Morrígan, a rainha fantasma, sempre me deu medo. A deusa da guerra, associada com a vingança, premonição e a morte. Nas lendas, ela assume uma forma de corvo e sobrevoa o campo de batalha, pousando nos ombros de guerreiros.

Suas vastas formas, suas lendas contraditórias, sempre faziam os pelos da minha nuca se arrepiarem, e deixavam um gosto amargo na minha boca. Quando menino, ao virar o rosto sempre via os corvos voando na janela, sem conseguir desviar deles quando invadiam meus sonhos. Seus bicos rasgando minha carne sem escapatória.

Eles sempre estavam lá, vigiando. Esperando algo que não conseguia entender.

Morrígan também era a deusa do destino.

E o destino, é aquilo do qual você não escapa.

...

Não vá.

Eu não tenho escolha.

Odiava admitir, mas estava com medo. Sempre sentia medo perto de Obito, mas dessa vez era ainda pior. Por isso havia feito um desvio para seu quarto, lutando contra o cansaço que ainda sentia.

Hesitou por alguns segundos mirando o compartimento da mala, olhando para trás, mesmo sabendo que Sai devia estar ainda no refeitório naquela hora.

Por fim foi com seus instintos e pegou a arma e a colocou em seu cós nas suas costas, a cobrindo com a camisa.

Apenas por precaução.

Olhou a adaga por alguns segundos, mas a deixou lá, voltando a fechar a mala com um suspiro.

Não vá Naruto, não vá.

- É só uma conversa. Ele não vai fazer nada.

Sussurrou, mas pareceu tão hesitante quanto se sentia, sentado na penumbra.

Eu não posso te proteger ainda. Não vá.

-O que quer dizer? – franziu o cenho. – Quem é você. Não é só uma alucinação, não é?

Quando falou isso, percebeu mais que era verdade. Havia cogitado transtorno dissociativo de identidade. Havia tentado reparar apagões, perguntar casualmente a sai se agira estranho, mas nada.

Ainda assim, não parecia correto. Havia...um nome, as vezes, na ponta da sua língua. Uma lembrança, que sumia e o deixava exausto e frustrado quando tentava lembrar.

Sabe quem eu sou.

A voz falou mais quietamente,

Não tinha tempo para isso. Não agora.

-Estou com medo. – Admitiu. – Um pressentimento ruim.

Não vá.

Tinha que ir. Não tinha escolha nisso.

Nunca tinha.

...

Naruto apressou o passo. Em sua cintura a arma gelada lhe atrapalhava um pouco a andar. Havia passado por alguns alunos, mas simplesmente os ignorou.

Sabia a razão da convocação, prestar explicações por ter salvo Hinata.

Apesar de tudo, não se arrependia. Nunca poderia ignorar uma situação como aquela. E não apenas por ser Hinata.

Não era assim.

Tentou não pensar muito no que o esperava no gabinete, somente passava pelos corredores enquanto uma tempestade caia lá fora, ruidosamente, junto a raios e trovões incontroláveis.

Quando viu a porta da diretoria aparecer em sua visão, sentiu o coração acelerar. Tentou o acalmar, lembrando de tudo o que havia treinado, aprendido e até feito em sua vida. Se ele tentasse algo, iria honrar seus treinos exaustivos. Seu avô havia lhe treinado para isso, para que pudesse se proteger de seus monstros certo?

E Obito era um deles no momento. O pior deles.

Engoliu em seco, a mão tocando a madeira, mas sem a abrir.

Terá a coragem de atirar se preciso?

A pergunta foi feita quietamente. Quase suavemente.

-Sim. – sussurrou.

Esperava que sim.

O medo só piorava. Seus instintos nunca falhavam, confiava e os seguia sempre, mas naquele momento não havia escolha. Não poderia, por sua família, iria defender as pessoas que amava, tal como seu pai fazia sempre. Não queria ter arrependimentos no futuro por não ter ao menos tentado. E se negar agora, era colocar todos eles em risco.

Empurrou a porta, olhando a sala da qual lembrava bem, a semanas atrás ter visto Sasuke pela primeira vez, sentado naquela poltrona com suas feições sérias de sempre. Lembrava bem das sensações estranhas que ele lhe trazia, que agora não existiam mais, pelo menos parte delas.

Não queria mais fugir dele, e sim com ele. Fugir daquele inferno com ele.

Lembrava-se bem da atração que sentiu, foi instantâneo, foi platônico. Tão simples como respirar.

Por um momento enquanto caminhava para a grande porta de mogno, imaginou como seria sua vida se fosse um garoto normal, se conhecesse Sasuke em um lugar qualquer, e pudessem ter uma vida simples como muitos outros. Onde pudessem ficar juntos sem ter medo do que aconteceria a seguir, sem ter medo de no fim, alguém acabar morto.

" Um lugar onde eu pudesse realmente dizer o que sinto por ele, sem ter medo. Sem ter esse medo de até pensar nisso..."

Atravessou a porta, a fechando em seguida. A sala de espera estava vazia, o computador da secretaria desligado, o aquecedor ligado zumbia baixo enquanto a chuva batia contra a janela como se quisesse invadir o local.

Parou, respirando fundo, se concentrando. Olhou para a grande porta de madeira escura e tomou coragem. Caminhou até ela, tocando a arma em sua cintura se certificando que ela continuava ali

Entrou na sala, vendo-o sentado em sua mesa, o olhar na tela do ultrabook . Seus olhos passearam pelo gabinete, parando em um dos animais, que notava nunca ter visto ali. A cabeça de uma raposa do ártico, de pelos brancos e olhos castanhos. Naruto engoliu em seco ao imaginar que aquela seria a nova aquisição para a coleção de Obito, e o quanto aquilo parecia ser uma coincidência bizarra.

– Que bom que veio rápido, Naruto, sente-se. – Acenou sem olhar para o loiro, começando a digitar. – Sabe bem qual o motivo, correto?

– Sim

Ouviu profanidades em irlandês na sua mente e franziu o cenho com isso. Estava começando a ter uma dor de cabeça com a potência da voz naquele momento. Parecia mais alta, mais clara.

-Sente-se, não vou me repetir.

Foi devagar até a mesa, se sentando pouco torto pela arma, mas tentou disfarçar. Sentia-se incomodado com toda aquela formalidade com Obito, sabia que ele não era sim sério, geralmente não era, então só esperava que ele não viesse com nenhuma outra bomba para si.

