Acordei estremunha, com uma luz forte a bater-me nos olhos.
Olhei em volta à procura da sua origem.
A porta entreaberta da casa de banho.
Levantei-me, olhei para o relógio –cinco da tarde –e fui até à casa de banho.
Alisha estava sentada na borda da banheira, a falar ao telefone baixinho. Quando me viu entrar fez um ar culpado.
–Desculpa Zoey, não pensei que acordasses e... –interrompeu-se –Olha para esse cabelo nojento! Toma –e entregou-me uma escova. Aquela rapariga passava-se!
Continuou a falar ao telemóvel.
–Não… Desculpa, estava a falar com a Zoey… Já te disse mais de um milhão de vezes que é a minha nova companheira de quarto… Difícil de decorar? Oh, mãe… Mas… Espera… Vens ou não para o Nat… Daihoma?
Ficou expectante por uns minutos, e depois o rosto iluminou-se.
–Isso e excelente! O pai também vem?... Óptimo… Como é que eu posso ter levado o teu esticador… Não mãe… Estavas a usa-lo quando eu sai!... Antes do jogo… Ok, olha mãe, não posso falar agora… Adeus… Beijinhos… Também gosto muito de ti!... Adeus mãe!
Afastou o telemóvel do ouvido e olhou para mim.
–Era a minha mãe –"difícil de perceber…" –E por que raio é que continuas com essa escova na mão? Penteia-te!
–Ok… Os teus pais vêm, certo?
–Sim! Estou mesmo feliz! Acho que não sobrevivia no Daihoma sem eles… Os teus pais também vêm Zoey?
Fiquei um minuto a olhar para ela, com ar de parva, certamente, antes de lhe responder.
–A… Eu e os meus pais tivemos alguns problemas…
–Oh! Estou a ver… Queres contar-me? Se não quiseres não faz mal mas… Eu só queria saber, não te ofendas…
–Deixa estar! Eu conto-te.
E passei a meia hora seguinte a falar sobre o terrível que fora ter John Heffer na família.
–…E é por isso que de momento só me dou bem com a avó RedBird.
–Oh minha nossa S… Deusa! A tua vida dava para fazer uma novela Zoey…
–Só se for daquelas muito aborrecidas!
–Mas à sempre alguém que as vê, não é?
Uma vez penteada –acreditem, demorou séculos – eu e Alisha saímos, sem saber muito bem para onde.
Andamos às voltas pela escola, sem saber bem para onde ir. Luke juntou-se a nós pelo caminho, e continuamos a dar voltas à escola.
Alisha não parava quieta.
–Têm de conhecer os meus pais! Vão ficar tão felizes por saber que esta não é uma escola de mortos-vivos!
–Pois, devem ficar…
Nem eu nem Luke ficamos animados com aquela conversa, pois ambos tínhamos problemas com as famílias, mas Alisha pareceu não perceber. A alegria dela dava para substituir a nossa.
Estava a pensar em Erin, e em como ela teria alguma ideia para nos entretermos, quando uma bola preta voou em direcção a Alisha.
Fiquei assustada, sem saber o que era, mas quando voltei a olhar vi que um gato preto, com um pelo lustroso e mais negro que carvão –era isso que eu queria dizer com "preto", mas ele parecia muito mais que isso…-e uns olhos azuis escuros se equilibrava nos seus ombros, com uma agilidade sobrenatural.
Alisha estava imóvel. Assustada.
–O… O que é? –perguntou, tremula.
–É… bem… -aquele gato também me deixava atordoada, os olhos pareciam muito mais… humanos –Um gato. Eu já te expliquei.
–Oh, sim –descontraiu-se – Não pensei que algum me escolhesse…
Levou a mão à zona onde o gato se encontrava, e fez-lhe festas no focinho.
–Lindo bichano…
O gato preto bufou, saltou ligeiramente e empoleirou-se a sua mão. Com um incrível contorcionismo deu a volta por cima do braço e fitou os olhos de Alisha por uns segundos, antes de saltar para o chão e fugir agilmente.
Alisha ficou parada, a olhar para o sitio onde momentos antes estivera a cara do gato. Parecia ter levado um choque.
–Al? –tanto eu como Luke corremos até ela –O que é que foi? Algum problema?
–Eu… Eu não sei…
E depois disse algo que nenhum de nós esperava ouvir.
–Eu acho que ele falou comigo…
–Falou? –perguntei, confusa.
