Capítulo 14
Depois de suas recentes descobertas, Catherine já não sabia o que pensar nem mesmo sobre si mesma. Ela sentia vergonha, se sentia frustrada. Ir para o laboratório, ver Grissom e os colegas tentando resolver um caso no qual ela esteve envolvida, com um suspeito com quem ela se envolveu era horrível. Sempre que olhavam para ela, ela tinha a sensação de estarem desconfiando dela, de que nunca mais voltariam a confiar, de que a julgavam pelo que fez, e isso só a deixava pior. E o que eles pensariam se descobrissem que ela estava grávida de Josh? Ninguém além de Sara sabia da gravidez, e ela achava que esse era o melhor. Mas ela não conseguiria esconder por muito tempo. Tudo isso a estava deixando louca. Seus problemas eram uma grande bola de neve que a cada segundo aumentava mais e ela podia pressentir que logo se transformaria numa avalanche.
Num dos poucos intervalos que teve entre preencher a papelada e entregar relatórios, ela se permitiu descansar no sofá da sala de convivência. O olhar perdido no vazio de algo que só ela enxergava, uma xícara de chá esquecida de propósito entre suas mãos. O calor da porcelana migrava para sua pele, mas ela parecia nem notar, não se importava. Pensava se deveria contar a Josh... Queria contar, mas ao mesmo tempo pensava em qual seria a reação dele ao saber. E ainda tinha o fato de que ele estava sob investigação. A qualquer minuto poderiam prendê-lo, e o que ela faria, então? Será que suportaria? Ela não sabia bem o que era, só sabia que não conseguia se desprender dele. Era como ser separada da própria alma.
Ela foi afastada de seus pensamentos pelo som da porta. Sara passava pelo corredor e, ao vê-la ali, pensou em ver como ela estava.
_Oi! – ela cumprimentou – Tudo bem aí? Você parece triste...
_Não, estou bem! – Catherine forçou um sorriso para a colega.
_Bem de acordo com o possível.
_É. Quase isso.
_Parece preocupada. Contou ao Josh sobre... o bebê?
_Não. E nem sei se contarei. Ao mesmo tempo em que quero contar eu penso que não deveria. E também não sei onde encontrá-lo. Ele provavelmente se mudou depois de saber sobre a investigação.
_Talvez seja melhor deixar as coisas como estão e não dizer nada. O pessoal te apoiou e te ajudou com a Lindsey, tenho certeza que não vai ser diferente agora.
_Mas já é diferente, Sara. Tudo é diferente. Por mais canalha que o Eddie fosse, ele não era um criminoso procurado por assassinato.
Elas ficaram em silêncio, então. Sara não sabia o que fazer ou dizer, então apenas permaneceu ali, ao lado da amiga, oferecendo-lhe seu apoio. Até que Catherine levantou-se abruptamente, para surpresa de Sara, que apenas a olhava sem nada entender.
_Isso não pode continuar! - foi quase um lamento vindo das profundezas de seu ser, lutando para retomar o próprio controle.
_Catherine...
_Vou falar com ele. Terminar isso tudo de uma vez por todas. Ele merece saber,sim. Mas eu também mereço ter minha vida de volta!
Sara apenas a observava enquanto toda a dor e sofrimento que a colega vinha escondendo vinham a tona, agora, fazendo-a esforçar-se para conter as lágrimas.
_Cath, acalme-se.
_Não, Sara. Chega de me acalmar. Chega de todos sentirem pena de mim. Trata-se da minha vida e eu a estou deixando levar sem nem ao menos tentar lutar para retomá-la. Eu vou atrás do Josh. Vou encontrá-lo nem que seja no fim do mundo.
_E fazer o quê? Pedir a ele que se entregue? Sabe tão bem quanto eu que ele não fará isso.
_Eu não sei ainda o que vou fazer. Mas preciso fazer. - ela deixou a xícara sobre a mesa e saiu , lançando um último olhar à colega - diga ao Grissom que eu não voltarei hoje. Talvez nem amanhã. Tenho mais o que fazer e não estou com ânimo nenhum para preencher seus relatórios e cuidar de papelada que não me diz respeito. Se ele quiser me demitir, que o faça!
E então Sara viu a porta se fechar com estrondo enquanto a loira caminhava pelos corredores do departamento, sem destino certo, mas com uma confiança que lhe faltava há muito tempo.
Sara estava se preparando para ir embora ao fim do turno quando Nick a interceptou na saída do estacionamento. Ainda não estava certo do que queria lhe falar, mas ele precisava da presença dela e era reconfortante apenas estar ao seu lado.
_Oi. – ele a cumprimentou com um sorriso tímido. Estavam em frente ao laboratório não podiam se dar o luxo de trocar carinhos e palavras muito afetuosas.
_Oi, Nick.
_Escuta, eu vi a Catherine passar como um foguete pelo corredor mais cedo, você por acaso sabe o que aconteceu?
Ele se aproximou um pouco mais dela e encostou-se no carro esperando pela resposta. Sara manteve-se no mesmo lugar, as chaves na mão.