– Ajudou outro participante, isso consecutivamente lhe resultou num grande e redondo zero na prova. O que lhe fez despencar na tabela. Não acha que foi muito atrevimento o seu fazer tal coisa? Esqueceu do que pode acontecer se perder?

Seu tom havia se alterado, os ônix finalmente se direcionando ao loiro, o mesmo olhar homicida que havia visto no dia anterior, um misto de irritação e preocupação.

– Eu fiz o que tinha de fazer, ela iria morrer afogada. – tentou falar o mais calmo possível

– Que morresse afogada! Isso não tem nada a ver com você, seria até um favor! – o homem bateu uma mão na mesa com força, o eco após sua voz alta agourento.

Havia prendido a respiração, os dois se fitando.

Soltou o ar devagar.

Um barulho o fez olhar para a janela e ver uma forma escura, mesmo na chuva. Um pássaro pousando no umbral.

Um corvo.

Sentiu os pelos da sua nuca se arrepiarem, os olhos voltando ao homem que ainda continuava a lhe fitar com desagrado.

– Eu não vou e nem irei ficar parado vendo uma pessoa morrer, sem que eu faça algo para impedir. Não sou como você. – Naruto dizia, seus olhos fixos nos do mais velho, determinados. – Eu não nasci para isso.

– Eu sei que não. – Obito se levantou, seu tom abrandando, mas ainda fitando a bela face do loiro. Que mantinha as sobrancelhas arqueadas, os braços cruzados rentes ao tórax, e uma expressão azeda. – Não tem como alguém como você ter nascido para ser das trevas. – Rodeou o mogno indo até umas das estantes, deslizando os dedos pela capa envelhecida de um dos livros. – Nunca...

– O que quer dizer? – se virou para olha-lo. Obito parecia pensativo, ainda alisando o livro.

– Nada de especial, raposinha. – Se virou dando um de seus típicos sorrisos cínicos. Que não alcançavam os olhos muito escuros. Estes ainda chispavam irritados. – Somente uma divagação.

– Sei.

– Alias... Eu vi como se aproveitou do fato dela estar inconsciente. – disse entre dentes, suas mãos começando a abrir e fechar, como se fosse um tique nervoso. – Aquilo foi mais um beijo que uma ressuscitação, Naruto.

Seu sangue gelou e suas mãos tremeram.

"Eles apenas...ele não tentou insinuar o que acho que tentou?"

Eu o quero morto.

A voz crispou, parecendo mais descontrolada do que antes.

Respirou fundo.

–Está dizendo que eu... Olha aqui, eu nunca, escute bem, NUNCA me aproveitaria de alguém inconsciente. Diferente de você Obito, eu luto pelo o que eu quero.

– Eu também luto pelo o que eu quero. – o olhar dele se fixou mais em seu rosto. E havia algo mais além de raiva. Que reconhecia bem.

Maldito. Ele sempre...

– Luta ou tenta comprar o que quer?

Ergueu da cadeira devagar. A voz estava ainda mais agitada em sua mente, fazendo seu coração acelerar mais. Havia tanta...raiva ali, que seu medo parecia diminuir.

As pupilas do moreno se dilataram, Naruto estava perto demais, e não estava recuando enquanto se aproximava. Podia ver as hastes de tom azul marinho que riscaram íris azul céu perfeitamente. Os cílios longos e loiros, as cicatrizes assimétricas, o modo que eram desenhadas as sobrancelhas angulosas perfeitamente esculpidas para aquele lindo rosto. Os cabelos de tom dourado sempre desalinhados de modo charmoso, caindo em sua testa e olhos. Mas não podia se esquecer dos lábios rosados e carnudos, que tinham as belas ondulações fornecidas pelo nariz pequeno e delicado, cheio de sardas. Ele era lindo, de uma forma tão arrebatadora, que Obito se sentiu privilegiado pelo o que via.

– Eu sei o que me pertence. – disse com prepotência, mesmo estando deslumbrado demais com a proximidade. Os olhos dele estavam resguardados, ariscos. Notou que ele fitava a porta brevemente.

Tentando escapar. Sorriu com a ingenuidade do garoto, se colocando entre ele e a porta.

"Não dessa vez."

Ergueu uma mão para tocar no rosto do outro, mas não teve a oportunidade. Rápido como nem mesmo sabia que ele seria, o garoto desviou da sua mão e golpeou sua garganta. Deu um passo para trás, sem ar, segurando o lugar que foi golpeado e tossindo de olhos arregalados. Viu o movimento pelo canto dos olhos enquanto sufocava, ele tentando passar para a saída.

Não iria o deixar escapar. Ainda mais depois daquilo. Moveu-se rápido, já se recuperando do golpe, e o empurrou contra a estante com violência, agarrando o pescoço do garoto com as duas mãos.

Havia perdido sua chance de escapar, e com a garganta bloqueada e, sem escolha, Naruto arrancou da cintura a arma com a mão destra, prensando o bico dela em um "lugar especial".

Em outra situação, teria sorrido com a face surpresa do mais velho, que soltou devagar seu pescoço:

– Bom... Agora me deixe ir. – Falou entre dentes, sua voz rouca. – Para de me tratar como um maldito objeto, eu não sou seu...

Não houve tempo de falar muito. Obito agiu rápido, sua mão direita pausando com força no ombro esquerdo do menor, que tentou se desvencilhar, mas antes que conseguisse viu a mão fechada em punho vindo em direção ao seu rosto.

Da maneira mais rápida que pôde jogou o corpo para o lado evitando de ser acertado em cheio. O golpe atingiu os livros atrás da sua cabeça ao se agachar. Se desvencilhou da mão e recuou rapidamente. Infelizmente, para mais longe ainda da saída.

Atire nele.

Calculou suas chances, teria que pular por cima da mesa para alcançar a porta. A essa hora os estudantes estavam saindo, ele não o perseguiria pelos corredores.

Se ele impedisse sua saída, teria que passar por ele. Atiraria se preciso.

Seu intento pareceu claro, pois logo o homem estava avançando em sua direção, bloqueando sua saída ainda mais.

Puxou a arma por instinto, o cano escuro apontado para o mais velho, pesado em sua mão.

Atire.

-Não tem coragem de atirar, e sabe disso. – o homem zombou.

-Me deixa ir. – sua voz soou firme, mas firme do que sentia. – Já deu seu recado, eu já entendi.

Os olhos escuros ainda pareciam mais insanos. A boca contorcida no que deveria ser um sorriso.

