Bom... Primeiramente quero pedir desculpas a todos pela demora de mais de dois anos em atualizar, mas infelizmente estou passando por uma fase turbulenta de muitas mudanças em minha vida, as quais não estão sendo fáceis nem boas.

Já vou avisar que esse capítulo é um POV, a visão de um terceiro personagem sobre Minos e a revelação de seu passado, portanto infelizmente não terá nosso casal kawaii, mas dará início a toda a trama que eu havia idealizado quando comecei a fict. Então fiquem sabendo que agora sim começa a história!

Como vocês poderão observar, essa narrativa está repleta de elementos mitológicos e pretendo postar nas notas finais algumas explicações básicas sobre os assuntos abordados, modificações e acréscimos que tomei a liberdade de fazer... ("licença poética", como dizem).

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Boa leitura!


"Admiração e Paixão"

Lá estava ele, de pé, à fronte do barco de Caronte, que se aproximava da costa da segunda esfera. Com um olhar arrogante e um porte esnobe, exatamente como um rei deve ser... Não havia culpa em seus olhos, ao contrário, transmitiam uma calmaria e certeza que nunca vi em nenhum outro ser que atravessou aquele rio, mas também havia profunda tristeza...

Desde que o vi pela primeira vez, quando olhei diretamente em seus orbes frios e sorriso sarcástico, soube exatamente que tipo de homem ele era. Sim, todo aquele sadismo, seu jeito pedante e distante, nunca conseguiram enganar-me, nem por um momento sequer. Afinal, nem me lembro mais quando comecei a cavar o passado dos mortos e expor seus erros... Sim, este sempre fora meu trabalho, trazer à tona toda a vida do morto em julgamento e mostrar todos os seus pecados para que o veredicto possa ser dado.

Não era de costume que eu recebesse os mortos, isto sempre fora trabalho de Markino. Mas, desta vez eu havia recebido ordens diretas de Hades-sama para receber o recém-falecido rei de Creta, filho bastardo de seu odiado irmão, e levá-lo à sua presença. Então, assim que pus meus olhos sobre ele, e pude constatar pessoalmente a beleza exótica de um dos vários filhos que Zeus deixou pela terra, soube que ele me seria especial.

Um ser alto, forte e vigoroso, embora conservasse sua juventude e não aparentasse muito mais de vinte, era um homem bicentenário, maturidade evidenciada apenas pelo ar de cansaço daquele que carregou tanta responsabilidade sobre os ombros. Aquele olhar... Ah, aquele olhar... Era uma mistura perfeita de bondade e maldade, inocência e sagacidade, amor e ódio, paz e fúria, calmaria e tempestade. Extremos opostos que se fundiam perfeitamente naquela íris dégradé de nuances fortes, as quais era impossível distinguir a real coloração, mas eu descreveria como a pura prata misturando-se ao ouro, algo realmente misterioso e, porque não dizer; divino.

Vi quando saiu do barco e entregou as moedas de ouro maciço ao barqueiro, aguardei até que se aproximasse. Então ele sorriu, sim, sorriu para mim. Um sorriso torto e discreto onde pude vislumbrar apenas uma pequena fração de seus dentes brancos e perfeitos. Aquele sorriso encantador, carregado de ironia... Era a visão do paraíso em pleno inferno! Eu nunca tinha visto alguém sorrir naquele lugar de torturas, onde todos chegavam repletos de culpas, mágoas, tristeza e temor. Foi então que pela primeira vez senti meu coração acelerar e bater descompassadamente. Vi-me preso a seus olhos, boquiaberto com a beleza estonteante daquele rosto bem delineado de tez fina e alva, emoldurado pela cascata de cabelos púrpuro-cinzentos que o deixavam ainda mais belo e sensual, não conseguia desviar meu olhar dos orbes tão cheios de segurança e altivez daquele homem de uma beleza sobrenatural, encantadora e perigosa.

Ele aguardou por alguns instantes, na certa que eu dissesse algo, mas nada foi dito. Eu simplesmente não conseguia deixar de admirá-lo em silêncio, esquadrinhar boquiaberto, o belo rosto daquele homem que sorria para mim tão seguro de si.

– E então... Estou pronto para ser julgado. – disse-me mantendo seu sorriso torto, fitando-me serenamente. – Leve-me ao senhor do submundo!

– Não tens medo? – perguntei atordoado.

– E porque teria? – respondeu um pouco confuso evanescendo levemente o sorriso que ainda mantinha.

– Tens muitos pecados. Alguns muito graves. – respondi secamente.

– É verdade, mas vivi intensamente e fiz como quis. Porque agora depois de morto me arrependeria das decisões e atitudes que tive em vida? – Questionou com certo brilho maldoso no olhar – Não é natural que paguemos por nossos erros? Isso se chama justiça! Não me arrependo de absolutamente nada que fiz e não importa qual seja a penitência, pagarei de cabeça erguida.

Aquelas palavras, aquele olhar, sua atitude... Tudo naquele homem deixava-me sem palavras. Era realmente um ser estranho, aquele. Um homem que mesmo em pleno inferno ostentava sua glória e orgulho e mantinha-se destemido diante da possibilidade de punição por seus erros com as mais severas, cruéis e impensadas torturas. Um homem que permanecia misterioso mesmo quando sua vida me era um livro aberto.

Este futuramente tornar-se-ia conhecido como o espectro de Griffon, o primeiro dos três juízes a chegar ao Meikai.

Alguns anos se passaram desde que Hades-sama nomeou os três juízes e os incumbiu de guardar o inferno, julgar e condenar as almas ao seu devido lugar de sofrimento.

