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FEITICEIROS

Por Kath Klein

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 14

O Passado de Reed Clow

Li saiu do hospital poucas horas depois que acordara, teve que assinar uma montanha de papelada em que se responsabilizava pelo seu estado de saúde, já que os médicos não queriam por nada dar alta para o rapaz. O Enfermeiro Taniguchi também tentou colocar juízo no casalzinho teimoso, mas foi em vão. Eles precisavam entender o que estava acontecendo e dentro do hospital é que não encontrariam as respostas.

Sakura olhou de esguelha para o namorado no banco do passageiro enquanto dirigia. A cidade estava vazia, pouquíssimos carros pelas ruas. Pessoas caminhavam quase que correndo com medo de serem atacadas por coisas estranhas. Ouvia-se a todo instante barulho de sirenes de ambulâncias ou patrulhas da polícia que vistoriavam a cidade em praticamente estado de sítio.

'A gente tem que arrumar isso...' Sakura ouviu o namorado sussurrar enquanto olhava pela janela do carro. Ela girou o volante seguindo na direção onde sentia a presença de Eriol.

'Acho que sim.' Respondeu. 'Mas a gente precisa saber exatamente o que está acontecendo.'

'Acho que é aquele lance maluco que a senhora Mizuki estava tentando nos falar alguns dias atrás.'

Sakura respirou fundo. 'Aquele negócio de pilar e guardião?'

'Acho que sim. E aquele negócio de caos.'

A ruiva engoliu seco. Tomoyo estava no banco de trás acompanhando o diálogo dos amigos. Estava indecisa se repassava ou não a informação que tinha recebido da senhora naquela vez em que os amigos se recusaram a ouvir, afastando-se do grupo.

'Eu não sei.' Sakura falou, desviando de um carro que estava com as rodas para cima do meio da pista. 'Não acha muita loucura este negócio de eu ser um pilar e você o guardião dele?'

Syaoran não respondeu, apenas observava a cidade através da janela do carro. Uma das mãos estava no ferimento do ombro indicando para a namorada que era o mais dolorido de todos.

'Acha que o que sentimos um pelo outro é isso?' Sakura perguntou, mas logo se arrependeu. Quem pergunta o que não deve, pode ouvir o que não quer, pensou para si, recriminando-se.

Ele finalmente desviou os olhos da cidade e virou-se para a namorada que tinha os olhos no caminho, estava atenta por causa dos inúmeros obstáculos. 'Não.' Ele respondeu chamando a atenção da jovem que virou-se rapidamente e depois voltou os olhos para a direção. 'Eu te amo, Sakura. Não duvide disto.' Falou com certeza e pôde ver o sorriso brotar nos lábios dela. Sakura parou o carro em frente à casa da senhora Mizuki. Puxou o freio de mão e voltou-se para o namorado que ainda a fitava. Ele levantou o braço e fez um leve carinho no rosto da Feiticeira que fechou os olhos. 'Eu te amo...' sussurrou, inclinando-se e beijando-a nos lábios.

Afastaram-se ainda fitando um ao outro. Sorriram. 'Eu também te amo.' Ela falou. 'Mais que tudo.' Completou.

Tomoyo pigarreou lembrando ao casal que estava ali. Os dois quebraram a intensa troca de olhares. Syaoran abriu a porta do carro, sendo acompanhado pelas jovens. O rapaz se concentrou um pouco e percebeu várias presenças. 'Acho que estavam nos esperando.'

'Melhor.' Sakura falou fechando a porta do carro e observando a casa. Gostava muito daquela construção, transmitia paz, assim como sua antiga casa amarela.

'Você está bem mesmo, Syaoran?' Tomoyo perguntou parando em frente ao rapaz. 'Ainda acho que deveríamos ir para o alojamento. Você poderia ficar com a gente até melhorar.'

O rapaz sorriu para a jovem que se mostrava bem preocupada com ele. 'Eu estou bem. Além disso...' falou voltando a fitar a casa. 'Não temos muito tempo.'

Ele a ouviu suspirar. Foi a morena que caminhou até a entrada da casa e bateu à porta. A figura da bela senhora apareceu, porém, pela primeira vez, não sorria para eles, trazia no rosto uma expressão de preocupação. Ela fitou Li e Sakura.

'Senhora Mizuki, viemos ver Eriol.' Tomoyo falou.

'Por favor, entrem.' Pediu abrindo a porta para dar passagem para os jovens.

'Vamos lá arrancar alguma coisa de Hiiraguizawa.' Li falou, pegando a mão da namorada. 'Nem que seja os dentes, não é?' Completou brincando e reparou no olhar surpreso de Sakura. Logo ela abriu um sorriso e beijou de forma demorada o rosto dele.

'Estava me ouvindo?'

'Sempre vou estar.' Respondeu e sentiu a jovem segurando mais forte sua mão.

Subiram os poucos degraus e fitaram a senhora que tinha o rosto tenso. Cumprimentaram-se rapidamente e entraram na casa. Logo encontraram o amigo de infância na sala, ele estava sentado numa poltrona. Mizuki estava em pé ao seu lado. A expressão dos dois era de pura ansiedade.

'Era só me chamar e eu iria até o hospital vê-lo, Li.' Eriol falou encarando o rapaz que entrava de mãos dadas com a namorada.

'O que temos a conversar não poderia ser tratado lá.'

'Imagino que tenha muitas perguntas a me fazer.'

'Precisamos saber, sem rodeios e enigmas desta vez, o que estamos realmente enfrentando.'

'Por favor, sentem-se.' A senhora Mizuki apontou o sofá. 'Acabou de sair do hospital, senhor Li. Poupe-se pelo menos um pouco ou não terá forças para enfrentar o que virá.'

O rapaz estava tenso, não queria sentar, mas ponderou que ela tinha razão. Caminhou até o sofá próximo de Eriol e sentou, Sakura sentou ao seu lado, ainda tinham os dedos entrelaçados.

'Ótimo. Vou preparar um chá para todos.' Falou afastando-se.

'Quer que eu a ajude, mãe?'

'Não, minha filha, fique aqui.'

Tomoyo reparou que as duas trocaram olhares preocupados. A senhora sumiu para a cozinha. Nakuru com Spinel, na sua forma falsa, desceram do segundo andar da casa. Por alguns minutos houve um silêncio pesado na sala; até mesmo a espevitada Nakuru estava quieta e pensativa enquanto observava o grupo. Eriol se mexia na poltrona com frequência, só parou quando Kaho repousou sua mão na dele e sorriu. Sakura olhava para Syaoran que permanecia sério e em silêncio, esperando que Eriol começasse sua explicação. Ele não parecia nervoso, pelo contrário estava calmo, bem diferente dos outros habitantes da sala.

'Estou esperando Yue e Kerberus. Prefiro explicar a situação de uma vez só para todos.' Eriol explicou sua hesitação.

'Eles já devem estar chegando.' Kaho esclareceu. Estava sentindo a presença dos dois guardiões se aproximando rapidamente.

'Como se sente, Li?' Eriol perguntou olhando para o rapaz

'Dolorido.' Foi a resposta sincera. 'E confuso.'

O mago pigarreou. 'Não tive a oportunidade de agradecê-lo. Acho que, se não fosse sua atitude impulsiva junto com Kerberus, eu não estaria aqui para explicar tudo a vocês.'

'Na verdade, nenhum de nós.' Spinel Sun completou.

'Tornou-se um grande guerreiro, Syaoran Li.' Eriol falou com certo orgulho. Fitou Sakura que estava ao lado do namorado e sorriu. 'Vocês dois se tornaram grandes feiticeiros.'

'Não adiantou nada o meu treinamento se eu mal consegui ferir o idiota que nos atacou.' O rapaz falou trincando os dentes.

Sakura apertou a mão do rapaz e tremeu. Ele estava certo. Talvez não tivessem poder para combater o inimigo. Ela balançou a cabeça tentando afastar novamente aquelas palavras debochadas de Mirena.

'Ele podia ter matado Sakura e eu nem consegui ver o que a atingiu.'

