Capítulo Catorze
Annie encontrou Gale sentado em um banco na orla, olhando pro horizonte, vendo o sol subir no céu. Ela deixou Finn em casa pra trazer o resto das coisas pra um piquenique e encontrar com eles lá. Ela já tinha arrumado a cesta, mas queria um tempo sozinha pra falar com Gale antes.
Ele olhou pra ela no minuto que ela chegou.
Ela sentou um pouco distante dele, sorriu e olhou pro horizonte. "Eu costumava vir aqui, sentar e esperar ele voltar da Capital todo ano."
"Nesse exato lugar?"
Ela virou o rosto pra o outro lado, e apontou pra um ponto um pouco mais na frente à esquerda. "Perto daquela rocha. Aquela era a referência."
"E ele sempre te encontrava?"
Ela fez que sim com a cabeça. "E depois a gente fugia pra ficar sozinhos." Um sorriso malicioso surgiu no rosto dela, mas seus olhos estavam opacos, como se uma tempestade se aproximasse.
"E pra onde vocês iam?"
Ela balançou a cabeça. "Sinto muito." Ela virou o rosto pra ele com um ar de provocação, e seus olhos estavam normais novamente. "Mas esse é um segredo meu. Talvez um dia eu diga a Finn."
Ele alcançou o rosto dela, e delicadamente deslizou uma mecha de cabelo por trás da orelha dela. Ele gentilmente acariciou o ombro dela, descendo até as costas.
"Gale." Ela sussurrou, com um pequeno tremor na voz.
"Annie." Ele inclinou e a beijou suavemente, saíndo do beijo devagar.
Ela ficou um tempo considerando, então inclinou e o beijou novamente, mantendo os lábios pressionados nos dele por alguns segundos a mais.
Eles ficaram sentados olhando um pro outro por alguns segundos.
O encanto quebrou quando ouviram Finn cantando à distância. Eles separaram e voltaram a olhar pro oceano novamente. Os dois recuaram as mãos. Gale esticou a mão até tocar na dela com a ponta dos dedos.
Ela deu uma olhada pelo canto da visão. Um sorriso pequeno apareceu nos lábios dela. Annie levantou a mão e empurrou o ombro dele, rindo.
Ele soltou uma risada leve. "Que jeito de quebrar o clima, Annie." Provocou.
"Finn quebrou primeiro." Ela desceu a mão pelo braço dele.
Ele virou a palma da mão pra cima, convidando ela a deslizar a mão na dele.
Ela sorriu e balançou a cabeça, levantou e foi andando até a praia.
Gale ficou vendo ela ir.
Finn chegou, deixou a cesta do lado dele e correu pra água gritando e derrubando Annie quando entrou na água, mergulhando junto com ela.
Ela riu e jogou água nele.
Ele jogou de volta, rindo mais alto ainda com cada gota que jogava no ar.
Gale sorria vendo os dois. Ele gostava de ver Annie desse jeito. Ela parecia tão jovem. Ele estava perdido no sorriso dela quando começaram a chamar por ele.
"Vem, Gale. A água está ótima." Finn disse.
Ele acenou. "Não, estou bem aqui."
Mãe e filho entreolharam e correram saindo da água. Cada um pegou um braço dele e começaram a puxar até que ele ficasse de pé. Então, o puxaram até a água.
Ele engasgou com o frio. "Essa água não está ótima. Tá congelando."
Annie olhou pra ele e disse, "Bom, Gale, só tem um jeito de resolver isso."
"Como?"
Ela pulou nas costas dele. "Entra logo na água, Hawthorne." Ela falou rindo.
Ele afundou de joelhos na água. Alcançou por trás e conseguiu empurrar ela também.
Ela o afundou e nadou pra longe dele.
Ele subiu, espalhando água pra todo lado e tirando o cabelo do olho.
"Não é uma delícia?" Annie perguntou, rindo e jogando água no seu filho.
"É...com certeza" Gale disse, ainda com a água escorrendo pelo rosto.
Finn soltou uma risada. "Que bebezão."
Gale cerrou os olhos pro garoto. "Você me chamou de bebezão?"
"Chamei, sim. Por quê?" Ele desafiou.
"Ninguém fala assim comigo e fica impune." Ele levantou da água indo atrás do garoto.
Finn riu mais ainda e ameaçou, "Então vem me pegar, Gale." Ele mergulhou habilidosamente e começou a nadar pro mar aberto.
Gale andou até a água bater no pescoço. Ele esticou os braços e começou a nadar desajeitado, mas logo ficou cansado. Ele flutuou e gritou, "Dessa vez você venceu, Finn. Mas vou te pegar em terra firme."
O garoto emergiu da água rindo, "Não vai, não."
"Isso é o que vamos ver, garoto." Ele nadou de volta pra onde Annie estava, sentada na parte rasa da praia vendo os dois. Ele caminhou até ela e sentou ao seu lado.
