Muitas pessoas defendem que amnésia alcoólica não existe, que tudo não passa de uma desculpa inventada por bêbados que querem fugir da responsabilidade do que fizeram. A verdade é que a quantidade de álcool necessária para que o cérebro não seja capaz de gravar novas informações é absurda, muito maior do que a necessária para se perder a consciência. Só que a amnésia alcoólica não é sempre química, na maioria das vezes é psicológica, e nem por isso menos verdadeira. No caso de Tony, era definitivamente psicológica. Ao menos seu cérebro era misericordioso o bastante para o proteger de algumas das atrocidades que seu comportamento autodestrutivo o levava a fazer. Só que uma pessoa só pode se curar de algo que sabe que fez. Lidar com erros dos quais não se tem lembranças é extremamente difícil para dizer o mínimo, e impossível para muitas pessoas. Por isso, Tony decidiu que iria descobrir tudo o que fez. Era a única coisa que conseguia pensar que poderia ajudar.
Três horas tinham se passado desde que Bruce partiu. Parecia impossível de acreditar que fazia tão pouco tempo. Tinha tomado um banho antes de começar, não conseguia suportar o cheiro que o tinha impregnado. Afinal, não era como se precisasse agir rapidamente. Bruce já tinha partido e não iria voltar, independente do que fizesse.
Sentou-se no sofá e preparou-se para começar. Era a última coisa que queria fazer, mas ao mesmo tempo sentia o quão necessário o conhecimento de suas próprias ações era. Pediu para JARVIS que exibisse todas as filmagens de segurança dos dias em que bebeu demais. E que, independente do que acontecesse, não deveria parar a exibição. Tinha medo de perder a coragem, então iria precisar que JARVIS o impedisse de desistir.
Quando viu as filmagens da primeira vez em que beijou Bruce, no laboratório, ficou surpreso com o fato de que Bruce lhe deu uma chance depois daquilo. E quando descobriu o que tentou fazer com ele com início do seu relacionamento... Não queria acreditar no que tinha tentado fazer. Parecia impossível, não queria acreditar que era capaz de algo assim. Mas depois do que fez com o hellicarrier, poderia realmente dizer com certeza que havia algo que não faria?
Viu Bruce chorando, trancado no banheiro. Isso aconteceu há mais de um ano. Como Bruce suportou tanto tempo? Por que ele aceitou ficar com alguém que o feria tanto assim? Ele deveria ter partido muito antes.
Ficou horrorizado com a violência da qual era capaz quando estava alcoolizado. Como pode fazer isso? Só de pensar nas memórias que tinha despertado em Bruce por causa de seu comportamento. Sabia sobre o pai dele, sabia que fora ainda pior do que o seu. Gostaria de poder ler o que tinha passado na cabeça de Bruce naquele momento, mas temia isso mais do que qualquer outra coisa. Queria... Não. Precisava entender o que tinha feito. Precisava entender o que tinha causado.
Vários outros momentos passaram diante de seus olhos. JARVIS estava fazendo uma apresentação sintetizada, exibindo apenas os momentos-chave de cada situação. Não era o que tinha pedido, mas talvez ele soubesse que isso precisava terminar o mais rápido possível. Quanto mais tempo Tony passava assistindo suas próprias ações, pior se sentia.
E as filmagens do hellicarrier eram as piores. Não sabia como JARVIS tinha conseguido isso sozinho, mas isso era o que menos importava no momento. Viu pessoas gritando e correndo de um lado para outro. Eram agentes treinados, mas nem todos estavam prontos para lidar com um dos seus se voltando contra eles. Era diferente do que tinha acontecido com Clint, ninguém estava o forçando a fazer isso, o que o tornava ainda mais assustador. Viu agentes morrendo diante de seus olhos, sem que os outros pudessem fazer qualquer coisa para os ajudar. Assistiu a si mesmo atacando o Capitão, jogando com violência para fora. Ficou surpreso com a potência do ataque, precisou lembrar a si mesmo que ele sobreviveu. Repetiu algumas vezes em voz alta: "Cap está vivo, Cap está vivo". Parecia impossível, o corpo atravessou uma das paredes de metal e voou além do ângulo das câmeras antes de, ele supunha, cair no meio do oceano. Finalmente, viu algo que achou que não seria capaz de suportar.