Depois que assumiu o cargo, Minos-sama escolheu a dedo seus servos, nos treinou, educou e mostrou, de maneira singela, mas autoritária, que podíamos ser mais do que simples espectros. Lapidou-nos, tirou o melhor de cada um de nós e transformou-nos em verdadeiros guerreiros, poderosos e com princípios, digamos... nobres. Obviamente orgulhei-me de ser seu preferido e ser posto como segundo em comando.

Tudo e todos que existem neste mundo, até hoje, estão abaixo deles. Menos uma pessoa; Pandora-sama.

Não faço ideia do por que Hades-sama resolveu tirá-la de seu sofrimento eterno, castigo imposto pelo próprio deus por sua conduta em vida causar a desgraça daqueles que vivem sobre a terra. É verdade que essa mulher é a principal responsável pela decadência da humanidade... Então, como poderia a mulher que trouxe todos os males que afligiram os seres humanos, tornar-se parte do exército de meu imperador? Pior, comandante das tropas do submundo! Até hoje não entendo.

Apenas sei que durante a batalha na qual meu imperador tentou reaver Perséfone-sama, rebelando-se contra seu irmão mais novo que o obrigou a devolvê-la, mesmo depois de consumar seu matrimônio, e condenou-o a dividi-la com Deméter, a mãe de nossa imperatriz antes conhecida por Coré. Hades-sama foi ferido por Pegaso – O cavalo alado mitológico arredio o qual apenas a deusa da guerra justa conseguiu domar com ajuda de Belerofonte a quem entregou a rédea de ouro para que este o montasse e, com a ajuda do equino místico, matasse a Quimera. E desde que o animal mitológico rejeitou Belerofonte, tornou-se servo e guardião da deusa que, na ocasião em que veio em defesa de seu pai, o estava montando – matando-o, porém perdendo o combate e consequentemente não reavendo a esposa, que apenas tinha consigo durante o outono e inverno do ciclo anual das quatro estações, mais uma vez forçado a deixá-la sob a guarda de Deméter.

Obrigado a ordenar nossa retirada, o deus do submundo refugiou-se em completa solidão em seus domínios e jurou que um dia tomaria o lugar de Zeus, destruiria Deméter e reaveria nossa imperatriz de uma vez por todas. Então, com uma nova guerra em vista, o imperador decidira por ocultar seu verdadeiro corpo, ressurgindo na terra através de um hospedeiro humano assim como faziam todos os outros deuses, com exceção de Atena, que preferia ela mesma renascer no mundo pútrido e mortal.

Pandora-sama, a partir daquele momento, seria responsável por achar o hospedeiro puro, livre de quaisquer pecados, para que o espírito do senhor do submundo pudesse habitar. Deste modo, foi decidido que a senhora dos espectros reencarnaria na terra e precederia a vinda de nosso imperador, que viria como seu irmão mais novo e, enquanto o senhor dos mortos não despertasse totalmente em seu hospedeiro, Pandora-sama ficaria encarregada, sob as ordens dos deuses gêmeos, de coordenar e comandar seu exército que finalmente chegara aos 108 espectros, a conta exata dos 108 sentimentos que atormentam e desorientam a humanidade.

Irônico não é mesmo? A mesma criatura responsável por libertar tais tormentos e condenar a humanidade ao sofrimento e infelicidade dando fim à chamada Idade de Ouro ao abrir aquela maldita caixa, tornou-se a responsável pelos espectros que as simbolizam.

E foi exatamente a chamada "irmã" do imperador do submundo, adorada por uns, odiada por outros e temida por todos, que trouxe o maior dos sofrimentos aquele que se tornou meu senhor e mestre.

Lembro-me perfeitamente de escutar o estralar de seus ossos, baques surdos dos golpes fortes em seu corpo, seu gemido contido, bem como os risos e palavras carregadas se satisfação e prazer da dama do inferno.

Impressionei-me por não escutar um grito sequer durante todos aqueles dias de tortura insana, ao contrário, por vezes escutava um riso baixo e maquiavélico carregado de sarcasmo. Era tenebroso! Mesmo com toda a dor que sentia, ele a provocava, isso a enfurecia ainda mais e ela respondia à altura, ordenando a Radamanthys-sama que o fizesse sofrer aumentando o grau e intensidade da brutalidade a que o submetia. Também não tenho noção do porque meu senhor foi alvo da ira da senhora dos espectros, me pergunto se ele realmente merecia aquela tortura que há muito passara dos limites, em minha humilde opinião. Lembro-me de sentir uma dor sufocante transpassar meu coração, partindo-o em pedaços a cada som torturante, seguido do gemido dolorido de Minos-sama, na primeira vez que presenciei. Apenas percebi as lágrimas que escorriam, molhando meu rosto, quando escutei a voz ofegante de Radamanthys-sama a me chamar.

Eu estava do lado de fora da sala, encostado na parede, ao lado da porta de ferro maciço que se encontrava trancada. No subsolo da casa do julgamento. Era a ultima porta do corredor pouco iluminado pelas tochas da masmorra escura, úmida e fétida. Até hoje ela existe. O que me faz lembrar que preciso resolver logo as pendências judiciais de certo taurino... Mas isso é outra história.

– Ah... Você está aí! Venha limpar esta sujeira! – Radamanthys-sama abria a grande e pesada porta de ferro maciço procurando-me com os olhos. Parecia preocupado, embora sua feição sisuda ainda fosse a mesma. Prontamente enxuguei minhas lágrimas antes que ele percebesse e baixei minha cabeça, escondendo meus olhos para disfarçar.

– S-sim s-senhor! – foi o que consegui dizer enquanto observava o Kyoto de Wyvern dar passagem para Pandora-sama, e acompanhá-la deixando o local.

