FANGIRL-ILY


Sinopse: Lily Evans era completamente apaixonada pelas maravilhas da internet. Passava todo o tempo livre lendo teorias sobre suas séries favoritas, reblogando edições no tumblr, discutindo personagens no twitter, escrevendo fanfics de Star Wars anonimamente e assistindo aos vídeos de seu youtuber favorito no YouTube. Quando ela acredita que está vivendo mais sua vida virtual do que a real, o barulho da mudança de seu vizinho a traz de volta à realidade. E mais tarde naquele mesmo dia, seu youtuber favorito coincidentemente posta um vídeo anunciando sua mudança para Hogsmeade.

[JILY - UA]


Disclaimer: Personagens principais pertencentes a J.K. Rowling. A história passa em um Universo Alternativo, ou seja, não há nenhum bruxo.


Nota: o capítulo à seguir contém algumas cenas de conteúdo adulto (+18).


13. Friends


[SÁBADO - 23 DE JULHO, 2016]


James não conseguia decidir qual sensação era a pior: o vazio ao acordar e perceber-se sozinho ou a dor de cabeça que subjugava sua mente por ter dormido demais. Acabou decidindo que a primeira era a pior, pois ainda conseguia sentir o perfume de Lily, impregnado tanto nele quanto na cama na qual estava deitado, fazendo com que as lembranças do dia anterior fervilhassem em sua mente, aumentando ainda mais o sentimento de solidão que havia despertado nele ao perceber que ela havia ido embora.

Por que ela havia ido embora? Não conseguia deixar de se perguntar, embora imaginasse que a resposta devesse ser bastante óbvia. Talvez porque ela não saberia o que dizer para sua mãe caso acabasse dormindo ali, o que somente pioraria a já precária situação de sua família. Talvez porque ela não queria que alguém descobrisse sobre eles e, caso ficasse por ali, com certeza algum dos amigos dele iria desconfiar.

Ou, talvez, porque ela estava arrependida de ter ficado com ele quando nem se conheciam há tanto tempo. O que era ridículo, afinal ele jamais iria julgá-la por uma coisa daquelas, porém, James precisava admitir: era algo bastante possível.

Ele sabia o quanto as garotas se culpavam por terem aquele tipo de relação antes da hora..., mas jamais havia perpassado por sua mente que Lily fosse pensar uma coisa daquelas. Ela parecia tão livre e certa de si... não parecia a ele como se algo como o fato deles terem transado fosse fazê-la se culpar ou qualquer coisa do tipo.

Imaginar que ela pensasse que ele era o tipo de cara que iria julgá-la doía ainda mais do que a solidão, portanto James afastou aqueles pensamentos, tentando focar em coisas mais importantes, como, por exemplo: tudo o que havia acontecido no dia anterior.

Da mesma forma que o perfume de Lily ainda parecia penetrar o ar, ele conseguia sentir os lábios dela, o toque dela quase tão claramente quanto se ela estivesse ali. O frio na barriga e a sensação de necessidade despertou nele fazendo-o, mais uma vez, afastar os pensamentos.

Ficar com Lily fora indescritivelmente maravilhoso... e parecera tão certo... tão absurda e totalmente certo que James não conseguia entender como haviam demorado tanto.

Certo, tudo bem, ele entendia: os milhares de interrupções nos últimos dias era uma explicação plausível. Contudo, a forma como haviam se encaixado, como haviam se necessitado... era perfeita. E ele jamais havia sentido algo como aquilo por qualquer outra garota com quem havia dormido.

— Céus, James, que cara é essa? — Foi a primeira coisa que Peter falou quando James apareceu na cozinha. Remus, que estava lavando uma xícara na pia, voltou-se para encará-lo, curioso.

— Você está mesmo péssimo. — Remus constatou e então voltou para sua xícara, cantarolando uma música irreconhecível. — Foi atropelado?

— Bom dia para vocês também, queridos. — James bufou, passando as mãos pelos cabelos antes de caminhar em direção ao armário onde guardava seus cafés e abri-lo, dando início ao seu ritual de todas as manhãs.

— O que houve com você, cara? Por que não foi na reunião com a McGonagall ontem? Ela estava louca, parece que brigou com Slughorn de novo. Aliás, porque você não falou para ela sobre os papéis que ela precisava que você assinasse? — Peter questionou, encarando o amigo com preocupação.

Isso para não falar que, quando chegamos, você estava dormindo. Dormindo. — Remus deu ênfase para a palavra, demonstrando toda sua incredulidade ao sentar na bancada ao lado de Peter e de frente para James e encará-lo como se não o conhecesse. — Nunca vi você dormir antes das duas horas da manhã e ontem não era nem oito horas da noite e você estava apagado.

— Explique-se. — Peter concordou e então os dois garotos fixaram James com as mesmas expressões decididas de quem não aceitaria qualquer outra resposta senão a verdade.

James precisou de todo o controle que havia em seu ser para evitar corar e, mesmo assim, sentiu o rosto aquecer. A lembrança do dia anterior ainda era muito vívida em sua mente, o que tornava ainda mais difícil manter a concentração nos amigos ali na sua frente e não acabar sendo levado pelas lembranças de volta ao espaço apertado dentro do carro, o som da chuva caindo do lado de fora, a sensação de que ele e Lily eram as únicas pessoas no mundo inteiro...

Sacudiu-se mentalmente, forçando-se a respondê-los.

— Vocês sabem que eu tomo café demais, não sabem? — Perguntou, retórico. — Pois então, ontem eu não tomei muito café por causa da correria da organização da festa, acabei ficando com muito sono e, imagino que depois de tanto tempo dormindo poucas horas por noite, acabei apagando. — James deu de ombros, tentando parecer convincente, rezando para que os amigos não quisessem mais detalhes.

— Faz sentido. — Remus meneou a cabeça e então deu de ombros, como se, para ele, o caso já estivesse encerrado. Era por aquele motivo que James gostava tanto de Remus.

— E os arranhões? — Peter, que ainda tinha os olhos fixos sobre James, voltou a perguntar, um sorrisinho divertido despertando no canto de seus lábios. Remus imediatamente voltou a prestar atenção, olhando de Peter para James com sua curiosidade renovada. James suspirou. Ali estava o motivo pelo qual vivia irritado com Peter.

— Arranhões? — Remus repetiu, confuso.

Foi o que bastou para que o rosto de James fosse tomado pelo vermelho-berrante da vergonha. Sentia até mesmo suas orelhas quentes, xingando mentalmente o amigo por ter sido tão sacana de falar uma coisa daquelas, deixando-o sem qualquer saída a não ser falar a verdade.

Ou, é claro, mentir descaradamente.

— Hm? — Fez-se de desentendido, sentindo o calor emanar de seu rosto corado, mas ignorou-o, agindo como se tudo estivesse normal e não como se estivesse prestes a entrar em ebulição.

Peter arqueou uma sobrancelha, o sorriso aumentando em seu rosto.

— Os arranhões nas suas costas, oras! Quando entrei no seu quarto para te chamar, não pude deixar de perceber o estado das suas roupas, espalhadas pelo quarto e, é claro, os arranhões nas suas costas. É melhor passar alguma coisa neles, James, ou podem infeccionar. — Peter disse, sério, embora seus olhos brilhassem de divertimento e malicia diante da falta de reação do amigo. Remus parecia completamente abismado, mas o sorriso que crescia em seus lábios indicava que estava gostando a cada segundo mais daquilo tudo.

Bem, então talvez mentir descaradamente não funcionasse.

Suspirando, James meneou a cabeça, tentando pensar no que dizer, mas havia ainda muito sono em seu cérebro, portanto contentou-se em tomar o seu café, sorrindo das expressões de indignação dos amigos pela demora.

— E então? — Peter insistiu, inquieto.

— E então o quê? — James repetiu, divertido, sabendo que os amigos o odiariam por não contar logo o que estava acontecendo.

—Ah, qual é, James! Vamos lá, nós somos seus amigos, não precisa mentir: você não foi ontem na reunião porque estava com uma menina? — Remus perguntou.

— Ou um menino, não podemos descartar qualquer gênero por aqui. — Peter adicionou como uma alfinetada, fazendo Remus remexer-se, desconfortável. — Vamos, James, abre essa boca.

James afastou a xícara e abriu a boca, gargalhando ao ver os amigos ficarem ainda mais frustrados com ele.

— Deixe de ser ridículo, James Potter! — Remus reclamou.

— Não tenho nada para falar, meninos. — James deu de ombros e voltou a tomar o café, sentindo-se muito divertido com tudo aquilo.

— Tem alguma coisa a ver com a foto que está circulando pela internet desde quarta-feira e da qual fomos proibidos de falar? — Peter insistiu, sorrindo ao ver a expressão de James se desfazer em constrangimento. — Ahá! — Bateu com a mão no tampo da mesa, voltou-se para Remus logo em seguida. — Aparentemente a vizinha andou colocando o James para dormir.

— Cale a boca! — Sem pensar, James pegou uma maçã da fruteira e atirou em direção a Peter, atingindo-o no ombro.

— Ficou bravo. — Remus riu, abaixando-se para pegar a maçã que havia rolado para o chão. — Acho que acertou, Worm. Mas, James, se você não quer falar sobre suas aventuras amorosas com a ruiva do snap, quem somos nós para insistir, não é? — E sorriu, absurdamente divertido.

James estreitou os olhos, irritado com a pretensão dos amigos.

— Não se metam nisso. — Resmungou e terminou com o café, satisfeito ao perceber que os dois, apesar de encararem-no cheios de curiosidade, haviam enfim se calado.

— Bem... — Peter suspirou após algum tempo de silêncio, tendo finalmente terminado de tomar o seu "super café matinal", o qual envolvia muitos tipos de comida diferente e em grandes quantidades que, com certeza, faria qualquer pessoa que não fosse ele ter um ataque cardíaco imediato. — Não sei vocês, mas estou animadíssimo para a festa! — Sorriu, espreguiçando-se antes de começar a recolher as coisas de cima da mesa. — Vai estar Hogsmeade em massa por lá.

— Que animador. — Remus resmungou e então voltou-se para James. — Falou com o Sirius?

James negou.

— Ele não me atende há dois dias. — Passou as mãos pelos cabelos, sentindo a preocupação pelo amigo vir à tona. — Talvez devêssemos ir até lá hoje, sabe, antes da festa.

— Não dá tempo, James. Você ainda tem que levantar as bebidas e terminar com o salão... E, por Deus, por que você sempre deixa tudo para a última hora? — Remus disse, divertido, mas James podia notar uma ruga de preocupação vincando sua testa.

— É mais forte do que eu. — James deu de ombros e foi até a bancada onde o telefone de casa ficava e discou automaticamente o número de Sirius enquanto recebia o olhar indignado de Remus pela sua falta de responsabilidade. Ninguém atendeu, mas, sem se dar por vencido, James repetiu duas vezes a ligação, contudo, em ambas se deparou com a caixa de mensagens. — Droga, Sirius. — Reclamou, sentindo o nervosismo que estava contendo há dias começar a aparecer. Odiava quando Sirius tinha de ir para casa. Era sempre a mesma coisa: o amigo ficava dias sem se comunicar direito porque a sua queridíssima família decidia enchê-lo de tarefas e atormentá-lo o maior número de horas diárias possíveis. Antes dele ir morar em Hogsmeade, James, Sirius e Peter estavam passando um tempo em Londres, no apartamento de Remus, por causa de eventos do trabalho, portanto quando James finalmente comprara a casa e fizera a mudança, ficara muito mais confortável ao pensar que Sirius estaria a vários quilômetros de distância da casa dos pais.

