Edward's POV

Eu estava no meio da sala na Casa de Tanya, que parecia estar mais cheia do que o normal. Não me lembrava como havia ido parado ali, mas não me importava com isso. O ambiente estava estranhamente escuro e frio, sem música, onde só podiam ser ouvidos os sons de gemidos altos e desagradáveis vindos do andar de cima e de conversas baixas - quase sussurros - ao meu redor, como se estivessem contando segredos uns aos outros.

Comecei a perceber que enquanto falavam, todos olhavam de esguelha para mim. Me perguntei o motivo de ser o assunto que corria por ali, então comecei a me sentir mal.

O bar estava vazio, sem meninas e sem bebida. Senti falta de uma dose de whisky, e minha boca ficou seca abruptamente. Sem opções, me convenci de que o melhor seria subir e encontrar Isabella.

Tão rápido quanto esse pensamento, Tanya surgiu ao meu lado, segurando com força meu antebraço.

- Ela não está disponível.

- Como assim não está disponível? - Olhei em volta e pude notar que agora a conversa havia cessado e todos do lugar, clientes e garotas, nos encaravam.

- Você chegou tarde. Ela já tem um cliente.

- Não cheguei tarde merda nenhuma! Eu paguei pela semana dela!

- Ele ofereceu mais dinheiro, portanto ela é dele por agora.

Olhei incrédulo para ela, enquanto tramava um jeito de me esquivar de seu aperto - mesmo que isso resultasse em quebrar o pulso dela - e subir as escadas. Como se pudessem ler meus pensamentos, alguns homens se moveram de forma a ficar entre mim e a escada, formando um escudo humano.

- Que merda é essa? - Falei, já exaltado - Eu paguei primeiro!

- Ela é um objeto desejado, querido. Entenda...

- Ela é MINHA!

- Ela não está a venda! Se quiser, alugue-a, mas não a considere sua! Ela não é, e nunca vai ser!

- Sua filha da...

- Por que você demorou? - Uma voz interrompeu meu xingamento. A voz que eu conhecia. Que eu procurava, e que nunca na vida desejei com tanta vontade ouvir.

Ergui os olhos e a vi. Ela estava com roupas que eu jamais a havia visto usar. Roupas vulgares, maquiagem pesada e um rosto triste. Embora as cores fortes em seu rosto fossem gritantes, não conseguiam tirar a atenção dos vários machucados que ela tinha na boca, em volta dos olhos e, descendo, por todas as partes do corpo, expostas pela saia indecentemente curta e pelo top quase transparente.

Uma puta.

Um objeto, com as marcas de todos os aluguéis ao longo do tempo.

- Eu esperei por você, mas você não veio. Pensei que você fosse me proteger.

O cenário havia mudado, e agora existíamos só nós dois, ainda em nossas posições, enquanto todos os outros coadjuvantes haviam desaparecido. Fui tomado por uma esperança ao ver que podia caminhar até ela, mas minha alegria durou o tempo necessário para que eu me desse conta de que não conseguia me mover. Tentei falar alguma coisa, mas minha voz também não era audível.

Eu estava impotente, e só podia rezar para que ela pudesse ler meus pensamentos. Mas ela não podia.

- Você disse que estaria por perto.

Eu disse... Eu vou estar!

- Você mentiu pra mim.

Não menti, eu quero estar!

- É sua culpa. Eu estou assim por sua culpa.

Eu vou cuidar de você... Eu vou...

- Não volte mais aqui. Não quero mais ver você, não quero mais falar com você. Finja que não me conhece, que eu nunca existi.

Me desesperei, ainda preso no mesmo lugar, tentando por tudo quanto era mais sagrado gritar alguma coisa, qualquer coisa, mas minha voz não me obedecia. Ela não podia me jogar para fora da vida dela daquela maneira! Eu não podia ir!

Bella! Por favor...

Ela se virou e caminhou lentamente para o corredor que dava para os quartos, e eu não pude fazer nada senão olhá-la ir embora.

Por favor!

Por favor...

- Edward?

Uma voz aveludada conhecida chamou meu nome, tirando-me lentamente daquele sonho. Abri os olhos e vi o rosto de Victoria em frente ao meu, me encarando com curiosidade. Aos poucos, me dei conta da dor que sentia no pescoço, proveninete da péssima posição em que me encontrava, com a cabeça apoiada nos braços em cima da mesa de meu escritório.

- Você cochilou.

Levantei a cabeça lentamente, ciente que meus músculos gritavam em protesto.

- Desculpe. Tive uma noite péssima.

Lembrei-me da noite em questão. Depois de chegar em casa, tomei um banho e me deitei na cama, fazendo toda força que podia para não pensar no que tinha ouvido de Isabella. Portanto, obviamente foi a única coisa na qual eu pensei durante a noite toda, o que me impediu de ter um sono normal. Eventualmente o início de um sonho começava a nebular minha mente, mas imediatamente era espantado pela lembrança da conversa que tivemos algumas horas antes, ou pela minha imaginação fértil que teimava em pintar, com os mínimos detalhes, o que me fora contado.

Como resultado, passei a noite inteira acordado.

- Você estava resmungando coisas - Victoria começou, tentando soar sensível.

Fitei-a um pouco preocupado. Eu não sabia que murmurava enquanto dormia.

- O que eu disse?

- Um nome.

Ótimo. Eu não precisava perguntar, sabia exatamente qual era.

- Quem é Bella? - Ela perguntou, ainda me encarando.

- Ninguém.

- Mentira. Você parecia preocupado demais pra ela não ser ninguém. - Ela disse com convicção, o que me fez lembrar o motivo pelo qual ela sempre ganhava todas as discussões que aconteciam entre nós.

- Ok. Ela é uma amiga. Está com problemas.

Victoria me olhou com várias perguntas não ditas, mas que eu consegui captar. Era óbvio que coisas como "Quem diabos é essa mulher" e "Onde diabos você a conheceu" estavam passando pela cabeça dela, mas me permiti aproveitar sua santa discrição e ficar em silêncio, já que nada fora me perguntado.