Atire nele, ele não vai te deixar ir!

-Não, não entendeu.

Ele continuou a avançar.

-Pare! Não se aproxime!

"Dor. Medo. Traição. Olhos quase vermelhos na escuridão, enquanto a lâmina contornava seu rosto.

-Você prefere morrer...Pois bem, você vai morrer. Mas antes, vai aprender sua lição. Acha que não posso subjugar um deus?"

ATIRE!

Seu dedo pesou no gatilho e disparou. A Beretta 93R¹ saltou em sua mão, mas quase não sentiu o tranco, seus olhos azuis arregalados não piscavam concentrado, e ao mesmo tempo estupefato.

Ele havia desviado, se jogando no chão no exato momento em que o projétil o vidro da janela, que se estilhaçou em brilhantes cacos, deixando pouco da chuva e do vento gelado entrarem.

Havia...realmente atirado. E mirado na cabeça.

Formas escurecidas voaram com o barulho e os pedaços de vidro.

Corvos.

Foco! Não tem tempo para isso! Se não vai mata-lo, fuja daí!

Balançou a cabeça, ele estava certo.

Correu em direção a porta, mas teve de praticamente se jogar para o lado direito. Sentindo o vento do punhal que passou por centímetros do seu rosto. Essa ação o pegando de surpresa.

– Ah, Naruto querido, você me pressiona tanto que eu tenho de fazer o que não quero. – Seu tom decepcionado surgiu juntamente consigo que se levantou, ajeitando o terno escuro. – Mas quem começou foi você, então... – Naruto deu um passo para trás se posicionando, a arma sendo segurada pala mão direita e apoiada pela esquerda, sendo apontada para o homem que agora saia de detrás do mogno. Falando de maneira sarrista: - Terei de dar-te o troco a altura.

"Atire!"

Naruto hesitou por um momento, e esses segundos, em que hesitou puxar o gatilho da arma, foram bem aproveitados por Obito. Ele retirou de seu bolso mais um pequeno punhal, do qual havia pegue na gaveta de sua mesa, e o atirou na direção do outro, sutilmente.

Mal teve tempo para tentar sair do caminho, e sentiu a lâmina rasgar seu ombro esquerdo. Soltou uma exclamação de dor, abaixando instintivamente a arma que era segura somente pela mão esquerda, enquanto a direita era levada ao ombro ferido de raspão.

Fitou o mais velho contendo a expressão de dor. Uma outra cena clara na sua mente. Um barco, redes, cheiro de maresia. E uma faca rasgando seu rosto.

"Você me pertence agora, Isaak."

O Uchiha se sentiu mal instantaneamente, não era sua intenção o ferir daquela maneira, lembrava o quão delicado, frágil e inocente ele era e que não merecia nenhuma dor. E arrependido, deu um passo na direção do menor, no intuito de o socorrer. Mas foi repelido com um tiro no chão, que quase acertou seu pé.

– Não chegue perto de mim! –gritou, ainda segurando o ombro, de onde uma quantidade relativamente grande se esvaia, molhando sua camisa. Levantando os olhos azuis para si. Ameaçadores. – Não chegue perto!

Obito mordeu o lábio, sua expressão se endurecendo com aquelas palavras cuspidas do loiro. Sentindo seu peito doer com aquelas ferinas palavras, dando conta que, aquele não era mais o garoto que sempre idealizou em seus sonhos, não tinha nada de frágil, nem delicado, muito menos inocente. Era outro, outro completamente diferente.

E ele não tinha misericórdia de si.

Naruto ergueu-se se recompondo, mas ainda mordendo o lábio. Ofegando levemente pela maldita dor que ricocheteava de seu ombro e por todo seu braço, havia sido fundo, tinha certeza.

Não podia mais hesitar. Obito não estava hesitando.

Ao levantar a arma, no entanto, ela simplesmente voou de sua mão.

Arregalou os olhos surpreso, pela rapidez incrível do chute certeiro do mais velho, que agora avançava sobre si. Naruto desviou dos primeiros golpes, ainda estupefato do que acontecia. Obito era simplesmente incrível lutando, o loiro admitia que, ele chegava a ser melhor que si, era rápido e tinha coordenação e equilíbrio exemplares, estava se esforçando ao máximo para conseguir fugir dele. Tentou atacar, tomando espaço, mas nem tinha tempo de pensar em algo, e ele já estava a sua frente, com socos rápidos. Nem viu quando seu traseiro encontrou com a mesa de mármore que ficava perto da parede, ali era o ponto final para que pudesse fugir.

Tinha de agir de qualquer maneira. E por um momento, sentiu novamente a sensação, aquele frio na barriga, mas que foi mais um impulso para que o atacasse.

Viu-o se equilibrar sobre a perna esquerda, o corpo flexionando enquanto a perna direita vinha em sua direção, na altura de suas costelas. Iria ser atingido, iria, se não sentisse aquela descarga estranha em seu corpo e, num ato que surpreendeu a ambos, segurou o outro pelo tornozelo, centímetros de o acertar. E antes que Obito fizesse algo, agarrou com as duas mãos seu tornozelo e com força o jogou para o lado.

O mais velho bateu contra a porta fortemente, suas costas doendo com o impacto, e ofegante, viu o loiro se inclinar por debaixo da mesa de mármore, tentando alcançar a arma que havia caído em algum lugar ali. Grunhiu alguma coisa raivoso e trancou a porta, se recompondo tão rápido que era como se não tivesse levado uma pancada tão forte como aquela. Seus passos foram largos e rápidos e num segundo estava atrás do garoto.

Naruto via a arma a poucos centímetros de sua mão, debaixo da estante. Mas sentiu seu ar se extinguir quando notou a presença atrás de si, e logo em seguida, antes de se mover para fora dali, teve a cintura agarrada e puxando para trás, para fora de debaixo da mesa.

Se moveu rápido, girando o corpo se livrando das mãos atrevidas, pronto para dar um chute para acerta-lo, quanto sentiu algo esmurrar sua testa. Tamanha a força o fez bater a cabeça no chão, um baque sendo ouvido pelo mais velho.

"Fique acordado! Tem que sair daí!" – a voz gritava em sua cabeça, de maneira descontrolada.

Naruto por segundos se desligou, uma dor pior que a de seu ombro alastrando por sua cabeça, começando pelo local, acima da nuca, e piorando junto aos gritos histéricos. Seus ouvidos apitaram alto quando conseguiu abrir os olhos, as imagens dançando em sua visão, mas pôde ver que acima de si tinha alguém. Isso o fez despertar pouco mais.

