Capítulo Quatorze – Pensamentos proibidos
Pela janela penetrava a luz vacilante do sol poente, que refletia nas cabeças dos alunos – em sua maioria do quinto e sétimo anos – que enfiavam seus narizes em livros e mais livros. Harry abaixou seu exemplar de "A magia defensiva na prática e seu uso contra as Artes das Trevas" e suspirou, voltando por um abençoado instante seu olhar para os jardins da escola, vistos pela janela da biblioteca. Era possível enxergar, ao longe, o campo de quadribol. Ele daria tudo para estar lá, voando com sua Firebolt...
No entanto, estava ali, atolado naquela biblioteca entediante, e um resmungo desagradável ao seu lado o acordou de seus devaneios ensolarados.
Harry desviou seu olhar da janela, mas um segundo depois desejou não ter feito isso; era Katherine que resmungava. Ela encarava o livro que consultava com um olhar dividido entre a raiva e o desespero, como se sua maior vontade fosse queimar aquele livro com os próprios olhos ou atirá-lo janela afora, ou ainda, na cabeça de alguém, o que era o mais provável, considerando-se sua personalidade agressiva. Um meio sorriso brincou no canto dos lábios de Harry; às vezes ele conseguia, não sabia de onde, achar graça naquela garota estressada.
Os dois já estavam lá há quase meia hora, sentados numa mesa próxima à janela, na biblioteca. Tentavam terminar o mais novo questionário que Remo tinha passado na última aula. Lá fora era um sábado ventoso, e Harry sabia que muitos alunos que estudavam naquela biblioteca também sonhavam, como ele, com os jardins. Porém, a maioria das duplas do Clube de Duelos que tinham pares em outras Casas tiveram a mesma idéia "brilhante" de Harry e Katherine de aproveitar o sábado para terminar seus deveres.
Houve um novo resmungo, dessa vez mais alto. Harry teve vontade de chutar alguma coisa.
- Que foi? – ele perguntou, percebendo que aquela sucessão de resmungos era apenas o jeito que a garota se utilizava para chamar sua atenção.
- Essa droga de questionário, o que mais poderia ser? – ela reclamou, largando com raiva a pena sobre o livro e o pergaminho.
Harry suspirou novamente e puxou o pergaminho para si, ignorando o olhar de protesto que a garota lhe lançou. Ele correu rapidamente os olhos pelas perguntas, encontrando muitas rasuras na letra corrida e pequena de Katherine. A questão 29 estava artisticamente riscada.
- Está com problemas com a pergunta vinte e nove?
- Ah, então você também notou, que maravilhoso! – ela retrucou com sarcasmo. – Não consigo lembrar o maldito nome da porcaria de azaração que produz vergões na mão da varinha do oponente. – ela prosseguiu emburrada, encostando-se à cadeira e cruzando os braços. Harry reparou que ela usava uma luva diferente naquele dia, que cobria apenas as palmas das mãos, deixando os dedos nus.
- Azaração Ferreteante. – Harry disse sem pestanejar, em tom de quem comenta como está o tempo.
O queixo da garota caiu.
- Tem certeza disso?
- Claro que tenho! – ele jogou o pergaminho para ela.
Katherine bufou, parecendo extremamente irritada, e escreveu rapidamente o nome da azaração no pergaminho.
- Você por acaso tem noção... – ela começou a falar, entredentes, atirando a pena sobre o livro mais uma vez, com uma raiva que transbordava de seu ser. - ...que eu estou procurando essa resposta há pelo menos dez minutos?
- E daí?
- E daí que você poderia ter tido a gentileza de me dizer isso antes.
- Se você tivesse a gentileza de perguntar... – Harry falou de propósito no mesmo tom irônico dela, pois sabia que isso a deixaria ainda mais irritada. - ...eu teria tido a gentileza de responder...
Ela abriu a boca para retrucar, mas nenhum som saiu; a boca, porém, continuou aberta, de espanto. E ela não foi a única; Harry também se sobressaltou.
Alguma coisa foi jogada com força sobre os livros espalhados na mesa dos garotos. Quando Harry deu uma espiada mais atenta na "coisa", reparou que se tratava de um pedaço de pano muito maltratado, manchado e rasgado.
- Que coisa é essa? – ele perguntou antes que pudesse se refrear. – Mas que diabos...
- Eu é que pergunto! – uma voz irritada soou.
Quando Harry se virou, viu algo totalmente inusitado; Pansy Parkinson estava postada ao lado da mesa, como um cão de guarda, os braços cruzados e os olhos estreitos fuzilando Katherine, que parecia apenas educadamente surpresa.
- Como vai, Parkinson? – ela perguntou, utilizando seu melhor tom cordial, sarcasticamente fingido, é claro. – Vejo que "agradável" como sempre, não? – ela continuou, como se estivesse apenas tomando chá com a garota espumante à sua frente.
- VOCÊ É UMA FILHA DA MÃE, WILLIANS!
Alguns estudantes das outras mesas espiaram com reprovação por cima de seus livros; Harry achou que era mesmo muita sorte que Madame Pince estivesse longe na área reservada.
- Ei, há pessoas querendo estudar aqui, sabia? – Harry aproveitou para utilizar sua ironia.
- Não estou falando com você, Potter. – Pansy Parkinson retrucou secamente, ainda tentando, ao que parecia, matar Katherine com o olhar.
Para a surpresa de Harry, Katherine se levantou impetuosamente, como se a ofendida fosse ela.
- Não sei o que está fazendo aqui, Parkinson. – ela disse agressivamente, abandonando de vez todo o fingimento de antes, seus olhos castanhos quase vermelhos de fúria. – Mas é melhor sair. Para seu próprio bem. – ela completou em tom de óbvia ameaça, quase cuspindo as palavras.
Pansy Parkinson não pareceu muito solícita a atender o "pedido" de Katherine. Ela apanhou o pedaço de pano sobre a mesa e o atirou com violência na outra garota, que o apanhou por puro reflexo, torcendo o nariz numa careta.
- Isso significa algo para você?
Katherine estendeu o pano à sua frente, segurando-o com a ponta dos dedos como se estivesse com profundo nojo. Demorou, mas Harry reconheceu "a coisa" como uma saia, manchada e com um rasgo tão grande que era possível enxergar o rosto de Katherine do outro lado através dele. Ela abaixou a saia e fitou indulgentemente Pansy Parkinson, que ainda bufava de ódio.
- Pelo que me parece... – a garota começou, atirando com a mesma violência a peça na colega. - ...são os restos do que, um dia, foi uma saia.
- Pois é, Willians... – a outra disse com veneno. – Parece que você não é tão ignorante quanto aparenta. Mas o que você me diz disso?
- Eu digo para você parar de usar roupas tão justas. – Katherine retrucou com mais veneno. – Porque você, obviamente, está gorda e esse tamanho não lhe serve. A não ser que queira continuar com rasgos nas suas roupas, é claro. E, ah, eu também lhe aconselharia a tomar mais cuidado com seu suco de abóbora para não derramá-lo. – ela acrescentou, calma e cinicamente.
