Este capítulo está pesado, mas acredito que, quem leu EANEOC até este ponto, não terá problemas com ele. Acho que vocês gostarão, apesar das partes mais sádicas!
BOA LEITURA...
LIVRO II
CAPÍTULO XIX
Ele não se recordava ao exato quando fora a última vez em que levara um cigarro de nicotina até a boca. Refletindo a respeito, porque ansiava fugir de outros assuntos que deveriam absorvê-lo naquele exato instante, Edward concluiu que o antigo hábito fora deixado para trás na adolescência, quando ainda podia se dar ao luxo de ser inconseqüente e descansado. O que, então, não era mais um caso. Edward Masen, nee Cullen, um homem de vinte e nove que já vira muito mais do mundo que um cidadão médio aos setenta, não era mais a sombra do garoto que fora aos dezessete. Mesmo que não se lamentasse sequer um segundo por aquilo, ele carregava uma carga pesada demais para passar por todos os vales e estradas sem deixá-la cair ao menos vez.
E, por aquilo mesmo, ele pedira um cigarro barato a um traficante menor antes de estar ali. Embora condenasse Bella explicitamente por se deixar seduzir por artifícios tão tolos quanto cigarros e drogas para anestesiar-se, ele próprio não era muito diferente dela naquele momento. Ele anestesiava-se, e de forma pior ainda, porque não lhe constava que uma pessoa tão esnobe quanto Bella ingerisse uma fumaça tão imunda quanto aquela.
- Nós podemos voltar atrás – Emmett avisou. – Isso vai dar merda.
Edward o relanceou impaciente. Estava decepcionado consigo mesmo. Ele nunca recorrera àquelas drogas para esquecer. Ele se considerava quadrado, à parte de vez por outra sucumbir à um bom charuto de fumaça amadeirada. Nunca provara qualquer droga ilícita, embora muitos esperassem que ele, ao menos, experimentasse o que vendia. Com uma careta, jogou o cigarro no chão e apagou-o com a sola do sapato perfeitamente engraxado.
- O que vai dar merda é se você continuar pensando. Sabe, Emm, ser um intelectual não é o seu forte, eu posso até sentir o cheiro da bosta podre que habita a sua cabeça cozinhando.
Uma vez que já vivera anos demais para servir ao chefe, Emmett recolheu-se e levou consigo todas as réplicas que poderia ter. O dia não estava dos melhores para Edward, que, se não bastava não dormir há quarenta e oito horas, teria de enfrentar aquela atmosfera sem qualquer alívio. Bisbilhotando a maneira como o chefe ainda esmigalhava o cigarro no asfalto cheio de buracos, Emmett não pôde deixar de imaginar o quanto ele estava nervoso. Não era segredo para ninguém a sua separação de corpos de Bella, e não lhe constava que ele procurava válvulas de escape naquele tempo todo.
As mulheres do ambiente não demoraram a rastrear o cheiro das notas de euro escondidas nos paletós dos dois homens, e trataram de abordá-los muito antes de entrarem no recinto. Prostíbulos, em qualquer parte do mundo, não deixavam de ser prostíbulos. E quem sabe o chefe poderia se divertir um pouco antes de dar consecução ao plano?
Rosalie Hale ainda não acreditava que se encontrava dentro da nada modesta Mercedes que Edward Masen comprara para sua amante, sentada como a madame que nunca fora, sendo conduzida pelo trajeto do seu pequeno apartamento em Londres até a faculdade liberal, onde sonhava estudar. De esguelha, ela bisbilhotou a imagem de Isabella Swan enfiada em um vestido azul-marinho de organza, placidamente ignorando-a sob o pretexto dos óculos escuros. Diferentemente de Rosalie, para ela era natural viver no fausto. Tão natural quanto ordenar, mesmo que com delicadeza, que o carro não fosse parado exatamente em frente à instituição, para não obstruir a passagem dos pedestres.
Com o estranhamento da menina crescida no Bronx que era, a loira aceitou a mão que o motorista lhe oferecera, e quando caiu em si, estava legando toda a dianteira a Bella. Assistiu-a cumprimentar a recepcionista com um sorriso afável, mas distante, e acompanhou a trabalhadora lançar um olhar enviesado à bolsa de transporte felino da Coco Chanel que a madame sofisticada levava no braço. Não era surpresa que a recepcionista não a repreendesse por estar com um gato em um ambiente em que não era tolerada a presença de animais. Também apenas seguiu Bella até a sala em que se sentaram diante de uma funcionária baixinha e com traços indianos, a responsável por conferir a documentação indispensável à matrícula naquela faculdade.
- Então a senhorita Hale concluiu seus estudos secundários em um supletivo? – a mulher, com um semblante enfadado por trás dos óculos grandes demais para seu rosto fino, desdenhou. – Lamento em informar, mas não aceitamos alunos oriundos de supletivo. Política da casa.
Porque esperava por aquilo, Rosalie encolheu-se. Os cursos superiores de Londres, ao menos os de boa conceituação, não acolhiam matrículas de alunos que tivessem completado seus estudos em um molde diferente do ensino regular. Quando optou pela comodidade de uma didática mais encurtada e dinâmica, que lhe daria uma maior flexibilidade no horário das aulas, ela ainda não havia despertado ainda para o sonho do curso superior.
- "Política da casa", é o que a senhora me diz – Rosalie arregalou os orbes diante do sarcasmo formal desferido de Bella. – Se é a política da casa, mostre-me o regulamento.
- Existem regras que vão além de regulamentos escritos. Elas existem, estão presentes entre nós, e nos valemos do nosso direito de estarem conosco – a funcionária levantou o queixo, satisfeita consigo mesma por poder corresponder à insolência em igual moeda. – Esta é uma faculdade livre, é particular, temos a prerrogativa de decretarmos o que bem entendemos.
Rosalie contemplou o perfil de Bella implorativamente, constrangida diante daquela situação. Não desejava mais que levantar-se, cumprimentar a mulher de traços exóticos e solicitar seu perdão pela perda de tempo. Porém, não havia um quinhão de derrota na filha do barão de Birmingham.
- Deixa-me chocada a mentalidade do povo britânico, isto porque já ultrapassamos a virada do século XXI – ela testemunhou com arrogância, vasculhando sua bolsa caramelo Hermès. – É inadmissível que, ainda hoje, os descendentes de um povo sofrido e desprovido de suas terras durante séculos enfrentem tais provações.
Ligeiramente confusa, a funcionária voltou a avaliar os documentos de Rosalie Hale, certificando-se de sua nacionalidade americana.
- Os Estados Unidos da América são a maior potência mundial, de forma que não compreendo aonde a senhorita pretende chegar... – apressou-se a alegar, mas algo em seu tom, talvez uma ligeira inflexão acompanhada de sua postura, delatavam que ela não era mais tão destemida assim.
- Não estou falando de uma nação, e sim de um povo. Os judeus. É inacreditável que, mesmo após os suplícios ocorridos durante a Segunda Guerra, eles enfrentem entraves para alcançar ao direito mais elementar do estudo – se sua voz fosse um tecido elástico, ela estaria sendo esticada naquele instante, pois atraíra a atenção dos presentes, funcionários e futuros alunos, ao que se desenrolava. – Hale. Judeus poloneses. Tão duramente perseguidos durante o Holocausto.
- Mas eu não... – Rosalie murmurou, visivelmente aturdida.
- Rose, não é inacreditável que, mesmo décadas após de um genocídio como o do seu povo, uma pessoa lhe negue uma vaga na universidade por conta de uma... condição étnica? – Bella contemplou-a dramaticamente.
- Mas em nenhum momento foi dito que a matrícula de sua amiga não era feita pelo fato dela ser judia, senhorita. Este centro estudantil apenas não aceita alunos de supletivos. São as regras.
- São as regras? É mais simples encobrir uma discriminação arraigada no nosso subconsciente e dizer que nada mais é do que "regras que devemos seguir" – Bella voltou-se para ela com uma ferocidade milimetricamente plantada no rosto muito jovem. – Para início de diálogo, regras abrangem a todos os alunos ingressantes, e não alguns específicos. Por que Rosalie Hale esbarra no entrave do diploma de supletivo, se um conhecido que tenho, em igual condição, matriculou-se aqui hoje mesmo?
- Não é possível... – a funcionária sentiu-se perder os argumentos.
- É, sim, muito possível. Seria porque meu conhecido é nativo britânico e Rosalie é descendente de israelitas? Pobrezinha de você, Rose! – Bella deu-lhe dois tapinhas amistosos em umas das mãos, porém não foram suficientes para despertar na loira a real consciência do que ocorria. – Mas não se preocupe, pois o mundo inteiro não é tão ignorante quanto alguns aparentam ser! Você não ficará sem estudar! Nós vamos matriculá-la em outro lugar...!
