Capítulo 13: Ao Resgate
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Com um forte baque, Syaoran foi de encontro à parede do escritório onde entrara a menos de cinco minutos. Atordoado, sua vontade era de apertar a mão contra o lado de seu rosto, onde sabia que um belo hematoma se formaria. Entretanto, anos de treino o fizeram conter o instinto, enquanto se posicionava em defesa, imediatamente materializando sua espada entre seus dedos.
Ao mesmo tempo, Tao e Feng também reagiam ao súbito ataque desferido contra seu jovem líder. A cena parecia própria de uma daquelas reuniões não bem sucedidas entre gangsteres. Tao com sua lança próxima ao pescoço daquele que atacara a Syaoran, Feng apontando um de seus leques a um dos guardas que acompanhava seu anfitrião, enquanto tal guarda apontava uma pistola à cabeça de Tao. Os três se entreolhavam com promessas de retalhamento.
Syaoran e seu interlocutor, por sua vez, pouco prestavam atenção aos outros, ambos se encaravam firmemente. Syaoran com sua espada em mãos e o outro com um revólver na sua.
Syaoran: 'O que isso significa, Yuy?' O outro mantinha o olhar frio, porém determinado, em direção ao chinês.
Heero Yuy: 'Não vou repetir novamente. Vocês não verão Relena.'
Syaoran (irritando-se): 'E qual a razão para isso?'
Heero: 'Vocês estrangeiros aparecem em nossas terras, em época de ameaças pós-guerra, com uma história absurda de mágicos e seqüestros, exigindo reunir-se com um dos principais alvos desta guerra interna e esperam que eu permita? Até onde eu sei, vocês podem muito bem ser tais seqüestradores, ou pior, assassinos contratados por nossos inimigos.'
Feng: 'Isso não faz sentido. O Clã Li tem boas relações diplomáticas com a família Peacecraft há décadas. Sem falar de Hiiragisawa Eriol.' Diante da frase, o guarda que acompanhava Heero riu sarcástico.
Duo Maxwell: 'Vocês não são os primeiros a aparecerem por aqui clamando conhecer a família da princesinha. Sem contar as vezes que fomos traídos por supostos aliados que não passavam de maricas covardes.'
Feng voltou o olhar para Tao, esperando que este se pronunciasse. Se havia alguém que poderia resolver aquilo civilizadamente, era ele. No entanto, o Ancião mantinha seu olhar concentrado em Heero Yuy, sua lança apontando em direção ao pescoço deste. Apreensiva, Feng voltou os olhos para Syaoran, o rapaz andava mais facilmente irritável que seria de costume, não sabia se poderia confiar nele para manter um diálogo amigável.
Foi então que, repentinamente, entendeu a atitude de Tao. Não lhe restavam dúvidas que o mago estava preocupado com seu jovem líder e, claramente, Heero Yuy também não era o mais ponderado das criaturas, ou não teria reagido tão agressivamente quando Syaoran insistiu em falar com Relena. Era muito provável que uma palavra mal colocada desencadearia uma reação bastante ruim para ambas as partes, de forma que a única forma de impedir que seu anfitrião atirasse diante de qualquer palavra mal interpretada do jovem chinês era, provavelmente, apontando uma lâmina contra o pescoço do soldado
Todavia, Feng percebia com apreensão que Tao não hesitaria em atacar antes que Heero se movimentasse e isso, certamente, levaria a um desastre total. A maga respirou profundamente, olhos ainda atentos para qualquer movimento suspeito, e tentou achar algo com o que argumentar em defesa de sua causa. Contudo, sinceramente não tinha esperado se deparar com uma situação como aquela, por mais delicado que fosse o momento naquele país.
A despeito de suas preocupações, seus medos talvez fossem infundados, visto que, para sua surpresa, ouviu a voz totalmente comedida de Syaoran ao dirigir-se a Yuy.
Syaoran: 'Senhor Yuy, não foi minha intenção ofendê-los ou fazê-los desconfiar de nossos propósitos ao insistirmos em falar com a Srta. Peacecraft, muito pelo contrário...' Acrescentou, enfaticamente, diante da expressão que se fechava mais à sua frente. 'Escute-me primeiro, para depois decidir. Pois se achar que estou mentindo, estamos totalmente à mercê de sua guarda. Mas se o que digo lhe parecer verdade, você então será a primeira pessoa a ficar ciente de quem são seus inimigos e como defender a Srta. Peacecraft.'
Diante das palavras, ainda que sua expressão continuasse fechada e seus olhos tivessem se estreitado ainda mais, toda linguagem corporal de Heero Yuy parecia indicar que ele passara a considerar a idéia que lhe era apresentada.
Aproveitando, então, a oportunidade que se abria, Syaoran começou a relaxar um pouco a guarda e voltou a falar.
Syaoran (sinceramente): 'Eu tenho tanto a proteger quanto vocês... Eu sei o que é perder alguém importante, principalmente por não conseguir prever meu inimigo.' Seus olhos eram sérios, ainda mais sérios que os de Heero e, talvez tenha sido por isso, mais que qualquer outra coisa, que fez o soldado continuar a escutá-lo. 'E ainda que meu objetivo maior seja resgatar quem perdi, estamos aqui, totalmente à sua mercê, oferecendo informações que adquirimos às custas de sacrifícios inestimáveis, para que vocês tenham mais chance de se defender do que nós tivemos.'
Apesar da persuasão que tentava embutir em suas palavras, antes que Syaoran pudesse identificar o que Heero poderia estar pensando, o outro guarda, Duo Maxwell se pronunciou, toda desconfiança de ambos soldados em sua voz.
Duo: 'Tudo isso é muito emocionante... Mas não prova nada. Não temos qualquer garantia da sinceridade de suas intenções e, pelo que pude ver aqui, vocês parecem ter alguma forma de tecnologia desconhecia, que lhes permite materializar armas do nada. Imagine o que poderiam fazer se os colocássemos na mesma sala que Relena! Hah! Nem pensar!'
Enquanto o jovem falava, Syaoran notava com apreensão que Heero voltava a desconfiar deles, ainda mais quando o outro mencionou o nome de Relena. O aperto da mão do soldado em seu revólver se intensificou e Syaoran fechou os olhos, começando a perder as esperanças de qualquer acordo.
Tentando contar um pouco com a sorte, antes que Heero pudesse falar qualquer outra coisa, Syaoran se movimentou, provocando nova sensação de apreensão por parte de todos os presentes. No entanto, tal reação era imotivada, pois tudo que Syaoran fez foi abaixar definitivamente sua espada e sua guarda.