Pansy Parkinson inchou como um balão ao ouvir a insinuação, e seu rosto ficou tão vermelho que parecia uma chaleira sendo enchida rapidamente com água fervente. Harry escorregou ligeiramente na cadeira, levantando seu livro de Defesa na frente do rosto, numa tentativa inútil de se esconder; as pessoas estavam começando a observar a confusão, e ele queria desesperadamente poder sumir dali.
- Sua... sua... sua... – Pansy Parkinson murmurou, aparentando estar em busca da palavra com maior impacto. – SUA VAGABUNDA!
A reação de Katherine foi imediata; ela deu um passo para a frente, num ímpeto de fúria, seus olhos cintilando perigosamente, dando a impressão de que era maior do que na realidade, tal era a aura de raiva que irradiava dela. A garota deu um tapa estrondoso na mesa, que tremeu; Parkinson, por sua vez, manteve a expressão facial impassível, mas Harry viu que ela recuou um passo, involuntariamente.
- Sempre... perto do Draco! – Parkinson cuspiu, em tom de acusação. - ...ATRAPALHANDO MEUS ASSUNTOS COM ELE!
- Olha aqui, garota, eu nunca...
- E depois fica aí, "zanzando" com Potter! – ela continuou acusando, seu rosto assumindo uma coloração púrpura. – Você não tem vergonha, Willians! É um grifinório... – ela disse com nojo, como se fosse uma doença contagiosa. – Você é uma vadia!
Harry não saberia dizer ao certo, mas alguma palavra naquela sentença fez seu sangue ferver.
- Ei, ei! – Harry finalmente se pronunciou, ofendido. – Eu estou aqui quieto, você não pode...
Mas as duas deram tanta atenção a ele quanto davam para a parede.
- Ele é minha dupla de duelos, sua retardada! – Katherine retrucou, suas bochechas avermelhadas e uma mecha de seus cabelos caindo sobre os olhos. – E mesmo sendo um grifinório, ele é muito melhor do que você, sua vaca de merda!
Harry arregalou os olhos; não tinha acreditado no que tinha acabado de ouvir. Ao mesmo tempo, Parkinson continuou a desfiar desaforos para Katherine.
- Você não passa... – ela começou sem fôlego. - ...de uma esquisita, desajeitada, maltrapilha... que sente inveja dos outros só porque é... ANORMAL DEMAIS PARA FICAR COM UM GAROTO!
Os punhos de Katherine se fecharam e os nós de seus dedos se esbranquiçaram perigosamente. Harry percebeu que Parkinson tinha ido longe demais e, antes que ela pudesse se dar conta do que estava acontecendo, seu rosto foi atingido pelo punho direito de Katherine com tamanha força, que acabou caindo para trás. A boca de Parkinson se arregalou, e ela apoiou ambas as mãos no chão, claramente amedrontada pelo ato surpreendente e violento de Katherine. Esta, por sua vez, deu um passo à frente, seus olhos castanhos-escuros ameaçadores. Harry se levantou com um salto e segurou a garota, abraçando-a pela barriga, amaldiçoando-se por não ter agido mais cedo, porém, ele não tinha como adivinhar o que Katherine estava prestes a fazer, não é?
Ele sentiu a garota se debater para tentar se soltar, mas Harry era mais forte que ela. Parkinson, ainda no chão, parecia em estado de choque; estava completamente descabelada e seu olho esquerdo começava a inchar consideravelmente. Harry, por sua vez, tentava segurar Katherine como podia, mas ela parecia uma fera selvagem, o que dificultava um pouco as coisas. Ele conseguiu enxergar os outros alunos presentes na biblioteca, chocados, e uma atarantada Madame Pince correndo ao encontro deles. "Ótimo!", Harry disse a si mesmo. "Deu-se a desgraça!"
- O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO NA MINHA BIBLIOTECA?! – ela gritou exasperada.
- Está... – Harry disse engasgado, ainda segurando Katherine, que se debatia sem parar. - ...tudo sob controle, Madame Pince.
- É CLARO QUE NADA ESTÁ SOB CONTROLE, SEU IDIOTA! – foi Katherine que gritou; os olhos de Madame Pince se arregalaram. Harry sentiu os ouvidos doerem; estava muito próximo de Katherine e seu grito ecoou em sua mente. – ME SOLTA, POTTER! EU VOU ACABAR COM ESSA GAROTA! VOU FAZER PICADINHO DELA E SERVIR NO JANTAR! VOU ESMAGÁ-LA COMO SE FOSSE UMA BARATA, UMA MOSCA, UMA ARANHA, UM BESOURO, UMA LESMA, UM...
- Você vai é sair daqui agora! – Harry murmurou entredentes no ouvido da garota, tão próximo dela que sua respiração ofegante e pesada embaçava seus óculos. E, antes que Madame Pince, em sua completa estupefação, pudesse pensar em fazer algo, Harry segurou a mão suada de Katherine com firmeza e praticamente a arrastou para fora dali, sentindo os olhares bisbilhoteiros dos alunos sobre si.
Harry continuou a puxar Katherine pela sua mão pelos próximos cinco corredores e dois andares, sem perceber direito para onde estava indo ou o que estava fazendo. Sentia a respiração quente da garota em suas costas, ouvia os passos pesados dela e os murmúrios sem sentido que silenciaram após algum tempo.
Ele mal podia acreditar no que tinha acabado de presenciar e no que estava acontecendo. Seu sangue corria quente nas veias, mas suas mãos estavam incrivelmente geladas. Podia sentir a mão pequena e úmida de suor de Katherine ainda entrelaçada à sua enquanto caminhavam. Por um único instante, apreciou a sensação que isso lhe causou, involuntariamente; no entanto, forçou-se a desviar os pensamentos rapidamente.
- Pare, Potter... – ele pôde ouvir a voz dela, ainda arfante, porém quase imperceptivelmente trêmula. Harry percebeu que era um pedido.
Katherine encostou-se à uma parede de pedra, exausta como se tivesse acabado de sair de uma maratona. Ela mordia os lábios com tamanha força, que Harry teve medo que fosse machucá-los. Grossas lágrimas de raiva estavam nos cantos de seus olhos desfocados, mas ainda não tinham escorrido. Foi com susto que Harry percebeu que sua mão esquerda ainda estava entrelaçada à direita dela. E foi com um susto maior ainda que se deu conta que não queria soltá-la.
Mas ele tentou, amaldiçoando-se por seus pensamentos insanos e estúpidos. No entanto, dessa vez foi Katherine que inexplicavelmente segurou sua mão com uma força incrível.
- Está doendo. – ela murmurou, sem fitá-lo nos olhos.
- O quê? – ele perguntou, sentindo-se esquisito e estúpido ao mesmo tempo.
- A mão... Que cabeça dura a Parkinson tem...
Harry deixou escapar um risinho abafado.
