Os acontecimentos do fim de semana continuam presos nos pensamentos de Levi durante o dia seguinte, distraindo-o quando se senta para tomar o pequeno-almoço com Farlan e Isabel. O dia está tão cinzento e sombrio como o anterior, uma chuva miúda continua a martelar contra as janelas e o telhado, e a única divisão que está devidamente quente é a cozinha, onde passam hora após hora enquanto Farlan trabalha, o dono do seu castelo. Ao meio-dia, está a cozer pão, que fizera com farinha de castanha misturada com farinha normal; um truque que aprendera com Frau Gernhardt, explica ele a Levi que acena em concordância, perdendo outro jogo de Klaberjass contra Isabel quando continua sem conseguir manter a mente no presente. Algo do casebre parece permanecer no ar com os seus traços a fumo, e na forma como as faces de Levi estão quentes e coradas, como estavam quando se sentaram em frente da lareira, ele e Erwin, embalados pelas chamas e pela exaustão da caçada.

- Olha só o que dois dias longe de nós lhe fizeram, Isabel - brinca Farlan ao fechar a porta do forno e pousar a lebre morta em cima da mesa. - Acho que ficou pateta, privado da nossa maravilhosa companhia por tanto tempo.

- O que significa 'privado'? - pergunta-lhe Isabel e Farlan suspira, usando um pano de cozinha para secar o punho molhado da faca que está a usar.

- Oh, esquece - bufa ele, fazendo grandes cortes à volta das patas traseiras da lebre antes de fazer um corte vertical no interior das pernas. Farlan aponta com a faca para o furo considerável que a bala deixara a dois centímetros de distância do olho do animal. - De qualquer das formas, suponho que a caçada tenha sido um sucesso. O Erwin tem boa pontaria.

Levi assente distraidamente antes de bocejar. - Bem, não voltámos de mãos vazias - concorda, seguindo as mãos de Farlan com os olhos enquanto ele prende as patas da lebre com um cordel.

- E o resto do tempo? Não demoraram de certeza o fim de semana todo para matarem uma lebre ou duas - inquire Farlan, lançando um olhar curioso a Levi enquanto ele remexe no cesto à procura de acendalhas. Puxa algumas páginas de um jornal velho, ignorado o olhar de aviso de Levi ao continuar: - Parece-me que vocês os dois... se divertiram bastante.

- Fizemos compota - responde Levi. - Havia muitas maçãs no pomar.

- Não era exactamente isso que eu-

- Achas que eu não sei? - Levi interrompe Farlan enquanto Isabel suspira e revira os olhos, por culpa de ambos, parece. - Estou só a tentar evitar dizer-te para te meteres na tua vida.

Farlan suspira ainda mais alto do que antes ao pousar os pedaços de papel no chão perto do canto da sala. - Oh não, por favor, não te preocupes comigo - diz ele cansado, enquanto pendura a lebre num gancho pelas patas traseiras e começa a puxar a pele para a retirar. - Vou só ficar aqui, a cozinhar a tua comida, a limpar as tuas coisas, a tirar-te piolhos da cabeça. Mas sinceramente, depois de tudo o que faço por ti, não há mesmo necessidade de me incluíres na tua vida, por isso, por favor, não me contes nada. Prefiro mesmo que assim seja. Ajuda-me mesmo a manter tudo isto de forma muito mais profissional.

Levi dá um estalido com a língua. - Não há nada para contar - insiste. - E não percebo porque é que te importas, em qualquer dos casos.

Farlan escarnece enquanto dá um último puxão ao monte de pêlo nas suas mãos antes de regressar à mesa para cortar a cabeça da lebre. - Não é óbvio? - pergunta ele a Levi agora, o tom evidenciando algo que ele tentara esconder mal e portanto é claro por entre a indignação: - Eu vivo vicariamente através de ti, claro.

- Duvido que te fosse dizer algo que não tenhas já feito - contrapõe Levi, fazendo Farlan rir.

- Também duvido disso, mas vá, faz-me a vontade, eu não dei ou sequer ouvi falar de uma boa fod-

- Vocês os dois podiam fazer-me a vontade a mim e calarem as vossas bocas mal-educadas - resmunga Isabel, baralhando as cartas. - Essa coisa é má e eu não quero ouvir falar disso. Preferia que me ensinasses como esfolaste esse coelho tão depressa.

- Tudo bem, vamos manter todas as coisas indecentes longe dos teus ouvidos sensíveis - desiste Farlan, explicando a Isabel como esfolar o coelho enquanto Levi lhes prepara um bule de chá, feliz por o homem não voltar a puxar o assunto.

Nessa noite, na cama, Levi aproxima-se de Farlan sob os lençóis, envolvendo o braço casualmente à volta dele; o gesto apanha Farlan de surpresa. Levi consegue perceber o momento de tensão antes de os músculos relaxarem sob o toque de Levi. Inspira aquele aroma a sabão que é tão diferente do de lavanda de Erwin, e parece estranho agora aperceber-se de quanta falta sentia dele. Parece que se tinham passado meses desde que tinham estado assim tão perto, e ao pensar no que os levara a parar, Levi reconhece que a sua estimativa está de facto bem próxima da verdade.

- O que é que provocou isto, então? - murmura Farlan ensonado, mas não parece importar-se com a súbita proximidade.

Levi encolhe os ombros contra o colchão. - Preciso de uma razão para fazer isto? - pergunta, ouvindo o riso baixo de Farlan.

- Não, não precisas - diz o outro homem. - E também não posso dizer que me incomoda. Quero dizer, tu tens o Erwin, sabes.

Levi concorda com um grunhido, desejando vagamente poder falar sobre como de facto as coisas são, como envolver o braço de Erwin à sua volta fizera Levi sentir-se protegido e forte, como deseja que estar perto de Erwin fosse tão fácil e tão confortável como isto. Não consegue achar palavras para nada daquilo, no entanto, e dúvida se Farlan o entenderia, tendo em conta todas as coisas sobre a vida de Levi que ele não conhece.

- Sei que não queres falar sobre isso, e não te vou obrigar - murmura Farlan quando Levi o puxa para mais perto. - Mas tenho de te relembrar para teres cuidado.

- Com o quê?

- Só... tenta lembrar-te o que isto é, tu e o Erwin - diz-lhe Farlan baixinho. - E do que não pode ser. Tenta manter-te ciente que não vai durar, e vais poupar-te de muito sofrimento mais tarde.

Levi fica calado, considerando as palavras de Farlan por um momento antes de o homem continuar.

- Não estou a tentar ser cruel, sabes - diz com suavidade. - Esqueceres-te como o mundo é não te vai ajudar. Mais cedo ou mais tarde, vai apanhar-te.

- Eu sei - responde Levi; e sabe, ainda que aqueles dias no casebre quase o tivessem feito esquecer.

- Espero que aproveites ainda assim - continua Farlan, sorrindo. - É óptimo ver-te assim.

Levi mal grunhe outra resposta antes de cair num sono inquieto, do qual acorda na manhã seguinte sentindo-se cansado e desorientado. O dia parece passar muito devagar mesmo com as várias horas que ele e Farlan demoram nas compras, mas é só quando se começa a aproximar do apartamento de Erwin no seu percurso pela cidade que Levi se apercebe da causa para a sua impaciência. Recordando-se do que Farlan dissera, parece ser um mau sinal estar tão ansioso para ver o homem de novo, mas ao quase correr pelos degraus até ao apartamento de Erwin, Levi pergunta-se se seria capaz de o evitar mesmo que quisesse. Algo parece ter mudado permanentemente com aquela decisão que tomara no casebre, ainda que Levi nunca pensara que passar uma noite com Erwin provocaria uma diferença tão grande. A última memória de Levi do homem é da manhã de domingo; a memória da suavidade dos lábios dele é tão vívida que por um momento Levi pára para morder os seus. Ao bater à porta, a mão de Levi está pesada e desleixada, enchendo-o com memórias da sensação da pele de Erwin contra ela, e interroga-se com pavor se fora tão pouco gracioso naquela noite como se sente agora.

Quando Erwin finalmente abre a porta, Levi apercebe-se que os pensamentos ficam ainda mais presos naquela noite, na maneira como fora ter o homem sob si, como os músculos se tinham contraído e relaxado, como ele enchera a boca de Levi e como o beijara na manhã seguinte. Levi lembra-se do nome estranho que o homem revelara - tem estado a saboreá-lo na parte de trás da sua mente desde domingo - e trá-lo de volta à sua língua silenciosamente ao olhar para Erwin, como se estivesse a tentar perceber se esse nome de alguma forma faz o homem parecer diferente. O sorriso satisfeito habitual está lá, as sobrancelhas fartas ligeiramente arqueadas sobre os olhos azuis claros enquanto Erwin olha para Levi durante alguns segundos antes de falar.

- Olá - cumprimenta ele suavemente, a voz grave a ecoar ligeiramente no patamar ainda assim.

- Sim. Olá - responde Levi, sentindo-se estúpido quando ouve Erwin aclarar a garganta. - É terça-feira, por isso... cá estou eu.