Respirei fundo e entrei. Um choque percorreu todo o meu corpo e senti um nó apertado na garganta com a cena ante meus olhos. No chão ensanguentado, havia trapos do que um dia fora uma pomposa toga. E lá estava ele, meu senhor, alvo de minha admiração e devoção, deitado de bruços sobre a mesa de tortura. Seminu, completamente lavado em sangue, até mesmo seus belos cabelos estavam vermelhos e grudentos, ele estava irreconhecível. Os ferimentos em suas costas eram profundos, eu nem tinha ideia do que fazer ou por onde começar... Só sentia uma necessidade enorme de abraçá-lo e chorar. Queria tirá-lo dali, protegê-lo, livrá-lo daquele sofrimento... Mas o que eu, um mero espectro poderia fazer quando nem mesmo o prestígio e poder de um dos três juízes bastava? Nada!

"Hades-sama... Hades-sama, tenha piedade de meu mestre!" – repetia somente para mim as súplicas desesperadas de meu coração. Sentia-me impotente e apenas podia me apegar à fé que deposito em meu imperador.

Claro, torturas como aquela não era novidade alguma para mim, isso é bem verdade. Mas meu senhor... Meu mestre... Meu mentor... Porque ele?! Que pecado teria cometido aquele homem que sempre se mostrou tão correto em seus julgamentos desde que chegara? Alguém com o cargo e importância de meu mestre e senhor, ser torturado, humilhado e rebaixado de maneira tão vil... Por quê?! Até hoje me pergunto isso.

Nem sei por quanto tempo fiquei parado ali, estava em choque, nunca imaginei ver tal cena macabra em que o protagonista seria meu querido mestre. Em minha mente vinha uma sequencia de imagens do dia em que o vi pela primeira vez e daquele sorriso, que descobri ser frequente em seu rosto, misturando-se com o que eu presenciava naquele momento. Passado e presente misturavam-se e traziam novamente aquele nó em minha garganta quando fui trazido de volta de meus delírios por sua voz fraca e trêmula.

– Por quanto tempo ainda ficará parado aí? – Minos-sama perguntou visivelmente incomodado com a situação. Ele estava com o rosto virado para o lado oposto a mim, seus braços, algemados juntos à cabeceira da mesa de tortura. Sequer movia um músculo.

– Senhor, eu... eu... – não sabia o que dizer e aquele nó na garganta piorou ainda mais as coisas, fazendo minha voz sair mais baixa e trêmula que a dele. Certamente nem mesmo me escutou.

– Se também veio apreciar a paisagem e me ridicularizar a mando daquela meretriz, saiba que não me importo em absoluto com isso. Faça como quiser. – deu uma risadinha repleta de ironia que me rendeu calafrios. – nada do que me fizerem aqui, mudará minha decisão!

– N-não s-senhor... Eu apenas vim... Tratar de ti, mas... – aumentei um pouco a voz desesperado com a ideia de que meu mentor pensasse que eu estava de acordo com aquilo, ou pior, que fizesse parte de tal abominação. Quanto mais eu falava mais me enrolava e gaguejava e, óbvio, ele percebeu isso e logo demonstrou sua irritação.

– Não preciso de tratamento algum, não quero tua piedade, saia e deixe-me em paz! – aumentou o tom de voz ralhando comigo. – Será que tudo que te ensinei não serviu de nada?! Suma daqui!

– Senhor... Acho que não me fiz claro. – eu disse depois de engolir em seco aquele nó em minha garganta e firmar minha voz deixando-a mais fria e seca possível. – Não estou aqui por piedade, mas por ordens de Radamanthys-sama. Perdoe-me se demonstrei alguma fraqueza, apenas não esperava vê-lo em tal estado, sinceramente isso me chocou. Além do mais, o senhor é o Kyoto de Griffon! Meu mestre. Mesmo que Radamanthys-sama não me tivesse ordenado, é minha obrigação cuidar de ti.

– Hunf... Entendo, depois de tudo, apenas querem limpar a "sujeira" que deixaram. – as palavras saíram carregadas de sarcasmo e dor.

– Acho melhor me retirar, vejo que não se agrada de minha presença. – retruquei em um tom cortante ao me sentir mal por praticamente ser chamado de "lixeiro". Pior! Ouvir meu mentor depreciando-se de tal maneira. Aquilo magoou e ofendeu-me imensamente, mas usei todas as forças que tinha para nada demonstrar. – chamarei Dríade para cuidar de teus ferimentos, pois ele é o mais qualificado para tal.

– Espere! – meu senhor ditou em um rompante, assustando-me e fazendo-me estacar próximo à porta. – Não chame ninguém! Faça-o tu mesmo!

– Mas meu senhor, eu... – pretendia explicar-lhe que não tinha qualificação alguma para cuidar de seus ferimentos. Nunca havia feito tal coisa. Mas ele me interrompeu antes mesmo que eu começasse.

– Não quero qualquer um pondo as mãos em mim! Se tiver de ser tocado e limpo, que tu mesmo o faça e mais ninguém. – mesmo com toda a fraqueza de sua voz, senti todo ódio e revolta que havia em seu ser, bem como a força e autoritarismo do Kyoto de Griffon e logo tomei aquilo como uma ordem. – Você é o único servo em todo inferno a quem posso confiar meu corpo!

Não nego que aquilo de certa forma me agradou. Embora eu não quisesse ver meu mentor em tal situação, perceber a confiança que depositou em mim naquele momento, afastou qualquer mágoa que eu senti. Mesmo sabendo que a situação não deixava escolhas para ele.