- Foi um ótimo soco.
- Você achou? – ela se permitiu um sorriso.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. Harry quase conseguia ouvir as batidas do coração dela, que começava a serenar. Ele notou que, devido ao agito de toda aquela confusão, o lenço que segurava o rabo de cavalo dos cabelos da garota tinha afrouxado, e eles estavam quase soltos. Harry nunca tinha se dado conta do quão magníficos e delineados eram os cachos do cabelo da garota.
Ele quis se bater após esse pensamento. Obviamente, estava fora de si. Sim, era isso, saíra tão depressa daquela biblioteca que provavelmente esquecera sua razão lá dentro junto com seus livros e sua mochila.
- Doeu, não foi? – ele sussurrou.
- O soco? – ela perguntou com a voz baixa, mas ainda demonstrando certa brutalidade. – Espero que Parkinson não consiga esquecê-lo tão cedo.
- Não. Doeu o que ela disse, não?
Katherine ficou em silêncio por alguns instantes. Harry sentiu o aperto na mão aumentar.
- Doeu. – sua voz não passava de um murmúrio.
- Não se importe com o que ela disse. – Harry retrucou sem pensar. – Eu não a acho anormal, sabe... só um pouco... pentelha... às vezes...
Ela riu baixinho junto com ele. Quando finalmente o encarou nos olhos, sua expressão era grave.
- Tá falando sério? – Harry assentiu com um sorriso. Ela também sorriu, fracamente. – Obrigada... Harry...
Ele sentiu algo gostoso dentro de si ao ouvir seu nome sair dos lábios dela daquela maneira. Algo estranho despertou dentro de Harry depois disso e, sem raciocinar (sua razão ainda estava na biblioteca), ele deu um passo à frente e seu corpo ficou a apenas centímetros do dela. Katherine arfou e levantou um pouco o rosto para poder encará-lo. Parecia assustada naquele momento, até mesmo indefesa. As respirações dos dois se confundiam. Harry levou sua mão direita até o rosto dela e colocou um cacho atrás de sua orelha. Katherine apenas o observou. Harry quis tocar seu rosto, apenas para saber se ele era tão macio quanto sua mão, pois aquelas luvas diferentes que a garota usava àquele dia permitiam que Harry conseguisse a pele suave e quente de seus dedos. Porém, repentinamente, ele notou o que estava fazendo e deu vários passos para trás, finalmente soltando a mão dela.
- Pra quê você vai ligar para ela, afinal? – perguntou de costas para a garota, rindo de nervoso. – Olhe só para ela, Pansy Parkinson tem cara de buldogue!
Katherine também riu nervosamente às suas costas, parecendo tão abalada quanto Harry.
- Tem razão... – disse fracamente. – Deveria ser mandada para a carrocinha.
O silêncio se abateu novamente e era assustador. Harry sentiu seus dedos formigarem; seu corpo queimava e suava. Ele tentou não olhar para a garota. Raios! Não podia estar acontecendo!
- Olha... sobre...
- Talvez seja melhor... – Harry disse depressa demais. - ...que você simplesmente volte para sua Casa e se acalme. Não se preocupe, eu vou voltar à biblioteca e termino o trabalho sozinho na minha sala comunal.
- Mas não é jus...
- Não se preocupe. – ele repetiu, desejando ao mesmo tempo que ela ficasse e que fosse embora para o mais longe possível dele. – Eu termino sozinho.
- Então... o.k... – ela disse sem jeito. – Eu... vou indo...
Ele ouviu os passos dela se afastando e perguntou a si mesmo se conseguiria se virar. Não resistiu. Enxergou-a sumindo no corredor, seus cabelos se movendo enquanto caminhava. A respiração dele estava ligeiramente descompassada.
Percebeu que era ele que precisava se acalmar ali, afinal.
Harry jogou de qualquer jeito seu material de estudo sobre a sua cama; não tinha cabeça para terminar tudo aquilo, naquele momento, não com tantos pensamentos perturbando sua mente. Aqueles pensamentos.
Ele se acomodou no parapeito da janela – um dos seus lugares favoritos quando queria apenas pensar -, observando o sol pálido se pôr lenta e preguiçosamente no horizonte parcialmente nublado. O quarto ia escurecendo aos poucos, mas Harry não se deu ao trabalho de iluminá-lo quando a noite finalmente caiu, deixando-o na penumbra.
Estava aliviado por não ter encontrado ninguém no caminho, mas talvez estivesse tão transtornado, que apenas não reparara nas pessoas ao seu redor. Estava começando a achar que a solidão era a melhor companhia, porém, naquela noite, apesar de estar só, não conseguia que ela abandonasse seus pensamentos.
E não dava para fugir de seus pensamentos como fugia das pessoas.
Ao mesmo tempo, sabia que era errado pensar daquela maneira, pensar nela. Ela era uma sonserina. Era prima de Draco Malfoy. Mantinha contato com Samantha Stevens. Ela era Katherine Willians.
Mas por que era errado pensar nela?
Harry queria pensar em Katherine. Queria lembrar o que sentiu naquele momento no qual ficara tão próximo dela que sentiu sua respiração, apreciou seu perfume agressivo, o cheiro de canela de seus cabelos crespos, admirou suas curvas e seu rosto... o momento em que sentiu sua temperatura ao tocá-la...
Ele sabia o que teria feito se não tivesse controlado seus instintos. Não queria admitir, mas sabia...
Harry teve vontade de beijá-la.
Mas não deveria ter essa vontade.
Era loucura! Era completamente irracional! Estava fora de si, tinha certeza disso. Só podia ser isso, só podia ser essa a explicação. E – maldição! – continuava sem razão, pois não conseguia deixar de imaginar a continuação daquela cena...
Qual seria o gosto do beijo dela?
O jeito daquela garota... de quem sempre tem algo preparado na ponta da língua para responder um desaforo... Ela o provocava, e Harry gostava disso. O modo como seus olhos se estreitavam e sua cabeça se inclinava quando ficava nervosa com ele... Ela o desafiava, e Harry gostava disso. A maneira como ela dizia seu nome, Harry...
- Não, Harry! – ele murmurou, repreendendo a si mesmo. – Não... pára de pensar isso!
Mas ele não conseguia. Harry simplesmente não conseguia parar de imaginar a sensação de envolvê-la em seus braços – senti-la como naquele dia que ela chorou abraçada nele – e depois... beijá-la...
Harry queria mais e se deu conta de que desejava aquela garota.
Mas era proibido desejá-la. Era errado! Ele não podia... Não podia sequer pensar nisso!
Já tinha ido longe demais ao permitir aquela trégua. Uma amizade seria cruzar uma linha tênue e perigosa. Pensar o que estava pensando... era absurdo! Harry encostou a cabeça na parede de pedra fria, sua respiração ofegante. Aquilo não estava certo. Ele definitivamente não queria! Não estava raciocinando direito. Talvez apenas estivesse permitindo que seus instintos masculinos o dominassem, mas não podia deixar. Havia muita coisa em jogo naquela brincadeira. Muita coisa.