Obito tinha uma perna de cada lado do corpo menor, seus braços sendo seu sustento, inclinado, seu rosto a centímetros do rosto do garoto. Fitando com intensidade as belíssimas safiras confusas, completamente extasiado pela proximidade de ambos.

"NARUTO!"

Arregalou os olhos de susto, alerta após o grito, retomando o movimento do corpo, mesmo de maneira descoordenada. Tentou o chutar, mas Obito foi mais rápido e sentou sobre suas coxas. Fechou as mãos em punhos e da maneira mais rebelde possível, avançou sobre ele. Mas ainda se sentia grogue pela pancada, e o outro lhe segurou facilmente, juntando suas duas mãos e as segurando.

– Ahah, me solta! – grunhiu, movendo o corpo para os lados, tentando se livrar do maior.– Se afaste!

Anos treinando. Anos se preparando, e ali estava. Indefeso novamente.

Engoliu o choro ao pensar nisso. A voz continuava gritando em sua mente, e mal a conseguia entender.

– Shiiii... Caladinho... – puxou seus braços o forçando a ficar cara a cara consigo. – Hum, perdeu seu brinquedinho? – sorria, fitando a expressão do garoto, que era um misto de raiva e medo. – Que pena meu amor, acho que sem ele, contra mim, você não tem chances...

Naruto sabia disso. E sentiu o seu pavor aumentar com a constatação.

– Me solta! Seu desgraçado! Me solta! – gritou, se chacoalhando abaixo de Obito, tentando se soltar a todo custo. Em sua cabeça os gritos nunca acabavam, e agora se misturavam com gritos infantis, uma lembrança que a todo custo tentara enterrar em sua mente e que agora emergia de forma dolorosa.

"Isso de novo. Não. Isso de novo."

Sentiu a cabeça rodar pela pancada, e latejar de forma aguda. Mordeu o lábio deixando os belos olhos azuis em fendas. Não podia se render assim. Não depois de tudo. Não podia deixar tudo ser em vão.

Obito por um momento achou que o loiro iria desmaiar pela expressão estranha que fez, iria lhe perguntar se estava bem quando ele arregalou os olhos e, num movimento completamente inesperado e forte, se soltou das mãos do mais velho e conseguiu acertar-lhe um soco em sua mandíbula.

Obito caiu de costas no chão. Naruto levantou-se devagar, sem equilíbrio, se apoiando nas coxas. Sentia-se desorientado, sua cabeça latejando, os ouvidos zumbindo. Levou o olhar para o moreno, que estava tentando se sentar enquanto o xingava de maneira descontrolada.

Naruto não conseguia conter sua respiração avantajada ou se erguer, e por fim, levou a mão para o ouvido esquerdo, o tocando para levar a mão à frente do rosto.

Sangue. Seus dedos estavam sujos de sangue.

"Contusão." – pensou fechando a mão suja em um punho. Isso explicava muita coisa.

Já chega, me deixe assumir.

A frase o deixou confuso. Mais confuso do que já se sentia. Era...familiar...

"Eu não consigo... pensar direito...eu não..."

– Garoto... – Naruto se surpreendeu com a voz do mais velho, estava perto, a sua frente, aquela pancada tinha sido realmente forte, pois estava lhe afetando até os sentidos. Levantou o rosto estático para olha-lo, quando levou um soco na bochecha.

Praticamente despencou ao chão, batendo novamente com a cabeça.

Obito o olhava ofegante, um filete de sangue escorria pelo canto de seus lábios, os olhos negros não mostravam sentimento algum, somente um vazio sem igual. O Uchiha já havia se sentido assim algumas vezes, como se não comandasse o próprio corpo, com uma ira que o deixava cego.

Deu um passo duro na direção do garoto que estava estendido no chão e lhe acertou um chute, na altura das costelas. Dois, três, chutes com a mesma intensidade no mesmo local. Ouviu-o gemer, e logo gritar ao novamente o acertar, sentindo algo se partir abaixo de seu pé. Sabia que devia ter quebrado uma de suas costelas, mas isso somente o fez sorrir.

Naquele momento não importava se aquele era o homem dos seus sonhos, não importava que ele fosse o significado de estar vivo. Não importava com nada além da vontade de o ferir. Ele era só mais uma presa. Uma caça.

Naruto ofegou e tentou se encolher, virando para o lado esquerdo. Isso fez o moreno sorrir e o empurrar pela barriga com o pé para que voltasse a posição anterior. Mas como ele resistiu, lhe acertou um chute no estômago.

– Naruto você não sabe quem irritou...

– Vai se foder. – O sussurro sem fôlego foi como uma faísca na palha. " Você é fraco...Precisa de mim...me deixe assumir"– CALE A BOCA!

Obito o empurrou com força para o lado ao receber aquela resposta, assumindo a mesma posição de antes, sobre as pernas do garoto.

O rosto pálido estava suado, sangue escorria por seus lábios entreabertos, um tom rosado tomava conta da lateral esquerda de sua face. Seus cabelos loiros estavam desgrenhados e sujos de sangue. Sua camisa preta amarrotada e suja do líquido carmim, que nela se tornava negro, mostrando um pouco de seu torso e tinha um rasgo no ombro onde havia sido esfaqueado.

Os lindos olhos azuis arregalados, o fitavam desfocados.

Naruto sabia bem que tinha de se livrar dele rápido, mas seu corpo estava entorpecido pela dor. Doía respirar, o ar parecia teimar em passar para seus pulmões, e quando o faziam pareciam estar se enchendo de ácido. Sua cabeça latejava, seus ouvidos apitando, e quase não conseguia ouvir direito.

Foi só quando viu o moreno se inclinar sobre si, e tocar a parte descoberta de sua barriga, deslumbrado, que encontrou forças, junto ao terror, para tentar se afastar dele novamente. Suas mãos se fecharam em punho e num ato débil, traçaram seus caminhos para a face e peito do mais velho, sendo segurados com facilidade.

– Vamos ficar agora com as mãozinhas para cima. Sim? – levou as mãos dele para cima da cabeça com uma mão, e com rapidez retirou de seu torso um punhal este que, com força, cravou no meio das palmas das mãos unidas do garoto.

O grito foi rouco, longo e desesperado. Seus olhos se encheram de lágrimas que transbordaram no mesmo momento. A dor era surreal, pior que as que sentia antes, muito, muito pior. Sentia algo molhado em seu couro cabeludo, e sabia o que era. Seu raciocínio estava lento, sentia um torpor estranho e repentino.

