Rachel achava um martírio estudar História. Odiava a matéria, o professor e, para piorar, não conseguia acreditar em uma vírgula do que os livros didáticos diziam sobre o momento que o velho Estados Unidos se desintegrou em sete países após a grande crise dos anos 1960. Nas linhas oficiais era explicado que os governos de Ohio e Michigan entraram em comum acordo com Indiana, Kentucky e West Virgínia para formar um único bloco com política parlamentar. Ohio foi escolhido como o nome do novo país cercado de dois blocos liberais, e a princípio existia a tendência de uma conduta política de centro-direita. As fronteiras eram abertas e havia grande fluxo migratório. No início da década de 1990 houve uma grande crise econômica e a posterior recessão. Mas os livros não explicavam como isso proporcionou a tomada do parlamento por um grupo de ultra-direita na virada do século 21. Eram dez anos de endurecimento e forte repressão às manifestações populares. Antes de querer protestar qualquer coisa que fosse, era preciso primeiro obter autorização junto ao tribunal responsável local.
Rachel nunca participou de uma passeata. Ela se lembrava de algumas quando era menor. A mais emblemática foi quando um pequeno grupo de Lima resolveu se juntar a outros tantos espalhados pelo país e viajar a Cleveland para protestar contra o projeto de lei de Russell Fabray: a única coisa aprovada com a autoria dele na única vez em que conseguiu eleger-se para o parlamento nacional como representante de condado de Lima. Os pais de Rachel fizeram cartazes e faixas. Ela mesma ajudou em alguns. Só tinha 12 anos e pouco compreendia sobre política e direitos do cidadão. Os pais se preocupavam em poupá-la de "assuntos desagradáveis". Era apenas uma menina com infância feliz e grandes sonhos. Queriam que Rachel permanecesse desta forma o máximo possível.
No dia da passeata, Rachel ficou hospedada na casa de May, prima de Leroy e única parente em Lima. Os pais seguiram viagem para lutar pelos direitos deles. O protesto no dia da votação que envolveu a comunidade GLBT, pessoas que simplesmente estavam ali para dar suporte contra uma situação absurda e mais ativistas políticos. Rachel lembra por ter visto na televisão e ficou assustada quando soube que a polícia reprimiu o manifesto com muita violência. A lei foi aprovada. Hiram e Leroy foram delatados oficialmente no dia da publicação da lei sancionada pelo chanceler. Um ano depois, após o julgamento ter se tornado quase um programa local de entretenimento, Hiram e Leroy foram executados por prática homossexual, atentado violento ao pudor (por namorar em público) e por expor menor de 16 anos ao ato libidinoso (Rachel via os pais se beijarem em casa).
Durante o tempo em que os pais estiveram presos, May virou as costas para prima de segundo grau e Rachel ficou no abrigo do condado. Só depois que foi abrigada na casa dos Puckerman, quando tinha 13 anos e meio. Aos 14, começou a trabalhar como babá pela vizinhança. Aos 15 foi convocada por Santana e tornou-se um botão. Aos 16 começou a trabalhar servindo em festas. E assim seguia a vida.
"O que deu em você?" – Puck chegou em casa e Rachel levou um pequeno susto. Que forma a dele de tirá-la do mundo da fantasia. Quando os olhos focalizaram no amigo, levou um susto ainda maior – "O que foi? Parece que viu um fantasma."
"Você raspou o moicano."
"Isso?" – Puck passou a mão na cabeça raspada em máquina 1 – "Estava na hora de ir."
"Mas você adorava o moicano. Era a sua marca registrada."
"Cabelo não é importante" – disse grosseiro – "Queria saber o que deu em você para estar em casa a essa hora? Você quase nunca chega em casa antes das sete."
Puck tinha lá razão. Rachel passava o máximo de tempo possível fora de casa, apesar de não mais dormir fora. Os botões ainda estavam em regime de silêncio, ação que se estendeu aos demais círculos em Lima. Paralelo a isso, Puck e alguns garotos do time de futebol estavam com atitudes cada vez mais fascistas. Vestiam-se com blusas vermelhas, tinham um cumprimento específico, falavam mais e mais em idéias nacionalistas e pregavam disciplina e cooperação como formas de se criar uma juventude qualificada e, assim, ajudar a mudar o país para melhor.