Assistindo a autocrática moça mignon rebocar sua amiga consideravelmente maior pela mão, a funcionária Deva, constrangida, tratou de interrompê-las no percurso:
- Esperem!
E quando ambas voltaram-se para ela, não sabia como proceder. Porque embora tenha recebido expressas ordens e não pretendesse ignorá-las, conforme nunca fizera em doze anos de trabalho, foi obrigada a reconhecer na mulher loira e de expressão confusa muito de si. Ela sabia muito bem o que era pertencer a uma minoria, uma etnia diferente da dos britânicos, e precisar batalhar três vezes mais que os outros por oportunidades idênticas. Fitou-a com camaradagem e, até mesmo, com carinho. Ambas guardavam muitas semelhanças entre si, mesmo que fisicamente destoantes. Com esforço, Deva trilhou em seu rosto de artista de cinema muitos traços que, não acalentava dúvidas, eram judeus. Como não conseguiu reconhecê-la? A testa ampla, o nariz pronunciado, o queixo bem marcado. Somente bastara Bella pontuar sua origem, que Deva lia em Rosalie todas as características físicas que os entendidos no assunto alegavam ser notadamente israelitas.
- Não permitirei que Rosalie continue aqui e seja ainda mais humilhada – Bella assegurou, mantendo a mão da futura aluna rejeitada entre as suas. – Se esta instituição de ensino não aceita sua matrícula...
- Não! – Deva interrompeu-a, atraindo dois pares de olhos acusatórios para si, o que tornou sua pele morena ainda mais inflamada do que era naturalmente. – Por favor, sentem-se... – ela pediu e, mesmo que a moça de cabelos castanhos e modos de grande dama o fizesse prontamente, sua amiga custou a imitá-la. – Eu não poderia ousar isso, mas levando-se em conta que apenas eu verificarei estes documentos minuciosamente, não acredito que seja muito arriscado. Vamos à matrícula! – ela exclamou, tentando parecer animada, e, com isso, omitindo o próprio lamento pelo mundo ainda ser tão injusto. – A sua pontuação nos exames foi muito boa, Rosalie. Então você pretende cursar Ciência da Computação?
Um pouco mais tarde, após almoçarem em silêncio no apart hotel de Edward em Londres, Rosalie lavou as louças, inflou-se de obstinação e foi ter com Bella no quarto. O aspecto do ambiente mudara muito desde a última vez em que estivera ali, há quase um ano atrás, quando Edward interrompeu uma sessão de sexo a três por não conseguir imaginar a mulher por quem se apaixonara com outra pessoa, mesmo que fosse a sua amante de longa data. O aspecto do ambiente sempre fora predominantemente masculino, e não poderia deixar de ser, com o piso encerado de madeira escura e o papel de parede que combinava tons de cinza e verde musgo. Porém, sobre a estante que antes havia somente discos de vinil, Bella parecia ter esquecido um secador de cabelos, e em cima da mesa que o mafioso usava para trabalho, havia um notebook vermelho-escuro. Isto sem falar na gorducha nécessaire Louis Vuitton aberta sobre o criado-mudo e as delicadas jóias penduradas no abajur, como que esperando serem recolhidas de volta à caixa de veludo.
- Por que você fez isso hoje? – Rosalie perguntou, mas Bella continuou de costas, organizando suas roupas por cor dentro do guarda-roupa. Outra mudança no ambiente. Edward, em anos de relacionamento, nunca sugerira que ela levasse um pertence sequer ao apart hotel, porque aquele sempre fora delimitado como espaço dele.
- Acompanhá-la na matrícula da faculdade? Foi você que pediu, lembra? E Esme depois endossou.
- Eu sei disso. Mas por que você disse que sou judia? Eu não sou judia...
- Não é surpresa para mim – pela forma como mexia os ombros, Rosalie adivinhou que a aristocrata estava sorrindo ou com forte tendência a isso.
- Então por quê...?
- Eles não pretendiam acolher a sua matrícula, simples assim – Bella virou-se para ela e em seu semblante existia simples constatação. – E foi mais fácil do que eu imaginava, para ser franca, porque não esperava menos de dez minutos de argumentação. Eu gostaria de um pouco mais de emoção.
Rosalie imaginava que a moça estivesse tentando soar engraçada, mas em sua expressão suave não havia o menor traço de que falava menos do que a sério.
- Como você conseguiu? Eu não entendo... eu não esperava conseguir me matricular na Universidade Livre de Londres, eu comentei isto com Esme, e ela disse que você lidaria bem com isso...
- Rose, escute-me – calmamente, Bella exortou-a. – É natural e muito humano sentirmos piedade. Se o nosso orgulho não nos permite que aceitemos facilmente que o próximo sinta pena de nós, é comum que nos sintamos cúmplices àqueles que sentimos pena, e que nos identifiquemos com eles. Se você compreender esta lógica, será mais simples ainda dar o próximo passo, que é cantar a canção que o outro deseja ouvir – amaciou com as mãos algumas roupas de seda que tinha no colo, mas em sua expressão não havia nada daquela delicadeza que os dedos apenas podiam sentir. – Se você vender àquele que lhe escuta a imagem que ele enxerga de si mesmo, não será difícil dele se permitir fechar os olhos do rosto e enxergar com os olhos da emoção. A pobre funcionária da faculdade precisava se identificar com você de alguma maneira, e para isso ela não necessitaria de mais que uma sugestão para enxergar em você apenas aquilo que eu dizia.
Rosalie ainda não compreendia.
- Ela não era judia. Como poderia se identificar comigo?
- Ela não era judia, mas não era branca, o que é praticamente o mesmo – dando de ombros, Bella tornou-se de costas e prosseguiu com a organização do guarda-roupas.
Analisando sua figura pequena revestida por um quimono grená, Rosalie repensou tudo o que já lhe disseram a respeito da amante do maior mafioso do mundo. Edward, após brigar com Bella certa vez, dissera que ela era uma "ilusionista", que tinha um prazer mórbido de confundir sua mente e lhe plantar idéias que ele não sabia de onde vinham, que convertia completamente o sentido da verdade por aquilo que ela considerasse mais interessante. Dias atrás, quando conversara com Esme e lamentava o fato de não poder ir estudar na universidade que havia escolhido inicialmente, ela lhe lançara um sorriso enigmático e dissera que era uma missão para Bella. Rosalie não compreendera, até então.
- Obrigada – ela sussurrou, mas Bella não se virou para aquiescer. Ela também não sabia se o cumprimento era bem-vindo.
Diversos minutos depois, quando Rosalie se cansara de observá-la organizar em silêncio sepulcral, a moça perguntou, valendo-se do tom mais desinteressante possível:
- Se eu fizer uma pergunta, você promete que será sincera?
Surpresa, a loira estacou por um segundo.
- Eu estou te devendo uma – ela salientou, mas arrependeu-se de imediato. Ela vivera tempo demais com Edward para conhecer muitos segredos que, certamente, ele não gostaria que Bella se tornasse ciente.
Encarando-a uma vez mais, Rosalie não esperava que ela estivesse tão corada. Diria que a inabalável aristocrata, que conseguiria convencer pessoas inconvenientes de verdades que não existiam, finalmente fraquejava.
- O senhor Masen... ele... – Bella engoliu a amarga saliva. – Ele quis uma criança, não quis?
- Não sei o que você está querendo dizer – embora soubesse perfeitamente o que a outra pretendia, Rosalie utilizou dúvidas imaginárias para tomar tempo. – Edward quer a filha que vocês esperam e já a ama.
- Ele quis... ele sempre quis – impaciente, a aristocrata massageou a testa. – O senhor Masen me pediu um bebê antes, mas não é sobre isso que estou falando. Estou pretendendo saber se ele planejou a situação que nos encontramos, esta situação medonha!
Observando Bella, que cruzara os dois braços no tórax porque não sabia o que fazer com eles, Rosalie meditou todas as possibilidades. A moça era uma bomba de obstinação quando lhe convinha, e de modo algum subestimaria seus artifícios para arrancar as verdades. Desconfiava que fossem tão infalíveis quanto seus métodos para fazer os outros acreditarem em mentiras.
- Eu não acredito que ele tenha premeditado no sentido "oh, estamos no dia certo e na hora certa, vou seduzi-la para termos um filho" – ela tentou parodiar, mas sua interlocutora não sorria. – Mas é bem verdade que ele não evitou, e quando surgiu a chance, ele pegou. Eu acredito que algumas pessoas com tamanha força de vontade, que quando as oportunidades surgem, elas não permitem que sejam desperdiçadas. Conseguem tudo o que querem no momento certo, porque seus pensamentos atraem oportunidades, e desconfio que Edward seja uma dessas pessoas.