Duo e Heero pareceram ligeiramente surpresos, mas não o suficiente para que expressassem qualquer reação fática. Feng voltou o rosto para Syaoran, tensa e confusa. Tao também se inquietou, tentando prever o que Syaoran pretendia fazer, mas sequer desviou a vista do pescoço de Heero.
Feng, no entanto, manteve seus olhos em Syaoran, ainda que continuasse ciente de seus inimigos. Seu olhar era questionador, numa interrogação silenciosa. E como se soubesse exatamente o que a mulher pensava, Syaoran focou apenas seus olhos em direção a ela e, após um breve segundo, afirmou quase imperceptivelmente com a cabeça.
A mulher abriu mais os olhos, surpresa, mas pareceu entender. Fechou suas pálpebras por um momento, como que contrariada e, em seguida, abriu-as com convicção para, logo em seguida, começar a abaixar seus leques.
Tao (sem desviar o olhar): 'O que está fazendo, Feng?' A mulher olhou-o com aparente segurança e, antes que o chinês pudesse protestar, a chinesa fez seus leques sumirem de suas mãos. Entregara-se totalmente ao julgamento de Syaoran e confiava na certeza das decisões de seu futuro líder.
Tao, no entanto, pareceu bastante afetado com os atos de Feng, irritado, inclusive. Mas antes que expusesse tais emoções, ouviu seu nome no timbre grave e ligeiramente rouco de Syaoran.
Syaoran (voltando o olhar de Heero para Tao): 'Tao... Por favor...'
Tao (ainda sem desviar o rosto de Heero): 'Isso não está certo, Syaoran. Como pode expor sua vida assim?! Viste a reação e opiniões destes soldados e espera, ainda assim, que eu pactue com esta loucura? Ages de forma totalmente irracional'.
Syaoran (sem vacilar): 'Tens razão.' Tao, surpreso, finalmente voltou seu rosto, quase esquecendo-se, por um breve segundo, de seu alvo. Syaoran, entretanto, continuou sem titubear. 'Tem razão, Tao. Não ajo racionalmente, porque não tenho tempo e nem disposição para tanto, não quando tudo que consigo pensar é na segurança de Sakura. E, por ela, estou disposto a expor minha própria vida...' Sua sentença foi reticente e, diante do escrutínio do olhar de seu jovem líder, foi com um nó no peito que Tao escutou a acusação nunca expressa ressoando em sua mente "e você também deveria".
O Ancião manteve o olhar em Syaoran por alguns segundos, antes de voltar o rosto sério para seus atuais desafetos. Primeiro Duo, depois Heero. Os dois guardas permaneciam sérios, sem demonstrar qualquer reação que predissesse suas próximas ações. Enfim, sentindo-se derrotado e ciente da loucura daquele intento, finalmente o Senhor da Razão soltou um breve suspiro, abaixando finalmente sua lança, que desapareceu logo em seguida de suas mãos.
O ambiente, nos momentos seguintes, ficou silencioso. O ar parecia pesar e ninguém se movimentava. Heero olhava atentamente para Syaoran, que devolvia com determinação o olhar. Sua expressão era indecifrável, seu dedo ainda firmemente posicionado no gatilho. Duo permanecia calado, aguardando o parecer final do Chefe da Guarda.
Heero estreitou seus olhos e, por um breve momento, Syaoran achou que o soldado iria atirar. Entretanto, apesar de manter a arma apontada para o chinês, o Chefe da Guarda relaxou sua postura.
Heero: 'Vamos ouvir, primeiramente, o que vocês têm a dizer. Antes disso, no entanto, não há qualquer possibilidade de eu permitir que cheguem perto de Relena.' Syaoran quase deixou transparecer seu alívio, mas manteve a expressão comedida, afirmando singelamente com a cabeça. 'Mas, primeiro... Duo...' O outro guarda voltou sua atenção para Heero. 'Algemas.'
Tao (indignado): 'Ora, como ousa!'
Syaoran (imediatamente): 'Tao!' O outro cerrou seus lábios firmemente, inspirando profundamente antes de virar para o lado oposto, seus braços cruzados, visivelmente irritado.
Syaoran suspirou complacente, antes de movimentar uma de suas mãos, num claro sinal para que seus anfitriões continuassem o que pretendiam. Sentia quase palpável a humilhação sua e de seus companheiros ao serem tratados como meros criminosos. Não obstante, aquele era um sacrifício mínimo e aceitável se lhe desse a menor oportunidade de encontrar Sakura e, com considerável sorte, conseguir resgatá-la.
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Ao longo daquela desgastante conversa, os pulsos de Syaoran gradualmente latejavam cada vez mais, embora sua expressão nada demonstrasse, sua concentração totalmente voltada aos melhores argumentos que pudesse encontrar para convencer Heero Yuy de que suas intenções eram justas e sinceras.
Feng e Tao mal participaram da conversa, ambos sentados em um sofá lateralmente disposto em relação a Syaoran e Yuy, que ainda se posicionavam um de frente ao outro.
O humor de Tao parecia ter melhorado, mas seu olhar compenetrado dizia a Feng que ele ainda se sentia bastante ofendido, e demonstrara ainda mais sua indignação quando seus interlocutores também a algemaram, dizendo que a periculosidade de seus inimigos nunca dependera de gênero. E, mesmo com o desconforto nos pulsos, Feng ainda se permitiu um imperceptível sorriso com o canto dos lábios, ao presenciar o instinto protetor de seu novo atuando.
Quase ao lado deles, mas um pouco mais próximo da porta de entrada, estava Duo Maxwell, sentado displicentemente numa mesa, apoiando seu braço em um dos joelhos, enquanto descansava um dos pés na superfície do móvel, seu olhar era aparentemente indiferente. Ainda assim, eventualmente, fazia perguntas perspicazes e astutas a Syaoran, observando se o mesmo não cairia em contradição. Ademais, percebia Feng com discrição, a mão direita do rapaz nunca saíra de perto de sua pistola, que descansava ao seu lado. Aqueles eram soldados e, evidentemente, diligentes em suas funções.
Syaoran, por sua vez, também se encontrava sentado em uma poltrona. Seus braços apoiados em seus joelhos, seu olha intercalando entre o chão e o rosto de Heero, enquanto procurava algum sinal do que o outro estaria pensando.