Rachel não via problemas com o nacionalismo. Mas ela entendia que uma coisa era valorizar a própria cultura, a bandeira, e ter amor à pátria. Ser bom cidadão era uma forma de se amar ao país. Lutar por melhores condições de vida, por uma boa educação também. Outra coisa era ser ultranacionalista e desenvolver conceitos xenófobos e conservadores. Noutro dia, Puck criticou Rachel por não ir mais à sinagoga. Depois por não se importar com a família, no caso os Puckerman, porque não mais ficava presente. Rachel sentiu vontade de rir alto. No dia anterior ele reclamou porque ela nunca defendia um artista nacional para ser interpretado no coral. Que culpa tinha se preferia os artistas do Leste? Em especial os de Nova York.
O fato é que ela queria evitar ouvir as pregações de Puck e os sermões que contra Sam. Como se não bastasse, Puck começou a pegar no pé de Santana por causa das atitudes individualistas. Sim, Rachel sabia melhor do que ninguém o quanto Santana era fechada e individualista para muitas coisas, mas era só uma característica. A pequena diva também não suportava mais ouvir as queixas de Anna sobre falta de dinheiro, e Rachel havia arrumado mais cinco aulas particulares para dar e um trabalho de babá, coisa que não fazia há muito tempo. E tinha Sam. Não era de ferro e gostava de curtir o namorado quando podia. Embora ainda não fosse capaz de dizer "eu te amo", gostava mais e mais do parceiro. Em especial depois do discurso em querer comprar uma casa na Flórida para viver de música, praia e poder beber uma dose de rum enquanto curtia o pôr do sol ao lado de Rachel. A Flórida foi o único país da antiga América que adotou governo de centro-esquerda.
"Tenho tarefas de casa demais" – respondeu balançando os ombros – "E provas para estudar."
"Tem um festa para servir neste fim de semana. Está dentro?"
"Dinheiro é sempre bom. De quem é?"
"Karofsky."
"Perfeito. Estou dentro!"
"Mas tem uma condição."
"Qual?"
"Sam está fora" – o sangue de Rachel ferveu.
"Sam sempre esteve no nosso esquema, é competente e ele precisa do dinheiro. Não é justo você o excluir só porque está de birra."
"Bom, a condição foi dada e eu não reconsidero. É contigo" – suspirou frustrada.
"Ok... Eu posso conseguir esse dinheiro para a casa na Flórida por nós dois" – Rachel sabia que pisou num calo de Puck, mas ela estava no limite, sufocada.
"Olha aqui..." – Puck sentou-se ao lado da amiga e falou calmo – "Você vive nesta casa a uns quatro anos, certo?" – o rosto dele estava a um palmo, mas Rachel não se mexeu – "Eu te considero mais que uma amiga. Você é a minha outra irmãzinha, por isso eu te dou este sábio conselho: há certas coisas que é melhor guardar para si. Essa conversinha de fugir com namorado comunista? Não é legal e pode trazer conseqüências ruins."
"Agora Sam é comunista? Ele não era um liberal antes?"
"Cuidado com a boca" – levantou-se e foi para o quarto.
Rachel suspirou. Por mais que Puck tivesse sofrido lavagem cerebral ultraconservadora, o que ele disse era válido: tinha de fechar a boca também dentro de casa. Foi até a cozinha e bebeu um copo de água. Natural! Evitava água gelada para poder preservar a voz. Difícil foi voltar a se concentrar nos deveres de casa. Tentou ler dois, três parágrafos do texto de História. Estava no estágio que os olhos passavam pelas letras, mas a mente não assimilava. Fechou o livro. Foi até o quarto no porão e começou a recolher algumas coisas das prateleiras, basicamente os livros de capas trocadas, dois cadernos e alguns discos de artistas visados. Colocou tudo na mochila e saiu. Pegou o ônibus e foi para a casa da pessoa menos suspeita dentro do círculo. Desceu no comércio de um conjunto residencial de pessoas com algum dinheiro. Leu novamente o endereço na caderneta de endereços e andou mais duas ruas até chegar a uma casa bonita de dois pavimentos pintada de amarelo claro. Tocou a campainha e esperou a porta abrir.
"Oi Seban" – Rachel sorriu forçado.
"Rachel!" – o menino a convidou a entrar – "Não é que não aprecie a sua visita, mas..."
"Está sozinho?" – ela o cortou.
"Sim... meus pais trabalham fora e eu sou filho único como sabe..."