- Parece que sim - diz-lhe o homem antes de se desviar. - Por favor, entra.

Levi assente sem uma palavra e atravessa a ombreira da porta; há algo diferente na forma como Erwin parece elevar-se sobre ele agora, alguma faísca que acende em Levi e que antes nunca passara de uma sensação desconfortável que nunca aliviava. Pensa em aproximar-se um passo para reduzir alguma daquela distância que ainda permanece entre eles, mas assim que esse pensamento lhe atravessa a mente, apercebe-se de um movimento pelo canto do olho. Volta a cabeça e vê Marie aproximar-se deles, claramente com algum esforço, a sua enorme barriga a abrir caminho.

- Oh, olá outra vez - cumprimenta ela com amabilidade mas também cansaço, a respiração a fraquejar mesmo por só atravessar a pequena distância entre a sala e a entrada. - Adora cumprimentá-lo devidamente, mas receio que tenha de ir à casa de banho. Outra vez. A sério, isto está a tornar-se ridículo.

- Pelo menos, já não te falta muito tempo - denota Erwin, mas a frase não parece agradar a mulher, que escarnece.

- Obrigada, querido, mas devo dizer que isso não é grande ajuda neste momento. Este está claramente a levar o seu tempo - bufa ela, massajando as costas ao passar por eles. - Eu chamo-te se não me conseguir levantar da sanita. É horrível o quão verdadeiro esse problema se tornou por estes dias.

Erwin ri enquanto Marie desaparece para a casa de banho, voltando-se para conduzir Levi até à cozinha.

- Receio que já tenhamos feito o chá há algum tempo - diz ele - mas posso preparar mais se também quiseres.

- Obrigado - responde Levi, perguntando-se porque é que aquela estranha formalidade se entranhara no seu discurso; parece que está a falar com um dos seus vizinhos. - Quero.

Entram na cozinha juntos e Erwin convida Levi a sentar-se antes de se atarefar a ferver mais água para o chá de Levi. Um silêncio bizarro aumenta no espaço entre eles quando o homem se junta a Levi à mesa, e ainda que Levi tente pensar em alguma coisa para acabar com o silêncio, não encontra nada.

- Como tens estado? - pergunta Erwin, para alívio de Levi. - Estás a reajustar-te bem à vida de volta à cidade?

Levi franze o rosto. - Está tal e qual eu a deixei - diz secamente e Erwin ri. - Tenho de me reajustar ao quê?

- Apercebi-me que, comigo, costuma demorar alguns dias - diz-lhe Erwin. - Mas tenho a certeza que és melhor nesse tipo de coisa.

Levi dá um grunhido e voltam a ficar calados por alguns segundos incómodos antes de Erwin falar de novo.

- E como estão o Farlan e a Isabel?

- Estão bem - diz com honestidade, tentado lembrar-se se Erwin já lhe perguntara aquilo muitas vezes antes e apercebendo-se que não era de todo costume.

- Ainda bem - diz vivamente; Levi consegue ouvir Marie a sair da casa de banho. - Fico feliz por o saber.

Levi acaba de preparar o chá enquanto Erwin regressa à sala de estar, seguindo-o e lançando um sorriso tenso a Marie antes de se sentar no sofá. O silêncio estranho mantém-se entre todos eles, e de repente Levi apercebe-se que é errado que as coisas agora fiquem assim entre ele e Erwin, tão formais e desconfortáveis. Levi não consegue evitar perguntar-se se é algo que costuma acontecer depois uma mudança como aquelas, já que ele não tem outra experiência anterior que possa usar como comparação.

- O Erwin não me chegou a dizer como é que vocês os dois se conheceram - diz Marie de repente, fazendo Levi olhar de relance para Erwin, que não parece achar a pergunta nem de perto tão estranha quanto Levi acha.

- Ele ajudou-me numa situação complicada uma vez - responde Levi na evasiva.

- Espero que não tenha sido nada demasiado sério - comenta Marie, parecendo genuinamente preocupada, mas Levi abana a cabeça.

- Foi só um encontro com a polícia - diz-lhe, mexendo o seu chá. - Mas acabou bem.

- A assistência do Levi tem-me sido inestimável - diz Erwin e Marie sorri mais abertamente. - Ele tem uma grande quantidade de habilidades, muitas das quais complementam as minhas.

- Parecem fazer um bom par - observa Marie. - É estranho, mas parece que consigo ver o quanto vocês os dois se complementam, mesmo só vos tendo visto tão pouco tempo juntos.

Levi consegue sentir o rosto ficar quente, e de repente lembra-se daquele momento no rio com Farlan, como se tinham deitado sob a sombra da árvore e falado de Erwin e Christofer, e de como, neste mundo, as pessoas como eles não têm coisas daquelas: casas partilhadas, vidas partilhadas, famílias suas. Ouve distraidamente enquanto Erwin e Marie retomam a sua conversa anterior, emitindo um grunhido como resposta aqui e ali até ter terminado o chá e conseguir que ambos parem de se opôr a ele começar a esfregar o chão. A Levi, parece estranho o quão desapontado Erwin parece ficar com isto, e sente o homem lançar olhares na sua direcção mesmo quando escolta Marie até à porta quando ela se despede.

- Receio que esta vá ser a minha última visita por algum tempo - Levi consegue ouvi-la dizer enquanto ele esfrega um pedaço do chão no canto sob um pequeno armário. - Este pequenote vai querer ver o mundo não tarda, e depois disso vou ficar bastante ocupada.

- Manda-me uma mensagem quando acontecer, se conseguires - responde Erwin, e Levi pensa que nunca ouvira tanto carinho no seu tom antes. - E gostaria de te visitar assim que te for mais conveniente, se não houver problema.

- És muito querido - diz-lhe Marie com gentileza. - Claro que te aviso, assim que conseguir. O Nile também deve conseguir alguns dias para me visitar. É o primeiro filho, afinal.

- Espero que ele consiga - Levi consegue ouvir a ligeira tensão na voz de Erwin, ainda que não compreenda a causa; deixa-lo subitamente curioso. - Vocês os dois merecem ser felizes.

- Ele escreve cada vez mais sobre ti por estes dias - diz Marie, triste de repente. - Por favor, não queres dar o primeiro-

- Desculpa, Marie - interrompe-la Erwin - mas ainda não vejo uma forma de rectificar o que aconteceu na altura.

- A guerra mudou a forma como ele vê as coisas, Erwin - insiste ela. - Se lhe pudesses só dar-

- Desculpa - repete Erwin, a voz a roçar o tom impaciente de Holtz e que faz Levi estremecer - mas não posso. Por favor, não me peças de novo.

- Como queiras - diz Marie e suspira. - Mas, se ele te escrever, gostava mesmo que lhe respondesses. Com a forma como as coisas estão, podes não ter muito tempo para emendar as coisas. Acredito que seja isso que desejas, não é?

- Claro - admite Erwin, tão baixo que Levi tem de se esforçar para ouvir. - Mas deves compreender o quão difícil ainda parece ser.

- Difícil - ela repete as suas palavras. - Mas não impossível. Lembra-te só disso, e tenta lembrar-te de como as coisas eram antes.

- Vou dar o meu melhor - promete ele antes de se despedir.

Regressa à sala de estar onde Levi se começara a atarefar com o chão de novo, esfregando as tábuas de madeira enquanto Erwin se senta na poltrona e suspira, cansado. O som deixa aquele silêncio enervante de antes voltar, e Levi pergunta-se se seria correcto questionar Erwin sobre que conversa fora aquela com Marie, mas, ao olhar de relance para o homem, decide ficar calado. Há uma súbita exaustão nas feições de Erwin, algo que Levi não notara antes, ou talvez algo que não estivera presente até àquele momento. As mãos ficam pesadas com o impulso de as estender e tocar em Erwin, puxá-lo para perto até a testa dele estar pressionada contra o bater do seu coração, mas ainda é demasiado cedo e o local parece demasiado familiar, e Levi receia que fosse parecer-se demasiado com algo que os amantes a sério fariam; casais, num domingo de manhã, e eles não são, nunca poderiam ser, tal como Farlan dissera.

- É estranho - começa Erwin, fazendo Levi olhar para trás para ele, perguntando-se se os pensamentos de Erwin estão de novo em sintonia com os seus, mas em vez disso, ele continua: - Ver-te limpar.

Levi resfolega. - Já me deves ter visto limpar isto uma centena de vezes - nota ele, mergulhando o pano no balde de água antes de o torcer e recomeçar a trabalhar.

- É diferente agora - argumenta Erwin. - Não devias estar a fazer isso por mim. Eu deveria limpar as minhas coisas.

Levi resfolega mais alto. - Pensei que já tínhamos falado sobre o quão mau és a fazer isso - contrapõe ele. - Eu tenho tido muito cuidado com este sítio. Achas mesmo que te vou deixar estragar tudo com a tua amostra de limpeza?

- Ainda assim - continua Erwin. - Somos iguais. Não devias estar a trabalhar para mim, para começar.