'Hei... eu é que fui distraída.' Ela interrompeu. Detestava quando Li começava a colocar tudo nas próprias costas. A culpa fora dela que se distraiu e não percebeu a ameaça.

'É minha responsabilidade proteger você.' Syaoran falou.

'Já disse que não sou uma princesa em apuros que precisa de um herói, Syaoran.' Ela falou com a voz firme e o rosto duro. 'Para de agir como se fosse responsável por tudo.'

O rapaz retrucaria mas foi interrompido por Eriol. 'Eu sou o responsável por tudo que está acontecendo agora.'

'Você não... Clow.' Kaho retrucou.

'Que sou eu.'

'O que quer dizer com isso, Eriol?!' Sakura perguntou aflita.

'Irá entender tudo, querida Sakura. Inclusive sobre a origem dos seus poderes.'

'Meu poder?' Ela franziu a testa mostrando-se surpresa.

'Eles chegaram.' Kaho falou caminhando em direção à porta para dar passagem aos guardiões de Sakura. Logo Yue, Kerberus e Touya entraram na pequena residência.

O irmão de Sakura ainda encarou Kaho por alguns segundos, antes de entrar e se encostar num canto observando cuidadosamente Li. Ele não engolia o fato de ter definitivamente perdido sua irmãzinha para o chinês, mas teve que dar o braço a torcer, depois do que soubera e do que Yue contou que aconteceu na batalha contra Shyrai, o rapaz olhava diferente para Li agora. Depois observou Kaho sentada ao lado de Eriol e imaginou que o destino tinha se confirmado, sem querer desviou os olhos para a bela figura de Yue que olhava sério e fixamente para Eriol. Após tantos anos de separação, o mago voltara muito, mas muito parecido fisicamente com Clow. Sentiu-se mal em constatar isso, pois sabia da fascinação que o guardião lunar tinha pelo seu antigo mestre.

A senhora Mizuki entrou na sala com o chá. Sakura ofereceu a Li, mas este gentilmente recusou, embora fizesse questão de que a namorada tomasse para relaxar um pouco.

'Agora sim, podemos começar.' Eriol falou batendo de leve no encosto dos braços da poltrona. Ele sabia que a conversa seria comprida e difícil. A senhora Mizuki já o tinha avisado da reação de Sakura e Li quando ela começou a contar sobre o Caos.

Todos olhavam apreensivos para o rapaz, que ajeitou os óculos no rosto sério. Ele olhou pela última vez para Kaho, que sorriu para ele docemente, dando-lhe força.

'Há muitos anos, quando eu ainda não possuía controle total...' Finalmente começou.

'Quando Clow não possuía...' Kaho novamente o interrompeu. Sakura estranhou a insistência da sua antiga professora em não associar Clow a Eriol.

Eriol tentou sorrir para a esposa. 'Quando Clow não tinha ainda controle e conhecimento pleno de seus poderes, conheceu um outro jovem mago chamado Muy Shyrai...'

Sakura arregalou os olhos, lembrando que fora este o nome que Eriol havia lhe dado no hospital. Então foi ele quem a atingira pelas costas sem nem lhe dar chances de se proteger e, para piorar, quase tirara a vida de seu adorado namorado. Já estava realmente detestando, corrigindo, odiando este cara. Tanto Syaoran como Eriol repararam a presença da jovem se agitando.

'Fica fria.' Li sussurrou. 'Cabeça quente não ajuda em nada.'

'Já falei que isso não funciona comigo.' Retrucou. Tiveram uma breve troca de olhares que foi reparado por Touya.

Era impressão sua ou a irmã, realmente, mostrava-se uma loba bem furiosa quando mexiam com o que era dela? Sorriu de lado vendo que o DNA dos dois não negava que eram irmãos.

Eriol sorriu de lado. 'Vejo que aprendeu bem a manter a calma, Li.'

Syaoran se ajeitou no sofá. Lembrava-se claramente de Eriol lhe dando o mesmo conselho que dava a namorada naquele longínquo mano a mano de basquete quando eram garotos.

'Eu sabia que, se mantivesse a calma, iria se tornar muito mais poderoso do que poderia imaginar.' Eriol continuou.

'Não viemos aqui para falar do passado.' Li rebateu.

Touya olhou de um para outro. Achou melhor intervir. 'Então você conhece aquele cara, Hiiraguizawa?' O homem perguntou desviando os olhos do casal e fitando o rapaz. Não gostava de Clow. Achava que tudo que ele tocava virava merda.

'Sim.'

Yue mostrou-se surpreso. 'Eu não o conhecia, você... ou melhor... Clow nunca mencionou sobre ele.'

Kerberus aproximou-se do antigo mestre também espantado. 'Clow nunca mencionou este nome antes.'

'Por favor, vamos deixar o mestre Eriol contar tudo de uma vez, sem interrupções.' Spinel Sun interveio.

'Obrigado, Spinel Sun.' O felino fez um gesto com a cabeça. Depois desviou os olhos para Kerberus que mostrou os dentes para ele. 'Como eu ia dizendo, Clow conheceu Shyrai quando ainda era um rapaz da idade de vocês, mas não possuía o nível de poder de vocês...' Ele sorriu brevemente, constatando que realmente a sucessora e o descendente de Clow estavam muito fortes. 'Minha família sempre teve uma situação financeira favorecida, o que me dava certa liberdade para estudar mais o mundo da magia e me preocupar menos com os problemas do mundo real. Com a morte de meus pais, isolei-me da humanidade a fim de estudar e praticar cada vez mais a magia em todas as suas formas.'

'Inclusive a negra.' Syaoran falou, observando o amigo.

Ele próprio também fora obrigado a estudar magia negra, seguindo manuscritos deixados por Clow. Apesar de se recusar a participar de alguns rituais, sabia que alguns membros do Clã eram praticantes. Na verdade o clã Li, assim como o clã Tao, tinha vários membros praticantes de magias bem barra pesada. Se não fosse a intervenção poderosa de Yelan e aquela "fuga" para o Japão com a desculpa de recuperar as cartas Clow para o Clã, provavelmente teria sido levado para um caminho bem escuro.

'Exatamente.' Eriol concordou

Yue revoltou-se. 'Não é verdade! Clow nunca foi um mago das trevas!'

'Yue, por favor...' Eriol tentou continuar. 'Deixe-me terminar.' Pediu.

O anjo caminhou para junto de Touya, em silêncio, e com o semblante mais amarrado que o do irmão de Sakura.

'Estudei tudo sobre o mundo da magia por muito tempo. Um dia um rapazinho bateu em minha porta, ele me contou que seus pais foram mortos por criaturas mágicas e que agora estava sozinho no mundo. Com pena e, é claro, vendo que ele poderia ser uma pessoa para cuidar da casa, eu o acolhi. Seu nome era Muy Shyrai. Tinha minha idade, porém era muito mais sério e introspectivo que eu, devia ter passado por momentos terríveis.'

Touya soltou um suspiro impaciente. 'E daí? Onde isso tudo irá chegar?'

Eriol limpou a garganta e consertou os óculos que escorregavam pelo nariz fino. Estava nervoso. Muito nervoso. 'Nesta ocasião eu estava estudando sobre a teoria dos universos paralelos, os portais e também sobre o que chamamos de paraíso e inferno. Eu estava certo de que não passavam de mundos paralelos...'

'Você está querendo dizer que o céu e inferno são parte deste mundo?' Tomoyo finalmente se pronunciou.

Eriol continuou. 'Acredita mesmo que os espíritos vão para o céu se são bons e para o fundo da terra se são maus? Se fosse assim o diâmetro da terra teria que ser infinito.'

Tomoyo balançou a cabeça ponderando.