Era incrível como seu corpo doía.

– Não! Não! – gemeu ao se mover, mas não ficaria parado, estava à mercê dele, e isso não deveria acontecer!

Tentou chutar, espernear, mover o corpo de qualquer maneira, mas toda às vezes doía. Obito se levantou um pouco se inclinando sobre si, agarrando-lhe o queixo para que não fugisse, tomou-lhe os lábios num ato forte e sôfrego, com um sentimento nostálgico para ambos, horripilante e nojento para o garoto, maravilhoso para o mais velho.

Ele tentou o invadir, mas o loiro cerrou os lábios com força, assim como os olhos, fazendo com algumas lágrimas escorressem por seu rosto. Obito se afastou devagar, mantendo os olhos semicerrados, aquela boca carnuda, tão convidativa e deliciosa, como sonhou com um dia toca-la daquela maneira.

Queria muito mais!

Novamente o beijou, agora, agarrando o pescoço dele, o estrangulando. Naruto sendo obrigado a abrir a boca para respirar, engasgado, teve a boca invadida pela língua lasciva do outro. Moveu a cabeça tentando escapar dele, mas a tontura parecia piorar. Sentiu as mãos geladas trilharem por dentro de sua camisa, arrebentando os botões de suas casas, deixando nu seu torso. As mãos famintas foram para seus mamilos os apertando dolorosamente.

Naruto gemeu de dor, e, notando que tinha as pernas livres, chutou descontroladamente. Seus movimentos descoordenados, mas com força, assim o beijo sendo quebrado abruptamente.

Seus olhos estavam arregalados em desespero. Há anos não se sentia assim, tão impotente e indefeso.

E da última vez, havia acabado com seu avô morto.

Zonzo, grogue, seus olhos varreram ao redor em busca de uma solução uma saída, notando pela primeira vez os corvos na janela, parados na chuva. Os olhos vermelhos o fitando, e nem mesmo conseguia saber se eram uma ilusão ou não.

Me deixe assumir!

Desnorteado, em agonia, apenas o pensamento mais estranho surgiu em sua cabeça.

"Sasuke..."

O rosto do outro surgiu com clareza, acima das imagens grotescas de seus monstros.

"Sasuke...por favor..."

Das últimas vezes, sempre havia conseguido no fim salvar a si mesmo. Não daquela vez.

Precisava ser salvo. E o rosto dele era de quem aparecia em sua mente. Sabia, de modo instintivo, que ele seria o único que poderia o ouvir naquele momento.

"Sasuke...pro favor...me ajude…Sasuke!"

...

Era como um animal selvagem, arisco. Aquilo o irritava em demasia, o fato de que não conseguia prevê-lo, contê-lo. Ele teria que domar Naruto, nem que fosse a última coisa que fizesse, ele ia quebrar aquela sua petulância. Iria quebrá-lo.

O beijo foi interrompido por um chute recebido em seu tórax, e grunhiu, caindo para trás no carpete oriental sentindo o ar lhe faltar por segundos. Encarou os olhos azuis lacrimosos crispados pela ira, sendo domado por um frenesi puro de raiva. Quem Naruto pensava que era para negá-lo?

Voltou a avançar, sendo recebido por mais um chute descoordenado, que segurou facilmente, acabando com o problema ao pressionar o tendão da perna do outro com o polegar, a fazendo cair imprestável. Ouviu um arfar indignado com isso e sorriu, e quando a outra perna fez o caminho para lhe acertar o rosto, lhe deu o mesmo serviço, removendo no processo a calça de frio do adolescente que gritava algo que não ouvia, preso na contemplação.

Durante segundos, ficou deslumbrado, sua mente apenas misturando imagens de seus sonhos com a cena do corpo pálido em contraste com o tapete escuro, os cabelos muito claros estavam colados no rosto, alguns fios espalhados ao redor, e aqueles olhos tão grandes e expressivos…que o olhavam com desprezo.

Estreitou os negros, e o viu tentar se mover, cravando ainda mais o punhal que usou para contê-lo na carne ferida, dando um grito surdo.

– O aconselho a ficar paradinho meu anjo. – Falou com a voz zombeteira. – Acho que você vem precisando de uma liçãozinha há muito tempo.

Sorriu de lado e abaixou-se, contemplando o corpo finalmente parado. Passou os dedos trêmulos, a boca quente, pelo corpo do outro, sentindo-os, querendo confirmar se era realmente ele ali, se era real. Subindo as mãos, sentindo toda a textura, todos os mínimos detalhes, parando na boca machucada, uma das partes mais belas em Naruto. Os lábios deles tremiam.

– Meu animalzinho selvagem. – Sussurrou no ouvido do mais novo. – Eu sei bem como deixar você manso.

– Eu te odeio. - Ouviu a voz baixa e trêmula. Fitou os azuis intensos em si, cheios de nojo. - Não é um homem, não passa de um maldito covarde.

A raiva crispou no Uchiha que o estapeou com força, virando seu rosto. Agarrou o queixo e tentou beijá-lo novamente, sendo mordido de pronto, o que o fez se afastar com um xingamento, a tempo de ter sangue cuspido em seu rosto. Limpou-o devagar e o encarou. Naruto riu respirando rápido. Era surreal. Os olhos azuis estavam cheios de lágrimas, o sorriso dolorido e cruel demais nos lábios feridos, cruel demais para o rosto de um anjo.

– Não devia ter feito isso, meu amor. – Riu tocando o lábio ferido. – Não repita isso.

– Covarde... – O queixo do outro tremia, desafiante. - Sasuke e Itachi são muito mais homens que você.

– Você está testando minha paciência meu anjo. – Cuspiu e o estapeou mais forte. Agarrou-lhe os cabelos loiros com força, o suficiente para que alguns fios fossem arrancados o obrigando a olhá-lo. - Você fica bem mais bonitinho calado.

O ouviu conter um gemido, os olhos se fechando de dor por segundos.

– Vai se foder, Uchiha. – Sibilou.

Era o limite de Obito, seu instinto o tomando. Mandou-lhe a cabeça de encontro ao chão. O corpo abaixo de si amoleceu de imediato. Abaixou-se e viu os olhos azuis vazios vidrados no lustre do teto, subitamente aéreo.