Viu uma mulher loira passar correndo por uma das câmeras. De alguma forma, sabia quem ela era. Talvez pelo foco que JARVIS estava dando para ela, talvez pelo olhar que o agente Mitchell lançou para ela do outro lado da sala, mas simplesmente sabia. Aquela era Emma Mitchell. Aquela era a mulher que ele matou.
Já tinha visto outros agentes morrerem, e sabia que o que aconteceu com eles também era sua culpa. Mas de alguma forma isso era diferente. Talvez porque ele sabia que alguém estava sofrendo por ela. Não a conhecia, assim como não conhecia a maior parte dos outros, mas o agente Mitchell fez com que a morte dela se tornasse mais relevante. Mostrando para ele sua dor, ele fez com que Emma se tornasse importante.
Queria gritar com ela, pedir para que tomasse cuidado, implorar para que saísse dali. Quando uma viga caiu sobre ela, soube que foi assim que ela morreu. O pedaço da sala em que ela estava se desprendeu do resto da aeronave, caindo no oceano. JARVIS mudou o ângulo, pegando as imagens de uma câmera que estava mais próxima dela. Quando a água começou a encher a peça, ela ainda estava consciente. Podia ver o pânico em seus olhos conforme o nível da água subia. No início, tentou se libertar, mas rapidamente percebeu que seus esforços eram inúteis. Ela parecia saber tão bem quanto ele que não iria sobreviver. Ambos estavam chorando, Tony sentia-se conectado com ela. Quando o nível da água subiu o bastante para tapar a viga, retomou seus esforços para mover a viga. Sua ideia fazia sentido, a água poderia ajudar com o peso. Contudo, uma viga de sustentação como aquela devia pesar mais de duas toneladas. Na posição em que estava e com todo aquele peso, nem mesmo a água seria de alguma ajuda. Seguiu tentando mesmo quando já não conseguia manter a cabeça acima da superfície. E quando seus dedos finalmente largaram a viga, seu último fôlego escapou dos pulmões. Era o fim. Estava morta.
Saber da morte de alguém era uma coisa. Assistir a uma morte lenta era outra bem diferente. Essa tinha sido uma péssima ideia, não se sentia de forma alguma melhor. Mas o vídeo não parou.
JARVIS estava mostrando a filmagem da tarde anterior. Bruce o encontrando atirado no chão, o sofrimento estampado em seu rosto. Então acelerou o vídeo, mostrando em menos de um minuto as horas que Bruce passou ao seu lado, esperando que acordasse. Reviu a conversava na mesma velocidade, mas JAVIS retornou à velocidade normal logo antes que Bruce entrasse no elevador. Apenas tempo suficiente para que Tony pudesse ouvir o sussurro quase inaudível. "Eu te amo."
Era demais. Tudo o que tinha feito era simplesmente mais do que podia suportar. Talvez reviver tudo de uma vez não fosse a melhor escolha. Talvez estivesse indo rápido demais. Pediu as horas para JARVIS, quatro horas e vinte três minutos desde a hora em que Bruce partiu. De novo, parecia impossível que tão pouco tempo tivesse se passado.
Precisava de ajuda. Não iria conseguir suportar isso sozinho e JARVIS não era o bastante para o ajudar. Precisava ligar para alguém, precisa ter alguém ali com ele. Qualquer pessoa, qualquer pessoa serviria, qualquer um que fosse capaz de o impedir de fazer uma bobagem. Não acreditava que seria capaz de sobreviver até o dia seguinte se não conseguisse ajuda.
Só que... Não queria ajuda. Odiava a si mesmo por tudo o que tinha feito. Não acreditava que merecia ajuda, era um assassino. As mortes que causou invalidavam todas as vidas que salvou. O sentimento era pior do que quando descobriu como suas armas estavam sendo usadas, porque dessa vez era diferente. Dessa vez a culpa era só sua, e poderia facilmente ter parado toda essa destruição.
Não queria ajuda. Queria esquecimento. Um esquecimento muito mais forte do que o álcool poderia lhe dar, muito mais permanente. Queria algo que garantisse que nunca mais iria ferir outra pessoa em toda sua vida. E só conseguia pensar em uma única coisa. Bruce o odiaria ainda mais quando soubesse da notícia, mas era algo que precisava fazer. Era a única saída que conseguia encontrar.
Já estamos na reta final, só mais dois capítulos. Acho que não vou conseguir postar amanhã (talvez só de noite), mas vou tentar terminar tudo sexta ou sábado.