- E porque é que trabalhar para ti me torna inferior? - pergunta Levi ao homem agora. - Se te incomoda pensar que me estás a pagar para eu fazer isto, então pensa em vez disso que estás a partilhar o que tens porque tens mais do que suficiente, e deixas-me continuar a manter este sítio habitável para que eu não me importe de passar umas horas aqui de vez em quando.

Erwin suspira de novo. - Bem, então podes pelo menos fazer uma pausa?

- Ainda mal comecei.

- Ainda assim - insiste Erwin. - Eu preparo mais chá para nós, e podemos ouvir música, se quiseres.

Levi fita as ligeiras marcas de pegadas no chão por alguns segundos antes de voltar para Erwin, vendo a expressão incomodada antes de assentir rapidamente.

- Podes fazer chá enquanto eu acabo o chão. E podes fazer-me umas sandes também, se tiveres.

- Claro - diz Erwin, soando aliviado ao levantar-se de novo, passando com as mãos nas ancas. - Chá e sanduíches a chegar, Herr Ackerman.

Levi atira-lhe um olhar meio divertido na sua direcção antes de esfregar o resto do chão, ouvindo o gira-discos entoar as primeiras notas de uma música romântica antiga enquanto ele deita a água suja na banheira. Quando regressa à sala de estar, encontra Erwin no sofá, o chá e as sanduíches colocadas ordenadamente num tabuleiro sobre a mesinha de café; Erwin entrega-lhe a sua chávena assim que ele se senta ao seu lado.

- Eu sei que não te importas por trabalhar - começa Erwin - e desculpa por te fazer parar, mas tenho estado ansioso para te ver desde domingo. Só queria que tivéssemos um momento juntos, assim.

Levi estica-se para a mesa e agarra uma sandes, sem saber o que dizer, desejando que o movimento fosse funcionar para esconder o seu silêncio. A dentada que dá ao pão acrescenta-lhe uma razão para ficar calado enquanto a mente luta para pensar, encontrar alguma coisa simpática para dar como resposta a Erwin, mas tudo o que consegue ouvir são as palavras de Farlan ao seu ouvido: 'Não te esqueças de como o mundo é.'

- Levi? - chama Erwin, fazendo-o olhar para cima. - Está tudo bem?

Levi apressa-se a assentir. - Porque é que perguntas?

- Estás mais calado do que o habitual - explica Erwin, franzindo o rosto. - Espero que não tenhas achado o que a Marie disse muito intrusivo. Não acho que ela estivesse a insinuar-

- Não, não é isso - Levi interrompe o homem, sem compreender porque é que a ideia de ouvir o final daquela frase o faz sentir-se tão desconfortável, o faça sentir como se tudo isto possa ser mesmo real. - Eu gosto dela. Ela é uma pessoa decente.

- Sim - concorda Erwin de imediato. - É uma das pessoas mais maravilhosas que já conheci. Acho que mal preciso dizer em voz alta que gosto mesmo muito dela.

- Não gostas assim tanto do... - começa Levi antes de conseguir travar-se, voltando-se para a sandes para evitar o olhar inquisitivo no rosto de Erwin.

- Não assim tanto do quê? - pergunta o homem, mas Levi abana a cabeça.

- Nada - insiste. - Esquece.

É o que tem estado a pensar desde aquela conversa que escutara; havia alguma animosidade entre Erwin e o marido de Marie, mas porquê? Erwin explicar-lhe-ia se lhe perguntasse, claro, mas algo está a obrigar Levi a conter-se. Tinham partilhado coisas no casebre, factos íntimos - e quem sabe se Erwin alguma vez sequer contara aquelas coisas a outra pessoa antes? - mas parece tudo diferente aqui, no mundo real, onde Levi não pode continuar a fingir que são as únicas duas pessoas que restam no mundo.

- Tens a certeza que estás-

- Já te disse que estou bem - interrompe-lo Levi de novo, levantando-se. - Tenho de ir. Está a ficar tarde.

- Oh - diz Erwin, e a desilusão naquele simples som quase faz Levi encolher-se. - Bem, se tens de ir... Sabes que eu aprecio sempre a tua companhia, seja por quanto tempo for.

- Eu sei - diz-lhe Levi, pensando em arranjar alguma desculpa mas acabando por desistir; Erwin merece mais do que alguma desculpa esfarrapada. - Eu faço um trabalho melhor na quinta-feira.

- Sabes que eu não me importo com isso, Levi - diz Erwin, e quando Levi olha para o rosto dele, vê uma mistura de confusão e paciência. - Podes vir cá seja porque razão for e eu vou ficar feliz por te ver.

- Eu sei - repete Levi, querendo dizer algo mais mas sem conseguir, uma nova onda de frustração a encher-lhe a mente quando não consegue encontrar a expressão certa de gratidão.

Durante o tempo que demora a ajudar Levi a empacotar a comida que comprara para ele, Erwin passa por Levi no espaço estreito da cozinha, segurando-o pelo ombro ao passar para a despensa. Para qualquer pessoa, um toque daqueles seria insignificante, mas algo naqueles segundos fica gravado na mente de Levi, o sorriso de Erwin ao olhar para ele, a firmeza gentil das suas mãos, o pedido de desculpas baixinho que ele dissera ao passar no caminho de Levi. Um toque tão desnecessário; Levi tem dificuldade em perceber para que serviu, a não ser para Erwin ter o prazer de ter uma parte do corpo de Levi pressionada contra as palmas das mãos, mesmo que por um momento. Faz Levi lembrar-se da forma como os homens tocam nas mulheres quando as estão a conduzir por ombreiras ou quando as ajudam a vestir os casacos no final de uma saída à noite.

Quando volta para casa, Levi mal evita apanhar Frau Niemeyer no seu caminho à casa de banho comum para tomar um banho, sentando-se na água morna e tentando não pensar em todas as coisas que Erwin merece ouvir mas que Levi não consegue ter força para dizer. Aqui, na desolação da cidade, é mais fácil para Levi lembrar-se daqueles dias em Berlim, o quão efémero tudo o que acontecia entre ele e outros homens era, quão ridículo era sequer pensar que poderia ser mais do que isso. É um pensamento irritante que o acompanha até à cama: como admitir que sentes algo é bom e não faz mal nenhum, desde que não o confundas como sendo o mesmo que as pessoas normais sentem.

Faz o seu melhor para esconder a sua confusão e desconforto de Farlan e Isabel, gerindo a situação bastante bem até à noite em que o rugido das sirenes à distância o faz praguejar em voz alta de forma tão violenta que até Farlan olha para ele surpreendido. Murmura um pedido de desculpas rápido enquanto se apressam pelas escadas até à cave, tomando os seus lugares habituais no chão e começando a sua espera que mais uma vez se prova ser em vão quando as bombas continuam sem cair. Enquanto Levi e Farlan saem com o resto dos vizinhos, Isabel corre à frente deles até Frau Gernhardt, pedindo-lhe se podia ir até casa dela ouvir rádio. Quando se reúne com eles, Frau Gernhardt apressa-se a alargar o convite, servindo chávenas de café amargo a Levi e Farlan na sua sala de estar acolhedora enquanto Isabel, Hanna e Bruno se aninham à volta do aparelho.

- Obrigado mais uma vez pela farinha de castanha - diz Farlan à anfitriã. - Funcionou muito bem para o pão, tal como disse.

- Não tem de quê - responde Frau Gernhardt, sorrindo amavelmente. - Acho muito bom que tenha tomado essa tarefa, já que não têm uma mulher presente de momento, compreende.

- Oh, eu não me importo - assegura-lhe Farlan, beberricando o café. - E afinal de contas, alguém tem de o fazer. Suponho eu seja apenas, de nós os dois, o que tem mais facilidade em aprender tudo isso. Cresci a ver a minha mãe cozinhar e fazer bolos, e acho que aquilo sempre teve algum fascínio para mim.

- Estou a ver - diz Frau Gernhardt. - Foi uma sorte que vocês os três se tenham conhecido, então.

- Foi mesmo - Levi junta-se à conversa. - A minha mãe nunca teve hipótese de nos explicar nada disso, e apesar de eu conseguir desenvencilhar-me, os meus dotes na cozinha não costumam resultar em nada que seja particularmente bom.

- Mas és bom a limpar - denota Farlan. - Por isso, juntos conseguimos tomar conta da Isabel bastante bem, eu acho.

- Fico muito feliz que ela vos tenha aos dois - diz Frau Gernhardt. - Há tantas crianças e jovens sem ninguém agora. Parte-me o coração só de pensar na Isabel enfrentar esse destino, de verdade.

- Mamã! - exclama Hanna de repente, correndo para a mãe. - O programa acabou. Podemos ir construir um forte com a Isabel no quarto?

- Só se arrumarem tudo antes da hora de ir dormir - diz-lhe ela gentilmente e lá vão eles a correr, Bruno pendurado nas cavalitas de Isabel enquanto ela o leva para fora da sala. - Não fazem ideia o quanto ela me ajuda com eles.

- Fico feliz por o ouvir - diz Farlan, mas a atenção de Levi está voltada para as notícias na rádio.