Mas lá estavam os Black novamente: sempre uma sombra na felicidade do melhor amigo.

— Tenta o número da casa. — Peter, que havia se aproximado para observar James ligar, disse. — Talvez alguém possa chama-lo.

— Sim, James. — Remus concordou, os vincos em sua testa ainda mais profundos do que segundos atrás.

Os três sabiam muito bem o que sempre acabava acontecendo quando Sirius se ausentava daquela forma e, por Deus, era terrível demais imaginá-lo passando por algo como aquilo novamente. Principalmente agora que estavam há vários quilômetros de distância e não podiam fazer muito mais do que esperar pelo melhor.

O telefone chamou três vezes antes de alguém atendê-lo e James suspirou aliviado quando foi Sirius quem atendeu.

Alô?

— Sirius! — James cumprimentou-o, sentindo um sorriso aliviado escapar de seus lábios. — Cara, estávamos preocupados! O que está acontecendo com você?

James! Ah, eu tive bastante coisa para fazer enquanto estive aqui, você sabe...

— Oh, para quê empregado quando se tem Sirius Black, não é mesmo? — James estreitou os olhos, sentindo a irritação que sempre aflorava ao lembrar de quão mesquinhos e insuportáveis eram os pais de Sirius começar a emergir. — Você podia voltar hoje. Se quiser eu mesmo te busco, Sirius. Não tem por que você continuar aí. — Ele ouviu Sirius prender a respiração, como se estivesse se contendo para não dizer alguma coisa. — Ou será que tem?

Ah, sabe... houveram alguns incidentes no jantar de noivado da nossa querida Bella...

— Fiquei sabendo. — James comentou, lembrando da conversa que tivera com Lily.

É claro que você ficou sabendo... — James podia imaginar Sirius rolando os olhos somente pelo tom irônico de sua voz. — Aliás, tenho algumas coisas muito sérias para tratar com você, James Potter, incluindo essa foto que tem rondado a internet e deixado suas fãs em polvorosa nos últimos três dias.

— Ah... — James sentiu as bochechas esquentarem, portanto deu as costas para Remus e Peter (que o observavam cheios de expectativa), e tentou não demonstrar constrangimento ao voltar a falar. — Isso, bem... isso é uma longa história, sobre a qual falarei apenas quando você estiver aqui na minha frente. Mas o assunto não era esse, Sirius! O que eu quero saber é: tem alguma coisa que está te impedindo de voltar para cá?

A respiração forte de Sirius respondeu à questão para James. Ele fechou os olhos, sentindo-se irritado com o amigo.

— O que ele fez agora, Sirius? — Indagou, começando a caminhar de um lado ao outro na cozinha. Peter e Remus, parecendo terem entendido ao que James havia se referido, estavam com expressão idênticas de irritação. — Céus, Sirius, você não precisa aturar esse tipo de coisa!

Ele se envolveu em uma briga numa boate... — Sirius respondeu após algum tempo de silêncio, o cansaço transparecendo em sua voz. — Isso foi na quarta de noite. E ontem ele bebeu demais...

— Regulus não cansa de ser estúpido? — James apertou o telefone, porém controlou-se quando ouviu o plástico gemer sob seus dedos. Respirando fundo, passou as mãos pelos cabelos e tentou focar os pensamentos... esforçando-se para entender o lado do amigo. E ele entendia, claro: Regulus era o irmão de Sirius. E, por muitos anos, também fora seu melhor amigo. Até ele fazer as escolhas erradas.

O mais triste de tudo era que, enquanto Regulus não parecia se importar nada com a distância que havia entre ele e o irmão, Sirius sofria por conta daquilo. A raiva por pensar naquilo deixava James possesso. Sirius, que sempre fora seu melhor amigo, praticamente um irmão; aquele que sempre estivera com ele em todos os momentos, tanto os bons quanto ruins, em quem James sabia que podia confiar de olhos fechados. Sirius, que era uma pessoa boa demais, maravilhosa demais para ter de passar por tanta provação.

E, mesmo assim, apesar de tudo isso, Sirius sofria. E não havia nada que James, Remus ou Peter pudessem fazer a não ser tentar argumentar com o amigo e, quando isso não adiantava, aceitar as decisões dele. Mesmo que se odiassem por fazê-lo.

A quantidade de vezes que James havia praticamente implorado para Sirius ir morar com ele era infinita e, em todas as vezes, o amigo recusara. Houvera uma vez, alguns anos atrás, quando Sirius assumira para a família que era bissexual, que ele quase aceitara a proposta. Os Black não conseguiam deixar de lado a soberba e arrogância o suficiente para perceberem que Sirius continuava sendo a mesma pessoa de sempre, apesar da revelação e, é claro, o destrataram. Mais do que o habitual.

Mas, apesar de quão difícil aturá-los parecesse, Sirius decidira ficar por causa do irmão.

Não havia nada no mundo que Sirius amasse mais do que Regulus. E, infelizmente, por mais que James odiasse vê-lo sofrer por conta daquela escolha, o admirava por aquilo. A coragem necessária para aturar a família que ele tinha era gigantesca. James duvidava muito de que teria aguentado tanto tempo se estivesse em seu lugar.

Aparentemente não. — Sirius bufou e James podia até mesmo imaginá-lo, a expressão de conformidade estampada em sua face. — De qualquer forma, James, vou ficar por aqui. Pelo menos até as coisas se ajeitarem.

— Sirius, você está anos esperando por isso e, por anos nada, de fato, se ajeitou. Será que você não percebe a perda de tempo que isso é? Você não tem porque passar por isso, cara! Você sabe que pode vir morar comigo quando quiser!

Eu... Obrigado, James, sério. Mas você sabe que não posso. — Suspirou, resignado. — Mas, e aí, e os meninos? Fiquei sabendo que o Peter está dourado do sol brasileiro. — Riu.

Sabendo que Sirius havia colocado um ponto final no assunto, James deixou os ombros caírem em desistência.

— Sim. E veio de lá cheio de gírias e manias engraçadas também. — Riu. — Quer falar com ele?

Sim, por favor, estou com saudades da sinceridade do Sr. Pettigrew. — Sirius brincou e então James passou o telefone para Peter que rapidamente colocou Sirius a par das novidades e então voltou a sua conversa para o futebol.

— Regulus? De novo? — Remus questionou, frustrado. James apenas assentiu, sentindo-se esgotado por conta daquele assunto.

— Você sabe como ele é.

— Um cabeça-dura, é isso que ele é. — Remus bufou, contrariado.

James sorriu para o amigo, divertindo-se de sua expressão.

— Está aí uma coisa na qual vocês dois são exatamente iguais.


— Ainda estou muito surpreso com todos esses números, pois, quando iniciei minha jornada no YouTube jamais pensei que, um dia, fosse chegar tão longe. Para mim era apenas diversão, um passatempo... E, hoje, é muito mais do que isso: é meu trabalho, minha vida, a minha forma de tentar mudar o mundo – nem que seja um pouquinho... e, ainda assim, continua sendo a minha maior diversão. Obrigado a todos e todas que tornaram esse meu sonho possível! Devo muito a vocês! — James sorriu para todas as pessoas que estavam encarando-o. — E, depois de todo esse blábláblá emocional, podemos, enfim, começar a festa! — E, dizendo aquilo, desceu do pequeno palco onde estivera discursando, deparando-se com o que parecia ser uma interminável fila de fãs que queriam tirar fotos com ele, abraça-lo, beijá-lo, apertá-lo ou somente encará-lo, assim como a menina que não parecia nem piscar a alguns metros dele.

Ele deu atenção para todo mundo, sentindo-se extremamente feliz e grato ao perceber o carinho de cada uma das pessoas que o cumprimentavam. James sempre se surpreendia com aquilo, pois, por mais que tivesse vários seguidores e que estivesse sempre interagindo com eles nas redes sociais, ainda assim vê-los pessoalmente e perceber que todo aquele amor ia muito além das redes sociais era indescritível. Precisou se conter algumas quantas vezes para não acabar caindo no choro ao se deparar com algumas histórias emocionantes de seus fãs.

— Eu não acredito que estou te vendo! — Um garoto que parecia ter uns dezesseis anos disse, sorrindo para James. — Eu sou muito seu fã, James!

— Hey, cara! — James sorriu para ele, abraçando-o em cumprimento. — Tudo bem com você? Qual o seu nome?

— Terry! Tudo ótimo! — O garoto não parecia caber de tanta felicidade, sorrindo de orelha a orelha. Mais uma vez, James sentiu aquele calorzinho no peito, a sensação de alegria ao perceber-se tão sortudo com tanta gente querendo-o tão bem. — Pensei que você fosse estar acompanhado... E a Lily? É Lily né? A ruiva do snap?

E lá estava: a pergunta da qual estivera fugindo desde que a festa começara.

— Ah, ela não veio...

Vocês acabaram? — O garoto não parecia conseguir acreditar, seus olhos arregalados de tal modo que pareciam prestes a pularem para fora das órbitas.

— Não, nós não...

— Ela tinha um compromisso inadiável? Vocês brigaram? Ai, meu Deus! Eu tinha feio até um Fã Clube Jily! Céus, isso vai ser um desastre e...

Terry, está tudo bem. — James tentou forçar um sorriso, mas não sabia se havia tido sucesso. — Preciso encontrar com algumas pessoas agora, mas, por favor, aproveite a festa, okay? — E, sem esperar pela resposta do garoto, James se afastou, sorrindo e cumprimentando mais algumas pessoas até, finalmente, chegar onde Peter e Remus se encontravam, juntos de Fabian e Gideon, dois irmãos youtubers de quem James gostava muito. — Vocês vieram! — James cumprimentou-os.

Prongs! — Os dois cumprimentaram-no, sorridentes. — Cara, você está ótimo. — Gideon adicionou e, como era costume, bagunçou os cabelos de James. — Parabéns pelos 3 milhões!

— É, cara! Conquista para poucos, hm? — Fabian deu um soquinho em seu ombro, fazendo-o rir. — Parabéns, cabeção!

Rolando os olhos para os dois, James aceitou a cerveja que Remus esticava para ele, bebericando levemente antes de voltar a falar.

— Mas, e vocês? Acompanhei os vídeos de mudança: vão mesmo ir para Oxford?

— Sim. — Os dois responderam em uníssono. — Semana que vem nos mudaremos oficialmente. É provável que façamos uma festa de boas-vindas. — Fabian adicionou.

— É, Prongs, não vai ter tanta elite quanto a sua, mas você será muito bem-vindo. — Gideon brincou com ele, fazendo-o rir mais uma vez.

As horas passaram lentamente e, por algum tempo, James conseguiu apenas se divertir e até mesmo conseguiu controlar as olhadas que ele lançava para a entrada – esperando estupidamente pelo momento em que Lily iria adentrar e dizer para ele que, afinal, desistira de ir àquela Convenção com a melhor amiga. Não aconteceu, é claro. E ele não deveria ficar chateado por aquilo, afinal eles não tinham nada realmente e, bem, ela já havia combinado de sair com a amiga há muito tempo..., mas não conseguia deixar de sentir um aperto na boca do estômago toda a vez que cabelos avermelhados espocavam nos cantos de sua visão, fazendo-o voltar-se rapidamente só para decepcionar-se logo em seguida ao perceber que nenhuma das pessoas era Lily.

— Pare com isso, James. — Resmungou consigo mesmo, voltando-se em direção ao bar, porém, antes que chegasse lá, deparou-se com outra pessoa: — Mary! Você veio! — Ele sorriu para a garota, surpreso ao vê-la.

Mary, que parecia estranhamente avoada, ergueu os olhos para ele. E James percebeu que ela estava embriagada.