– Eu vou foder você, bem melhor. – Riu no ouvido do mais novo, que não reagia mais, preso em sua desorientação pela pancada violenta. Arrancou-lhe a última peça de roupa sem resistência. – Quem sabe assim você aprende de uma vez meu anjo.

Ajoelhou-se entre as pernas macias, e começou a beijar-lhe o corpo com devoção. Mordeu os mamilos, a clavícula, subido para o queixo pela cabeça que o outro tombara. Sua mão desceu para a intimidade do adolescente, apoiando-se em uma mão perto de sua cabeça, enquanto com a outra o masturbava.

– Sasuke...

O sussurro baixo o despertou, o deixando imóvel por segundos surpresos, até a ira novamente o tomar.

– Não o chame. – Sibilou o soltando e agarrando-lhe o queixo com força, ouvindo um gemido quando o movimento puxou suas mãos. – Cala a boca!

– Sasuke...por favor...me ajude... – ele parecia desligado, os olhos semicerrados.

Crispou os seus, respirando com força.

– Eu vou mostrar a você, de quem você é de verdade.

Levou três dedos de uma vez para dentro do garoto, que pareceu despertar e gritou, os olhos azuis se arregalando, as pupilas dilatadas. Começou a movimentá-las, e o outro tentou se mover para trás, se impulsionando, querendo fugir.

– Não!

Removeu os dedos que vieram cobertos de sangue pelo ato brusco. No mesmo momento ouviu o primeiro soluço, mas nem isso o moveu. Nem os murmúrios o pedindo para parar enquanto ele continuava tentando se mover com vontade redobrada se impulsionando para trás, e se machucando ainda mais no processo.

-Não...não...

-Você merece isso, meu anjo. - Abriu a calça, se liberando do aperto em que se encontrava desde que ele entrara ali. – A culpa disso é sua.

Os soluços apenas pioraram com isso. Viu pela primeira vez na noite o sentimento de derrota no rosto dele, de saber que não havia saída para o que estava prestes a acontecer. Havia algo de extremamente gratificante em fazer alguém como Naruto se submeter daquela forma. Alguém que sabia que era poderoso, perigoso.

Conhecia aquela sensação. Não era nova. Estava ali, nos recantos da sua mente, como tudo que envolvia Naruto.

-Você me pertence. - Grunhiu lhe apartando as pernas com violência o trazendo para si. Ignorou o grito quando o movimento fez as mãos feridas se cortarem mais no punhal. Havia tentado ser gentil antes. Não era disso que Naruto precisava para aprender seu lugar. – Quanto antes entender, melhor.

Se posicionou para penetrá-lo, colocando todo seu peso sobre o garoto. Começou a entrar, rompendo todas as resistências bruscamente, sendo abrigado por aquele lugar tão quente e apertado. O sangue agindo como lubrificante na sua passagem enquanto ele se contorcia com mais força abaixo de seu corpo.

Fitou o rosto abaixo de si e viu olhos azuis se dilatarem ainda mais, o corpo se arqueou do chão por segundos antes de cair novamente. A respiração pesada, o grito de dor saindo como um gemido estrangulado.

E então, ele parou de soluçar e se mover.

De forma repentina, a respiração ficando mais uniforme. Pensou por um momento que ele havia apagado. Não que isso fosse o impedir de fazer o que queria no momento.

Já era tarde demais para recuar.

Abaixou o rosto, lambendo as lágrimas que caiam devagar, suas mãos segurando o quadril dele com força, enquanto se afundava o máximo que conseguia de forma sádica. Tomando tudo, sem dar nada de volta, sem ele poder fazer nada além de calar a boca e aceitar.

– Davlin, solte-o…

A respiração quente em seu ouvido, a voz estranhamente aveludada e baixa.

Esse nome.

Foi como uma queda livre, aquele chamado. Arregalou os olhos, paralisando. Foi como um choque percorrendo todo o seu corpo. Ergueu o tronco de imediato para fitá-lo. Sentiu um repentino terror percorrer a sua espinha. A expressão dele fria em sua fúria. Era como se fosse outra pessoa a sibilar a frase, um brilho sobrenatural nos olhos cinzentos.

Deve estar feliz, conseguiu o que queria de novo. – Havia sangue escorrendo pelos lábios machucados. A voz baixa e cansada, mas com um tom de puro rancor e ódio que nunca havia ouvido em ninguém na vida.

E de repente, ouviu a mesma frase. O mesmo tom.

A mesma voz.

"Tu conseguiste o que queria tanto, Davlin? Estais feliz agora?"

De repente, não era Naruto ali, a sua frente, quebrado, abrigando-o. Um rosto mais velho, uma expressão de puro pesar.

"Como chegamos a isso?"

Choque. Piscou e voltou a oscilar, os dois se alternando, até estar Naruto novamente ali, o fitando, o maxilar trincado pela clara dor que sentia quando se moveu de forma brusca.

Você apenas destrói tudo em que toca. – Os azuis se fecharam apertados, a voz saindo baixa e perigosa. Até ele praticamente urrar. – SOLTE-O!

As palavras foram como um tiro em seu peito que o fez despertar de vez do frenesi que a luta criara em si, que o deixara cego a tudo, a não ser da resistência que se mostrara ao ter o que queria, a tentativa de Naruto de o enganar, o chamado por Sasuke, suas palavras ferinas. Toda a raiva que o cegara e o deixara fazer apenas aquilo para que fora treinado: machucar quando traído.

Só então ele enxergara o que realmente tinha feito. Por que havia sangue por todo lado, em tudo, levando o brilho dos olhos azuis. Só havia dor no rosto pálido abaixo do seu.

Causada por ele.

Arfou. Sua respiração acelerou em desespero e saiu dentro dele ouvindo-o gemer, trêmulo. E notou que estava também coberto de sangue. O sangue dele, em suas mãos, suas pernas, em tudo.

Suas mãos...estavam cobertas com o sangue dele.

Ele estava o matando. Ele realmente estava matando seu menino.

–Naruto... - chamou em desespero ao ver que os olhos piscavam molemente, parecendo não o enxergar mais. Uma cor opaca na íris, uma expressão aérea.

E então, tudo aconteceu muito rápido. Ouviu um grito de algum lugar da sala e foi arrancado de cima de seu menino com violência batendo contra a parede.

Logo recebeu um chute no rosto.

...

Naruto entreabriu os lábios machucados, quase ofegando. Sua visão turva pelas lágrimas e por sua consciência, que se extinguia junto ao sangue que fluía pelos seus ferimentos. Sentia o alivio de não sentir Obito mais dentro de si, e de assumir o controle de seu corpo novamente, assustado demais com o que acontecera há instantes.