Rachel não sabia. Seban era muito amigo de Blaine e entrou no círculo mais por ser um gêniozinho da informática do que pelas convicções. Era o tipo do sujeito que agregaria valores com o tempo e poderia ser usado para projetos complexos dentro dos botões. Então Santana o chamou. Fora Blaine e a líder, Seban são tinha tanto contato assim com os outros do círculo e só os encontrava durante as convocações da líder.
"Você nunca veio aqui em casa que eu me lembre" – o garoto magricela de cabelos castanhos claros a convidou para sentar na sala. Rachel olhou ao redor. Era um lugar bonito, bem decorado, com um conjunto de sofás bonito, aparadores com vários porta-retratos, e um quadro de paisagem que deveria ter um metro e meio de altura em uma das paredes – "Aceita chá, café gelado, refrigerante?" – recebeu negativas.
"Aceito água."
"Claro!" – correu até a cozinha e voltou com um copo bonito em cima de uma pequena bandeja. Rachel ergueu uma sobrancelha com a formalidade. Seban esperou que ela bebesse antes de voltar a falar – "O que a traz aqui? Negócios? Santana vive me pedindo para hackear... e teve uma vez que ela me fez entrar no sistema de McKinley para alterar uma nota dela..."
"Mas que cara de pau!" – Rachel gargalhou. Só mesmo uma história dessas para fazê-la relaxar um pouco – "Eu vim aqui porque eu preciso de um favor, mas é coisa mais simples" – e abriu a mochila – "Preciso de um lugar seguro para colocar esses livros e discos. Eu não posso mais manter na minha casa e estamos em regime de silêncio. Além disso, não posso pedir a Sam ou a Santana porque eles estão visados na escola e eu tenho medo de que isso possa complicá-los em caso de alguma batida. Não consigo falar com Matt, Kurt..."
"Ei, Rachel! Entendi" – Seban sorriu com gentileza – "É para isso que serve os botões, certo? Na verdade, tenho até um lugar perfeito."
O garoto pediu para que Rachel o seguisse até o quintal da casa. Passaram pela grande cozinha e entraram num quintal de gramado verdinho e vem aparado, apesar da aproximação do inverno. Havia uma espécie de casa secundária com espaço para churrasco e lazer. Neste espaço semi-pavimentado havia um alçapão. Seban o abriu e os dois desceram as escadas.
"É o abrigo para tornados, mas tem uma estrutura quase para suportar ataques aéreos. Papai é engenheiro e bolou esse espaço. Tem acesso pelo porão também, mas eu acho mais legal entrar por aqui."
Rachel estava impressionada. Ela não sabia nada a respeito da família de Seban, nunca teve a curiosidade de perguntar, mas o pai dele parecia ser um profissional talentoso. O abrigo era espaçoso, bem decorado. Havia um beliche estilizado, um sofá de dois lugares, prateleiras com livros, discos, um pequeno guarda-roupa que na verdade era uma despensa, e um espaço que parecia ser uma cozinha ultra-compacta.
"Abrigo? Isso aqui é extraordinário! Eu moraria aqui."
"Minha mãe é decoradora" – ele levantou os ombros com se isso não fosse grande coisa – "Posso ver os livros?"
Rachel abriu mais uma vez a mochila, mas desta vez colocou o conteúdo em cima de uma mesinha no recinto. Seban ficou intrigado de como livros banais e até lidos nas escolas poderiam conter conteúdo perigoso. Os discos realmente eram de pessoas controversas aos olhos da censura do governo.
"As capas são trocadas" – Rachel explicou, mas Seban prestava mais atenção nos discos.
"Não sabia que gostava do Clash! Que eu saiba, você não era fã de musicais?"
"Meu pai gostava. Confesso que não sou tão fã. Foi uma das poucas coisas que consegui guardar antes de tomarem a minha casa com quase tudo dentro."
"O meu pai também é fã. E eu adoro."
"Ele..."
"Não é um botão, mas poderia" – Seban mostrava certo orgulho dos pais esclarecidos – "Ele trabalha com o governo, mas não quer dizer que goste dele. Aqui em casa está cheio de coisas proibidas e a gente guarda tudo em locais discretos como este. Ninguém vem aqui, a não ser eu e minha mãe quando quer pegar alguma coisa na despensa."
"Então eu vim no lugar certo."
"Os botões se ajudam."
"Sempre!"