— Hey, Jay! — Ela cumprimentou-o, atirando os braços para ele e abraçando-o com força pelo pescoço. — Parabéns. — A voz dela saiu engrolada e então ela se afastou, desequilibrando-se. James esticou a mão para segurá-la pela cintura, tentando mantê-la de pé.

— Mary, você está bêbada. — James disse, encarando-a com uma sobrancelha arqueada. — Venha, vamos ali conseguir uma água ou refrigerante. — Ele disse, tentando puxá-la em direção ao bar, contudo, Mary se desvencilhou de suas mãos, desviando-se dele e sumindo entre alguns fãs que nos encaravam, divertidos. James acenou para eles e então suspirou, também se infiltrando entre os convidados para ir atrás da garota, contudo, antes que fosse muito longe, várias pessoas praticamente caíram em cima dele, conversando, tirando fotos e querendo atenção. Ele estava tão concentrado tentando falar com todo mundo e não perder Mary de vista que não percebeu o celular que vibrava em seu bolso.

Mary, por outro lado, sequer prestou atenção nas pessoas que a chamavam. Ela queria encontrar Remus. Queria dizer para ele quão estúpido ele era por tê-la usado daquela forma. Queria bater em Remus. Mas ele não parecia estar em nenhum lugar que ela pudesse ver e estava começando a se sentir realmente tonta.

— Mary? — Alguém a chamou e tocou em seu ombro, fazendo-a voltar-se para se deparar com Peter Pettigrew. Ou, bem, era o que ela achava já que sua visão estava levemente turva. — Você está bem?

— Peter! — Ela cumprimentou-o, inclinando a cabeça. O que foi um erro, pois fez com que uma tontura irrefreável a atingisse, deixando-a, se era possível, ainda mais zonza do que segundos atrás. Do mesmo modo que James a havia segurado, Peter estendeu as mãos para ela, aparando-a antes que acabasse estatelando-se no chão.

Uma parte bastante pequena de sua mente – completamente toldada pelo álcool – sentiu vergonha por estar dando vexame, contudo, não conseguiu focar naquilo por muito tempo para se importar.

— Ops. — Ela disse e riu. — Você viu o Remus? — Perguntou, sentindo seus olhos perderem o foco. Piscou algumas vezes, segurando-se no que deveria ser o braço de Peter. Era forte e musculoso. Mary gostou da sensação de tocá-lo, portanto, sem que se desse conta, estava acariciando-o de maneira desajeitada. — Você tem malhado, Peter?

Peter, que estava tentando desesperadamente entender o que estava acontecendo enquanto segurava a garota que estava, literalmente, apalpando-o, encarou-a, estupefato.

— Meu Deus, Mary, o que aconteceu com você? — Ele resmungou, segurando as mãos da garota e afastando-as de si, o que foi um erro, pois, ao perder o contato, Mary tropeçou Deus sabe em quê e teria caído de costas no chão não fosse Peter novamente segurá-la.

Suspirando, Peter segurou-a pela cintura, firmando-a enquanto caminhava em direção à um banco mais no fundo do salão, ouvindo-a falar qualquer coisa sobre sua força e sentindo-se corar.

Onde estava Remus? Era bastante óbvio que Mary havia bebido daquele jeito para criar coragem de falar com o garoto. Ou apenas para afogar as mágoas. Qualquer que fosse o caso, Peter sentia-se mal por ela. Ela era uma garota legal, divertida, não precisava ficar bebendo por causa de garotos que apenas a usavam.

Sentindo-se desmedidamente irritado com Remus, assim que chegaram ao banco e Peter sentou-a contra as almofadas, puxou o celular de seu bolso, franzindo o cenho ao deparar-se com duas ligações não atendida de Sirius. Uma era de quase três horas atrás e a outra há poucos minutos.

Estava prestes a ligar para ele, quando sentiu Mary tocar em seus ombros novamente. Voltando-se para ela, pretendendo falar alguma coisa que pudesse fazê-la parar de agir daquele jeito, Peter surpreendeu-se com a proximidade da garota e, antes que pudesse fazer qualquer coisa a não ser piscar, Mary grudou os lábios aos seus.

Agindo por impulso, Peter ergueu-se do banco onde estivera sentado ao lado dela, fazendo-a encará-lo, assustada.

— O que você pensa que está fazendo, Mary? — Peter perguntou, sentindo-se furioso. Contudo, sua raiva se dissipou assim que a garota começou a chorar, debulhando-se em lágrimas grossas que borravam sua maquiagem.

Sentindo-se totalmente perdido – afinal o que ele deveria fazer quando uma garota chorava? – Peter voltou a sentar ao lado dela, colocando uma mão em seu ombro e esperando até que ela falasse alguma coisa inteligível.

— Desculpa. — Ela disse, após o que pareceram a Peter muitas horas de sofrimento e impotência, erguendo os olhos para ele. — Eu não queria... ah... — E então voltou a chorar, com mais intensidade do que antes, encostando-se nele e afundando seu rosto no peito de Peter.

— Mary... você é uma garota legal, bonita, divertida... não tem por que ficar chorando por causa do Remus. — Peter falou, segurando-a pelos ombros e obrigando-a a encará-lo. — Você está bêbada e quase caindo pelos cantos, essa festa está cheia de fãs loucos e você sabe como eles são. Em algumas horas é bastante provável que fotos suas caiam na rede chorando... isso não vai ser bom para você, vai? Você não precisa desse tipo de divulgação negativa, porque você tem muitos fãs legais que apreciam seu trabalho e você, Mary. — Peter respirou fundo, tentando se controlar para não falar as verdades muito duramente para ela. A garota já estava triste e não precisava que ele a fizesse se sentir ainda pior. — Se o Remus está te fazendo chorar está bastante claro para mim que ele não te merece. Ele é meu amigo, mas não posso negar quando ele faz coisas erradas. Então, por favor, não chore mais por quem não te merece, okay?

A garota assentiu, contudo, as lágrimas continuavam a jorrar, deixando-o desesperado. Ele odiava choro, porque nunca sabia como reagir diante daquele tipo de situação. Odiava a sensação de impotência que se abatia sobre ele, fazendo-o sentir-se totalmente inútil e inapropriado.

— Você tem razão. — Ela disse e fungou, tentando afastar as lágrimas do rosto. — Eu mereço mais do que isso.

— Sim, você merece. — Peter assentiu, sentindo-se aliviado pelo fato da garota ter entendido o recado.

— Sim, eu mereço. — Ela falou e então, segurando-se na parede, ergueu-se de onde estava sentada. Peter a seguiu. — Portanto agora eu vou ir até aquele bar e terminar com todas as bebidas, afinal eu mereço.

— Quê? Não! — Peter imediatamente segurou-a pelo pulso, impedindo-a de se mover, encarando-a horrorizado. — Mary, você não pode... você...

Mas a garota estava rindo – tonta e rindo, na verdade – enquanto o encarava.

— Eu estava... brincando, Peter. — Ela riu mais um pouco, desequilibrando-se e se apoiando nele, se aproveitando só um pouquinho de sua condição para apalpá-lo mais um pouquinho antes de se firmar. — Eu vou ir para casa.

Graças a Deus. — Peter respirou aliviado. — Quero dizer, não que sua presença seja ruim, é só que...

— Entendi, Worm. — Ela riu novamente. — Será que você pode me levar até algum táxi?

Ele assentiu e, tentando passar despercebido pelo que parecia ser um mar de gente – e falhando miseravelmente – Peter encaminhou-se até a saída com Mary a tiracolo.

Quando o táxi finalmente chegou e Peter a colocou para dentro, dizendo o endereço do hotel para o motorista, Mary inclinou-se pela janela, sorrindo para ele, os olhos ainda embaçados por causa do álcool.

— Me mande uma mensagem quando chegar em casa, Mary, só para eu saber que está tudo okay.

— Você é ótimo, Peter. — Ela disse, aumentando ainda mais o sorriso, e então o táxi se afastou.

Ele ainda ficou alguns quantos minutos parado, tentando entender que diabos havia acontecido quando James saiu do pub e parou ao seu lado.

— O que houve? — O amigo perguntou, bagunçando os cabelos enquanto o encarava, curioso. — Está com uma expressão esquisita.

— A Mary. — Peter disse. — Estava bêbada.

— Ah, eu vi. Ela está bem? Encontrou o Remus?

— Não. Mas ela acabou de subir num táxi e ir para casa. — Peter disse e então, munindo-se de coragem, acrescentou: — Ela me beijou.

A expressão no rosto de James era de choque. O garoto o encarava como se não pudesse acreditar, portanto, antes que ele falasse qualquer coisa, Peter se adiantou.

— Cara, juro, não foi culpa minha! Ela estava bêbada e eu estava tentando ajudá-la... a gente estava sentado no bando do outro lado da festa e então ela simplesmente me beijou! Eu juro por Deus que não retribui, é só que...

— Tudo bem, Peter. — James disse, sorrindo para ele. — Eu acredito em você. Até eu quero te beijar às vezes, principalmente agora que você está bronzeado e tudo o mais. Imagino que, bêbada, ela apenas fez o que noventa por cento das pessoas dentro daquela festa queriam fazer.

Rolando os olhos para o amigo, Peter riu. Mas parou logo em seguida, lembrando-se do que estivera fazendo antes de Mary beijá-lo.

— James, o Sirius ligou! — Peter disse, puxando o celular do bolso e desbloqueando-o. Clicou sobre as ligações.

— Merda! — James reclamou, também puxando o celular. — Foi por causa disso que eu vim aqui para fora. Ele me ligou também, mas tinha muita gente falando comigo, não consegui atender. — E, sem falar mais nada, James discou, colocando o celular no ouvido enquanto esperava o amigo atender.

Alô?

Franzindo o cenho, James ficou em silêncio por alguns instantes – até mesmo tirou o celular do ouvido, observando o número para ter certeza de que havia ligado certo.

Alô? James?

— Lily?


[ALGUMAS HORAS ANTES]


Sentindo uma dor no coração ao dar suas últimas libras para o atendente do posto de gasolina e pensando em todas as HQ's de Flash que não conseguiria comprar por causa daquilo, Lily voltou para dentro do carro abastecido, dando a partida.

— Aqui, coloque isso em cima do seu olho. — Lily disse, tirando uma sacola de gelo de dentro do pacote com as coisas que havia acabado de comprar no posto e atirando para Sirius. — E toma isso daqui. — Alcançou para ele uma garrafa de água com gás, observando-o enquanto fazia exatamente o que ela havia dito. — Você está péssimo.

— Acho que é assim que as pessoas ficam quando têm uma família como a minha: péssimas. — Sirius resmungou, soltando um gemido de alivio ao colocar o pacote de gelo sobre o olho. — Essa é, sem dúvida, a melhor sensação do mundo. — Ele comentou e encarou-a, sorrindo levemente.

— Sirius, não tem graça. — Lily reclamou e bufou antes de manobrar o carro, direcionando-se para a estrada.

Eram quase onze horas da noite e eles estavam voltando para Hogsmeade. Lily, que nunca havia dirigido por mais do que alguns quilômetros dentro da zona urbana da cidade, decidira ir até Godric's Hollow, que ficava uma hora e meia de Hogsmeade, de carro a fim de buscar Sirius.

Fora, sem sombra de dúvidas, uma das coisas mais imprudentes que fizera na vida – contando, inclusive, a vez que bebera a vodca do pai e colocara chá da índia dentro depois e, é claro, o dia em que levara Amos para dormir lá na casa dela sem que os pais soubessem. Lily não era muito fã de dirigir e menos ainda de dirigir de noite. Mas, lá fora ela, deslocando-se absurdamente rápido em direção à uma cidade que ela só conhecia por nome, guiando-se através de seu GPS que podia ou não ser confiável, para salvar um garoto que, até algumas semanas atrás, não era nada além de um ídolo virtual.