Assim o fiz, tal qual me fora ordenado, cuidei e limpei seus ferimentos, bem como a mesa e o chão lavado por seu sangue já endurecido. Aquilo foi uma verdadeira tortura para mim, ver e tocar seus cortes, ínguas e hematomas tão inchados e negros... Aqueles cortes profundos na cútis delicada de meu senhor, espalhados pelas costas, pernas e braços lacerados pela chibata. Aquelas queimaduras tão invasivas, profundas... Apenas seu belo rosto e o pescoço não apresentavam ferimentos graves, somente um inchaço do lado direito e um pequeno corte em seus lábios finos e bem desenhados, provavelmente causados por um soco do punho forte de Wyvern. Tudo aquilo era por demais doloroso para mim. Lembro-me de segurar meu pranto, engolir o nó que sufocava minha garganta enquanto fazia a assepsia e sentia seu corpo retesar a cada toque delicado de minhas mãos, enquanto o observava trincar os dentes para suportar a dor.

Pra falar a verdade, até hoje quando lembro, ainda sinto o mesmo nó enforcar-me e meus olhos, sempre tão impassíveis ante todo sofrimento que presencio no Meikai, lacrimejarem.

Mas aquilo ainda não tinha chegado ao seu término. Como eu disse, tudo se passou durante uma semana. Foram dias de agonia e desespero. Dias escutando os gemidos e risos cada vez mais fracos, carregados de dor e sarcasmo de meu mestre, os gritos irritadiços daquela mulher, cada vez que era desafiada, baques surdos, o estralar dos ossos, da chibata ou o ruído metálico de algum outro instrumento de tortura. Enquanto eu, impotente a todo aquele absurdo, apenas mantinha-me prostrado do lado de fora, aguardando que eles saíssem para poder, ao menos, dar o mínimo conforto a meu mestre.

A cada vez que adentrava aquela sala, meu coração doía e o ar me faltava ao ver que meu mentor estava ainda pior do que o havia deixado. Mas depois de sete dias de gemidos contidos, algo muito grave aconteceu com meu senhor. Algo que, até hoje não faço ideia, mas foi algo que me impediu de entrar naquela sala novamente:

Tudo ocorreu como nos outros dias, a mesma rotina. Pandora-sama e Radamanthys-sama, depois de horas de torturas, deixaram a sala e como se tornou costume naquela semana, logo entrei para cuidar de Minos-sama. Mas... Não demorou muito mais que uma hora para que a senhora dos espectros e Wyvern voltassem, o que achei bem estranho. Como previ quando percebi suas presenças, ao entrarem, expulsaram-me da sala, porém Pandora-sama não permaneceu por muito tempo, deixando meu senhor e Wyvern a sós e fechando a porta atrás de si. Foi quando pela primeira vez escutei gritos desesperados, juras de ódio que deixavam a garganta de meu senhor em um misto de pavor e revolta.

Entrei em profundo desespero e um calafrio percorreu-me da cabeça aos pés, era como se eu pudesse sentir toda a dor infringida a ele naquele momento. O fato de saber o estado de seu corpo e que até o momento meu senhor não havia deixado escapar um grito sequer fez-me estremecer, pois até hoje não faço ideia de que método de tortura foi aplicado para que Minos-sama não conseguisse mais conter sua voz.

– Saia! – Ordenou-me a senhora dos espectros com o olhar autoritário.

Foi então, que no auge de meu pânico e angústia, deixei o local acatando a ordem dada, porém resolvido a pedir ajuda. Mas a quem? Hades-sama não estava presente em Giudecca, seu despertar estava previsto apenas para a próxima semana. Pandora-sama era a autoridade máxima entre nós e Radamanthys-sama a apoiava e obedecia, mesmo que por vezes se mostrasse contrário ao que acontecia. A quem mais eu poderia recorrer?

Sim, apenas uma pessoa em todo o Meikai poderia fazer algo para tentar acabar com toda aquela abominação. Aquele que quando viveu sobre a terra, era considerado o homem mais piedoso que já andara por ela até então, que fora amado pelos deuses que se compraziam a satisfazer os seus votos. O mortal que devido sua sabedoria e paixão pela justiça, fora acolhido como juiz das querelas divinas. Mesmo motivo pelo qual Hades-sama o escolheu para ocupar o ultimo cargo de alto comando do poder judiciário do Meikai. O rei da ilha Aegina, que se tornou conhecido como Aiacos de Garuda quando morreu e tornou-se um de nós.

Não pensei em mais nada, mesmo sabendo que Aiacos-sama ainda estava abaixo de Pandora-sama na hierarquia, mesmo temendo a reação de Minos-sama, deixei a masmorra e imediatamente fui atrás do juiz de Garuda.

O Kyoto deixava sua morada em Antenora quando o avistei no Cocytos. Por minha vez, corri até ele o mais rápido que pude e dispensando todas as formalidades e cortesias referentes à minha patente perante um superior, no auge de meu desespero, o segurei pela mão.

– Aiacos-sama, sei de teu apreço pelo meu mestre... Desde que chegou a este mundo e o conheceu, sempre foste muito ligado a ele! É exatamente em nome desta amizade que venho lhe implorar: Ajude meu senhor! Não aguento mais vê-lo sofrer nas mãos de Pandora e Radamanthys! Pelo nosso imperador, faça alguma coisa! Ajude-o! – Nem mesmo percebi quando as lágrimas começaram a descer, só me dei conta disso quando o juiz levou sua mão ao meu rosto e as enxugou com o polegar.

– Acalme-se, Balron, e conte-me o que está havendo. – Disse-me ainda confuso e até mesmo compadecido de minha angústia.