'Bem, como eu ia falando, estava estudando sobre isso. Um dia Shyrai me confidenciou que possuía magia e eu pude constatar isso com pequenos truques do rapaz, então tomei-o como meu aprendiz. Ensinei-lhe quase tudo que sabia. Ele era um aluno aplicado e, em pouco tempo, já estava discutindo comigo sobre todos os assuntos, mas o que mais lhe interessava era o mundo das Trevas. Imaginei que pela curiosidade de saber o que tinha atacado sua família. Após longos anos de convivência, tornamo-nos muito amigos, mas, infelizmente, Shyrai nunca conseguiu tirar de sua mente o assassinato de sua família. Isso fez com que entrássemos em atrito com relação aos portais. Shyrai queria achar um para atravessar a barreira das Trevas. Com sua magia desenvolvida ele saiu pelo mundo a procura do portal que o levaria aos assassinos de seus pais.'

Eriol deu uma pausa e pediu para que Kaho o servisse um pouco de chá. Ela assim o fez. Depois de um gole longo, e sob os olhares de todos, ele continuou.

'Eu criei Shyrai, ensinei-lhe tudo para que se tornasse um mago tão poderoso quanto eu era. Na verdade, ele possuía mais magia do que eu; se continuasse estudando poderia se tornar melhor que eu.'

'Ninguém é mais poderoso que Reed Clow.' Kerberus retrucou.

Eriol sorriu sem graça para o felino. 'Está ao lado de dois feiticeiros mais poderosos que ele, Kerberus.' Falou apontando para o casal de namorados, que se sentiram incomodados com a colocação do ex-colega de colégio.

O felino olhou para Li e Sakura e pensou que, realmente, a ruiva tinha evoluído muito além do esperado como a mestra das cartas e que o moleque encrenqueiro, há poucos dias, deu-lhe uma demonstração não só de teimosia como de um estrondoso poder.

A reencarnação de Clow ainda não tinha finalizado sua narrativa, estava apenas começando. 'Fiquei sem ter notícias do jovem Shyrai por anos, até que um dia ele apareceu em minha casa. Com um objeto parecido com uma chave. Ele me contou que percorreu o mundo inteiro atrás daquele objeto sagrado e, finalmente, encontrou-o no extremo norte da Ásia. Procurou-me para tentar usá-lo e finalmente abrir a brecha entre os mundos. Descobrimos que a relíquia era a chave ligada ao Deus Tengri e à Deusa Eje. São os deuses da criação turco e mongol. Estudamos o Tengriismo e encontramos o que nos parecia a invocação para acionar a chave.'

'Mas você não abriu, não é?' Tomoyo perguntou ansiosa.

Eriol deu um longo suspiro. 'Foi aí que eu pequei. Guiado pela minha curiosidade e vaidade concordei em descobrir como usá-la.'

Sakura olhou atordoada para Eriol. Ela sempre teve a figura de Clow como uma pessoa íntegra e acima de falhas humanas. O rapaz percebeu isso. Yue e Kerberus também mostraram a mesma agitação ao constatar que Clow também tinha seus defeitos.

'Eu entendo o que ele sentiu.' Syaoran falou sem censurar o colega. 'Às vezes, queremos saber até onde somos capazes de chegar, não é?' Perguntou, encarando Eriol que concordou com a cabeça. Sakura ajeitou-se melhor ao lado do namorado. Ele sentia que a mão da namorada estava suada, ela estava nervosa, pois sabia que viria mais. O rapaz sabia que o buraco era bem mais embaixo. Eriol, como sempre, estava preparando o terreno. Ele nunca contava as coisas de forma simplificada. Adorava usar a estratégia de contar como a estória do gato que subiu no telhado.

Eriol bebeu um gole de chá. 'Eu e Shyrai pesquisamos durante meses como usar a chave, até que finalmente descobrimos.'

'E como se usava a tal chave?' Tomoyo mal conseguia caber de ansiedade.

O rapaz ajeitou-se melhor na poltrona e fechou os olhos brevemente. 'Lembro-me como se fosse ontem. Como vocês sabem, os portais são abertos em situações aleatórias, como a conjunção de astros ou até mesmo pelo magnetismo da Terra.'

Tomoyo deu alguns passos a frente. 'A senhora Mizuki nos explicou isso. Ela nos disse que, na verdade, não tem uma razão certa conhecida. Às vezes, surge pelo desejo de um bem comum, às vezes por forças mágicas, às vezes pela interferência dos astros ou o próprio planeta.' Falou observando a senhora. 'Não foi isso que nos disse?'

'É incrível como possui uma ótima memória e uma incrível percepção, menina.' A senhora Mizuki falou olhando com admiração para a jovem. Reparou que ela corou com o elogio.

'É verdade. Tomoyo sempre teve uma ótima percepção.' Kaho confirmou deixando a jovem mais sem graça ainda.

'Como Tomoyo relembrou bem...' Eriol continuou. 'Para se criar uma passagem entre dois mundos, precisa-se de uma certa conjunção de elementos, principalmente quando se quer abrir um grande portal.'

'Era isso que queriam?' Yue perguntou.

'Não; na verdade, queríamos apenas abrir uma brecha que não fosse aleatória, porém não tínhamos conhecimentos do todo. O que tínhamos era uma chave e o que achamos ser o manual para usá-la. Agora, as consequências não eram conhecidas. Bem, no momento exato...'

'Que momento exato?' Perguntou Kerberus, não queria deixar mais nenhum fio solto do passado de Reed Clow.

A Senhora Mizuki explicou. 'Durante um eclipse solar. Quando há um eclipse solar, a Terra, Lua e Sol estão alinhados, o que cria um momento de poder único e extremamente peculiar.'

'Isso mesmo'. Eriol confirmou. 'Traçamos o mapa solar e vimos quando ocorreria o próximo eclipse e, no dia marcado, estávamos prontos para abrir a brecha.'

Eriol parou mais uma vez, o clima de ansiedade era palpável na sala. Tomoyo olhava fixamente para Eriol com as mãos apertadas no peito. Touya balançava um dos pés. Kerberus ricocheteava sua calda, enquanto Yue apenas olhava fixamente para a reencarnação de seu antigo mestre. Syaoran sentiu Sakura apertar mais forte sua mão.

'Invocamos o poder da chave e o portal se abriu.' Eriol concluiu.

'E como era?' Yue perguntou.

'O inferno. As dimensões se confundiram. O mundo das Trevas começou a se entrelaçar com o mundo real. Aos poucos, os flashes daquele lugar, com seu céu vermelho em fogo e seu solo seco, ficavam cada vez mais visíveis aos olhos...'

Syaoran franziu a testa, a descrição era muito parecida com o sonho que tivera antes de voltar do coma. Não gostou de constatar isso. Lembrava-se claramente do que tinha acontecido com sua namorada. Ele soltou a mão de Sakura e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para ficar próxima de si. Beijou a cabeça adorada, inalando o perfume entorpecente da jovem. Nunca permitiria que acontecesse aquilo com quem mais amava no mundo.

Touya reparou no semblante mais carregado do namorado da irmã. Ele estava incomodado com a descrição do inferno. Viu o carinho com que o rapaz depositou o beijo na cabeça de Sakura. Estava numa atitude própria de proteção. Franziu a testa. Podia não ter mais poderes, mas seu sexto sentido o informava que as coisas não terminariam bem.

'Os flashes ficaram cada vez mais constantes e os demônios estavam cada vez mais reais. Foi quando eu resolvi que aquilo não podia continuar e parei.'

Houve um silêncio pesado na sala.

Kerberus chicoteava com mais força seu rabo. 'Pa... parou?'

'Sim, disse a Shyrai que não continuaria mais. Ele se revoltou comigo, disse que eu era um covarde e continuou com a cerimônia. Tentei fazer com que desistisse da ideia, mas ele já estava tomado pela sede de vingança e queria encontrar os demônios que mataram sua família. Queria se tornar mais poderoso que eles, sem se importar com nada mais.'

'E o que fez?' Novamente o felino perguntou.

'Tomei a chave das mãos dele e fiz com que parasse, porém ele teve tempo suficiente para atravessar a barreira e ir para o mundo das Trevas. Entrei em desespero e tentei tirá-lo de lá, mas ele se recusou. Apenas o vi caminhando em direção ao céu de fogo sem voltar-se para trás. Tive que usar toda minha magia tentando fechar a brecha que abri. Graças aos céus o eclipse passou antes que terminássemos completamente a cerimônia e o portal foi fechado...' Narrou mal conseguindo respirar. Deu um longo suspiro, ainda tinha mais. 'Mas, infelizmente, alguns demônios ficaram presos neste universo.'

