Capítulo XIV

À tarde do dia seguinte, Kagome aproveitava a tranqüilidade do jardim. Era sua hora favorita. A claridade do sol era suficiente para manter a temperatura agradável e para permitir a leitura.

Os jardins combinavam com o luxo da mansão. Os caminhos pavimentados com seixos separavam os canteiros coloridos com flores e árvores de várias espécies. Havia também muitos bancos e fontes.

Aquela extensão de ar e verde despertava-lhe lembranças de casa. Apesar de apreciar a vida em Londres, ela sentia saudade dos pais, das irmãs e até mesmo do cachorro da família.

Estava na hora de voltar. Na noite anterior, ela comentara com Sesshomaru, e ficou combinado que partiriam dentro de quinze dias para Wiltshire.

Kagome estava ansiosa para Sesshomaru conhecer seus pais e um pouco nervosa por ter que explicar as bizarras condições de seu casamento e a identidade do marido.

Uma brisa balançou as folhas das árvores. Estava ficando tarde. Kagome amarrou as fitas do chapéu, e ao pegar o livro, o marcador de páginas caiu. Resmungando, ela se abaixou para pegá-lo. De repente, percebeu um movimento rápido às suas costas. Levantou a cabeça, mas não teve tempo de ver nada.

Foi atingida por um objeto duro. A dor explodiu dentro do cérebro, e depois, a escuridão tomou conta dela.

Sesshomaru sorriu para o criado ao entregar-lhe o chapéu e as luvas. Parecia que ultimamente estava sorrindo demais. Desconfiava que sua esposa também fosse a responsável por mais essa mudança de hábito. Kagome o estava fazendo ridiculamente feliz.

— Lady Taisho está em casa?

— Ela está no jardim, milorde.

Agradecendo com um gesto de cabeça, Sesshomaru seguiu para os fundos da mansão. Logo mais à noite, haveria o baile dos Henson, uma festa que normalmente ele não perderia por nada. No entanto, a idéia de um jantar tranqüilo a dois, e uma noite de prazer com sua esposa, era muito mais atraente.

Felizmente, não seria uma tarefa difícil convencer Kagome a desistir do baile.

Era uma experiência nova ter tais sentimentos de ternura vibrando dentro dele, sentir no sangue a necessidade de ter Kagome nos braços.

Permitir-se sentir essa necessidade, em vez de sufocá-la sob a pose da formalidade, ainda o assustava, mas o medo ia evaporando a cada dia. Kagome proporcionava-lhe a sensação de prazer que ia além da atração física e que lhe atingia a alma e o coração.

Enquanto atravessava o jardim, Sesshomaru pôs a mão no bolso do paletó e apertou a caixa contendo a jóia confeccionada especialmente para Kagome. Ele a entregaria logo após a declaração de amor e a promessa de devoção à felicidade dela.

Foi direto ao lugar onde Kagome costumava sentar-se, e sentiu uma pontada de apreensão. O banco estava vazio e o livro largado no assento.

Com o livro na mão, Sesshomaru percorreu o jardim e entrou em casa. Ninguém vira Kagome. Os criados começaram a procurá-la nas salas e aposentos do primeiro e do segundo andar. Sesshomaru vasculhou os cômodos do terceiro andar. Kagome não estava nem mesmo em seu quarto.

Puxou o cordão da campainha e uma jovem criada o atendeu.

— Onde está à criada de lady Taisho?

— Não a vejo desde a hora do almoço, milorde. Hoje é sua tarde de folga.

Preocupado, Sesshomaru dispensou-a e chamou o mordomo. Brinks chegou em seguida. Logo atrás, vieram os criados encarregados de revistar a mansão. Pela expressão deles, Sesshomaru percebeu que lady Taisho não estava em casa.

A porta do quarto estava aberta e Inuyasha entrou sem bater.

— Percebi o movimento e vim ver o que aconteceu.

— Kagome não está em casa — Sesshomaru respondeu.

— Tem certeza?

— Já vasculhamos a casa inteira e o jardim. Ela não está aqui.

— Talvez tenha resolvido sair um pouco — Inuyasha sugeriu.

— Tem alguma carruagem fora?

— Só a que levou a condessa a Bond Street — apressou-se o mordomo em responder.