Então às pressas lhe descrevi tudo que ocorria nas masmorras da casa do julgamento durante aquela ultima semana e pude vislumbrar a grande surpresa que brotava nos olhos de Aiacos-sama a cada palavra que eu proferia. O Kyoto de Garuda, disse-me, estarrecido, que nada sabia sobre isso e que Pandora-sama havia dito a todos que Minos-sama estava em uma missão de espionagem na Grécia.

Aiacos-sama pediu-me que o aguardasse em Antenora, disse-me que resolveria tudo e após dar-me instruções para que eu o cobrisse em seu trabalho, partiu apenas recomendando calma.

Desta vez, nem mesmo pude observar de longe. Tive que me contentar em apenas monitorar os cosmos que se encontravam na casa do julgamento enquanto, preocupado, executava os serviços no lugar de Garuda. Pude sentir toda a violência e poder de seu cosmo, bem como a ira elevar-se nos cosmos de Pandora-sama e Wyvern em resposta. Senti o cosmo de Radamanthys-sama exaurir-se rapidamente enquanto o de Aiacos explodia em ódio e fúria, o que me deixou ainda mais apreensivo, logo pude notar Pandora-sama sufocar Garuda com seu cosmo e o mesmo decair bruscamente ao passo que Radamanthys-sama se recuperava. Depois disso, uma calmaria inquietante tomou conta do primeiro círculo, e logo após, senti o cosmo de Pandora-sama elevar-se perigosamente, com toda a fúria que poderia haver na alma da senhora dos espectros e a vida de meu mentor ser apagada por completo.

Hades-sama... Porquê?! Porque não respondeste minhas preces?! – Pensei decepcionado e entristecido – Sou tão insignificante assim que nem mesmo o senhor, meu deus, a quem sirvo com tanta devoção, reconhece minha existência?

Então, quando pensei que tudo havia terminado, quando achei que o sofrimento de meu mestre havia acabado no sono da morte, ao menos até o retorno de nosso imperador ou talvez até mesmo eternamente, e que Pandora-sama conseguira o que queria, o cosmo gigantesco, obscuro e magnífico de nossa divindade absoluta aproximou-se em uma velocidade incrível de Giudecca, vindo do muro das lamentações, convocando a todos nós, seus servos, exigindo nossa presença imediata e mostrando uma irritação incomum.

Nosso imperador nunca fora dado a arroubos e sua chegada sempre fora serena e discreta, por muitas vezes nem mesmo ficaríamos sabendo que Hades-sama já se encontrava em seus domínios se não fosse pela divindade de seu cosmo descomunal. Por este motivo, novamente temi pela alma de meu mestre Minos. A inquietude do cosmo de nosso deus mostrava claramente sua insatisfação, o que me levou a pensar que talvez o motivo fosse a suposta falta de meu mentor, levando-me a acreditar que o sofrimento de meu mestre e senhor ainda não acabara, isso fez com que meu desespero e sofrimento aumentassem ainda mais.

Não demorou muito e vi Pandora-sama e Radamanthys-sama passarem em direção à Giudecca e atrás deles, uma procissão de espectros, à qual logo me juntei, a exemplo de outros que se encontravam em Antenora. Discretamente procurei por Aiacos-sama com os olhos, mas não o encontrei naquele meio, sequer pude sentir seu cosmo, isso me preocupou ainda mais, pois se Garuda também fosse punido junto a meu senhor, não haveria ninguém por eles diante do imperador do submundo e tudo estaria perdido. Não tive outra escolha a não ser seguir junto aos outros até adentrarmos Giudecca e tomarmos nossas costumeiras posições perante o trono do imperador.

– Meu imperador... Como ordenaste, estamos todos aqui para ouvi-lo e cumprir vossas ordens de acordo com vossa vontade! – disse Pandora-sama prostrando-se perante Hades-sama após subir a extensa escadaria que leva ao trono. Mas devo dizer que estou surpresa com vossa aparição precoce, peço perdão por não organizar tudo para vossa chegada.

Hades-sama levantou-se de seu trono em silêncio e percorreu os olhos por todos nós, como que procurando algo ou alguém. É incrível como mesmo com o semblante sereno, nosso imperador nos passa tanta altivez e autoridade. Aquele olhar frio e distante até hoje me provoca calafrios. E foi este olhar penetrante que me invadiu a alma quando levantei a cabeça ao ouvir seu chamado e nossos olhos cruzaram-se, então compreendi que o Deus dos mortos escutara minhas preces.

– Balron, onde estão Griffon e Garuda? – perguntou-me o deus do submundo em sua habitual serenidade mórbida.

– Hades-sama... – voltei a baixar a cabeça corroendo-me em um misto de temor e alívio. Estava deveras aliviado por saber que o deus do submundo escutara minhas súplicas. Porém, entrei em pânico ao pensar que o que quer que Minos-sama houvesse feito, finalmente seria julgado pela autoridade máxima do inferno; nosso imperador. Por isso... hesitei.

– Balron... Despertei de meu sono milenar antes do tempo previsto devido aos clamores e súplicas dirigidas a mim, e cá estou. Portanto, não abuse de minha benevolência e paciência, diga-me logo o que está acontecendo! – O imperador insistiu incisivo com um tom tão autoritário, embora baixo, que me trouxe mais calafrios, fitando-me fixamente, e calou-se esperando que eu lhe dissesse algo. Certamente já sabia da morte de meu senhor, visto que seu cosmo se apagara por completo, afinal, Hades-sama é o deus dos mortos, nosso deus.

– Meu imperador... – comecei a dizer sob o olhar assassino de Pandora-sama, de certo percebeu que as tais súplicas vieram de mim – Minos-sama está...