Logo em seguida, Rosalie inventou um subterfúgio para retirar-se rapidamente. Estava translúcido que ela pretendia escapar de novas perguntas, e Bella permitiu que fosse embora. Bem mais tarde, ela ainda refletia a respeito do assunto, das reais parcelas da "força do pensamento" e de esforços concretos que Edward gastara para ter dela o que bem pretendia. Por fim, decidiu-se que não era nada difícil que Edward finalmente houvesse tornado o seu espírito dominador não para ela, mas contra ela. Uma das fábulas que mais a encantara na infância era uma em que o escorpião utiliza o casco de uma tartaruga para transpor um rio, e quando chega à margem, pica o animal que o ajudara com seu ferrão, injetando nele o veneno mortal. Inquirido pela tartaruga moribunda o porquê praticara tal vilania quando ela apenas o havia auxiliado, ele lhe responde somente que era de sua natureza.
Bella certamente nada fizera para lesar Edward, porém ele não seria mais bondoso com ela por conta disso. Como ele dizia constantemente, nunca enganara ninguém dizendo que jogava limpo.
Após despedir-se de Rosalie no final da tarde, ela contou com a ajuda de Leah para preparar o jantar de ambas. Não pretendia comer fora e também não gostaria de arriscar as habilidades culinárias de sua guarda-costas. Depois de dividirem a mesma mesa, Leah, recordando-se subitamente, avisou-a:
- Chegou um envelope para a senhorita. Eu entranhei, mas apalpei e me certifiquei de que o conteúdo é inofensivo.
Bella também estranhava, mas agradeceu-a pela diligência. Até mesmo Edward raramente recebia correspondências endereçadas àquele apartamento. Quando se retirou para o quarto à noite, avistou o envelope referenciado por Leah sobre a cabeceira, contudo a urgência por um banho de banheira era mais urgente que a curiosidade de conferi-lo. Caiu nas águas misturada à sais marinhos e óleo de malaleuca, permanecendo uma hora inteira envolta nelas, inspirando o suave olor que rescendia dali.
Vestiu um macio pijama de flanela e ligou para Renée, apenas para perguntar se ela estava bem. A mãe comentou que continuava em Ludlow e ela aprovou, porque quanto mais distante ela estivesse de Birmingham, menos sob a influência de Charlie estaria.
A moça relembrou do envelope de papel pardo somente quando voltou a vê-lo de relance, quase pronta para deitar-se. Pegou-o nas mãos e colocou-o contra a luz fraca do abajur, notando que o seu conteúdo era múltiplo e de formato retangular, possivelmente fotos. Girou-o e constatou a ausência de remetente, detalhe que a deixou intrigada, mas não tanto quanto o traçado da caligrafia. Seu nome e endereço eram informados por uma letra feminina e incerta, como acontecia quando a pessoa que escrevia não estava ambientada ao alfabeto ocidental.
Era impossível a Edward não comparar a iniciativa daquelas mulheres à de um enxame de abelhas disposto a devorar um torrão de açúcar. Mesmo que ele amasse as mulheres e fosse gentil com elas na maior parte do tempo, não era agradável vê-las enfiar suas mãos condicionadas aos mais plurais tipos de traquinagens em seu paletó, em um misto de sedução e tentativa de extorsão. Emmett aparentava mais contrariedade que ele, porque nunca fora um homem de prostitutas.
Apesar de estarem fora do perímetro urbano da grande Moscou, encontravam-se naquela que seria a maior casa de prostituição da Rússia. Seu sucesso se devia em especial às atividades correlatas do estabelecimento, que não apenas reunia entretenimento sexual em seus seis andares, como também um cassino, um depósito clandestino de bebidas e ponto de vendas de drogas – porém, poucos sabiam que todas as atividades ilegais, de fato, encobriam a verdadeira pérola do lugar, que era um laboratório de refino de cocaína no subsolo. Edward conhecia isso, é lógico. Porém não era pela cocaína que ali estava.
Mesmo que a aparência externa fosse rude, por dentro o lugar não devia muito às melhores casas de massagem do mundo – isto é, quando se falava de entretenimento que não perdia aquela pitada de frivolidade que Edward considerava tão interessante. Ele conhecera casas de prostituição muito sofisticadas no decorrer dos anos, algumas das quais as mulheres desfilavam para a sua apreciação em uma passarela, outras em que ele podia escolhê-las através de um catálogo eletrônico, não muito diferente de lojas virtuais. Entretanto, nada para ele exercia um apelo tão grande quanto vê-las dançando sensualmente em uma barra de metal ou entretendo seus convidados, enquanto estes bebiam. Ele se considerava um homem à moda antiga por conta disto.
E, embora o ambiente fosse moderno, claro, com uma escada encaracolada que levava desde o primeiro andar até a clarabóia, os móveis pomposos compostos por cores luxuriantes, hoje imitando tema de safári, e luzes baixas brilhassem para fazer as mercadorias mais apetitosas, ele ainda guardava muito dos antigos bordeis.
Livrando-se educadamente de uma mão pintada de esmalte vermelho que enrodilhava seu colarinho, Edward vistoriou o local e procurou alguém que estivesse em postura de comando. Aqueles empreendimentos eram controlados por homens, em geral grandes traficantes, que deixavam como testas de ferro mulheres experientes, mas não maduras, com grande vivência na prostituição. Estas eram as cafetinas. Porém, ele sabia, dificilmente ele teria a sorte de encontrá-la no salão em pleno horário de expediente. Cafetinas geralmente lançavam mão de uma intermediária para gerir possíveis conflitos ocasionados por bebedeiras ou inadimplência, algo semelhante a uma gerente.
Procurando não despertar atenção, Edward seguiu para a área do bar, onde uma garçonete com os seios siliconados expostos preparava um drink fluorescente. Pelo cheiro, tratava-se de vodka misturada com outros coquetéis, como todas as bebidas russas. Perdoando-se por ser impossível não olhá-los para aqueles peitos empinados, em virtude da dimensão dos mesmos, ele quase cedeu à tentação de espetá-los com a abotoadura da sua camisa e verificar se a mulher não sairia voando pelo lugar como uma bexiga recém-espetada.
- Hei, você – ele chamou-a em russo. – Está calor aqui, não?
Edward sorriu malignamente, sabendo de antemão que ela escutava aquela pergunta mais vezes ao dia do que poderia recordar.
- Hoje é um dia quente. Tomei três banhos hoje, e estou quase indo tomar o quarto – empurrando completamente os seios em sua direção, ela serviu-o com a bebida que preparara.
- Isto é um convite? – ele inclinou-se em sua direção, tomando cuidado para não encostá-la.
- Apenas se você estiver disposto a pagar por ele.
Procurando mostrar-se receptivo, Edward anuiu positivamente com a cabeça.
- É um convite tentador passar a minha noite com você. Quem sabe um pouco mais tarde, se você estiver disponível? – enroscou dois dedos nos cabelos platinados daquela que farejava ser a chefe em exercício do lugar. – Mas eu preciso mesmo é falar com quem manda em todas vocês. Não me recordo o nome dela...
- Ninotchka está muito ocupada hoje – ela apressou-se em dizer, ressentida. – E estará assim pela semana inteira.
Edward conhecia bastante bem da inveja feminina para se espantar com ela.
- Ora, para mim ela não está ocupada, gostosa – a mão que antes estava nos fios loiros, escorreu pela clavícula, lançando na profissional do sexo verdadeiras trilhas de luxúria. – Fale que sou eu. Familiar de Denali.
Dizendo aquilo, o mafioso torcia pela primeira vez se congratulou pelo seu rosto não ser tão conhecido na Rússia. Esperava, aliás, que ela ou qualquer outra não imaginasse ser ele o marido que abandonara a filha de Eleazar Denali. Edward lançara as melhores cartas que dispunha na mesa e esperava que seu ex-sogro não estivesse com um full house melhor que o dele.
- Você não se parece com um familiar de Denali...
- O papa precisa se parecer com Cristo para ser o herdeiro dele? – Edward troçou e esbanjou a auto-confiança que não possuía no momento. – Chame sua chefe agora. Depois conversamos sobre outros assuntos interessantes.
A prostituta o espiou por um momento, e depois de lamber os lábios lambuzados por um batom de glitter, disparou para o andar de cima. O mafioso imaginou que impusera respeito, porque não havia apenas sedução na forma como ela o bisbilhotou por cima do ombro, como também um temor que a deixava cega demais para não fornecer atenção aos clientes em potencial faziam de tudo para chamá-la.
- Não me diga que é a sua foda da noite? – Emmett aproximou-se dele. Finalmente se desvencilhara da ruiva vestida de cow girl que o perseguia desde que entrara.
- Foda? – Edward franziu o cenho na direção do drink que a loira havia deixado sobre a bancada, sem intenção de bebê-lo. – Se é para botar o meu pau em algum lugar, que seja na boceta que tenho em casa, que é toda complicada, mas ao menos não tem doença.