— Kagome sabe que estou preocupado com a sua segurança

— Sesshomaru observou. — Ela não deveria ter saído sem avisar alguém.

Ele colocou o livro sobre a penteadeira e apertou a cabeça entre as mãos. Precisava pensar, mas raciocinar era quase impossível.

— Reúna todos os criados no hall — ordenou Inuyasha. — Lorde Taisho e eu precisamos conversar com todos os empregados.

Sesshomaru lançou ao irmão um olhar de agradecimento. Preocupado como estava, não conseguia pensar com clareza.

Lado a lado no hall, os dois irmãos informaram aos empregados sobre o desaparecimento de Kagome.

— Vocês se lembram de alguma coisa que possa ajudar? — Sesshomaru indagou aos empregados espantados com a notícia.

Um rapaz deu um passo à frente.

— Pode não ser importante, mas eu vi uma carruagem preta estacionada no começo da rua, hoje à tarde. Eu reparei porque estava parada num lugar perigoso, muito perto da esquina. Pareceu-me estranho.

— Você viu alguém descer ou subir?

— Não, milorde.

Inuyasha aproximou-se do criado.

— Havia algum brasão na porta, ou qualquer coisa que identificasse o veículo?

— Não, senhor.

— Alguém mais viu a carruagem?

Após um breve silêncio, outro criado se manifestou.

— Eu, senhor.

— Lady Taisho estava dentro? — Sesshomaru quis saber.

— Não consegui ver, milorde. O cocheiro estava em seu posto, e havia pelo menos uma pessoa lá dentro porque colocou a cabeça para fora da janela uma ou duas vezes.

— Você pode descrever essa pessoa?

— Foi muito rápido, mas sei que era uma mulher por causa do chapéu.

— Você conhece a mulher?

— Eu... Hum... — o rapaz balbuciou, corando de leve. Ele olhou para o mordomo e depois para Sesshomaru. — Acredito que era a srta. Manning, apesar de não ter certeza absoluta.

— Srta. Manning? — Inuyasha repetiu.

Sesshomaru soltou uma imprecação. Decididamente, não era uma boa notícia. Se Kagome estava com Kikyou, então Dorchester não estaria muito longe. Um arrepio de medo percorreu-lhe a espinha. Subestimara o perigo, e isso era imperdoável. Queria acreditar que tudo não passava de um terrível engano, mas desconfiava que, infelizmente, esse não era o caso. Precisava tomar providências urgentes.

Sem maiores explicações, saiu apressado, deixando as luvas, o chapéu e o casaco para trás.

Inuyasha seguiu-o.

— Sesshomaru, espere! Você não pode sair à caça de uma carruagem preta em Londres. Não temos idéia da direção que tomou, e nem se Kagome estava dentro.

— Não vou procurar nenhuma carruagem. Vou falar com Dardington. Nosso cunhado contratou investigadores para vigiarem Dorchester. Se Kikyou estiver envolvida, com certeza, o fidalgo também está. Peço a Deus que um dos investigadores possam nos levar até Kagome.

— Vou com você — Inuyasha avisou. — Vamos pegar minha charrete. E o meio de transporte mais veloz de Londres quando estou com as rédeas nas mãos.

O som das rodas da carruagem sobre o piso de gravetos despertou Kagome da inconsciência. Zonza, mexeu a cabeça e gemeu de dor. Tocou o ponto dolorido e sentiu a protuberância.

Tentou se sentar e, por um momento, tudo girou à sua frente. Esperou a tontura passar e, devagar, endireitou-se no banco.

— Finalmente, acordou. Ainda bem. Tive que dar um shilling a mais para o cocheiro carregá-la do jardim até a carruagem. Mas agora, ao chegarmos ao nosso destino, economizarei esse valor.

Kagome piscou, e a imagem da mulher sentada de frente dela, lentamente foi se tornando mais nítida.

— Srta. Manning?

— Ah, você sabe meu nome! Naraku teimou que o ignorava, mas eu tinha certeza que sabia.

— Naraku? — Kagome murmurou ainda confusa. O ar de superioridade de Kikyou desapareceu.

— Fidalgo Dorchester, para você.

O coração de Kagome começou a bater descontrolado. A cabeça doía terrivelmente, e seu corpo estava tão pesado que quase não conseguia se mover. Mas ela precisava lutar para se manter consciente.