– Morto! – a voz feminina ecoou cortando-me as palavras e imediatamente virei o olhar em direção à senhora dos espectros, sentindo meu coração partir-se em pedaços com o que ela disse depois – eu mesma o matei... por traição! afirmou categórica causando um burburinho entre os espectros enquanto eu apenas observava a tudo sabendo que nada poderia fazer ou dizer para salvar o homem pelo qual me apaixonei.

– Traição? – volveu o deus dos mortos, voltando o olhar, que se estreitou frio e perscrutador, na mesma direção que eu.

– Sim! –reafirmou pandora confiante, exibindo um falso pesar ao levantar-se e permanecer com a cabeça levemente baixa. – Negou-se a matar um inimigo, meu imperador. Mesmo sob cárcere e torturas não revogou sua decisão. Então, não tive outra escolha, não poderia manter um traidor entre os nossos!

Não era possível que depois de toda a dor que infringiu ao meu mestre, aquela mulher sentisse alguma centelha de arrependimento. Não! Definitivamente não acreditei nisso! Como também não acreditei nem por um segundo naquele belo rosto angelical tão sofrido quanto os semblantes retratados nas estátuas das atuais santas católicas em seus martírios, muito menos em suas palavras repletas de veneno.

Meu senhor jamais trairia Hades-sama! Nunca se negaria a lutar contra um inimigo de nosso deus e em hipótese alguma o protegeria! Aquele não era o Minos que conheço... Definitivamente não era de meu mentor que aquela víbora estava falando! Suas palavras ecoaram em minha mente causando tamanha indignação que me esqueci por alguns instantes qual era minha posição ali. Estava prestes a estourar de ódio ao levantar-me bruscamente, quando as portas de Giudecca se abriram com violência e a voz imponente e indignada do Kyoto de Garuda ecoou, chamando a atenção de todos e fazendo-nos olhar para trás. Até mesmo o imperador do submundo que ouvia atento e em silêncio, do alto da escadaria, o que aquela víbora dizia, voltou à atenção ao juiz.

– Mentira! – Aiacos-sama adentrava o salão exalando ódio puro e caminhando a passos pesados e rápidos em direção à Pandora-sama que se encontrava ao lado do imperador – Mulher maldita! Não sei por que fez aquilo com meu irmão, mas ofereço minha vida a Hades-sama como garantia de que ele é inocente de tais acusações levianas!

– Pare aí mesmo, Aiacos! – Radamanthys-sama, que até então se mantinha em silêncio prostrado à frente de todos os espectros, ao sopé da escadaria, levantou-se, logo tomando uma posição defensiva para impedir a passagem de Garuda, que já estava bem próximo de si e mantinha o mesmo cosmo ameaçador. – Não ouse levantar-se contra Pandora-sama! Não te esqueças da posição que ela ocupa, muito menos que estás na presença de nosso imperador!

– Cale a boca, bastardo! Você é cúmplice dessa vadia! Vendeu-se aos seus encantos e foi conivente com a injustiça cometida contra o sangue de teu sangue! – esbravejou Garuda descontrolando-se por completo e elevando seu cosmo perigosamente para Radamanthys-sama.

– Basta! – exclamou autoritário o deus do submundo que, sob o silêncio mórbido que se instaurou, desceu vagarosamente as escadas elevando seu cosmo divino e sobrepujando-os por completo. Os juízes, que acataram imediatamente a ordem, ao verem-no aproximar-se, prostraram-se aos seus pés – Radamanthys, exijo que explique agora mesmo o que ocorre em meu reino!

– Hades-sama eu... – o Kyoto começou, mas fora pandora a continuar.

– Meu senhor, eu já expliquei que...

– Cale-se, Pandora! Hades-sama – interrompeu autoritário, mas sem alterar-se, fitando-a repreensivo – Não lhe dei o direito à palavra. Se quiser saber algo de ti, perguntarei. Limite-se a falar apenas quando solicitado! – o deus tornou a voltar sua atenção para Wyvern e prosseguiu em tom de exigência: –Radamanthys!

– Meu imperador, eu somente cumpri as ordens de Pandora-sama como o senhor me havia ordenado! Apenas sei o que vos foi dito por ela agora há pouco. Não posso dizer-vos nada além disso, pois não estou a par dos acontecimentos. – ele dizia a verdade, pois de fato nenhum de nós fazia ideia dos motivos que levaram Pandora-sama a tomar atitudes tão drásticas.

O senhor do submundo observou fria e atentamente o olhar firme e seguro de Wyvern. Após algum tempo estudando-o, rapidamente passou o olhar por todos ali presentes, que tensos pela situação inusitada mantinham-se em absoluto silêncio, e depois de alguns segundos simplesmente retornou para seu trono demonstrando toda serenidade e frieza ao determinar:

– Que os fatos apareçam diante de mim e o responsável por esta balbúrdia em meu reino curve-se sob minha autoridade, agora! – diante do silêncio de todos finalmente ordenou:

– Que entre o acusado; Minos de Griffon!

Todos puderam sentir o cosmo de Minos-sama acender e queimar em todo seu esplendor e fúria, ainda na casa do julgamento, e aproximar-se de Giudecca em alta velocidade. Pelas grandes portas da morada do imperador, adentrou uma violenta corrente de ar, causada pelo cosmo de meu mestre e senhor, expandindo-se por todo o salão do trono, fazendo com que protegêssemos nossos olhos dos detritos trazidos pelo vento tempestuoso, que não demorou a amainar, revelando Minos-sama em sua majestosa súrplice de Griffon.

