Capítulo 13

― Ia sugeriu-lhe que contasse a notícia imediatamente a Harry.

― Adiar não vai facilitar as coisas ― advertiu.

Toda manhã Gina chegava ao escritório determinada a contar tudo a Harry. Mas ele estava tão distante, tão frio. Como poderia dizer a ele que estava grávida?

O dia de Ação de Graças chegou e passou. Gina ficou com Luna. Harry, com os Potter.

― Todo mundo perguntou onde você estava este fim de semana ― observou ele friamente, na segunda-feira seguinte. O estômago de Gina ainda estava embrulhado devido à viagem de ônibus.

― Neville e a família dele estão aqui e Grant veio também ― continuou Harry. ― Eles queriam conhecer minha noiva e acharam muito estranho nós passarmos todo o fim de semana do feriado separados. Eu liguei para você, mas ninguém atendeu.

― Eu não estava em casa.

Sua resposta, desprovida de desculpas e de informações, fez com que Harry, que já estava fervendo, estourasse de vez.

― Obviamente. Onde diabos você estava, Gina?

Levantando a cabeça e encarando-o com os olhos arregalados, Gina respondeu simplesmente:

― Eu saí.

― Saiu ― repetiu ele, irado. ― Você saiu? É só isso que você vai dizer?

Um sorriso triste contorceu os lábios de Gina.

― Você não quer ouvir as outras coisas que eu teria para dizer... ― Ela interrompeu-se antes que deixasse alguma coisa escapar. ― Estou cheia de coisas para fazer, Harry. Se você me dá licença, eu gostaria de começar a trabalhar.

― Você está mandando seu chefepassear porque tem trabalho para fazer?

Harry examinou Gina, notando que ela estava usando o vestido cinza sem graça e a trança que ele odiava. Por que estavam em guerra um com o outro? Como chegaram a este ponto?

― Por que viramos inimigos? ― desabafou Harry. Sua mente estava girando e ele podia sentir todo o seu controle começar a escapar-lhe. Mas ele não conseguiu deixar de perguntar ― Esta... briga que a gente está tendo... por que começou?

Gina cerrou os punhos. Ela nunca esqueceria da rapidez e insensibilidade com que ele lhe virará as costas, mudando tudo. Deixando-a enfrentar sozinha a assustadora possibilidade de uma gravidez.

― Na semana antes do dia de Ação de Graças eu disse a você que tinha planos de passar o feriado com minha irmã. ― Sua voz estava gelada. ― Desde então você mudou completamente.

― Não mudei! Você é que está fria.

― Se eu tenho estado fria é porque... ― Gina cerrou os dentes com força, sabendo que estava quase dizendo que estava grávida.

― Por que o quê? ― cutucou Harry. ― Porque o seu planinho não funcionou como você queria?

― Não sei do que você está falando ― interpôs Gina irritada. ― Agora, se você não se importa, eu realmente gostaria de começar a trabalhar.

― Eu me importo sim, eu decido quando você começa a trabalhar. Por que você não admite, Gina? Eu já sei de tudo.

Gina sentiu seu rosto empalidecer.

― Você sabe? ― perguntou ofegante. ― Mas como?

― Eu sou um homem experiente, Gina. Não me subestime.

A garganta de Gina estava tão seca que doía engolir.

― Você está zangado? ― sussurrou.

― É claro que estou zangado! Durante toda a minha vida vi minha mãe tramar e manipular os outros para conseguir o que queria, e prometi a mim mesmo que nunca seria estúpido o suficiente para...

― Eu não planejei, sabia? ― Dor, medo e raiva misturavam-se em Gina.

― É claro que planejou.

― Uma mulher não engravida sozinha! Aconteceu, embora nós dois achássemos que tínhamos tomado precauções suficientes. Eu aceitei a minha parcela da responsabilidade, mas não vou ficar com toda a culpa ― gritou Gina.

Gina e Harry encararam-se enquanto um silêncio pesado abatia-se sobre eles.

Harry agarrou-se à borda da mesa, pois precisava urgentemente de um suporte.

― Você... você está grávida? ― A revelação quase o nocauteara. Ele a olhava embasbacado, totalmente confuso.

― Você... disse que sabia.

― Eu estava falando sobre o que eu achava que fosse um plano seu para me prender.

― Você não pode acreditar que eu estava seguindo um planinho para...

