Capítulo XIV

Os dias se passaram rapidamente e logo se tornaram semanas.

Ginny Weasley estava na toca cercada pela família e recebendo todo o carinho e atenção dos colegas de time. Harry ia vê-la todos os dias e passava o tempo que tinha disponível com ela. Ginny amava a atenção que recebia e Harry adorava fazer o que podia por ela. Ele lhe trazia tudo o que ela pedia e fazia tudo para mantê-la bem e feliz.

No fundo, Harry sabia que agia daquela forma não só porque Ginny estava machucada, mas também para compensar a culpa que ele sentia por manter Pansy Parkinson em sua casa, grávida de um provável filho seu. Era uma situação que ele ainda não sabia como resolver.

Naquela tarde, Draco Malfoy aparatou na toca para a visita de rotina. Ele era o médico oficial de Ginny e cuidou dela da melhor forma, garantindo sua recuperação. Draco examinou-a e informou que tudo estava indo bem, os ossos estavam crescendo a contento e dentro de uma semana estariam no tamanho normal. Ela iniciaria a fisioterapia e logo poderia voltar a jogar e casar com Harry.

Ginny sorriu feliz ao receber a notícia e imediatamente mandou uma coruja para a cunhada Hermione, avisando que elas precisavam se reunir para retomar os preparativos do casamento. Hermione era sua madrinha.

Draco aproveitou o momento e dirigiu-se a Harry:

— Potter, eu gostaria de conversar com você em particular.

— Claro! Por aqui... — Disse Harry conduzindo Draco para fora da casa.

Caminharam em silêncio até o quintal. Harry com um certo receio. Draco com ansiedade.

— Obrigado por cuidar de Ginny! Ela tem se recuperado muito bem e em apenas dois meses!

— Temos um acordo Potter, essa é apenas a minha parte. E é sobre Pansy que quero falar. Você deu as vitaminas a ela? Ela tem tomado? Como ela está?

Alguns dias depois da mudança de Pansy para o apartamento de Harry, Draco tinha ido até o ministério deixar umas vitaminas que Pansy precisava tomar por conta da gravidez. Ele escreveu as recomendações e Harry entregou depois a Pansy. Naquele momento Harry voltou a pensar que o filho de Pansy era de Draco e que os dois estavam mentindo para ele. Longe de irritar Harry, ele até desejou que fosse assim, pois estaria livre de Pansy e de todo problema que ela trazia para sua vida.

— Pansy está bem, está tomando todas as vitaminas e seguindo todas as suas recomendações.

— Isso é bom. A criança deve estar se desenvolvendo bem.

— Acredito que sim.

— No entanto ela precisa consultar um médico. Já está com três meses e meio e isso é mais que necessário.

— Isso não é possível. Como poderei levá-la ao médico? — Harry estava horrorizado com a possibilidade de que descobrissem o estado de Pansy e a presença dele na companhia dela.

— Sim, é possível — Disse Draco com tranquilidade — Você irá levá-la a um médico trouxa.

— O quê?

— É Potter. Eu sei que você está familiarizado com este mundo, portanto não será difícil para você. Mas para facilitar sua vida eu já localizei o melhor médico trouxa, agora é só você levar Pansy. Basta vocês irem transfigurados e não haverá problemas.

— É mesmo necessário?

— Sim, é uma questão de saúde dela e do bebê.

— Certo. Levarei ela ao médico.

— Aqui está o endereço.

Draco entregou a nota para Harry.

— Tem outra coisa que quero falar com você. Recebi essa coruja a alguns dias e acredito que é de Blaise.

Draco mostrou outro papel para Harry e este leu.

"Entregue-me o que me pertence ou eu tirarei o que é seu"

— Tem certeza que é de Zabini? — Questionou Harry franzindo o cenho.

— Não, mas imagino que se trata de Pansy. Ele a vê como se fosse sua. E acredito que ameaça me tirar Astoria.

— Precisamos formalizar a investigação pelo Ministério e proteger sua esposa.

— Quanto a Astoria não se preocupe. Eu a enviei à França com minha mãe, ela está em segurança. Mas quero lhe pedir que faça a investigação de ameaça em sigilo, Blaise é astuto e pode arrumar uma forma de descobrir nossos passos.

— Certo. Farei como você deseja. Se receber mais alguma coruja avise-me!

— Sim, eu farei. E quanto ao acidente da Weasley?

— Constatamos que o balaço estava encantado, foi enfeitiçado para atingir Ginny. Foi um ataque.

— Suspeita de Blaise?

— Também, mas há tantos outros comensais soltos que as possibilidades são diversas.

— Entendo.

O silêncio recaiu sobre eles, ambos pareciam perdidos em seus próprios pensamentos.

— Harry, Ginny está lhe chamando. — Gritou a Sra. Weasley da porta dos fundos, despertando os dois bruxos de seus transes.