Contudo, evidentemente o rapaz era exímio em não demonstrar o que pensava. Permanecia com o olhar eternamente no chinês, sério, em pé e encostado à escrivaninha do escritório, braços cruzados, numa clara demonstração de introversão.
Heero não perguntara muito, mas parecia ter prestado atenção em tudo que o outro dissera, inclusive quando respondia às perguntas de Duo. Não obstante, só depois que mais dois outros guardas adentraram no escritório é que Heero Yui finalmente se deu ao luxo de colocar sua arma ao seu lado, na escrivaninha, seu porte ameaçador desaparecendo lenta, porém continuamente.
Passaram mais de uma hora conversando, mas Heero nada demonstrava de suas conclusões em relação a tudo o que escutara. Syaoran tinha a forte impressão de que a natureza do rapaz era aquela de uma pessoa calada, séria e cautelosa e que o único motivo que o levara a perguntar qualquer coisa era o senso de dever ao cumprir suas funções.
No fundo, não podia culpá-lo pela desconfiança, muito pelo contrário, sabia que, em situação semelhante, num ambiente conturbado pós-guerra no qual viviam aqueles homens, ele próprio também seria bastante cauteloso. Não só isso, sabia que, das outras vezes, gozara de maior confiança ou, pelo menos, era ouvido com ouvidos menos descrentes pelas demais pessoas envolvidas com aquela conspiração, pois todos os outros representantes com quem entrara em contato eram, de uma forma ou de outra, versados em magia, espiritualizados ou possuidores de profundo conhecimento da tradição antiga.
Dessa vez, no entanto, estava conversando com homens pragmáticos, céticos e endurecidos por uma cruel guerra. Eram soldados, dispunham apenas de seus conhecimentos militares, de armas de fogo e da mais completa perspicácia que só anos de experiência, traições, conflitos internos e perda de companheiros poderiam ter ensinado.
Syaoran não era completamente alienado quanto aos problemas do mundo. Também tivera conflitos no seio de sua própria família, perdera muito com as ambições alheias, mas era ponderado o suficiente para saber que agora lidava com uma situação muito mais grave, que atingia muito mais gente, em comparação ao que até então vivenciara.
Aliado àquele cenário pós-guerra, nenhum daqueles presentes parecia conhecer nada sobre magia ou o mundo paralelo dos magos e feiticeiros que percorriam o mesmo solo que eles. Não que fosse algo de se surpreender, pelo contrário, ficara é surpreso com o número de pessoas que encontrou nos últimos meses que conheciam magia, isso sim era estranho.
Magos, em geral, eram pessoas discretas, interagiam e se misturavam com o resto da sociedade, mas nunca agiam ou demonstravam, de qualquer forma, inclusive para ganho pessoal, que possuíam conhecimentos sobrenaturais, enfim, quase nunca participavam diretamente de conflitos, do governo ou de qualquer forma de confronto. Não era de se surpreender, portanto, que, em um ambiente militar como aquele, nada se escutava sobre o assunto. Talvez Relena, como líder política, tivesse entrado em contato com algum mago ou ativistas afins, mas isso também seria uma probabilidade em mil, e não pretendia contar com sorte àquela altura dos acontecimentos.
Quando Syaoran finalmente concluiu seu relato e quando não mais parecia haver perguntas, todos ficaram calados por um bom longo minuto. Heero se afastara de Syaoran e observava através da janela uma terra cinzenta e sem vida, triste legado que uma guerra deixaria para suas crianças nas próximas décadas, aliado a conflitos políticos que tudo o que faziam era aumentar o desemprego, a fome e a miséria daquele país.
Syaoran acreditava não ter mais nada a acrescentar, fora o mais persuasivo que conseguira ou tentara ser em toda sua vida, mas sabia que eles pisavam em gelo fino, por mais verdadeiras e honestas que tenham sido suas palavras. Nada na postura de Heero demonstrava que tinha acreditado no que ouvira, da mesma forma que nada demonstrava o contrário.
O tempo passava silencioso e a apreensão de Syaoran só fazia aumentar. Se Heero não acreditasse nele, se não os deixasse ajudá-los... No fundo, sabia que, por mais hábeis que fossem aqueles guardas, não seriam páreo caso viessem a ser atacados por criaturas mágicas tão poderosas como às que Syaoran enfrentou até então... Talvez ganhassem em número, talvez com uma tecnologia mais desenvolvida, mas duvidava que aqueles soldados dispusessem de ambos, no momento.
Quando as esperanças de Syaoran começavam a se esvair mais uma vez, ouviu um som à porta e, instintivamente, todos se voltaram, quase alarmados, para a figura que aparecia. Era uma mulher, pelas suas vestimentas, também um soldado, seu cabelo era de um negro quase azulado, curtos, e mechas caíam longas em sua testa, quase cobrindo seus olhos.
Quem se dirigiu até ela não foi Heero, e sim o rapaz que antes se sentava à mesa, Maxwell. Ele seguiu até ela e saíram por um momento da sala. Um minuto depois, Duo entrou novamente e, apenas com um olhar, Heero seguiu até ele, saindo do aposento, enquanto Syaoran e seus companheiros permaneciam sob o olhar escrutinizante dos demais.
Alguns minutos se passaram, quando finalmente a porta foi aberta. Duo entrou primeiro e ficaram apenas na expectativa de ver mais alguém entrar, pois Hiero parecia ter sumido de vista. Sem nada dizer, Duo seguiu até Syaoran e, ainda sério, retirou as algemas deste, sob o olhar surpreso do jovem Li. O soldado voltou o olhar para seus companheiros, que seguiram o mesmo procedimento em relação aos outros dois chineses.
Duo (sério): 'Vocês são pessoas de sorte, ou melhor... São pessoas com contatos muito bons.' Syaoran olhou-o confuso, sem saber ao que ele se referia. Contatos? Quem? Eriol e sua mãe não poderiam ser, não conseguira entrar em contato com eles por todo aquele tempo e, em conseqüência, tampouco seria qualquer outra pessoa de seu Clã. Quem mais?
Apesar de suas dúvidas, suas perguntas ficaram sem resposta, pois tudo o que soube daquele momento em diante foi o caminho para o quarto onde ficaria e de onde estava proibido de sair, enquanto não lhe fosse assim permitido.