― Ah, não. Você está muito acima disso, querida. Para se garantir, você decidiu fazer uma apólice de seguro, caso suas manobras não funcionassem.

Gina mal podia respirar.

― Você está me acusando de ter engravidado deliberadamente para prendervocê? E como é que você acha que eu consegui isto, Harry? Você estava lá todas as vezes que a gente fez amor, então como foi que eu dei um jeitode engravidar?

― Talvez eu não tenha estado lá quando você engravidou, Gina. Você desaparece todo fim de semana ― e com quem você desaparece? Um amante secreto?

Assim que acabou de dizer as palavras, Harry soube que tinha ido longe demais.

Gina soltou um grito silencioso e enojado. Tirando o anel de rubi do dedo, colocou-o sobre a mesa. Parte dos pensamentos de Gina eram claros e racionais, a outra parte estava dizimada pela força de sua dor e raiva.

― Se você acha que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas, então nunca me conheceu de verdade. E eu também não conheço você. Eu não queroconhecer você. ― Agarrando sua bolsa, Gina saiu correndo do escritório.

Harry esperou, debatendo-se numa confusão de raiva e desespero. De repente, sentiu-se tomado de medo. Agarrando o anel de sua avó, correu para o corredor.

― Gina, espere! ― gritara ele, mas as portas do elevador fecharam-se. Ele ficou lá parado, consciente dos olhares curiosos das pessoas que passavam.

Lentamente, Harry virou-se e voltou para o escritório. Gina tinha o direito de estar zangada com ele, admitiu. E ele estava disposto a lhe dar um pouco de tempo para acalmar-se. A noite ligaria para ela... Pensando melhor, talvez fosse melhor ir até seu apartamento.

Admitiria que reagira de maneira exagerada ao saber da notícia. As acusações que fizera ecoavam em sua cabeça. Gina fugindo todo fim de semana para encontrar-se com um amante secreto? Por que dissera aquilo? Sabia que ela nunca faria uma coisa daquelas. Mas naquele surto de ciúme não fora nem um pouco racional...

Harry quase grunhiu em voz alta quando Alvo Dumbledore entrou em seu escritório pouco depois.

― Gina não estava na mesa dela, então eu entrei ― disse o advogado. ― Ouvi dizer que vocês brigaram e que ela foi embora. Que você fez uma cena no corredor.

― Uma cena? ― bufou Harry. ― Eu só chamei o nome dela.

― Por que vocês brigaram?

Harry franziu a testa.

― Alvo, é pessoal, está bem?

― Ouvi dizer que ela não estava usando o anel de noivado.

― Droga! Ninguém tem nada para fazer por aqui além de ficar espionando? ― Harry pôs-se de pé num pulo e começou a andar de um lado para o outro.

― Então é verdade. ― Alvo parecia triste. ― Está tudo acabado entre vocês.

― Não, não está acabado, Alvo . Não está! ― Parecendo envergonhado, Harry forçou-se a se sentar e a se acalmar. ― É por isto que você está aqui, Alvo? Para saber das últimas fofocas?

― Certamente que não. ― Alvo inclinou-se para frente, fitando Harry. ― Tenho notícias perturbadoras. Você está sabendo que, desde o anúncio da separação do Sirius e da Erica, as ações da empresa vêm caindo incessantemente. Tem havido muita má publicidade para a Potter nos últimos meses, muita instabilidade. Os investidores não gostam disso.

Os pensamentos de Harry estavam voltados para Gina. Em sua mente, via a expressão no rosto dela quando ele a acusara de ter um amante secreto e tentar empurrar-lhe o filho de outro homem. Harry estremeceu. Talvez fosse melhor ele levar uma dúzia de rosas quando fosse ao apartamento de Gina.

― O que você acha, Harry? ― perguntou Alvo.

― Ahn, você se importa de repetir essa última parte, Alvo? ― pediu Harry, voltando a si.

― Você não ouviu uma palavra do que eu disse, ouviu? ― Alvo observou-o. ― Todo abalado por causa da sua briga com Gina, não é? Ótimo! Tem que estar mesmo. Se você a perder...

― Eu não vou perdê-la, Alvo . ― Apesar de sua promessa categórica, Harry estava inundado de ansiedade. Gina estava grávida!Harry afundou a cabeça nas mãos.