- Certo. - Ela enfim falou, depois de me analisar um pouco - Vou conhecê-la algum dia?

Essa era uma pergunta intrigante, porque eu não sabia a resposta. Se Victoria conhecesse Isabella e descobrisse o tipo de relação que eu mantinha com ela, tudo indicava que eu acabaria esfolado vivo. Se elas se conhecessem e esse pequeno detalhe se mantivesse em segredo, eu tinha uma vaga impressão de que elas provavelmente se tornariam grandes amigas.

A parte boa era que imaginá-las se dando bem me fazia sentir uma estranha e genuína alegria. A parte ruim era que eu nunca conseguia esconder algo de Victoria por muito tempo.

- Não sei. - Respondi me levantando, enquanto massageava o pescoço na tentativa de diminuir a dor. - Eu não estou legal...

- Eu notei isso. Vá pra casa, sua aparência está horrível.

- Não tenho reuniões hoje? - Perguntei, um pouco espantado.

- Tem, mas eu vou cancelar. Você não está em condições...

- Não, eu vou.

Victoria me encarou como se eu tivesse acabado de confessar que gostava de idéias nazistas.

- Eu preciso ocupar minha cabeça com alguma coisa. - Tentei explicar antes que ela pensasse em me internar - Vai ser bom pra mim. Só preciso de um analgésico pro meu pescoço.

Ela continuou a me encarar com desconfiança, e eu sabia o motivo. Eu nunca havia preferido ir a reuniões e discutir assuntos da empresa a ir para casa e não fazer nada. Na verdade, sempre foi um castigo exercer meu papel ali, por isso ela estava certa de que, qualquer que fosse o que me afligia, era bastante sério.

- Você tem certeza? - Ela perguntou, um pouco preocupada.

- Tenho. Só preciso que você vá comigo. Quanto tempo temos antes da primeira reunião?

- Será daqui a pouco menos de duas horas.

- Ótimo. Então podemos usar esse tempo para você me explicar do que se trata essa reunião. E, por favor, me explique coisas que eu nunca quis saber.

A essa altura, eu já havia me acostumado com a expressão de surpresa de Victoria. Saindo rapidamente de seu pequeno estado de choque, ela se retirou e voltou segundos depois com um copo de água e um analgésico. Agradeci, tomando o remédio oferecido, e fui sentar ao seu lado na poltrona que ficava no lado oposto à minha mesa.

Eu não queria pensar em nada que me trouxesse dúvidas. Não queria pensar no sonho que tivera, ou de seu significado. Não queria pensar na intensidade do desespero que senti quando achei que eu tivesse que sair da vida dela, ou da tristeza que me dominou ao ouvi-la dizer que não me queria mais por perto. Não queria pensar nela, e em nada que fizesse me lembrar dela.

Não era pensar em Isabella que me fazia mal, mas sim não entender o motivo da confusão de sensações em que eu me encontrava todas as vezes que ela aparecia na minha cabeça. De fato, pensar nela era bom. Era bom até demais para que fosse considerado saudável. No entanto, ela tinha um estranho poder de fazer com que eu tivesse dúvidas de tudo o que eu sentia depois que a conheci.

Como essa era uma questão que vinha me incomodando mais a cada dia, e como, ao tentar chegar à uma conclusão, eu falhava miseravelmente, decidi tentar não pensar nela, ou pensar o mínimo possível. Infelizmente meu objetivo não era alcançado quando não havia outra coisa com que ocupar minha cabeça, então eu precisaria de Victoria nisso.

Eu precisava de problemas que não exigissem absolutamente nada do meu lado emocional.

...

O dia ocorreu como esperado. Compareci a quatro reuniões importantes com Victoria, e pela primeira vez pude tomar decisões nas quais eu não precisasse que ela interviesse só porque eu podia ter falado uma besteira ou duas.

Antes de cada uma das reuniões, ela me explicou o motivo das discussões, qual eram os objetivos dos clientes e os nossos. Foi até interessante notar que, de certa forma, o trabalho que eu teoricamente fazia por alguns anos não era monótono e desagradável como eu pensava ser, e tive que dar razão às especulações de Victoria quando ela dizia que eu só não gostava do que fazia porque nunca havia tentado fazer direito.

Senti-me um idiota perguntando-a sobre certas coisas que eu obviamente já deveria saber, mas pude contar com o profissionalismo e a amizade dela para esclarecer pontos importantes, até então, negligenciados.

Entretanto, nem meu empenho em não pensar em nada além dos assuntos relativos à empresa conseguiu fazer com que eu não lembrasse, duas ou três vezes, dela.

- Estou orgulhosa de você.

Encarei Victoria um pouco atordoado, voltando de meus devaneios. Estávamos em minha sala, ela sentava em uma das cadeiras à frente da minha mesa, e eu ocupava meu lugar na poltrona preta de couro.

- Ah... Obrigado.

- Suas decisões foram boas. E eu nem precisei me meter. - Ela me encarava, sorrindo.

- Bom... Acho que prestei mais atenção dessa vez.

Ela continuou me fitando por algum tempo, então falou.

- O que está acontecendo com você?

- Por que está perguntando isso?

- Porque você muda da água pro vinho de um dia pro outro. Eu chego aqui e te vejo deprimido e cansado do trabalho. No dia seguinte, seu olhar parece ter um brilho de alguém que acabou de descobrir que se apaixonou pela primeira vez. Então, mais um dia e você está a confusão em pessoa. Não sei o que você tem, e não sei quem está fazendo isso, mas você parece perdido.

Encarei-a sem dizer nada. Eu não tinha o que dizer. Não tinha como justificar meu comportamento estranho durante aqueles dias. E ela estava certa, eu estava perdido.

- No entando, - ela interrompeu meus pensamentos - tem vezes que eu olho pra você e me parece que, pela primeira vez depois da sua grande fossa, você está começando a se encontrar outra vez. Que ironia, não é?