Emmett abafou uma resposta à altura, mas não precisaria dissimular seu descontentamento por muito tempo. Em poucos minutos, uma mulher alta desceria majestosamente as escadas encaracoladas, esvoaçando o tecido vaporoso de sua camisola vermelha e decotada. Ela parecia se movimentar de acordo com a batida da música do ambiente, que era, por incrível que fosse, um hip-hop muito americano. Não houve um homem no recinto que não acompanhasse com olhos gulosos a imagem de Ninotchka, a morena cor de ébano, emergir do leito imperial do qual saía apenas em ocasiões muito especiais.
E naquele momento, então, Edward compreendeu o diferencial do lugar. Jogando sinuca com um homem já entrado na terceira idade, com aspecto de grande magnata, havia uma sapeca oriental que, segundo ele mesmo verificara, mostrava que estava sem calcinha a cada vez que se inclinava. Eleazar conseguira sucesso naquele negócio porque não trabalhava apenas com borcsh*, mas também com sashimi e feijoada.
*Típica sopa de beterraba russa.
- Você é o filho de Denali, rapaz? – Ninotchka perguntou, com uma voz dura demais para a sinuosidade do seu caminhar. Ela falava muito bem o russo, mesmo que deixando pronunciado que não era sua língua-mãe.
- Um sobrinho, mais exatamente – Edward analisou-a através dos cílios, deliberadamente deixando seus olhos caírem nos robustos e muitos naturais seios que a camisola deixava à mostra. – Onde podemos conversar, Nina?
Se sua pele não contivesse tanta melanina, ela teria corado diante do tom acariciante daquela voz robusta, que a chamava pelo seu nome, não pelo apelido. Em anos de profissão, poucos se sentiram tão a vontade para aquela intimidade. E quando ela voltou-se de costas, não sem antes lançar-lhe um sorrisinho matreiro, Edward soube que era questão de tempo para ter dela o que pretendia.
- Acompanhe-me.
E ele não a desobedeceria. Analiticamente estudou seu rebolado durante todo o percurso até o quarto, o modo como subia os degraus da escada, a forma como entrara no elevador revestido por uma tapeçaria turca, que, se não fossem os olhos tão treinados do mafioso, quase poderiam se passar por originais. Sendo apresentado aos aposentados daquela meretriz, uma das mais conhecidas de toda Moscou, ele não perdeu a ironia de que mulheres como ela, quando conseguiam algum estrelato, sempre incorressem no espalhafato. Se os tapetes do elevador não passavam de falsificações, o quarto dela era revestido da mais pura seda escarlate, que descia através dos tetos, ondulavam-se nas janelas, cobriam a cama em formato de coração flamejante. Foi ali que ela, Ninotchka, deitou-se sensualmente, deixando a fenda da camisola mostrar àquele homem muito da sua pele de ébano. Contorcendo-se ali, simulando refestelar-se na pureza daquele tecido, ela contemplava suas melhores expressões de volúpia no espelho do teto.
- Não me diga que veio trazer confusões, garoto – ela ainda se esfregava nos lençóis como uma gata. – Se não forem confusões, de resto tolero tudo.
Era óbvio que Ninotchka demonstrava muito menos idade do que tinha, mas Edward Masen não era facilmente ludibriável. A pele negra era normalmente menos sujeita ao envelhecimento, mas pequenas marcas, tênues rugas que surgiam ao redor dos olhos, além da dureza do olhar, jamais poderiam ser dissimuladas. Mesmo que jovial, Ninotchka provavelmente já passara dos quarenta anos.
- Nada de confusões, Nina. Alguém da minha família já te deu algo menos que proteção? – referenciou a Denali, o suposto tio, o grande mantenedor daquele lugar. – Eu gostaria muito da sua colaboração esta noite, e os benefícios serão mútuos.
A meretriz o observou com os olhos escuros semicerrados.
- Lógico que teremos benefícios mútuos – soerguendo-se e sentando-se, ela alcançou a braguilha da calça de Edward, que sutilmente interrompeu o curso de suas mãos.
- Não agora, Nina – o tom mais enrouquecido de sua voz escorreu sem esforço. – Na verdade nossos favores serão mútuos em um futuro. Por enquanto, quem precisa de você sou eu.
Eles trocaram olhares flamejantes. Ela perdida na pura e simples antecipação, ele aguardando o momento mais apropriado de alcançar-lhe a jugular e apertar-lhe a carótida.
- Você precisa muito de mim? – ela sorriu provocativa, os dentes muito brancos e acetinados contrastando com a pele escura e aveludada. Sem dúvidas, uma mulher lindíssima, mas o obstinado Edward estava cego à sua beleza.
- Eu preciso mais de você do que ninguém, Nina – ao notar o quanto a deleitava, ele usava o nome sem diminutivos. – Porque você tem as melhores meninas de toda a Rússia...
A prostituta levantou-se de súbito, irritada e ofegante.
- Se você, garoto, pensa que pode brincar comigo e vir atrás de menininhas...
- Shhh – ele calou-a com um dedo indicador nos lábios grossos, surpreendendo-a. – As menininhas não são para mim, mas para o titio. Você sabe, Nina, ele as ama.
E ela anuiu brandamente, relembrando do gosto do grande chefe por carne fresca. Ele nunca mandara um familiar ir buscar seus petiscos, sempre preferira algum dos muitos encarregados para a tarefa, mas Ninotchka era grata demais para questionar alguma ação de Denali, por mais inusitada que fosse. E, para piorar, havia os dedos hábeis daquele rapaz, que friccionava seus opulentos lábios, pediam passagem por eles e já brincavam com a ponta da sua língua, pressionando-a e afrouxando-a no mais antigo gesto de dança erótica.
Não era justo com uma pessoa tão carnal quanto ela.
Um hábito que Bella aprendera através de sua vivência no mundo o qual Edward a submergiu fora o de desconfiar de todas as correspondências. Mesmo que elas fossem reviradas por sua segurança – que nunca ultrapassara os limites de tirar-lhe a privacidade, seguindo as instruções do chefe. – ela preferia conferir por si mesma antes de abri-las. E um envelope como aquele não deixava de lhe causar estranheza, porque não se lembrava de haver dado o endereço do apart para alguém. Contudo, mesmo que inusitado, o envelope não parecia ser nocivo, e ela estava mesmo esperando alguns folders de clubes olímpicos.
Ela freqüentara a natação quando criança, porque Renée dizia que amenizaria suas crises respiratórias e por Charlie ter verdadeiro horror de afogamentos. Ela nunca fora uma nadadora tão boa quanto Alec, tanto que se livrou do detestável esporte tão logo sua asma amenizou e pôde garantir ao pai que não afundaria em uma piscina olímpica. Porém, a mãe insistia nos ultimamente para que ela voltasse a nação, porque ela estaria mais propensa às crises respiratórias no inverno, exatamente a época em que enfrentaria os últimos estágios da gravidez.
Quase convencida a abrir o envelope, o toque do celular irrompeu o ambiente, e logo sua atenção se dissolveu na direção no aparelho que apitava em cima da mesa de trabalho. Desviando-se do gato, que mordia um chinelo e recriava o que filhotes de animais domésticos mais gostavam de fazer desde tempos remotos, ela buscou o celular e verificou quem chamava. Sem saber se o atendia ou não, ela apertou os lábios em uma linha rígida.
Ela ouviu com atenção cada toque do aparelho, e, na sexta, percebeu a desistência através da interrupção dos avisos sonoros. Mas Edward nunca se daria por vencido tão facilmente, como Bella mais uma vez verificou, e voltou a chamá-la mais duas, três vezes. Não fora fácil para ela ser rejeitada por tantos dias. Era infantil de sua parte retribuí-lo na mesma moeda, contudo ela permitir-se-ia.
A certa altura, os toques telefônicos foram cambiados para dois bipes indicativos de mensagem SMS. Depois de deliberar por dois minutos se deveria lê-la ou não, confessou a si mesma a própria suscetibilidade e abriu-a:
Eu posso explicar. Para você, eu explico tudo. Apenas dê a oportunidade e não fique tão magoada. Agora atende a porra do telefone? Nem que seja para brigar comigo.
Como se não fosse suficiente deixá-la a ver navios durante o dia, Edward ainda ousava ser imperioso! Afrontada com sua falta de consideração, ela escancarou a porta do armário, catou o tênis de corrida favorito dele e deu-o de presente ao gato. Pequenos da idade deles eram freqüentemente atormentados pelos dentinhos afiados que tanto incomodavam a gengiva...
Quando o celular voltou a bipar, o chinelo velho emprestado por Olga já fora deixado de lado em favor de um calçado muito mais caro e novo.