- Pode aumentar o som? Se faz favor? - pede a Frau Gernhardt, que se levanta para ajustar o volume no aparelho.

Levi ouve uma voz masculina no que parece ser um anúncio que cria uma camada de suor frio na sua testa: a formação de uma Guarda Interna que vai recrutar todos os homens entre as idades de dezasseis e sessenta que ainda não estejam a servir no exército. O nome - Volkssturm - faz Levi estremecer ao olhar para Farlan, que perdera toda a cor no rosto, e precisa de todo o seu esforço para manter a expressão neutra em frente de Frau Gernhardt.

- Ainda não tinham ouvido? - pergunta-lhes ela com o rosto franzido. - Há posteres espalhados por toda a cidade.

- Não, não tivemos de ir às compras hoje - responde Farlan, esboçando um sorrio tenso nos lábios. - Que notícia, hã?

Frau Gernhardt volta-se para olhar rapidamente sobre o ombro antes de se levantar do lugar e dirigir-se ao quarto das crianças para fechar a porta. Quando regressa, a sua expressão tornara-se muito mais séria.

- Eu sei que não se deve falar destas coisas - diz ela, a voz a cair para um sussurro que parece mais do que um pouco apressado - mas, para dizer a verdade, não sei o que pensar sobre isto. Recrutar mais homens, e ainda por cima rapazitos? Algo nisto não me parece certo.

- Suponho que uma pessoa possa ler nas entrelinhas - responde Farlan, de forma igualmente baixa e cuidadosa. - Quase se pode dizer que só há uma razão para eles precisarem de mais homens para lutar.

- Concordo - diz Frau Gernhardt. - Mas claro que dizer isso em voz alta seria-

- Traição - Levi termina a frase por ela. - Já levaram pessoas à guilhotina por menos do que isso.

- Sim - diz Frau Gernhardt. - Eu sei que temos todos de nos manter positivos quanto a estas coisas, mas ouvi rumores, e não fui a única. - Ela pára para olhar para ambos por alguns longos segundos, parecendo subitamente preocupada.

- Está tudo bem - diz-lhe Levi. - A Frau Gernhardt prometeu guardar o nosso segredo sobre a Isabel, e claro que faremos o mesmo com o seu.

- Não estou a insinuar nada contra o Führer - continua a Frau Gernhardt. - Mas acho estranho que os jornais tenham estado tão calado sobre a guerra ultimamente, e toda esta história da Volkssturm parece-me mesmo... Bem, não saberia dizer o quê, exactamente, mas ultimamente tenho-me questionado que nós possamos estar...

- A perder a guerra - termina Farlan num murmúrio vazio que parece deixar a sala tão silenciosa como um túmulo mesmo com o som abafado dos risos das crianças a chegar vindo do quarto.

- É um pensamento terrível, e claro que desejo estar errada - diz Frau Gernhardt por fim - mas tenho estado a juntar dois mais dois há algum tempo, e tenho dificuldade em acreditar que está tudo bem nas frentes.

- Bem, na verdade, nós ouvimos-

- Tudo o que podemos fazer é acreditar que esta Volkssturm possa voltar a mudar a maré a nosso favor - Levi interrompe Farlan antes que o homem possa dizer mais alguma coisa, imaginando o que ele iria dizer. - Quero dizer, todos os homens entre dezasseis e sessenta anos? Isso quer dizer muito mais gente pronta para lutar.

- Sim - diz Frau Gernhardt, em voz baixa e ligeiramente hesitante. - Suponho que só possamos fazer isso.

- E nós vamos fazer o que é esperado. Não é, Friedrich?

Farlan parece congelado no lugar por alguns segundos, voltando a chávena nas mãos antes de finalmente assentir. - Sim, claro. Tudo pela Pátria.

- Sim - diz Frau Gernhardt de novo, a expressão a tornar-se ainda mais distante. - Suponho que isso seja o que as pessoas queiram ouvir agora.

Quando regressam à cozinha do seu apartamento, Levi consegue sentir a angústia de Farlan no seu silêncio persistente, mas não o questiona, limitando-se a entregar ao homem uma chávena de chá que ele deixa sobre a mesa; ainda não lhe tocara na altura em Levi acabara o seu.

- Porque é que lhe havias de dizer uma coisa daquelas? - pergunta Farlan por fim, a consternação cravada no seu rosto. - Não ouviste o que ela estava a dizer? Ela está tão ciente disto tudo como nós-

- Não, não está - contrapõe Levi, pausando para ouvir se o som de passos nas escadas são de Isabel a voltar para casa. - Não lhe vou confiar com a verdade não importa o que ela diga, e com certeza não lhe vou contar nada sobre o Erwin.

- Mas ela já percebeu que a guerra-

- Pensar e desejar são duas coisas muito diferentes, Farlan - Levi recorda o homem. - O que é que lhe vamos dizer, que não nos vamos juntar a esta estupidez da Volkssturm porque a guerra já está perdida?

- Bem, então o que é que vamos fazer? - pergunta Farlan, soando desesperado e zangado. - Não nos podemos simplesmente alistar!

- Claro que não - concorda Levi, passando as mãos pelo cabelo em frustração. - Não sei. Não sei o que é suposto fazermos. - Os seus pensamentos vão para Erwin, só para serem interrompidos pelo súbito gemido de Farlan.

- É isto? - a voz dele está áspera e sem vida. - É assim que acaba para nós?

- Não, não é - diz Levi teimosamente, ainda que não saiba qual possa ser a saída para isto, ou se sequer existe uma. - Vou falar com o Erwin. Ele vai saber mais sobre isto. Vai pensar em alguma coisa, tenho a certeza.

- Espero que tenhas razão - diz-lhe Farlan baixinho, enterrando a cara nas mãos. - Porque é que isto tinha de acontecer? Porque é que não nos podiam deixar simplesmente em paz?

Levi quer dizer alguma coisa reconfortante, mas sabe que não há nada que vá melhorar a situação. Além disso, não pode discutir com o que Farlan dissera; este anúncio era a pior notícia que Levi ouvira em anos, mesmo que queira dizer que os nazis estão a ficar desesperados. Evitar suspeitas sobre as razões pelas quais foram ambos supostamente rejeitados pelo exército já tinha sido difícil - e Levi não tem vontade de recomeçar com aquela tosse falsa outra vez - mas parece que arranjar desculpas para ser excluído de uma coisa que aceita miúdos de dezasseis anos para serem soldados vai ser impossível.

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O problema ainda está fresco na mente de Levi quando atravessa a cidade no dia seguinte, os posteres vermelhos e pretos a anunciar a formação da Volkssturm chamando-lhe a atenção em cada esquina. Às vezes estão cercados de homens mais velhos que abanam as cabeças, e Levi consegue ouvi-los praguejar em voz baixa enquanto passa por eles. Mas sabe que não deve ter esperança que o povo se revolte contra esta nova ordem. Assim que apanham um relance de um uniforme na multidão, os homens dispersam com desejos de 'Heil Hitler', o medo de serem presos assegurando a sua obediência.

O problema ocupa a mente de Levi de tal forma que não se lembra de sentir aquela pontada de nervosismo até ouvir os passos de Erwin aproximarem-se da porta, e consegue sentir as axilas começaram a transpirar assim que vê o homem à sua frente. Lembrando-se do quão embaraçoso e estranho tudo estivera antes, Levi decide passar por Erwin e entrar no apartamento, tentando regressar a como as coisas eram antes daquele fim de semana no casebre. Erwin não parece importar-se, afastando-se rotineiramente para deixar Levi passar por ele e entrar directamente na cozinha para pôr um bule ao lume, sem sequer parar para dizer um rápido olá.

- Levi - chama-o Erwin da ombreira quando ele se senta à espera que a água ferva. - Precisamos falar-

- Sobre esta coisa da Volkssturm. Eu sei - completa Levi em vez do homem, que se junta a ele na mesa, a expressão revelando a sua preocupação. - Filhos da puta dos nazis, não vão deixar que ninguém lhes passe por entre os dedos, pois não?

- Acho que está na altura de voltarmos a falar sobre o que discutimos no casebre - diz-lhe Erwin, a voz séria. - Sobre todos vocês ficarem permanentemente escondidos. Parece-me ser-

- Eu já te disse, não vou ficar enjaulado como um animal, caralho - protesta Levi de imediato. - Tu mesmo disseste, a guerra ainda pode durar mais um ano. Vou enlouquecer em metade desse tempo.

- Levi - suspira Erwin, massajando a cana do nariz. - Eu sei que não é a solução ideal-

- Isso é um eufemismo, caralho.

- -mas é a melhor opção, considerando as vossas circunstâncias actuais. As hipóteses de tu e o Farlan conseguirem forjar o vosso envolvimento na Volkssturm já são escassas para começar, e claro que alistarem-se de facto está fora de questão.

- Suponho que teríamos de fazer exames médicos eventualmente - supõe Levi, e Erwin assente.