- Minha vida é cheia de ironias, Victoria.

Ela sorriu.

- Tudo bem, Edward. Não vou forçar a barra. Se e quando você quiser, venha conversar comigo. Eu sou ótima ouvinte, você sabe disso. Talvez eu possa te ajudar, se você me deixar tentar fazer isso.

Victoria se levantou e caminhou elegantemente até a porta.

- Ah, - disse, se virando novamente para me encarar - amanhã você tem outra festa. Eu te disse isso hoje, mas é sempre bom lembrar. Seria bom se você fosse, mas se realmente não quiser ir...

- Eu vou. - Apressei-me em falar, antes que pudesse pensar no fato de que eu realmente não queria ir, e de que preferiria estar em um outro lugar amanhã a noite.

- Tudo bem. Vá pra casa dormir, seus olhos estão péssimos.

Deviam estar. Eu estava péssimo, e temia que o caos que se formava dentro de mim tomasse proporções maiores. Por isso, tão rápido quanto admiti que não era a minha vontade, eu tomei a decisão de deixar minhas necessidades de lado e realmente ir para casa.

A minha, não a de Tanya.

...

Acordei na manhã segunite reinado por um forte mau humor, parte porque eu sabia que meu dia não seria bom, e parte pela noite novamente mal dormida. Despertei algumas vezes de madrugada por culpa de sonhos ruins, e todos eles contavam com a ilustre presença dela. Sonhei com um James sem rosto, que batia tanto nela que a deixava desacordada. Outro sonho consistia em uma realidade paralela onde ela parecia não me conhecer, e um terceiro consistia em nós dois fazendo sexo selvagem, na minha cama.

Os três sonhos, de uma forma ou de outra, me apavoraram.

Para minha infelicidade, não tive que comparecer a muitas reuniões ao longo do dia. O que antes era um castigo, agora se mostrava uma forma eficiente de manter meus "fantasmas" um pouco afastados de mim. Ao invés disso, fiquei o dia praticamente todo sentado à minha mesa, lendo e relendo contratos.

Infelizmente, pude constatar que era muito fácil perder o fio de pensamento com simples leituras. Por isso, obriguei Victoria a ficar do meu lado o dia inteiro, lendo comigo os papéis. Dessa forma, quando sua perspicácia a avisava de que minha cabeça estava muito além das linhas dos contratos à nossa frente, ela me chamava novamente à realidade.

Entretanto, nada disso me distraía do fato de que estava cada vez mais difícil não pensar nela. Conforme o tempo que eu me recusava a lembrar de sua presença aumentava, maior era a dificuldade em não deixá-la invadir minha mente repentinamente.

Eu não poderia fugir dela por muito tempo, e isso estava ficando cada vez mais claro.

Às 18h fui para casa tomar um banho e me arrumar para a festa a qual iria comparecer. Não tinha como objetivo fechar contratos, mas aparentemente, minha presença era algo importante, segundo Victoria me dissera. Dessa forma, em pouco mais de meia hora eu já estava pronto, ainda me perguntando qual seria a melhor opção: Sair assim que minha cota de presença fosse suficiente, me livrando daquele castigo o quanto antes, ou permanecer na festa o maior tempo possível, evitando que eu fosse parar em um lugar que eu queria ir, mas que estava tentando não querer.

Rumei para meu Volvo trajando roupas menos formais do que as que estava acostumado a usar, e pouco tempo depois foi recepcionado por pessoas que eu tinha certeza que nunca havia visto na vida, mas que mesmo assim me chamavam pelo primeiro nome.

A casa era luxuosa, como todos os lugares em que festas daquele tipo aconteciam. Grande parte das paredes eram de vidro, dando um estilo clean ao ambiente. No fundo, um jazz sem graça tocava, me dando sono e me fazendo lembrar de como odiava o som de saxofones.
Mulheres em vestidos curtos, decotados e caros passeavam entre os convidados sem nenhum objetivo aparente, bebendo taças de champagne e rindo de piadas idiotas proferidas por velhos ricos e abusados.

Graças a Deus, não demorei a encontrar Victoria. Corri para seu lado, decidindo que faria o possível para me sentir à vontade e me divertir naquele lugar.

- Uau, você está um gato!

- Não me faça corar na frente dessas pessoas, Victoria. - Falei, recebendo um sorriso dela em resposta.

- Algumas pessoas daqui querem te conhecer. Que tal fazer novas amizades? - Ela falou, com um sorriso debochado.

- Não seja falsa.

- Vamos lá, eles não são tão ruins.

Pouco tempo depois, fomoso convidados a sentar em uma grande mesa redonda onde homens e mulheres discutiam sobre negócios, e imediatamente me perguntei se, caso eu puxasse algum assunto aleatório, como futebol ou música, conseguiríamos manter uma dicussão normal. Aparentemente, tudo o que aquelas pessoas pensavam era relacionado a dinheiro, e me senti um pouco mesquinho por tentar entrar no assunto.

Aceitei uma dose de whisky oferecida pelo garçom. Victoria me olhou feio, mas não me parou.

- Então, Edward... - Uma mulher de meia idade começou, já bêbada, olhando para mim e me tirando de meus devaneios - Onde está a senhora Cullen?

Victoria pareceu se mexer um pouco em sua cadeira ao meu lado, um pouco desconfortável com aquele assunto. Provavelmente tinha medo que a simples menção àquele assunto me traria toda a depressão pela qual eu consegui passar. Olhei para ela com uma expressão serena, tentando informá-la que eu não me importava em falar sobre aquilo.

- Não sou casado.

Ela pareceu espantada.

- E por que não? Não quer formar uma família?

- Quero! - Falei imediatamente, e me surpreendi com a verdade em minhas palavras. Eu nunca havia sido de pensar muito nisso, mas agora que a questão havia sido colocada à minha frente, pude constatar que a verdade em minha afirmação era incontestável. - Só não achei uma moça ainda.