― Eu espero que você não a perca, Harry. De qualquer forma, como eu disse antes, ficamos sabendo que Monica Malone está comprando ações da empresa. Abocanhando-as, na verdade. Nós só não conseguimos entender por quê. O que você acha?

― Monica Malone? ― repetiu Harry. Ela fora a primeira estrela de Hollywood a endossar os cosméticos da Potter anos atrás. Todo mundo reconhecia que seu endosso ajudara a empresa a adquirir seu sucesso inicial. ― Ela sempre teve algumas ações.

A cabeça de Harry já estava cheia de problemas. Não conseguia se concentrar nos negócios. E o que mais precisava naquele momento era o perdão de Gina ― e seu amor. Ele transformaria em verdadeiro aquele falso noivado e providenciaria um casamento rápido e discreto. Não havia tempo a perder. Gina ia ter um filho dele!

Harry levantou-se.

― Alvo, tenho que sair.

― Vá atrás de Gina. ― Alvo sorriu satisfeito. ― Rasteje se precisar, Harry. Só não a deixe escapar.

Harry sorriu com voracidade.

― Não tenho a menor intenção de deixá-la ir a lugar nenhum sem mim.

Ele parou numa floricultura e comprou uma dúzia de rosas vermelhas antes de se dirigir ao apartamento de Gina. A princípio, Harry não percebeu que o carrinho marrom dela não estava estacionado na frente do prédio. Só depois de ter batido na porta por algum tempo, admitiu que ela não estava lá.

Gina estava dirigindo para o hospital. Precisava estar com a irmã; não se sentia tão só e desamparada desde a morte de sua mãe.

A mágoa de Gina foi substituída por raiva. Harry pensara que ela tinha um amante. Chegara até a acusá-la de planejar prendê-lo com o filho de outro homem! Gina engoliu um soluço, sentindo a dor lacerá-la novamente.

Rajadas de neve cobriam seu pára-brisa, mas Gina continuou dirigindo. O que iria fazer com um filho que Harry nem mesmo acreditava ser seu? E claro que poderia recorrer aos testes de DNA, mas mesmo depois que a paternidade fosse comprovada, a pobre criança continuaria não sendo desejada nem amada pelo pai. Os olhos de Gina encheram-se de lágrimas.

Kia listara inúmeras possibilidades que ela poderia considerar, mas para Gina só havia uma opção: ter o bebê e ficar com ele. Aquele bebê era mais do que um erro de Harry Potter; era seu filho. Parte dela. Uma imensa sensação de paz envolveu-a.

De repente, sentiu uma pontada de medo. Como iria sustentar um filho? Rapidamente, afastou a preocupação. Daria um jeito, assim como dera um jeito de pagar pelo tratamento de Luna.

Passando pelos portões do centro de reabilitação, Gina sentiu-se tomada de força e determinação.

Harry estava sentado dentro do carro quando Kia finalmente chegou ao prédio. Ele correu para cumprimentá-la.

― Gina não está aqui. Você tem alguma idéia de onde ela possa estar?

Kia olhou-o friamente.

― O que está acontecendo, Sr. Riquinho? Como se eu não pudesse adivinhar...

Ele engoliu em seco.

― Você sabe ― disse em voz baixa ― é sobre o... o bebê.

― Você acabou de descobrir e foi um completo filho-da-mãe com ela, não foi? ― Kia fitou-o furiosa. ― Pobre Gina. Ela não precisava disso. E certamente não merece um tipo como você!

Harry não disse nada. Ele merecia ouvir aquela bronca, e coisas muito piores. E o pior ainda estava por vir, quando Kia revelou-lhe o mistério envolvendo os fins de semana de Gina. Kia contou a Harry tudo sobre Luna e o acidente, sobre a reabilitação e os custos exorbitantes com os quais Gina tinha que arcar.

― Luna é a única razão de Gina ter concordado com seu plano idiota. Aquele bônus que você pagou ajudou muito, embora suas insinuações de que ela era gananciosa e praticamente uma prostituta tenham arruinado grande parte do alívio que ela sentiu.

― Por que ela não me contou? ― Harry estava chocado.

― Por que você não perguntou? ― reagiu Kia.

Por que não,perguntou-se Harry. Porque achava que ela estava jogando um joguinho e queria frustrar os planos dela. E ele acusara Gina de ser manipuladora! Era elequem ficava inventando estratégias e táticas de contra-ataque como um louco.