A sensação de estar à deriva na escuridão. Apenas aquela voz o guiando.

"Vai ficar tudo bem agora." A voz o consolou mais branda, o lembrando tanto da mesma situação, há 11 anos atrás. Aquela mesma dor também estava lá. Tudo acontecera de novo.

Novamente, fora fraco demais para se defender.

E ele sabia que ele estava mentindo, nada ia ficar bem.

Não entendeu o que estava acontecendo, somente via formas desconexas e ouvia sons abafados, o zumbido em seus ouvidos ficando mais alto. O corpo dolorido, as mãos já dormentes, tudo havia se tornado um grande nada com um sentimento estranho de segurança. Ia fechar os olhos, para se entregar de bom grado ao torpor, quando ouviu algo perto de seu rosto. Moveu devagar os olhos azuis na direção do som, encontrando um par de orbes escuros fixos em si, em pânico.

Era Sasuke.

Ele ouvira seu clamor, ele viera o socorrer!

Tentou sorrir, somente conseguindo um repuxar de lábios, estava feliz, seguro. Mas parou, ao finalmente se dar conta do que via, Sasuke movia os lábios rapidamente, falando algo que não entendia, seu rosto contorcido em dor. E o pior, que fizera Naruto se sentir pior do que se sentiu em toda aquela noite, era ver Sasuke chorando. As lágrimas rolando por sua face de porcelana, enquanto parecia gritar algo, seus olhos passeando por seu corpo sofrido horrorizados, parando em algo acima de seu rosto.

Ele ficou em choque, os olhos vidrados. Naruto sabia que devia der visto suas mãos. Ele se levantara rápido e sumiu de seu campo de visão.

Seu coração acelerou ainda mais, e tentou se mexer, a dor ricocheteando por seu corpo. Resistiu a dor mordendo o lábio já machucado, não se importando tanto com isso. Tentando erguer a cabeça só para vê-lo novamente.

Sentiu sua visão embaralhar novamente, o bipe ficando mais alto em seus ouvidos, seu estômago se revirou. Sentiu uma dor aguda nas mãos quando elas foram libertadas. Gritou sem voz, em um arfar mudo e desesperado.

Durma.

Sentiu ser tragado para a escuridão.

Na janela, os corvos apenas observavam.

...

– Naruto...Naruto! Fale comigo!

Sasuke continuou o chamando desesperado. Ele queria que aquilo fosse um pesadelo, que não estivesse mesmo ali, vendo o corpo massacrado dele, a respiração fraca que mal subia no peito nu. Havia sangue demais por todo lado, marcas de mordidas e pancadas. Desviou os olhos horrorizados ignorando a voz de Itachi e Obito atrás, e se fixou no rosto, vendo os olhos azuis o fitando cansados, e ele parecia tentar sorrir, um leve repuxar nos lábios feridos, os olhos azuis com um brilho de alívio. Podia sentir, e só conseguia chorar por medo, impotência, por ter chegado tarde. Seus olhos então se fixaram com horror nas mãos presas acima da cabeça do loiro.

Um punhal.

– Meus Deus! - arfou.

Havia um punhal fincado nas palmas dele o prendendo ao chão, e era de onde vinha todo aquele sangue que o ensopava. Se inclinou para frente.

– Eu vou tirar isso de você. - Sussurrou deixando cair mais lágrimas. Era quase como se pudesse sentir a dor dele. O arrancou de uma vez tentando amenizar o sofrimento. Ele abriu a boca sem nenhum som, a expressão de agonia tomando conta de seu rosto para então os olhos azuis se revirarem nas orbitas e ele os fechar, o corpo amolecendo totalmente. O puxou para si sentindo a respiração fraca, o sangue o sujando enquanto prendia a cabeça do outro em seu peito, querendo o proteger de tudo, o tirar dali.

– Itachi! - chamou desesperado sem desviar os olhos do loiro desacordado. - Itachi! As mãos dele...

– Temos que tirá-lo daqui. - Itachi estava a seu lado, jogando um casaco que Sasuke mais que depressa usou para cobrir o corpo menor judiado.

–Obito... - cuspiu o nome se erguendo com seu embrulho nos braços.

– Ele não vai nos impedir. Pense no Naruto agora, temos que cuidar dele.

Assentiu ainda chorando, o apertando contra o peito e seguindo Itachi por onde haviam vindo de dentro da passagem, tentando não olhar para trás ou poderia acabar matando Obito e esquecendo o garoto sofrendo ali em seus braços.

Caminharam pela a passagem com Itachi a sua frente o guiando. O corpo, mesmo inconsciente, tremia em choque. Seguiu o irmão até um entroncamento e então pararam saindo em um corredor que Sasuke não conhecia, de frente a uma porta onde Itachi bateu duas vezes.

Sasuke estava ainda atordoado demais se quer para perguntar onde estavam, mesmo que soubesse que deveria ser a área leste. Uma luz se acendeu e a porta se abriu uma fresta e encontrou um homem albino que os olhou um por um, parando no embrulho nas mãos de Sasuke e então em Itachi.

– Kimimaru, hora de pagar o favor. - Itachi falou calmo, e o homem apenas assentiu novamente olhando o embrulho coberto de sangue que uma versão menor de Itachi segurava como se fosse sua própria vida.

– Me espere na minha enfermaria, estou indo. - respondeu calmamente fechando a porta em seguida.

– Vamos. - Itachi falou voltando a andar pelo corredor sendo seguido mais do que depressa pelo irmão mais novo.

...

Era uma sala dez vezes mais moderna do que a enfermaria que ele conhecia do colégio. Sasuke viu o homem colocar um jaleco e luvas enquanto Itachi se movimentava dentro da sala cobrindo uma maca com um tecido esterilizado.

– Coloque-o na maca. - o albino falou ainda calmo. Sasuke olhou Itachi inseguro que assentiu.

Foi com pouca vontade que se separou do corpo frio e o colocou nu sobre o tecido. Parecia ainda pior. Ele gemia baixo ainda desacordado, os cabelos estavam rubros e ensopados de sangue. E sua palidez era mórbida. O homem o olhou com cuidado, o examinando, olhou as mãos com mais atenção e então olhou as pernas do mais novo, onde estava marcado o sangue seco nas coxas que por ali escorrera.