'Mas como?' A pergunta foi feita por Kerberus, mas era o que todos queriam saber.

'Por algumas frações de segundos os dois universos se confundiram e foi o suficiente para que alguns seres das trevas passassem pela barreira.'

'E quanto a Muy Shyrai?' Yue finalmente perguntou.

'Ficou no mundo das Trevas. Nunca mais tive notícias dele até seis meses atrás.' Eriol esclareceu.

'E estes demônios, o que aconteceu com eles?' Sakura perguntou.

Eriol tomou mais um gole do chá e encarou sua sucessora. 'Esta foi a parte mais difícil. Tive que caçá-los um a um, mas não podia destruí-los, por isso os prendi em...' Eriol hesitou sem desviar os olhos da jovem ruiva.

'Cartas.' Yue completou.

'Isso.' O mago confirmou.

'Cartas...' Sakura balbuciou, finalmente caindo a ficha. 'As cartas Clow?'

Eriol balançou a cabeça confirmando.

Sakura engoliu seco. Levantou-se e encarou o rapaz com raiva. 'Está mentindo, como as cartas podem ser demônios das trevas? Isso é impossível.'

Li observava as reações da jovem. Ele já tinha uma noção de que as cartas eram seres das trevas, mas nunca havia ousado falar isso para a namorada. A origem das cartas Clow era uma verdadeira incógnita no mundo da magia e, por causa disto, várias especulações foram feitas sobre elas. A mais plausível era justamente a que Eriol acabara de contar.

'Como acha que as cartas podem ter tantas personalidades próprias?'

'Você criou Yue e Kerberus. Não seria difícil criar as cartas.'

'Criei os dois quando já estava completamente desenvolvido em meus poderes e, justamente, porque precisava que as cartas não mais se libertassem em suas formas verdadeiras. Lembra-se de como criaram confusão quando estavam soltas?'

'Sim... mas...' Ela mostrava-se confusa. Era difícil acreditar que suas queridas, suas tão amadas cartas eram seres das trevas. Não poderia ser verdade isso.

'Mesmo que as cartas inicialmente fossem terríveis eu uni minha magia com elas, resultando nas cartas Clow que conheceu. As cartas Sakura não são mais apenas seres das trevas, são seres associados com a minha magia e, principalmente, renascidos com a sua.'

'Não pode ser...' Ela ainda se mantinha reticente.

'Lembra-se das palavras que dizia para libertar o báculo que controlava as cartas?'

'Claro. Chave que guarda o poder das tre... ah, não?' Ela interrompeu colocando as mãos na boca. Era verdade.

'Isso mesmo.'

'Então meu poder é das trevas?'

'Não, seu poder é da sua estrela. Você acabou renascendo as cartas e tenho certeza de que elas são muito felizes graças a você.' Concluiu sorrindo de forma doce para a jovem. Ela era uma feiticeira poderosíssima. Tinha feito a escolha certa ao deixar as cartas aos seus cuidados.

'E a chave?' Yue lembrou-se do artefato que Shyrai tinha encontrado e que era uma verdadeira ameaça agora.

'Como a chave pertencia a dois deuses, um feminino e outro masculino, encontrei uma maneira de dividi-la. A chave de referência à Deusa Eje ficou para controlar as cartas e a chave de referência ao Deus Tengri ficou comigo. Acreditei que assim ficaria mais seguro, pois a chave só poderia ser acionada com a união das duas partes.'

'Então, a chave de Sakura era a chave que liga ao mundo das trevas?' Yue concluiu.

Eriol negou com a cabeça. 'A chave é uma artefato para abrir portais, seja entre universos paralelos ou para o mundo das trevas. Isso depende de como ela é acionada. Como um artefato poderoso e que ocasionou a entrada dos demônios para este universo, ela tinha poder o suficiente para lacrar estes em cartas e depois controlá-los. Por isso, ela se transformava em báculo quando combinada à magia do Feiticeiro. O primeiro báculo foi criado com a magia de Clow e o segundo báculo com a magia de Sakura.'

'Mas onde está a minha chave? Eu acabei perdendo-a e confesso que nem tive cabeça para procurar.'

'Este é o nosso problema, Sakura, você não perdeu sua chave.'

Foi a vez de Syaoran levantar-se, apesar dos protestos de Sakura. 'O covarde a atacou para tirá-la.'

'E virá atrás da minha para, finalmente, conseguir o que pretende.'

'Ligar este universo com o mundo das trevas.' Yue concluiu

Eriol levantou-se, parando a frente dos dois jovens. 'Pior, ele pode ligar todos os universos ao mundo das trevas e entre eles, criando um verdadeiro caos.'

Touya percebeu que a coisa realmente estava complicada. 'Esta chave tem tanto poder para isso?' Custava ainda a acreditar.

Eriol voltou-se para ele. 'Temo que sim. Muy Shyrai está muito mais poderoso do que eu poderia pensar. Ele ficou séculos no mundo das trevas, sobreviveu e teve poder suficiente para, sozinho, atravessar a barreira entre universos e criar pequenas brechas fazendo com que demônios inferiores passassem.'

'Ele deve ter pensado que conseguiria sozinho, mas, como não conseguiu apenas com seu poder, precisa da chave para concretizar seus planos.' Kaho resolveu ajudar o marido. Ela já conhecia esta parte da história.

Senhora Mizuki parou ao lado da filha. 'Vários teólogos e estudiosos previram este acontecimento e grandes sacerdotes e magos se juntaram para encontrar uma maneira de impedi-lo. O Pilar da Vida existe desde o princípio dos tempos e era, reconhecidamente, uma das forças mais poderosas da Terra. O Círculo da época convenceu os detentores desse poder a cedê-lo para que Clow preparasse seu sucessor e impedisse, assim, o Caos.'

'Esta energia é parte da sua magia, Sakura. Você tem o Pilar da vida dentro de você.' Kaho falou fitando a jovem que franziu a testa, mostrando que ainda estava incrédula com aquela conversa. 'Só esta energia seria capaz de deter o Caos.'

Sakura desviou os olhos das senhoras e encarou o amigo. 'Então foi por isso, para impedir o Caos, que me escolheu para ser a mestra das cartas?'

'Também.' Ele respondeu com sinceridade. 'Imaginei que, de alguma maneira, você precisaria se proteger e as cartas seriam um bom escudo. Além disso, as cartas a ajudariam a se desenvolver na magia. A carta Vento foi colocada à frente, justamente, para espalhar as outras. Você precisaria capturá-las e desenvolveria sua magia de forma gradual.'

'Foi uma armadilha?' Sakura perguntou incrédula e viu o amigo responder que sim com um gesto.

'Na magia, tudo deve seguir uma evolução. Você precisava evoluir e a captura das cartas era importante para que estivesse preparada para o Juízo Final, quando recebeu o poder do Pilar.' Ele explicou. 'No entanto, apenas as cartas não seriam suficientes para mantê-la segura. O Pilar da Vida sempre é acompanhado de um guardião que o protege. Descobri que o próximo guardião nasceria da família Li. Era um Clã importante, formado por guerreiros e magos poderosíssimos. Eu sabia que, de uma linhagem como a deles, sairia o melhor guardião possível, mas, para garantir que não seriam cometidos erros, juntei-me a eles. Casei-me com uma bela maga e fui muito feliz com ela. Mais importante que isso, no entanto, foi que ela me deu descendentes dotados de poderosa magia e com um forte espírito guerreiro.' Eriol encarou Li seriamente. 'E hoje olho com satisfação para o melhor deles.'

Syaoran não gostou da colocação, não se sentia o melhor, sentia-se simplesmente a bola da vez.