― Kia, eu fiz tudo errado ― disse ele.

― Fez mesmo! ― Kia não tinha a menor intenção de aliviar a barra dele. Mas permitiu que ele entrasse no apartamento, onde encontraram o bilhete que Gina deixara. ― Ela está no hospital, visitando a Luna ― anunciou Kia. -Você vai atrás dela ou vai correr de volta para o seu confortável apartamento para ficar choramingando porque o mundo está sendo injusto com você?

― Chega de joguinhos ― prometeu Harry. ― Eu vou atrás dela.

― Não vai ser fácil, você sabe ― gritou-lhe Kia enquanto ele corria para o carro. ― Você não vai poder abanar o talão de cheques e pagar para sair desta encrenca. ― Ela parecia divertir-se com a idéia.

Mais de uma hora depois, Harry chegou ao hospital e a recepcionista indicou-lhe o quarto de Luna.

Seu coração parecia estar preso na garganta e seu pulso disparava enquanto se aproximava do quarto... que estava vazio!

― Luna está no auditório, ensaiando a apresentação de fim de ano ― informou-lhe uma enfermeira, indicando a direção do auditório.

Gina estava sentada no auditório, observando Luna e alguns outros pacientes no palco. Este era o primeiro ensaio da apresentação de fim de ano, e Luna se oferecera para tocar os sinos. Os olhos de Gina encheram-se de lágrimas. Conseguir tocar sinos já era um enorme avanço para Luna. Mas Gina não conseguiu afastar a imagem que se formou em sua mente, de Luna antes do acidente, sentada ao piano, tocando sem grande esforço um vasto repertório de músicas natalinas.

Harry estava parado no fundo do auditório e não fez nenhum movimento para se aproximar de Gina. Sabia que não era o momento adequado, então permaneceu escondido, observando.

Quando Gina se despediu de Luna, a neve começara a cair com força ainda maior. As luzes do estacionamento iluminavam os grandes flocos enquanto ela caminhava, cansada, para o carro. As horas com Luna fizeram com que ela esquecesse temporariamente seus problemas com os Potter, mas eles agora voltavam à sua cabeça com força total. O que iria fazer? Nem sequer sabia se ainda teria emprego no dia seguinte. O otimismo que sentira antes agora lhe parecia ingênuo. Como poderia sustentar Luna e o bebê quando...

― Gina!

O som de seu nome sendo chamado fez com que parasse. Reconhecera a voz de Harry e, por um momento, perguntou-se se, além de tudo, agora dera para ter alucinações também.

― Gina, espere.

Ela virou-se e viu Harry correndo em sua direção. Uma mistura de amor e ódio deixou-a completamente desorientada. Queria correr até ele e dar-lhe um soco na cara; queria jogar-se em seus braços e implorar para que ele a amasse tanto quanto ela o amava. Sendo Gina, não agiu por impulso. Ficou parada esperando que ele a alcançasse.

― Querida, eu... ― começou Harry.

― Querida? Você deve ter me confundido com outra pessoa. Eu sou uma manipuladora imoral que tentou empurrar o filho do meu amante secreto para você.

Harry estava profundamente envergonhado.

― Gina, eu queria lhe dizer o quanto estou arrependido.

― Poupe-me, Harry. Eu não quero ouvir. ― Ela virou-se e pôs-se a andar em direção ao carro.

Andando ao lado dela, Harry continuou:

― Eu não espero que você me perdoe facilmente, Gina. As coisas que eu disse foram horríveis. Você é uma santa e eu mereço levar um tiro por ter duvidado do seu caráter.

― Você realmente está disposto a ir até o final com isto, não está? Harry Potter com uma crise de culpa é algo raro de se ver. ― Gina revirou os olhos.

― Eu te amo, Gina. Eu sei que levei muito tempo para perceber e admitir, mas é verdade. Eu te amo e quero me casar com você, querida. Estou com o anel da minha avó aqui e quero colocá-lo de volta no seu dedo. A partir deste momento, nosso noivado é real. ― Abaixando a voz, acrescentou: ― Tão real quanto o nosso bebê.

Ele estava dizendo todas as palavras certas, mas elas pareciam não ter qualquer efeito sobre Gina. Ela soltou um suspiro profundo.

― Eu não quero o anel, Harry. Não quero mais ser sua noiva, nem de mentira nem de verdade.