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Era madrugada do terceiro dia em que estava na Alemanha quando os olhos de Syaoran se abriram, de repente, no silêncio daquele escuro quarto. Ficou quieto por um segundo, escaneando o local em que se encontrava, mas tudo permanecia estático. Olhou o relógio em cima de uma escrivaninha, a luz da lua suficiente apenas para que distinguisse com alguma dificuldade os ponteiros que lhe avisavam que passava das duas.
Por um momento, cogitou fechar os olhos, virar-se e dormir de novo. Mas não precisou trinta segundos para entender que não conseguiria e, com um pequeno esforço, sentou-se na cama, encostando-se contra os vários travesseiros.
Não podia reclamar das acomodações, nada indicava que a intenção era de fazê-los se sentirem prisioneiros. Jantara muito bem, ainda que não pudesse sair, nem falar com seus companheiros, mas a moça que lhe serviu foi bastante educada, solícita e genuinamente preocupada com o bem estar dele. Tudo o que pôde imaginar era que aquela se tratava de uma forma de lhe demonstrarem que ninguém ali desejava-lhes mal, apenas estavam sendo cautelosos, como o momento pelo qual passavam exigia.
Apesar de toda a atenção, das confortáveis acomodações e da relativa tranqüilidade das próximas horas, Syaoran demorara a conseguir dormir e era com certa irritação que acordara, sabendo que dificilmente dormiria de novo. Suspirou, sabendo muito bem que aquele comportamento de seu corpo era resultado de más noites de sono desde o sumiço de Sakura. Acostumara-se a ficar alerta a todo momento, pressentia perigo nas ocasiões menos prováveis, seu corpo se rebelava contra o cansaço e sua mente continuava a mil, acordado ou em sonhos.
Ficou sentado na cama por uns dez minutos, cogitando o que poderia fazer para que o sono voltasse. Trouxera consigo alguns livros, talvez ajudasse. Contudo, antes de se levantar, sentiu seus sentidos despertarem completamente. Suas pupilas dilataram e ele ficou imóvel, tentando sentir, mais do que ver, qualquer distúrbio nas proximidades.
Silêncio, completo e eterno.
E foi o silêncio que fez Syaoran saltar da cama, colocar um casaco por cima e materializar sua esfera. Havia silêncio demais, principalmente considerando que havia dois guardas do lado de fora de seu quarto. Olhou de um lado para o outro, pensando no que deveria fazer, se saísse de repente, talvez o olhassem com desconfiança renovada, mas se ficasse... Se ficasse e realmente algo estivesse acontecendo? E se fosse...
A resolução veio rápida e firme. Calçou seus sapatos e abriu a porta do quarto. Sem surpresa, percebeu que nenhum dos guardas estava ali. Olhou ao longo do corredor, em direção aos quartos em que Tao e Feng foram deixados e encontrou-o vazio. Seus olhos se estreitaram por um segundo, pensando em que direção seguir.
Enquanto refletia, viu, a uns dez metros de onde se encontrava, três guardas correndo através de um corredor que cruzava este em que se encontrava. Abriu mais seus olhos, enquanto adrenalina começava a percorrer seu corpo. Partiu naquela direção, ampliando seus sentidos, liberando sua magia suficiente para que Tao e Feng sentissem suas intenções. Mal virava à esquerda, por onde passara os guardas, quando ouviu portas se abrindo atrás de si. Seus companheiros logo o seguiram.
Se não fosse pelos guardas que passavam por ali, talvez ficassem perdidos, considerando os vários corredores pelos quais atravessavam. Entretanto, isso duraria apenas minutos, pois logo sentiu a presença de outros seres mágicos se expandindo consideravelmente, na direção em que escutava vários tiros, um atrás de outro, e explosões, tijolos desabando, vozes altas e gritos.
Todo aquele alvoroço preenchia os sentidos de Syaoran como se nada mais houvesse ao seu redor. Lembranças do que ocorrera na Mansão Hellsing voltando a ele, imagens do que se passara, de seus inimigos, de Sakura... Dos olhos opacos e das intenções bélicas da japonesa.
E foi com esses pensamentos perturbando sua mente que alcançou as portas do que parecia ser um grande e espaçoso quarto. Por ele viu luzes, barulhos e guardas, sendo jogados, atirando e caindo ao chão. Sem hesitação, Syaoran e seus companheiros correram naquela direção, pelo tamanho do cômodo, pela confusão que ali se passava, Syaoran tinha poucas dúvidas de que aquele deveria ser o quarto de Relena Peacecraft.
Os três chineses entraram no aposento, Syaoran olhou para esquerda, olhou para a direita, e viu quem procurava...
Syaoran: 'Sakura!'
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Passos ecoavam livremente pelo largo e sombrio corredor. Apenas uma pessoa caminhava por aquela passagem fria, pouco iluminada por algumas tochas penduradas ao longo das paredes de pedras, úmidas e desgastadas pelo tempo.
Depois de alguns minutos caminhando, a figura masculina finalmente parou à frente de duas portas, abriu-as e entrou num espaçoso quarto. A mobília era pouca, lembravam aquelas da época medieval. Acostumado ao local, o homem dirigiu-se à sua direita, onde se encontrava um grande jarro e uma larga bacia, ambos de prata, sobre uma cômoda de madeira escura.
O homem habilmente tirou a comprida capa que cobria todas as suas costas e a jogou displicentemente sobre a cama. Em seguida, segurou o jarro e, abaixando sua cabeça em direção à bacia, despejou água fria contra sua nuca. Após vários segundos inclinado, enquanto a água escorria, a figura masculina esticou a mão em direção à uma toalha pendurada contra a parede e secou-se.
Respirou fundo, virou-se em direção a uma poltrona à sua direita e, antes de se sentar, encheu um cálice com vinho.
Ao sentar-se, o homem logo fechou os olhos, sua cabeça ainda latejava, mesmo após esfriá-la com água. A mão que segurava o cálice repousava no apoio da poltrona, enquanto sua mão esquerda massageava uma de suas têmporas.
Os olhos escuros finalmente abriram-se, profundos e misteriosos.
Sentia-se cansado, como não se sentira durante muitos anos. Seus pensamentos divagavam e, ao mesmo tempo, não conseguia se concentrar em nada em particular. Impaciência, ansiedade, irritação, frustração, várias eram as sensações que lhe percorriam e lhe impediam de descansar em paz.