Sakura e Syaoran se encararam. Estavam incomodados por terem suas vidas resumidas àquilo que acabaram de lhes contar. Então todo o sentimento que tinham um pelo outro era previsto por um plano de Clow para consertar a merda que ele tinha feito?

Sakura sentiu o peito arder. Não! Syaoran não a amava por causa disto... Ele a amava de verdade. Eles se amavam e pronto. Não era por ela ser um estúpido pilar-de-não-sei-o-quê e ele, seu guardião. Não! Eles se amavam como homem e mulher.

Tanto ou mais confuso que Sakura estava Li. O guerreiro chinês se afastou do grupo sentindo os ferimentos arderem, mas não eram eles que o estavam incomodando. Sua mão, involuntariamente, foi até a altura do coração. Seria possível que Sakura, no fundo, não o amasse? Ela estava perdida nos próprios sentimentos quando ele se declarou quando eram crianças. Ela custou para se declarar. Custou para entender o que estava acontecendo com ela. Lembrou-se, com pesar, do rosto de Sakura com onze anos chorando depois de flagrar sua versão mais velha com ele. Será que no fundo, Sakura só sentia um imenso carinho por ele? Carinho e tesão, talvez, depois de mais velha... Mas não amor?

'No final tudo estava previsto.' Tomoyo concluiu, quebrando o incômodo silêncio da sala.

'Nem tanto.' Eriol comentou, sorrindo de forma doce. 'Confesso que não imaginei que o pilar e o guardião ficariam tão unidos.'

'Tem certeza disso? Ou talvez isso tenha sido planejado também?' Syaoran falou com a voz ácida. Sakura sentiu as palavras do namorado.

Eriol o encarou e percebeu os olhos agitados de Li. 'Acredite no que digo: fiz de tudo para que Sakura amasse a forma falsa de Yue, pois assim eu saberia com certeza que ela estaria segura. Eu não tinha certeza de que você seria o guardião.'

Touya olhou para Yue. 'Você sabia disso?' Perguntou sussurrando.

'Sim, eu sabia que meu dever era amar minha mestra, mas...' Ele não continuou, olhou para Sakura e Li que estavam de costas para eles. Ele amava sua mestra e daria sua vida por ela, mas com certeza também daria sua vida por uma outra pessoa.

Sakura parou a frente de Eriol e o rapaz se assustou ao reparar nas duas labaredas esverdeadas que pareciam seus olhos. O corpo da jovem tremia. 'Você está me dizendo que manipulou tanto assim a minha vida a ponto de tentar fazer eu me apaixonar por uma pessoa, só para que ela me protegesse? Você se acha tão poderoso assim, Eriol?!' Ela falou perigosamente baixo.

'Sakura... entenda... eu precisava ter certeza que você estaria tão segura quanto evoluída para enfrentar o que vem agora.'

Ela se controlava para não socar o amigo. 'Você!' Ela gritou apontando o dedo para Eriol. 'Você sempre se meteu na minha vida. Você bagunçou os meus sentimentos, fazendo eu ficar atraída por ele!' Ela apontou para Yue. 'Você tem ideia de como eu fiquei perdida naquela época? Eu estava tão confusa que não conseguia entender o que se passava no meu próprio coração. Eu não conseguia entender o que era aquele sentimento. Eu quase me desesperei sem conseguir entender o que estava se passando dentro de mim.' Ela fez uma pausa respirando fundo e tentando inutilmente se controlar. Sentia todas as células do seu corpo explodindo de revolta. 'Você armou para eu encontrar as cartas, você me fez passar perigo quando eu tinha 10 anos de idade! Você... sempre você!' Ela estava tremendo de raiva.

Touya observava a explosão da irmã, ela tinha razão. Deveria ser muito difícil saber que sua vida inteira tinha sido manipulada por outra pessoa.

Eriol tentou desviar os olhos dela. 'Eu sinto muito...'

'Você não sente! Você me vê como um objeto ao qual manipula. Eu não sou um objeto, Eriol!' Ela gritou.

Tomoyo se aproximou da amiga e encarou Syaoran que, assim como todos, observava a explosão da mestra das cartas. Ele não fazia nada porque não podia negar que tinha o mesmo gosto ruim que a jovem na boca. A morena tentou pedir calma a ela, mas a amiga a ignorou.

'E depois de tudo! Depois de tudo que eu sofri, quando eu finalmente descobri que o que eu sentia era amor, era verdadeiramente amor e não um sentimento manipulado por você, o que acontece?' Ela forçou uma risada debochada e ácida, mostrando toda a amargura que sentia. 'O garoto que eu amo vai para um treinamento maluco e desaparece da minha vida para vir depois me proteger por que eu possuo uma estúpida energia que você... ora, ora... sempre você, colocou na minha vida!' A energia dela aumentava de forma extraordinária, fazendo o ar parado do recinto começar a circular de forma cada vez mais rápida. Ela ainda não tinha falado tudo que queria, continuou: 'E você fez com que o clã dele o obrigasse a fazer aquela droga de treinamento para ele estar preparado para o que viria agora?' Ela mal conseguia controlar a raiva, empurrava Eriol, espetando o dedo no peito dele, que dava alguns passos para trás. Kaho e Tomoyo pediam para ela se acalmar em vão. 'E agora você me conta esta história toda da merda que você fez e tem a cara de pau de insinuar que o homem que eu amo gosta de mim porque precisa me proteger?' Ela fechou os olhos com raiva, sem se importar com a energia que girava em torno dela em grande velocidade, assustando a todos na sala. 'Syaoran me ama!' Ela explodiu. 'Está me ouvindo?!'

'Sakura! Calma!' Touya falou caminhando até a irmã quando percebeu que a mesma começava a perder o controle.

Ela não o ouviu. Ela não conseguia ouvir ninguém. A vontade que tinha era de simplesmente socar Eriol.

A reencarnação de Clow olhou verdadeiramente assustado para a jovem, ele não imaginava que a magia dela tivesse evoluído tanto assim. As cartas estavam circulando ao redor de sua mestra e Eriol, impedindo que os outros se aproximassem. Kaho e os guardiões de Eriol começavam a temer pela integridade física do rapaz.

'E eu amo Syaoran!' Continuou gritando. '...e você não tem nada a ver com isso!' A energia dela explodiu. Tempo parou, todos estavam estáticos. Sakura sentiu finalmente as lágrimas rolando pelo rosto. Estava ofegante, mal conseguindo oxigênio para seus pulmões.

Gritou pela frustração de sentir que tinha sido manipulada a vida inteira por outra pessoa. Olhou para Eriol que estava com o rosto em pânico, parado, estático. Kaho estava mais ao lado, também parada. Seu irmão tinha se aproximado para tentar acalmá-la em vão. O rosto dele era de imensa preocupação por ela. Ainda chorando, deu a volta em torno de si e viu todos parados. Os potes de poções da senhora Mizuki estavam prestes a cair pela forte rajada de vento, no entanto estavam parados no ar. Não sabia o que estava acontecendo, mas sentia uma dor imensa dentro do peito e, finalmente, encontrou o que procurava: os olhos de Syaoran.

'Você ativou Tempo sem o báculo.' Ele explicou para ela. Ele era o único que não estava estático. 'Está muito forte.' Sorriu de forma triste. 'E ele ainda acha que você precisa de proteção.'

Sakura caminhou até ele desviando de todas as estátuas. Parou a frente do rapaz sem conseguir controlar as lágrimas.

Ele estendeu o braço e tentou secá-las com o polegar, não gostava de vê-la chorando. 'Não chore.' Pediu gentilmente.

'Eu te amo...' Ela falou e viu que ele desviou os olhos dela. Ela pegou o rosto do rapaz e segurou-o entre suas mãos, forçando-o a olhar para ela. 'Eu te amo.' Repetiu devagar. 'Não duvide disto, por favor.'

'Não duvido.' Ele respondeu, fazendo-a finalmente conseguir sorrir de leve. Eles se aproximaram e ela beijou seu amado passando para ele todo o desejo e amor que sentia, agarrou as roupas dele, como se, fazendo isso, fosse capaz de impedi-lo de se afastar dela. Syaoran a abraçou, retribuindo o beijo de forma apaixonada.

