- Meu Deus! O que vou usar, Kyo? O que nesse mundo vou usar?

Yumi andava pelo quarto de um lado para o outro, de calcinha e sutiã, desvairada. Kyo apenas fumava e a observava.

- Por que não pega esse jeans e essa camiseta, ou esse jeans essa camiseta, ou esse outro jeans e essa camiseta...

- Kyo, isso é sério! Eu não posso ferrar tudo com esse cara aparecendo em jeans folgados e camiseta larga!

- Bem você agora tem alguns espartilhos e vestidos bonitos... Parece que saiu da Gothic & Lolita Bible, mas eu particularmente acho lindo.

- Meu Deus! Eu não poderia ter escolhido noite pior pare ser eu mesma! – ela uivou desesperada, agarrando os cabelos.

- Benzinho... – Kyo segurou seus braços com delicadeza – Não importa o que aconteça, você tem sempreque ser você mesma. É por isso que nós, seus amigos, a amamos. Quer mesmo saber o que usar? Use o que a fizer se sentir bem. Porque é o que ele vai fazer.

- Kyo... Você já viu a namorada dele? Ela é... linda, perfeita...

- Não comece com isso, Yumi. Cada um tem suas qualidades. Se ele não a enxergar de verdade, não vir quem você é, então ele não a merece. Tudo bem, é seu primeiro encontro, então vamos ver. Eu adoro esse vestido. Ele é preto, básico e modesto. Não precisa do espartilho. Assim não fica demais. E ele não é curto, que pena. Mas está ótimo. Aí você passa um batonzinho e voilá.

- Kyo – ela o abraçou. – E só mais uma coisa: onde você conseguiu os dados pessoais do Hiro? Acho que isso não tem em nenhuma revista, nem naquela que revela os segredos dele.

- Só não dê com as língua nos dentes. Mas uma palavra pra você: Tatsuha.

- Hmm... That does ring a bell...

- Certamente que sim. Você ouviu falar dele na biografia do seu novo escritor favorito.

- Não! Seria... É o irmão do Yuki Eiri? – Yumi falou um pouco alto demais.

- Seja mais discreta, benzinho. Não queremos que os vizinhos saibam. E também não queremos tornar isso público.

- Desde quando vocês estão se vendo?

- Não faz muito tempo. Mas discrição é tudo. Ele é um sacerdote no templo do pai. Não pode nem pensar em ter esse tipo de comportamento. E eu, supostamente, sou hetero.

- Mas Kyo! Isso não tem a menor importância nos dias de hoje!

- Não sei, benzinho. Eu sou popular entre as mulheres. Não seria bom para as vendas do single, eu acho.

- Pois eu acho que isso até aumentaria as vendas. Sabia que eu acho uma gracinha o Shuichi Shindou com o Yuki-sensei? É lindo, eles não têm absolutamente nada a ver um com o outro! E a forma como eles se olham... Se alguém olhasse assim para mim um dia... Yuki-sensei escreveu "Last Love" depois de encontrar o Shuichi. Eu acho que ele colocou muito de seu coração e da sua relação naquele livro. Parecia mais autêntico e genuíno que os outros.

Kyo riu.

- Espero que você não tenha falado isso para ele!

- Claro que não! Seria abuso demais. Mas tenho quase certeza de que ele escreveu aquele livro para o Shuichi-san. Tomara que ele tenha lido. Kyo, vou me arrumar. – ela deu um beijinho no amigo e correu para o banho.


Em meio a fritas e refrigerantes, Yumi e Hiro conversavam. Ele não parecia particularmente encantado com ela e Yumi não o culpava. Ela bem que dissera a Kyo. E parecia que algo o incomodava.

- Yumi – Hiro começou, sério – Como eu disse, precisava falar com você. Tenho pensado nisso desde... desde o nosso último encontro.

- Eu... Eu também, Hiro.

- É isso mesmo o que me preocupa, Yumi. Eu sei que você sente algo especial por mim e eu... não mereço isso e não fiz nada para merecê-lo. Eu não quero magoá-la, Yumi, mas... O que aconteceu na noite do aniversário do Shuichi... não deve se repetir.

Yumi sentiu como se tivesse aberto um buraco no chão. E para piorar, ela estava completamente sem fala.

- Eu gosto de você, Yumi, gosto mesmo. Mas eu tenho namorada. E ela já foi ferida antes. Não posso magoar duas pessoas de uma vez. Portanto, não vou lhe dar falsas esperanças.

- Se gosta de mim... Por que está me dispensando desse jeito? – Yumi de repente percebeu que ainda tinha habilidade de falar, as palavras jorravam dela sem que ela pudesse fazer algo para que parassem – Acha que fazendo isso eu não vou ser ferida? Eu entendo, não vou me intrometer em seu relacionamento. Eu cheguei depois, sou uma intrusa. Não tenho o direito...

- Yumi – Hiro segurou sua mão, o que fez com que as lágrimas que ela estava segurando começassem a sair – Eu realmente me importo com você. Não quero que fiquei infeliz, mas não podemos ficar juntos da maneira que você quer...

Ela se levantou e saiu da lanchonete, mas Hiro a seguiu.

- Yumi, espere! Não faça assim... – ele a puxou pela mão e a abraçou.

"Droga Hiro... Por que você tem que ser... tão gentil...?",Yumi pensou.

- Hiro – Yumi o afastou – Eu entendo que não possa me dar o que quero. Mas não me trate assim, senão eu... Como vou poder esquecê-lo?

- Yumi... – ele disse, secando-lhe as lágrimas. – Você é uma garota especial. Eu não seria o suficiente para você. Senti isso na noite em que a beijei. Alguém que a mereça vai aparecer, mais cedo ou mais tarde.

Yumi riu, mesmo dada as circunstâncias, mas o que Hiro estava dizendo era clichê demais.

- Eu sei que você quer se livrar de mim, mas essa fala é tão brega, Hiro... Pode fazer melhor que isso.

- Não, tenho certeza do que estou dizendo. Eu não mereço essa atenção, mas fico lisonjeado que uma garota como você tenha olhos para mim. Bem, vamos embora, eu a levo.

E ao deixá-la em casa, ele lhe deu um beijo na testa e se foi com a moto.

Yumi entrou e Rui e Kyo ainda estavam acordados, esperando por ela.

- Voltou cedo! Como foi? – Kyo perguntou.

Ela sorriu, resignada.

- Ele me deu um fora. Vou dormir.

Os dois não ousaram perguntar mais nada.

Estranhamente, Yumi não chorou até dormir. Ela se sentia tranquila e em paz.