Sasuke desviou o olhar não querendo pensar nisso, e para sua surpresa o albino não comentou nada, apesar de ser óbvio ali o que ocorrera. Um estupro. Se pensasse bem, era apenas questão de tempo. Naruto sendo como era, apenas a capacidade que ele tinha de se defender muito bem e amedrontar o livrara daquilo, e entendia agora o porquê de ele ter se esforçado para ter aquela fama de ser perigoso, do ódio que ele sentia do seu rosto. A aparência do loiro era um perigo para si mesmo.

Não. Pensar nisso, era como culpá-lo pelo o que acontecera, o que não era verdade.

– Ele tem alguns ferimentos não muito graves que irão se recuperar quase sozinhos. Outros precisaram de pontos. Mas as mãos dele... irei precisar fazer uma cirurgia pequena, alguns tendões se romperam. E ele perdeu muito sangue, vai precisar de uma transfusão urgente, está quase entrando em choque.

– Vou entrar no sistema da escola e ver seu tipo sanguíneo. - Itachi falou e o albino assentiu.

– Sim, tenho algumas bolsas O - aqui, temos que começar urgente ou a possibilidade de dados permanentes irá aumentar.

Sasuke olhava tudo atordoado, a movimentação, acariciando o rosto do garoto desacordado na maca. E de repente ouviu a voz rouca e baixa.

– Sasuke...

Viu os olhos azuis abertos e turvos nos seus. Tocou seu rosto com uma mão e com a outra segurou um pulso do outro tentando não encostar em seu ferimento. Sentiu seus olhos embaçarem enquanto seus polegares passavam pelo rosto pálido e molhado ainda pelas marcas das lágrimas.

Os lábios carnudos machucados se abriram levemente enquanto ele piscava de forma preguiçosa, atordoado. E então ele começou a ofegar, como se desperto só naquele instante. Os azuis abriram mais e ele gemeu, as dores o atingindo de uma vez só por seu corpo ao mesmo tempo que o medo o tomava, como se ainda estivesse naquela sala, preso com Obito. Sasuke se desesperou ao ver os olhos do outro se fecharem com força e ele gritar rouco o corpo se arqueando quase caindo da maca se não fosse ele para o segurar. Naruto começou a se debater, se machucando mais.

– Naruto! Sou eu! - gritou enquanto Kimimaru corria para um armário pegando algo.

– Sasuke! Sasuke! - o loiro gritava tentando empurrá-lo, como se não o visse, como se ele fosse outra pessoa.

Segurou os pulsos do garoto na maca, o chamou, mas ele parecia não ouvi-lo, vê-lo, gritando e chorando por ajuda o chamando como um mantra, a voz raivosa em soluços enquanto lutava para se libertar.

Itachi o ajudou a segurá-lo e o albino apareceu com uma injeção a aplicando no seu músculo. O corpo foi parando de se mover aos poucos, a respiração normalizando.

– Eu estou aqui, eu estou aqui. -Sasuke repetia sem parar segurando seu rosto. Os azuis o fitaram como se o reconhecesse. Chamando-o baixinho até se fecharem de vez.

– Apliquei uma dose forte, mas não temos tempo, tenho que fazer cirurgia agora ou ele irá ficar com sequelas. Vou precisar de você Itachi. - O albino falou ajeitando o loiro de volta na maca.

– Tudo bem. - Itachi olhou o irmão mais novo que olhava o garoto ainda atordoado. - Sasuke. Sasuke!

O outro finalmente o olhou confuso.

– Você tem que esperar na outra porta enquanto fazemos isso.

– Mas...

– Sem mas, ele vai ficar bem, e você precisa ficar bem para quando ele acordar.

Itachi olhou para o irmão mais novo com pena. Era a primeira vez, desde que eram crianças, que o via tão perdido. Ele mesmo não estava em melhor estado, mas sabia fingir bem, Sasuke não. Pegou nos cabelos macios e o outro o olhou com os olhos vermelhos e inchados.

– Eu vou cuidar dele. Confie em mim.

O irmão o olhou incerto, mas assentiu. Ele tinha que confiar em Itachi. Não sabia o que estava acontecendo ao certo ali, mas por Naruto, por ele faria aquilo. Itachi havia o salvo aquela noite. Só podia confiar nele agora.

….

Olhou para o albino apreensivo, esperando a conclusão de toda aquela demora. Ele ainda terminava de lavar as mãos quando começou a falar.

– A cirurgia foi um sucesso, ele terá de ficar cerca de um mês com as mãos enfaixadas pelos pontos, talvez mais dependendo de como tudo ocorrer. Tivemos de fazer suturas em seu ombro e na cabeça, além de alguns pontos em outras partes do corpo. Ele fraturou uma costela então terá de usar uma faixa protetora pelo tempo mínimo de três meses para ter certeza que estará novamente no lugar certo. – Se virou secando as mãos em uma toalha cor bege. A expressão monótona de sempre. – Ele sofreu uma contusão, o que resultará em desorientação, falta de equilíbrio, zumbido nos ouvidos. Ele não pode se mover muito e ter repouso absoluto, e ficará bem daqui alguns dias, e repito, repouso absoluto, ele quase sangrou fluido cerebrospinal, isso é muito grave. Além de que, como ele foi estuprado... – encarou Sasuke, que se mantinha calado e sério. – Ele terá de tomar o coquetel anti-DST's por um mês, sem falha. Acho que isso pode ficar por sua conta, não é? Ele não pode falhar nem um dia.

Sasuke acenou positivamente desviando o olhar e mordendo o lábio. Somente se lembrar daquilo o fazia se sentir mal.

Itachi pousou sua mão no ombro de seu irmão, num ato de conforto, tentando o acalmar. Sabia o que passava pela mente do adolescente, era o mesmo que passava em sua própria. A vontade de matar Obito da maneira mais dolorosa e lenta possível. Mas isso também era algo que não poderia acontecer, não naquele momento.

– Sasuke, o que acha se voltássemos para...

– Quero vê-lo. – se virou para Itachi, que o fitou nos olhos, vendo o mais novo com a sombra suplicante quase oculta nas ônix. O mais velho suspirou.

– Pode, mas não o toque muito, nem demore. – Kimimaru saiu da sala rapidamente, deixando os dois irmãos a sós.

Itachi foi até a pia e começou a lavar as mãos, já Sasuke não hesitou em marchar até a sala em que Kimimaru disse estar o loiro.

...

(¹)-Beretta 93R (M93R)= É uma pistola semi-automática italiana 9mm.

Pian: dor