'Vamos sair daqui... quero apenas você comigo.' Ela sussurrou ao ouvido dele. Sentiu que ele concordava com a cabeça. Queria também ficar longe de todos. Queria apenas estar com sua Sakura.

Finalmente o tempo voltou ao normal. Os potes caíram no chão assim como vários outros objetos se espatifaram no piso. Tomoyo gritou assustada. Eriol olhava assustado para o nada, pois Sakura tinha desaparecido de sua frente.

'O que aconteceu?' Ele perguntou atordoado.

'Sakura?' Touya começou a chamar pela irmã que tinha desaparecido naquela confusão toda. 'Onde está Sakura?'

'Ela e Syaoran saíram.' Eriol respondeu tirando o óculos do rosto e apertando os olhos. 'Eles precisam de um tempo para eles agora.'

'Ela só está magoada, Eriol. Por isso falou aquilo tudo.' Kaho falou para o marido segurando o braço dele e o fitando com carinho.

'Mas ela está certa, Kaho.' Ele falou com pesar, afastando-se da mulher e de todos. 'Ela está completamente certa.'

Yue parou a frente dele. 'Acredita que Shyrai irá atacá-lo? Ele ainda precisa da sua chave para concluir os planos.'

Ah, sim... tinha Muy Shiray. Eriol pensou no inimigo. Estava se sentindo tão mal depois da explosão de Sakura que, verdade seja dita, estava com vontade de sumir num buraco. Ele tinha feito tudo pensando no melhor para a humanidade, mas nunca parando para pensar na jovem. 'Acho que está até demorando muito.' Respondeu à pergunta de Yue.

'Talvez ele esteja mais ferido do que imaginamos.' Ruby Moon falou.

Eriol ponderou que talvez, realmente o golpe de Li e Kerberus tivesse causado ferimentos tanto físicos quanto psicológicos no arrogante ex-amigo, mas tinha noção do poder dele. 'Não, eu sei que não. Ele deve estar planejando a melhor hora.'

'Precisamos proteger você.' Yue falou. O anjo não pôde ver o rosto decepcionado de Touya ao sentir a preocupação na voz do guardião.

'Eu, sinceramente...' Eriol começou a falar. '... nem sei mais se isso é o certo.' Falou, desviando-se de Yue e dirigindo-se para o segundo andar da residência.

'Pois eu lhe digo, meu caro amigo Clow.' Eriol arregalou os olhos, reconhecendo a voz de Shyrai. 'Que a única coisa certa a fazer agora é me entregar a outra parte da chave.' A forma do homem se formou no meio da sala assustando a todos.


Sakura passou seus dedos entre os fios do cabelo de Syaoran. O rapaz estava deitado, com a cabeça encostada em seu peito e a abraçava pela cintura. Estavam embaixo de uma árvore no parque do rei Pinguim. Ela estava com as costas apoiadas no tronco da árvore, semi adormecida também. A respiração dele era tranquila e ela não podia negar que sentia um enorme prazer em apenas estar ali com ele em seus braços. Passou a mão pelas costas dele num leve carinho e beijou a cabeça do ser tão amado.

O rapaz abriu os olhos, sentindo as energias se chocarem ao longe. 'Acho que o amigo de Clow resolveu dar as caras.' Falou sem se mexer de onde estava.

Sakura também conseguia sentir as magias se chocando. 'Parece que sim.' Falou suspirando. 'Mas acho que devemos deixar Eriol tentar resolver isso sozinho desta vez.'

'Não sei se é o certo.' Syaoran tentou levantar, mas Sakura o abraçou impedindo-o.

'Não existe certo ou errado, Syaoran.' Ela falou e deu um longo suspiro. 'E mesmo que existisse um conceito disso, seria de forma relativa.'

'Acho que tem razão.' Ele falou voltando a fechar os olhos e abraçar firme a cintura da namorada. Suspirou. 'Foi decisão minha...'

'Do que está falando?'

'O treinamento... foi decisão minha fazê-lo.' Ele esclareceu.

Sakura deu um longo suspiro. 'Tem certeza? Você nunca me contou esta história direito.'

Ela sentiu que ele tremeu. 'Não vale a pena contar. Mas saiba que foi decisão minha. Tinha que fazê-lo. Precisava estar forte.'

'Você sabia sobre esta loucura toda que está acontecendo agora?'

'Tinha uma ideia. Como falei, fui obrigado a estudar magia. Isto fazia parte também.'

'Então você sabia...'

'Os papéis que Clow nos deu?' Ele a interrompeu. Ergueu-se e a encarou ainda sentado no chão. Balançou a cabeça de leve. 'Não. Os textos a que tive acesso eram sempre fragmentados e eu achava as previsões de Clow inconclusivas e exageradas demais.'

Ela suspirou e desviou os olhos dele. 'Acho que todo mundo já sabia que a gente se apaixonaria, não é? Só eu que demorei para entender as coisas. Talvez você tenha razão... acho que eu sempre foi muito tola.' Falou de forma triste.

'Quando você pequena nos flagrou no templo, ficou muito assustada.' Ele falou sem olhar para ela.

Sakura sentiu que a voz dele estava chateada. 'Eu estava confusa.' Ela respondeu olhando para os joelhos. 'Não conseguia entender o que sentia por você porque era diferente do que sentia por Yukito.' Ela sorriu de leve. 'Tinha aquele sentimento por ele como referência de amor…' fez uma pequena pausa. 'Mas era na verdade manipulação de Clow.'

'Deve ter sido difícil tentar se achar com tanta magia tentando influenciá-la.' Ele falou e olhou para onde os clarões estavam surgindo.

'Não foi fácil tentar entender o que se passava.' Ela também fitou os clarões de energia ao horizonte. 'Lembro-me que chorei várias vezes tentando entender. Eriol, ou Clow, não tinha o direito de me confundir daquela maneira.'

'Você era uma menina.' Ele concordou.

'Não tinha o nível de magia que tenho hoje. Fui presa fácil.' Falou trincando os dentes de leve.

Voltaram a ficar em silêncio. Sakura voltou-se para o namorado que observava o céu. Sorriu pensando que, se ele não tivesse se declarado a ela, talvez ela nunca pudesse entender o que se passava no seu coração. Syaoran sempre fora corajoso. Em todos os aspectos.

'Quando descobriu que gostava de mim?' Ela perguntou.

'Acho que foi pouco antes da exposição dos ursinhos de pelúcia.' Ele disse pensativo. 'E aí, quando você caiu no fosso do elevador, pensei que eu te perderia.' Respondeu.

'Foi a primeira vez que você me chamou de Sakura.' Ela se lembrou.

Ele franziu a testa, voltando-se para ela. 'Foi?' Não se lembrava deste detalhe. 'Ah, sim... verdade. Depois você me ligou pedindo para nos chamarmos pelo nome.' Comentou sorrindo de leve e observando a jovem ficar levemente corada.

'Gostei de ouvir você pronunciando o meu nome.' Ela tinha o rosto corado ainda.

Voltaram a ver as explosões que estavam ao longe. Se não soubessem que era uma luta terrível a ser travada ali, poderiam até pensar que fosse algo como uma aurora boreal em Tomoeda.

'E você?' Ele perguntou sem encará-la, Sakura virou-se para ele e observou o perfil do namorado. 'Quando descobriu que gostava de mim?'

'Eu sempre gostei de você.' Ela retrucou e ele a encarou com o semblante interrogativo. Ela sorriu. 'Eu me dei conta, finalmente, que o amava quando me falaram que você ia embora de Tomoeda. E eu não queria isso. Não admitiria não ter mais sua companhia, Syaoran.'

Ele sorriu de leve. 'Eu não fui muito legal no começo, não é?'

Ela riu lembrando-se das brigas iniciais deles. 'Não foi mesmo.' Ela se aproximou dele beijando de leve perto de sua orelha, o rapaz fechou os olhos curtindo o carinho. 'E olha só onde estamos agora, não é?'