_Acho que ela vai atrás do Josh. –ela o olhou direto nos olhos, manifestando alguma emoção mais forte apenas naquele momento. – Estou preocupada com ela. Nós lidamos com os piores tipos de bandidos todos os dias, sabemos o que caras como ele podem fazer. E a Catherine se envolveu demais nisso tudo. Tenho medo de que ela faça alguma besteira e acabe piorando ainda mais as coisas.
_Não sabia que vocês eram assim tão amigas. – ele tentou fazer uma zombaria para quebrar o gelo.
_Nunca conversamos muito antes, é verdade. Mas ela me mostrou que pode ser confiável. Ela é uma boa pessoa, Nick. E está passando por algo que nunca poderia nem imaginar.
_Você sabe que eu também me preocupo com ela. A Catherine já se deu mal o bastante com os homens e sempre foi muito prudente e responsável. Acho que ela vai saber como lidar com isso.
Sara apenas assentiu com a cabeça, o olhar desviando-se para o horizonte de novo.
_Eu queria falar com você sobre um outro assunto. – a voz de Nick a tirou de seus pensamentos. Dessa vez, estranhamente ela não parecia estar completamente envolvida pela conversa. Poderia ser apenas por estarem em público ou... ou poderia ser algo mais.
E lá estava ele novamente, pesando em desistir como fez da primeira vez, pensando que seria uma má idéia. Talvez fosse o lugar, eles precisavam sair de lá.
_Queria tomar café com você. O que acha ?
_Uma grande idéia. – ela sorriu, olhando para ele. –Mas dessa vez, deixe que eu preparo. Não gostei daquela garçonete do outro dia.
Ele sorriu para ela, quase incapaz de segurar a vontade de abraçá-la. Sara arremessou as chaves para ele e foi para o banco do carona.
Eles foram para a casa de Sara e ela preparou o café da manhã para eles. Enquanto comiam, conversavam sobre os últimos anos, sobre o que fizeram antes de se conhecerem. Nick contou sobre seus pais e Sara disse que ficaria feliz em vê-los novamente. De um modo convencional, agora. Quando os conheceu, Nick havia sido seqüestrado e eles mal se falaram.
Um pouco depois, no entanto, Sara o notou ficar calado. Ela sabia que havia algo que ele queria lhe dizer, e não entendia por que ele não falava.
_Nick, aconteceu alguma coisa?
_ Não, não aconteceu nada.
Enquanto ela pensava no que dizer, ele resolveu que não podia segurar mais. Seria uma pergunta simples. Ele faria uma oferta e ela responderia. Mas e se ela dissesse não?
_Eu quero falar com você... – ele começou – Sobre nós dois.
Sara estreitou os olhos para prestar mais atenção em onde ele estava querendo chegar.
Ele continuou:
_Talvez você pense que é um pouco precipitado, mas eu aprendi que não existe precipitação, um dia você está aqui e no outro pode não estar, então tem que se dar todas as oportunidades que puder. E tudo que me aconteceu desde aquele dia no escritório tem sido tão maravilhoso que eu preciso tentar.
Ela o olhava agora com um ar desconfiado. Ele estava nervoso e ela não sabia o que poderia esperar dele. Até que o viu pegar uma pequena caixa em seu bolso. Seu coração pulou uma batida. Não acreditava que ele estava pensando em...
_Sara?
_Sim? – ela respondeu com a voz levemente trêmula. Não conseguia tirar os olhos da pequena caixa e via que ele estava tremendo.
Nick abriu a caixa e ela viu uma pequena sombra prateada e brilhante.
Era uma chave.
_Quero que você fique com isso. – ele disse, entregando o objeto para ela.
_É uma... – ela nem podia falar. Esperava outra coisa bem diferente quando vira a caixa, mas de certa forma estava até aliviada.
_Sim, é uma cópia da chave do meu apartamento. É uma prova de que eu gosto mesmo de você e quero compartilhar tudo que tenho com você.
_Eu nem sei o que dizer.
Ela continuava olhando fixamente para a chave, agora em suas mãos.
_ Eu não estou te pedindo para morar comigo definitivamente. Sei que você gosta de ter o seu espaço. Mas assim você não vai precisar tocar a campainha toda vez que quiser me ver. Ou quando esquecer algo lá.
Ele sorriu para ela, que parou de olhar o objeto em suas mãos como se estivesse em transe e então se inclinou para beijá-lo muito levemente nos lábios. Nick correspondeu, aprofundando o beijo e abraçando-a ela cintura. Sara era diferente da maioria das mulheres e estar com ela era uma surpresa a cada dia. Trazendo-a muito próximo de si ele notou que a desejava naquele momento com tanta urgência como jamais precisou de outra. E quando as mãos dela subiram até os botões da camisa dele, abrindo-os devagar, ele pressentiu com um prazer pecaminoso o que aconteceria a seguir. Em instantes seus corpos estariam entrelaçados um no outro, eles se uniriam em um só, gemidos de êxtase explodiriam pelo aposento e ela esconderia o rosto no pescoço dele para abafar os gritos. E então, dormiriam nos braços um do outro, até que fosse dia e eles tivessem que se separar para voltar à vida cotidiana que os afastava.
