Jogo Perverso

Cap. XIII – Um Segredo por Um Segredo...

Draco olhava-se no espelho, não estava tão atraente quanto de costume, porém dava para o gasto... Faria sua terceira aparição com Gina em Hogsmead naquele dia, e já havia aparecido como Thomas outras duas vezes sem a moça ao seu lado após os dois primeiros encontros, pois a ruiva disse que achariam estranho se ele não fosse visto senão com ela, e isso custara à moça mais um mês de exclusividade sexual.

Três meses sem a mínima preocupação se havia outro cara pegando sua mulher, todo o controle em suas mãos, isso fazia o sonserino sentir-se muito bem. Não tinha culpa de ser controlador e egoísta, afinal, era um sonserino, e não gostava de dividir.

Virgínia já o esperava no Salão, sentada à mesa da Grifinória. Como a grande rivalidade existia apenas entre Sonserina e Grifinória, não havia problema, como Corvinal que estava no momento, em sentar-se à mesa da namorada grifinória, não era verdade? Sem falar que não conhecia ninguém da Corvinal...

- Então, - cochichou o loiro, no momento moreno, para a garota – o cabeça de rachadura está com o Mapa hoje?

- Não, entrei no dormitório dos garotos ontem, achei o Mapa e o escondi. Passará uns dias perdido, até que ele o achará em uma gaveta na qual jamais imaginou que estaria...

- Como entrou no dormitório dos garotos assim tão fácil e fez isso?

- Está brincando? Isso foi moleza... – riu a jovem – Ainda bem que o meu irmão e o Harry são uns patetas e não foram perguntar nada para os corvinais... E a Hermione, bem, ela acha que eles são uns bobos de ficarem me atormentando...

- Eles são uns patetas mesmo! Seria tão fácil saber que eu não sou da escola. Mas, sinceramente, acho que já sabem, o problema realmente não é esse, o real impasse é saber quem eu sou, por isso temos de nos preocupar mais com o Mapa do que com esses idiotas fazendo perguntas por aí.

Draco tinha razão, incrível como eles estavam conseguindo fazer aquela farsa dar certo.

- Então, vamos ao nosso encontro número três? – chamou a moça.

- Claro, sempre cumpro meus acordos. – o rapaz reparou que havia algo faltando – Ei, ruiva, não quero ser o chato que sempre fala do que está faltando, mas não acha melhor segurar a minha mão? Afinal, somos dois apaixonados no início do relacionamento...

Ela ponderou, não queria que parecesse real demais, a vida poderia imitar a arte, e só Merlin sabia o quanto queria manter aquele amante por mais tempo que os outros. Andar de mãos dadas, no entanto, não os mataria, tinham feito isso nos outros dois encontros, além do que, já haviam feito coisas bem piores...

- Já fizemos muito pior do que apenas andar de mãos dadas e trocar uns beijinhos, então...

Os dois saíram de mãos dadas em direção ao pátio, onde os estudantes deveriam se reunir para que fosse feita a chamada. Claro que o nome de Thomas Canty seria incluído, graças a um favorzinho que Draco cobrara.

Rony e Harry olhavam torto para os dois. A garota sentia vontade de rir, porém isso não seria aconselhável, poderia atrapalhar o disfarce. O sonserino, no entanto, aproveitou que eles olhavam para laçar a ruiva pela cintura e lhe dar um beijo rápido na boca, ficando abraçado com ela em seguida, apenas para enfurecer os grifinórios tontos. A jovem apenas balançou a cabeça, pensando em como ele estava sendo infantil.

Já em Hogsmead, o loiro dirigiu-se à Gina meio entediado:

- Café Madame Puddifoot?

- Por que ir para esse lugar cafona? – retorquiu a bruxa.

- É onde os casais vão, Virgínia. – respondeu cansado, como se fosse óbvio – Praticamente me transfigura em dois segundos, entra nos dormitórios dos garotos, acha e esconde o Mapa, mas não sabe disso?

- Claro que sabia! Mas tem de parecer tão real assim? – indagou com uma expressão de enfado.