Eles ficaram vendo Finn brincar na água por um bom tempo. Gale apreciou a quietude com ela. Era confortável. As mãos dela flutuavam na água. De vez em quando os dedos dela tocavam os dele. A risada do garoto ecoava pela praia enquanto ele mergulhava, dava cambalhotas e nadava por quase uma hora.
"Sobre aquele beijo…" Annie falou depois de um tempo.
"Qual deles?" Ele perguntou, dando um leve sorriso.
"Todos eles." Ela virou o rosto pra ele. Os olhos dela voltaram a ficar opacos. "Não quero que aconteça de novo."
O sorriso dele desapareceu. "Não vai. Não se preocupe."
Ela sorriu. "Obrigada." Ela deitou a cabeça no ombro dele por um momento, depois ficou de pé. "Finn, vem fazer um lanche." Ela virou, voltando pra areia e começou a desmontar a cesta.
Gale foi atrás dela, ajudando a abrir a toalha e a arrumar a comida, a maioria era o que sobrou do jantar de ontem mais algumas maçãs, já que eles comeram a torta toda ontem à noite.
Finn saiu todo ensopado da praia. Gale jogou uma maçã, e ele conseguiu pegar sem pensar duas vezes. Finn mordia um pedaço enquanto sentava na toalha.
Annie tirou o cabelo molhado do rosto dele. "Se divertiu?"
"Muito, mãe. Você devia ter ido comigo."
"Não ia deixar Gale sozinho. Ele é nosso convidado."
Os três sentaram, admirando o mar. O sol já estava alto no céu.
Finn ficava olhando de relance pros adultos. Ele tinha visto os dois beijando quando veio com a cesta pra praia. Uma parte dele tinha esperança que eles admitissem que acontecia mais do que amizade entre eles. Ele sonhava com a chance dos três formarem uma família e vivessem no Distrito Quatro. Não importava que o trabalho de Gale fosse num Distrito diferente. Uma parte dele imaginava que Gale faria o que pudesse pra ficar com ele e sua mãe.
Annie espreguiçou as costas, fechando os olhos. "Hora perfeita pra tirar um cochilo." Ela suspirou.
Gale e Finn concordaram e deitaram cada um ao lado dela. Estava quieto. As ondas batendo na areia. Os pássaros cantando no céu.
Gale virou a cabeça pro lado e ficou olhando Annie dormir por um tempo. Ela sorria. Ela virou de lado e um braço dela descansou no peito dele. Ele ia tirar, mas repensou e deixou a mão dele descansando sobre a dela. Ele fechou os olhos e caiu no sono.
Annie abriu os olhos e viu Gale deitado perto dela. Ela sentiu a mão dele sobre a dela deitados no peitoral dele. Ela logo sentou, deslizando fora a mão da dele. Ele acordou com o movimento.
"Desculpe." Ele disse baixo.
Ela balançou a cabeça e sacudiu a areia do seu cabelo. Ela olhou pro lado pra ver se seu filho ainda dormia. Ela inclinou e sussurrou, "Acorda, Finn."
Ele murmurou alguma coisa e rolou pro outro lado.
Gale guardou a comida do piquenique na cesta e disse, "Eu posso levar ele pra dentro."
"Você não precisa fazer isso. Ele pode ir andando." Annie disse ao tentar fazer Finn acordar. "Finn. Vamos, meu amor, acorda."
Ele rolou de costas, espreguiçando. Sentou e bocejou. "Não quero ir pra casa agora."
"Bom, se quiser ficar mais um pouco só promete pra mim que vai voltar antes que escureça ou venho te procurar."
Ele sorriu, "Tá bom. Valeu."
Gale carregou a cesta de volta pra casa com Annie caminhando ao seu lado.
"Estou feliz que você veio." Ela falou quando entrou com ele na casa.
"Bem, ainda tenho mais um dia. Meu trem volta terça de manhã."
Ela fez que sim com a cabeça. "Amanhã, nós vamos até o mercado comprar só o que você gosta. Finn e eu vamos fazer um banquete inesquecível."
Ele sorriu, "Gostei da ideia, mas e hoje à noite?"
"Tem uma barraca no mercado que faz tacos de peixe. É uma delícia. Eu e Finn amamos."
"Tacos de peixe? O que é isso?"
"Você nunca comeu tacos?"
Ele sorriu balançando a cabeça. "Nunca ouvi falar."
Ela soltou uma risada. "Bom, eles pegam um tipo de pão achatado chamado tortilha e recheiam com peixe grelhado, ou à milanesa, parecido com a fritura que fiz ontem à noite. Depois colocam um molho grosso apimentado chamado salsa e às vezes complementam com algumas verduras. Aí eles enrolam tudo na tortilha e você come."
"Parece uma delícia."
"E é. Finn e eu comemos bastante quando vamos lá."
Ele riu. "Eles ficam abertos até que horas?"
"Até bem tarde. Eles tem um barco de pesca somente pra essa barraca. Eles vendem outras coisas também, mas a gente acha que isso é o que eles fazem de melhor."
"Bom, eu tenho que experimentar."
