CAPITULO 13. MORTE DEBAIXO DOS ANÉIS

Fazia horas que o sol iluminava cada canto da Lua, mas no quarto que Setsuna e Hotaru compartiam fazia dias que o astro rei não dava sinais de vida. A escuridão dominava entre as cortinas e ao redor da luz de uma única vela. O frio dominava naquele recinto. Hotaru estava encolhida em um canto do quarto, com os joelhos recolhidos e a vista perdida no vazio que proporcionava a mais absoluta escuridão. As imagens passavam uma e outra vez por sua mente, imagens de ruínas e destruição, de lares perdidos e famílias destruídas. Cadáveres se decompondo apareciam pelo o que havia sido uma vez seu planeta. E a alta e imponente figura de um homem gigantesco aparecia por cima de tudo, rindo abertamente, gargalhando, aquela risada fantasmagórica que a ameaçava em seus mais temidos pesadelos: Titan, o homem que uma vez foi seu pai e que agora parecia ser inimigo jurado do Milênio de Prata.

De repente, a escuridão foi absoluta. A chama da vela havia se apagado.

Setsuna entrou correndo no quarto, sem se preocupar em chamar. Sabia que Hotaru estava ali dentro, fazia dias que não saia, desde que soube que havia começado uma guerra em seu planeta natal. Se ajoelhou diante da jovem de cabelo negro.

"Sua mãe, Hotaru...", sussurrou pausadamente.

Hotaru levantou a vista e adivinhou o restante da frase. Uma solitária lagrima abriu caminho por sua bochecha direita e um grito de dor ecoou pela escuridão da habitação.

Fazia meses que o planeta Saturno mostrava indícios de que logo iria estalar uma guerra. Diziam que uma mulher de cabelo vermelho havia tentado Titan para que começasse uma revolução. Diziam que a luxuria havia deixado Titan louco e provocado em Lady Saturno uma profunda depressão. Caiu enferma, vitima de febres desconhecidas pelos melhores médicos do Milênio de Prata. Após meses de delírio, finalmente morreu. A Rainha Serenity reclamou seu corpo para que fosse sepultado no Reino da Lua,já que Saturno era um planeta que estava totalmente destruído, mas Titan se negou veementemente.

O céu ficou avermelhado de ira o dia em que se despediu da Guerreira do planeta dos anéis. Serenity suspeitava que a queda de Lady Saturno fosse o começo de muitas quedas que iriam acontecer em um curto prazo de tempo. Decidiu em silencio adiantar o nomeação das Outer Senshi para dobrar a força da Guarda. Também tomou uma dolorosa decisão. Pediria ajuda à Terra, o planeta selvagem, porque a onde de terror que a morte de Lady Saturno predizia devia ser detida a qualquer preço, o Milênio de Prata dependia disso. Enviaria pela manhã Lady Vênus junto com alguns guardas à Terra, para falar com o Rei Hiperion e propor-lhe uma aliança. Haviam lhe chegado noticias de que a terra começava a se transformar em um planeta civilizado. Qualquer ajuda seria bem recebida.

A cerimônia de despedida de Lady Saturno foi simples, breve. As Sailors não puderam comparecer, estavam bastante ocupadas tentando evitar que a guerra se estendesse pelo resto dos planetas frios.

Fazia dias que Ami não se encontrava bem. Pressentia que algo terrível estava a ponto de ocorre. Quando soube que Lady Saturno havia morrido teve certeza de que o que vinha sentindo desde fazia tempos estava tomando forma. Desde pequena, quando caiu terrivelmente enferma, seu metabolismo enviava sensações elétricas ao coração quando ia ocorrer algo ruim. Ultimamente aquelas sensações eram demasiado intensas... Levantou o olhar ao céu e desejou que as Sailor fossem capazes de deter a onda de pânico que cercava o Milênio de Prata.

Rei deixou uma flor frente a estatua construído em honra a Lady Saturno. A adolescência havia endurecido seus rasgos, tinha dado ferocidade aos seus olhos escuros. Porém ainda recebia visões de guerra e destruição, ainda que com uma menor freqüência, pressentia que a morte de Lady Saturno era o prelúdio do que ela vinha vendo em sonhos desde fazia anos. Rei havia mudado muito em pouco tempo. Todos diziam que debaixo de um belo exterior, herança de sua mãe, havia herdado o obscuro e duro caráter de Ares, seu pai. Lady Vênus se sentia especialmente orgulhosa daquela jovem teimosa que, graças a sua perseverança, havia conseguido ser a protegida do fogo.

Makoto apertou os punhos, pensando com impotência que Titan não poderia escapar sem antes receber o que merecia. Quem dera se ela pudesse enfrentá-lo com suas próprias mãos. Agora era muito alta, e muito mais forte. Dentro de alguns anos seria uma Sailor. Hotaru era uma de suas amigas e jurou em silencio que um dia protegeria com sua vida o Milênio de Prata para que seres como Titan não pudessem causar o caos.