― Então a gente não precisa ficar noivos, a gente se casa. Esta noite. A gente pega um avião para Las Vegas e...

― Casar numa daquelas capelas bregas que ficam abertas a noite toda com um sósia do Elvis como padre? Não, obrigada.

― Tudo bem, então a gente se casa num cartório aqui em Minneapolis e depois faz a mais elegante cerimônia de casamento que Bárbara e Erica puderem planejar.

― Nunca. Eu sei o que você acha do casamento.

― Você está errada, Gina. Quer dizer, eu estava errado, sobre o casamento e sobre muitas outras coisas. Por favor, me deixe...

― Você não espera que nenhum casamento dure. Prefere morrer do que se casar. Isso soa familiar? ― interpôs Gina. Chegando ao carro, ela enfiou a mão na bolsa, procurando a chave. ― O nosso casamento não teria a menor chance, então para que se incomodar? Estou cansada de encenações e me recuso a participar de mais uma, especialmente de um falso casamento feliz.

― Não teria nada de falso no nosso casamento, Gina. Nós vamos ser muito felizes e nosso casamento vai durar para sempre. Não pense nestes últimos dias, aquilo foi uma infeliz aberração e nunca mais vai acontecer. Pense apenas em como foi durante a maior parte do nosso noivado e no quanto...

Falsonoivado ― corrigiu Gina. ― Eu estou me lembrando de algumas coisas que você parece ter esquecido. O fato de que você desconfiou o tempo todo de mim, por exemplo.

― Não, não desconfiei! Eu admito que... disse algumas coisas...

― Mesmo que eu o perdoe pelas coisas que você disse, o que provavelmente vai acontecer em algum momento, você vai desconfiar dos meus motivos para perdoá-lo. Quem quer viver nesse tipo de clima? Além do mais, tem o bebê. Eu sei que você o vê como mais uma criança trazida ao mundo por todos os motivos errados... ah, droga!

Ela estava tão irritada que deixou cair as chaves na neve. Harry inclinou-se para pegá-las e colocou-as em seu bolso.

― Nós vamos para casa no meu carro. Amanhã eu mando alguém aqui pegar o seu.

― Eu vou com o meu carro. Me dá as chaves, Harry!

― Sem chance, querida. Você vai andar até o meu carro ou eu vou ter que carregá-la?

Ela não iria se entregar assim tão fácil. Gina pulou em cima dele, tentando tirar as chaves do bolso de seu sobretudo. Harry reagiu instantaneamente, colocando os braços em torno dela e segurando-a contra si.

― Me solta! ― exigiu Gina, debatendo-se.

― Não, nunca. Não posso. ― Ele afundou o rosto no pescoço dela e inalou o cheiro doce e familiar de seu perfume. ― Eu te amo, Gina. Eu sei que às vezes sou um canalha. Sei que levei minha desconfiança e meu ceticismo longe demais. É por isto que eu preciso tanto de você. Com você, tudo é diferente. Tudo é melhor. Nunca tinha me apaixonado de verdade até conhecer você.

― Se me amasse de verdade, não teria me acusado de...

― Amar é algo novo para mim, Gina, e eu não podia confiar no que não entendia direito.

― Mas agora você viu a luz e acha que vamos viver felizes para sempre? ― Ela deu uma risada fria e desdenhosa que o feriu profundamente.

― Não deixe essa atitude cética infectá-la, Gina. Eu sei que a magoei muito, mas não deixe que eu desvirtue seus ideais.

Gina segurou as lágrimas que enchiam-lhe os olhos.

― Pare de tentar me manipular, Harry.

― Eu sei, querida. Mas vou usar toda a munição que puder para ter você de volta. Gina, você consegue... ― ele fez uma pausa, lembrando-se do título de um certo livro ― ... entender a personalidade limítrofe. Simplesmente me dê a mesma chance. Eu não sofro de personalidade limítrofe, mas preciso de você desesperadamente. Por favor, não desista e me exclua de vez da sua vida.

Ela afastou-se um pouco para trás e levantou a cabeça para encará-lo.

― Você está forçando a barra, Harry.

― Querida, eu ainda nem comecei.

Entreolharam-se por um longo tempo, enquanto a neve caía ao seu redor.

― Deixe-me levá-la para casa, Gina.