Você tem mais é que se foder muito, Isabella, e na minha companhia. Não vai me atender?
Como resposta por ela continuar a ignorá-lo, Edward voltou a redigir:
Eu entendi, você não vai me atender, não importa agora. No vôo eu vim lendo uma revista de viagem interessante. Falava sobre Provence, campos de lavanda e eu obviamente pensei em você. Não apenas pelo cheiro das flores chiques, mas porque eu fantasiei sobre coisas pervertidas para se fazer em um lugares desses.
Bella, ainda deglutindo o que lera, não conseguiu evitar sorrir por Edward ainda conseguir ser simplesmente Edward. O bipe anunciou a última mensagem da noite:
Volto para casa o mais rápido. Preciso de mais três dias, um pouco mais da sua paciência e das nossas malas prontas para um clima de final de inverno na Marselha.
Ela não se privou de um chiar exasperado diante da falta de bom-senso de Edward, que não se importava que ela retomasse as aulas em dois dias e planejava, sem cerimônias, uma viagem que a envolvesse. Além do mais, Bella não conhecia a bucólica Provence e nem tinha vontade de fazê-lo.
Emmett observava chocado a expressão de satisfação do chefe, que não escondia por um segundo as engrenagens movidas pela vingança girando em sua mente. Olhando para todos os lados, pela primeira vez temendo uma missão, Emmett estava com a impressão de que era perseguido por homens de Denali e que eles não demorariam a alcançá-lo. Ele precisaria ser rápido, porque Denali já solicitara a carne de vitela da ceia há um par de horas, e o que menos precisavam era ver o velho russo em alerta naquela noite.
Cumprindo as ordens que recebera, o assessor retirou as mercadorias em segurança da casa de Ninotchka, tomando cuidado extremo para que os outros freqüentadores não as vissem, porque não pretendiam procurar encrencas com a polícia. Por mais que a prostituição fosse tolerada, a exploração de menores nem sempre o era. Ninotchkatrabalhava com todo o tipo de entretenimento para homens, inclusive com crianças, Emmett não deixava de ser abismado pelo quão jovens elas poderiam ser. No pequeno furgão sem placa que Edward comprara de um traficante por um preço ridículo, ele viu entrar menininhas cujos corpinhos não poderiam ser diferenciados de um menino. Suas idades variavam entre os cinco a dez anos, podiam ser brancas, negras e asiáticas, mas tinham em comum a mancha da miséria e o estigma de terem sido vendidas por seus pais em troca de um prato de comida. Embora a noite estivesse tão alta que era difícil enxergar o rosto de alguém a dois palmos, a Emmett era impossível não contemplar a própria vergonha.
O chefe não parecia acompanhá-lo no sentimento, entretanto. Ele até sorria enquanto digitava algo no Blackberry, ao menos assim a penumbra da área de matagal descampada deixava entrever.
- Missão cumprida até agora – Emmett desgostosamente enunciou depois de fechar as meninas no furgão. – Cinco meninas para se juntar às outras três que estão a caminho de Moscou.
Edward acenou e guardou o celular no bolso da calça, deixando o assessor intrigado que, na iminência pelo que estava por acontecer, ele ainda tivesse serenidade para trocar mensagens SMS com alguém. O único membro da escolta permanente do chefe escolhido para aquela missão, Dmitri, organizou as crianças dentro do transporte e advertiu:
- Se quisermos mesmo entrar na casa de Denali junto com a primeira remessa, precisamos ser breves.
- Seremos – Edward concordou, gesticulando para Emmett. – Agora desfaça essa cara amarrada antes que eu a quebre inteira.
Emmett não o refutou, mas também não cumpriu a ordem, porque não estava acostumado a dissimular suas opiniões. Sentou-se ao lado do mafioso no furgão, que dirigia o veículo em silêncio incômodo, cortante por si mesmo, sem nada de tranqüilo. Assim ele dirigiu para a área urbana de Moscou, que foi prenunciada pela dualidade da capital russa, onde monumentos comunistas dividiam espaço com catedrais do século XV. À direita, a cúpula dourada do Kremlin podia ser vista, mas ela não reinava sozinha, porque um olhar mais atento enxergaria também a poluição e pobreza que existia ao seu entorno. Embora Edward lamentasse um tanto por não preferir a civilizada São Petersburgo, o berço cultural de tantos intelectuais daquele país, havia um encanto selvagem naquela Moscou de tantas dualidades que o levava a crer que ela era o coração da Rússia.
A mansão que Eleazar Denali comprara para si não estava muito distante do rio que cortava a capital russa, situando-se próxima a Sofískaia Naberêjnaia, como que para ser tocada por sua opulência. Edward já estivera ali algumas vezes, mas não fora o bastante para deixar de achar engraçado os quão espalhafatosos os novos milionários costumavam a se tornar. A prova daquilo era o enorme muro que cercava a propriedade, cujas grades em formato de lança foram revestidas por folhas de ouro, o mesmo material que compunha o chafariz que havia no térreo e boa parte dos utensílios domésticos que havia no interior da casa, ele sabia. Edward refletiu, repleto de um rancor irônico, que Denali, no fundo, continuava sendo o mesmo pobretão siberiano que comia pombos para não morrer de inanição.
O mafioso não poderia se arriscar em ser reconhecido pelos homens do ex-sogro, porém também sabia que, se tentasse se ocultar, o risco de ser pego era grande, e ele também não confiaria a missão a mais ninguém. Por isso mesmo, ele apegou-se aos ícones ortodoxos que Esme o ensinara a adorar na infância e pediu, sentindo o calor do crucifixo que Bella lhe presenteara, para voltar para casa inteiro. Por fim, respirou fundo, dirigiu o furgão até o portão da mansão, e, sem hesitação, abriu o vidro para ser visto. Com um pouco de sorte, ele não fora uma pessoa tão marcante ao guarda-costas mal-encarado e com físico de lutador de vale-tudo.
- Um pequeno bônus de Ninotchka. Para Denali – Edward empurrou sua voz para fora, esforçando-se para falar em russo tão sem hesitações quanto um moscovita.
O homem analisou-o com olhar perscrutador e Edward retribuiu-lhe o interesse, impassível, contudo o seu íntimo não estava tão contido assim. Aquela era uma missão complicada, e sua chance de sair morto era a mesma que sair vivo. Nenhum dos dois enxergava muito mais que sombras da noite, pois era o máximo que o poste de iluminação permitia, e ele não sabia se tal detalhe trabalharia ou não para o seu favor.
- Entre pelos fundos, deixe o que tem de deixar e saia imediatamente.
Anuindo rapidamente ele retirou-se, soltando a respiração que não notara prender. Não ousaria a comemorar também. Seguindo a instrução que recebera na entrada, atravessou as alamedas recobertas pelo orvalho do final de verão e ordenou que Dmitri abrisse a porta do furgão para que as garotas descessem. Não as mirou sequer no momento em que ouviu o funcionário instruí-las do que fazer dali em diante, permitiu-se a um último pequeno gesto de covardia. Não sabia mais o que aconteceria àquelas crianças inocentes dali em diante, ou melhor, possuía uma breve desconfiança, e as perspectivas não eram otimistas.
Se tudo ocorresse conforme a estranha normalidade que norteava o relacionamento de Eleazar e sua ninfa, elas não enfrentariam tantas dificuldades em cumprirem o combinado. Com um pouco de sorte, o segurança da porta não se daria conta de sua demora, e ele conseguiria permanecer no furgão o máximo de tempo possível, fugindo do rigoroso circuito interno de monitoramento do jardim.
Ele havia estudado pacientemente como era montada a segurança da casa de Denali. Utilizara para tanto informações colhidas durante seu casamento com Tanya, as quais ele nem se apercebera que garimpava, e mais algumas outras compradas de informantes. Conhecia os recantos que não eram cobertos pela vigilância das câmeras e conseguia mirá-los de onde estava, através do pára-brisa coberto por uma lama que preferia não identificar. Não poderia correr o risco de ser reconhecido por algum vigilante mais atento e com memória melhor. O desconforto, se fosse uma entidade, estaria estralando asas diáfanas pelo ambiente.
- Como você pretende atrair Jane até aqui? – Emmett questionou reticente.
Edward observou o melhor amigo de soslaio. Ele estava ali porque era forte e de extrema confiança, mas começava a se arrepender por trazê-lo.
- A tal Nina costuma a mandar uma lembrancinha para a menina do Denali também, não somente para ele. E você sabe, Jane adora bonecas – terminou a frase com um sorriso malévolo.
Se a sorte não conspirasse ao seu favor, Denali, como hábito, iniciaria às atividades libertinas com menores de idade ainda com Jane, a usaria para tudo aquilo que não exigisse sexo com penetração, e depois a mandaria sair para longe de sua fúria sexual descontrolada de velho pedófilo. As outras pobres inocentes que pagassem por aquilo que a querida Jane não pudesse proporcionar.
