Capítulo XIV – Brincando com o Fogo
Eragon olhou para a jovem adormecida nos seus braços. A sua pele, alva como a lua, adquirira um leve tom azulado, por acção do frio. Calma e silenciosamente, abandonou-a, para retirar do seu saco (abandonado junto a uma árvore) um vestido para cobrir a sua nudez.
Carinhosamente, vestiu-a, tentando não a despertar. Quando terminou essa tarefa, vestiu as suas próprias roupas e voltou para os braços da sua amada.
Passou-lhe uma mão pelos cabelos ruivos, numa atitude de grande ternura. Resistiu ao impulso de a beijar, temendo acordá-la. No entanto, não foi preciso, já que, segundos depois, Maraya abriu os seus olhos, de novo verdes, repletos de amor.
– Já acordaste, dorminhoca? – brincou ele. – Temos de partir. Saphira já está à nossa espera. Além disso, temos de nos apressar, não esteja Murtagh à nossa procura. – acrescentou, num misto de pesar e desapontamento.
A meio de um beijo, sentiu que a rapariga lhe fugia. Porém, assim que abriu os olhos, constatou, com terror, que ela lhe tinha sido arrancada por um homem, vestido de negro: Murtagh.
– Meu irmão, é um prazer rever-te! – ironizou ele, com um meio sorriso. – E que bela prenda tu me trouxeste! Sahrah, ou deverei dizer… Maraya?
Sentindo-se desfalecer, Eragon tardou a reagir. No entanto, ao ver Murtagh a agarrar e empurrar a sua namorada, levantou-se de um salto. Constatou que estava preso, não conseguindo avançar nem um palmo. Desnorteado e em pânico, ameaçou:
– Não te atrevas a tocar-lhe com um dedo que seja!
Como resposta, Murtagh riu-se descaradamente. Continuou a empurrar a sua prisioneira, acabando por atirá-la ao chão, sem qualquer remorso. Esta não soltou um gemido, não obstante as dores. Quando falou, fê-lo, surpreendentemente, com calma e ponderação:
– O que pretendes com tudo isto? Nada do que fizeres me magoará!
– Hum, tens a certeza disso? – atirou o tirano, rindo maliciosamente.
Murtagh imobilizou a jovem com o seu peso e, embora esta se debatesse, conseguiu subjugá-la com relativa facilidade. Anunciou, triunfante:
– Ora vamos lá acabar o que começámos há pouco!
Sentindo um pânico crescente, Eragon arregalou os olhos, ao ver como Maraya tentava, inutilmente, libertar-se, enquanto que o vilão lutava com o vestido dela.
– Vamos lá, sua rameira! Mostra-me o que vales! Tenho a certeza de que me podes mostrar algo! – anunciou, enlouquecido. – Colabora, rapariga! Esquece o franganote do meu irmão; eu sou muito mais homem do que ele. Aprenderás muito mais comigo. Se parares de resistir, terás a melhor experiência da tua vida!
Dominada pelo medo e nojo, Maraya continuava a lutar, sem resultado. Cuspiu todo seu descontentamento na cara do que a tentava violar, para ganhar tempo. Foi premiada com um murro violento, deixando-a sem qualquer possibilidade de reacção.
Quando Murtagh já quase se vira livre das suas roupas, a jovem gritou, aterrorizada:
– Eragon!
O grito dela partiu o coração de Eragon que, impotente, nada poderia fazer, a não ser presenciar aquela horrível cena.
– Maraya!
Murtagh parou o que estava a fazer, para escarnecer do irmão:
– Perdeste, Eragon! Ela nunca será tua! Quando voltares a tê-la nos teus braços, se voltares, ela já não será virgem! Sou eu que vou ter o prazer de a desonrar! – acrescentou, muito confiante.
– Enganas-te! – anunciou Maraya, tremendo descontroladamente. – Todo o meu ser pertence a Eragon, incluindo o meu corpo!
Urrando de fúria, o vilão voltou ao trabalho, murmurando todos os insultos da família de prostituta.
– Maraya, usa a tua magia! – ordenou Eragon, em desespero de causa.
Sem saber muito bem o que estava a fazer, a jovem colocou as mãos na cara do tirano e pronunciou a fórmula de um feitiço. De imediato, a cara de Murtagh começou a arder, não obstante os gritos deste.
Com um pontapé bem dirigido, a Dama do Dragão conseguiu derrubá-lo. Ferido e humilhado, o tirânico rapaz perdeu a concentração. Então, a prisão invisível de Eragon desapareceu, libertando-o.
Sem perder tempo, o Cavaleiro pegou na mão da sua Dama e, juntos, correram até ao saco deste, onde o ovo de Dragão jazia, seguro. Murtagh, perante a possibilidade de possuir a jovem e ferir o irmão, nem se lembrara dele. Felizmente, pensou Maraya.
Correram durante muito tempo, sem saberem muito bem para onde se estavam a dirigir. Só uma coisa lhes interessava: estar o mais longe possível do seu perseguidor.
Entretanto, tinham estabelecido uma conversa telepática, por não poderem falar, temendo que lhes faltasse o fôlego.
Salvaste-me a vida, outra vez. Como poderei agradecer-te? Maraya apertou um pouco mais a mão que o outro lhe estendera.
Tu é que me salvaste! Se não fosses tu, não conseguiria fugir daquela cela invisível. Eragon retribuiu o toque de mão.
Mas foste tu que me disseste o que fazer. Sinceramente, nunca me teria lembrado… foi brilhante, essa tua ideia. Magia… parece tão estranho! Como é que eu, uma simples rapariga, posso ter tamanho dom?
Esqueces-te de quem és! Uma Dama do Dragão também é mágica, de acordo com Saphira. Ao lembrar-se do dragão, foi percorrido por um estremecimento. Saphira! Temos de avisá-la!
Imediatamente, lançou a sua mente no encalço da criatura. Com alívio, constatou que ela se encontrava na gruta. Apressou-se a comunicar-lhe que tinham o ovo, mas que estavam a ser perseguidos por Murtagh. Por fim, suplicou-lhe que se mantivesse escondida, ao que a outra respondeu:
Impossível! A gruta está rodeada por guardas do Império! Estão prestes a entrar. Eu vou ter convosco. Se, no caminho, alguém me atacar, não verá outro dia.
E cortou a ligação, não dando mais possibilidades a Eragon para a convencer. Resignado, contou a conversa a uma Maraya apreensiva.
Abrandaram o ritmo de fuga, exaustos. Agora, não conseguiam ver nem ouvir o vilão. Provavelmente, tinha perdido o rasto deles. Contudo, não tardaria a usar a sua magia para os encontrar.
Sem aviso, ouviram um urro de dragão, ao longe. Com um arrepio, Eragon percebeu que este não pertencia a Saphira, mas sim a outro dragão… o de Murtagh.
O que se passa? Maraya, assustada, tentava obter a resposta para o súbito medo do namorado.
Corre!!!