Draco se despediu e aparatou. Harry se encaminhou até o quarto de Ginny.

— Oi meu amor! — Disse Harry dando um beijo nos cabelos de Ginny.

— O que Draco queria?

— Falar sobre uma coruja que ele recebeu e teme ser uma ameaça a sua esposa — Respondeu Harry, omitindo a parte relacionada a Pansy.

— Ah! Certo... Harry eu estive pensando... Podemos adiar o casamento por mais alguns meses?

— O quê? Por que? — Perguntou Harry assustado.

— Não pense que não quero me casar com você Harry — Ginny gesticulava nervosamente — É só que quero jogar a próxima temporada antes de nos casarmos. Acredito que precisamos desse tempo para nos recuperar desses imprevistos que ocorreram nos últimos meses.

— Entendi. Isso seria mais quatro meses e meio então?

— Sim. Não é muito diante da vida toda que temos pela frente. O que me diz?

Harry pensou por um breve momento antes de responder.

— Acho uma boa ideia. Tenho muito trabalho no Ministério e seria difícil me afastar agora também. — Concordou Harry.

— Ótimo! Você faz o que precisa em seu trabalho e eu no meu, então estaremos felizes e satisfeitos, e realmente dispostos e disponíveis para nos casarmos e construirmos nossa própria família. Quero casar e seguida já ter um filho seu — Disse Ginny com um sorriso amoroso.

Harry sorriu de volta e a beijou nos lábios, despedindo-se me seguida. Ele saiu da toca refletindo sobre a mudança das coisas. Ginny adiara o casamento e embora ele quisesse muito se casar com ela, sentia que não era possível ainda, não antes de resolver a situação de Pansy Parkinson. A decisão de Ginny viera a calhar e fora o melhor que acontecera agora. Ele teria tempo para pensar no que fazer para sair daquela situação. E por falar em Pansy, ele teria que fazer o que Draco sugeriu, levá-la a um médico trouxa para uma consulta.

Ao aparatar em seu apartamento ele encontrou Pansy assistindo televisão na sala e achou engraçado como ela gostava dessas novelas trouxas. Ele comunicou que a levaria ao médico e informou a data da consulta, deixando-a em seguida como ele tinha feito todo esse tempo. Harry evitava estar em casa para evitar estar com Pansy. E ela sabia.

No dia marcado para a consulta Pansy despertou cedo e tomou seu café, sozinha como sempre. Ela nem sabia que Harry estava em casa até ouvir uns sons estranhos vindo do banheiro de visitas.

— Harry? Você está bem? — perguntou Pansy.

A resposta dele foi abafada e ela teve dificuldade de saber exatamente o que ele estava dizendo, mas parecia que respondera que estava bem.

Pansy notara que ele estava no banheiro a algum tempo e o barulho indicava que o estômago do bruxo não estava nada bom. Ela aguardou no corredor com preocupação e alguns minutos se passaram, antes de ele finalmente sair.

— Não fique muito perto de mim. Não quero que você se conta mine com algum vírus que peguei. — Harry disse com rudeza.

Pansy notou que ele parecia péssimo. A face estava pálida e a testa úmida.

— Há algo que eu possa fazer por você? — Perguntou ela com certa apreensão. — Talvez uma canja ou uma sopa?

Aquilo não parecera ser a melhor coisa a sugerir, pensou ela quando a porta do banheiro bateu na sua cara e Harry voltou a vomitar. Aquilo vez Pansy imediatamente recordar de como se sentira no início da gravidez.

— Tem certeza que quer ir ao médico comigo hoje? — gritou Pansy. — Você sabe, posso perfeitamente ir sozi...

A porta se abriu, batendo na parede com estrépito.

— Eu disse que iria com você e vou. Mas, por favor, não mencione comida novamente.

— Será que você está com gravidez psicológica também? — brin cou ela para aliviar a tensão.

Mas o olhar que ele lhe devolveu mostrava que a brincadeira não causara o efeito que ela esperava. Harry ignorou o comentário.

— Vou pegar a varinha para a transfiguração.

Harry mudou os cabelos de Pansy, alongando-os e escurecendo-os. Ele mudou seus cabelos para um castanho claro e os olhos para um tom azul, retirando os óculos e a cicatriz em sua testa. Ambos colocaram óculos escuros e chapéus e em seguida aparataram próximo ao consultório médico.

Harry e Pansy sentiram-se desconfortáveis ao chegarem no consultório. Havia um casal aguardando a consulta e eles observaram que o casal demonstrava abertamente o amor que sentiam um pelo outro, com mãos dadas e beijos furtivos, muito diferente de Pansy e Harry que estavam mais distantes que nuca.