Os próximos minutos estariam para os mais angustiantes da vida de Edward. Ele ouviu as respirações pesadas de Emmett e Dmitri, perdidos entre a expectativa e o inconformismo. O assessor ainda preservava muito da inocência do meninão que era em seu coração, e Dmitri, há tanto tempo servindo Masen, não estava habituado a compactuar de missões que considerava tão torpes.
Edward não esperaria muito, como desconfiava. Em alguns minutos, uma apressada Jane surgiria da mesma entrada de serviço que, antes, as outras crianças haviam desaparecido. Ele entrou em alerta, ansioso, enquanto seus outros dois comparsas bufaram como duas pessoas lamentosas dos próximos passos a serem tomados.
- Agora! – o mafioso ordenou, e Dmitri não hesitou em saltar para fora do automóvel. Jane o observou com um pouco de incredulidade, pois aquele homenzarrão loiro não se parecia com um dos efeminados eunucos que Ninotchka enviava para presenteá-la com bonecas, porém seu sorriso de menina na expectativa não desvaneceu. E enquanto sorria, Edward constatou, enojado, que seu rostinho infantil estava tingido por um tom que apenas brincadeiras sexuais eram capazes de arrancar.
- Então o que... – ela tentou perguntar, mas a sugestão daquele homem embebendo o lenço em um líquido a fez recuar instintivamente, sem saber que ele pretendia exatamente afastá-la do foco das câmeras. – Oh não!
Ela não teria tempo sequer para gritar, porque Dmitri alcançou-lhe, aplicou-lhe uma gravata para sufocar-lhe as lamúrias e, depois de aspirar a um esquisito cheiro de éter, Jane adormeceria.
- O adultério é uma das principais justificativas para o divórcio no Reino Unido, pois, além de ser enquadrado em um comportamento irracional de uma das partes, pressupõe a humilhação da outra. Levando-se em consideração que o divórcio por adultério é a via mais rápida para qualquer ex-casal, e que se entende por adultério sexo consensual de um dos desposados com outro indivíduo do sexo oposto...
O juiz, desconsolado que estivesse para além do horário no fórum, tratou de apressar ao advogado:
- Por favor, eu conheço exatamente como funciona a lei do Reino Unido. Adiante-se.
O doutor Buchard anuiu, não permitindo que a interrupção do juiz o desolasse. Ele era um jurista com décadas de experiência e sua fama sempre o precedia, não era a toa que se valesse da ousadia de recusar 95% dos casos aos quais era requisitado. Seus clientes nunca tinham do que reclamar, com exceção dos preços exorbitantes dos seus honorários.
- Entendido, Excelência, serei breve – ele lançou ao juiz um sorriso afável, tão apologético quanto esnobe. – O meio mais conveniente para a separação de meu cliente da senhora Tanya seria pela via do adultério, uma vez que se há um detalhe incontestável neste caso, foi que houve violação dos votos matrimoniais mais básicos...
- Protesto, Excelência! – o outro advogado erigiu-se, e o doutor Buchard cumprimentou-o com a cabeça, como colega de longa data. – Minha cliente não precisa ser perturbada ainda mais com o comportamento infame de um homem que nem se dignou a participar da audiência do próprio divórcio.
Tanya encolheu-se em seu assento, porém, ao contrário do que pensavam seus expectadores, não se sentia humilhada. Pelo contrário, estava envergonhada, tardiamente arrependida por ter enviado indigestas fotografias para Bella em um impulso transloucado. O que mais desejava era que aquele martírio terminasse o quanto antes e poder escapar daquela sala pequena e cortada de cima abaixo por uma imensa de madeira, onde as partes sentavam-se.
- Aceito – disse o juiz, um homem com menos de quarenta anos, mas precocemente calvo. – Precisamos nos lembrar também que sendo o adúltero o senhor Masen, não é da alçada dele solicitar um divórcio por adultério. Apenas a senhora Masen estaria apta a isso.
Buchard relanceou a encabulada senhora Masen com alguma piedade. Ela era uma mulher simples, com os cabelos loiros presos para trás, rosto desprovido de pinturas e vestido de uma lã que não era das melhores. Sim, nas leis da Grã Bretanha, os divórcios com menos de dois anos de separação de corpos deveriam possuir uma justificativa plausível, e o adultério era uma das mais fortes. Porém, apenas a parte lesada poderia se valer dela, não a parte culpada. Não que criar outros subterfúgios fosse impossível, e por conhecer todas as rotas de fuga Buchard era o advogado familiar mais requisitado do país.
- O adultério em questão foi impetrado pelo senhor Masen. Mas entendendo-se que a justiça visa em todas as circunstâncias o bem-estar comum, e não somente das duas pessoas comprometidas em matrimônio... – ele observou Tanya significativamente, para depois voltar-se ao juiz uma vez mais. – Não podemos ser tão egoístas ao ponto de permanecermos em uma disputa judicial que pode se estender por meses, quiçá por anos, quando o senhor Masen tem uma companheira diária há quase um ano, o tempo mínimo exigido para qualquer relacionamento de indivíduos de sexos opostos que dividem o mesmo teto serem enquadrados na categoria de "união estável". Eu entendo que este detalhe, por si mesmo, não é justificativa para um divórcio – adiantou-se, já prevendo a refutação que o colega advogado do lado oposto faria. – Contudo, podemos torná-lo assim porque a companheira do meu cliente em breve aumentará a sua família. A senhorita Isabella Swan está grávida, conforme o senhor juiz poderá atestar nestes exames que trouxe para a apreciação...
Eficientemente, Buchard retirou de sua pasta um envelope e arrancou de dentro dele certos documentos, que foram estendidos ao meritíssimo ainda marcado pelas dúvidas. O advogado esperava de verdade que Edward houvesse atentado para as conseqüências quando o autorizou a usar a gravidez de Bella ao menos para conseguir a formalização da separação formal de corpos e o primeiro passo para o divórcio por adultério, se fosse necessário. Porque engravidar a filha do ministro das Relações Exteriores nunca seria o assunto mais obscuro do mundo, além de ser a semente que a imprensa mais desejava para cair na terra fértil das notícias vespertinas.
Sangue.
Sangue jovem.
Sangue jovem oferecido ao monumento da mais vil das vinganças.
De tão múltiplos eram os motivos, que Edward nem poderia eleger uma principal via para aquele ato extremo. Não havia racionalismo ao ato. Ele estava vagamente consciente do quanto seus olhos eram animalescos toda vez que espiavam por cima dos seus ombros a menina desfalecida no banco traseiro do automóvel. Era-lhe sofrível que perguntasse intimamente o que pretendia fazer com ela, mas nenhuma resposta viesse facilmente. Sendo bastante honesto, ele concordaria que não faria nada de relevante para uma criança como Jane por ela mesma, contudo o seu anseio de fazer Denali pagar caro era bem maior que seus escrúpulos.
Por Bella, que tivera lembranças da infância desferidas como um soco no estômago e arranjara outros fantasmas para a sua coleção. Por Esme, a menina russa que tivera a inocência roubada, que se fundia em espírito com a mãe que ele não lembrava. E por último, vingança por ele mesmo, criado em uma rede de mentiras, um pobre órfão obrigado a se casar com a filha de Denali apenas para tomar posse do que deveria ser dele por merecimento.
Edward estava cego pela adrenalina mais que o bastante para não se dar conta que o endereço do casebre era muito para além dos limites de Moscou. Denali não demoraria muito a dar conta da ausência da ninfeta mais querida, e eles precisariam estar longe de sua área quando esse momento chegasse.
- E-eu não sei se vou conseguir... – Emmett declarou, as mãos imensas apertando os joelhos, os olhos vidrados no pára-choque do furgão.
- Não seja tão veado – Edward desafiou, voltando a ignorá-lo peremptoriamente. Desde que saíram da Inglaterra, o passatempo favorito do assessor parecia ser enervá-lo.
Devia estar gelado, porque a relva emitia ruídos de gelo partindo-se quando era pisada, e aquele era o único barulho que conseguiam ouvir, além dos produzidos pelos grilos e outros animais de hábitos noturnos. Fora dos domínios das estepes, a natureza podia ser exuberante na Rússia, porém eles pouco poderiam ver através da claridade que a lanterna propiciava.
A caminhada não era longa e assim mesmo as roupas formais de Edward ganharam algumas manchas de terra. Ele iluminou o casebre que conseguira alugar por uma noite de um criador de cabras, que, entre suas virtudes, a principal era ser completamente leigo quando o assunto era criminalidade. Uma das muitas precauções que o mafioso tomara para Denali não descobrir sua presença na Rússia era a de se envolver o mínimo possível com homens do crime durante aquele tempo. O lugar era simples, mas tão bem conservado, que por um segundo Edward lamentou precisar desarrumá-lo um pouco.