Harry sabia que não sentia nada por aquela garota a não ser aquele desejo momentâneo, aquela atração...
Tenho que tirá-la dos meus pensamentos.
- Falando sozinho, Harry? – alguém perguntou num tom divertido.
Harry se virou assustado. Não percebera que estava falando em voz alta. Seus olhos bateram em Rony, que tinha acabado de encostar a porta atrás de si com um ruído seco.
Ou Rony era muito silencioso, ou Harry realmente estava muito distraído. A segunda opção era a mais provável. Harry ficou imaginando há quanto tempo Rony estaria ali, escutando-o revelar seus pensamentos mais íntimos.
- Não percebi você chegando... – murmurou, sentindo-se exausto.
- E não me admira isso! – o amigo brincou, sorrindo, enquanto se dirigia ao seu malão, procurando alguma coisa. Havia algo artificial em seus modos que fez Harry ter certeza que Rony estava tão transtornado quanto ele. – Ultimamente, você anda no mundo da lua! Sempre se afastando na primeira oportunidade...
Harry teve receio que o amigo entrasse demais no assunto. Era verdade o que estava dizendo; Harry realmente estava se distanciando um pouco de Rony e Hermione, talvez porque quisesse ficar sozinho, escapar, ou talvez porque não se sentisse suficientemente limpo para se aproximar dos amigos. Harry pensou várias vezes em contar quem realmente era, mas, por medo da reação deles, preferiu ficar calado. Não queria que o olhassem com nojo... repulsa... temor... Não justo seus dois melhores amigos no mundo. Desde a morte dos Dursleys, Harry não achava que fosse uma boa companhia nem para si mesmo.
- Eu... não ando... muito bem...
Rony continuou vasculhando seu malão à procura de alguma coisa, mas quanto mais procurava, mais Harry tinha a impressão de que ele não estava à procura de coisa alguma.
- Hermione está preocupada com você, sabe? – Rony falou com a voz muito distante. – Acha que aconteceu alguma coisa com você que não quer nos contar. – Harry sentiu seu peito comprimir e sua respiração ficar muito rasa. Rony, porém, mudou de assunto com a velocidade de um relâmpago riscando o céu, e Harry percebeu que ele finalmente tinha alcançado o ponto exato que desejava desde o início. – Ela vai passar o Natal com os pais, sabia? Vão para a Alemanha, acho.
- Então ela não vai para A Toca? – Harry disse, tendo a plena noção de que era uma pergunta estúpida e desnecessária. Rony ficou imóvel, desistindo de procurar o que quer que fosse.
- Não. – ele respirou fundo. – Ela não quer ficar perto de mim.
- Tenho certeza de que não é isso, Rony...
- É isso sim, Harry! – ele parecia revoltado. – Não adianta você querer colocar panos quentes! – a voz dele se alterou ligeiramente. Harry não respondeu.
Houve uma pausa. Rony desistiu em definitivo do malão e sentou-se na ponta da cama, desolado.
- Eu sinto falta dela. – Rony disse encarando os cadarços dos tênis. Ele riu sem alegria. – Sabe, eu me acho um tolo dizendo essas coisas, mas é verdade.
Harry mirou o amigo por alguns instantes, pensativo, antes de responder.
- Você não é bobo por sentir falta dela.
Rony levantou o rosto e encarou o amigo diretamente nos olhos. Harry se sentiu desconfortável e desejou que Rony desviasse o olhar.
- Quando você e Gina se separaram no ano passado... – Rony começou hesitante, talvez por saber que estava tocando num ponto sensível. Harry certamente não gostou que ele mencionasse Gina, mas não disse nada. - ...você sentiu falta dela depois?
- O meu caso e de Gina... – Harry disse secamente. - ...foi muito diferente do há entre você e Mione.
- Você sentia falta dela? – Rony insistiu.
Houve uma segunda pausa, um pouco maior. Harry decidiu ser sincero.
- Sentia.
- Ainda sente?
Harry queria responder um orgulhoso e petulante "não", mas não foi isso que saiu de sua boca.
- Eu não sei.
Ele pensou em Katherine e sua cabeça doeu. Sentia-se confuso.
Rony apoiou o queixo nas mãos, perdido.
- Eu a beijei de novo. Hermione.
Harry permaneceu em silêncio. Estava tão confuso com seus próprios sentimentos, que não se sentia em posição de dizer nada ao amigo.
- Ela disse... – Rony continuou, sua voz semelhante a um sussurro. – Disse que eu não fizesse mais isso. Que eu só estava tornando tudo mais difícil. Que era melhor ficarmos distantes.
Rony respirou muito profundamente.
- Mas eu não quero... Não consigo ficar longe... Não me controlo...
Silêncio.
- Fale com ela. – Harry disse incerto. – Talvez... peça desculpas por tudo que fez... e disse...
Ele pensou que Rony fosse se exaltar como sempre fazia à menção de pedir perdão, mas ele permaneceu naquele estado letárgico que era bem mais preocupante.
- Ela não vai aceitar minhas desculpas esfarrapadas. Eu só piso na bola, Harry. Faço tudo errado.
Harry o entendia. Se Gina viesse lhe pedir perdão, não tinha certeza se aceitaria. Não sabia se queria aceitar. Mas ele era muito diferente de Hermione; ela era bem melhor que ele.
Rony levantou os olhos e focalizou o material de estudo de Harry largado em sua cama.
- Você estava estudando com aquela sonserina?
Rony fez a pergunta com um tom de pouco caso. No entanto, foi o suficiente para apavorar Harry e fazê-lo pular do parapeito da janela como se tivesse sido atingido por um choque elétrico. Ele começou a juntar os livros de qualquer jeito, como se aquilo pudesse revelar alguma coisa a Rony.
- Estranho... – o amigo murmurou com um riso abafado.
- O que é estranho? – Harry perguntou abalado, recolhendo as coisas de qualquer jeito, sem se preocupar em amassá-las na pressa.
- Você nunca mais reclamou de encontrá-la para fazer as tarefas que o Lupin passa para nós. – Rony disse sem emoção na voz. – Você sempre repetia que era muito chato, que ela era irritante e que você não agüentava mais ter de estudar com ela...
Harry parou no meio do movimento, permanecendo muito imóvel, plenamente consciente do gelo que tinha se instalado no seu estômago. Não poderia revelar que não estava mais reclamando de Katherine porque... bem, porque estava ficando maluco e pensando coisas que não pensaria se estivesse em seu juízo perfeito. Rony não entenderia. Ele mandaria Harry ir se tratar, e com toda a razão. Não, era melhor Harry permanecer na sua e não dizer nada; era melhor que ele mesmo, sozinho, entendesse primeiro o que estava acontecendo na sua cabeça perturbada.
- Mas Kathe... Willians... continua irritante como sempre. – Harry disse rápido demais, atropelando e embaralhando as palavras enquanto juntava as coisas na cama ainda mais atabalhoadamente. – Eu só não fico repetindo isso o tempo todo porque... bem, porque seria uma chatice para vocês, não?