— Estamos indo ao encontro do fidalgo?

— Para que você quer saber?

A risada curta e estridente de Kikyou assustou-a. Kagome não queria acreditar que estava sendo seqüestrada em troca do pagamento do resgate. Kikyou tinha razões para não gostar dela, mas certamente não planejara sozinha aquela ação. Aparentemente, o autor do plano era Naraku Dorchester, e era o envolvimento e as intenções dele que a assustavam.

A carruagem parou na entrada de um parque.

— Desça.

— Não — Kagome desafiou-a.

Praguejando, Kikyou tirou uma faca do bolso da capa. A lâmina brilhou ameaçadoramente na penumbra do interior da carruagem.

— Desça! — Kikyou repetiu.

Com relutância, Kagome obedeceu.

— Venha me buscar na hora e no local combinados — Kikyou ordenou ao cocheiro, jogando-lhe uma bolsinha cheia de moedas. — E você receberá o restante.

Depois de pegar o dinheiro, o cocheiro soltou a rédeas e a carruagem desapareceu.

— Vá andando. — Kikyou pressionou a ponta da faca nas costas de Kagome, obrigando-a a entrar no parque.

O lugar estava deserto e silencioso. Elas contornaram algumas árvores que formavam uma clareira. Atravessaram uma relva, depois desceram uma elevação que terminava nas margens de um lago.

Kagome olhou ao redor. Não havia ninguém por perto. Com um pouco de sorte, poderia desarmar Kikyou e...

De repente, uma voz de mulher acabou com suas esperanças.

— Está atrasada, mocinha.

Kikyou e Kagome voltaram-se na direção da voz.

— O que você está fazendo aqui? — Kikyou esbravejou.

— Eu lhe pergunto a mesma coisa, querida irmãzinha. Você me disse que iria tomar sorvete no Gunther.

Kagome sentiu uma ponta de esperança. Imaginava deparar com o odioso fidalgo Dorchester e, no entanto, estava diante de Rin Manning.

— Aonde eu vou, não é problema seu — Kikyou gritou. — Pare de vigiar meus passos e desapareça já daqui!

— Não sem lady Taisho.

Kikyou perdeu completamente o controle.

— Sua vagabunda! Vá embora antes que estrague tudo!

— Como vou estragar algo que eu mesma planejei?

As palavras de Rin sacudiram Kikyou. Puxando pela respiração, ela fitou a irmã mais velha como se não a conhecesse.

— Que absurdo você está dizendo?

Rin soltou uma gargalhada. Nos olhos dela havia um brilho de loucura.

— Pela primeira vez, minha irmãzinha, estou no controle. Como estou satisfeita por tê-la enganado! Agora, você vai me ouvir e fazer o que eu mandar.

Com passos lentos, Rin aproximou-se e deu uma bofetada no rosto da irmã, derrubando-a.

Pressionando o rosto atingido, Kikyou arregalou os olhos.

— Você me bateu.

— Agradeça por ter sido só isso. — Rin tirou um objeto do bolso do vestido. Era uma pistola pequena, feita para as mãos delicadas das mulheres. — Se você me tirar do sério, não hesitarei em usar isto. — Ela esfregou a arma no nariz da irmã. Kagome estremeceu, mas Kikyou ainda não tinha percebido a magnitude do perigo. Ainda com a mão na face atingida, encarou Rin.

— Vou dizer pela última vez. Vá embora imediatamente. Este assunto não lhe diz respeito.

— Vou ficar.

Kikyou olhou ao redor.

— O fidalgo ficará furioso se a encontrar aqui. Não vou pedir por você. Na verdade, adorarei assistir à sua punição quando ele souber que você me bateu.

Rin soltou uma gargalhada.

— Eu vi os hematomas que você tenta esconder, Kikyou. Por que ele se importaria se alguém a agredisse? Ou será que esse privilégio é só dele?

Kikyou estremeceu e, depois, pôs-se em pé.

— Sua ignorância selou seu destino, Rin. Não vou fazer nada para poupá-la. Nada. Naraku vai rir quando vir esse seu revólver ridículo. E, depois, ele vai bater até sangrar e você pedir por misericórdia.

Rin não se intimidou com as ameaças da irmã.

— Você está começando a me aborrecer. — Num gesto inesperado, ela levantou o braço e atingiu a nuca de Kikyou com o cabo do revólver.