Para alívio da bruxa ela foi conduzida a uma sala para retirar sangue e Harry a uma sala de espera. Algum tempo depois eles foram até o consultório médico.

— Seus exames mostram que tudo está perfeitamente normal, Sra. Potter. De acordo com meus cálculos, você está com três meses e meio de gravidez — O Dr. Matthews sorriu-lhes através da mesa. — Quero que tome algumas vitaminas durante toda a gravidez. Queremos um bebê saudável, não queremos?

Pansy sorriu empolgada, pensando se o médico idoso era assim tão empolgado com todas suas pacientes.

— E quanto a mim, doutor? — continuou Harry. — Deverei ficar longe de Pansy até que me livre desse vírus.

O médico sorriu com discrição.

— Esta é a razão pela qual pedi à enfermeira para tirar seu sangue também. Como eu suspeitava, você está sofrendo de indisposição matinal da gravidez.

Pansy meneou a cabeça.

— Oh, eu já passei por isso. Na verdade, estou me sentindo ótima.

— Não você, Sra. Potter. É do sr. Potter que estou falando.

— O quê? — Harry agitou-se na cadeira. — Você está brincando! Homens não sentem esse tipo de indisposição.

— Realmente não é tão incomum como a maioria das pessoas pensam. Chamamos isso de dor empática. Na maioria das vezes, não dura muito tempo. — O médico tirou os óculos e começou a limpá-los com o lenço.

— Isto é ótimo. Formidável! — disse Harry frustrado. Ele se imaginou no meio de uma reunião ou missão importante, tendo que correr para o banheiro. Como explicaria isso?

— Não se preocupe, dura apenas algumas semanas! E vou receitar uns remédios para você também. Vai se sentir melhor.

— Obrigada!

Quando saíram do consultório Pansy pôs-se a rir.

— Não vejo graça alguma. — disse Harry por entre os dentes.

— Você tem razão — concordou Pansy, contendo-se para não mais rir.

Ela não deveria continuar, mas alguma força invisível a forçava. Ela sentia necessidade de perturbar Harry Potter.

— Além do mais, isso durará apenas algumas semanas. Então suas alterações emocionais começarão.

— Que alterações? — Harry estava incomodado.

— Oh, você sabe, rompantes de choro, altos e baixos emocionais. Depois disso, há a dor nas costas, suas mãos e pés incham, você tem que ir ao banheiro a cada cinco minutos — Neste momento, ousou exagerar — E então há o parto. Pelo que ouvi falar, não é somente um trabalho muito difícil, mas é...

Ela o fitou e percebeu que aquele tom esverdeado estava colorindo as faces dele novamente.

— O médico explicou bem que esses sintomas no homem são apenas questão de empatia — murmurou ele.

— Você acha isso? Você nem mesmo fica perto de mim, como pode saber o que eu sinto e ser empático a isso? — Pansy alfinetou.

A voz de Harry era um pouco rouca ao responder, notando a mágoa na voz de Pansy.

— Tenho certeza que passará dentro de poucos dias.

O resto da caminhada até o ponto de aparatação foi em silêncio, cada um perdido nos próprios pensamentos. Pansy não conseguia entender por que Harry estava tendoaquele tipo de sintomas, afinal, Harry a evitava a todo custo, deixando-a sempre sozinha.

Engraçado, mas tal pensamento a deixou com vontade de chorar. Ela não queria admitir, mas ficar sozinha na casa de Harry a fazia enxergar que não era querida, que ela era um problema, um incomodo, uma presença não desejada na vida dele.

Pansy alisou o próprio abdômen. Ainda estava chato, mas sabia que muito breve, começaria a arredondar-se. Em breve seria evidente que ali existia mais um ser e então seriam ela e o filho rejeitados.

Harry nunca quereria eles em sua vida, nunca se apaixonaria por alguém que pulava de dentro de bolos em festas de despedida de solteiro ou que mesmo sem recordar o passado, estava ligada pessoas ruins. Ele amava a noiva, a ruiva estonteante e independente que jogava algo e era famosa. Ele amava Ginny Weasley e era ela quem ele queria em sua vida, como sua esposa e era mãe de seu filho, era com ela que ele queria uma criança.

Pansy se perguntou se o que fazia era certo. Talvez ela devesse deixar Harry Potter também e pedir para ele levá-la a outro lugar que fosse seguro, mas onde ele não tivesse mais que vê-la. Ela não queria ser um fardo na vida dele, não queria ser mais uma vez rejeitada, não queria que seu filho fosse.

— Você ainda pretende fazer o teste de paternidade?

— Sim, agora que você tem o tempo suficiente, podemos fazê-lo. Mas não precisamos ter pressa, afinal você ficará comigo por um bom tempo, seja até sua herança ser liberada ou bebe nascer...

— Não vai ser necessário... — Disse Pansy controlada — Não é seu filho...