Seu rosto tinha aquela expressão teimosa e determinada, que significa que ele não iria ceder, mesmo que tivessem que ficar ali fora, sob uma nevasca, por horas. Gina estava ficando com frio e molhada, além de completamente fatigada. Sabia que não tinha a força de vontade ou a resistência para ficar ali nem mais um minuto.

― Como sempre, eu estou cedendo a você ― reclamou, deixando-se guiar até o carro dele. ― Harry Potter sempre consegue o que quer.

― É verdade ― concordou Harry. Sentiu-se mais tranqüilo com o resmungo dela. Pelo menos aquela expressão de mágoa estava desaparecendo lentamente do rosto de Gina.

Dirigiam em silêncio. Gina encostou a cabeça no banco e fechou os olhos.

― Este dia parece ter mais de cem horas ― murmurou finalmente.

― Você pode ir para a cama assim que chegarmos em casa ― disse Harry solícito.

― Eu vou para a minha própria cama, no meu apartamento ― anunciou ela.

― Não, querida. Não vai.

― Harry, eu exijo...

― Você disse que provavelmente me perdoaria em algum momento ― ele a interrompeu. ― E que eu desconfiaria dos seus motivos para me perdoar. Quais seriam os seus verdadeiros motivos, Gina?

Ela cruzou os braços e franziu a testa.

― Não importa.

― Você vai me perdoar porque me ama?

― Mesmo que amasse, você não acreditaria ― respondeu, lançando-lhe um olhar penetrante. ― Você não acredita em amor, assim como não acredita em casamento. Agora me leve para casa, Harry. Eu não quero nada de você. Bem, exceto talvez uma boa referência quando estiver procurando emprego.

Harry chegou a soltar uma risada.

― Desculpe, querida. Você não vai trabalhar para ninguém além de mim. Não vai namorar ninguém além de mim e não vai noivar nem casar com ninguém além de mim. E nós vamos nos casar assim que possível e vamos ter os filhos mais amados e felizes de todo o planeta.

― Pára, Harry! ― Gina começou a chorar. ― Eu não consigo brigar com você quando você está sendo bonzinho comigo.

― Eu quero passar o resto da vida sendo bonzinho com você, Gina. ― Esticando o braço, Harry tomou-lhe a mão. ― E sinto muito por ter magoado você, meu amor.

― Você me acusou de ter um amante secreto. E eu nunca tive nenhum outro amante que não você! ― Ela puxou um lenço esfarrapado da bolsa e assoou o nariz delicadamente. ― Você não sabia disto, sabia, Harry? Eu era virgem na primeira vez que a gente fez amor. Mas tenho certeza que você não acredita em mim.

― Eu acredito ― disse ele calmamente. ― Mas queria que você tivesse me dito antes.

Gina deu um sorrisinho.

― Tive medo que você ficasse paralisado de horror. Eu sabia que se envolver com a virgem mais velha de Minneapolis não era parte da sua lista de afazeres.

― Me envolver com você foi a melhor coisa que eu já fiz. E pretendo continuar profundamente envolvido com você pelo resto de nossas vidas.

Quando chegaram ao apartamento de Harry, a neve caía rápida e furiosamente.

― Independentemente de estar nevando ou não, amanhã nós não vamos trabalhar ― observou Harry enquanto saíam do elevador. ― Vamos passar o dia na cama. Juntos.

Ele ficou esperando que Gina protestasse. Ela não disse uma palavra.

― Estou sendo submetido ao tratamento silencioso agora? ― perguntou, acompanhando-a para dentro da cobertura.

― Eu estava pensando em tudo o que você disse. ― Gina fitou-o ansiosamente.

― Tudo o que eu disse foi do fundo do coração, Gina ― disse Harry, puxando-a para seus braços. ― Eu nunca vou parar de provar a você o quanto a amo. ― Ele a beijou com ternura.

― Eu te amo, Harry ― sussurrou Gina quando ele levantou a boca para beijar-lhe o pescoço. ― Há muito tempo, mas nunca pensei que você também me amasse.

― Como eu poderia não amar você? Você é tudo o que eu sempre quis.

Harry a tomou nos braços, levou-a para o quarto e deitou-a suavemente na cama.

― Antes eu tenho que fazer uma ligação ― disse ele, pegando o telefone.

Gina apoiou-se em um cotovelo e observou-o.