Ele se virou e a derrubou no chão ficando por cima dela e alcançando os lábios rosados para beijar. A mão dele desceu até a cintura da jovem e empurrou a blusa dela para tocar a pele macia por baixo da roupa. Sakura beijou o queixo do rapaz e alcançou o ouvido. 'Você acabou de sair de um coma, Syaoran. Não ouviu o enfermeiro falar para sermos comedidos?' Ela tocou no ferimento do braço do rapaz e o sentiu tremer. 'A gente vai ter muitas outras oportunidades para fazer isso...'

Syaoran respirou fundo e encostou a testa no ombro dela, respirando fundo antes de se levantar. Realmente sentiu os ferimentos, talvez o enfermeiro Taniguchi estivesse certo, ele era um tarado. Riu com gosto por pensar desta maneira. 'Você me tira do sério.' Ele falou sorrindo balançando a cabeça de leve.

Ela sorriu. 'Então a menina tola agora te tira do sério.' Falou ao ouvido dele de forma manhosa, abraçando-o de leve pelas costas.

'Na verdade... você sempre me tirou do sério.' Respondeu, pensando que antes era porque achava que ela não era forte o suficiente para capturar as cartas Clow e achava erroneamente que ela era fraca, depois... bem depois por que ele simplesmente não conseguia mais tirar a menina de olhos de esmeralda da cabeça.

'Você também me tira do prumo.' Ela falou, mas depois pensou por um instante. 'Na verdade, você é o meu prumo. Era você quem sempre me contava a melhor maneira de capturar uma carta. E agora... depois de saber disso tudo por Eriol, eu vejo que, se não fosse o amor que eu sinto por você, provavelmente a armadilha de Clow teria funcionado e eu estaria com Yukito'. Ela observou Syaoran menear a cabeça. 'Eu não seria feliz verdadeiramente.' Ela encostou o queixo no ombro são do rapaz ainda abraçando-o. Fechou os olhos sentindo seu perfume e ouvindo sua respiração.

'Acho que baguncei um pouco os planos de Eriol, não foi?' Não pôde deixar de sentir um leve orgulho disto.

'Acho que sim.' Ela respondeu. 'Você é um menino muito mau.' Brincou novamente.

'Você está a me testar...' Falou, fechando os olhos enquanto a sentia beijá-lo de leve.

Ouviram mais uma forte explosão e abriram os olhos, observando as magias.

'Queria ficar assim para sempre.' Sakura falou com o rosto sério.

'Eu também.' Li respondeu.

'Não consigo mais viver sem você.' Ela fez uma pausa. 'Não se separe mais de mim, por favor.'

'Não farei mais isso.'


'Chave que guarda o poder das Trevas, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e os ofereça ao valente Eriol que aceitou esta missão. Liberte-se!' Eriol invocou seu poder encarando Shyrai. A última pessoa que gostaria de encarar agora era o ex-amigo.

Shyrai caminhou entre o grupo, Spinel Sun e Kerberus avançaram sobre ele, mas, com um só movimento do braço direito, empurrou os dois guardiões solares para longe. Tomoyo se encolheu num canto, com medo, vendo a destruição em que estava a casa. Touya, num momento de extrema insanidade, ultrapassou Yue que estava a sua frente protegendo-o e encarou o mago.

'Quem pensa que é para encostar um dedo na minha irmã?' Gritou já tentando socar o homem que nem se mexeu, mas o forçou a dar um passo para trás, sentindo o punho quebrado. O homem sorriu de lado e franziu a testa balbuciando uma oração. Touya caiu no chão se contorcendo de dor e gritando. Yue tentou novamente junto com Ruby Moon atacar o inimigo, mas não tiveram o destino muito diferente dos guardiões solares.

'Mas que droga é esta?' Yue perguntou tentando se levantar, desesperado com os gritos de Touya.

'Uma pequena maldição dos bruxos das trevas, é muito antiga, mas funciona muito bem nos mortais.' Shyrai falou sorrindo.

A senhora Mizuki chegou perto de Touya pronunciando uma oração. Shyrai observou-a com curiosidade. 'Acha mesmo que poderá cortar a minha maldição? Não seja ridícula.' Novamente fez alguns gestos com o braço direito fazendo com que todos fossem jogados contra os móveis da casa. Eriol invocou seu escudo tentando proteger seus amigos.

Shyrai riu com gosto do desespero nos olhos de Clow. 'Vocês todos irão morrer de qualquer maneira, quero apenas usá-los para arrancar a chave de Clow. Por isso tratem de gritar para chamar a atenção dele.'

Shyrai olhou com fúria para Touya que estava no chão, o rapaz começou a gritar de dor.

'Pare com isso!' Gritou Yue, correndo até o rapaz que se debatia no chão.

'Clow ainda não ouviu seus gritos rapaz, acho que está precisando de mais um incentivo.'

Agora era a vez de Kaho cair no chão, gritando e se contorcendo. A senhora Mizuki tentava inutilmente segurar a filha pedindo calma quase que desesperadamente.

Eriol caminhou a frente de todos e encarou o homem. 'Acho que agora é entre mim e você. Você não quer tirar a chave de mim? Então pare de usar os outros e tente pegá-la.'

Shyrai franziu a testa, observando o semblante do mago. 'Você tem razão...' Touya e Kaho pararam de gritar. Yue e a senhora Mizuki foram ao socorro dos dois. O homem caminhou até Eriol sem desviar os olhos dele. 'Ouvi seu pequeno diálogo com sua sucessora... você nunca foi muito bom em pensar nos outros, não é?'

'Tudo isso foi por sua culpa e sua vontade de se vingar de algo em que acabou se tornando.'

Shyrai riu de forma debochada. 'Tem que colocar a culpa em alguém, não é?'

'Não estou retirando a minha parcela de culpa.'

'Sabe... gostei muito da sua sucessora. Ela seria uma excelente aprendiz. Tem muita garra.'

'Deixe Sakura fora disso.'

Shyrai sorriu de forma maldosa. 'Ela tem um poder impressionante para um corpo tão frágil. O rapaz também é muito bom... fico lisonjeado em saber que criou os dois para me combater.'

Eriol trincou os dentes. 'Eles não foram criados. São humanos.'

'Melhor... sendo assim são bem mais fáceis de serem corrompidos, não é verdade?'

Eriol deu um passo a frente, a mandala se formou aos seus pés. 'O que você pretende fazer?'

'Oras... então o velho Clow ainda tem alguma fagulha de moral dentro de si. Que tocante.' Shyrai comentou. 'Vamos para um lugar mais adequado aos nossos poderes, caro amigo.' Terminou de falar e se transformou em uma fonte de energia, que ainda destruiu parte da casa da senhora Mizuki antes de sair e esperar Eriol no templo Tsukimine. Eriol levantou seu báculo e cortou o ar transformando-se também em luz e indo atrás do inimigo.

O templo estava deserto quando as duas fontes de energia se chocaram com toda força, fazendo fagulhas mágicas espalharem-se por todos os lados, destruindo parte do templo religioso e derrubando algumas árvores. Por fim, Eriol cai,u sendo obrigado a cravar seu cetro no chão para não bater mais em alguma coisa. Sua respiração estava ofegante, estava cansado. Como concluíra desde o último encontro dos dois, o ex-amigo estava infinitamente mais forte.

Os guardiões solares e lunares pararam a frente do mago. Uma luz negra pairou a frente deles e logo Shyrai apareceu com os braços erguidos enquanto a energia mágica fluía de uma mão a outra do feiticeiro das trevas. 'Acham que podem me deter? Venham... os quatro!'

Yue e Ruby Moon deram um passo a frente formando em suas mãos arcos de pura luz mágica e desferindo no feiticeiro inúmeras flechas mortais que foram rapidamente diluídas por Shyrai.

'Impossível!' Ruby Moon exclamou surpresa.

Kerberus parou ao lado dela. 'Vamos os quatro, juntos!'