Uma amiga da mulher que conversava comigo, também bêbada, se juntou à conversa.

- Querido, acredite, você pode ter a mulher que quiser.

- Não acho que possa. - Disse, sorrindo - Quem sabe um dia...

- Ah, pode sim. - A primeira mulher interrompeu - Olhe só pro seu "pacote".

- É mesmo. O pacote completo!

- Quero dizer, - ela continuou - você é o dono das Empresas Cullen, não é?

- Não... Meu pai é, eu só dirijo uma das filiais...

- Já é dinheiro o suficiente. Filho do dono, vai morrer rico.

- Sem contar que você é uma pedaço de mau caminho. - A outra interrompeu, piscando para mim.

- Sabem, - comecei, um pouco mais sentido do que deveria - eu sou legal também. Sou uma pessoa bacana.

Tentei buscar algum apoio de Victoria, mas a essa altura ela já estava absorta em uma conversa com o casal ao seu lado.

- Claro, claro. - Uma delas disse, não dando a menor importância para minhas palavras - Mas o fato é que qualquer mulher se atiraria aos seus pés. Você só precisa dar a ela um cartão de crédito.

- O quê? - Perguntei, incrédulo.

- Olha ali. Está vendo aquele homem de camisa verde, com aquela vadiazinha?

Olhei para a direção que seu dedo apontava, e vi um homem de meia idade conversando com uma garota que poderia ser sua filha, com um vestido extremamente justo e sorrindo de orelha a orelha para o homem, enquanto dava soquinhos do tipo "fazendo-charme" em seu ombro. O homem retribuía o sorriso, olhando-a com mais fome do que o adequado em um local público.

- Estou.

- Pois é. Ele é o meu marido.

Olhei espantado para a mulher.

- Você não vai fazer nada?

As duas mulheres se olharam e, um segundo depois, começaram a gargalhar.

- E por que eu faria?

Pensei em explicá-la que aquela garota estava dando em cima de seu marido, e pelo que tudo indicava, o homem não estava exatamente lutando contra a sedução. Mas então entendi que, embora bêbada, a mulher tinha total noção disso.

- Eu tenho tudo o que quero dele. - Ela disse, chegando um pouco mais perto de mim. - Compareço a eventos sociais ao seu lado para que pareçamos um casal. Ele paga meus vestidos, meus sapatos e meu cabeleireiro. Aproveito viagens maravilhosas em cruzeiros pelo menos quatro vezes por ano. Tudo o que tenho que fazer é fingir que não vejo aquilo.

- É uma troca justa. - A outra finalizou, dando um sorrisinho e estalando os dedos para o garçom que passava perto da nossa mesa, trazendo bebidas.

- Como mulher, estou lhe dizendo. Você pode ter as mulheres que quiser. Não é difícil achar alguém que banque ser sua esposa. Assim você ganha credibilidade e respeito, e mesmo assim pode viver sua vida, digamos, "alternativa", sem pagar nada por isso.

- Só que sua esposa não pode ser ciumenta, - Começou a outra - com um homem rico e bonito pra cuidar, temos que admitir que a concorrência aumenta bastante. Até porque uma aliança no dedo torna um homem muito mais interessante de se conquistar.

As duas piscaram para mim em sincronia, então fiquei encarando as mulheres com uma cara que, eu sabia, beirava ao ridículo. Não sabia se estava muito chocado para dizer alguma coisa ou irritado a ponto de quase mandá-las irem ao inferno, mas qual fosse o caso, eu não conseguia mais ficar ali.

- Com licença. - Falei, ficando de pé e dando as costas para a mesa, alcançando outra dose de whisky da bandeja de um dos garçons que passava por ali. Caminhei em direção ao bar, eu e minha indignação, então sentei em um dos bancos altos e bebi, de uma vez, minha dose de whisky.

Eu me recusava a aceitar que minha vida fosse se transformar nisso. Era difícil aceitar que nada fosse ser minimamente verdadeiro, e estar cercado por toda aquela falsidade e interesse só fazia com que eu me sentisse cada vez mais diminuído e menos valorizado.

Na verdade, tudo o que acabara de ser dito não chegava a ser uma total surpresa. Eu tinha conhecimento de casos assim, onde um casamento se sustentava só por sua aparência, mas ter a confirmação desse tipo de coisa, com tanta veemência e de uma forma como se parecesse algo tão banal, não estava nos meus planos.

Bebi minha terceira dose de whisky, seguida de mais quatro doses. Uma garota tentou puxar assunto comigo, perguntando se eu era "o" Edward Cullen, mas não lhe dei muita atenção. Tentei me manter escondido, não querendo que ninguém me reconhecesse e viesse falar sobre coisas estúpidas. Eu não estava no meu melhor humor, e tinha a impressão que acabaria mandando alguém ir à merda aquela noite.

Eu era um objeto. No final das contas, todos éramos objetos.

Eu era um objeto, assim como ela.

Pronto. Toda minha cautela durante aqueles dois dias tinha ido por água abaixo. Agora eu me permitia lembrar de Isabella claramente, nos pequenos detalhes, e não tentava segurar a vontade que tinha de pensar nela cada vez mais. Eu tinha minhas certezas de que o álcool me ajudava nessa tarefa, me deixando perigosamente vulnerável àquela lembrança.

Tracei uma linha de semelhança entre mim e ela, sentindo um pouco de sua amargura me tomar. Nós dois éramos objetos, nós dois éramos usados. Assim como os clientes dela, as mulheres que se aproximavam de mim tinham um interesse, algo que não levava em consideração o que eu era, ou como eu me esforçava para ser alguém melhor.

À minha volta, o jazz insuportavelmente lento e monótono continuava tocando, enquanto mulheres fúteis ainda riam das mesmas piadas sem graça, contadas pelos mesmos homens de meia idade infelizes e promíscuos. Os garçons pareciam ser as únicas pessoas com quem eu ainda mantinha um pouco de simpatia àquela altura, mas nem eles poderiam me fazer ficar agora.

