Capítulo 14
-Não. Viajei com Julia que passou a a me tratar de uma forma estúpida, assim que chegamos na américa. Eu uma médica, passei a ser empregada, ou melhor escrava de Julia, trabalhando por casa e comida, sem salário.
- Aceitou isso, sem se rebelar?
- Rebelar como? Não tinha dinheiro, Julia estava com meus documentos e estava num país estranho, numa cultura desconhecida.
Ela terminou sua xicara de café e o capitão pensou que ela iria pedir outra. Colocou-se até numa posição, que lhe permitia, chamar a garçonete mais rápido. Mas Anna não pediu: aparentemente, estava satisfeita. Brass tornou a se arrumar na cadeira. Anna continuou sua narrativa.
- Anos depois casei com Albert Wu, contador dos Chen. Foi sair de um jugo e cair em outro – a voz da chinesa, tornou-se um pouco mais suave, ao falar do marido. – Foi um típico casamento chinês, onde a noiva, náo se manifesta e quase sempre nem conhece o noivo...
- E conseguiu ser feliz?
- Oh, não me entenda errado, detetive! Tive um casamento tranquilo: Albert era um homem honrado e muito bom, não posso me queixar. Mas meu marido, como todo homem chinês, era machista: nasci para ser médica e acabei virando uma dona de casa!
- Teve filhos, Anna?
- Não, não fomos abençoados com descendentes. Nunca soubemos de quem era o problema. Albert não quis saber, e nem fomos ao médico!
- Entendo!
- Vivemos bem, até Albert adoecer e gastar suas economias... Ele morreu mas me deixou a casa.
-Menos mal, que você ficou com alguma coisa! – Falou Brass, terminando seu café.
- Não por muito tempo... respondeu a infortunada mulher. – Eu estava atolada em dívidas e tive de vender a casa,por um valor bem abaixo do mercado...
- Que coisa!
- Pois é, rapidamente, me vi jogada na rua! Procurei Julia, nem sei porque. Os anos não lhe abrandaram o caráter, ao contrário:aumentaram seus defeitos. A velha sovina me contou, que quem receberia uma bolada era ela; estava chantageando Don e Elizabeth
- Mas ela também não estava envolvida? Não arrastaria seu nome junto?
A chinesa riu. Aquele homem tosco era ingênuo?
-Acontece que ela tinha planos de contar aos cônjuges, não à polícia. Eles tinham uniões bem sólidas..
- Porisso mesmo não entendo porque se preocupar...
- Mesmo, detetive? Com sua fraca cultura ocidental lhe roçando os calcanhares?
- Ora o amor pode apagar o passado...
- Acredita mesmo nisso? Apostaria tudo nisso? Uma linda flor, nascida no lodo ainda continuaria sendo bela, mas ninguém esqueceria que nasceu no lodo!
- Não estaria sendo muito cética,Sra. Wu?
- E o senhor muito ingênuo, Sr. Brass?
Nenhum dos dois respondeu e Brass jogou uns dólares na mesa. Fez menção de esticar-lhe uma nota de cinquenta. A chinesa, repeliu-lhe o gesto com firmeza:
- Não aceito esmolas! ´- Falou orgulhosa.
O capitão ficou consternado, pois queria realmente ajudar Anna Wu. Simpatizara de alguma forma com aquela mulher, ríspida e via-se que ela não vivia seus melhores dias.
- Suas informações foram valiosoas para destrinchar toda essa trama. Receba esse dinheiro, na qualidade de informante.- Disse-lhe Brass, com uma nota estendida em sua direção.
- Guarde seu dinheiro; não fiz nada para merecê-lo- respondeu altiva, a chinesa. – Desabafei o que trago entalado, há muito tempo! E o senhor ainda pagou-me café e rosquinhas. Considero-me bem paga!
- Sim, mas sua situação...
- Não é melhor, nem pior que de muitas criaturas! Engraçado, meu diploma, não é válido aqui: nem emprego como atendente, consegui. Nem emprego como empregada, arrumei. O seu país me acha muto velha, Sr. Brass!
- Então...- insistia o capitão com a nota estendida.
Anna pegou uma mão dele, com uma de suas mãos ossudas e pôs-lhe a nota, fechando a mão dele, com a sua outra mão.
- Eu me arranjo, detetive! Não tenho medo do trabalho. Há de aparecer alguma coisa pra mim! – Esboçou um quase imperceptível sorriso.
Brass então levantou-se, e acompanhado por Anna saiu na rua.
- Sabe, gostei que tenha terminado assim. Acho que se fez justiça! Mataram-se entre si; sem envolver mais ninguém nisso. Agora os três estão ardendo no inferno, por todas as vidas que prejudicaram!
- Acredita mesmo nisso, Anna?
- Tenho de acreditar! Não faz sentido, eles se sentirem tão bem, esses anos todos, sobre tanto infortúnio que provocaram.
Despediram-se, dando-se as mãos, à porta da lanchonete. Inesperadamente, Brass beijou as mãos ossudas da chinesa. Anna Wu, apreciou-lhe o gesto; foi como se lhe devolvesse a dignidade perdida.
Foi caminhando para o lado oposto do capitão. Andava tão rápido, que nem deu tempo, do capitão oferecer-lhe carona. Brass olhou aquela silhueta vermelha. diluir-se na rua, até sumir de vez.