― Alvo, é Harry. Eu quero que você rasgue aquele contrato de falso noivado imediatamente. A partir deste momento, ele está oficialmente anulado. E eu queria que você soubesse que eu e Gina vamos nos casar no civil esta semana. ― Ele inclinou-se e beijou a testa de sua noiva. ― Não, não vai ter nenhum contrato de separação de bens, Alvo. Não precisa, porque este é um casamento que vai durar para sempre.

Depois de desligar, Harry envolveu Gina num forte abraço.

― Sem contrato de separação de bens? ― perguntou Gina, olhando para ele com uma expressão nervosa. ― Harry, você vai se arrepender, tenho certeza. Eu... eu não posso me casar com você sem um contrato de separação de bens. Ligue de novo para Alvoe diga a ele que eu insisto em fazer um.

― Está com medo que eu queira tirar aquele seu carrão de você? ― riu Harry, empurrando-a contra o colchão. ― Desculpe, querida. Sem contrato. Você vai ter que acreditar no nosso casamento tanto quanto eu.

Ela colocou os braços em tomo do pescoço dele.

― Harry, eu não quero que nada fique entre nós. Não quero que haja nenhuma suspeita sobre motivos e dinheiro e... e quando sua mãe quiser saber do nosso contrato pré-nupcial, eu não quero estar por perto se não houver nenhum contrato.

― Conhecendo a minha mãe, ela vai ficar impressionada com a sua esperteza. Esteja preparada para receber mais elogios da Lilian, Ginny.

― Só você acha isto engraçado. ― As mãos de Gina deslizaram pela pele macia das costas dele. Um intenso calor percorreu-lhe o corpo. Estava tão apaixonada que não conseguira demorar muito a perdoá-lo. Harry dera os primeiros passos, abandonando sua atitude cética e desconfiada, e ela não tinha dúvidas de que ele continuaria fazendo os ajustes necessários. Ele a amava e sempre amaria.

Gina e Harry iniciaram uma celebração apaixonada de sua primeira noite como noivos de verdade.

Epílogo

― Ela finalmente aceitou se casar sem um contrato de separação de bens. ― Alvo Dumbledore encheu a taça de Minerva Potter e a sua, e ambos fizeram um brinde silencioso aos recém-casados. ― Quem diria. Gina insistiu no contrato até o último minuto, enquanto Harry se opôs com a mesma determinação.

― Harry está apaixonado, e isto muda tudo ― interrompeu Minerva. ― Vamos apagar aquele contrato horrível da memória. Eles já apagaram. Estou tão feliz por eles, Alvo. Gostaria de poder ter ido ao casamento.

― Foi uma cerimônia estritamente privada: só eles dois, duas testemunhas e um padre. Do jeito que eles queriam.

― Não posso culpá-los. Só imagino o que aquela louca da Lilian teria feito se a Bárbara e o James tivessem tentado dar uma super festa para eles. Mas talvez a magia inspirada por um casamento romântico poderia ter ajudado Sirius e Erica a repensar essa separação deles.

― Magia de casamento? Não para Sirius e para Erica ― disse Alvo, fazendo uma careta. ― Talvez magia negra funcionasse. Os dois andam tão diferentes que parece que estão possuídos.

― Falando em possessão, estou bastante preocupada com aquela Monica Malone. Ela está comprando todas as ações da empresa, Alvo!

― Várias coisas não estão se encaixando, Minerva. E é por isto que você tem que continuar morta por mais algum tempo.

― Eu não queria perder o Natal com a família ― disse Minerva, lamentando-se.

― Vamos ter que providenciar uma visita secreta para você ― disse Alvo sorrindo. ― Se Papai Noel pode entrar e sair das casas sem ser visto, Minerva Potter também pode. Eu só não sei se todo mundo vai estar aqui no Natal. Rocky tinha quase certeza de que ia ficar em Wyoming. Ela está muito ocupada com a empresa de busca e resgate. Você acertou na mosca em ter deixado os aviões e helicópteros para ela, Minerva.

― Rocky herdou meu espírito de aventura. ― Minerva parecia bastante contente. ― Eu conheço bem a minha família, Alvo. Eu acertei na mosca em todos os presentes que deixei. Aquele anel de rubi que dei ao Harry foi um lance brilhante, não foi?

― Brilhante! ― concordou Alvo. ― Absolutamente brilhante!

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