- É... é sim...
- Mas continua sendo horrível, muito horrível mesmo estudar com ela. – Harry continuou, tentando convencer Rony. – Ela é uma sonserina chata e... irritante... Sempre vai ser.
Houve uma terceira pausa. Rony parecia imerso em pensamentos. Harry recolheu suas coisas e empilhou tudo no chão, ao lado da cama, para se lembrar de terminar o trabalho mais tarde.
A imagem de Katherine encarando-o nos olhos e dizendo seu nome invadiu novamente seus pensamentos.
"Ela é uma sonserina chata e... irritante... Sempre vai ser."
Harry não tinha certeza se tinha dito aquilo para convencer Rony ou convencer a si mesmo.
Harry respirou fundo. Já estava sem fôlego, mas não era possível parar para respirar. Ele recuou, tentando se defender das ofensivas de Dumbledore como podia, mas estava realmente complicado naquele momento.
O barulho das espadas retinindo uma contra a outra ecoou na paredes daquela sala enorme. Harry simplesmente não conseguia acreditar em como Dumbledore, com tantos cabelos brancos, podia ser tão rápido e preciso em seus ataques, e nunca dar sinais de cansaço, enquanto ele, Harry, com apenas dezessete anos, após quarenta minutos de treinamento, estivesse caindo pelas tabelas. No entanto, havia um brilho selvagem nos olhos azuis do diretor e ele emanava uma aura de poder que Harry tinha visto poucas vezes na vida.
Dumbledore desfiou um ataque rápido com a espada, que se chocou contra a de Harry, produzindo um barulho metálico que ecoou pela sala; o brilho da lâmina cegou os olhos do rapaz, mas ele não tinha tempo para se preocupar com aquilo. Dumbledore aplicou uma força inacreditável, e Harry se viu forçado a segurar a lâmina com as duas mãos para não ceder; o resultado foi um corte superficial na palma de sua mão esquerda, que imediatamente começou a sangrar. O sangue escorreu pela lâmina brilhante da espada, pintando-a de um vermelho escuro e vivo, e Dumbledore, ao perceber, parou imediatamente de lutar.
Harry, ofegante, aproveitou que o duelo chegara ao fim e, sem vergonha nenhuma, largou a espada de lado e sentou-se no chão, tentando recuperar o fôlego. Ele viu Dumbledore se abaixar ligeiramente e encará-lo com um sorriso, seus olhos azuis muito cintilantes por trás dos óculos de meia-lua.
- Eu acho que me excedi hoje, não, Harry? – ele perguntou bondosamente, nem parecendo a mesma pessoa de dois minutos antes, que desferia golpes violentos contra Harry no treinamento.
- Se algum dia... – Harry arfou. - ...eu chegar na sua idade... professor... – ele fez uma pausa mais longa para respirar. – Eu gostaria... de ter seu pique...
Dumbledore riu.
- Quem disse que esse velho aqui não está exausto?
- Não parece.
- É porque eu não demonstro. – ele retrucou com simplicidade e como Harry arregalou os olhos, explicou: - Nunca demonstre cansaço ou emoção num duelo, Harry. Isso são armas para o seu oponente.
Harry não soube o que dizer; primeiro, estava sem fôlego, e depois seu queixo estava caído. Ele apenas fitou sua mão esquerda e se deu conta de que o corte ainda sangrava e ardia.
- Perdoe-me, Harry, eu o machuquei. – o diretor sorriu e puxou a mão do rapaz, estendendo a palma para cima. Dumbledore sacou a varinha, murmurou um feitiço e deu três toques na pele de Harry com a ponta da varinha. O corte imediatamente se fechou, sem nenhuma marca. – Madame Pomfrey me mataria por fazer isso sem desinfetar, mas eu já fiz várias vezes comigo mesmo e ainda estou vivo. – ele completou com um tom divertido.
Harry sorriu.
- Eu fui horrível no treinamento de hoje, professor. – ele murmurou envergonhado. – Acho que não tenho me esforçado o suficiente.
- Está com a cabeça em outros lugares bem mais distantes, hein? – o diretor questionou astutamente.
Harry não respondeu, mas Dumbledore estava totalmente correto. Havia tantas coisas juntas na cabeça de Harry, que ele não sabia como seu cérebro ainda não tinha entrado em parafuso. Desde a morte dos Dursleys, Harry se sentia imundo, e se afastava cada vez mais das pessoas, tornando-se recluso e amargurado. Ao mesmo tempo, por mais que estivesse sozinho, não conseguia tirar aquela sonserina pentelha dos pensamentos, e era como se uma sombra sempre estivesse ao lado dele, invadindo sua mente, que agora se tornara um local perigoso, que ele temia vasculhar. E, por último, todas as vezes que tinha aulas com Dumbledore se debatia em culpa por esconder tanta coisa dele. Sua consciência não parava de acusá-lo. Ele se lembrava constantemente daquela detenção com Snape, na qual Samantha tinha aparecido, e Harry entreouvira a conversa deles. Tudo isso misturado só fazia confundi-lo ainda mais.
"Dumbledore não conta metade das coisas para ele."
E Harry também não parava de pensar no que Dumbledore estaria escondendo dele.
- O senhor tem razão, professor. – Harry disse sem emoção na voz, fitando o diretor, mas vendo muitas coisas além de seus olhos azuis claros. – Meus pensamentos... estão muito longe daqui.
Dumbledore sorriu.
- E há algum desses pensamentos que queira dividir comigo, Harry?
Ele pensou por alguns segundos se deveria realmente contar.
- Existe sim, professor.
O azul dos olhos de Dumbledore se tornou um pouco mais escuro.
- Vamos para a minha sala ao lado, Harry.
Dois minutos depois, Harry estava sentado em frente à mesa de Dumbledore, observando aqueles vários instrumentos prateados que ele tinha. Em cima de um armário, estava o velho e surrado Chapéu Seletor. Os retratos dos diretores antigos dormiam em suas molduras, e Fawkes emitia de vez em quando belos sons. Dumbledore se sentou em sua cadeira, juntou seus dedos e encarou Harry com um olhar penetrante por detrás dos óculos de meia lua. Harry se sentiu incomodado com aquele olhar.
- Professor... – ele começou hesitante, pensando no quê realmente deveria dizer. – Eu tive uma detenção com Snape há algum tempo...
- Com o Professor Snape. – Dumbledore o corrigiu, mas não parecia aborrecido. Pelo contrário, seu tom era de quem estava se divertindo com a situação. – Mais uma, Harry?
Harry crispou os lábios num sorriso desajeitado e envergonhado.
- Mais uma, professor.
- Sim, eu já sabia. Prossiga.