- Edward!

Victoria me encontrara. Ela veria meu estado e me daria uma bronca, começando um discurso sobre minhas responsabilidades e o papel "Cullen" que eu deveria desempenhar. Mas que se foda.

- O que está fazendo aqui? Procurei você por todos os lugares!

- Vim beber.

- Eu não acredito que você...

- Victoria, - comecei, levantando uma mão para interrompê-la - por favor. Me deixe em paz. Por favor.

Algo no tom da minha voz pareceu alertá-la que talvez eu estivesse falando sério.

- O que aconteceu? - Ela perguntou, sentando-se no banco alto ao meu lado e tocando meu ombro esquerdo.

- Não agüento isso. Essas pessoas... É tudo tão artificial, tão superficial...

Ela continuava me encarando, obviamente não entendendo do que se tratava minha repentina depressão.

- Eu vou embora daqui, antes que enlouqueça. - Tirei as chaves do carro de dentro do bolso e entreguei a ela. - Pode cuidar dele pra mim? Não estou em condições.

- Tudo bem. Por favor, se cuide. Tente dormir, esquecer o que quer que esteja pensando.

- Victoria, eu não vou pra casa.

Tive que dizer a verdade para ela. Parte porque o álcool me forçou, mas também porque eu não via motivos para mentir naquele momento.

Victoria me encarou por mais algum tempo, mas sua discrição sempre fora maior que sua curiosidade. Ela não sabia para onde eu iria, ou com quem eu iria me encontrar, mas era o suficiente saber que não cabia a ela me fazer perguntas potencialmente indiscretas.

- Certo. Você sabe o que está fazendo? - Ela perguntou, preocupada.

- Não. - Admiti - Mas, no momento, esse é o melhor lugar em que eu posso estar.

Levantei-me, terminando o oitavo copo de whisky, e caminhei para a saída. Ouvi ao longe algumas pessoas mencionando meu nome, mas não estava com disposição para conferir do que se tratava. E, afinal, não devia ser importante mesmo.

Usei meu celular para informar à companhia de táxi o lugar onde o motorista deveria vir me buscar. Depois de cinco longos minutos, um amarelo vivo parava à minha frente. Entrei, batendo a porta com um pouco de força, e então recitei o endereço de destino.

...

Não esperei ser recepcionado por quem quer que fosse. Ao entrar no recinto, tracei um caminho certo desde o início, simplesmente ignorando a presença de desconhecidos à minha volta ou a menção do meu nome por diferentes vozes femininas.

Subi as escadas, tomando cuidado com os degraus que vez ou outra saíam de foco. Lembrei-me que Isabella não gostava de mim nesse estado, e imediatamente me arrependi de ter bebido todas aquelas doses de whisky. Senti o medo da rejeição me atingir como um soco, e me concentrei para me manter equilibrado enquanto alcançava o último degrau, caminhando um pouco cambaleante para o corredor.

Eu sempre tive boas maneiras. Felizmente, se tinha algo do qual eu podia me gabar era de minha educação e meu cavalheirismo. Assim, só pude colocar a culpa na bebida quando uma total falta de classe me atingiu, fazendo com que eu simplesmente girasse a maçaneta do quarto de Isabella e entrasse, sem a menor cerimônia.

Encontrei um quarto vazio, a cama feita. Fui possuído por um ódio irracional antes mesmo de verificar o motivo pelo qual ela não estava no quarto. Talvez ela tenha saído, meu lado otimista argumentou, mas quase que imediatamente foi atropelado pelo lado pessimista, dizendo Ou então ela pode estar no salão se oferecendo pra qualquer um.

Talvez uma das vozes que eu decidi ignorar fosse dela. Não. Eu reconheceria sua voz falando qualquer coisa, principalmente o meu nome.

Talvez ela pensasse que eu não viria hoje, já que ontem estive ausente. Era possível. Mas de qualquer forma, ela deveria estar ali, não é? Segura e escondida de todos aqueles homens cheios de más intenções.

Devo ter divagado por um bom tempo, de pé, olhando para a cama, e então um barulho de tranca de porta me despertou. Olhei para a direita pela primeira vez, como se antes a porta do banheiro não estivesse ali, e fiquei olhando-a ser aberta e revelar, lentamente, uma Isabella molhada da cabeça aos pés, tentando se enrolar em uma toalha fofa branca deixando à mostra partes de seu corpo entre as fendas que o pano fazia. As partes do corpo dela mais lindas.

Ela demorou para notar minha presença ali. Estava cantando uma música qualquer, olhando para o chão enquanto balançava as pontas da toalha em seus cabelos, tentando deixá-los menos molhados. Não sei se fiquei em silêncio porque estava hipnotizado ou porque tinha alguma esperança de que talvez ela não fosse reparar em mim bem ali, no meio do quarto, olhando para ela com cara de psicopata.

Era incrível como ela estava mais bonita do que eu lembrava. Talvez isso se devesse ao fato de que eu vinha tentando não lembrar dela, tentando afastar a imagem dela dos meus pensamentos. Talvez uma parcela dessa culpa também fosse das doses de whisky, mas o fato era que, naquele momento, Isabella era, sem dúvida alguma, uma das coisas mais lindas que eu já havia visto na vida.

- AAAHHH!

Ah, sim. Eu ainda estava ali, no meio do quarto dela.

- Oi. Desculpa.

- Porra, Edward! - Ela falou, puxando a toalha de todos os cantos e tentando cobrir as partes que eu olhava como um tarado.

- Desculpa, eu não sabia que você ia sair nua de lá de dentro. - Falei meio sem pensar - E não é como se eu já não tivesse visto, né? - Sorri maliciosamente.

- Não é porque você já viu que pode entrar no meu quarto e ficar me assistindo aqui!

- Tá bem, tá bem. - Eu disse, como se desse razão a ela e estivesse prestes a sair do quarto. Mas devido ao meu estado alcoolizado, continuei olhando para seu corpo, como se não tivesse dito absolutamente nada.

