apareceu, em suas roupas exageradas de cigana, comida por traças, enchendo-me de pânico e agouro.

— Remus Lupin — disse com a voz arrastada e misteriosa.

— Vá embora — gritei, e as palavras saíram entrecortadas — eu não quero vê-la!

— Quem é ela? — indagou Sirius, que já estava a postos, empunhando a varinha.

— É ele, então? — seu olhar desvairado voltou-se para meu Sirius.

— Não toque nele! — levantei-me com dificuldade, colocando-me entre os dois.

— Eu não vou machucar ninguém — ela disse muito calma, e por um momento me pareceu convincente — quero apenas dar um aviso...

— EU NÃO PRECISO DE SEUS AVISOS!

— Acalme-se, Remus — Sirius envolveu-me em seus braços, notando que eu me esforçava demais e mal conseguia permanecer em pé — ela não parece mesmo querer machucar alguém — voltou-se para a cigana — o que quer a senhora?

— Ela agourou a minha mãe — desabafei, sucumbindo às lágrimas — por isso ela morreu. A culpa é dessa cigana maldita!

— Não tenho esse poder, menino, vim apenas alertar.

— Eu não quero ouvir suas profecias — o pavor e o ódio faziam-me querer atacá-la, mas Sirius segurava-me fortemente, e mesmo que não o fizesse, eu não teria forças para tal — deixa-me em paz!

— A mulher — ela disse sem nenhum convite, olhando para um ponto vazio, a expressão denotando mais loucura do que nunca — a mulher de cabelos espessos e os homens de máscara...

— CALE A BOCA!

— Espera, Remus — Sirius disse em um tom muito grave, fazendo-me sentar sobre uma velha cadeira, em seguida cariciando-me os cabelos desgrenhados — parece que ela está falando de Bellatrix, vamos escutar.

— É uma farsante, isso sim — eu disse entre lágrimas, recusando-me a acreditar na veracidade das palavras daquela mulher — deve conhecer os Comensais, estar aliada a eles. Não vê que isso é uma armadilha, Sirius?

— Eles vão buscar o menino — ela prosseguiu, apontando para Sirius — na noite sem estrelas, apenas com água caindo do céu. A salvação está na morada perpétua de quem mais se ama. É o que me diz a voz na cabeça.

Permanecemos calados, escutando ainda o eco daquela voz agourenta. Em questão de segundos a mulher aparatou. Era, então, uma bruxa.

— O que ela quis dizer? — indagou Sirius preocupado.

— Nada — eu disse imediatamente, tentando desvencilhar-me da lembrança da outra profecia que ela fizera acerca de Sirius — ela é louca.

— Ela estava falando de Bellatrix e dos Comensais da Morte, faz sentido. Escuta, Remus, acho que deveríamos ter um pouco de fé em suas palavras.

A credulidade de Sirius fez-me entrar em pânico. Agarrei-me a ele, de forma desesperada, temendo perdê-lo.

— Não chore — disse muito ternamente, envolvendo-me em um abraço acolhedor — não vamos deixar que nada aconteça, está bem? Nada, absolutamente nada.

E beijou-me nos lábios, enchendo a minha alma de sua delicada essência, capaz de dissipar quaisquer sentimentos ruins.