- Bem... acontece que... – Harry fez uma pequena pausa, escolhendo as palavras para que Dumbledore não pensasse que ele andara escutando atrás da porta. O que era, de fato, verdade. – Quando eu estava no meio da detenção... hum... Samantha Stevens apareceu na lareira... – Dumbledore estreitou os olhos. – E eu... hum... escutei-os falando sobre...
- Eles trabalham juntos na Ordem, Harry. – Dumbledore disse com simplicidade. – Estão em uma missão juntos, é natural que se comuniquem. – o diretor recostou-se à cadeira, observando o teto, pensativo. – Acabou de passar pela minha cabeça que é por isso que Severo anda... como se diz? Ah! De ovo virado!
Harry teve vontade de dizer que Snape estava eternamente "de ovo virado", mas se conteve.
- Mas, professor... – ele insistiu, sondando. – Eles falavam sobre... uma reunião de Comensais...
Harry podia esperar tudo, mas não que Dumbledore fosse rir. Ele fitou Harry calma e divertidamente.
- E eles disseram tudo isso na sua frente, Harry?
O rapaz sentiu-se corar. Dumbledore continuou sorrindo.
- Não precisa se sentir mal por ouvir as conversas às escondidas, Harry. Eu já fiz isso muitas vezes também, mas sempre usei meios mais eficazes e seguros do que grudar o ouvido na porta.
Harry engoliu em seco. Às vezes tinha a impressão de que Dumbledore lia pensamentos.
- O senhor não vai contar para...
- Não, Harry, eu não vou contar para o Professor Snape. Fique tranqüilo.
- Ah... – o rapaz suspirou, sentindo-se muito sem jeito. Harry olhou para qualquer lugar que não fosse o diretor. – Mas, professor... sobre o que eu disse... da reunião de...
- Eu preciso de espiões, Harry, você sabe disso. Ou você acha que Voldemort não tem gente dele infiltrada aqui em Hogwarts também? – Dumbledore lhe lançou um olhar sério. Harry o encarou de volta com cuidado, e ele pareceu novamente ler seus pensamentos. – Severo Snape e Samantha Stevens gozam de minha inteira confiança, Harry.
- Samantha é filha de Voldemort. – Harry disparou sem pensar. – O senhor sabia disso também?
- Sabia. – Dumbledore retrucou como se aquilo fosse algo banal, surpreendendo Harry. Então ele sabia? O que mais ele sabia? – E você sabe o que isso significa em relação a você, não, Harry?
O rapaz percebeu que Dumbledore estava virando o jogo a seu favor.
- Ela é minha tia. – Harry disse de um fôlego só, como se fosse menos indolor dizer tudo de uma vez só. – Mas isso não a impediu de...
- Eu não julgo as pessoas me baseando em onde elas vêem, Harry. – Dumbledore interrompeu-o, falando com a voz firme e severa. – Eu as considero pelo que são. Se fosse o contrário, eu não o estimaria como faço.
Houve uma pausa tensa. Harry sabia que ele estava se referindo à sua relação consangüínea com Voldemort. De repente, Harry percebeu que queria ir embora e ficar sozinho como costumava fazer. Dumbledore estava lembrando-o, de propósito, que ele era neto de Voldemort, e essa era a maneira que ele encontrara de mostrar a Harry que o sangue não importava para ele e que continuaria confiando em Samantha, como confiava nele, sem lembrar o parentesco que eles tinham com Voldemort.
Harry se levantou subitamente. Dumbledore o acompanhou com os olhos, sem dizer palavra alguma. Harry respirou fundo e já ia dando as costas para o professor, quando ousou fazer mais uma única pergunta.
- Snape disse que há muitas coisas que o senhor esconde de mim. É verdade?
Dumbledore o encarou por cima dos seus dedos compridos. Ele parecia mais sério do que nunca.
- Ao mesmo tempo, Harry, tenho certeza que você esconde muitas coisas de mim também. Todos nós temos segredos.
Harry não ousou dizer mais nada e foi embora finalmente, percebendo que tinha ido longe, longe demais.
Quando Harry chegou no quadro da Mulher Gorda, sentia seu corpo moído por causa do treinamento; seus braços pareciam pesar vinte quilos a mais, suas pernas não o sustentavam mais com firmeza e suas costas estavam doloridas. Para completar, sua cabeça parecia prestes a explodir de dor, com tantos pensamentos confusos se misturando dentro dela como se estivessem num liqüidificador.
Para seu desespero, a sala comunal não estava vazia como ele queria que estivesse. Assim que a passagem do retrato se fechou às suas costas, ele bateu os olhos numa Hermione dormindo sobre uma montanha de livros e deveres.
Harry se aproximou e se sentou ao seu lado na mesa. Hermione parecia exausta; sua cabeça estava apoiada nos braços, que por sua vez estavam sobre um grande volume de Aritmancia. Seus cabelos estavam um pouco desarrumados, e algumas mechas pendiam sobre seu rosto tranqüilo. Sua respiração era lenta e ritmada. Harry ficou imaginando há quanto tempo ela dormia ali, afinal, já era madrugada.
- Mione... – ele sussurrou, cutucando seu ombro suavemente para que ela não se assustasse. – Mione, vá dormir no seu quarto...
Ela abriu lentamente seus olhos, e eles pareciam bem fora de foco. Ela levantou a cabeça devagar, e uma parte de sua bochecha tinha grudado na folha do livro.
- Harry, é você? – ela perguntou com a voz pastosa, piscando os olhos para tentar reconhecê-lo.
- Da última vez que eu me olhei no espelho, sim, eu ainda era Harry. – ele respondeu em tom de brincadeira.
Ela riu ligeiramente também, endireitando-se na cadeira e esfregando os olhos com as mãos.
- Eu tenho que acabar esse trabalho de Aritmancia...
- Não agora. – Harry disse, puxando o livro e fechando-o. – Agora você vai para o seu dormitório fazer o que já deveria ter ido fazer há muito tempo: dormir.
- Eu estou um pouco cansada mesmo. – ela confessou, massageando os olhos que teimavam em fechar.
- Acredite, eu também percebi isso.
Ela sorriu.
- Você só chegou agora? Porque... – ela olhou as roupas dele. – Se você me disser que está sem sono, eu vou perguntar onde está o seu pijama.
- Você não deixa passar nada mesmo, hein, Mione? Nem quando está sonolenta...
Ela riu levemente.
- Onde você estava?
Harry suspirou e apoiou a cabeça nos braços, como a amiga fazia antes. Ele a fitou cansado, quase implorando para que ela não fizesse mais perguntas.
- Eu estava... por aí...
Ela soltou um riso sarcástico.
- Claro. Você está escondendo algo, não está?
Harry ainda permaneceu alguns instantes observando a amiga com a cabeça deitada sobre os braços. Então, ele se sentou ereto na cadeira e a encarou profundamente nos olhos, sentindo-se miserável.
- Eu prometo, Hermione, que um dia, eu vou contar tudo sobre mim para você e o Rony. – ele disse seriamente. – Eu devo isso a vocês. Mas eu ainda preciso me acostumar com a idéia, mesmo que eu sinta que nunca vou me acostumar. Você entende?