- OI? - Ela gritou.

- Mas que saco! - Virei, a contragosto, fitando uma parede branca e incrivelmente sem graça por longos cinco segundos. - Já posso olhar? - Perguntei, impaciente. Sem esperar uma resposta, virei novamente para encará-la.

Ela terminava de vestir um robe bege muito claro, cuja cor era incrivelmente parecia com a tonalidade de sua pele. Não sei como isso era possível, mas só de olhar para ela eu conseguia sentir - ou achar que sentia - o frescor do banho recém tomado e a maciez daquela pele clara, ainda um pouco úmida e extremamente convidativa.

Deus, eu estava com saudades dela.

Fiquei admirando-a como um cachorro admira um frango sendo assado na padaria, mas estava muito bêbado para me sentir envergonhado por isso. Ela continuava tentando secar melhor o cabelo com a mesma toalha, enquanto também me encarava com um olhar curioso e ainda um pouco irritado.

- Por que não veio ontem? - Ela quebrou o silêncio, indo se sentar na cama.

- Porque não quis. - Achei melhor resumir toda a situação do "quero-parar-de-pensar-em-você" com essa pequena frase. Não que eu me importasse em falar a verdade, dado o alto nível de álcool no meu corpo, mas simplesmente não queria falar muito.

- Ah. - Ela desviou o olhar, e imediatamente notei que minha resposta pareceu grosseira - Pensei que você viesse todos os dias, já que pagou por eles...

Eu também havia pensado nisso, mas graças ao pânico e confusão recentes em que eu me encontrava ao me pegar pensando nela ou a desejando, tive que mudar meus planos. Sim, no final das contas, eu era um covarde.

- Você deve ter notado que eu bebi. - Tentei mudar de assunto, indo me sentar do lado dela, um pouco mais próximo do que o ideal. - Mas não vou machucar você.

- Eu sei que não. Que besteira. - Ela falou, soltando um sorriso sarcástico.

Sem pensar muito, levei minha boca ao pescoço dela, beijando-a de leve embaixo da orelha. Senti a temperatura fresca de sua pele com os lábios, e imediatamente notei que ela estava arrepiada.

Apoiei-me com o braço esquerdo na cama, enquanto levava minha mão direita até sua nuca, trazendo-a mais para perto. Intensifiquei o beijo em seu pescoço, deixando lufadas de ar em sua pele e sentindo, com o rosto, a maciez do rosto dela.

- Por que não está usando o seu perfume?

- Não precisei do creme essa semana. - Ela falou, ofegante.

Era verdade, o tal creme servia para melhorar os hematomas que ela conseguia com os clientes. Como eu paguei pela semana inteira, ela obviamente não tinha adquirido novos machucados para a coleção. Fiquei satisfeito com esse fato, mas eu realmente, realmente gostava daquele perfume.

- Quer que eu passe pra você?

Para mim. Ela não passaria porque estava machucada, porque precisava. Ela passaria para mim. Porque ela sabia que aquela porra daquele perfume me deixava louco.

Inconscientemente, tirei a mão esquerda que apoiava meu corpo do colchão e a deslizei para dentro do seu robe, fazendo movimentos circulares em uma de suas coxas.

- Quero... - Falei, tentando conter um mínimo de firmeza em minha voz, ainda respirando em seu pescoço.

Protestei quando ela se afastou, levantando-se e caminhando até o banheiro. Fiquei encarando a porta feito uma criança abandonada, mas para minha felicidade, segundos depois ela estava de volta, trazendo um frasco de um líquido cremoso, e meu membro latejou dolorosamente com a aproximação de um desejo intenso.

Isabella me girou um pouco, de forma que meus pés tocassem o chão fora da cama, como se estivesse perfeitamente sentado em uma cadeira. Posicionando uma perna de cada lado do meu corpo, ela sentou no meu colo, me encarando com um olhar que conseguia ser doce e provocante ao mesmo tempo.

Então, certamente com o objetivo de me matar, ela desfez o nó em seu robe e o puxou para baixo, deixando-o deslizar pelas minhas pernas e cair no chão. Ainda me encarando, Isabella segurou uma das minhas mãos e espremeu uma gota do conteúdo do frasco em minha palma, enquanto eu tentava controlar minha respiração.

- Passe em mim.

Ela realmente achava que eu ia conseguir passar aquela merda nela? Ela não podia achar isso. Eu mal conseguia raciocinar, e parecia estar debilmente congelado, enquanto meu olhos varriam seu corpo de cima a baixo e eu tentava arquitetar um plano de como tirar todas as minhas peças de roupa em menos de um segundo e me enterrar dentro dela tão fundo que meu orgasmo viesse na primeira investida.

Finalmente ela pareceu entender que aquilo era um pouco demais para minha mente alcoolizada, então segurou firmemente minha mão e a trouxe até seu peito, espalhando ali o líquido perfumado. Como um adolescente na puberdade, quase explodi de tesão ao admirar como minhas mãos meladas deslizavam nos seios dela de uma forma hipnótica, e no momento o único medo que eu tinha era de estar, literalmente, babando.

Então meu cérebro captou aquele perfume, agora sendo espalhado por toda a extensão de seu corpo. Era incrível como aquele perfume me trazia uma lembrança tão deliciosa. A lembrança dela. Não poderia haver perfume melhor em qualquer lugar do mundo. Aquele perfume era um afrodisíaco pessoal, e eu temia que, misturado com todas aquelas doses de whisky, eu acabasse em algum tipo de limbo.

Meu Deus, que saudade dela.

- Bella...

- Sim? - Ela disse, ainda me encarando com aquele olhar deliciosamente inocente.

- Eu posso... Por favor... - Eu tentava manter um raciocínio lógico, mas era praticamente impossível. Impossível porque aquele perfume estava muito forte para me permitir pensar. Impossível porque ela estava muito perto. Impossível, porque eu a queria demais.