- Esse seria o menor dos teus problemas. Claro que o público não sabe disto, mas as pessoas que estão a ser alistadas agora vão ser mandadas para a frente com equipamento inadequado e treino mínimo. Vão essencialmente ser carne para canhão em ambas as frentes, nada mais do que uma tentativa desesperada de aumentar o moral da nação, que está a esmorecer a um ritmo alarmante - explica o homem.

- Preferia tentar a minha sorte lá fora do que ser-

- Por favor, Levi - interrompe-lo Erwin severamente, parecendo magoado quando Levi olha para ele. - Vou acreditar que não estás a falar a sério. Para bem de ambos.

Levi sente uma pontada de culpa e fica calado, apanhando relances da expressão preocupada de Erwin pelo canto do olho. Há uma parte dele que quer concordar, em prol de Erwin e de Farlan, ainda que ele não se deixe enganar e pense que viver escondido fosse ser muito mais seguro do que a forma como têm vivido até agora; aquela noite em Maio ainda está recente na sua mente, como as pessoas tinham sido arrastadas para a rua no meio da noite, como aquela tentativa desesperada de fuga do homem acabara com um tiro nas costas. Considera por um momento como seria ficar fechado dentro de casa durante meses, evitando as janelas, dormindo para o dia passar, o tempo todo a pensar: pensando na sua vida, pensando em Berlim, sobre todas as coisas que já tinha passado, todos aqueles moldes hediondos em que já fora forçado a colocar-se.

- Desculpa - diz Levi por fim, a voz a falhar por um momento ao olhar para Erwin. - Não consigo. Ainda não.

Erwin suspira de forma cansada e olha para o lado de Levi antes de abanar a cabeça.

- Ambos sabemos que não te posso obrigar - acaba por murmurar. - Mas preciso que saibas que espero que reconsideres. Se decidires continuar com a tua pretensa, tens de saber que eu estarei limitado na minha capacidade de vos ajudar.

- Fazes o que conseguires - diz-lhe Levi, sentindo uma sensação de alívio preocupante.

- Para começar, vais precisar de documentação de recruta falsa - começa Erwin a enumerar. - E também o certificado do esquadrão para que vais ser destacado, mas isso não vai ser preciso até daqui a umas duas semanas. Confio que tenhas algum tipo de explicação para teres sido rejeitado pelo exército?

- Doença pulmonar - explica Levi brevemente. - Com o Farlan é mais complicado. Tenho tentado convencer toda a gente que ele é demasiado instável para lhe meterem uma arma nas mãos.

- Se nos vamos basear nessa história, será mais credível se forem ambos destacados para o Esquadrão IV - diz Erwin, e a Levi parece que ele está mais a pensar em voz alta do que a falar com ele. - Ainda que, para ser sincero, teria sido melhor que ambos tivessem fingindo serem mancos desde que chegaram a Dresden.

- Acho que seria um pouco suspeito se começássemos a coxear agora - resmunga Levi, aliviado por ouvir Erwin dar uma risada.

- Como recrutas do Esquadrão IV, podem continuar a viver em Dresden mesmo algum tempo depois de os outros recrutas da Volkssturm serem enviados para a frente - explica Erwin. - Isso poderá dar-nos algum tempo, mas o maior problema mantém-se. Todos os que forem recrutados para a Volkssturm vão receber treino militar básico, às vezes durante várias horas por dia.

- Então achas que as pessoas vão reparar se nós não formos?

- Numa cidade do tamanho de Dresden, especialmente com todos os refugiados, não será inconcebível que vocês se percam na multidão - diz Erwin. - Pelo que me apercebi, vocês não convivem com muitos homens da vossa vizinhança.

- Tento evitá-los sempre que posso - admite Levi, pensando em Böhmer e em Herr Schild; não apanhara mais do que relances de ambos em meses.

- Tens algum motivo para suspeitar que eles possam reparar na vossa ausência?

Levi abana a cabeça. - Não posso dizer com certeza - admite - mas não parece que tenhamos muitas escolhas.

- Não devo ter muita dificuldade em descobrir o horário de treino do Esquadrão IV - diz Erwin. - Ainda que admita que arranjar toda a documentação necessária é mais fácil dizer do que fazer. O Himmler e o Bormann ainda estão a lutar pelo comando da Volkssturm, e se o Bormann ganhar, isso significa que as SS não vão ter nada a ver com a milícia.

- E nesse caso, andares a bisbilhotar os documentos deles vai ser muito suspeito?

Erwin assente. - Também é importante que os teus vizinhos acreditem que vocês estão a treinar. Para que isso aconteça, devem ser vistos a sair do apartamento sempre que os treinos estejam a decorrer.

- Para onde vamos? - pergunta Levi. - Para aqui?

- Não consigo pensar noutro sítio - admite Erwin. - Tenho de realçar outra vez que muito do sucesso desta decisão se baseia em sorte pura, Levi. Se vocês viessem para aqui permanentemente, para ficarem escondidos até ao fim da guerra, eu conseguiria assegurar-

- Pareces um disco riscado - diz Levi ao homem amargamente antes de se levantar e apressar-se a ir até a fogão onde a chaleira começara a ferver. - Eu sei que o plano não é perfeito, mas gostava de pelo menos tentar antes de desistir da pouca liberdade que me resta nesta merda desta cidade.

Erwin suspira de forma exausta antes de murmurar: - Como queiras - e se juntar Levi junto da bancada onde ele está a verter a água a ferver para um bule. - Suponho que deva ficar feliz por seres tão teimoso.

- Recuso-me a morrer, mas também me recuso a uma data de outras coisas - concorda Levi, fazendo Erwin rir. - Deves aproveitar o que tens.

- Sim - murmura Erwin; Levi consegue sentir o calor do corpo do homem contra as suas costas. - Mas, por favor, promete-me que vais repensar a tua decisão se a situação assim o exigir.

Levi olha para Erwin ao dizer: - Prometo. - O alívio na expressão do homem desfaz o nó no estômago de Levi.

- Ainda vai demorar uma duas semanas até as inscrições começarem - diz-lhe Erwin. - O que me dá algum tempo para arranjar os papéis.

- Obrigado - diz Levi, afastando os olhos de novo para o bule. - Não sei como-

- Não há necessidade de me agradeceres, Levi - responde Erwin, a voz subitamente mais baixa do que antes ao se aproximar um passo. - Se eu pudesse dedicar o resto dos meus dias no Reich a certificar-me que sobreviverias, não hesitava um segundo.

Levi olha para cima para o rosto de Erwin, tão sincero no seu afecto, e sente uma onda de agitação controlá-lo. Lembra-se do que Erwin dissera sobre Levi trabalhar para ele, como o faz sentir que não são iguais, mas para Levi não é assim. Se há algo que os torna diferentes, é isto: a forma como Levi nunca conseguirá retribuir a Erwin sequer uma fracção do que o homem já fizera por ele, como as maneiras como Levi pode ajudar Erwin são tão limitadas e insignificantes, ainda que ambos sintam a mesma dor e vivam as mesmas mentiras. Num flash, Levi recorda-se de cada uma das suas tentativas desastradas de aliviar aquela dor e deseja poder fazer tudo de novo, ainda que não tenha a certeza se desta vez seria capaz de resultados melhores do que antes.

- Eu faço-o, se tiver de ser - diz Levi. - Vou ficar fechado onde quiseres que fique, se tivermos de chegar a isso.

Uma expressão de surpresa atravessa a expressão de Erwin antes de ficar preenchida de uma gratidão gentil que faz Levi querer desviar o olhar; o peso recai nas suas mãos, no desejo que puxar Erwin para perto, de o puxar para a cama onde os seus corpos poderiam ficar pressionados um contra o outro para sempre durante um quarto de hora, quinze minutos do seu pequeno mundo.

- Gostava de te conseguir expressar o quão feliz fico por te ouvir dizer isso, Levi - murmura Erwin, a mão caindo sobre o ombro de Levi. - Só posso imaginar o quão difícil isso seria para ti.

Levi dá um estalido com a língua. - Como disse, sou teimoso como o raio. Se tiver de escolher entre a jaula e a morte, escolho a jaula.

- Uma escolha sábia - concorda Erwin, esticando-se sobre Levi para chegar ao bule. - É melhor não deixarmos o chá arrefecer.

Há algo dos dias antes do casebre na forma como se sentam e bebem o chá, Levi no sofá e Erwin na sua poltrona, e na forma como Levi se levanta para começar a trabalhar depois. Erwin não diz nada contra isso, fica simplesmente sentado na sua escrivaninha a dactilografar os seus documentos, como se tivesse sentido o desconforto de Levi na última vez que ele cá tinha estado. O silêncio entre eles é de novo fácil, ainda que Levi consiga sentir a alteração na maneira como Erwin olha para ele, o traço de tristeza nos seus olhos quando se despede de Levi, como se quisesse pedir-lhe para passar a noite, mas não soubesse como o fazer.