Os joelhos dela dobraram. Ela cambaleou, caiu para frente e ficou imóvel.

Rin cutucou o corpo inerte com o bico da bota. Não houve reação nenhuma. Rindo, ela se voltou para Kagome.

— Você parece assustada, milady. Não sei por quê. Minha irmã e o amante dela iriam causar-lhe um grande sofrimento. Eu nunca faria nada tão cruel.

— Nunca pensaria isso de você, Rin. Mas Kikyou falou verdade sobre o fidalgo. Ele é muito violento. Vamos sair imediatamente daqui, antes que ele chegue. Rin riu novamente.

— Não precisa ter medo de Dorchester. Eu já dei um jeito nele.

Pegando Kagome pela mão, Rin levou-a até as árvores. Realmente, ela dera um jeito em Naraku. Ele estava sentado sob um carvalho imenso. Amordaçado, pés e mãos amarrados e a cabeça caída num ângulo estranho.

— Ele está morto? — Kagome perguntou num fio de voz.

— Ainda não. — Rin soltou um longo suspiro. — Eu nunca matei ninguém. Você será a primeira. Depois Dorchester. Por último, Kikyou.

O sangue subiu à cabeça de Kagome e um barulho estridente encheu seus ouvidos. Esforçou-se para manter a expressão impassível e o olhar firme, mas não conseguiu controlar o medo que a impedia de pensar, Sua única chance de sobrevivência era ganhar tempo.

— Você disse à sua irmã que o plano era seu.

— Sim. Eu planejei tudo em detalhes. Estou orgulhosa de mim! E tudo correu melhor do que eu esperava.

— É mesmo?

Rin confirmou com um gesto de cabeça, ávida para contar sua história.

— Veja bem, eu precisava surpreendê-la, mas não conseguiria sozinha. Então, enganei Kikyou e, sem saber, ela me ajudou.

— Como assim?

— Mandei um recado para ela, com instruções para trazê-la aqui, falsificando a letra e a assinatura de Dorchester. Apesar de difícil, eu sabia que Kikyou daria um jeito de tirá-la de casa sem ser vista. Ela está completamente fascinada pelo fidalgo e faria qualquer coisa para agradá-lo.

— E como você conseguiu atrair Dorchester até aqui?

— Com uma carta falsa de Kikyou. — Rin fez um gesto de desprezo com a mão. — Eles costumavam se encontrar aqui mesmo. Uma tarde, eu os segui e os vi fornicando nas margens do lago como dois animais selvagens.

Kagome preferiu não comentar nada. Mas era importante manter Rin falando.

— É por isso que você quer matá-los? Por desaprovar o relacionamento deles?

Rin jogou a cabeça para trás e riu. O som assustou-a até os ossos.

— Minha irmã e o fidalgo nasceram um para o outro. Formam um casal demoníaco. Não merecem viver. — Ela apontou a arma para Naraku. — Ele tentou provocar uma briga com lorde Taisho no baile do duque. E minha irmã foi imperdoavelmente cruel quando o lorde tentou explicar como, de repente, se viu casado com você.

— Asseguro-lhe que esses incidentes não aborreceram meu marido.

O rosto de Rin se fechou.

— Você não entendeu. Eu teria me contentado em ser sua cunhada, viver nas sombras, receber apenas o afeto de irmão. Para mim, seria suficiente. Ele faria parte de minha família, uma parte do meu futuro, mas a idiota da minha irmã nem isso conseguiu.

Como que fascinada, Kagome via as lágrimas brilharem nos olhos de Rin.

— Não quero machucá-la — ela continuou. — Mas não tenho escolha. Devo fazer o que for necessário para ficar perto dele. Se você morrer, milady, ele me procurará em sua dor. — Rin soltou um longo suspiro, e um olhar distante, sonhador, surgiu nos olhos dela. — E então, terminado o período de luto, eu me tornarei lady Taisho.

O marquês enviou uma mensagem a Bow Street e, cerca de meia hora depois, o investigador George Harris entrava no escritório de lorde Dardington.

— Tem alguma novidade sobre o fidalgo? — Dardington perguntou, dispensando os cumprimentos.

O investigador entregou umas folhas de papel ao marquês.