Loucura.

Contudo, que mais poderia ter feito depois de ouvir Sirius no telefone?

Ele parecia desolado, estava desolado e o aperto no peito dela aumentou ainda mais quando escutou seu breve relato do ocorrido.

As coisas saíram do controle aqui em casa... — Dissera Sirius. — E eu acabei sendo culpado, como sempre. — E sua voz estava desmedidamente engrolada, indicando o teor alcóolico em sua corrente sanguínea. — Saí de casa, Lily... eu não tenho para onde ir. Teria pedido a ajuda de James ou Peter, mas nenhum deles atende... acho que estão ocupados com a festa, não devem ter visto... eu preciso de ajuda, Lily e não consegui pensar em qualquer outra pessoa além de você.

Fora o que bastara para que, em menos de uma hora e quarenta minutos – depois de separar Marlene do garoto-Mutano e dizer para ela que iria embora, só para ver a amiga dar de ombros e continuar beijando-o logo em seguida – ela estacionasse em frente a uma pequena praça circular que, segundo o GPS, ficava bem no centro de Godric's Hollow. Sirius estava lá, sentado em um banco, uma mochila estufada do lado. Quase não havia movimento, exceto por um casal de jovens que se beijavam há vários metros de distância.

A cena em si já seria desoladora o suficiente, mas, ao descer do carro para encontrá-lo, Lily o viu. A quantidade de expressões sujas que escaparam de sua boca faria Helena Evans ficar com os cabelos em pé. Ela não conseguia decidir se sentia mais tristeza ou raiva ao se aproximar de Sirius e sentar ao seu lado no banco úmido da chuva do dia anterior.

Ela não disse absolutamente nada quando o puxou para um abraço, sentindo-o soluçar contra o pescoço dela, desolado. Lily sentiu lágrimas de raiva descerem por seu rosto também, imaginando quem teria sido o monstro a fazer uma coisa daquelas com o Sirius, pensando em mil maneiras de se vingar.

Eles ficaram por vários minutos em silêncio, apenas abraçados enquanto Sirius desabafava em forma de choro. Lily nunca pensou que fosse vê-lo daquela maneira... Sirius sempre fora tão divertido, engraçado, tão de bem com a vida... e não o tipo de pessoa que chorava desolada como ele estava fazendo.

— Parece que você é uma super-heroína mesmo. — Foi a primeira coisa que ele disse quando, finalmente, se recuperou do choro. Sirius ergueu os olhos para ela, sorrindo, embora não chegasse até os olhos, e indicando as vestes de Lily.

Ela baixou os olhos, deparando-se com sua fantasia de Estelar.

— Eu estava em uma convenção de Cosplayers. — Disse e deu de ombros. — O que aconteceu com você, Sirius?

Ele suspirou e fechou os olhos, deixando ainda mais à mostra o grande vergão roxo-esverdeado que havia no lado esquerdo de seu rosto.

— É uma longa história. Mas a gente pode conversar em outro lugar. — Ele disse e então voltou a abrir os olhos, olhando por cima dos ombros em direção à uma rua lateral. — Antes que alguém me encontre.

— Estão te procurando? — Ela perguntou, já se erguendo de onde estivera sentada, puxando a mochila dele de cima do banco enquanto o observava se levantar, parecendo meio zonzo. — Sirius, você andou bebendo?

— Não. — Ele disse. — Quando bebi eu não estava andando.

Rolando os olhos para o garoto, Lily segurou-o pela mão, puxando-o sem qualquer cuidado em direção ao carro. Acompanhou-o até a porta do carona, abrindo-a e ajudando-o a subir, antes de voltar para o lado do motorista e jogar a mochila de Sirius em direção ao banco de trás. Quando, enfim, estavam com os cintos colocados e Lily deu a partida no carro, Sirius acabou caindo no sono, deixando-a resignada e extremamente curiosa.

Ela voltou a dirigir pela estrada movimentada que ia de Hogsmeade até Godric's e, de lá, até Londres, só que sem ligar o rádio para não acabar acordando o garoto. Ele estava péssimo. Além do vergão em seu rosto, havia sinais de agressão em suas roupas, rasgadas nas mangas e, também, um grande roxo em seu pescoço e um avermelhado em sua bochecha direita. Sirius Black parecia um show de horrores.

Fazendo uma acrobacia para pegar um casaco de Petunia do banco de trás sem parar de dirigir, Lily cobriu-o quando o viu estremecer.

No silêncio da noite, tudo o que Lily conseguia fazer, além de se concentrar na estrada era, também, imaginar-se atropelando um a um dos familiares de Sirius, amaldiçoando até a última geração daquele espécime monstruoso.

Como podiam ter feito aquilo com ele? Por quê? Qual era o problema daquela gente? Eram perguntas para as quais, infelizmente, não tinha respostas. Pelo menos não até Sirius acordar.

Somente quando ela parou em um posto de gasolina, quarenta minutos depois de ter saído de Godric's, é que Sirius acordou. Ele parecia meio desorientado no início, encarando-a cheio de confusão. Mas não demorou muito até que ele compreendesse. Uma expressão de dor varou por seu rosto, fazendo com que Lily sentisse, pelo que parecia ser a milésima vez naquele dia, o peito apertar.

— Fique aqui, vou abastecer e comprar algumas coisas. Não se mova. — Ela disse, incisiva, antes de descer no carro.

Lily estava tão preocupada que sequer percebeu que o caixa estava rindo de suas vestes ou que as pessoas a encaravam com estranheza. E daí? Havia coisas mais importantes nas quais pensar, como, por exemplo, o que havia acontecido com Sirius.

— Certo, agora que você acordou, quero saber que diabos está acontecendo. — Lily disse assim que estavam na rodovia novamente.

Ajeitando-se no banco e segurando o pacote de gelo contra o rosto, Sirius voltou-se para ela, respirando fundo antes de começar a contar sua trágica, porém nada nova, história.

— Bem, como você deve saber, não houve noivado entre minha prima e o ex da sua irmã. — Ele disse. — E, como era previsível, minha família ficou furiosa. Encararam isso como grande desonra, sabe? "Como Vernon Dursley foi capaz de negar um casamento que seria um sucesso junto de Bellatrix Black?" Era o que eles se perguntavam e esbravejavam, mesmo depois de dias terem se passado depois da janta para a qual Vernon não compareceu. Claro, Bella estava exultante, afinal estava livre para voltar para o seu tão amado Rodolphos, contudo meus tios e meus pais, ah... nada bom. — Ele abriu a garrafa de água, tomando alguns goles antes de voltar a falar. — O clima ficou péssimo e, como sempre acontece, Regulus decidiu que era um ótimo momento para chamar atenção. Ele se envolveu em uma briga na semana passada, na saída de uma boate gay de Londres. No dia seguinte, bebeu demais e acabou pichando algumas casas por lá... os policiais não foram nada amigáveis com ele e acabou sobrando para o meu pai ir resgatá-lo. Hoje, quando ele recebeu a ligação da delegacia, ficou furioso, pois, "como os policiais ousavam prender o filho de um grande empresário como ele?". — Lily bufou diante de tal afirmação, mas pensou que não deveria se surpreender, afinal nem era novidade ver gente rica se achando melhor do que todo o resto. A cada segundo, detestava ainda mais os pais de Sirius. — Quando eles chegaram em casa, foi horrível... minha mãe tentou defender o meu irmão enquanto meu pai bebia e brigava com ele... — Suspirou. — Eu me meti, porque a coisa estava ficando feia para Regulus e, bem... — Deu de ombros e apontou para si mesmo.

— Mas ele te bateu só porque sim? — Lily apertou as mãos no volante, os nós em seus dedos ficando brancos e ressaltados enquanto se controlava para não acabar socando alguma coisa. A vontade que sentia era de voltar até Godric's só para dar uma surra no pai de Sirius por ter ousado em levantar a mão para ele. — Ou teve algo a mais?

Lily percebeu quando o amigo hesitou, deixando bastante óbvio que tinha sim algo a mais.

— Eu viajei várias horas para te salvar, Sirius, o mínimo que mereço é a verdade. Quero ter todos os motivos para poder odiá-los livremente. Anda, abre a boca.

— Sempre tem algo a mais, para falar a verdade.

Sempre tem... Por Vader, Sirius, você está querendo me dizer que essa não foi a primeira vez que ele te bateu? — Lily, sabendo que não conseguiria se controlar, deu sinal e desviou o carro para o acostamento, estacionando lá. — Está me dizendo que ele já fez isso antes e que mesmo assim você continua voltando? Pela força, Sirius, que merda você tem na cabeça?

— James ficaria orgulhoso se te visse falando agora. Ele repete o mesmo há anos para mim. — Sirius disse e então respirou fundo, gemendo ao sentir a pele inchada repuxar sobre o seu olho. Lily fez uma careta. — Não vou tentar te convencer do porquê de eu ter ficado lá por tanto tempo, pois confesso que nem para mim faz muito sentido, é só que... Regulus é meu irmão, Lily, eu o vi crescer, eu... só não queria que ele acabasse desse jeito. Aparentemente, todo meu esforço foi em vão. — Suspirou fortemente. — Meu pai acha que eu sou o culpado pela "desestabilização emocional" do meu irmão, sabe?

— E por que ele diria um absurdo desses? — Lily resmungou, irritada.

— Porque ele acha que sou gay. — Sirius disse, simplesmente, como se aquela resposta esclarecesse tudo. Mas não esclarecia. Deve ter ficado bastante visível a confusão de Lily, pois Sirius prontamente acrescentou. — Ele acha que o fato de Regulus ter se ligado a Voldemort, que tem esse pensamento totalmente homofóbico, é porque eu sou gay.

— Mas você não é gay, você é bissexual! E isso é ridículo!

— Não para ele, Lily. Bissexual é um conceito muito difícil para que uma pessoa com a mentalidade de meu pai compreenda. Ele acha que, a partir do momento que eu beijei um menino, sou gay. — Rolou os olhos. — Ele costuma dizer que Regulus faz o que faz porque sente necessidade de extravasar a raiva, o dano psicológico causado após o irmão mais velho dele ter decidido fazer algo tão "errado".

— Isso é ridículo! — Ela repetiu, abismada com o absurdo que estava ouvindo.

— Sim. — Sirius disse e sorriu, irônico. — Eu sei disso, Lily, sério. Meus pais têm essa mania de culpar as pessoas pelos erros deles. Não gostam de admitir que estão errados, então, para eles, foi muito mais fácil jogar a culpa nas minhas escolhas pelo mal comportamento de Regulus, ao invés de admitirem que foram péssimos pais. — Deu de ombros. — Sempre foi assim. É assim. Vai continuar sendo assim.

— Você não vai voltar para aquela casa. — Lily disse, revoltada, encarando-o firmemente. — Sirius Black, você jamais vai voltar a colocar os pés naquela casa, está me ouvindo? — Lily inclinou-se para ele, tirando o cinto de segurança para poder se mover melhor, deixando seu rosto a centímetros do de Sirius. — Você vai me prometer que não vai voltar lá ou eu juro por Vader que vou te amarrar no meu quarto e você nunca mais vai ver o sol.

Achando graça do comportamento extremamente protetor de Lily, Sirius riu, esticando a mão e segurando a dela entre as suas.

— Eu prometo, Lily, que não vou voltar mais lá. — Ele disse e então ficou sério, seus olhos desfocando-se levemente enquanto parecia perdido em pensamentos. — Não volto mais. Nunca mais.

