CAPÍTULO QUATORZE REGINA

Quando Regina vê o filho entrar em sua sala e trazer Mary pela mão, ela sente que algo não está bem e seu coração tamborila dentro do seu peito. O primeiro nome que surge em sua mente é o de Vasco. Teria ele sofrido algum acidente nas docas?

Ela se levanta aflita e não consegue conter a ansiedade.

- O que aconteceu a ele? Sejam diretos, por favor!

Mary e Henry entreolham-se e depois voltam a encarar a prefeita.

- De que em está falando?

- Não vieram com alguma notícia ruim sobre Vasco?

- Viemos para falar sobre ele, mas creio que esteja bem de saúde. É sobre nossas conversas e surgiram algumas novas informações. Talvez você possa complementar o que sabemos.

Regina inspira profundamente e tenta sorrir. Sentia-se culpada pela noite passada e pelo sofrimento que havia proporcionado ao marido. E sem razões aparentes.

- Quero que leia isso, mãe. – pede Henry sentindo-se incomodado por ser o porta voz da notícia ruim. – Gostaria que lesse com atenção. É o resumo de um conto de fadas...

Folheando as páginas impressas, imediatamente Regina consegue evocar lembranças que estavam tão bem guardadas em sua mente, que poderiam perfeitamente passar por lembranças ouvidas de alguém em alguma narrativa.

- O Cavaleiro Inexistente...por Ítalo Calvino... – ela para e leva os olhos para um ponto qualquer naquela sala. Lentamente caminha até uma estante de livros e com a ponta dos dedos começa a tocar as capas das obras. Uma a uma é lida, até que para diante de um livro velho com capa amarelada. Apanha-o e olha as letras da capa. Abraça o livro junto ao peito e começa a chorar.

Mary não se atreve a consolá-la, mas Henry arrisca algumas carícias em suas costas. Esperam por alguma palavra, durante uma hora inteira.

- Emma havia partido e levado você embora, Henry. A proteção e as lembranças que coloquei em vocês não traziam informações sobre a nossa existência. Caso Selena não tivesse nos envolvido nos planos dela, o Capitão não teria motivos para trazê-los de volta. – Regina enxuga o rosto. – Fiquei na mais absoluta solidão e desejei adormecer como fizeram com Aurora...e enquanto eu mergulhava na profundeza escura do vazio em minha vida, encontrei este livro na Biblioteca de Belle.

Regina tenta sorrir.

- Era um conto de fadas vindo da Itália e acabei por apaixonar-me pela história. A história do cavaleiro cuja armadura era a mais reluzente, a mais perfeita e a mais vazia. Agilulfo Emo Bertrandino dos Gudiverni e dos Altri de Cobertraz e Sura teria lutado sob as ordens do imperador Carlos Magno. E o imperador somente sabia de sua existência quando via a armadura impecável e reluzente. Conta a história que durante a noite, Agilulfo passava atento, nervoso pelas pessoas que tinham corpos e que apreciava sentir o cheiro de vinho e de suor vindo das lutas. Ele sentia inveja dos que tinham um corpo de verdade, mas também se sentia superior aos mortais, vendo-se como superior. Era desdenhoso e perfeccionista.

Henry senta-se e permanece de cabeça baixa.

- Ele chamava os seres humanos de saco de tripa incoerente e fedido. – desta vez Regina ri. – Tudo naquele cavaleiro era perfeito, moral, correto, ilibado tal qual uma criança pequena. Quando terminei de ler o conto, enchi minha alma com as lembranças do enredo e passei a ocupar minha mente com a criação de um cavaleiro como Agilulfo. Eu brincava com as qualidades que apreciava nos homens com quem convivi e criei a minha personagem perfeita, mas em momento algum imaginei que meu desejo fosse dar vida a alguém.

Ela devolve o livro na prateleira e vira-se para olhar algum ponto na sala.

- Depois voltamos ao nosso reino, enfrentamos Zelena, conheci e fiquei apaixonada por Robin...a minha criatura fantástica ficou totalmente esquecida dentro de mim. Mas o sorriso de Vasco e suas atitudes provocaram o começo do despertar das memórias. Eu quis escrever meu final feliz e agora estou casada com um homem que criei em minhas fantasias.

- Há como desfazer isso?

Regina olha incrédula para o rosto do filho. Não poderia aceitar que Henry estivesse fazendo aquela pergunta tão mesquinha e cruel! Desfazer-se do amor de sua vida? Desfazer-se do homem que a amava acima da própria existência?

- Vasco me disse esta manhã que viera para esta cidade, somente porque você quis, Regina. E somente você poderia mandá-lo embora. – Mary fala cautelosa. – É você quem deve decidir sobre sua vida.