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Continuam assim durante as duas semanas seguintes, nunca falando sobre o tempo que tinham passado no casebre apesar de Levi perceber que ambos pensam nisso, e consegue sentir que o corpo de Erwin está cheio do mesmo desejo, de estar perto, de beijar, de explorar novas formas de darem prazer um ao outro. Levi pensa nisso sempre que muda os lençóis, e pensa na noite que aqui dormira ao lado de Erwin, mas as palavras de Farlan não o deixam em paz, relembrando-o uma e outra vez o quão real isto se tornaria, quão tangível a sua ligação se tornaria, e quão vulnerável ela se tornaria, tudo ao mesmo tempo. E Erwin ainda lhe toca de forma casual, a mão tocando suavemente no seu ombro quando passam ao lado um do outro, pressiona-se perto dele quando preparam o jantar, mas ainda que os dedos de Levi se contorçam para fazerem o mesmo, as suas mãos não abandonam as tarefas para confirmarem a Erwin que Levi percebe, que sente que o homem precisa de mais e mais após cada visita em que vê a distância entre eles manter-se tão inabalável como sempre.

Erwin demora até aos primeiros dias de Novembro a conseguir adquirir os papéis falsos, que entrega a Levi sobre a mesa quando se sentam para uma refeição pesada, frango assado e batatas.

- Anda sempre com eles - ordena-lhe Erwin quando Levi dobra os papéis e os guarda no bolso das calças. - Tive de pedir a assistência do Darlett, mas pelo menos no que toca aos registos, deve estar tudo em ordem agora.

- E o que é que ele quis em troca? - pergunta Levi, fazendo Erwin rir.

- Nada, por incrível que pareça - responde ele. - Ainda que ele me tenha relembrado da missão de novo. Disse que é melhor realizá-la depressa.

- Quanto a isso - diz Levi, a boca cheia de frango; não tinham falado sobre o assunto desde aquele fim de semana no casebre. - Ele nunca me chegou a dizer quem era o alvo.

- Ah, suponho que ele não quisesse abordar essa parte - responde Erwin, as sobrancelhas a franzirem-se. - Há alguns anos, um operativo britânico que aqui estava colocado no Reich decidiu desertar para o lado inimigo. Os motivos ainda são desconhecidos a todos nós, mas a informação que ele revelou conduziu à morte de muitos dos contactos do Darlett em Berlim.

- Se é assim tão pessoal, porque é que não é o Darlett a despachar o tipo?

- Pelo que eu conheço do Darlett, ele procura sempre uma vantagem para si próprio - explica Erwin. - Suponho que ele veja a possibilidade de ser promovido caso seja ele a liderar uma missão que resulte na morte de um operativo desertor, em vez de se limitar a agir como um mero soldado raso, digamos assim.

- E os teus superiores, a central ou lá como vocês lhe chamam, eles concordam com isso? Matar um dos seus?

- As tentativas de capturar o operativo vivo têm falhado repetidamente no passado - diz Erwin. - Por isso, a Central não tem outra opção a não ser decretar a ordem de morte.

- Isso não quer dizer que ele vai estar à espera de um ataque? - pergunta Levi agora, enterrando o garfo na carne tenra do frango e enfiando uma fatia na boca.

- Ele não tem conhecimento da ordem - continua o homem. - E mesmo que tenha, pode não esperar um ataque em Dresden. Quando ele mudou de lado, não havia operativos activos na cidade. Esta localização tinha sido considerada indesejável, tendo em conta que o quartel-general da Gestapo é aqui.

Levi acena, saboreando o sabor da manteiga na língua por um momento antes de falar de novo. - Então e sobre a missão, afinal? Qual é o plano?

- Ainda estou a trabalhar nos detalhes - admite Erwin. - Mas os contactos do Darlett informaram-no da possibilidade de uma data. Uma parada em que o alvo irá muito provavelmente comparecer, depois de amanhã.

Levi dá um estalido com a língua. - Isso não nos deixa muito tempo - diz amargamente e Erwin concorda.

- Não, de facto não deixa. Mas assim é a natureza do trabalho. Muitas vezes necessitamos de pensamento rápido.

- Mas é uma parada - pensa Levi em voz alta. - Vai lá estar imensa gente. Miúdos e assim.

- Sim, eu compreendo que não seja o ideal - admite Erwin. - E, se mudares de ideias, eu percebo.

- Não - apressa-se Levi a dizer, pensando na ameaça de Darlett, que Levi ocultara de Erwin. - Eu faço-o. Eu sabia no que me estava a meter, por isso mais vale fazer o que é suposto fazer. Diz-me só onde devo estar e quando.

- Planeei um local para ti a aproximadamente oitocentos metros da rota da parada, no topo de um prédio residencial abandonado - explica Erwin. - É verdade que a Gewehr 43 não é a mais fiável das armas no que toca a longo alcance, mas do que vi das tuas capacidades, não acho que a distância vá ser um problema.

- E como é que é suposto eu levar a espingarda até lá?

- Não levas - diz Erwin. - Eu trato de tudo para que alguém a deixe lá colocada para ti antes de chegares. A parada começa ao meio-dia, mas para evitar que sejas visto imediatamente antes do evento, sugiro que vás para lá com bastante mais antecedência.

- E depois disso é só descer do telhado? - pergunta Levi, fazendo Erwin assentir.

- O ideal seria que nos encontrássemos aqui depois da missão. Podes usar qualquer rota que preferires, mas também posso delinear algumas possibilidades, caso precises.

- Acho que conheço a cidade bem o suficiente - diz Levi, resfolegando.

- Sim - concorda Erwin, a expressão a tornar-se séria. - Gostava de te poder acompanhar, certificar-me que-

- Um gajo do teu tamanho? - interrompe-o Levi. - Não havia hipótese nenhuma que não nos vissem. Esta treta dos snipers é suposto ser sobre ser-se furtivo, não é?

Levi fica aliviado por ouvir Erwin rir de novo. - Suponho que tenhas razão. Vou esperar por ti aqui, então, e esperar que corra tudo pelo melhor.

Passam o resto da noite a tratar dos detalhes, e quando Levi sai do seu apartamento na manhã de sábado, sente-se mais calmo e mais preparado do que sentira em qualquer missão anterior. Lembra-se constantemente do mapa da área que Erwin lhe mostrara antes de sair, a localização do esconderijo assim como as rotas que Erwin marcara para o seu eventual regresso. Encontra o prédio abandonado sem grande dificuldade - uma estrutura de três andares degradada numa parte pobre da cidade, cercado por três ruelas estreitas - e dá a volta ao prédio até achar umas escadas de serviço enferrujadas. Escala até ao telhado sob a luz fosca, agachando-se para percorrer o parapeito e encontrando uma manta estendida a um canto, a espingarda posicionada ao seu lado.

Levi deita-se na manta, olhando para cima para o céu que só agora começara a amanhecer, e fica à espera que os nervos comecem a surgir. A cidade debaixo dele está silenciosa, salvo um chiar enferrujado e uma janela a ser fechada algures mais abaixo na rua, onde uma fileira de prédios de classe trabalhadora se alinha com as pedras desgastadas da calçada. É difícil para Levi imaginar uma parada a marchar a menos de um quilómetro de distância daqui, com pessoas aglomeradas à volta para assistir à falsa glória do Reich, que ele sabe estar prestes a tornar-se nada, montes de cinzas onde antes cidades inteiras se tinham erguido. A ideia fá-lo sorrir para o céu e acalma o seu nervosismo; há algo tranquilizador ao fazer isto de novo, ser parte da luta, e lembra-se mais uma vez do que atraíra Levi a Erwin de forma tão irrevogável.

O dia passa devagar, a rua debaixo dele mantém-se quase tão calma como quando Levi tomara a sua posição, com a excepção de alguns passos que se arrastam sobre as pedras, como se os seus donos estivessem a desejar não chegar ao destino. Algumas horas antes do meio-dia, Levi começa a ficar com frio e fome e deseja poder andar pelo telhado para se aquecer. Em vez disso, rebola sobre o estômago e testa a mira da espingarda, contando pássaros numa árvore distante rapidamente antes de pousar a arma de novo a seu lado. Tenta passar o tempo a imaginar imagens nos farrapos de nuvens sobre si, como Erwin e Isabel disseram que costumavam fazer quando eram crianças, mas parece que ele não tem a imaginação deles, porque tudo o que ele consegue ver são folhas e penas.

Consegue ouvir a parada muito antes de a ver; no ar frio do outono, todos os sons parecem alcançar distâncias muito maiores do que o normal. Pela mira da espingarda, espreita o amontoado de gente que se reunira à volta da rota designada da parada; são muito menos do que Levi imaginara, mas também, este não é o lugar mais ideal, como as ruas principais seriam. Deixa Levi mais aliviado. Não quer que uma criança esteja a apreciar o espectáculo e veja alguém a ser alvejado mesmo à sua frente. Parece-lhe que não vai poder evitar isso de acontecer totalmente; por entre as figuras mais altas de mulheres e idosos, consegue detectar mais do que uma pessoa pequena a correr por entre a multidão.