Eles ficaram em silêncio enquanto se encaravam. Sirius acariciava os dedos de Lily entre os seus enquanto ela o observava cheia de tristeza. Odiava vê-lo daquele jeito. Odiava pensar no que ele havia passado e não poder fazer nada. Odiava a família de Sirius.

— Obrigado. — Sirius finalmente disse, quebrando o silêncio, encarando-a com os olhos cinzentos marejados. — Você não tinha nenhum motivo para ir até lá me salvar, mas mesmo assim você foi.

Rolando os olhos para ele e limpando uma lágrima que escapava de seu olho, Lily bufou.

— É claro que eu tinha motivos, Sirius Black! Afinal para quê mais os amigos servem se não para salvar a pele de amigos estúpidos que parecem adorar se meter em confusão? — Estreitou os olhos e apontou para ele. — Não me insulte!

Pegando-a desprevenida, Sirius puxou-a para um abraço, apertando-a fortemente contra si. Lily pode perceber toda a gratidão provinda dele, o sentimento de alívio e confiança que, naquele momento, se firmava entre eles. E, novamente, os dois choraram.

— É melhor pararmos com isso antes que acabemos alagando o carro. — Sirius resmungou, afastando-se de Lily e fungando. — Que coisa mais ridícula.

— Você está cheio de glitter. — Lily disse, encarando-o e percebendo que parte de sua maquiagem havia ido parar no rosto e pescoço de Sirius.

— É para combinar com a minha personalidade naturalmente ofuscante.

— Idiota. — Lily resmungou, mas sorria, e então voltou a colocar o cinto, ajeitando-se e se preparando para voltar a dirigir. — Certo, vamos logo com isso. Eu preciso urgentemente de um banho. E, por Vader, você também.

— Obrigado. — Ele reclamou, mas concordou e então Lily voltou para a estrada, sentindo-se levemente ansiosa por causa da escuridão. Eles voltaram a ficar em silêncio, Lily tentando se concentrar na estrada enquanto Sirius massageava o rosto com o pacote de gelo.

Ficaram por quinze vinte minutos sem trocar muitas palavras, apenas comentando uma coisa ou outra sobre a estrada ou algum carro que passava por eles.

— Desde quando? — Lily finalmente perguntou o que a estava corroendo de curiosidade.

Parecendo entender a pergunta dela, Sirius meneou a cabeça, relembrando.

— Fazem uns dois anos. — Ele disse.

— E você contou que era bissexual para eles? Assim, do nada?

Sirius riu para ela, divertido.

— Tenho certeza de que tive mais tato do que você, ruiva. — Ele disse, fazendo-a corar. Sirius fechou os olhos, como se estivesse tentando lembrar de coisas muito dolorosas. — Eu sempre soube que gostava de garotos também, na verdade. Não foi uma novidade para mim. Mas nunca senti necessidade de falar sobre aquilo para os meus pais.

— E o que te fez mudar de opinião?

Sirius olhou através da janela, para a estrada.

— Remus.

— Re... Como assim? — Lily lançou um olhar inquisidor pelo canto do olho, assustando-se levemente quando o GPS bradou "vire à direita daqui 200 metros". — O que o Remus tem a ver com tudo isso, Sirius?

— Nós estávamos namorando. — Sirius disse, por fim, fazendo-a ofegar de surpresa.

— Vocês...? Meu Vader, eu não estava preparada para esse tiro a essa hora da noite, pela força...

— Você consegue mesmo alegrar até a história mais triste, hm? De qualquer forma, Remus e eu estávamos namorando. Não fazia muito tempo e não tínhamos contado para ninguém, nem mesmo para James e Peter, embora, é claro, eles desconfiassem. Remus e eu éramos... principiantes, você pode dizer, nesse negócio de namorar meninos. Então não queríamos chamar atenção para nosso relacionamento.

— Então... vocês estavam namorando quando estrearam os canais de vocês? — Lily não conseguia processar toda aquela informação, sentindo-se aturdida diante da novidade.

— Sim, estávamos. Você sabe, criamos nossos canais e o The Marauders um ano depois de James começar com o dele... As coisas estavam ótimas, parecia que tudo estava dando certo... até que meus pais nos viram, juntos, na minha casa. — Sirius estremeceu, lembrando-se do horror que sentira ao ver a expressão no rosto de seu pai. — Eles surtaram. E então acabei admitindo que era bissexual. Ninguém conseguia acreditar... foi péssimo. Lembro das palavras de meu pai até hoje, posso, inclusive, recitá-las..., mas eu não me senti ofendido ou tocado, pois estava acostumado com aquele tipo de tratamento provindo de Orion Black... mas para Remus foi... difícil.

— É por isso que ele tem tanto medo de se assumir? — Lily perguntou, imaginando toda a cena, pensando em como Remus e Sirius deveriam ter se sentido ao ouvirem as barbáries que certamente o pai monstruoso de Sirius deveria ter dito.

— Eu imagino que sim, Lily, mas não saberia dizer com certeza. Ele não estava acostumado com aquele tipo de tratamento, principalmente vindo de meu pai que, incrivelmente, sempre o adorara. Mais do que eu, inclusive. Para ele, receber tanto ódio de alguém que toda vida o adorara, foi complicado. Imagino que deva ter passado pela mente dele que se até alguém que o adorava podia começar a odiá-lo por causa de sua "condição", qualquer um também poderia. Remus sempre foi muito inteligente e ótimo conselheiro, exceto quando o assunto envolvia a si mesmo. Ele nunca soube lidar com a rejeição... principalmente depois que a mãe dele fugiu de casa quando ele era ainda criança.

— Eu não sabia disso.

— Foi uma época complicada. Ele tinha oito anos e ela foi embora, nunca mais o procurou ou qualquer coisa. O pai dele, Lyall, teve de cria-lo sozinho, o que foi complicado, pois ele precisava trabalhar para sustentar a casa e por conta disso, Remus passava grande parte da infância na minha casa ou na casa de James. Ele não fala muito sobre isso, mas sei que se culpa até hoje pela mãe tê-lo abandonado.

— É ridículo ele pensar uma coisa dessas! Se ela foi embora, que culpa ele pode ter? Por Vader, isso é...

Eu sei, Lily, eu sei. — Sirius suspirou. — De qualquer forma, foi difícil para Remus lidar com a rejeição de meus pais. Apesar de tudo, eles o haviam aceitado quase como parte da família. Tratavam-no como se fossem um filho, melhor do que eu, inclusive. — Ele riu. — Poucas semanas depois, Remus aceitou uma proposta em Londres para uma campanha publicitária e então foi morar lá. Nós terminamos e nunca mais tocamos no assunto... até algumas semanas atrás, quando James se mudou para Hogsmeade e Peter foi para o Brasil. Acabamos ficando apenas nós dois na casa dele, em Londres.

— Você sabe que isso daria uma ótima fanfic, não sabe? — Lily brincou, tentando transformar o clima melancólico em algo mais leve. — Inclusive posso pensar em algumas coisas +18 para colocar, uma briga e uma reconciliação bastante quente, por exemplo...

Não conseguindo resistir, Sirius gargalhou, rolando os olhos para ela.

— Deus, você é louca!

— Obrigada. — Ela disse e piscou para ele, sentindo-se aliviada ao ouvir o GPS informar que faltavam poucos quilômetros até chegar em Hogsmeade. — Seus pais não merecem o filho maravilhoso que você é, Sirius. — Ela disse, fazendo-o parar de rir. — Eu gostaria de voltar a Godric's Hollow e dizer isso para eles, mas preciso mudar de roupa antes, porque não acho que eles irão me ouvir vestida de Estelar, embora eu esteja realmente gata assim.

— Você é maravilhosa, Lily! — Sirius comentou e tomou mais um pouco de água. E então sorriu, malicioso. — Não me impressiona que James esteja caído por você.

O fato do carro ter quase afogado não tinha ligação nenhuma com o nervosismo que atingiu Lily naquele momento, fazendo-a suar e corar fortemente. Claro que não.

— Ah...

Ah...? Não seria "oh, James, isso!" que você queria dizer? — Sirius disse, a voz trêmula do riso que tentava ocultar.

— Cale a boca, Sirius Black. — Lily bufou, irritada, sentindo o calor emanar de seu rosto de modo constrangedor. — Cale a maldita boca.

— Foi isso que você disse para ele antes de beijá-lo? — Sirius parecia desmedidamente divertido com toda a situação e Lily precisou lembrar-se de que ele já estava machucado o bastante e que não deveria socar o seu rosto. — Ei, não fique irritada. Eu estou brincando. Vocês ficam fofos juntos.

— Fica fofos... — Lily bufou, apertando as mãos no volante.

— E a Emmeline? Era assim o nome dela né? Da menina com quem você estava saindo?

— Não rolou. — Lily disse, sentindo-se levemente aliviada pela mudança de foco. — Eu fui no encontro, mas percebi que não iria acontecer entre nós duas.

— E ela?

— Aceitou. Emme é uma pessoa desmedidamente lega, ela merece alguém bacana. — Ela falou, lembrando-se carinhosamente da menina que havia mexido com ela pelas últimas semanas. — Talvez ela e Guga fiquem juntas. Seria legal.

— Guga?

— A vizinha, você sabe?

— Ah, a louca do punk da casa ao lado? Ela é bem divertida. Não sabia que ela e a Emmeline...

— Ainda não. Eu acho. Espero que elas fiquem juntas. — Lily disse e então suspirou. — Sirius, você tem a chave da casa do James? Ou algum outro lugar para o qual possa ir? Porque eu não posso te levar para casa, as coisas por lá estão bastante péssimas e não acho que levar um bêbado espancado possa ajudar muito as coisas.

— Que gentil. E não, eu não tenho a chave. James quis me dar, mas acabei esquecendo de pedir antes de ir embora.

— Merda. — Lily reclamou, imaginando o que diabos faria. Talvez pudesse ligar para Alice e perguntar se podia leva-lo para o apartamento de Frank..., mas já era meia noite e Lily tinha certeza de que eles dois deveriam estar ocupados. Marlene era outra que não iria servir para muita coisa, afinal ela, com certeza, já estava em algum lugar se agarrando com o Mutano longe dos olhos curiosos.

— Vou tentar ligar para ele. — Sirius disse e, puxando o celular, discou para "Prongs". Ele não atendeu. Sirius repetiu a ligação e nada. Então ele tentou ligar para Peter que também não atendeu.

— Por que você não tenta ligar para o Remus? — Lily indagou, mesmo sabendo a resposta.

— Não. — Sirius disse, incisivo. — Durmo na rua, mas não ligo para ele.

— Sério, Sirius? Vai ser orgulhoso agora? — Lily suspirou e então ultrapassou a entrada da cidade, sentindo o alívio espalhar-se pelo seu peito ao saber que havia conseguido.

Eles continuaram em silêncio enquanto Lily dirigia pela cidade, costurando entre as ruas conhecidas, imaginando o que diria para sua mãe quando chegasse com um Sirius Black totalmente espancado em casa.

Talvez ele pudesse dar um daqueles sorrisos fofos que ele tinha e, assim, Helena nem perceberia o estado de seus ferimentos. Não que ela fosse julgá-lo, claro que não. Mas Lily imaginava que Sirius não iria querer um inquérito e uma provável ligação de Helena para os Black por culpa daquele acontecimento. E, embora Lily adorasse imaginar a mãe xingando Orion Black, sabia que não seria produtivo.

Estava prestes a falar para Sirius que ele precisava ser muito simpático, quando percebeu que, mais uma vez, o garoto havia dormido. O pacote de gelo estava caído em seu colo e ele tinha o lado direito do rosto grudado no vidro. Suspirando, Lily ajeitou novamente o casaco sobre ele e então estacionou alguns metros antes de sua casa, sem querer que algum dos Evans a visse antes que decidisse o que fazer.