- Ruiva, você tem alguma coisa contra romantismo?

- Nada, só é inútil.

Desde que descobrira essa nova faceta da garota Weasley, Draco tinha muita curiosidade sobre como ficara assim. O que aconteceu com a doce grifinória que vivia atrás do Potter? Ninguém fica desse jeito por nada. Ele, em sua defesa, fora criado assim, treinado para desprezar emoções, porque enfraquecem o ser humano. Sempre tivera prazer em torturar os mais fracos, pois tinha repulsa por quem não tinha força de caráter e se deixava abater e incomodar por provocações alheias. Aquela garota, entretanto, não, fora criada para ter um coração mole, e o tinha até poucos anos atrás. O que aconteceu?

- Quem a tornou assim, Virgínia?

Ela se assustou com a pergunta. Ah, não, novamente com aquele papo? Que insistência! Será que ele não via que esse tipo de intimidade estragaria o jogo dos dois?

- Isso não é relevante para a nossa relação. Não responderei a perguntas pessoais, Malfoy.

- Shhh! – fez o rapaz para ela, o olhar zangado – Não me chame pelo meu nome, está louca? Alguém pode ouvir! É Thomas!

Cansada da conversa, ela o puxa para o Café. Que ideia infeliz aquela de saírem! Maldito fosse Rony por ficar lhe caçando pelo castelo e a encontrar em uma situação comprometedora!

Sentados em uma mesa, pediram café e uns bolinhos. Draco insistiu na pergunta, estava curioso, e a jovem repetiu que não responderia.

- Dê o preço pela resposta. – propôs o loiro.

Por que ele queria tanto saber? Céus, queria mesmo estragar o jogo? Estava percebendo que talvez o sonserino não fosse tão bom jogador assim... E o pior: era considerado um dos melhores no castelo. Com jogadores assim, estava feita... Se ele insistia em estragar tudo, que, pelo menos, pagasse alto por isso...

- Muito bem, Thomas. Um segredo por um segredo. Você disse lhe ensinaram desde pequeno que emoções são para fracos, mas, em algum momento, você deve ter sido fraco, deve ter sentido algo, afinal, é humano. Quero esse momento, compartilhe, querido.

- Perguntei primeiro, Weasley. – retorquiu áspero, aparentemente, tocara em um ponto fraco.

- Não, você insistiu com essa conversa tola, então, vai primeiro. Se quiser desistir, é só não falar, e podemos parar com essa idiotice de trocar segredinhos. – disse, torcendo para que ele desistisse da conversa e, de quebra, parasse de falar no assunto – Além disso, quero ver se o seu segredo vale o meu.

Sua curiosidade iria tão longe a ponto de contar a ela seu momento de fraqueza na vida? Bem, sua história era boa, mas o segredo da Weasley deveria ser muito melhor para que tivesse ficado assim. Ah, curiosidade maldita...

- Você sabe que fiz todo o ritual e virei comensal da morte, não sabe?

A ruiva fez que sim com a cabeça. Era esse seu grande segredo? Não era segredo para ninguém...

- Calma, sei que todo mundo sabe, e eu tenho a marca para me lembrar pelo resto da vida. – falou com um tom de amargura – Mas eu nunca quis ser um comensal. Minha mãe também não queria que eu fosse, não me queria envolvido em nada disso. Acho que é a única pessoa que amo, e que também me ama. – Draco amando? Aquilo, sim, era novidade para a bruxa – O Lorde tinha grandes planos para mim, em especial porque queria alguém em Hogwarts, infiltrado, porque era onde o Potter estava, e precisava ser alguém de confiança, alguém influente e forte. A princípio, neguei-me, não queria ser comensal, e estava pronto para me negar até a morte. Como disse, Weasley, a liberdade não tem preço. Contudo, você está errada, tem, sim. O Lorde ameaçou matar minha mãe, caso não fizesse o que ele queria. Embora soubesse que ela não me queria como comensal, e que morreria se fosse preciso, não poderia deixar que a matasse. Então, tornei-me um comensal, porém nunca pude dizer a ela a verdade, o porquê havia feito aquilo, sabia que ela diria que teria morrido para que eu não precisasse fazer o que fiz, assim, disse que fiz porque quis. O jeito que ela me olhou quando teimei e continuei a afirmar que era comensal por vontade própria... Queria morrer antes de vê-la olhando para mim daquele jeito de novo...