"Ótimo. Posso correr até lá, pegar alguns pra gente e quando voltar o Finn já deve ter voltado. Você pode ficar à vontade Gale, sinta-se em casa, já volto." Ela bagunçou o cabelo dele. "E talvez você podia ir tirar a areia do cabelo."
Ele riu. "É, talvez." Ele levantou o queixo dela delicadamente. "Verde claro. Muito bom."
"O quê?"
"Seus olhos. Quando eles estão num verde brilhoso quer dizer que você está bem. Quando você começa a se perder um pouco, eles ficam num tom opaco, como se uma tempestade estivesse a caminho."
Ela enroscou os dedos ao redor do pulso dele. "Notou isso só com dois dias comigo?"
"Notei." Ele desceu o rosto e pressionou os lábios num beijo na testa dela.
Ela olhou pra ele, sorrindo. "Você é muito gentil."
Ele balançou a cabeça. "Eu só sou humano." Ele desceu a mão e deu a volta por trás dela. "Vou lavar essa areia do meu cabelo e vestir uma roupa que não esteja cheia de sal."
Ela ficou olhando ele ir pro corredor, entrando no quarto. Ela teve um flashback de uma noite com Finnick: os dois tomando banho juntos; as mãos dele acariciando o corpo dela delicadamente; os beijos dele deixando sua pele em chamas.
Ela engoliu seco e limpou a garganta. "Eu vou lá então, Gale. Volto em meia hora."
Ele saiu do quarto segurando roupas limpas, sorrindo. "Vou atrás de você se não voltar antes que escureça."
Um sorriso escapou dos lábios dela. "Então prometo não demorar. E você vai jantar comigo quando eu voltar."
"É bom mesmo." Ele provocou quando entrava no banheiro.
Ela esperou até ouvir o chuveiro, e foi até o quarto se trocar rapidamente. Ela escovou o cabelo e calçou as sapatilhas. Annie saiu apressada pela porta, ainda pensava naquela noite com Finnick. Lágrimas caíram do seu rosto e ela teve que parar de andar. Ela encostou numa parede, deslizando até o chão.
Ela era tão nova naquela época. Pela idade, ainda era uma jovem adolescente, mas tinha sofrido por uma vida inteira nos Jogos. E Finnick sabia disso. Ele sempre estava lá pra conforta-la. Fazer amor parecia inevitável. No entanto, por mais "amantes" ele tivesse na Capital, ele ficava o máximo de tempo que podia com Annie.
Na Colheita do ano seguinte o pior aconteceu. O pai dela faleceu. Seu pai passava muito tempo fora. Sua mãe havia falecido quando Annie era criança e não tinha mais ninguém. Ele se tornou um alcoólatra e as coisas só pioraram depois que Annie voltou pra casa instável depois dos Jogos. Toda noite ele saía e bebia pra fugir dos problemas.
Ela estava tomando banho. Annie sempre tomava longos banhos, pois podia chorar sem precisar falar com ninguém. Sempre achavam que as coisas iam melhorar se ela falasse sobre os problemas, mas só piorava.
E então, Finnick estava lá com ela, a beijando, abraçando apertado, dizendo que tudo ia ficar bem. Depois, eles estavam no quarto e ele foi tão gentil e sensível. Ele não a pressionou; deixava que ela fizesse as escolhas.
Ela limpou o rosto e respirou fundo por várias vezes. "Você sempre volta nas horas mais inconvenientes." Ela disse no caminho pro mercado. "Por quê você faz isso?"
Algumas pessoas na rua a viram e ouviram ela falando sozinha. Eles olharam com pena. Alguns começaram a cochichar entre si. Ela conseguia ouvir um pouco: eles falavam sobre Gale.
"Está mais do que na hora." Ela ouviu uma mulher dizer.
"Você acha que é certo ele dormir lá com o filho dela debaixo do mesmo teto?" a mulher do lado comentou.
Ela caminhou até a barraca, deixando a cesta que trazia consigo em cima do balcão.
"Olá, Annie." O gentil dono da barraca cumprimentou. "Como você está?"
"Estou bem, Martin, obrigada. Finn e eu estamos com um amigo visitando e a gente queria que ele provasse os seus deliciosos tacos."
"Ora, será um prazer. Grelhado ou frito?"
"Oito de cada."
Ele concordou. "Vou já preparar."
Eles jogaram conversa fora enquanto Martin preparava os tacos. Ele perguntou sobre Finn e ela perguntou como a família dele estava. Ele colocou os tacos na cesta dela e colocou um pacote a mais por cima.
"O que é isso?" Annie perguntou.
"São chamados de Orelhas de Elefante. Tortilhas fritas com açúcar cristal por cima. Um presentinho meu, não precisa pagar."
"Tem certeza?"
"Positivo. Você é minha cliente favorita, Annie." Ele inclinou e disse, "Mas não conta pra ninguém." Piscou.
Annie soltou uma risada e pagou os tacos. "Obrigada, Martin. Você é o melhor."
"Eu faço o que posso."
Ela riu de novo pegando a cesta e caminhou de volta pra casa pensando em Finnick, no passado, em Gale e no que o futuro traria.