— Como sempre, registrei tudo que considerava importante.

— Nós queremos saber onde o fidalgo está neste exato momento — Sesshomaru interveio, descartando o relatório.

George Harris pigarreou.

— Suspeito que ainda esteja no Hyde Park, a não ser que tenha voltado ao hotel enquanto eu vinha para cá.

Com a paciência totalmente esgotada, Sesshomaru agarrou-o pelo paletó.

— E por que não repassou essa informação imediatamente? O homem tentou desvencilhar-se.

— O fidalgo costuma encontrar-se com a amante no parque. Não achei necessário fazer uma menção especial a esses encontros íntimos.

— Sua amante? Você está se referindo a srta. Manning? — Sesshomaru indagou, soltando o paletó do homem.

— Sim. A srta. Kikyou Manning.

— Ela esteve lá hoje?

— Não que eu tenha visto. Mas posso levá-los ao lugar.

— Vamos. — disse Sesshomaru, já saindo do escritório.

— Esperem! — O marquês gritou. — Precisamos de armas.

Lorde Dardington abriu o gabinete de madeira e retirou vários revólveres. Entregou-os aos gêmeos, e colocou dois na cintura. Depois cada um dos homens escondeu uma faca na bota.

E parecendo mais um bando de piratas do que três nobres ingleses, eles correram para a porta.

George Harris levou os três homens até o caminho de gravetos na extremidade do parque.

— Dorchester costuma descer da carruagem aqui e faz o resto do percurso a pé — ele explicou. — A srta. Manning também.

— Está escurecendo e o bosque é denso — observou o marquês. — Tem certeza de que é aqui mesmo?

— Tenho.

— Então, leve-nos até o local dos encontros amorosos, Harris — Sesshomaru pediu.

Em silêncio, seguiram o investigador que caminhava rápido entre as árvores. Na clareira, Harris confirmou:

— Realmente, este é o lugar onde eles praticam suas atividades sexuais ao ar livre.

Impaciente, Sesshomaru parou ao lado dele. Inuyasha segurou o irmão pelo braço, e apontou em direção à margem.

— É Kagome?

Sesshomaru aguçou os olhos na escuridão e visualizou uma silhueta feminina parada na linha da água.

— Acho que não. Kagome é mais alta. Kikyou, talvez.

— Dá para ver alguém por perto? — indagou o marquês, tirando um revólver da cintura.

— Não.

— Ela não deve estar sozinha. Vamos nos dividir — sugeriu o marquês. — Eu vou por este lado e Harris por aquele. Você e Inuyasha se aproximam da mulher misteriosa.

— Nada de revólver — Sesshomaru ordenou ao ver o irmão pegando a arma. — Não queremos assustá-la. Além disso, na escuridão, uma bala perdida poderá atingir a pessoa errada.

Inuyasha concordou. Lado a lado, os irmãos atravessaram a clareira. Uma nesga de luar iluminava o caminho.

De costas, a mulher não percebeu a aproximação deles. Ao chegar bem perto, Sesshomaru reconheceu-a. Parou estarrecido.

— Céus, é Rin Manning — ele murmurou ao irmão. — O que ela está fazendo aqui?

— Será que também está envolvida com o fidalgo?

— Eu acho difícil, mas, não impossível.

O som de vozes alertou Rin. Ela se voltou com expressão de choque e incredulidade. Mas recompôs-se rapidamente.

— Oh, cavalheiros, vocês me assustaram! — disse ela, com os olhos fixos em Sesshomaru.

— Você está sozinha?

— Sim, milorde. — Ela enxugou uma lágrima imaginária. — Que bom que me encontrou milorde. Estou apavorada. Eu estava cavalgando e meu cavalo assustou-se com um coelho. Ele empinou e eu caí. Felizmente, não me machuquei, mas ele fugiu. Imaginei que viriam à minha procura assim que encontrassem o cavalo. Tem muita gente procurando por mim?

Os dois irmãos entreolharam-se em silêncio. Rin parecia sincera, mas havia alguns detalhes que não se encaixavam em sua explicação.

— Você estava cavalgando sozinha neste local isolado quando o cavalo se assustou? — Sesshomaru indagou. — E o seu cavalariço?

— Eu o mandei para casa. Sei que não é conveniente, mas considero este pedaço de parque tão calmo, tão sereno. Costumo cavalgar sozinha para ter a impressão de estar no campo.