Finalizado o relato, o rapaz pensava se havia feito a coisa certa. Nunca contara aquilo a ninguém, era seu segredo, sua angústia, sua fraqueza. Era bom que o segredo da ruiva fosse espetacular.

A garota respirou fundo. A confissão do sonserino a emocionara. Ora, apesar de tudo, ainda tinha um coração, ainda era capaz de sentir. Agora era a sua vez... Nervosa, fechou os olhos por um segundo antes de começar.

- Namorei o Michael Corner quando estava no quarto ano, mas isso todo mundo sabe. Andava por aí sonhando com o Harry, mas ele apenas tinha olhos para a Cho Chang, então apareceu o Michael. Era simpático e me tratava bem, e eu estava carente, sofrendo pelo Harry como uma idiota. – a garota parou um pouco, fechou os olhos e respirou – Um dia, estávamos no campo de Quadribol. Ele tinha acabado de treinar, o time já tinha ido embora, mas ele ficou comigo. Aí, aquele sacana de uma figa me chamou para o vestiário, dizendo que queria me mostrar uma coisa, nem lembro o que era. Então... – Gina fechou os olhos bem apertados, como se não quisesse lembrar, nem sequer conseguiu falar – O importante é que nunca mais entrei em nenhum lugar sem absoluta certeza de que queria mesmo fazer aquilo. Nunca mais me apaixonei e confiei em alguém que se dissesse apaixonado. Para que? Eu me apaixonei, e olha no que deu? O amor é uma droga, a vida, uma bosta, e se apaixonar é burrice. Agora, eu escolho quem, onde e quando. Eu faço as regras. Algumas ficam traumatizadas e nunca mais se deixam ser tocadas. Mas por que eu perderia a diversão? Por um idiota? Não, agora, tudo que faço é nos meus termos.

Draco não conseguia acreditar. Imaginara uma desilusão amorosa, uma traição do namorado com a melhor amiga, entre outros escândalos do tipo, mas nunca aquilo. Não conhecia nem mesmo um sonserino que chegasse a esse nível de selvageria e maldade. Matar inimigos em tempos de guerra, vá lá, mas fazer isso com uma garota inocente?

- O que ele fez é crime, Virgínia. Você sabe disso, não? – ela assentiu – Por que não denunciou?

- Era a namorada dele, entrei por livre e espontânea vontade naquele vestiário! Sei que meus amigos e parentes acreditariam em mim, mas muitos, não! Poderiam pensar que era apenas retaliação, já que, àquela altura, ele já arrastava asa para outras, como a Cho, por exemplo! E, além disso, não queria que ninguém soubesse, não queria ficar falada, não queriam que me condenassem, mas, também, não queria sentissem pena de mim!

- Ele pode fazer isso com outras! Já pensou nisso?

- E você se importa, sonserino? Por que deveria me expor por outras potenciais vítimas? Sem falar que ele não é estúpido, não vai sair fazendo isso por aí! Ele é um animal, descontrolou-se, mas, após o incidente, andava nervoso, quase enlouquecido, podia ler em seu olhar! Depois que viu que eu me calaria, tomou como uma grande sorte, mas soube que não teria essa sorte duas vezes!

- Ele a estuprou, Virgínia! – ao ouvir a palavra com "e" a ruiva se encolheu - Deveria estar em Azkaban!

Ainda bem que o Café era bastante barulhento, pois os dois pareciam ter se esquecido que estavam em local público.

Draco finalmente compreendeu a razão de a bruxa ser adepta do jogo, queria tudo sob controle, nada de amarras ou envolvimento emocional. A paixão não dera certo para ela, nem um pouco.