–Sim… Ele olhou para mim e… e depois era como se estivesse na minha cabeça!
–Como se lhe lesses o pensamento?
–Exactamente!
–Luke, sabes de alguém com afinidade com os gatos que faça isto?
–Bem, penso que a Neferet não faz. De resto não conheço mais ninguém com a afinidade!
–Quando estavas no dormitório fazias o mesmo com a Nala?
–Não. Só a ouvia resmungar, mas de resto silêncio.
Virei-me para Luke.
–Então talvez não seja uma afinidade com os gatos, mas sim uma afinidade com aquele gato.
–Não me perguntes a mim –disse Luke, visivelmente embaraçado –Eu não tenho essa inteligência toda.
Senti-me como se me tivesse dado um murro no estômago. Estava a confundi-lo com Damien.
–Oh, desculpa… Mas como eu estava a dizer, podes ter uma afinidade com aquele gato.
–Isso quer dizer que temos de o encontrar? –perguntou Luke -Não vai ser fácil, o campus é gigante!
–Vai ser fácil –disse Alisha. Ambos olhamos para ela.
Depois ela explicou, corada.
–Eu sei onde ele está, tenho a certeza. Sinto-o, como uma pequena luz. E… Bem, sei que é um ele.
–Como se chama? –perguntei, curiosa.
–Não sei, não consigo ver isso…
–Ok, deixem-se disso! Vamos mas é procura-lo!
–Concordo Luke, onde é que está Alisha?
–Sigam-me.
Voltamos o caminho todo para trás, passando para trás do dormitório e continuámos até à casa do jardineiro. Passar ali trouxe-me recordações alegres e tristes ao mesmo tempo.
No entanto, não paramos ali. Alisha continuou até a uma parte ainda mais deserta do campus, onde não havia nada sem ser uma dúzia de árvores e alguns arbustos.
–Ali –disse Alisha, apontando para uma árvore.
Aproximamo-nos da árvore. Antes de chegarmos ao pé dela uns olhos azuis apareceram por entre os ramos, e o gato preto deslizou pelo tronco rugoso, quase a pique.
Avançou na nossa direcção, e quando chegou perto de Alisha deu um dos seus graciosos saltos e subiu-lhe pelo braço, em direcção ao ombro.
Desta vez Alisha limitou-se a dar-lhe festas no focinho, evitando… ofende-lo.
–Tenta falar-lhe tu! –exclamou Luke impaciente.
–Calma! Se continuas assim ele ainda foge outra vez!
Mas mesmo assim pegou-lhe e colocou-o à frente dos seus olhos.
Ficou ali a olhar para ele, tanto tempo que pensei ter sido imaginação sua da primeira vez, quando ela soltou um gritinho.
–Consegui! Ouvi-o! É o meu gatinho!
O gato bufou.
–OK, sou a pessoa dele.
–E como é que se chama? –interroguei.
–Não sei… Talvez não tenha um nome…
–Então dá-lhe tu um!
–Mas o que é que escolho?
–Sei lá! O gato é t… Tu é que és a pessoa dele –corrigi, quando o vi olhar-me.
–Pois… -e virou-se para Luke.
–Se eu tivesse jeito para escolher nomes não tinha escolhido Nolls para apelido… -desculpou-se.
Ela pensou momentaneamente no assunto.
–Pois, acho que tens razão! –e depois acrescentou –Então chamo-lhe o quê?
–Não faço a mínima…
–Não me perguntes a mim…
Parecia deveras aborrecida… E eu percebia –o que raio é que se chama a um gato inteligente? Snudlles? Talvez seja ligeiramente patético…
–Já sei! –exclamou repentinamente, totalmente eufórica –Vou chamar-lhe Lord! Não me parece ofensivo…
–Não…
Apesar das reticencias pressentia que Lord era o nome perfeito para aquele gato tão bizarro…
E o gato parecia ser da mesma opinião, pois ronronou –era o som mais magnifico que já ouvira: parecia quase um humano a falar, era serio, mas felino e selvagem ao mesmo tempo.
–Oh, és o meu gatinho! –exclamou Alisha. E independentemente dos esforços do gato para se soltar do seu abraço, Alisha não o deixou escapar -embora eu soubesse que ele não se estava a esforçar ao máximo, pois Lord sentia o mesmo.
A minha suspeita confirmou-se quando este se rendeu e recomeçou a ronronar!