Não sabia ao certo porque estava inquieto daquela forma, tudo estava ocorrendo como planejado. Já conseguira se apossar de quase todas as peças que precisava para alcançar seus objetivos. Seus fieis servos vinham cumprindo suas missões com relativo sucesso, os objetos foram quase todos recuperados, os escolhidos estavam quase todos à sua mercê, seus inimigos... Seus inimigos não estavam conseguindo impedi-lo.
Inimigos... Qualquer um que se colocasse em seu caminho era um inimigo a ser exterminado. E, ainda assim, tinha os encontrado pessoalmente apenas em duas oportunidades. Os encontros foram breves, o suficiente para realizar o que desejava e logo partir. Apenas alguns jovens, tolos e ingênuos em sua insignificância. Magos, guerreiros, fossem o que fossem, sequer foram capaz de proteger uma de suas aliadas.
Kinomoto Sakura agora lhe pertencia e, como mais um peão em seus planos, seria uma peça a ser utilizada como bem entendesse. Seus servos faziam a maior parte do trabalho, ela não deixava que nada escapasse de seu controle e, em conseqüência, pouco tivera que fazer ele próprio até então.
Apenas para controlar Heru fora obrigado a se expor, algo que não imaginara ver-se fazendo, pelo menos não por enquanto. Aquele vampiro não estivera em seus planos, mas nada que não pudesse resolver. Aquele ser das trevas tinha poderosos aliados, admitia, mas de pouca utilidade contra seus servos. Se aquele outro guerreiro estivesse mais bem preparado, aquele a quem ela se referira como o Representante do Trovão, talvez, então, tivessem alguma chance de se rebelarem um pouco mais.
A cabeça do homem latejou novamente, e mais uma vez ele massageou suas têmporas, enquanto bebia um gole do vinho até então intocado. Os Representantes do Trovão e das Estrelas... Tinha achado que eles seriam um empecilho maior, mas ela, sua conselheira, sua mão direita, sua mais importante aliada, estivera certa ao prever que, capturando Kinomoto Sakura, o garoto sozinho se tornaria uma ameaça bem menor.
E ela estivera com toda a razão. Vira nos olhos desesperados do rapaz, quando Kinomoto Sakura fizera pouco caso de seus chamados, que encontrara sua maior fraqueza. Ainda assim... Por um momento tinha ficado curioso em saber qual seria o potencial do rapaz caso estivesse em melhores condições. O jovem sem dúvida era um mago com poderes consideráveis, um guerreiro bem preparado fisicamente, mas, psicologicamente, bastante abalado com o rapto de quem ele supunha ser alguém de grande importância para o rapaz chinês.
O homem cerrou os olhos, pensamentos há muito deixados de lado esgueirando-se por sua mente. Memórias de algo importante... Idéias que se insinuavam quando ele menos esperava, fazendo-o vacilar e sua cabeça latejar, como uma memória que não sabia existir ou se era imaginação sua a perturbá-lo insistentemente...
O toque contra a porta de seu quarto fez o homem voltar a si e ordenou que quem fosse entrasse. Voltou a fechar os olhos, enquanto bebia seu vinho, sabia quem era. Passos silenciosos caminharam em sua direção, parando a pouco menos de um metro de seus joelhos. A figura feminina se ajoelhava e abaixava a cabeça em sinal de respeito, longos cabelos castanhos caíam-lhe como seda sobre o rosto pálido.
Homem: 'E então?'
Mulher: 'Tudo está correndo como o planejado... General.'
O homem voltou o rosto à mulher, que agora levantava olhos dourados em sua direção, olhos perspicazes, insinuantes e cheios de malícia. E qualquer pensamento que até então vinha perturbando ao soberano daquele lugar perdeu toda e qualquer importância.
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Fazia pouco menos de cinco minutos que Syaoran chegara à cena devastada que antes era a câmara particular de Relena Peacecraft. Logo que chegou, sentiu Feng e Tao alcançando-o. Com nada mais que um olhar, os três se separaram, tentando socorrer a todos os soldados que eram impiedosamente atacados e massacrados por seus inimigos de sombra.
Tentara localizar Relena, mas considerando-se que não a encontrava em parte alguma, Syaoran ousou supor que ela escapara com a ajuda de seus guardas. Yuy e Maxwell, juntamente com os outros dois que encontrara no início do dia, ainda estavam ali, tentando inutilmente combater a seus inimigos. Não havia tempo a perder, se não agisse logo, muitos poderiam morrer.
Sem sequer olhar, sentiu quando Feng levantou um campo de energia contra os soldados presentes. Podia contar com Tao e ela para cuidar dos demais, seu problema agora era com aqueles dois novos inimigos e Sakura... Precisava fazer algo para resgatá-la. Contudo, sabia que qualquer ato seria inútil se não tomasse conta dos outros primeiro.
Enquanto Tao e Feng tomavam as primeiras medidas quanto àquele tipo de ameaça, Syaoran precisava ganhar tempo e impedir que Sakura e aqueles que ouvira serem chamados da outra vez de Fan e Fen sumissem em busca de seu alvo.
Syaoran (dirigindo-se ao mais robusto dos seus inimigos): 'Hey, você, homem das cavernas!' O insulto pareceu surtir efeito, pois o homem logo se virou para Syaoran, suas prezas destacando-se em sua boca, olhos animalescos brilhando contra a luz da lua que entrava pela parede destruída do quarto. 'É, você mesmo! Você e o tampinha!' O outro apelido fez aquele com a aparência de menino também se voltar para Syaoran.
Fan: 'Fen! Dessa vez eu vou estraçalhar esse verme! Você não ouse me interromper!' O outro nada disse e isso era concordância suficiente para o primeiro. Entretanto, antes que pudesse se movimentar, ambos foram pegos de surpresa por uma forte e ampla rajada de vento que surgira subitamente e que ia de encontro aos dois.
Syaoran (sorrindo de lado): 'Perdoe-me a indelicadeza, mas a minha companheira parece não estar de muito bom humor. E não é só ela...' Falou enquanto inclinava a cabeça em direção a Feng que, aparentemente, já terminara de invocar as defesas dos soldados e se juntava a Syaoran.
Feng (numa voz fria e cortante): 'Vocês já fizeram estragos suficientes a esta mansão, vamos continuar isso em outro lugar.' E sem dar tempo para que seus inimigos respondessem, aquela que era chamada de Senhora do Vento fez jus a seu título e, numa enorme ventania que preencheu todo o quarto, envolveu a todos seus inimigos impiedosamente, forçando-os contra o buraco na parede, em direção ao jardim da propriedade.