Com um aceno mudo de cabeça, mandou que Dmitri despejasse o corpo ainda parcialmente adormecido de Jane no chão. O impacto da colisão a fez revirar-se e resmungar palavras de lamento.
- Acenda a luz – ele ordenou a Emmett, que cumpriu a ordem, mesmo relutante. – Onde tem a porra de uma pia? – perguntou, sem esperar ser respondido.
A cozinha não estava muito distante da sala, por isso em poucos segundos Edward retornou com um copo de água na mão, que sem dó, foi despejado no rosto de Jane. Ela despertou imediatamente, embora grogue.
- O que eu estou... estou... oh não, você... – seus olhos protestaram contra a claridade tênue do ambiente.
- Quem mais seria, putinha mirim? – Edward cuspiu. – O bicho-papão? A realidade não é tão generosa quanto os seus sonhos.
Jane escorou-se nos cotovelos, tentando soerguer-se sem sucesso. Com semblante desesperado, procurava rotas de fugas. Emmett desviou os olhos para a direção oposta, chocado, pois com a blusa de malha que parcamente lhe cobria a nudez impúbere, ela era ainda mais menina. Uma menina que se vestiu as pressas após cumprir obrigações vexaminosas, apenas porque pretendia ir buscar uma boneca.
- Por favor, preciso ir. Papushka não vai...
- Papushka neste momento está comendo criancinha e tirando delas o que não é homem o suficiente para tirar de você – Edward frustrou suas esperanças. – Você pode gritar, pode espernear, mas aquele velho não está aqui para você. Eu, no seu lugar, preferiria calar e aceitar! Há várias formas de se morrer, mas a forma digna é sempre a melhor delas.
- Não! Você não pode fazer isso, Edward! Papushka não vai... ele... ele... vai ficar bravo... não, não, não! SOCORRO! – ela gritou a pulmões abertos, sentando-se no chão por impulso. – Papushka, por favor, o que eu fiz de errado? – já aos prantos, perguntou ao léu, perdida entre clamar ao seu corruptor ou ao Pai maior.
A menina sabia o que aconteceria, pois vivera tempo suficiente na lógica da Máfia para isso. Sabia que tipo de troféu significaria para Edward Masen caso ele fechasse suas mãos nela, porque de criança Jane possuía apenas o corpo de desenvolvimento retardado pelas pílulas que papushka a obrigava a ingerir e a fascinação por bonecas.
- Estou dando uma foda para o seu papushka – ele declarou, rilhando os dentes. – Emmett, é com você.
O assessor engoliu em seco, nem um pouco preparado para o momento que antecipava desde antes da viagem. Arrependeu-se por ter aceitado embarcar com Edward, no final das contas. Por que fora tão covarde ao ponto de não negar-se a partir?
- M-mas Edward, você não vai tentar arrancar nada da pirralha? Nenhuma informação? – o sempre tão descontraído Emmett, cujas piadas fora de hora mais relaxavam que irritavam, não omitiu o abalo emocional.
- Não. Esta menina é uma pobre coitada explorada, mal sabe falar e duvido que saiba escrever, não há nada que ela possa acrescentar – voltou-se para o velho amigo com complexão fechada, advertindo-o sem a necessidade de palavras que desígnios eram para ser cumpridos. – Não tente me enrolar, Emmett, você sabe que eu uso a porra da sua corda para te enforcar! Eu quero que você foda com a menina do Denali como nem ele tem coragem de fazer!
As mãos de Emmett tremiam enquanto ele apertava as articulações, como prova do seu esforço para bombear sangue para o corpo e, assim, manter-se alerta. Com desgosto, ele rumou os olhos castanhos para Jane, embolada no chão, um instintivo gesto de tentar em vão se esconder nos tecidos rústicos tipicamente russos que ali havia. O choro que lhe escorria pelas têmporas fazia com que sua maquiagem negra estivesse manchada, um complemento perfeito para os cabelos loiros desgrenhados e a roupa de pós-sexo que não podia se classificada em melhor estado. Desviou o olhar daquela figura atormentadora, ainda sem saber se estava realmente pronto para abarcar as conseqüências do que seu próximo pronunciamento traria.
- Eu não vou, chefe – ele murmurou.
- O quê? – Edward assoviou, preferindo não acreditar no que ouvia.
- Eu não vou tocar na menina. Eu não posso – confessou brandamente, mesmo que sem hesitações. – Eu entendo os motivos por você querer matá-la, me peça para fazer isso, eu não pensaria duas vezes antes de obedecer ao meu chefe. Mas isso... isso de foder com ela... dependeria de uma disposição física que eu não tenho. Chefe, eu não...
Emmett não teria a oportunidade de completar a frase, porque a melhor mão de Edward, a esquerda, acertaria em cheio o lado direito do seu rosto. O assessor era um homem imenso, que não era abatido facilmente por homem algum, contudo o elemento surpresa nunca lhe favoreceria. Ele caiu para o lado pesadamente, apoiando-se nas mãos para reduzir o impacto, e jogou uma razoável cusparada de sangue no chão, que foi acompanhada por um dente molar. O dois punhos férreos de Edward presoas na camisa de Emmett o trouxeram para cima novamente.
- Amarre-a, Dmitri – ele comandou ao outro funcionário, sem nunca desviar-se do seu principal alvo na fúria, que era o assessor. – Você vai trepar com a menina, Emmett, vai trepar com ela para que a porra do papushka a veja completamente esfolada!
Embora fosse meia cabeça maior que seu chefe, havia algo em seu olhar verde, que brilhava de sangue mesmo em ambiente parcamente iluminado, a impedir que Emmett o encarasse. Pressionado por Edward pelo colarinho, ele apenas contemplou o chão.
- Eu não posso. Lamento muito.
O tom não era ofensivo, muito pelo contrário, havia ali uma nota de submissão e tristeza por ter de frustrar a missão que o líder lhe conferira. Se Edward não estivesse tão corroído por ver-se desafiado por alguém que, na teoria, deveria obedecê-lo cegamente, teria percebido o quão escandalosamente pesaroso Emmett se encontrava.
- É lógico que você vai me obedecer, porque não tem escolha!
- Eu tenho, sim – ele continuou a olhar para o chão. – Eu não vou currar uma criança, chefe. Eu não posso, eu não consigo, eu não vou fazer isso, é mais forte que eu!
Edward soltou-lhe o colarinho, mas seu gesto foi mais raivoso que propriamente conformado. Emmett, mesmo que fosse reconhecidamente um bonachão na maior parte do tempo, sabia que o momento em que o chefe lhe dera as costas com um rosnar muito audível não seria o final. Provavelmente era uma trégua necessária, mas o entendimento dos dois não terminaria ali.
O mafioso lamentou-se em silencio que os homens fossem tão diferentes das mulheres. Era difícil tocá-las na alma. Quase impossível, ainda, seria entrar em suas mentes e entender o que elas pretendiam quando o "não" significava "talvez" e o "sim" era o mesmo que "não". Contudo, se as mulheres eram de Vênus enquanto os homens eram de Marte, quase sempre era fácil ao extremo usar da força e coagi-las para que abrissem as pernas.
- Você, Dmitri, não se junte ao merda do Emmett e não me decepcione esta noite – instruiu com voz de comando, apenas vagamente consciente da menina que se contorcia amarrada no chão, agora com a boca também tampada. – Quero que você arrombe a porra da garota!
Emmett, amuado em seu canto, não conseguiu conter-se:
- Por que não faz você, chefe?
Em um impulso, Edward encerrou a distância entre eles e lhe desferiu outro soco com a mão canhota. O assessor voltou a tombar ao chão, grato na medida do possível por não perder outro dente. Seu chefe, entretanto, apertou a mão utilizada com força, mal ocultando a dor. Ele pagaria muito dinheiro para ser como os heróis dos filmes americanos de pancadaria, que socavam seus oponentes trinta vezes e não sentiam o menor impacto nas articulações. Infelizmente ele não era um homem ficcional.
- Dmitri – Edward pronunciou o nome do funcionário como se fosse uma advertência.
O rosto do homem, redondo e maciço como próprio à etnia eslava, perdera o pouco de coloração que havia em sua palidez. Estava de cócoras diante Jane, que, embora estivesse amarrada, conseguia criar um rebuliço nos panos que havia no chão. Apesar de desconfiar fortemente que seu destino estava traçado, seu lado irracional ainda procurava um modo de livrar-se das cordas e escapar.
- Eu não sei se sou capaz...