Ela fechou os olhos por um segundo e suspirou. Quando os abriu novamente, encarou Harry compreensivamente e acenou em afirmação para ele.
- Não me pressione agora... por favor.
- Tudo bem, Harry. Conte quando estiver pronto. – ela disse e se levantou, juntando suas coisas na mochila. Jogou-a nas costas e, antes de ir embora, fitou o amigo mais uma vez. – Mas, Harry, seja lá o que for... Você não precisa se distanciar de mim e do Rony por causa disso. Nós somos seus amigos e não deixaremos de apoiá-lo, por mais que você esconda algo horrível de nós. Nós três sempre enfrentamos os problemas juntos, não é? Você promete que vai parar de fugir de nós?
Harry a fitou por muito tempo, pensando em suas palavras. Então, ele sorriu timidamente, sentindo-se pior, imaginando se Hermione continuaria pensando daquele jeito se soubesse quem ele era de verdade.
- Eu... prometo, Hermione.
Ela sorriu docemente.
- Eu vou cobrar a promessa. Boa noite, Harry.
- Boa noite. – ele murmurou, observando-a subir as escadas dos dormitórios femininos.
"Nós somos seus amigos e não deixaremos de apoiá-lo, por mais que você esconda algo horrível de nós."
Ele realmente escondia algo horrível e tudo o que mais desejava era que Rony e Hermione continuassem sendo seus amigos, como sempre foram, quando descobrissem a verdade.
Nota da autora: Muito obrigada pelas reviews! :) Esse capítulo era para aparecer aqui mais cedo, mas eu fiquei um pouco bloqueada... :p Bem, mas ele acabou saindo e aqui está, espero que gostem ;) E agora, hein? O que vocês acharam dos sentimentos "perturbados" do Harry? Hmmm (kaka se preparando para pedradas) hauhauhaha Bjus! :)
Diu Hiiragizawa: Hum... (kaka observando sua idéia doida) Bem, digamos que no próximo capítulo você saberá um pouco mais sobre a família da Kate e a vida dela... :) Eu tô mesmo devendo um pouco da história dela, hehehe :D Beijinho??? Hauhauhauhauha (kaka ri maleficamente) Você não me conhece, quando eu quero ser má... hahahaha :D Sobre a Mione e o Rony... eles são dois teimosos, mas até pra isso se dá um jeitinho ;) Bem, desejo uma boa viagem para você e espero que esteja se divertindo bastante! (ou, quando ler isso aqui, espero que tenha se divertido bastante ;) uhauhahuaha Uau, vc também quer afogar a Gina na privada... mas só a da CdE... hahaha :D Essas Ginas tão diferentes algum dia vão confundir minha cabecinha problemática, uhauahhaha :p Mtu obrigada mesmo pelos elogios, e espero que quando voltar de viagem, goste dos caps postados! :D Bjus!
Ainsley Haines: Oie, miguxa!!! :D Hum... se eu tirei o "pentelhinha" de Pérola Negra, aquela novela do SBT? Não, não... eu não vi essa novela (mesmo que duas amigas minhas vejam e amem de paixão... isso me lembra de quando elas começaram a discutir sobre a novela no meu aniversário, hauhauha) De novela do SBT, eu só vi A Usurpadora mesmo! :p hehehe Uhhh, quer dizer q vc gostou do Harry se culpando? Normal, vc nem gosta de ver o pobre apanhar, né? uhauhauha Pois é, me lembrou a TdS tbm, que saudade! (chuif) Aiai, pois eh... mas eu acho o Snape malvado, num tem jeito!!! Se bem que... depois que eu vi que ele é capricorniano e faz aniversário dois dias depois do meu... Sabe que fui mais com a cara dele? Um capricorniano só pode ser gente boa! Uahuhaauhauahuha :D (kaka imaginando o signo dos outros personagens) Hahahaha, o.k., miga, sei que não tenho mais desculpas... mas dessa vez foi um pequeno bloqueio, vc entende, não é? Mas até que não demorei taaanto assim... qnd eu tava na época de vestiba cheguei a demorar dois meses :p (kaka assustada) Uau, como os leitores agüentam? Uahuahuahuah Eu faço as pessoas sofrerem! Hehehe É isso, BJUS e já tô com saudade! :)
talitablack: Também te adoro, mininah! :) E fico feliz que tenha sentido falta das minhas fics nesse tempo que elas ficaram ausentes... significa que vc gosta mesmo! :D (pausa para kaka rir da sua revolta) Má, euzinha? Imagiiiina!! Uahuahuah :D Eu sou um anjo de candura! (pisca inocentemente) Oh... vc acha mesmo que os tios do Harry não farão diferença? Bem, mas algumas coisinhas ainda vão acontecer por causa dessa morte... hehehe (planos maléficos) Pois é, tem muita tristeza e desgraça... mas é que eu gosto de escrever isso, fazer o quê? (sangueee... sangueee... toca musiquinha de terror barato ao fundo) O.k., o.k., estou anotando seus pedidos... beijo... (esse num sei num... tô em dúvida... hahahaha) quebra pau de verdade entre Snape e Harry... (pode ser, sou fã de um barraquinho básico) É, vamos ver, vamos ver... Agora, chateada??? (kaka gargalha histericamente) Imaginaaaaaa que eu iria ficar chateada com essa sua review!!! Eu ri pacas, isso sim!!! Vc tava super cômica com sua revolta (que, digamos de passagem, é até bem justificada). E SEMPRE diga sua opinião sincera que é isso que eu quero ;) E enquanto vc se decide se é a Série ou a Nena que ficam na frente de quem (pegou mal, hein? uhauhaua), vou parando por aqui e dizendo que te adoro MTU (aliás, brigada mesmo pelo recadinho de feliz níver no meu GB ;) e bjões enooormes!!!! :D
morgana: (kaka engasga e tosse) Primos??? Vc acha mesmo??? Pense outra vez... (kaka imaginando a reação das pessoas no final da fic e em quantos hipogrifos desembestados vão mandar atrás dela) Sim, sim... o que a Kate copiou no cemitério é muito importante... conduz ao final da fic... mas é um código, e vc tem que quebrar a cabeça para descobrir, hehehe :D Brigada pelos elogios, fico super contente que tenha gostado do cap novo da CdE!!! :D E a Neninha postei no sábado, se ainda não leu o cap novo, corre lá para ler!!! Hehehe Agora... o resultado do vestibular só vem dia 21 de janeiro... pertinho do teu níver, hehehe :D Vc faz níver um dia depois do casamento da minha mana :D O endereço do site que eu posto a CdE e todas as minhas outras fics está no meu profile do ff, entra lá e vê ;) (eu só não escrevo aqui porque endereço de site não formata no ff fresco :p) Espero que tenha passado um ótimo natal ;) Bjus!!! :D