O celular de Sirius tocou antes que ela terminasse de debater internamente, fazendo-a se assustar.

Ela pegou, reconhecendo o Prongs na imagem. Sem pensar no constrangimento que seria falar com ele depois do que havia acontecido entre eles, Lily atendeu.

— Alô? — Ela disse, contudo não houve resposta. Ela afastou o telefone levemente do ouvido, encarando a tela para ter certeza de que a ligação ainda estava em andamento. Estava. — Alô? James?

Lily? — A resposta veio repleta de surpresa. — O que você está fazendo com o celular do Sirius? Você está em Godric's Hollow? O que...?

— É uma longa, longa história, James. Mas nós não estamos mais em Godric's.

Não estão mais... E vocês estão onde? — James parecia devidamente atordoado e Lily pegou-se imaginando se a expressão dele estaria tão fofa quanto a que ela tinha em mente. Corou.

— Acabamos de chegar em Hogsmeade. Estamos na rua de casa, mas... o Sirius não está bem, James e eu não sei se é uma boa ideia levá-lo para a minha casa... não com o clima que está lá.

Foi o pai dele? — A pergunta simples de James indicava que ele havia entendido perfeitamente o que Lily quisera dizer com o "não está bem".

— Foi. — Lily concordou, sem adicionar mais nada.

Certo. Estou indo aí, espere só...

— Mas, e a sua festa, James? E...

Sirius é mais importante do que isso. Daqui a pouco vou estar aí, Lily, me espere na frente. — E, sem dizer mais nada, desligou.

Ela não precisou esperar muito antes de ver o táxi estacionar em frente à casa de James. Dando partida no carro, dirigiu os poucos metros até estar um pouco mais para a frente de onde James, Peter e Remus haviam descido, tentando ficar longe de onde os olhos de sua mãe pudessem-na ver.

Lily abriu a porta e desceu, sentindo o frio noturno atingi-la. Estremeceu. E então se deu conta que estava usando uma fantasia curtíssima de uma personagem super chamativa e que James, Peter e Remus não deveriam estar entendendo absolutamente nada. E foi assim que mais um vexame foi adicionado em sua lista quilométrica de humilhação pública.

— Eu estava em uma Convenção de Cosplayers. — Ela disse sem dirigir-se a um deles especificamente. — Mas isso não entra em questão. — Acrescentou, rapidamente, querendo evitar qualquer comentário sobre a situação já bastante constrangedora. — Sirius está dormindo no banco do carona. Eu não consegui acordá-lo, mas quem sabe um de vocês tenha mais sorte do que eu. — Ela disse então, finalmente, ergueu os olhos para encará-los.

Peter e Remus estavam claramente contendo-se para não cair na gargalhada, enquanto James ria abertamente. Lily rolou os olhos para ele, cruzando os braços sobre o peito.

— Sabe, o amigo de vocês está realmente péssimo e vocês estão aí, rindo feito idiotas. Que feio. — Estreitou os olhos para eles, fazendo-os aquietarem-se.

— Vou tentar acordá-lo. — Remus prontificou-se, fazendo a volta no carro de Lily e abrindo a porta do carona.

— Aqui, ruiva. — Peter, pegando Lily completamente de surpresa, retirou o casaco que estava vestindo e colocou sobre os ombros dela, fazendo-a corar. — Deve estar com frio.

— Obrigada. — Lily agradeceu, tentando ignorar o tom irônico na voz dele e recebendo uma piscadela do garoto em resposta. Peter adiantou-se para o portão da casa de James, abrindo-o e direcionando-se para a porta da frente logo em seguida.

E então, Lily e James estavam sozinhos na calçada, encarando-se estranhamente, como se fossem estranhos. Só que, depois do dia anterior, eles eram tudo, exceto estranhos. Ela abriu e fechou a boca diversas vezes na tentativa de falar alguma coisa para ele, mas nada saiu. James também parecia estar tendo dificuldades para falar, portanto foi um alívio muito grande quando Sirius finalmente acordou e desceu do carro – recusando a ajuda de Remus para caminhar, embora estivesse obviamente zonzo.

Toda a confusão e constrangimento por estar perto de James evaporou assim que a luz do poste recaiu sobre Sirius, iluminando seus hematomas e deixando bastante clara a extensão de seus ferimentos. A raiva efervesceu dentro de Lily, fazendo-a cerrar os punhos.

— Sirius, o que... ele foi longe demais! — James disse, adiantando-se para o amigo e aparando-o pelos ombros. Resmungando vários palavrões que deixaram Lily satisfeita, James escoltou Sirius para dentro, deixando Lily e Remus para trás.

— Se quiser, posso entrar com o carro na garagem, Lily, eu estou com o controle do portão. Já que não quer que sua mãe saiba onde está... — Remus, que estava com uma expressão tão raivosa quanto a dela, ofereceu. Ela assentiu, esticando a chave para ele que prontamente entrou e começou a manobrar. Respirando fundo, Lily entrou na casa, fechando a porta atrás de si.

— O que houve com ele? — Foi Peter quem perguntou. Ele estava encostado no corrimão da escada, aparentemente esperando-a. Sua expressão era cheia de preocupação e angústia.

— Regulus entrou em uma briga, foi preso, o pai dele teve de interferir e acabou brigando com ele... Sirius se meteu na briga e acabou sobrando para ele. — Lily resumiu, sabendo que estava deixando muita coisa de fora, contudo, tinha certeza de que não conseguiria falar sobre aquilo novamente sem acabar entrando em depressão. Sem falar que aquela história não era dela para que ela contasse. Sirius deveria contar se assim o quisesse.

— Nenhuma novidade. — Remus, que havia ouvido as últimas palavras de Lily enquanto saía pela porta que dava para a garagem, suspirou. Tinha as mãos cerradas, assim como Lily alguns minutos atrás. Ela se surpreendeu com a intensidade de sentimentos que sua expressão emanava: ele estava possesso. — Eles estão lá em cima? — Remus perguntou e, com o aceno positivo de Peter, ele passou por Lily e o garoto, subindo as escadas em um rompante.

— Ah, que maravilha. Mais um pouco da novela wolfstar. — Peter resmungou, começando a subir em direção às escadas, atrás de Remus. — Você vem? É melhor que novela mexicana, juro. — Peter disse, voltando-se para Lily, irônico. — É um espetáculo.

Respirando fundo, sabendo que estava prestes a presenciar o que, segundo o relato de Peter, poderia ser o início de uma Guerra nas Estrelas, Lily subiu de dois em dois degraus, acompanhando o garoto até a quarta porta no corredor à direita.

Num breve olhar, Lily percebeu que aquele deveria ser o quarto no qual Sirius ficava, pois haviam alguns pôsteres e objetos que ela já havia visto de relance em seus vídeos. James estava em pé no lado direito da cama onde Sirius estava sentado, recostado em vários travesseiros. Com uma mão, ele segurava o pacote de gelo que Lily havia comprado e, com a outra, afastava os cabelos do rosto, deixando ainda mais à vista os machucados em meio à sua expressão entediada.

Remus caminhava de um lado para o outro no quarto, bufando e resmungando cada vez que erguia os olhos e encarava Sirius.

— Que merda, Sirius!

— Não posso concordar mais. — Sirius assentiu, fazendo uma careta de dor por conta do movimento.

— Que merda! Como você... por que você...? Merda. — Remus não falava nada com nada, respirando forte e fechando os punhos como se tentasse se controlar para não acabar batendo em alguém.

Lily achou bastante desconcertante vê-lo tão furioso, levando em consideração que, aparentemente, Remus era o mais calmo dos garotos. Era ainda pior vê-lo furioso, do que lembrar de sua expressão na primeira vez que a vira, quando estava obviamente com ciúmes.

— Remus, está tudo bem agora. Não precisa...

— Está tudo bem? ESTÁ TUDO BEM? — Remus praticamente berrou, parando de andar e voltando-se de frente para Sirius. — Quantas vezes falamos para você não ir para aquela casa? Quantas vezes tentamos te convencer de que era perda de tempo? E mesmo assim você foi lá e fez essa burrice mais vezes do que eu posso contar. Isso é estupidez, Sirius! E NÃO ESTÁ TUDO BEM! Como pode estar? Olha o seu estado! Que merda você estava pensando em ir para lá, sabendo como eles são? Que merda você... você não aprende mesmo! — Ele bradava, o rosto vermelho de fúria.

— Remus, não tem porquê... — James, que estava apreensivo, começou a falar, mas novamente o amigo explodiu.

Tem porquê sim, James! Olha só para ele! Olha o que ele insiste em fazer consigo mesmo! Ele sabe como aquela família é, sabe como eles reagem, sabe como eles adoram culpa-lo por qualquer coisa errada que exista no mundo e ainda assim insiste em ir para lá! Isso é idiotice! Ele não precisa passar por isso! Agora a Lily precisou ir atrás dele, viajando de noite, sozinha na estrada, para trazê-lo até aqui! Daqui uma semana ou mais, com sorte, ele vai fazer a mesma merda de novo e nós vamos ficar como os panacas aqui, aguardando para ver qual vai ser o próximo hematoma! Isso é ridículo!

— E você sugere que eu faça o quê, exatamente? — O tom de Sirius, que segundos antes estava cansado, mudou totalmente para uma perigosa ironia. — Me esconda como você? Finja que não sou o que eu sou? Evite vê-los por anos para evitar problemas? Quer que eu seja um covarde, Lupin?

Remus parecia ter levado um tapa na cara.

— Não, Sirius, eu apenas queria que você tivesse um pouco mais de cérebro e parece de agir como um idiota. — Ele retrucou, irritado. — Toda vez que você ouve o nome de Regulus sai correndo para tentar salvá-lo, como um herói... e nunca consegue. Você está tão focado em salvar o seu irmão, tão focado na vida dele que está esquecendo da sua vida! Fica aí, agindo como um mártir, querendo que todo mundo sinta pena de sua provação, mas não faz merda nenhuma para mudar isso. — Remus jogou as mãos par ao alto, bufando. — Pobre Sirius, tão pobrezinho, cheio de problemas, tendo que lidar com um irmão problemático... Coitado do Sirius, tão solitário! Ah, me poupe!

EU AGINDO COMO UM MARTIR? EU? — Sem conseguir se conter, Sirius se ergueu dos travesseiros, segurando-se na cabeceira da cama para se firmar, encarando Remus cheio de raiva. — Tem certeza de que estamos falando de mim, Lupin? DE MIM? Sério? Porque eu conheço uma pessoa que adora se fazer de mártir, de lobo solitário... e essa pessoa é você!

— Isso é ridículo! — Remus esbravejou, se aproximando de Sirius. — Quem você pensa que é, Sirius Black? Pelo menos eu não ando me jogando em cada problema que aparece na minha frente só para que as pessoas vejam o quanto sou heroico e abnegado, deixando de fazer as coisas por mim para ajudar os outros... sendo que, no fundo, o que eu sinto é medo de fazer as coisas e acabar me dando com a cara na parede.

Medo? Eu acho que está havendo uma inversão por aqui, Moony, querido. — Sirius inclinou a cabeça, estreitando os olhos para encará-lo.

Para Lily parecia como se os dois agissem como se fossem os únicos no quarto. Ela sentiu-se uma intrusa no meio da discussão, mas como nem Peter e nem James fizeram menção de sair do quarto, Lily imaginou que não seria bom atrair atenção para si mesma ao sair dali. Fora que Sirius tinha a expressão meio esverdeada e, caso ele se sentisse mal ou desmaiasse, talvez fosse bom que houvesse mais pessoas por ali para ajudá-lo.