- Ah, você é muito capaz – Edward disse, entretanto não havia qualquer inclinação de incentivo no timbre. – É muito fácil para você se excitar, porque é o seu estado natural. Acredita que eu não perceba como você olha para Rosalie? Ou para Alice, ou até mesmo para Esme? E mais grave ainda... – com as mãos nas costas, ele despejou no funcionário o lado mais fantasmagórico de sua ira. – Pensa que eu não sei como você olha para a minha mulher?
Dmitri não trairia o desconcerto.
- Chefe...!
- Deixe de ser cínico. Você é a porra de um pervertido, e agora quer bancar o 'garotinho virgem da mamushka'? – zombou. – Se você quiser pensar em Isabella enquanto arromba esta criança de merda, eu permito, porque imagino que os seus pensamentos sejam muito pouco criativos para fazer jus a realidade!
Com o pai, que fora escudeiro leal de Eleazar Denali por mais de vinte anos, Dmitri aprendera a não contestar ordens. Uma das principais forças motrizes de qualquer organização criminosa, ao menos daquelas que pretendiam se engrandecer, era empreender um cuidadoso condicionamento da mentalidade dos seus parceiros – "lavagem cerebral" era o termo mais empregado pela justiça. Não bastava dominar pela força, ou melhor, a força bruta deveria ser usada como recurso último. Antes de se usar uma arma de fogo, um grande chefe que se prezasse lançava mão de sua capacidade de promover verdadeiras lavagens cerebrais em seus associados até a exaustão.
E porque Dmitri era, acima de tudo, um homem da Máfia, muitíssimo filho do próprio pai, que desde cedo salientou ao filho a necessidade de seguir às ordens de um "chefe", não importando quais fossem, ele seguiu a risca o que Edward dizia. Ele fantasiou com as mulheres que ele citara, pois, diferente daquilo que Edward aventara, Dmitri não tinha a mais limitada das imaginações. Ele criou cenas e situações novas em sua mente e recriou outras que simplesmente suspeitou que houvessem ocorrido, como nas vezes em que ouvira movimentos estranhos vindos do quarto do chefe e da amante, ou de quando o chefe a olhava com olhar implorativo e ordenava que todos os demais os deixassem a sós no escritório. Tal como jamais se deveria questionar Masen, fazia parte do jogo invejar o que ele possuía.
Edward sorriu sardonicamente, satisfeito que, ao menos, Dmitri o obedecesse.
- Segure-a, Emmett – ele imperou com um prazer mórbido.
Comprimindo o maxilar, Emmett compreendeu o recado. Edward poderia imobilizá-la, se quisesse, mas legou a tarefa a outro por estar ciente que a ordem causaria desgosto. Engolindo a náusea, o funcionário terminou por obedecer ao chefe. Ele falava a sério quando dizia que faria quase tudo o que fosse ordenado por Edward.
Com esta disposição de ânimo, Dmitri afrouxou as calças e, sem muita demora, preparou-se para a missão da qual fora incumbido. Conforme ele ia aproximando-se, Jane tentava gritar, mas as amarras também a privavam daquilo. Ela não podia debater-se, porque a imensa massa muscular de Emmett fustigava seus quarenta quilos com uma eficiência desoladora.
Edward não pretendia que Dmitri fosse terno, e ele não seria, embora não se considerasse um estuprador por natureza. Apesar de Jane não ter nenhuma virgindade para zelar, seu corpo de criança não estava preparado para os anseios dos homens, quanto mais para o furor de um que era deliberadamente violento. Emmett fechou as pálpebras para não ver o horror nos olhos da menina, mas seu chefe não estava com o estômago tão fraco naquele dia. Pelo contrário, assistiu a tudo. Talvez apreciar fosse o termo correto.
Para o descanso de Jane, a dor e o asco a fizeram desfalecer antes mesmo de Dmitri completar o ato. Edward acenou a cabeça para Emmett e ele compreendeu o recado. Exultante por dar um fim àquele martírio, ele plantou uma bala em sua cabeça, dando fim a maiores dores.
Dmitri ainda organizava-se e Edward pensava no quão esplêndido seria o grand finale de sua vingança, no momento em que Emmett, ainda com a pistola em punhos, disse:
- As pessoas que você mais ama na vida são mulheres, chefe – ele comentou com uma tristeza tão lancinante, que jorrava através da voz gutural. – Em breve você terá outra que superará a todas e ela também será uma mulher. Realmente valeu a pena?
Edward respondeu-o com uma imprecação, e o fato dela ter saído em um russo tão espontâneo, deixou-o abismado. Sacudiu a cabeça de um lado para o outro, pretendendo se livrar do demônio que o tomara, se demônios realmente existissem. Cheio de angústia, observou o corpo de Jane no chão. Se a imagem da garota estuprada e morta lhe causava pavor, também havia júbilo na mesma proporção.
Teve uma idéia impossível de ser reprimida. Edward a revelou enquanto ainda tomava forma, para não correr o risco de que ela fugisse, ignorando o brilho consternado nos olhos de Emmett, onde anteriormente encontrara sempre camaradagem. Não se importava com aquilo.
Denali dissera certa vez, há muito, que seu genro possuía uma incrível vocação para o espetáculo. Poucas vezes esteve tão certo. Não era do feitio do ex-sogro criar cenas como a do extermínio dos gatos de Jasper, assim como não era hábito de Edward usar vinganças sexuais. Eles vinham se aperfeiçoando muito ultimamente.
Uma dúzia de horas depois, após dormir alguns minutos em um hotel barato qualquer, Edward não conhecia ao certo o que sentia. Não dirigira uma palavra desnecessária a Dmitri ou tampouco a Emmett, seus taciturnos acompanhantes de clima pesado, embora Moscou desfrutasse de um bonito dia de sol. No aeroporto da capital russa, vestindo um terno grafite comprado às pressas, cabelos organizados e aspecto sadio, apesar de cansado, o mafioso aparentava ser alguém distinto que voltaria para casa após uma longa viagem. Foi esta, ao menos, a impressão do gerente da filial de uma famosa joalheria russa ao vê-lo parado diante da vitrine. Ele prontamente trataria de atender àquele jovem senhor com aparência de magnata.
- Posso servi-lo, cavalheiro? – o gerente, um senhor baixinho e com uma calvície que muito evidenciava o crânio bastante redondo, tipicamente eslavo, perguntou com solicitude.
Edward piscou distraído ao notar-se objeto de atenção, mas manteve seu foco.
- Estes que estão na vitrine são de ouro com duas cores. Há disponíveis modelos de ouro com três cores?
O gerente aquiesceu com entusiasmo. Não era todo dia que procuravam alianças matrimoniais de ouro amarelo, branco e rosado, na mais típica tradição russa. Até mesmo entre os ricos, não eram muitos que acreditavam que o amor valesse tanto dinheiro.
- Até cinco cores, se o senhor preferir. Deseja conhecer nossas alianças com diamantes?
Oi, gente!
O que achamos deste capítulo? Eu gostei bastante, espero que vcs tenham curtido tanto quanto eu. E este final, heim? Fechando com chave de ouro!
Eu estou aqui para pedir desculpas... hehehe. Desculpas por não conseguir atualizar a história tão rápido quanto sempre atualizei e por não estar conseguindo responder às reviews. É que às vezes a nossa vida real não caminha de acordo como planejamos, se é que vcs me entendem! O excesso de trabalho me consome, ainda estou lutando para terminar outra faculdade, tem lançamento e divulgação de livro, etc, etc. O dia das mães passei sem minha mãe, por exemplo. Minha tia está internada há vários dias com uma doença séria, passou por outro procedimento cirúrgico, e tive de abrir mão da minha mãe em favor de outra pessoa que precisava mais que eu.
Por isso, vou ressaltar A IMPORTÂNCIA DE RECEBER COMENTÁRIOS. Nem que seja para dizer só "amei" ou "detestei"... só para eu saber que vcs estão aqui comigo, sabem? Os comentários continuarão sendo RECOMPENSADOS para quem deixar o e-mail, não é legal receber bônus? Vamos lembrar de deixar uma palavra de incentivo para a autora.
Agradecimentos especiais aos comentários dados no último capítulo por cris reis, gabiip, lina2000 (linda!), Dayanne Masen (review ótima!), Dinda Cullen, fanatic1326, Irene Maceio, Taty Beward, stephane, janaina. Obrigaaaada!
Ah, se não for muito abuso, posso pedir outro favor? Vcs poderiam curtir a fanpage de "Entre a Nobreza e o Crime - O LIVRO" no Facebook? É muito importante para mim...
facebook(.)com/entreanobrezaeocrime (TIRAR OS PARÊNTESES)
E por último, agradeço às pessoas lindas que compraram o livro na pré-venda! VCS SÃO UMAS LINDAS! O livro começou a ser despachado na última semana, e estou super feliz com a recepção! OBRIGADA! E quem não comprou na pré-venda, pode fazê-lo agora. Na fanpage tem as informações!