Gisleine: hahahaha, poxa, que maldade... afogar a Gina na privada... hehehe :D (kaka que acha isso super engraçado e usa sempre, desde que postaram isso no livro de visitas do site) Ahhh, então vc quer Harry e Kate, e deixar a Gina se roendo de ciúmes, hein? ahuhauaua :D Bem, pelo menos vc diz que se eles não ficarem juntos só vai ficar triste... o resto das pessoas me ameaça de morte e afogamento na privada! Uahuahuauha :D Brigada pelos elogios, que bom que gostou do cap ;) Pois é, vários mistérios a ser desvendados igual a várias complicações para kaka resolver uhauhauha :D Eu só arranjo para minha cabecinha msm... :p hehe Espero que continue gostando! Bjus!!! :)
RdkKamikaze: Obrigada mesmo!!! :) Espero que continue gostando e que eu consiga controlar o rumo da história, hehehe ;) Bjus! :D
Muito obrigada pelas reviews! :) Esse capítulo era para aparecer aqui mais cedo, mas eu fiquei um pouco bloqueada... :p Bem, mas ele acabou saindo e aqui está, espero que gostem ;) E agora, hein? O que vocês acharam dos sentimentos "perturbados" do Harry? Hmmm (kaka se preparando para pedradas) hauhauhaha Bjus! :) Hum... (kaka observando sua idéia doida) Bem, digamos que no próximo capítulo você saberá um pouco mais sobre a família da Kate e a vida dela... :) Eu tô mesmo devendo um pouco da história dela, hehehe :D Beijinho??? Hauhauhauhauha (kaka ri maleficamente) Você não me conhece, quando eu quero ser má... hahahaha :D Sobre a Mione e o Rony... eles são dois teimosos, mas até pra isso se dá um jeitinho ;) Bem, desejo uma boa viagem para você e espero que esteja se divertindo bastante! (ou, quando ler isso aqui, espero que tenha se divertido bastante ;) uhauhahuaha Uau, vc também quer afogar a Gina na privada... mas só a da CdE... hahaha :D Essas Ginas tão diferentes algum dia vão confundir minha cabecinha problemática, uhauahhaha :p Mtu obrigada mesmo pelos elogios, e espero que quando voltar de viagem, goste dos caps postados! :D Bjus! Oie, miguxa!!! :D Hum... se eu tirei o "pentelhinha" de Pérola Negra, aquela novela do SBT? Não, não... eu não vi essa novela (mesmo que duas amigas minhas vejam e amem de paixão... isso me lembra de quando elas começaram a discutir sobre a novela no meu aniversário, hauhauha) De novela do SBT, eu só vi A Usurpadora mesmo! :p hehehe Uhhh, quer dizer q vc gostou do Harry se culpando? Normal, vc nem gosta de ver o pobre apanhar, né? uhauhauha Pois é, me lembrou a TdS tbm, que saudade! (chuif) Aiai, pois eh... mas eu acho o Snape malvado, num tem jeito!!! Se bem que... depois que eu vi que ele é capricorniano e faz aniversário dois dias depois do meu... Sabe que fui mais com a cara dele? Um capricorniano só pode ser gente boa! Uahuhaauhauahuha :D (kaka imaginando o signo dos outros personagens) Hahahaha, o.k., miga, sei que não tenho mais desculpas... mas dessa vez foi um pequeno bloqueio, vc entende, não é? Mas até que não demorei taaanto assim... qnd eu tava na época de vestiba cheguei a demorar dois meses :p (kaka assustada) Uau, como os leitores agüentam? Uahuahuahuah Eu faço as pessoas sofrerem! Hehehe É isso, BJUS e já tô com saudade! :) Também te adoro, mininah! :) E fico feliz que tenha sentido falta das minhas fics nesse tempo que elas ficaram ausentes... significa que vc gosta mesmo! :D (pausa para kaka rir da sua revolta) Má, euzinha? Imagiiiina!! Uahuahuah :D Eu sou um anjo de candura! (pisca inocentemente) Oh... vc acha mesmo que os tios do Harry não farão diferença? Bem, mas algumas coisinhas ainda vão acontecer por causa dessa morte... hehehe (planos maléficos) Pois é, tem muita tristeza e desgraça... mas é que eu gosto de escrever isso, fazer o quê? (sangueee... sangueee... toca musiquinha de terror barato ao fundo) O.k., o.k., estou anotando seus pedidos... beijo... (esse num sei num... tô em dúvida... hahahaha) quebra pau de verdade entre Snape e Harry... (pode ser, sou fã de um barraquinho básico) É, vamos ver, vamos ver... Agora, chateada??? (kaka gargalha histericamente) Imaginaaaaaa que eu iria ficar chateada com essa sua review!!! Eu ri pacas, isso sim!!! Vc tava super cômica com sua revolta (que, digamos de passagem, é até bem justificada). E SEMPRE diga sua opinião sincera que é isso que eu quero ;) E enquanto vc se decide se é a Série ou a Nena que ficam na frente de quem (pegou mal, hein? uhauhaua), vou parando por aqui e dizendo que te adoro MTU (aliás, brigada mesmo pelo recadinho de feliz níver no meu GB ;) e bjões enooormes!!!! :D (kaka engasga e tosse) Primos??? Vc acha mesmo??? Pense outra vez... (kaka imaginando a reação das pessoas no final da fic e em quantos hipogrifos desembestados vão mandar atrás dela) Sim, sim... o que a Kate copiou no cemitério é muito importante... conduz ao final da fic... mas é um código, e vc tem que quebrar a cabeça para descobrir, hehehe :D Brigada pelos elogios, fico super contente que tenha gostado do cap novo da CdE!!! :D E a Neninha postei no sábado, se ainda não leu o cap novo, corre lá para ler!!! Hehehe Agora... o resultado do vestibular só vem dia 21 de janeiro... pertinho do teu níver, hehehe :D Vc faz níver um dia depois do casamento da minha mana :D O endereço do site que eu posto a CdE e todas as minhas outras fics está no meu profile do ff, entra lá e vê ;) (eu só não escrevo aqui porque endereço de site não formata no ff fresco :p) Espero que tenha passado um ótimo natal ;) Bjus!!! :D hahahaha, poxa, que maldade... afogar a Gina na privada... hehehe :D (kaka que acha isso super engraçado e usa sempre, desde que postaram isso no livro de visitas do site) Ahhh, então vc quer Harry e Kate, e deixar a Gina se roendo de ciúmes, hein? ahuhauaua :D Bem, pelo menos vc diz que se eles não ficarem juntos só vai ficar triste... o resto das pessoas me ameaça de morte e afogamento na privada! Uahuahuauha :D Brigada pelos elogios, que bom que gostou do cap ;) Pois é, vários mistérios a ser desvendados igual a várias complicações para kaka resolver uhauhauha :D Eu só arranjo para minha cabecinha msm... :p hehe Espero que continue gostando! Bjus!!! :) Obrigada mesmo!!! :) Espero que continue gostando e que eu consiga controlar o rumo da história, hehehe ;) Bjus! :D