Há uma sensação estranhamente calma nesta missão, não uma enfadonha como a missão na festa de Lilian, mas uma quase confortável, algo que permite que Levi respire e se prepare ao observar os soldados a marchar. Mesmo a esta distância, consegue ver os seus rostos, ainda que as feições se comecem a misturar passado pouco tempo enquanto Levi deixa que os indivíduos se afoguem no mar de uniformes na sua mente; é muito mais fácil assim, imaginar cada um destes homens a ajudar pessoas a entrar em comboios nas plataformas, ou a arrancar casais de idosos das suas camas no meio da noite para os executar na Münchner Platz - e afinal, não são eles parte do que torna aquilo possível?

O carro atravessa uma curva da estrada devagar, com o tecto aberto apesar do quão fresco o dia está, e Levi vê o homem de imediato. Está sentado à esquerda, o chão pontiagudo de oficial no topo da sua cabeça com cabelo ralo enquanto ele volta o rosto de um lado para o outro, observando de forma preguiçosa o público reunido enquanto conversa com outro oficial à sua direita. Levi puxa a espingarda mais firmemente contra o ponto suave entre o ombro e o peito, o ponto que Erwin pressionara com a mão para o ensinar a evitar mais ferimentos, e de repente Levi está a pensar em Erwin, a andar para trás e para a frente no apartamento, sem dúvida em antecipação nervosa, esperando notícias de Levi. Alinha a mira calmamente, apontando para o peito - um alvo muito mais espectável para um assassinato, mesmo que as hipóteses de recuperação de um ferimento daqueles sejam também mais elevadas. Levi consegue ver o brilho baço dos botões no casaco do homem enquanto move o dedo no gatilho, tocando no metal frio uma vez e perguntando-se porque é que isto lhe parece tão fácil e tão certo antes de reforçar o aperto na arma e pressionar o gatilho gentilmente.

Levi mantém o olhar no alvo tempo suficiente para ver o carro guinar violentamente para a direita, quase atropelando as pessoas que tinham começado a gritar em horror. Consegue ver a mancha crescente de vermelho no peito do homem, observando a súbita frouxidão da figura antes de voltar a colocar a arma no telhado exactamente onde a encontrara e rastejar até às escadas de serviço, mantendo-se na sombra que o parapeito lança até conseguir começar a descer as escadas, o rugido dos motores à distância a apressar-lhe os passos a descer os degraus. A ruela apertada lá em baixo está vazia e Levi atravessa rapidamente até à esquina, pensando em seguir para as passagens mais calmas mais à frente do prédio quando alguém embate contra o seu ombro.

Levi volta-se de imediato, terrivelmente ciente do tumulto da parada a aproximar-se mas pronto para enfrentar a ameaça, lutar contra quem quer que o tenha apanhado para se certificar que ficavam permanentemente calados, esperando ter de usar as instruções de Erwin de novo. Em vez disso, os olhos encontram uma jovem mulher, magra ao ponto de se parecer com um esqueleto sob o sobretudo escuro à sua volta, os olhos com que fixa Levi parecendo-se duas vezes maiores do que o normal nas faces cavadas. Está a segurar uma maçã solitária na mão, e sob o matagal de cabelo sujo Levi consegue ver um relance de amarelo: a estrela.

Olham um para o outro, analisando e examinando-se até Levi quebrar a ligação e olhar para trás onde o bramido dos passos a correr está a começar a esmorecer. A mulher olha na direcção do som também, e depois de novo para Levi, e depois para o telhado e de novo para Levi. Parece compreender mas não fala, simplesmente remexe os pés por um momento antes de se afastar, apoiando-se na parede de tijolos vermelhos enquanto Levi passa à sua frente.

- Sholem - murmura Levi baixinho, ainda que não saiba porquê, mal ouvindo o arquejo da mulher em resposta quando ele acelera o passo pela rua vazia.

Atravessa a cidade e afasta-se da cena do seu crime, parando uns bons dez minutos para esperar nas sombras sob umas arcadas várias ruas de distância do apartamento de Erwin para se certificar que não está a ser seguido. Só para ter a certeza, faz um caminho maior de regresso, passando pelo prédio a norte depois de dar a volta ao bairro, fazendo mais algumas paragens pelo caminho antes de finalmente subir as escadas e bater à porta de Erwin.

Só depois de se sentar no sofá de Erwin é que consegue deixar que tudo aquilo volte e possa tentar compreender o que fizera. Revive a missão na segurança trazida pela presença de Erwin, o peso da arma nas mãos, o frio sereno do ar outonal, a massa de soldados convertida em pessoas singulares pela mira da espingarda, e a descarga de adrenalina e excitação misturadas com náusea quando finalmente premira o gatilho. Conta tudo a Erwin, tal como fizera sobre aquela noite na cela da Gestapo, para o tirar da sua cabeça, para o tornar em algo partilhado.

- Como te sentes? - pergunta Erwin por fim, e Levi encolhe os ombros.

- Que deveria estar a sentir-me mais culpado do que sinto - admite baixinho. - Que tipo de pessoa faz o que eu acabei de fazer e não se sente mal depois?

Erwin olha para ele por alguns segundos, a expressão pesada, com pena nos olhos. - Tenho-me debatido com isso também - diz a Levi com suavidade. - Depois de tudo o que fiz, todas as vidas que tirei, como posso achar que sou uma boa pessoa?

- Como o fazes? - pergunta-lhe Levi, e Erwin suspira.

- Tenho de continuar a acreditar que estou no lado certo desta luta. Não tem a ver com ter ilusões sobre a realidade da guerra. Às vezes, tens de sacrificar a tua moralidade pelo bem maior.

- Pelo bem maior - repete Levi. - Nunca consegui ver as coisas dessa forma. O panorama geral.

- Podes confiar naquele que eu vejo?

A pergunta de Erwin faz Levi erguer o rosto e fitar aquelas feições que se tinham tornado tão familiares, tão firmes, sinónimo do que Levi entende como segurança. Acena devagar, seguindo Erwin com os olhos quando ele se levanta e atravessa o espaço entre eles, estendendo a mão.

- Vem - diz ele a Levi; um som calmo, estável por entre as sombras.

Deixa Erwin conduzi-lo até ao quarto, deixa-o ajoelhar-se à sua frente para lhe descalçar as botas gastas e as meias; os efeitos de ver Erwin de joelhos são rápidos no corpo de Levi. Quando o homem se levanta de novo, as mãos de Levi caem depressa sobre os botões da camisa dele enquanto Erwin observa, um traço de sorriso a brincar nos lábios.

- Achei que um banho seria-

- Não é isso que eu quero - diz-lhe Levi com a voz rouca, guiando as mãos de Erwin de volta à sua tarefa anterior e imitando os seus movimentos com as suas até estarem ambos despidos em frente um do outro.

Deitam-se na cama, expostos pela luz ténue que ainda brilha por entre os chuviscos que começam a formar grossas gotas no vidro da janela. Levi toma o seu lugar sobre as coxas de Erwin, inclina-se para a frente e beija-o, nos lábios, no queixo, ao longo da pele áspera no pescoço. Consegue sentir a incerteza de Erwin na forma como as suas mãos estão quietas ao lado do corpo, pesadas e inúteis, e Levi segura-as nas suas, traçando um mapa no seu corpo; ao longo das coxas, quase provocando cócegas pela sua suavidade, ao longo das costas e até ao seu rosto, o polegar a traçar os lábios finos que tinham ficado húmidos pela boca de Erwin. Sente Erwin contrair-se contra a palma da sua mão quando os seus beijos se tornam impacientes, os olhos fixos na imagem dos seus corpos, muito mais definidos e claros à luz do dia. Os toques de Erwin nunca vagueiam para lá das fronteiras que Levi lhes delimitara, mas o seu desejo está claro nos seus dedos e na forma como o seu olhar percorre Levi, agitando-se quando o ritmo de Levi à sua volta aumenta e ele termina, as mãos a prenderem as coxas de Levi, as faces coradas, arquejando palavras noutra língua que fazem Levi voltar a aperceber-se da quantidade de luz no quarto.

Fita Erwin por mais um longo momento, absorvendo o seu sorriso fácil, o peso nas suas pálpebras quando estas caem para esconder aquele azul, a gentileza da sua expressão ao afagar o rosto de Levi com os nós dos dedos. Faz Levi lutar contra aquele lado que quer fugir, quer esconder a sua preferência atrás da porta fechada da casa de banho; mas desta vez, é uma luta perdida. Ao apoiar-se na parede, Levi deixa a cabeça cair para trás e pensa em Erwin do outro lado da porta, vestígios do sémen que o homem deixara na sua mão a ajudarem-no e a misturarem-se com o de Levi mais depressa do que esperara. Levi lava as mãos rapidamente com aquele sabonete de lavanda antes de regressar à cama e deitar-se sob os lençóis com Erwin, que não diz nada sobre a sua ausência quando Levi pressiona o ouvido contra as vibrações graves da sua voz.

- Eu não quis insinuar que-

- Preocupas-te demais- interrompe-o Levi, sentindo o murmurar do riso de Erwin contra a bochecha.

- Sim, já me acusaram disso antes - admite Erwin, espreguiçando-se por alguns segundos antes de voltar a pousar a mão sobre a cabeça de Levi. - A Marie costumava dizer que eu a fazia lembrar a mãe dela.