Seu estado lastimável era perceptível embora não aparentasse, pois a súplice escondia suas terríveis feridas. Meu mentor sustentava-se somente em seu cosmo poderoso que mantinha elevado e exalava puro ódio, mesmo suas feições permanecendo impassíveis. Seu esforço, a cada passo dado em direção ao trono, mostrava quão debilitado estava, pois por mais que tentasse manter sua postura altiva ao permanecer de cabeça erguida, seus passos eram arrastados, porém firmes, seus lábios estremeciam levemente e seu corpo tardava a corresponder o movimentos que lhe impunha. Visivelmente, para mim que o conhecia bem, com muito esforço ainda mantinha-se de pé.

Trazia algo na mão, um objeto o qual só pude reconhecer após sua aproximação lenta e dificultosa e por onde passava deixava um rastro feito de grossos pingos de sangue no chão, algo que também só observei quando meu mestre já estava em mais da metade de seu percurso.

O Silêncio sepulcral, feito desde que meu senhor surgiu diante das grandes portas de Giudecca e seu cosmo tomara o grande salão, quebrou-se quando Minos-sama finalmente aproximou-se de Radamanthys-sama, que o observava atônito juntamente a um Aiacos boquiaberto, estacou diante do Kyoto de Wyvern e, encarando-o sem nenhuma sombra de sentimento, deixou os grilhões que o mantiveram em cárcere deslizarem por seus dedos, baqueando ao chão e sibilando em ecos que se espalharam por todo o local, logo tomado pelo alarido da pequena multidão.

Nosso imperador pareceu desagradar-se do que via, pois tão logo percebeu o estado deplorável em que se encontrava seu Kyoto, ergueu-se novamente do trono estreitando seus olhos fixos sobre Minos-sama que deu mais alguns passos tomando a frente de seus dois colegas de juizado e, praticamente jogando-se ao chão entre eles, prostrou-se ante o deus do submundo.

– Saiam todos! ordenou nosso imperador ao elevar um pouco a voz autoritária e, naquele momento, um tanto irritadiça. Quero apenas Pandora e meus Kyotos nesta audiência.

Após sua ordem incontestável, todos nós deixamos o local e a audiência deu-se a portas fechadas, seladas pelo cosmo do próprio deus dos mortos. Não tenho ideia do que foi dito dentro daquela sala, naquele dia, durante o julgamento de meu tutor, mas fiquei curioso ao sentir outros cosmos divinos surgir repentinamente dentro da morada de Hades-sama. Surpreendi-me, pois dentre eles surgiu o cosmo de Necromancer, que há tempos estava desaparecido. Ainda mais quando as portas foram abertas horas depois e pude observá-lo deixar Giudecca, com uma pequena criança em carne e osso que parecia dormir tranquila nos braços do espectro, e desaparecer no horizonte levando-a consigo em direção à quarta prisão.

Logo depois de Necromancer, saíram Aiacos-sama e Wyvern acompanhado por Pandora. Minos-sama foi o último a deixar Giudecca depois de permanecer um logo tempo com Hades-sama a portas fechadas. E vendo que ainda estávamos, todos nós, seus subordinados, apreensivos, aguardando o desfecho de seu julgamento ante a entrada de Giudecca, logo meu mestre pronunciou-se:

– Voltem aos seus postos e tranquilizem-se! Pois Hades-sama, em sua divina sabedoria, deliberou sobre os acontecimentos e decidiu o impasse considerando-me inocente e reafirmando o cargo que me é de direito desde que ele mesmo considerou-me digno de exercê-lo! – ditou meu eterno comandante em toda sua altivez, levando-nos ao êxtase e sendo ovacionado por todos com brados que o sagravam como o grande líder que sempre fora e enalteciam o poder e justiça de nosso imperador.

Senti algo morno deslizar por meu rosto, percorrendo o caminho até o queixo enquanto um singelo e discreto sorriso desenhou-se em meus lábios. Chorei em silêncio, de alívio e júbilo, como nunca antes se dera meu pranto. Principalmente ao ver que meu senhor e mestre mostrava-se tranquilo e são, como se os vestígios daqueles sete dias fossem apagados do tempo e de sua carne. Pareceu-me aos olhos, curado de todos os males que o infligiram e tive a confirmação ao notar que já não sangrava e não havia em seu ser nenhum resquício de dor ou sofrimento. Certamente Hades-sama, em sua misericórdia divina, o havia curado. Agradecia intimamente ao meu imperador e deus pela graça concedida com o mesmo afinco com que roguei por sua ajuda.

Logo tudo voltou à normalidade e tornamos aos preparativos para a invasão ao Olimpo, organizados pela mesma Pandora-sama indiscutivelmente derrotada naquele julgamento a portas fechadas, mas nem por isso com menos moral e domínio sobre o exército espectral.

Deu-se a guerra santa mais devastadora para nós, do exército do submundo. Pois nossos inimigos não eram apenas míseros servos de Atena, mas o próprio Zeus que liderou todos os outros deuses ao lado da filha nascida da rachadura feita em seu crânio pelo machado de Hefesto. Todos os deuses e seus respectivos exércitos, liderados pelo deus dos deuses, enfrentaram nosso imperador, impedindo-o de tomar o olimpo e ascender ao trono, posição que lhe seria de direito por ser o primeiro filho homem de Cronos e Réia.

Meu preceptor, assim como seus irmãos, não apenas passou pela desgraça ocorrida no Meikai como também fora renegado e amaldiçoado por seu legítimo pai que os aniquilou com apenas um movimento de sua arma em um momento de ira. Fomos dizimados... Todos nós do submundo! E nosso imperador, humilhado pela derrota esmagadora, fora obrigado a retirar-se, condenado ao exílio do Olimpo, sentença dada pelo próprio Zeus e irrevogável.