Foi um final de noite agradável. Rachel conheceu os pais de Seban, que ficaram felizes pelo filho apresentar um novo amigo. O integrante mais discreto do círculo era um garoto de 17 anos com um grupo de amizades restrito e os pais desejavam que Seban pudesse ter uma vida social mais ativa. Rachel ficou para o jantar: comida chinesa entregue em casa. O hacker ofereceu carona à colega: pegou o carro próprio e a deixou em frente a casa dos Puckerman. Os dois se despediram e prometeram se falarem mais independente dos botões. A companhia era boa.
Rachel encontrou Anna assistindo uma novela e Natalie brincava no carpete com uma amiga que passaria a noite. Cumprimentou os presentes e desceu para o porão. Levou um susto quando viu Puck olhando as coisas dela.
"Perdeu alguma coisa?" – cruzou os braços e fechou o rosto.
"Queria ver se você tinha um livro da escola. Como não estava aqui, decidi em mesmo dar uma olhada" – pegou um qualquer na prateleira. Era o clássico "O Sol Também se Levanta", de Hemingway. Literatura mais honesta, improvável. Uma pena que a primeira coisa que Puck faria quando chegasse ao próprio quarto seria jogá-lo em qualquer lugar e só devolveria bem depois, isso se lembrasse – "What Would Barbra Do?" – apontou para o livro que estava em cima da cama. O marcador indicava que Rachel já havia passado da metade da leitura.
"Um presente do meu namorado. Sam comprou num sebo aqui perto" – Rachel tinha voz dura, impessoal.
"Legal..." – Puck andou em direção à saída e Rachel lhe deu espaço para ir embora.
Fechou a porta e respirou aliviada. O sexto sentido havia lhe servido bem desta vez. Não acreditava que Puck fosse capaz de identificar os livros proibidos ou ligar para os discos. As anotações a preocupava mais. Eram pensamentos escritos num caderno, alguns desabafos, telefones, alguns códigos dos botões. Ao menos tudo estava seguro na casa de Seban. Lutou contra a vontade de ligar para Santana ou Sam. Ficou paranóica. E se Puck estivesse à porta escutando a conversa dela? E se ele tivesse grampeado o telefone? Ele seria capaz? Ele teria recursos para tal? Ela procurou respirar fundo, se acalmar. Um banho ajudaria. Água correndo pelo corpo...
No dia seguinte, na escola, ficou com medo de conversar diretamente com Santana, mas precisava urgente de uma orientação. Colocou um botão branco no armário da líder. Passou três horários de ansiedade. Sam perguntava por que estava daquele jeito, mas ela se recusava a responder. Dizia que não era nada de importante. Então recebeu a resposta. O botão branco de Santana e um local com horário. Encontraram-se na cafeteria, um local bobo, movimentado, popular, porém perfeito por essas mesmas razões. Para a surpresa de Rachel, Santana chamou Kurt. Um terceiro elemento tornava tudo ainda mais casual e discreto. Entre um gole e outro do cappuccino Rachel desabafou.
"Preciso sair daquela casa."
"Concordo!" – Kurt estava preocupado – "Se não fosse todo esse rolo entre nós e Sam na escola, bem que você poderia ficar comigo. Meu pai não ligaria."
"Não pode até o seu aniversário" – Santana estava mais que ciente de toda a situação que envolvia a guarda de Anna – "Precisa agüentar mais um mês e isso não dá para mudar. O ideal era você ficar até a graduação."
"Estou... com medo..." – confessou com certa relutância.
"Eu sei" – Santana – "Vou pensar numa solução, Rach, eu te prometo. Mas antes você vai seguir exatamente o conselho de Puck em se calar. Não o enfrente. Se ele vasculhou seu quarto, é porque desconfia de algo. E se você sair agora, isso confirmaria as suspeitas que ele possa vir a ter. Eu já tinha alertado Sam a baixar a bola. Agora é que ele vai ter que me obedecer de qualquer maneira. Boa coisa que ainda é um botão raso."
"Acha que fiz bem em levar as coisas para Seban?"
"Foi perfeita. Seban é o sujeito mais discreto e acima de qualquer suspeita de todos nós."
"Eu queria levar para a sede, mas..."
"Está inacessível para nós" – Kurt completou – "Isso é um saco. Blaine e eu estamos com poucas e inseguras opções. O pai dele é homofóbico e eu não quero comprometer o meu."
"Isso é só uma crise. Vai passar!" – Santana procurou assegurar tanto para os comandados quanto para si mesma.
