XIV.

No dia seguinte, quando ele chegou, ela já estava no laboratório. Examinava atentamente a ficha de Amelia Clarkson, a primeira vítima, em cujo cadáver havia sido encontrado arsênico.

Olivia tinha a sensação de que estavam deixando passar alguma coisa. As outras duas senhoras, Wilhelmina Smith e Abigail Grant, tinham em comum a presença de estricnina no organismo e a ausência de valores em suas casas. A causa da morte da Senhora Smith era uma série de perfurações na região do tórax. A pobre mulher sangrara até morrer. Olivia sentia que algo estava lhe escapando, mas não saberia precisar o que era exatamente.

Peter chegou acompanhado de Walter. Assim que pôs os olhos em Olivia, foi direto para ela. Quando ficou bem próximo, estacou e não fez nada. Parecia indeciso, não tinha certeza se podia tocar nela, se ela ficaria melindrada diante de Walter. Trocaram sorrisos, mas seus rostos revelavam o mesmo desejo de proximidade física que havia se manifestado desde aquele chá na casa dos Cox, em Quincy.

Walter não perdia nada. Apesar de fazer gosto numa potencial união entre o filho e sua protegida, sentia uma espécie de receio. Agora os dois estavam de cabeças juntas, conversando sobre as vítimas. Olivia dividia com Peter a sua certeza de que algo estava errado, talvez o método de investigação. Walter pigarreou, quando o filho olhou para ele, viu o sinal.

-Com licença, Liv. Walter quer falar comigo ou me mostrar alguma coisa. Já volto.


Os dois entraram num pequeno aposento contíguo, uma espécie de gabinete com escrivaninha e um confortável sofá de couro. Havia também privacidade: o som não chegava ao laboratório. Assim que entraram, Walter falou de chofre:

-Filho, precisamos conversar seriamente.

-Em que posso ajudá-lo, Walter?

O tom era irônico, mas o pai ignorou, aproveitou a deixa, e foi direto ao assunto.

-Ajuda não criando problemas para Olivia. Creio que me entende, não?

Peter franziu o cenho: entendia, mas francamente não apreciava a intromissão em sua vida.

-Não pretendo criar nenhum problema. Apenas gosto dela, e muito. Há algo de errado nisso?

-Vi vocês se beijando na berlinda. E você levou muito tempo para acompanhá-la até sua casa. O que vem depois?

-Não fizemos nada de impróprio. E você não deveria ficar nos vigiando. Não temos doze anos.

-Estou tomando conta dela. É pobre, não tem pais e é inexperiente neste tipo de coisa.

-A que tipo de coisa se refere?

-Sabe muito bem do que estou falando. Ela não é uma mundana, é totalmente diferente das mulheres que você conheceu.

-É por isso que ela me agrada.

-Por quanto tempo?

Ele olhou para o pai, exasperado. No fundo sabia que Walter tinha razão. Não tinha experiência com mulheres como Olivia. Confrontado, respondeu de forma agressiva:

-Acha que eu quero me aproveitar dela? Seduzi-la para depois abandoná-la?

-Não sei. Diga você, o que quer?

Aí Peter ficou abalado, pois não sabia o que responder. Sentia atração física por Olivia desde a primeira vez em que a vira, na rua, perto do laboratório. O encaminhamento normal da situação seria o fato de se tornarem amantes, mas era certo que ela nunca tivera um. Era uma moça solteira e pobre. Para tê-la, um homem decente deveria se casar com ela. Acabou dando a mão à palmatória.

-Eu realmente gosto dela. Gosto muito mesmo, mas não penso em casamento.

-E se ela fosse rica como Amy Jessup?

-Não pretendo me casar nunca, não importa com quem. Acha que eu quero passar pelo que você e minha mãe viveram?

-Você não precisa repetir os meus erros, filho. Não precisa mesmo. Talvez você e Olivia possam dar certo.

No íntimo, Walter estava profundamente desapontado com a postura do filho, mas pelo menos reconhecia que ele era honesto.

-Então vai desistir de Olivia? Vai deixar que ela siga o seu caminho?

-Vou ser sincero com ela, Walter. O caminho a ser seguido é escolha dela. Não vou enganá-la.

-Pois bem, faça o que achar certo, mas não se esqueça de que Lincoln Lee a ama e não hesitaria em fazer o que você se recusa. Tente não ser egoísta.

-Não vou me esquecer, obrigado.

Saiu abruptamente do escritório, passou por Olivia no laboratório e nem falou com ela. Quando Walter entrou, ela estava muito branca, tinha uma expressão magoada.

-O que aconteceu com ele? Vocês brigaram?

-Nada, minha querida. Peter é assim mesmo. Depois vocês conversam.

A aparência do velho cientista era desanimada, mas ainda não perdera de todo a esperança.