Ele e Spinel Sun levantaram voo parando atrás de Shyrai, tentariam atacá-lo em quatro diferentes direções. 'Agora! Bola de Fogo!' Ele gritou, atirando uma enorme rajada de fogo na direção do Mago, enquanto Spinel Sun fazia o mesmo. Yue e Ruby Moon concentraram suas energias nas mãos e canalizaram contra o inimigo que foi atingido em cheio. Uma enorme explosão foi ouvida. Tomoyo e Kaho, já recuperadas, correram para o templo para tentar ajudar seus amigos. Touya ficou aos cuidados da senhora Mizuki, tinha sido o mais afetado pelo poder de Shyrai.

Os guardiões mágicos sentiram, apenas por alguns segundos, a vitória antes que a energia deles fosse repelida, jogando-os para trás e batendo nas árvores.

'Oh, meu Deus!' A morena falou com a mão na boca, vendo a enorme destruição que se sucedia no templo. Kaho levantou o braço e cortou o ar, um enorme sino mágico com o símbolo lunar apareceu em suas mãos. Estava na hora dela tentar ajudar. O sino tocou alto. A magia do templo começou a ser despertada por sua guardiã. Cada árvore começou a brilhar de forma particular.

Shyrai ainda envolto no redemoinho de magia olhava intrigado para o que estava sendo desperto. 'Mulher tola.' Soltou, pensando que estava na hora deles entenderem o que é o verdadeiro poder das trevas.

A magia de cada parte do templo começou a se concentrar conforme Kaho tocava o sino mágico, logo a magia estava rodando em torno do inimigo tentando aprisioná-lo.

'Eriol!' Ela gritou, alertando que não poderia segurá-lo por muito tempo.

Eriol ergueu o corpo que ainda doía pelo confronto com Shyrai, deu um passo a frente e fechou os olhos erguendo o cetro. A mandala se formou novamente aos seus pés.

'Poderes das quatro direções do Planeta, Norte, Sul, Leste e Oeste. Força da Terra, Espírito do Sagrado feminino da energia ígnea...' A terra aos pés de todos começou a tremer com as palavras do mago. 'Força do Ar, sopro da vida, espirro sagrado da energia aérea.' Rajadas de vento circulavam levantando as folhas das árvores pelos ares. 'Força do Fogo, dragão vermelho, chama sagrada do espírito. Força da água, sagrado poder da energia aquática. Eu invoco as forças ao meu auxílio!' Labaredas de fogo e jatos de água eram misturadas às rajadas de vento.

Shyrai sentiu o perigo, tentou dar um passo a frente, mas o poder do templo manteve-o preso, franziu a testa pensando que tinha subestimado Clow, assim como tinha subestimado a força do Guardião anteriormente. Começou a levantar seu poder de fogo para se proteger.

'Pelo poder do três vezes três, venham até mim! Libertem-se!' Eriol gritou fazendo com que toda a energia atingisse Shyrai. A explosão foi imensa, obrigando todos a fecharem os olhos para não se cegarem.

Hiiraguizawa caiu de joelhos esgotado. O cetro mágico transformou-se em chave e caiu no chão a frente do mago que tentava não desfalecer. Ele levantou o rosto e não acreditou no que viu. Shyrai estava em pé, tinha as mãos feridas pelo poderoso golpe, mas não tinha sido atingido de forma realmente fatal. Fechou os olhos, pensando que agora seria o seu fim. Seus guardiões ainda tentaram protegê-lo, mas foram todos empurrados longe pela magia raivosa de Muy Shyrai que estava enlouquecido por ter sido atingido e machucado.

'Vou matá-lo lentamente, Clow!' O homem gritou, materializando uma espada de fogo na mão direita. 'Vou esquartejar você para que sofra até morrer.'

O mago apenas virou o rosto e fitou o corpo desfalecido da esposa que estava sendo amparada por Tomoyo. Os olhos violetas estavam cheios de lágrimas mostrando todo o desespero da jovem. Ele engoliu seco, pensando, num acesso de loucura, como eram profundos os olhos de sua amiga de infância. Queria também poder pedir perdão para Sakura por tudo, mas agora não teria mais chance. Era seu fim.

Shyrai abaixou o braço a fim de dar o primeiro golpe no rapaz, quando sua espada bateu no metal mágico a sua frente. Arregalou os olhos não acreditando no que estava acontecendo. Por trás da arma, pôde ver olhos ambares determinados encarando-o. Syaoran empurrou o homem fazendo-o dar alguns passos para trás.

'Como... como bloqueou meu golpe, garoto?' Falou atordoado.

Syaoran passando a espada para a outra mão e segurando o cabo da arma com as duas mãos. 'Vamos dizer que já estou me acostumando a eles.' Respondeu se colocando em posição de luta.

'Eu pensei em atingi-lo pelas costas...' Shyrai voltou-se para trás e viu a figura da jovem ruiva, encarando-o com raiva. Aos pés dela, a imensa mandala se formava enquanto as luzes mágicas e as cartas circulavam seu corpo. 'Assim como fez comigo... mas aí seria muita covardia.'

Continua.


Notas da Autora:

Mais um capitulo desta história atualizada. O pessoal que compara sempre com a versão original deve ter percebido que a história ficou bem mais complexa do que antes. E é isso mesmo! Estamos complicando cada vez mais a vida da Sakura e do Syaoran! Somos meninas muito más!

Enfim… a reação da Sakura também foi digna ao meu ver de palmas, pq é tudo como eu acho que uma pessoa normal reagiria ao saber que foi manipulada de uma forma ou outra. Desculpem-me os seguidores do mago Clow, mas sabe como é… tudo no final É CULPA DE CLOW!

Outra coisa… obrigada pelos reviews e mensagens, estou respondendo todas, mas não consigo responder quando o review vem como "guest".

Beijos

Kath


Notas das Revisoras:

Rô:

Ok...Eu queria ir por partes, tipo início meio e fim, mas não dá...

Oh céus, raiva e palmas pelo desfecho... Terminou num clímax prá lá de bom... Pena que não vou conseguir revisar o 15 na sequência... Ok... Respira...

Capítulo imenso, mas se vocês foram como eu, leram numa tacada só, não sentiram o tempo passar e quando olharam no relógio gritaram: ESTOU ATRASADA!.. É, estou, mas eu preciso escrever as notas... E a Kath e a Bru estão me buzuzando no Messenger, com as coisas coisadas ainda, para me ajudar. Elas são más...

Eriol... Eu falei para as meninas, teria dado um socão na cara dele na parte das explicações, derrubaria ele no chão sem dó e quebraria o nariz ainda por cima, tipo, só para ele congelar naquela posição constrangedora... Ok... Eu gosto mais de bater que a Kath... Espera, congela aqui... Ok... Vocês não precisam entender...

Ainda na parte das explicações, aquele clímax esperando o trio chegar para começar o papo... Uia, senti que dava para cortar a tensão com uma faca...

Beijinhos, abraços e afagos enquanto todo mundo se contorcia de dor... Eriol mereceu... Mas pô Kath, Touya gato sofreu... Mal necessário, eu sei...

Show de capítulo, eu gostei muito, as explicações ficaram em cima, deu tudo certinho. Bom trabalho meninas.

15... Daqui a pouco eu tô aí.

Yoru: É… okay, Eriol não poderia ter escolhido hora pior para contar para Sakura que manipulou os sentimentos dela na infância. A Feiticeira praticamente acabou de voltar de um passeio ao passado em que precisou usar seus poderes nela mesma para que esquecesse o fato de ter se visto mais velha beijando o melhor amigo… porque ela mais nova estava tão confusa quanto aos próprios sentimentos que a revelação, assim de súbito, foi um tremendo choque e causou pânico na menina. Terrible, terrible timing, 'tou-san! Aliás, dou toda razão à Sakura por esbravejar daquele jeito. Nossa, explicações dadas e com tantos detalhes… Detalhes gente, prestem atenção aos detalhes… Quero ver quem conseguirá perceber a forma como as peças vão se encaixando daqui para frente. Se vocês acharem alguma coisa que não se encaixe, algum fio solto, não deixem de avisar. Agora a história realmente começa a ficar boa e encorpada…