A garota levantou-se abruptamente e saiu do local. O loiro apenas teve tempo de jogar algum dinheiro sobre a mesa e correr atrás da moça. Seu segredo era realmente muito bom, tão bom que ele parecia ter perdido o chão, tão bom que não conseguiria vê-la da mesma forma, tão bom que rompera qualquer barreira de intimidade. Começava a se arrepender da curiosidade, no entanto, ao mesmo tempo, agora que sabia de tudo, não conseguia se imaginar não sabendo, ainda acreditando que a ruiva era uma mulher fatal, que nascera com um talento natural para despedaçar corações masculinos.

Ele a seguiu por becos vazios, encontrando-a sentada sob uma pedra, longe de tudo e todos.

- Às vezes, quero culpar o Harry. – falou a jovem de repente – Se ele tivesse olhado para mim como mulher, e não apenas como a caçula Weasley, se tivesse me notado, ficado comigo, quem sabe... – no entanto, obrigou-se a parar – Ele não tem culpa! A culpada sou eu! Fui uma burra! Apenas tive sorte de não ficar grávida, ou não pegar alguma doença! Por que confiei naquele monstro?

Ele era sonserino, tudo bem. Havia sido comensal, tudo bem. Mas tinha um coração, meio duro, mas tinha.

- A culpa é do Michael, Virgínia! Não sua!

- Por que se importa, Malfoy? Aliás, por que quis falar sobre isso?

Ele não sabia responder, apenas puxou a ruiva e a abraçou. Ela ficou surpresa com o gesto do sonserino, e chorou em seus braços, chorou até conseguir se acalmar e voltar à normalidade, fingir que nada havia acontecido, que fora apenas um pesadelo.

Depois de um bom tempo calados, ela falou:

- Malfoy, estragamos o nosso jogo. E tão cedo...

- Posso fingir que não sei, se você também fingir que não sabe. – propôs, pois, simplesmente, não queria deixar aquela ruiva escapar, e o pior, não tinha certeza da razão.

- Não vai dar certo... – declarou a garota, pesarosa.

- Nunca mais falaremos no assunto. Você não quer fazer nada a respeito? Ótimo, não tenho nada com isso. Você mudou, tornou-se essa mulher forte e decidida, que aprendeu a apreciar o jogo e a jogá-lo com maestria, seja por qual motivo for, e não há nada, nem ninguém, que possa reverter a situação. Eu, por outro lado, não tenho nenhum interesse que ninguém saiba sobre as minhas fraquezas. Nós queremos o silêncio, então, ótimo, ficaremos calados, e ninguém tem nada com isso mesmo. De que vai adiantar acabarmos nosso caso? Você vai continuar na mesma, apenas voltará a caçar, e eu, também. Por mim, ruiva, a conversa de hoje não existiu.

A garota ponderou. Ele realmente era um excelente amante, um dos melhores que já tivera, talvez o melhor. Sabia que estava se enganando, pois o que haviam partilhado era por demais profundo para que voltassem a ser exatamente como eram, todavia estava disposta a aceitar. Também sabia um segredo do sonserino, não era verdade? Se abrisse a boca, também abriria a sua, e ficariam os dois nus, expostos na frente de toda a escola. O garoto "pseudo-coração-de-gelo" que se tornou comensal para salvar a mamãezinha e a garota que foi violentada pelo namorado, ótimo.

- Muito bem, Malfoy, a conversa de hoje não existiu. No entanto, se, um dia, ela existir o suficiente para você sair por aí falando o que não deve, também existirá para mim, e sairei falando o que não devo.

E ela estava de volta, a grifinória dura com a qual ele estava acostumado.

- Tudo bem, Weasley. Fechado. Não se esqueça que tenho direito a três meses de exclusividade, nada mudou.

- Não esqueci, Malfoy. Então, por que não cala sua boca sonserina e vamos à Casa dos Gritos? Vamos fazer jus ao nome da casa... Quem sabe não assustamos alguém com os nossos gritos?

"I know I don't know you

But I want you so bad

Everyone has a secret locked

But can they keep it?"

"Secret" by Maroon 5