Levi resfolega. - Se calhar foi por isso que vocês não se casaram - comenta, aliviado por ouvir Erwin rir de novo.

- Se calhar - concorda. - Mas, de facto, essa não foi uma das razões que ela deu.

Levi fica calado por algum tempo, imaginando a situação, sentindo um súbito nó no peito quando murmura: - Estás apaixonado por ela?

- Achei que estava - diz Erwin baixinho. - Agora, não tenho tanta certeza.

Levi inspira o suor de Erwin e guarda aquelas palavras e o que elas significam, perguntando-se vagamente como conseguira encontrar um caminho de volta a isto. Ainda sabe porque a distância existira para começar; para o manter a salvo, para conceder a esta coisa que tem com Erwin proporções com as quais Levi se pudesse sentir confortável, para se certificar que, quando tudo acabar, só vai sentir uma fracção da tristeza que vê em Farlan todos os dias. Fingimentos atrás de fingimentos, e Levi está farto disso; de qualquer das formas, nunca houve lugar para isso entre ele e Erwin.

- Há uma coisa que quero dizer-te, Levi.

O tom de Erwin fica subitamente sério, e faz Levi mover a cabeça para apoiar o queixo nas mãos sobre o peito do homem.

- O que é?

- Há algum tempo, quando ainda estava a viver em Berlim, a Marie pediu-me uma coisa - começa Erwin, antes de pausar por alguns segundos, uma expressão de profundo arrependimento nos seus olhos. - Tens de compreender... antes de te conhecer, a minha vida era muito diferente. O Holtz era... bem, ele era mais presente, mesmo quando não tinha de ser. Suponho que possas dizer que ele se estava a tornar uma parte de mim, ainda que eu não queira parecer estar a arranjar desculpas para o que fiz.

Levi consegue sentir as sobrancelhas unirem-se sobre os olhos ao dizer: - O que é que ela te pediu?

- Ela conhecia uma família na cidade - explica Erwin. - Uma família judia. Pediu-me para os ajudar a fugir.

- Recusaste - apercebe-se Levi, recordando-se daquele fragmento da carta de novo. 'Independentemente de como a minha moralidade me compele'.

- Fiz a escolha errada - diz Erwin. - A operação não deveria incluir resgate de civis, e essas foram as ordens que eu segui. Mas desde que te conheci, não consigo deixar de pensar naquelas pessoas e onde eles acabaram. Se conseguiram encontrar outra pessoa para os ajudar, ou se foram apanhados e deportados para leste.

A questão fervilha na mente de Levi, uma que tem feito a si próprio durante anos, ansioso por saber a resposta mas temendo-a ao mesmo tempo. Quando escapa dos seus lábios, é apenas um suspiro vazio: - O que há a leste, Erwin?

A expressão no rosto de Erwin é uma que Levi nunca vira antes, raiva silenciosa e uma tristeza imensurável sob um véu de pena ao olhar para Levi e perguntar: - Tens a certeza que queres saber?

Levi assente, e Erwin conta-lhe, leva Levi da plataforma do comboio aos portões dos campos e para lá deles, além das frases de falsa esperança até barracões sobrelotados e pedreiras e fábricas e salas de desinfecção, até armazéns cheios de sapatos e anéis e malas de viagem, para câmaras de gás e crematórios e valas comuns. O corpo de Levi fica gelado, a mente revolta-se contra as imagens que as palavras de Erwin criam; é o que ele temera e muito pior, algo que até ele, com toda a sua desconfiança pelo mundo, nunca teria imaginado, um mal tão extremo que o deixa sem palavras. Num flash vê a miséria da sua vida, o seu medo quando o tio não regressara a casa, a luta que enfrentara para mal sobreviver de pequenos trabalhos e biscates, a luta contínua para manter Farlan e Isabel alimentados, para os manter a salvo, o que Krieger lhe fizera, e apercebe-se: ele tivera sorte, uma sorte imensurável, tanta que vai contra qualquer lógica, e de repente a memória de como conhecera Erwin faz Levi querer acreditar em Deus.

- Não o consegues compreender de facto - murmura Erwin - a menos que o tenhas visto com os teus próprios olhos.

Levi não fala; o calor do corpo de Erwin sob ele é a única segurança sólida que existe neste momento, e Levi pressiona o rosto contra ele, tentando não pensar.

- O meu pai acreditava que a educação era a cura para todos os males deste mundo - continua Erwin. - Dizia que só estudando a História podemos aprender a não a repetir, e com esses fundamentos atacou a minha escolha de ter uma carreira militar. É a única consolação que tenho com a morte dele; que ele não tenha vivido tempo suficiente para ver o quanto o seu ideal de humanidade caíra.

- Promete-me - diz Levi, a voz soando estranha nos seus ouvidos - que nunca vais contar ao Farlan e à Isabel.

Erwin afaga a face de Levi gentilmente por alguns segundos antes de murmurar: - Prometo.

Levi embrenha-se ainda mais no cheiro de Erwin, prendendo a perna sob a coxa de Erwin e segura-se a isto, à luz suave da tarde, o abraço suave dos lençóis, a suavidade dos dedos de Erwin quando se entrelaçam no seu cabelo. Levi segura-se a tudo isto, a coisas que ainda podem ser assim, onde ainda há sentido e razão em viver por causa de momentos destes. Olha para a cara de Erwin, imagina por um momento a tristeza que o homem sentiria se Levi... Não, não poderia chegar àquilo, Levi não o vai permitir; decide-lo ali mesmo, e definitivamente.

Uma batida alta na porta da frente afasta-os um do outro e de volta para as roupas, as mãos a voarem para os cabelos desalinhados e tentarem-nos fazer passar por apresentáveis a um sábado. Levi volta-se para a cama quando Erwin sai do quarto, escutando enquanto estica os lençóis e ajeita as almofadas e puxa as cobertas para cima assim que Erwin regressa à sala de estar com Lilian colada aos calcanhares.

- O que eu não percebo é porque é que vens ter comigo por causa disto - diz o homem com a rudeza de Holtz na voz subitamente. - Tens centenas de amigos, Lilian. Porque não pedes ajuda a qualquer um deles?

- Achas que eu confio naquelas cobras? - sibila-lhe ela, acendendo um cigarro irritada enquanto Erwin se senta na poltrona. - Metade deles nem me devolve as chamadas agora. De repente passei a ser uma merda de uma pária do dia para a noite.

- E o que queres que eu faça quanto a isso? - pergunta-lhe Erwin, soando impaciente enquanto também acende um cigarro. - Sou só um secretário glorificado, lembras-te?

- Oh, podes ultrapassar isso? - atira-lhe ela. - Estás a comportar-te como uma colegial idiota-

- O que queres que eu faça? - interrompe Erwin, irado. - Se prenderam o teu marido, só posso supor que tiveram motivos para isso, e que esses motivos não têm nada a ver comigo.

- Estão a dizer que o meu testemunho não é relevante porque 'Claro que eu vou confirmar o álibi dele, sou a mulher dele' - diz Lilian, com um tom trocista no fim da frase. - Burocratas de merda. Sabes que nenhum deles fez sequer um milésimo do que o Wolfgang fez por este país.

- Estás a divagar e eu estou a ficar aborrecido - declara Erwin. - Se tudo o que queres é alguém a quem te queixares, sugiro que ligues à tua irmã.

- O que é suposto eu fazer agora? - pergunta-lhe Lilian com a voz estridente. - Congelaram os nossos bens, tenho duas crianças para alimentar, como é suposto eu-

- Descendo do teu palácio para um apartamento e arranjando trabalho - diz-lhe Erwin com naturalidade. - É o que resto de nós tem feito desde o começo dos tempos. Está na altura de te juntares a nós na lama.

- Não sejas absurdo - responde Lilian; através da porta aberta, Levi consegue vê-la andar para trás e para a frente.

- Que escolha tens? - recorda-lhe Erwin. - O que achavas que eu ia dizer? 'Claro, traz os miúdos para aqui, vamos viver como uma família feliz e vou tomar conta de ti até o teu marido sair da prisão'?

- Caso não tenhas reparado, estou no fim das minhas-

- Esquece, Lilian - interrompe-a Erwin, apagando o cigarro. - Estou farto de te deixar tratares-me como se fosse um servo qualquer a que recorres sempre que precisas de alguma coisa. Escolheste o Wolfgang, e agora tens de viver com isso. É tão simples como isso.

Levi consegue ver a fúria no rosto dela ao olhar para Erwin, os olhos passando apenas uma vez por Levi quando ela larga o cigarro no chão e roda sobre os calcanhares; o embate da porta ecoa pela escadaria lá fora mesmo quando Levi sai do quarto e pára em frente de Erwin, que enterrara o rosto nas mãos.

- Há coisas - murmura ele para os espaço entre os dedos - que são difíceis incluir no panorama geral.

Levi vê como o sol através das cortinas pinta fios prateados no cabelo de Erwin e estende a mão; puxa o homem para perto, aqui, à luz do dia, os lábios de Erwin contra o bater do seu coração.

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AVISOS:

- linguagem obscena

- morte

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