Syaoran observou a eficácia do ataque de sua aliada e sentiu um pouco de confiança voltar a fortalecê-lo... Já fora atacado mais de uma vez por aquelas criaturas e, agora, com o apoio de Feng e Tao, desta vez talvez estivesse mais bem preparados para lidar com aquela situação. Ou pelo menos era o que esperava... Não só pelo seu bem e de seus companheiros, mas também como a única esperança que tinha até então de conseguir resgatar Sakura.
Tao (dirigindo-se aos soldados): 'Vocês fiquem aqui.'
Heero (batendo contra o campo de força): 'O que significa isso? Deixe-me sair! Esses são nossos inimigos!' A muralha de vento criada por Feng impedia a ele e seus soldados de percorrerem livremente pela maior parte do quarto.
Tao (sério): 'Não temos tempo para preparar uma ofensiva e vocês só iriam atrapalhar, já que não têm armas apropriadas. Se querem ajudar, protejam à sua Senhora, onde quer que ela esteja.'
Heero pretendia protestar novamente, mas antes que o fizesse, Tao apontou sua lança em sua direção e as armas deste, de Duo Maxwell, e dos outros dois a quem o Ancião conhecera dias antes, começaram a brilhar, surpreendendo aos quatro.
Tao (antes de se retirar em direção ao jardim): 'Não tenho tempo para algo mais elaborado, vocês quatro terão de ser suficiente. Com o feitiço que joguei em suas armas, devem ser capazes de repelir estes soldados de sombra com alguma eficácia.' Levantou sua mão livre e Yuy viu com susto o seu corpo e de seus companheiros brilharem com energia azul por um segundo.' Não posso anular o campo de Feng, mas com esse feitiço vocês quatro podem atravessá-lo temporariamente, se quiserem. O que pretendem fazer agora, deixo a seu julgamento.' E sem esperar resposta, saiu pelo buraco na parede.
Mal o chinês tocou o gramado do jardim e foi obrigado a saltar, desviando-se de um ataque em forma de garra que Syaoran repelira. Os soldados de sombras que vinham lhes perturbando estavam sendo contidos por Feng, enquanto ela tentava se defender dos ataques de Kinomoto. Syaoran lutava contra o homem em peles de animais, enquanto a criatura em corpo de menino permanecia imóvel.
Analisando rapidamente a situação, Tao foi ao auxílio de Syaoran, amparando as garras daquele chamado Fan com sua lança, antes que pudesse chegar até seu líder.
Tao (sem olhar para Syaoran): 'Eu cuido dele, vá ajudar Feng!'
Sem esperar outro sinal, o jovem chinês partiu em direção à Feng e Sakura. Tao viu, num reflexo, quando o menino chamado Fen, em um veloz movimento, fazia menção de partir contra Syaoran. Empurrando Fan com um poderoso golpe, Tao apontou sua lança ao menino, e uma onda de energia formou-se em direção ao pequeno inimigo, que foi obrigado a saltar para trás.
Syaoran, que não percebera as intenções de Fen, ficou surpreso com a intervenção de Tao, voltando a atenção para este.
Tao (concentrado em Fen): 'Não perca tempo, Syaoran! Vá ajudar a Feng!'
Syaoran vacilou por um segundo, sabendo tratar-se de dois inimigos poderosos contra seu aliado. Mas a voz imperativa do Senhor da Razão impedia qualquer protesto. Não só isso... Syaoran sabia que Tao não pretendia apenas que ele ajudasse à Senhora do Vento, mas que fosse ao encontro de Sakura.
Feng defendia-se como podia dos ataques da japonesa, mas vinha lentamente perdendo terreno. Talvez a luta fosse mais equilibrada não fosse o fato de que a chinesa lutava simultaneamente com Sakura enquanto bloqueava as criaturas de sombras, presas em uma prisão de vento. Não tinha como resolver um problema sem que o outro se impusesse contra si.
Suor descia pela têmpora da mulher, enquanto amparava com dificuldade à espada de Sakura com seus leques, concentrando-se para não abrir o aprisionamento de vento que criara. Quando seus joelhos começavam a vacilar, sentiu a pressão sumir e a japonesa saltava à sua direita, desviando-se de um ataque de Syaoran, que parou bem em frente a Feng.
Syaoran (colocando uma mão no ombro da Senhora do Vento): 'Feng... Está bem?' A mulher apenas sorriu, enquanto se recompunha, fortalecendo a prisão de vento que criara ao mesmo tempo. 'Eu cuido de Sakura... Deixo o resto com você e Tao... Sei que é muito, mas –'
Feng (interrompendo-o): 'Faça o que tem que fazer, Jovem Mestre...' Seu olhar firme fez Syaoran sentir todo o apoio de seus companheiros e, sem vacilar mais, acenou concisamente com a cabeça, voltando toda sua atenção para Sakura.
Feng observou-o por um momento, preocupada, visto qual era o oponente de seu abalado líder, para logo em seguida voltar-se às tarefas que eram colocadas em suas mãos, teria que confiar nele. Mas agora... Daria um jeito naquelas sombras irritantes... Depois, ao auxílio do Senhor da Razão.
(...)
Syaoran ouvia os sons ao seu redor como meros ruídos. Ventos e ondas de energia explodiam por todos os lados, mas seus olhos não desviavam de Sakura, a pouco metros de distância. Aproveitou o momento em que a jovem permanecia imóvel para observá-la. Os olhos continuavam opacos, numa profundeza sem fim, e seu rosto mantinha-se o mais impassível com o qual a vira até então. A defesa da jovem não parecia ter qualquer abertura, a espada em suas mãos era a mesma que o atacara da última vez.
Por um único momento pensou em chamá-la novamente, mas não ousou. Da outra vez, nenhuma palavra, nenhuma frase de persuasão a fizera sequer vacilar. Se pretendia fazê-la escutá-lo de verdade, primeiro teria que imobilizá-la. Como, no entanto, não conseguia planejar imediatamente.
Xingou-se mentalmente, irritado consigo mesmo. Fosse qualquer outro adversário, não teria vacilado sequer um segundo. Mas todo seu corpo tremia com a idéia de sequer ferir à jovem. O que fazer?
Suas reflexões, no entanto, não se estenderam por muito mais tempo. Para surpresa de Syaoran, antes que se movimentasse, Sakura partiu rapidamente em sua direção. O rapaz imediatamente se defendeu, num reflexo que apenas anos de prática, e um considerável conhecimento do padrão de ataques de Sakura, poderia ser efetivo contra a maga.