— Sim, Padfoot, medo. — Remus riu, sarcástico. — Fica tanto tempo aí, falando para mim que eu sou um covarde quando, na verdade, o único covarde daqui é você!

— Remus... — Peter começou a falar, mas Sirius adiantou-se.

— Oh, então eu sou o covarde? Sério? Por quê, exatamente, Remus? Porque eu admito para os meus amigos e a minha família o que eu sou, de fato? Porque eu não preciso sair com várias garotas apenas para afirmar uma mentira? Porque eu prefiro falar o que eu sinto ao invés de me esconder e fingir ser algo que eu não sou? É por isso que sou covarde?

— Não, Sirius, não é por isso. Você é covarde porque morre de medo de admitir que tudo o que mais quer na vida não é salvar o "Regulus em perigo", mas sim a aprovação de seus pais.

Um silêncio mortal recaiu sobre o quarto enquanto Sirius e Remus se encaravam, absortos. Lily podia jurar que o ar em sua volta se tornou gelado, portanto ela apertou ainda mais o casaco de Peter contra o corpo, sem conseguir desgrudar os olhos da cena que se desenrolava a sua frente.

Antes que pudesse pensar, Sirius atirou-se para a frente, errando por muito pouco um soco em direção ao rosto de Remus. Peter e James adiantaram-se, Peter segurando Remus pelos ombros enquanto James levava Sirius novamente para a cama.

— ME SOLTA! — Remus reclamava, remexendo-se entre o abraço férreo de Peter.

— ME DEIXA, JAMES! — Sirius tentava se desvencilhar do amigo, mas estava fraco demais, cansado demais para conseguir.

— Que coisa mais ridícula! — As palavras escaparam da boca de Lily antes que ela pudesse contê-las. Como sempre. Todos os quatro, como se combinados, voltaram-se para encará-la. — Vocês dois, adultos, agindo feito uns imbecis, que vergonha! E pensar que eu admirava vocês dois, por Vader, que ridículo! Duas crianças, é isso que vocês são! Duas crianças mimadas e que não sabem quando parar de fazer birra! Ficam aí, esbravejando um para o outro enquanto tem coisas muito mais importantes a se fazer, como, por exemplo, pegar outro pacote de gelo para colocar no rosto de Sirius ou, quem sabe, discutir qual vai ser a medida certa a tomar agora que Sirius está a salvo levando em consideração que, obviamente, ele sofreu um abuso inadmissível por parte dos pais durante anos. Vocês poderiam, inclusive, ficarem felizes já que o amigo de vocês está vivo e aqui, ao invés de lá em Godric's sem se comunicar por vários dias enquanto vocês ficavam aqui, apenas se perguntando que diabos estaria acontecendo. Outra coisa muito útil também seria se vocês pudessem parar de ficar se acusando de coisas totalmente insólitas ao invés de se beijarem logo de uma vez porque está mais claro do que a água mais cristalina do universo que vocês se amam e estão com uma enorme tensão sexual envolvendo-os desde o momento em que Sirius saiu daquele carro. Inclusive poderíamos sair daqui, se vocês quiserem, para que vocês possam transar à vontade! — Lily respirou fundo, sentindo o rosto irradiar calor de raiva e constrangimento. — Pelo amor de Vader, parem de fazer isso... vocês estão apenas desgastando uma relação construída há anos. Vocês se conhecem desde sempre, são amigos desde sempre, sabem todos os problemas um do outro, inclusive existem alguns que poderiam ser resolvidos com uma simples conversa! Eu nem os conheço há muito tempo, mas já deu para ver que toda essa merda aí pode ser resolvida se vocês conseguissem ficar pelo menos uns vinte minutos dialogando sem acabar berrando um com o outro. Até a Odette sabe que vocês se gostam então para que ficar adiando algo inevitável? — Ela terminou de falar, ofegante, sentindo-se como se tivesse acabado de correr por vários quilômetros. Olhou de Sirius para Remus, fixando seu olhar mais severo sobre cada um antes de dar as costas e sair do quarto, fechando-a atrás de si.

E, é claro, assim que ficou sozinha, morreu de vergonha pelo surto que havia acabado de dar.

— Vader, Lily, que merda você estava pensando? — Resmungou consigo mesma, escorando-se na parede ao lado da porta pela qual havia acabado de sair, imaginando o que eles poderiam estar pensando depois de ela ter, mais uma vez, estourado na frente dos Marauders.

Peter, por outro lado, encarava a porta pela qual Lily havia acabado de sair, totalmente admirado. Ergueu os olhos para James que parecia tão estarrecido quanto ele.

— Adorei essa garota. — Peter disse simplesmente e então riu, meneando a cabeça ao perceber que ela havia dito exatamente tudo o que ele tentara dizer por anos, em apenas alguns minutos de uma fúria vulcânica. — Eu realmente adorei!

James, recuperando-se de sua surpresa, sorriu para o amigo, sentindo o orgulho se espalhar por seu peito ao pensar na sorte que tinham por Lily ter entrado em suas vidas.

Suspirando, voltou-se para Sirius que estava imóvel sob seus braços.

— Ela tem razão, você sabe. — Ele disse e então soltou o amigo, voltando-se para Remus. — Vocês precisam conversar. — E então, sem dizer mais nada, desviou-se de Remus, caminhando em direção à porta.

— Conversem bastante antes de partirem para os beijos, rapazes. — Peter piscou, sorrindo antes de sair atrás de James.

Percebendo-se só junto de Remus, Sirius sentiu-se frustrado. A irritação que ele sentira segundos atrás esvaíra-se completamente, deixando-o estranhamente vazio e com uma dor de cabeça forte demais.

Gemendo, Sirius voltou a sentar na cama, fechando os olhos enquanto sentia a cabeça latejar.

— Você está bem? — Remus, que se sentia tão desnorteado (e repreendido por Lily), perguntou ao ver o amigo fazer uma careta de dor. — Talvez devesse tomar alguma coisa para isso... ou eu posso pegar gelo e...

Sirius abriu os olhos, voltando a encará-lo. Ele estava exausto, sentia-se como se houvesse levado uma surra em seu cérebro também. As lembranças do dia se amontoavam uma sobre a outra, todas elas fortes demais, pesadas demais para que ele conseguisse suportar. Mas, apesar de sentir-se extremamente necessitado de uma boa noite de sono, Sirius sabia que precisava conversar com Remus.

— Ela tem razão, você sabe. — Ele disse, por fim, enquanto ajeitava-se nos travesseiros. — Sobre nós.

Remus arqueou uma sobrancelha, indagativo.

— Não sobre a tensão, idiota, sobre precisarmos conversar. — Rolou os olhos.

Soltando a respiração que nem sabia estar prendendo, Remus assentiu e então sentou-se na beira da cama, ao lado de Sirius, encarando as próprias mãos, sem saber exatamente como agir ou o que falar.

Os minutos se passaram sem que nenhum deles falasse qualquer coisa. Remus ergueu os olhos para Sirius que o encarava. Ficaram assim, apenas se observando, como se quisessem ler a mente um do outro sem falar nada. E eles conseguiam, afinal de contas.

Eles conviviam há mais tempo do que Remus podia lembrar, estiveram juntos nos piores e nos melhores momentos de suas vidas. Passaram por muita coisa juntos. Realizaram muitas coisas juntos. Até mesmo quando haviam terminado o relacionamento, anos atrás, continuaram a ser amigos, apesar da estranheza inicial. Remus não conseguia imaginar um momento em sua vida que fosse memorável do qual Sirius não estivesse presente. De todas as pessoas que conhecia, Sirius era em quem mais confiava junto de James e Peter. Talvez mais, inclusive. Eles eram melhores amigos, eram parceiros e, por um tempo, até mesmo namorados. Então por que as coisas precisavam ser tão difíceis entre eles?

Parecendo ler seus pensamentos, Sirius riu, rolando os olhos para ele.

— Nós gostamos de complicar as coisas, hm? — Disse e então respirou fundo, passando uma mão pelos cabelos.

— É o que parece. — Remus concordou e então sorriu, sentindo-se cansado. — Fico feliz que esteja aqui, Sirius.

O outro assentiu, concordando com suas palavras.

— Eu também. — Disse.

E então caíram no silêncio novamente, sem saber o que falar.

Porque, a grande verdade, era que não havia o que falar. Eles já haviam falado tudo, milhares de vezes, já haviam admitido sentimentos, já haviam tentado e tentado... e ainda assim, sempre havia alguma coisa para impossibilitá-los.

— Terminei com a Mary. — Remus comentou, após algum tempo, quebrando o silêncio. — Ela me odeia agora. Mas eu falei a verdade.

Sirius, que estava totalmente surpreso com o caminho pelo qual o assunto havia ido, encarou-o, confuso.

— Que verdade? — Ele indagou, sentindo-se estranhamente nervoso.

Remus hesitou por alguns segundos, franzindo o cenho enquanto procurava palavras para falar, mas não havia nenhuma que pudesse transmitir o que ele queria dizer. Encarou Sirius, percebendo seus machucados e sentindo aquele instinto protetor despertar dentro dele novamente, a vontade de protege-lo, e impedi-lo de fazer coisas impulsivas novamente, mesmo que uma parte de si o admirasse pela coragem de fazer aquilo.

— Talvez seja melhor colocar gelo sobre isso. — Remus comentou, a voz rouca.

Sirius ignorou suas palavras, inclinando-se em sua direção para que seus olhos estivessem no mesmo nível.

Que verdade, Remus? — Voltou a perguntar, incisivo.

Sabendo que Sirius não desistiria de receber sua resposta, Remus suspirou, novamente à procura de palavras que pudesse dizer, mas, mais uma vez, nenhuma veio. Contudo, antes que pudesse se controlar, fez a única coisa que poderia exprimir o que era a sua verdade.

Terminando com o espaço que havia entre eles, Remus grudou seus lábios aos de Sirius, suspirando ao sentir o calafrio que sempre percorria seu corpo quando estavam próximos intensificar com o contato. Sirius demorou alguns segundos até conseguir se recuperar da surpresa, mas assim que o fez, retribuiu o beijo, aprofundando-o enquanto erguia as mãos para afundar em seus cabelos.

Ele não saberia dizer por quanto tempo aquele beijo durara, se por segundos ou por horas, contudo, quando finalmente se afastaram, estavam ofegantes.

Sentindo-se renovado, como se não estivesse todo cheio de hematomas, mas sim completamente bem, Sirius sorriu.

— Talvez Lily estivesse certa sobre a tensão sexual também. — Brincou, recebendo um rolar de olhos e um sorriso de Remus como resposta antes de voltar a se beijarem.


Lily terminou de vestir a camiseta azul marinho com os dizeres "It's a police box" e o desenho da TARDIS – que era tão grande que ficava mais comprida do que a fantasia que estivera usando alguns minutos atrás – e encarou-se no grande espelho que havia no banheiro do quarto de James.

Seus olhos verdes estavam enormes e havia um pouco de maquiagem borrada que não saíra completamente com o banho. Ela esfregou os olhos com as mãos, terminando de tirar os resquícios de máscara para cílios, enquanto se perguntava o que estava acontecendo com a sua vida.

Depois de ter dado um chilique e esbravejado com Remus e Sirius, Lily saíra do quarto e, logo em seguida, James e Peter também, deixando-os à sós para que pudessem conversar.

Ainda podia lembrar do sorrisinho que Peter lançara para ela, a piscadela do garoto e ele dizendo "sou seu fã" antes de voltar-se para James e avisar que iria voltar para o Três Vassouras para dar conta da festa.