— Você diz que vem sempre aqui e, no entanto, não está vestida com traje de montaria — Inuyasha comentou com rispidez.

Rin encolheu levemente os ombros, mas não respondeu nada.

Naquele momento, Harris e o marquês aproximaram-se, vindos de lados opostos.

— Acho que gostará de saber o que encontrei milorde. — O investigador apontou o dedo para uma árvore. — A srta. Kikyou está ali, no chão. Está desacordada, mas respirando.

— E eu encontrei o fidalgo — o marquês anunciou. — Está gelado, e todo amarrado como um peru de Natal.

— Kagome? — Sesshomaru murmurou.

Harris e o marquês balançaram a cabeça num gesto negativo. Sesshomaru deu um passo na direção de Rin.

— Parece que você tem muitas explicações a nos dar, srta. Manning. — Cerrando os punhos, perguntou num tom ameaçador. — Onde está Kagome? O que você fez com ela?

— Não tenho idéia do que está falando, milorde. Não vejo lady Taisho desde o baile de lorde Jordan, há três dias.

— Você está mentindo. — Ele a segurou pelos ombros e apertou-os. — Onde ela está?

— Eu já disse. Não sei. Por favor...

— Ali — Inuyasha gritou. — No meio do lago! Tem alguma coisa se movendo!

Soltando abruptamente Rin, Sesshomaru olhou para o lago. Inuyasha estava certo. Alguma coisa de forma considerável estava boiando no meio do lago. Um corpo?

— Kagome!

— Pode ser um tronco de árvore — arriscou o marquês, mas Sesshomaru não o ouviu.

Tirando o paletó e as botas, ele mergulhou e nadou até o local.

A escuridão envolveu-o. Com braçadas precisas, ele nadou, mas não encontrou nada além de folhas e galhos. Começou a nadar em círculos, atento a tudo.

— Espere Sesshomaru — gritou o irmão. — Você está provocando ondas e marolas. Fique imóvel por alguns minutos.

Sesshomaru obedeceu.

— Achei. A uns quarenta metros à sua esquerda. Novamente, lorde Taisho seguiu as instruções do irmão.

Nadou até o local e mergulhou. Braços esticados, procurando às cegas, até tocar em alguma coisa sólida. Um corpo. Kagome.

Reunindo todas as suas forças, levou-a para a superfície e nadou até a margem, levando sua carga preciosa. Já próximos da margem, Inuyasha entrou na água, de botas e tudo, e ajudou o irmão a carregar Kagome até a relva.

— Ela não está respirando e seu pulso está fraco — Inuyasha declarou com voz preocupada. — Acho que ela engoliu muita água.

Sesshomaru saiu do lago e correu para o lado da esposa. Virando-a cuidadosamente de bruços, pressionou-lhe os pulmões. Nada aconteceu.

Desesperado, repetiu o processo várias vezes.

— Respire. Por favor, respire.

Finalmente, Kagome gemeu e expeliu grande quantidade de água. Foi o som mais gratificante que Sesshomaru jamais ouvira.

Ele a sentou e abraçou-a. Kagome começou a tossir e a tremer. Inuyasha tirou o paletó e entregou-o ao irmão. Sesshomaru rapidamente colocou-o nos ombros dela.

— Você está ferida?

Tremendo e batendo os dentes, Kagome encostou a cabeça no peito do marido.

— Rezei tanto para você me encontrar — ela sussurrou. Sesshomaru afastou o cabelo molhado do rosto dela e beijou-a na fronte.

— Eu temia não chegar a tempo. Graças a Deus, um criado viu a carruagem de Kikyou. Do contrário, não teríamos nenhuma pista.

Kagome aninhou-se mais nos braços dele.

— Foi um pesadelo horrível. Rin está completamente desequilibrada. Sempre acreditamos que o fidalgo fosse à ameaça, mas era ela quem me observava, me vigiava, esperando pela oportunidade de livrar-se de mim.

— A culpa é minha...

Um grito de mulher interrompeu a frase de Sesshomaru. Eles se voltaram e viram as irmãs Manning engalfinhando-se. Ambas caíram e ouviu-se um barulho forte quando os corpos bateram no chão, um em cima do outro.