Mal amparou o golpe e foi forçado a saltar alto, por cima de Sakura, parando a dois metros atrás dela. Seus olhos surpresos ao ver outra Sakura no local em que ele se encontrara a pouco. "Gêmeos", pensou, enquanto preparava uma de suas próprias cartas, fazendo uma forte rajada de vento envolver ao clone que o atacara.
A manobra, entretanto, teve pouca eficácia, pois enquanto se concentrava em aprisionar o clone, Sakura novamente o atacava. Saltou para o lado, de mau jeito, rolando pela grama e parando com um dos joelhos sobre o chão. Sentiu quando o clone, já esquecido por sua Mestra, desaparecia e aproveitou a chance para ir de encontro à guerreira que, surpresa, só teve tempo de amparar a espada de Syaoran com a sua própria.
O choque forçou a moça, fisicamente mais fraca, para trás. Prevendo que a japonesa utilizaria "Força", Syaoran invocou outra de suas cartas, e um forte jato d'água jogou-a contra o chão. Todavia, mais uma vez o ataque do mago não surtiu os efeitos esperados, pois, ao invocar "Vento", Sakura quase que instantaneamente anulou seu feitiço.
Syaoran apertou a mandíbula, irritado mais uma vez. Teria sido melhor utilizar a carta do deus Trovão, mas sabendo que, se o fizesse, Sakura poderia ser gravemente ferida, inconscientemente acabou escolhendo outra. Sua cautela lhe custava caro, pois, tendo Sakura uma maior diversidade de cartaz que ele, era forçado a improvisar e gastar energia defendendo-se, sem conseguir abertura para atacá-la enquanto evitava feri-la de verdade.
A maioria de suas cartaz concentravam poderosas forças da natureza, dificultando que encontrasse um meio termo, e isso estava causando-lhe desnecessário esforço. Suor começava a descer por sua testa e ele ousou olhar para o lado, procurando por seus companheiros. Aparentemente, Feng conseguira cuidar dos guerreiros de sombras, mas tanto ela quanto Tao estavam demasiado ocupados para ajudá-lo a derrotar Sakura sem causar-lhe maiores danos.
Novamente, sem que tivesse tempo de voltar o rosto, Syaoran foi obrigado a jogar-se para o lado e, assim que parou, viu o local em que antes se encontrava chamuscado com o ataque de "Fogo". O chinês fechou ainda mais a expressão, Sakura não estava vacilando como ele e isso poderia lhe custar a própria vida.
Por outro lado, ela também deveria estar gastando bastante energia utilizando tantas vezes suas cartaz e isso o preocupava. A mulher não parecia estar diminuindo a velocidade e nem a intensidade de seus golpes, sem contar que não estava pronunciando o nome das cartaz. Ela parecia impaciente, se comparada às outras vezes, mais ousada, quem sabe mais instável, e isso o fazia suspeitar que ela estivesse em tal estado de transe que seus ataques continuariam a ter a mesma força até que seu corpo não suportasse mais e ela tivesse um verdadeiro colapso físico. Não só isso, mas dependendo do limite ao qual ela estivesse disposta a se submeter, talvez os efeitos em seu corpo fossem graves o suficiente para fazê-la entrar em coma, se não algo pior.
A idéia começava a perturbá-lo e, enquanto se cansava cada vez mais, menos conseguia se concentrar e estabelecer alguma estratégia. Da outra vez, fora sua dúvida que causara a abdução de Integra Hellsing e, se não tomasse cuidado, voltaria a cometer o mesmo erro.
Ainda assim, foi no mesmo momento em que pensava na possibilidade que seus olhos se arregalaram, enquanto era surpreendido por uma poderosa rajada de energia multicolorida vindo mais rapidamente que da outra vez em sua direção. Sakura invocara "Fogo", "Vento" e "Trovão" ao mesmo tempo! A intensidade do ataque o impedia de desviar e ele não estava preparado para uma defesa frontal contra um feitiço daquela magnitude.
Seria atingido direta e mortalmente.
Um forte estrondo fez os ouvidos de Syaoran retumbarem e o brilho da explosão embaçou sua visão. Quando finalmente se deu conta de que ainda estava inteiro, viu uma longa silhueta, escura e imponente, à sua frente, entre ele e o golpe que fora disparado contra si.
Seus olhos abriram ainda mais em surpresa, distinguindo a figura de um homem alto, vestido dos pés à cabeça em uma armadura de características orientais e um escudo peculiar e comprido bloqueando o golpe destinado a ele. Enquanto se perguntava quem era aquele, o golpe de Sakura lentamente foi esvaecendo e Syaoran enviesou uma longa e larga espada negra, como uma continuação do braço do homem, apontando para o chão, à sua direita.
Houve um silêncio prolongado e, estivesse Syaoran um pouco mais ciente do que ocorria à sua volta, perceberia que os sons da luta do demais tinham silenciado. Voltou a atenção à frente, após o brilho do ataque de Sakura desaparecer, e conseguiu enxergá-la a uns quinze metros da figura que o protegera.
Teve uma arritmia das batidas do coração quando viu Sakura tremendo, as pernas pareciam bambear, e logo ela caiu de joelhos, seus olhos estavam semicerrados. Contudo, antes que ela tombasse completamente ao chão, uma mão rudemente segurou-a pela parte superior de seu braço. A jovem mulher ficou pendurada, como uma boneca de pano, sem qualquer sinal de vida. Os olhos de Syaoran encaravam horrorizados à cena e ele tentou correr em direção à mulher, apenas para ser bloqueado pela espada do guerreiro à sua frente.
Antes que pudesse protestar, entretanto, escutou a voz grave e irritada, quase um grunhido animalesco, do homem que segurava Sakura. Ar quente translúcido com o brilho da Lua saía por entre as prezas quando expirava, um filete de sangue descia por sua testa e um corte não muito profundo aparecia em seu braço esquerdo, mas isso era tudo.
Fan: 'Garota idiota! Mais um pouco e eu que ia pagar o pato! Morta não tem qualquer utilidade!' Apesar das palavras rudes, Syaoran sentiu sua respiração novamente. Sakura estava viva...
Um buraco novamente surgia no ar, como das outras vezes e Syaoran sabia o que ocorreria se não interviesse. Entretanto, o guerreiro à sua frente não abaixou sua espada.
