– Só um segundo Abby – Antes mesmo que eu possa dizer qualquer coisa ele continua. E até que não tinha sido ruim, as palavras pareciam faltar aos meus lábios, tamanha era a batida do meu coração – Você está ficando doente, preciso te mimar um pouco.
Eu ficando doente? Espera... Ele estava falando da Abby do passado? Ou melhor... Eu do passado. É claro que sim! Era a primeira vez que ele falava daquele jeito... Se referindo a ela e a mim como uma pessoa só... E eu sabia bem o que aquilo queria dizer.
Ele finalmente tinha acreditado em mim, finalmente! Eu não sabia o que, ou quem o tinha feito mudar de idéia, mas eu seria eternamente grata.
- Abby? – Sou tirada dos meus pensamentos por aquela voz – Você ainda ta ai?
- Claro - Eu mal podia conter o meu sorriso plantado nos lábios - Cuidou dela? - Eu me atrapalhava toda ainda. Agora começava no passado uma vida que eu não me lembrava muito bem, as memórias vinham chegando aos poucos.
- Sim, você sabe, você doente é uma manha só... - Eu não pude conter meu sorriso. Era lindo o ouvir falar de mim pra alguém, mesmo que esse alguém fosse eu mesma.
- Deu certo, né? - Eu disse um pouco ressabiada. Eu sabia que tinha dado, mas ainda não entendia, então, porque Matt havia dito que ele estava no céu.
- Sim, você me salvou - O tom dele era vitorioso, orgulhoso, feliz – E então, como eu estou 10 anos mais velho? - Ele parecia ter entrado mesmo naquilo tudo, agora 100. E então, como eu contaria a ele que não sabia, pois ele ainda não estava comigo.
- Luka, tem algo errado... - Eu tentava raciocinar a fundo, mas não encontrava solução alguma - Você não está comigo.
- Não?? - O tom surpreso dele era muito parecido quando eu recebi a mesma notícia - Por quê?
- Eu bem queria saber a resposta... - Eu disse, um tanto quanto triste. Não tinha uma explicação convincente... Só se... Não, seria muita má sorte... Morrer duas vezes? - Eu vou descobrir Luka. Eu ainda estou me habituando a essa vida nova.
- Por quê? Muita coisa nova? - Ele parecia curioso pra saber mais sobre o futuro, mesmo que ele não estivesse mais aqui, de novo.
- Nova? - Eu sorri, olhando diretamente pro corredor - A coisa mais linda do mundo. Que está deitadinho na cama agora, dormindo com os anjos e provavelmente sonhando com o pai dele...
- Quer dizer...? - Babão, como eu sempre achei que ele fosse ser.
- Sim, homem. Nós temos um filho e ele é lindo - A emoção brotava nos meus olhos junto com as lágrimas. Era felicidade demais misturada com um vazio imenso por eu não poder tocá-lo e dizer o quanto eu estava grata por isso.
- Como ele é? Quantos anos ele tem? Como se chama? – Seu tom de voz transbordava de empolgação, e uma pergunta atropelava a outra mal me dando tempo pra pensar, mas obviamente aquilo era de se esperar, se eu estivesse em seu lugar tenho certeza que estaria fazendo o mesmo.
- Calma Luka, eu não vou fugir... Uma pergunta por vez. – Consigo desacelerar um pouco seu ritmo. – Ele se chama Matt... Matthew na verdade, Matt é só apelido... Fez cinco anos poucos dias atrás, e acho que não há melhor maneira de o descrever do que dizer que ele é uma exata copia sua.
Eu praticamente podia ver aquele sorriso orgulhoso diante dos meus olhos, e minha maior vontade era de segurá-lo pra sempre. – Então quer dizer que eu ainda vou ter que esperar cinco anos? Porque você não se convence logo a me dar um filho?
Por mais que Luka tivesse dito aquilo na melhor das intenções, eu não podia deixar de sentir que uma flecha havia sido fincada no meu peito. Nos últimos dez anos... Quer dizer, naqueles 10 anos dos quais eu ainda guardava muitas memórias, apesar de aparentemente, nada daquilo ter acontecido, nesses dez anos aquele era o fantasma que mais me remoia.
A culpa por nunca ter realizado o maior sonho da vida de Luka, a culpa por ter sido tão egoísta com a pessoa que mais tinha amado na vida, e mais do que tudo aquilo, o arrependimento por nunca ter tido nenhuma parte dele guardada comigo.
- Abby? – Ele me chama, agora num tom preocupado, como se pudesse sentir o que estava se passando na minha mente naquele minuto.
Eu pisquei algumas vezes voltando a realidade, era tempo de deixar todos aqueles fantasmas para trás, apesar de ainda registrados na minha memória, nenhum daqueles momentos cruéis tinham realmente acontecido, agora eu só precisava aprender a viver com a minha mais nova vida.
- Desculpa, eu só estava pensando... – Deixo um novo sorriso tomar meus lábios e decido seguir com a nossa conversa – Aparentemente sim... Mas pensa pelo lado positivo, você pode aproveitar os próximos cinco anos pra curtir a vida de casado, você sabe... Antes das fraldas, choros altas horas da madrugada...
- Você sabe que eu vou amar isso, cada segundo da minha vida - Como ele conseguia fazer isso há tanta distância? Fisicamente estamos no mesmo lugar, mas o tempo dividia as nossas vidas de tal forma... De uma forma brutal, que por mais que os nossos sentimentos nos unissem, nada podia ser perfeito o bastante.
- Luka, e se você morreu de novo? Eu to com medo... - Parecia estranho eu falar assim, mas era a mais pura verdade.
- Calma, você vai descobrir - A voz dele era confortante, assim como a que eu me lembrava de ter todas as noites, ao pé do ouvido, antes dele partir - Eu confio em você.
Aquelas palavras misturaram de novo o meu pensamento. Por um lado ficava feliz em ouvir, ele acreditava em mim, mas eu tinha tanto medo de decepcioná-lo... Meus pensamentos são interrompidos pela mãozinha pequena na minha perna, provocando um leve susto.