— Meu Deus! — o marquês exclamou.

— Kikyou recobrou a consciência — Inuyasha explicou, ajoelhando-se ao lado das duas. — Harris trouxe-a para cá, e ao ver a irmã, ficou furiosa e atacou.

Kikyou fez menção de levantar-se, mas tornou a cair.

— Ela está sangrando muito. — Inuyasha tirou-a de cima de Rin e deitou-a cuidadosamente na grama. Tirou o lenço do bolso e pressionou-o contra o ferimento. — Ela precisa de cuidados imediatos.

— Lorde Dardington foi buscar socorro. — Harris debruçou-se sobre o corpo de Rin. — Esta não precisa mais de cuidados. Quebrou o pescoço.

— Oh! — Kagome levou a mão aos lábios, e virou o rosto. — Que Deus tenha piedade de sua alma.

— O delegado terá muito trabalho tentando desvendar este mistério. — Harris respirou fundo. — E fará muitas perguntas ao senhor e a lady Taisho.

— Diga-lhe que amanhã falaremos com ele. — Sesshomaru ajudou Kagome a ficar em pé. — Vou levar minha esposa para casa.

Kagome fechou os olhos, deliciando-se com o banho quente. Principalmente por estar dividindo a banheira com seu marido.

Sesshomaru pegou um pano e passou-o languidamente pelos ombros e seios de Kagome.

— Vamos ficar até a água esfriar.

Sentada entre as pernas dele, ela sentia perfeitamente a força de sua ereção pressionando-lhe as costas. A sensação era incrivelmente erótica.

— Quer dizer que Rin Manning esperava que eu a procurasse se eu ficasse viúvo?

— Isso mesmo. Minha morte seria a única maneira para ela conseguir seu objetivo.

— Desconfiava de Kikyou, por conta do meu rompimento de compromisso, mas nunca suspeitei de Rin.

— Ninguém suspeitava. O que aconteceu ao fidalgo?

— Ao vê-lo, Kikyou ficou histérica. Começou a gritar e a acusá-lo de tudo que se possa imaginar. Mesmo gravemente ferido, Dorchester fingiu ignorá-la, mas quem assistiu à cena, afirma que ele ficou muito abalado.

— Aposto como ele deixará Londres o mais depressa possível. Mas acredito que as notícias sobre sua desgraça não demorarão a chegar a Wiltshire. E quando isso acontecer, não será mais considerado um homem influente. Duvido que ele tenha o apoio de alguém de nossa comunidade.

— Ele terá o que merece. — Sesshomaru beijou-a no pescoço e com voz enrouquecida, murmurou: — Vamos mudar de assunto?

O coração de Kagome disparou.

— Sobre o que você quer falar milorde.

— Eu lhe trouxe um anel.

— Um anel? Mas eu já tenho o anel de casamento.

— Eu sei. É que... Bem, é apenas... — Ele balançou a cabeça e resmungou: — Céus estou todo atrapalhado!

Kagome soltou um longo suspiro.

— Apenas diga a verdade.

Sesshomaru fez com que ela se ajeitasse na banheira, de frente para ele. Tomou o rosto dela nas mãos trêmulas e, finalmente, abriu seu coração.

— Eu a amo, Kagome. Meu coração é seu. Minha alma é sua. Minha vida é sua. E espero sinceramente que, pelo resto de nossas vidas, você nunca deixe de me olhar com esse brilho especial em seus olhos.

O queixo de Kagome tremeu. Uma lágrima escorreu pelo canto do olho.

— Oh, meu amor. Eu te amarei para sempre.

Ela o abraçou e inebriou-se com aquela doce intimidade. Sesshomaru era o homem que ela amava o homem que ela desejava o homem de sua vida. Ergueu a cabeça e os lábios deles se encontraram num beijo gentil, apaixonado, que revelava uma vida inteira de possibilidades.

Lorde Taisho, um homem tido e sabido pela arrogância, pelos rígidos padrões de moral e costumes abraçou a esposa e, depois de um beijo faminto e apaixonado, não teve medo e nem o constrangimento de confessar novamente:

— Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, Kagome. Eu te amo e te amarei sempre, minha querida.


Por essa ninguem esperava, espero que tenham gostado. Amanha vai ser o epilogo.

Obrigada zanita uchiha e kagomeinug no sesshy.