Syaoran: 'Saia da minha frente! Não posso deixá-los desaparecer de novo!' Entretanto, invés de deixá-lo passar, o guerreiro apenas voltou o olhar encoberto por seu capacete escuro em direção a Syaoran. Seus olhos brilharam e Syaoran calou-se, percebendo que, se quisesse passar, primeiro teria que derrubá-lo, o que imaginava não ter condições de fazer naquele momento ou, ao menos, a tempo suficiente de impedir aquela fuga.
Fen (materializando-se subitamente ao lado do buraco no ar): 'Vamos Fan... Não podemos correr o risco de deixá-la morrer... Voltamos outra hora.' Sua voz era monótona, mas pareceu ser suficiente. O outro apenas dirigiu um olhar irritado em direção ao guerreiro à sua frente, que era o alvo mais próximo de si, antes de voltar-se para o buraco, enquanto jogava Sakura por cima de um de seus ombros.
Fan: 'Tsc... E a diversão só 'tava começando...'
E, sem que qualquer um dos presentes tivesse tempo de pensar em como reagir, as três figuras já desapareciam em pleno ar. O único sinal de que estiveram ali sendo a destruição do jardim, antes já sem muita vida, num raio de mais de cinquenta metros.
Syaoran manteve o olhar no local em que o buraco desaparecera, perdido em pensamentos, enquanto Tao e Feng aproximavam-se lentamente dele... No entanto, as perguntas e a conversa de qualquer um dos presentes eram meros sussurros aos ouvidos do rapaz. Seu olhar estava vazio...
Falhara com Sakura... Novamente...
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Depois de todos os acontecimentos daquela madrugada, o dia seguinte transcorreu num piscar de olhos, todos extremamente ocupados para tentar reorganizar o mínimo possível das defesas do local, enquanto atendiam aos feridos ou preparavam o enterro dos soldados mortos em batalha.
Após aquele ataque, Syaoran, Tao e Feng novamente foram levados a seus aposentos, já que ficavam em uma ala não afetada. Entretanto, diferente do que ocorrera na noite anterior, não havia qualquer guarda a vigiá-los e eles tiveram permissão para locomover-se com relativa liberdade pela mansão, enquanto esperavam por notícias do que se pretendia ser feito nos próximos dias.
O guerreiro que salvara Syaoran desaparecera quase tão repentinamente quanto aparecera. Tao e Feng reuniram-se com seu jovem líder naquela tarde, mas vendo o estado emocional do rapaz, acharam melhor deixá-lo a sós. À noite, jantaram os três num mesmo salão, sozinhos, ainda sem qualquer idéia do que seria feito agora. A única informação que lhes fora concedida era que Relena Peacecraft tinha escapado sã e salva por uma das passagens secretas e que seus guardas mais próximos, inclusive Heero Yuy, estavam ocupados com as primeiras medidas de segurança a serem tomadas.
Apenas na manhã seguinte foi concedida uma maior atenção a Syaoran e seus companheiros, quando foram chamados logo depois do café-da-manhã para se dirigirem a outro estabelecimento, sob ordens do Chefe da Guarda. O caminho não foi longo, entretanto, foram vendados, proibidos de saber para onde se dirigiam. Quando enfim puderam voltar a ver, já estavam dentro do que parecia ser uma antiga mansão ou castelo medieval, e logo foram levados a um dos aposentos bem a fundo da propriedade.
Ao entrarem, se viram dentro de um espaçoso cômodo aparentemente equipado para ser uma espécie de quartel general de emergência. Lá, Syaoran reencontrou Heero Yuy, os três soldados que conhecera da outra vez e, finalmente, foi apresentado a Relena Peacecraft... Não obstante, com certa dose de surpresa o guerreiro chinês percebeu a presença de uma alta figura, coberta por uma escura e notável armadura oriental, ao lado de Heero e Relena. Ora... Ninguém menos que o guerreiro que o salvara anteriormente.
Syaoran semicerrou os olhos, sentia-se ligeiramente incomodado. Após os cumprimentos de praxe e a apresentação formal da Srta. Peacecraft, mais uma vez a atenção do chinês voltou-se para o guerreiro misterioso. Seus olhos estreitaram, cheios de uma desconfiança e irritação que estranhamente lhe pareciam familiares.
Finalmente, o guerreiro em vestes orientais fez menção de se apresentar. Dando um passo à frente em direção a Syaoran, o homem colocou as mãos sobre a peça que lhe cobria o rosto, lentamente a retirando...
E os olhos de Syaoran se alargaram em considerável surpresa.
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(Continua)
18/10/2012
Mary Marcato
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Disclaimer (posterior): Gundam Wing não me pertence, nem seus personagens... Blá blá blá...
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Comentários da Autora: Olá, pessoal! Não me matem, por favor! Peço desculpas mais uma vez, porque falhei com vocês... Mais uma vez (que vergonha...). Achei que com o fim da faculdade, teria mais liberdade para fazer o que quero, mas estudar para concurso cansa e toma bem mais tempo que antes. Gostaria apenas de explicar uma pequena parte do motivo da demora em postar esse capítulo.
Um terço dele estava escrito desde o final do ano passado, outro terço na metade deste ano e, finalmente, o resto saiu agora. Tudo isso porque tinha que reler alguns capítulos anteriores e juntar algumas peças. Foi um capítulo difícil, porque agora começam a surgir vários detalhes. Infelizmente, não consegui reler tudo, então há uma grande probabilidade de que encontrem informações desconexas de agora em diante. Se for o caso, peço humildemente que me avisem. Em outra oportunidade, volto e reviso, só não queria deixá-los esperando mais, por isso estou deixando passar eventuais erros, por hora. (Sem mencionar que a gramática ainda é a antiga, porque meu Word é idoso, sorry...)
Agradecimentos: Agradeço muito mesmo a todos que continuam a me mandar comentários e reviews! Do fundo do coração! Toda vez que recebo um review inspirador consigo escrever um pouco mais, é sério! Não falo só pq quero review (Eu quero! Eu quero!), mas porque fico feliz e me inspiro e prontamente quero agradá-los. Desafortunadamente, não posso escrever tanto e tão rápido quanto seria necessário, mas, por respeito a quem ainda lê minhas fics e me escreve, o próximo cap. deve sair até janeiro, porque os dois próximos capítulos (acho que) serão muito cute e são os capítulos que tenho aguardado com mais ansiedade para escrever. Acho que é tudo... Arigatou minna-san! (Mais p/ frente escrevo agradecimentos personalizados :D).