- Você me quer? - Ela falou em um tom provocativo ao pé do meu ouvido.

- Muito... - Tentei dizer, mas tudo o que consegui fazer foi suspirar a palavra, encostando a cabeça em seu ombro.

- Você pode fazer o que quiser. Eu sou sua essa semana, lembra? - Ela falou, desabotoando minha camisa. Tentei ignorar a dor aguda que senti com a adição do "essa semana" à frase. Ela era minha por essa semana, e se eu não pagasse pela próxima, ela não pertenceria mais a mim.

Com suavidade, ela me empurrou para trás, me fazendo cair de costas na cama, enquanto ela se mantinha em meu colo. Com mestria, se desfez de minha camisa e começou a desabotoar minha calça.

Novamente senti uma dor aguda ao pensar que sua mestria naquilo se dava pelo fato de Isabella ter tido tantas outras experiências que lhe deram praticamente perfeição no que ela devia fazer. Doía saber que eu era só mais um naquele momento, aperfeiçoando suas habilidades.

De fato, eu era só mais um. Eu havia tido essa certeza hoje, e para ser sincero, vinha tendo essa certeza há algum tempo. Lembrar disso só fez com que eu me sentisse ainda menor e mais insignificante.

- Espera. - Falei, enquanto segurava suas mãos que, agora, tentavam puxar minha calça para baixo.

Ela me olhou confusa.

- Só... Finja que sente alguma coisa. Qualquer coisa. - Falei, tentando conter a emoção que me dominou, me lembrando novamente o quão bêbado eu deveria estar - Finja que eu sou importante.

Fiz esse pedido a ela de uma forma verdadeira, talvez muito mais verdadeira do que eu gostaria de admitir. Não porque ela era a única garota que poderia fingir que se importava, mas sim porque ela era a única em cujo fingimento eu queria acreditar.

Ela me encarou com uma expressão indecifrável no rosto por algum tempo, então deu um sorriso um pouco infeliz.

- Se você soubesse... - Começou, acariciando meu rosto com os dedos finos, ainda me encarando. Segurei sua mão ali por mais algum tempo, querendo apenas sentir o calor que a pele dela emanava, mas finalmente a soltei, deixando-a fazer seu trabalho.

Fechei os olhos e me deixei sentir querido naquele momento. Eu sabia que se iludir assim com uma prostituta era patético, mas me deixar enganar pelos "sentimentos" de uma garota de programa era mais aceitável do que ser enganado por uma garota qualquer. No final das contas, eu estaria ciente de que fora iludido, o que era diferente de se iludir por ser muito inocente para notar a mentira.

Como imaginei, Isabella fez o que pedi com perfeição. Com a ajuda do álcool, eu podia acreditar que aquela não era uma garota de programa, agora cavalgando em mim com tanta intimidade, mas sim uma pessoa que de fato sentia algo por mim. Não necessariamente amor, mas pelo menos algum sentimento bom, algo que não fosse só tesão ou interesse.

Mas, novamente, eu devia lembrar que estava bêbado, e portanto, sensível. Além disso, estava permitindo que ela voltasse com força total à minha vida, exercendo aquele poder estranho que ela ultimamente vinha exercendo. Eu estava inclinado e misturar todas essas coisas, o que me deu uma maldita esperança de que aquilo tudo poderia não ser só fingimento.

E essa esperança ia me deixar na merda.

Por que ela tinha que ser tão boa? Por que tinha que ser tão linda? Tão ela?

Por que tinha que ter aquele perfume, ou aqueles olhos? E por que tinha que me olhar daquele jeito, como se gostasse de mim?

Tentei manter minha cabeça ocupada com essas divagações porque a única pergunta para a qual eu realmente queria respostas provava que, ao invés de me afastar, eu queria desesperadamente me aproximar cada vez mais dela.

Por que ela tinha que ser uma puta?

- Edward... - Ouvi-a sussurrar em meu ouvido, agora deitada sobre mim, tentando controlar os tremores na voz por causa dos movimentos.

Ela ia dizer alguma coisa. Talvez algo importante. Mas ouvir a porra do meu nome sendo pronunciado por aquela garota na porra do meu ouvido, enquanto eu metia nela, exigia muito do meu controle.

Instintivamente, abracei-a com força, tornando os movimentos dentro dela mais bruscos e desesperados, enquanto esperava em silêncio pela continuação daquela sentença.

- Finja que eu sou importante também.

Sim. Eu queria poder só fingir que ela era importante. Aliás, eu queria estar só fingindo para mim mesmo que ela era especial.

Mas ela era especial.

Especial demais para o pouco de tempo que nos conhecíamos. Importante demais para uma puta. Mexendo com a porra da minha cabeça mais do que podia.

Nos virei na cama, de forma que eu ficasse em cima dela, e ao encarar seu rosto outra vez, a vontade de beijá-la veio com uma força perigosa demais. Por que todos os sentimentos que ela despertava em mim tinham que se manifestar com tanta intensidade?

Mas eu não podia beijá-la. Ela era uma garota de programa, e eu tinha experiência com mulheres assim para saber que quase todas elas se negavam a beijar, por esse ato ser algo íntimo demais para uma relação meramente profissional.

Fiquei um pouco chocado em constatar a principal razão pela qual eu não a ataquei como um adolescente cheio de hormônios. Eu pensei que ela não aceitaria, e sequer considerei a hipótese de não fazer isso porque beijar uma puta estava fora de questão.

É. Eu já estava na merda.

Antes que pudesse trair a mim mesmo, enfiei meu rosto em seus cabelos, enquanto investia nela com força. Senti suas mãos se enrolarem em meus cabelos enquanto ela distribuía beijos molhados pelo meu pescoço, o que não me fazia querer provar a língua dela menos.

Com uma disciplina bastante elevada para um bêbado, controlei nossos orgasmos por algum tempo, sempre diminuindo o ritmo e mudando de posição quando sentia que ela ou eu começávamos a perder o controle. Quando a situação chegou a um ponto incontrolável, permiti que ela gozasse primeiro, seguindo-a quase que imediatamente.