Minako chorava em silencio, segurando-se no braço de Makoto. A guerra acabava de fazer sua primeira vitima. Dentro de pouco ela mesma deveria sair ao espaço e lutar, talvez o próximo cadáver que suas amigas chorariam sobre seria o seu. Baixou a cabeça e o loiro e largo cabelo ocultou seu rosto. Não havia pensado em que ela mesma teria que lutar um dia. Como reagiria quando tivesse que matar um inimigo com suas próprias mãos? Seria capaz de fazê-lo?

Usagi não podia reprimir suas lagrimas. Recordava Lady Saturno como uma dama agradável, fiel e honrada. Todos diziam que era a Guerreira mais forte... Sem embargo havia sido a primeira a cair. A Pequena Dama havia se convertido em uma jovem alta, fina e delicada. Era o emblema de um Reino que estava em formação. Sua aparente fragilidade era a fachada de um caráter forte, parecido com o de sua mãe, de quem, fisicamente, era uma replica exata. Fazia anos que treinava, mais por diversão e por vontade de estar com suas amigas do que por necessidade, e as Outer Senshi diziam que seu coração era de uma pureza extraordinária, que essa era, precisamente, sua melhor arma. Olhou de soslaio Hotaru, que estava a sua direita.

Com o olhar sereno, cravada no horizonte, a jovem princesa de Saturno se despediu de sua mãe. Nos últimos anos não havia podido vê-la, mas telepaticamente mantinha contato com ela diariamente. Havia amado-a, se era possível que seu coração fosse capaz de cobiçar tais sentimentos. Levantou a vista e a luz do sol feriu seus olhos avermelhados. Pensou em seu pai, Titan... Sabia que ele, de alguma maneira, era o causador da morte de sua mãe. Nunca gostou dele. Tinha motivos para odiá-lo. Era um homem egoísta, vaidoso, orgulhoso e avarento. Gostava de demonstrar com o cinturão o poderoso que era. O fazia com ela, com sua mãe, com os empregados... Lady Saturno perdeu um filho pouco anos depois de Hotaru nascer e os médicos disseram que o aborto ocorreu por causa de que queda "acidental" que sofreu a nobre dama ao cair pelas escadarias do Palácio do planeta anelar. Hotaru não titulava de "acidental" uma queda quando eram as mãos de alguém que te davam um empurrão o suficientemente forte para fazer você cair. A cobiça fez com que seu pai montasse aquela guerra por poder, diziam que havia sido tentado por uma mulher, mas ela sabia que a mulher era o de menos. Seu pai sempre desejou ser poderoso e agora recorria às armas para consegui-lo. Dentro de muito pouco a nomeariam Guerreira, substituiria sua mãe, e... Eventualmente, teria que lutar contra seu próprio pai. Sorriu ligeiramente, de seus olhos saltavam faíscas. Estava esperando ansiosa a chegada desse momento.

Haruka viu de lado que os obro de Michiru tremiam levemente, devia estar chorando. Desejou poder abraçá-la e consolá-la, mas se limitou a pegar ligeiramente a mão e apertá-la calidamente. Ninguém deveria saber o que sentia por aquela bela jovem de cabelo aguamarinha. Michiru lhe disse que Setsuna sabia, mas não se importou. Ao final das contas, Setsuna era sua melhor amiga, era justo que soubesse. Talvez pudessem ajudá-las a manter sua relação em segredo. Olhou fixamente a estatua de Lady Saturno. Havia sido sempre uma dama muito sensível, mas ao mesmo tempo muito forte e valente. Desejou já ser uma Guerreira e poder vingar sua morte. Bm, já faltava pouco para poder brandir sua espada de forma oficial e matar a todos aqueles que ameaçavam a paz do Milênio de Prata. Ela protegeria o Reino... E Michiru. A qualquer preço.

Michiru sentiu que a forte mão de Haruka apertava a sua e lhe devolveu a caricia de forma involuntária. Por fim se sentia completa, ainda que não pudesse dizer ao Universo o que sentia. Se conformava com aquela ligeira caricia sem importância, com aquela pequena demonstração de afeto. Sabia que Haruka a amava e isso lhe bastava. Jurou a si mesma que quando a paz voltasse ao Milênio de Prata ela e sua amada seriam felizes para sempre. E não importava as vidas que isto custaria. Se tivesse de fazer sacrifícios pelo bem do Reino, os faria... Ainda que até certo ponto. Nunca sacrificaria o que senti por Haruka. Estreitou aquela mão com força e secou suas lagrimas, olhando suas amigas de soslaio. Tampouco sacrificaria a amizade que compartia com Setsuna, Hotaru e as demais. Sacrificaria qualquer coisa pela paz, mas não suas amigas, ou Haruka.

Setsuna olhou fixamente a estatua de Lady Saturno e sentiu compaixão pela pequena Hotaru. Ela perdeu a muito tempo seu pai... E dava sua mãe como morta desde muito tempo. Ninguém havia volto a ver Lady Plutão desde a morte de Lord Charon, ainda que havia pessoas que assegurava tê-la visto vagando no espaço-tempo. Sentiu uma pontada no peito quando percebeu de que a frágil Hotaru levantava de forma decidida a vista ao Sol. Ler a mente daquela jovem era brincadeira de criança. Colocou as mãos sobre seus ombros e a olhou carinhosamente. Não a deixaria sozinha nunca.

Hotaru a olhou de lado e sorriu.