Nas eras seguintes, Aiacos-sama, antes tão justo, benevolente, caridoso e cordial com seus semelhantes, tornara-se o mais amargo, cruel e psicótico dos juízes, passando a espezinhar, maltratar, humilhar, torturar e até mesmo matar das maneiras mais sórdidas e doentias seus subalternos ou qualquer humano que atravessasse seu caminho. A cada guerra santa ele conseguia superar sua crueldade e eu podia ver crescer em seu olhar o prazer pelo sofrimento alheio. Porém, na presença de Minos-sama, quando ambos viam-se na intimidade de seus gabinetes ou aposentos, como em um passe de mágica, Aiacos-sama deixava toda sua crueldade de lado e voltava a ser aquele homem dócil e justo de olhar afável que um dia fora. Embora tenha amadurecido muito com esta experiência, mantinha seu semblante endurecido e seu tom de voz firme, porém sempre carinhosa, ao dirigir-se ao meu senhor.

Radamanthys-sama, que sempre fora reservado e sisudo por natureza, porém mostrava-se justo, tornara-se impassível ao sofrimento alheio, livre de quaisquer emoções que não fosse o mais puro ódio que alimenta seu cosmo e, se antes tinha vontade própria e questionava determinadas decisões de Pandora-sama, passara a ser apenas um executor de suas ordens, fechando-se por completo dentro de si. Não questionava, nem se mostrava descontente a nenhum desejo da dama do inferno, muito menos demonstrava alguma satisfação em cumpri-las, apenas executava firme e preciso as ordens que lhe eram impostas.

Quanto a Minos-sama, meu mestre e benfeitor, do homem irônico e bem-humorado que era, apenas sobraram seu sarcasmo obscuro e humor negro perante os inimigos que faz questão de humilhar durante as torturas que sempre culminam em estrangulamento ou até mesmo esquartejamento depois que as vítimas deixam de lutar e passam a implorar por uma morte rápida. Tirando a seriedade que adquiriu ao fechar-se em seu íntimo, o tratamento dispensado a qualquer um de nós, permaneceu o mesmo; educado e respeitoso, porém distante...


Gente, como puderam ver, tomei a liberdade de mostrar que Lune já estava no inferno quando Minos chegou, por que, bem... o inferno já existia antes dele, certo? ^^

Também o chamei de bicentenário por que segundo historiadores, o rei Minos teria vivido cerca de 240 anos e governado Creta por 202 anos. Por isso os historiadores e arqueólogos dizem que não houve apenas um Minos e sim três gerações. Muitos até mesmo acreditam que a palavra "Minos" não seria um nome próprio, mas um título equivalente a rei.A tal batalha pela custódia de Coré não é narrada na mitologia, foi ideia minha baseada na desavença entre Hades e Deméter narrada na mitologia onde explica a existência das quatro estações anuais (primavera, verão outono e inverno) para explicar a controvérsia com o anime-manga Saint Seiya onde em momento algum da batalha do elísios Perséfone aparece, o que convenhamos é muito estranho, né? rsrs

Também tomei a liberdade de colocar Pegaso como o animal lendário nessa pequena batalha, achei mais interessante, já que se trata de tempos mitológicos e em Lost Canvas diz que Tenma é a alma do cavalo alado encarnada como humano (quando Partita tenta tirar a alma do coitado) e para encarnar ele precisaria morrer... por isso coloquei o próprio Hades como seu algoz, já que ninguém conseguiria ferir o deus dos mortos e sair ileso. ^^

Sobre pandora e os 108 espectros, segundo a mitologia ela abriu a bendita caixa (e não estou falando das urnas das armaduras de atena rsrs), a qual selava todos os males da humanidade. Titio kurumada faz uma analogia desses males com as contas do rosário budista (aquele que os virginianos Shaka e Asmita usam), que realmente existem e são usados até hoje por monges. Esse rosário contém cada sentimento atormentador representado por uma "conta" (que no anime/manga é feita com a semente da Mokurenji) e tem o total de 108 contas por serem 108 sentimentos, daí o porquê de ser 108 espectros.Isso deu fim a chamada "Idade de ouro", um período em que o mundo vivia num estado de apogeu e glórias perpétuas.

A guerra santa mencionada já no fim do capítulo realmente tem respaldo mitológico, embora não haja detalhe algum sobre isso (pelo menos ou não achei =/). É descrito que uma única vez Hades tentou destronar Zeus e obviamente perdeu a guerra, sendo exilado pelo irmão no "Hades" (um dos nomes do inferno), de onde nunca mais saiu. Talvez por isso titio Kuru o tenha deixado adormecido no elísios, apenas para não entrar mais em contradição com a mitologia do que já fez. rsrsBem... eu acho que é só. Mas se ficou algo sem explicação por favor me avisem que eu edito essa nota.

Também vou aproveitar para avisar que Este POV não acabou e eu apenas decidi cortar em dois por que vi que a passagem de tempo da história narrada por Lune permitia. Se vocês não entenderam o porquê desse POV, não se preocupem, vão entender no próximo ch, onde ele culminará nos dias atuais e dará prosseguimento ao romance de nossos pombinhos kawaii rsrs

Essa narrativa é muito importante, pois esse ch marca a reviravolta na história e o início de toda a trama que envolverá o romance dos dois.Quero agradecer, e muito, os reviews que até hoje vocês têm me deixado. Quero que saibam que leio todos com muito carinho e às vezes, quando estou deprimida e tenho um tempinho, acesso o site pelo celular apenas pra reler as palavras carinhosas que vocês deixam pra mim. São suas palavras que nunca me deixam desistir de escrever RS, mesmo que eu saiba que vou demorar a concluí-la. Obrigada mesmo, de todo coração.

Minos de Griffon