O pouco de razão que ainda restava em mim gritava para que eu me vestisse e fosse embora dali, mas como, naquele momento, meu lado emocional parecia predominante, me deixei relaxar em cima dela, tomando cuidado com o peso do corpo.

Ela não falou nada por um longo tempo. Eu também não falei. Diferentemente de outras transas que eu tive, onde o silêncio pós-orgasmo se mostrava constrangedor, eu entrava em um estado de desespero com o fato de não ter nada o que dizer. Mesmo assim, costumava falar qualquer merda, só para que o silêncio não continuasse.

Com ela, não parecia ser assim. Eu estava confortável com aquele momento de paz, e não era necessário preenchê-lo com palavras. Na verdade, parecia até errado falar algo que quebrasse o estranho clima de magia e tranqüilidade. Eu não acharia palavras que valessem ser ditas, então me deixei saborear o momento.

Me permiti sentir as mãos dela passeando pelas minhas costas despreocupadamente, como se estivessem brincando ali. Me permiti sentir o perfume da pele dela sem restrições, sem tentar me afastar, posicionando estrategicamente meu rosto na curvatura de seu pescoço. Me permiti afundar os dedos em seus cabelos, ainda molhados, enquanto fazia movimentos sem um propósito certo, mas que simplesmente pareciam caber ali.

Ficamos assim por algum tempo. Vez ou outra eu suspirava, pensando nas coisas que fiz e nas quais não deveria ter feito, sentindo um prazer divertido em notar a pele de seu pescoço se arrepiando a cada lufada de ar que eu dava.

- Dorme aqui...

Fui pego de surpresa pelo som inesperado, quebrando o silêncio confortável e, junto com ele, como eu havia imaginado que aconteceria, a magia daquele momento. Suas palavras atingiram a parte racional em mim, aquela que ainda lutava bravamente. Então, como senti uma vontade quase imoral de aceitar seu pedido e permanecer ali aquela noite, naquela cama, com ela daquela forma, senti a necessidade de fugir, como o covarde que era.

Porque, se eu não saísse rápido, acabaria cedendo a ela.

Em tudo.

- Não, tenho que ir - Falei, já me levantando e coletando minhas roupas espalhadas pelo quarto, enquanto descartava o preservativo usado.

- Mas amanhã é sábado.

Sua voz parecia um pouco desapontada, então tive que fazer força para não cair nessa armadilha. O tom de tristeza em sua voz conseguia me deixar perigosamente vulnerável.

- Amanhã tenho que acordar cedo. Vou estar ocupado. - Falei um pouco ríspido, colocando minhas calças sem olhar para ela.

Era mentira. Eu não faria absolutamente nada amanhã.

Bom, talvez passasse o dia todo me martirizando pela fraqueza de hoje. Mas nada além disso.

- Ah, entendi. Tudo bem então.

Só eu tinha conhecimento da batalha épica que estava sendo travada dentro de mim. De um lado, minhas emoções diziam para pular novamente naquela cama, pegar Isabella no colo e a enrolar como uma bola em meu peito. Do outro, minha razão - ou talvez covardia - ordenava que eu saísse dali. Imediatamente.

Vesti a camisa de qualquer jeito, calcei os sapatos e olhei para ela pela primeira vez, desde que eu havia decidido ir embora.

Seu olhar era intenso. Não só isso, mas a ligação que se formou entre nossos olhares. Intenso como alguém se sente quando tem 14 anos e seu amor platônico o olha pela primeira vez. Intenso de fazer sumir o que existe ao redor. Intenso como se faíscas estivessem ricocheteando pelas paredes do quarto.

Intenso pra caralho.

Por um momento, me esqueci que havia decidido ir embora.

- Tudo bem?

- Tudo - Falei, piscando algumas vezes e desviando meu olhar do dela - Eu vou então. Até outro dia.

- Até.

Saí com passos apressados do quarto, tentando não sair correndo.
A presença dela me prendia ali. O clima daquele quarto me deixava fraco, quase indefeso, e eu comecei a temer pela minha sanidade mental. Precisava tomar medidas sérias para controlar toda a minha falta de experiência quanto aos meus próprios sentimentos, quando o assunto era ela.

Desci as escadas com pressa, ignorando novamente algumas vozes melosas que me chamavam. Segui pela saída dos fundos, encontrando uma rua fantasmagoricamente deserta e escura. Não me importei e caminhei um pouco, não querendo pensar em nada. Em absolutamente nada.

Depois de alguns minutos, me dei conta de que tinha que chamar um táxi, se não quisesse ir para casa a pé. Disquei o número salvo no meu celular, útil para emergências como essa, e esperei. Meia hora depois, já estava em casa.

Cambaleei para a cama, sem me preocupar em tomar banho ou trocar de roupa. Rezei silenciosa e desesperadamente para que o sono me dominasse o mais rápido possível. Eu não queria pensar, porque se pensasse, chegaria a conclusões um tanto apavorantes. Eu não saberia lidar com elas, porque era fraco ou imbecil, mas de qualquer forma, tinha certeza que poderia acabar louco ou depressivo.

E só por ter essa noção, eu já fazia idéia do que estava acontecendo comigo, mas sempre que essa idéia surgia em minha mente, eu a deixava de lado, apavorado demais para tentar lidar com ela.

Eu já fazia idéia.

Eu já sabia.

Mas não queria admitir. Não podia admitir.

Eu não iria admitir.

#

#

#

#

#

Pessoal, muito obrigada pelas reviews! É ótimo saber que vocês estão curtindo a fic.

To fazendo com que a fic caminhe pro clímax da história, que é a única parte que eu já tinha pronta na cabeça quando comecei a escrevê-la.

Sim, Vai ter drama. Mas eu preciso escrever, porque é basicamente o que identifica a história. Então, não me odeiem por isso. Eu prometo que vai terminar bem. =)

Beijos a todas! Mel