E, mais uma vez, ela e James ficaram à sós.

— Você deve estar com frio. — Ele dissera em um tom de voz bastante polido.

— Um pouco. — Ela concordara, sentindo um calafrio que nada tinha a ver com o frio percorrer por seu corpo.

— Você não quer tomar um banho? Posso conseguir algumas camisetas para você, se quiser...

— Ah... não... eu, ah, vou para casa eu acho. — Ela respondeu, rapidamente, sem conseguir controlar a coloração avermelhada que tomava conta de seu rosto, deixando-a mais corada que seus cabelos.

— Tem certeza? — James, que parecia estranhamente nervoso, adicionou rapidamente. — Quero dizer, o Remus já entrou com o carro na garagem, seus pais devem estar dormindo e talvez não seja a melhor ideia acordá-los agora, hm? Com as coisas complicadas do jeito que estão na sua casa... a menos que você esteja com a chave, claro, aí não teria problema, pois não teria de acordá-los e...

— Estou sem a chave. — Lily percebeu tardiamente. — Oh, droga. Eu ia dormir na casa da minha amiga, Marley, mas ela... — Meneou a cabeça, lembrando da traição da amiga. — Meus pais me matariam caso eu os acordasse agora. — E não estava mentindo.

— Nesse caso, você pode ficar aqui. — James prontamente disse, parecendo mais do que aliviado ao ouvi-la dizer que não tinha para onde ir. — Tem quartos sobrando se quiser mais privacidade.

Lily encarou-o, segurando-se para não falar que depois de tudo o que haviam feito, não era como ela precisasse de muita privacidade, contudo conteve-se, apenas assentindo.

— Certo. — James disse, sorrindo para ela, deixando-a totalmente zonza. Lily piscou algumas vezes, tentando se recuperar do impacto. — Você pode usar o meu banheiro se quiser tomar banho e trocar essa fantasia. Eu tenho algumas camisetas que podem servir de vestido para você e amanhã você pode pedir para alguma amiga trazer uma roupa para você aqui, caso não queira ir para casa vestindo as minhas roupas. — Ele falou rapidamente enquanto a acompanhava até a porta que ela sabia ser o quarto dele.

Eles entraram e, pela primeira vez, Lily percebeu a decoração.

Era um quarto bastante clean, na verdade. Tons monocromáticos, estourando em cores apenas na prateleira que, para o espanto de Lily, continha mais livros do que os que tinham na sala de estar dele. Como ela não havia reparado naquilo antes, era um mistério. Mas, é claro, da outra vez em que havia estado ali, estivera ocupada.

James, que parecia tão constrangido quanto ela, encaminhou-se para o grande armário que havia na parede, abrindo uma gaveta e puxando uma camiseta de lá. Esticou para ela.

— Aqui, acho que essa pode servir.

— Obrigada. — Ela agradeceu, pegando a camiseta e então eles ficaram em silêncio, encarando-se sem saber exatamente o que fazer a seguir. — Onde é o... banheiro? — Ela perguntou, mas sua voz saiu em um sussurro.

— É por ali. — James respondeu, mas sequer moveu um dedo ou indicou para ela para onde era a porta do banheiro.

Lily sentia como se o ar em volta dos dois estivesse carregado de eletricidade, fazendo-a arrepiar-se ao menor movimento. James estava perto demais, deixando-a zonza somente com a proximidade. E então, como era de praxe nos últimos dias, eles se beijaram.

As mãos de James fecharam-se sobre sua cintura nua, fazendo com que ela um calafrio percorresse por toda extensão do corpo de Lily, deixando-a ofegante. Ela grudou seu corpo no dele, erguendo as mãos e segurando-o pelo colarinho de sua camisa, deslizando a mão direita para a sua nuca, arranhando-o levemente, fazendo-o suspirar.

Eles moviam-se um contra o outro, tão sincronizados que pareciam passos ensaiados, beijando-se, abraçando-se, mordendo-se... até que a grande pedra que havia próxima a gola da blusa de Lily enganchasse na camisa de James, fazendo com que eles ficassem presos de modo desconfortável, um contra o outro.

Rindo da própria desgraça, Lily parou de beijá-lo, perguntando-se quando é que conseguiriam se beijar sem que alguma coisa os interrompesse. Esperava que não demorasse tanto quanto a última vez.

— Sabe, acho que fomos amaldiçoados. — James murmurou, contrafeito, tentando desenroscar o botão da blusa de Lily e falhando miseravelmente.

— Não duvido. — Lily disse, rindo enquanto afastava as mãos de James para que pudesse desfazer o estrago. Com seus dedos mais delicados e finos que os dele, Lily conseguiu se desenroscar sem muitos problemas, afastando-se quando estava livre. — Pronto.

James passou as mãos pelos cabelos, sorrindo de lado para ela.

— Você está bonita. — Falou, surpreendendo-a. E, é claro, ela corou até a raiz dos cabelos.

— Obrigada. — Ela disse e então suspirou, abaixando-se para pegar a camiseta dele que nem lembrava de ter deixado cair. — Você não me disse onde fica o banheiro. — Ela inclinou a cabeça, sorrindo para ele.

— Por ali. — James disse, sorrindo em resposta, indicando uma porta exatamente igual as do armário. — Tem toalhas limpas no armário, pode pegá-las.

Lily assentiu, encaminhando-se para o banheiro e fechando a porta atrás de si, beliscando-se logo em seguida, só para ter certeza de que não estava sonhando. Sorriu ao perceber que não estava.

Quando terminou de se vestir, finalmente voltou para o quarto, sentindo-se muito mais leve agora que estava sem toda aquela camada de maquiagem e glitter cobrindo-a.

James, para a surpresa de Lily, estava vestindo uma calça de moletom e uma blusa exatamente igual a que ela vestia.

— Você gosta mesmo de Doctor Who.

— Gostar é uma palavra muito pequena para expressar o tamanho do meu amor. — James disse, sorrindo para ela enquanto a observava. — Ficou ótima em você.

— É claro, parece que estou usando um cobertor ao invés de uma camiseta, mas está ótimo.

— Um cobertor de muito bom gosto. — Ele piscou para ela e, surpreendendo-a, puxou uma garrafa térmica e duas canecas. — Quer café?

— Sempre tão galante, James Potter. — Lily brincou, caminhando até a cama e sentando ao lado dele. Aceitou a caneca, segurando-a entre os dedos por alguns instantes, aproveitando o calor que emanava da porcelana antes de beber. — Está ótimo.

James piscou para ela, bebericando seu café antes de voltar a falar.

— Obrigado. — Ele disse e então suspirou. — Por ter ido buscar o Sirius. Não vi as ligações, infelizmente, e me sinto um monstro por isso, mas fico feliz que ele pôde contar com você. Tenho certeza de que significa muito para ele, assim como para mim.

— Não foi nada. — Lily disse e deu de ombros.

— Foi muita coisa, Lily... não espero que você compreenda, mas o Sirius, assim como o Remus e o Peter, são como irmãos para mim. Há anos venho tentando tirar Sirius de lá e nunca consegui. E agora você o fez. Não tenho palavras para explicar o quanto sou grato por isso, mas, obrigado. É sério.

Da mesma forma que ocorrera com Sirius, Lily percebeu a gratidão de James apenas com o olhar. Ela sorriu para ele, assentindo e sentindo seus olhos marejarem.

— Foi um dia muito esquisito. — Ela murmurou, meio a esmo. — Mas, e a sua festa, como foi?

— Muito boa, porém bastante esquisita. — James respondeu como ela, fazendo-a sorrir novamente. — E a Convenção de Cosplayers?

— Teria sido ótima se minha amiga não tivesse encontrado um Mutano por lá e esquecido completamente da minha existência. — Rolou os olhos, lembrando-se de Marlene. — Mas, pensando bem, foi merecido. Eu estive ignorando-a bastante nos últimos dias.

— Por quê? — James terminou de tomar seu café, colocando sua caneca sobre a mesinha ao lado da cama, junto com a garrafa térmica.

— Por sua causa, na verdade. — Lily respondeu, lembrando-se da quantidade de vezes que fora obrigada a desligar na cara de Marlene porque James roubava sua atenção.

— Minha? — James parecia bastante contente com a novidade.

— Sim, James, sua. Você ocupou bastante meus últimos dias. — Ela falou e então percebeu que suas palavras poderiam ser interpretadas totalmente diferentes da sua intenção. E, é claro, foi como James as entendeu. — Quero dizer...

— Você ocupou bastante os meus também, Lily. — Ele disse, interrompendo-a, fazendo-a calar-se. — E as noites. Na verdade, você tem ocupado quase vinte e quatro horas dos meus dias, exceto os minutos que gasto pensando em café, porque, você sabe, essa é uma paixão muito antiga.

Lily sentiu-se corar, sem graça diante da expressão apreciativa de James.

— Me desculpe por isso. — Ela disse.

— Não precisa se desculpar. Eu gosto de pensar em você. — Ele falou e inclinou-se para ela, estendendo uma mão e afastando uma mecha de cabelo úmido dela para longe. — Eu gosto de você.

— Gosto de você também, James. — Ela disse, a voz completamente rouca enquanto James pegava a caneca de sua mão, colocando-a ao lado da dele e então voltou-se novamente para beijá-la.

O beijo começou calmo, doce, carinhoso... mas então eles perceberam que estavam sozinhos no quarto, sem nada nem ninguém que pudesse atrapalhá-los, e então aprofundaram o beijo, grudando seus corpos de um modo que faria as leis da física sobre corpos serem estudadas novamente, sem parar para nada, nem mesmo respirar.

Deitaram-se, sem afastarem-se um segundo sequer, mãos, braços, pernas e lábios trabalhando em sincronia, excitando-os, levando-os ao delírio, fazendo-os sentirem-se como um.

Lily havia pensado que a primeira vez com James havia sido a melhor noite de sua vida... e como estivera enganada, pois, a cada beijo que James dava a ela, cada carícia que ele fazia em seu corpo, cada suspiro que ele roubava, faziam-na perceber que a primeira vez, embora muito boa, em nada se comparava com o que estavam fazendo naquele momento.

Muito tempo depois, quando ambos estavam quase dormindo, Lily lembrava de tê-lo observado por muito tempo, reparando em seus olhos castanhos que brilhavam na escuridão, fazendo-a mergulhar dentro deles, perder-se por lá, até que, por fim, ele adormeceu, sua expressão acalmando-se, enternecendo-se... e foi quando ela percebeu:

Estava desmedidamente apaixonada por James Potter.


N/A: E aí, gente? O que acharam?

WOLFSTAR FINALLY! IS REAL, IS REAL! Aeeeeeeee!

E esse final, hm? Jily de novo no smutão, tsc tsc. Alguém segure esses dois, porque eles não param de se agarrar hehehe

Mentira, segura não que o povo goxta!

Por favor, não esqueçam de me contar o que estão achando, okay? Fico muito feliz em vê-los por aqui!

PS: desculpem pelo tamanho do capítulo, ficou enorme, eu sei, mas é o que tem pra hoje hehe

Era isso, pipous! Por hoje era só

Beijinhos e até breve com mais um episódio dessa história totalmente doida

PS²: PERDÃO por qualquer erro ortográfico ou de concordância, capítulo ainda não foi betado e, na pressa para atualizar, postei sem revisar também, porque sou dessas rsrsrs


CHEGAMOS AOS 100 COMENTÁRIOS!

Obrigada a todos leitores maravilhosos que comentaram nos capítulos anteriores. Vocês são as melhores pessoas do mundo e tê-los aqui é o que me motiva a continuar escrevendo!

A tia Miller ama vocês :*