CALEIDOSCÓPIO
Parte 14 – Nova Vítima Da Crucius Kedrava.
Snape bateu a porta de sua casa fazendo o som reverberar ruidoso pelo silêncio que ali reinava, jogando em seguida suas chaves sobre a mesa de centro da sua sala. Num rompante, sem pestanejar, subiu às pressas a escadaria de madeira, pulando os degraus de dois em dois, até chegar ao seu quarto que estava mergulhado numa penumbra acolhedora.
Deixou-se cair de costa sobre a cama de casal que ficava ao centro do quarto, levando suas mãos ao rosto e deslizando-os até enterrar seus dedos nos fios finos e negros de seu cabelo.
Precisava meditar para entender o que se passava consigo. Um amargor persistia em sua garganta. Tinha noção que não era uma pessoa de bondade exemplar, sequer poderia ser considerado bondoso. Sabia que era egoísta, de um egoísmo que, por vezes, chegava a ser infantil... mas não queria sequer cogitar a possibilidade de que estava decepcionado pela frieza com que Hermione se dirigiu a ele. Ele arriscou, sim, sua vida para trazê-la de volta, e o fez sob sua livre e espontânea vontade, ninguém o pediu isso, muito pelo contrário... Seria muito egoísmo querer que a moça lhe devesse algo, muita pretensão de achar que ela lhe era obrigada a algo.
Virou-se de lado, apoiando a cabeça sobre o braço dobrado logo abaixo. Seus sentimentos eram confusos, porque estava vivendo emoções novas, das quais jamais havia experimentado. Amava Hermione de longo tempo e esse amor jamais esvaeceu-se com a distância. Experimentou a essência desse amor durante sua louca viagem entre os mundos da vida e pós-vida... talvez o fato de deparar-se fisicamente com ela, depois de tudo que ocorreu, tenha despertado em si emoções adormecidas das quais não tinha ciência de existirem.
Havia apenas uma verdade da qual se dedicar: ele a amava e não abriria mão dela tão fácil. Ele a amava e faria de tudo para estar ao seu lado, agora e para sempre. Cometeu o erro de não ter estado ao seu lado quando o mundo mágico desabou para ela... não cometeria o erro de perdê-la sem antes tentar conquistá-la.
—... por que.. por que essa sensação de ter estado recentemente com alguém que.. já não mais via há tantos anos! – Hermione perguntava confusa, mais para si mesma do que para a Professora Minerva.
A moça baixou suas mãos ao seu colo, esfregando uma a outra de forma um pouco nervosa. Minerva apenas a fitava em sua típica expressão austera. A velha maga sabia do que Hermione se referia, embora a própria não soubesse disso.. ainda. McGonaggal ponderava entre contar à Hermione o que lhe ocorreu durante seu coma ou apenas, simplesmente, se manter quieta, como mera expectadora, e aguardar que a própria moça descobrisse por si mesma – ou através do próprio Snape, que viesse e intercedesse. Por fim, no decorrer de alguns minutos em silêncio e meditação de Hermione, McGonaggal suspira profundamente, já decidida a que atitude tomar em relação a sua pupila... deixaria que os fatos se ajustassem por si mesmos, sem que se intrometesse para fazer decidir qual caminho Hermione deveria tomar.
McGonaggal leva sua mão esquerda sobre as mãos de Hermione, que permaneciam entrelaçadas e inquietas sobre seu colo. A moça abandona seu leve estado de torpor e encara sua antiga professora com olhos esperançosos por qualquer tipo de esclarecimento para as dúvidas que formavam estranhamente dentro de si. Manteve-se muda, em expectativa. McGonaggal fecha brevemente seus olhos e um sorriso singelo forma-se em seu rosto, tirando sua expressão austera, aliviando seu semblante.
—Eu não sei bem o que acontece à pessoa que está em coma.. muito menos ainda o que ocorre à mente de uma pessoa que sofreu uma maldição, especialmente a maldição terrível que você sofreu, Hermione...! Mas, suponho, você deve ter percebido e recebido impressões do mundo exterior, daquilo que acontecia ao redor de seu corpo acamado. Muitos de seus antigos colegas e conhecidos apareceram ao seu leito para visitá-la, para ver como estava.
—Até mesmo o... – Hermione censurou-se pela pergunta que estava preste a fazer.. ou melhor, censurou-se pelo nome que estava prestes a pronunciar. Sentia-se confusa, exausta e não deveria deixar que isso a influenciasse e começasse a dizer asneiras sem nexo. Embora sentisse que a estranha expectativa por Snape vinha de algo profundo dentro de si, que oprimia seu peito, não podia entrar em conversas a respeito, dando margens errôneas sobre seus sentimentos, agora muito confusos; o melhor que tinha a fazer era tentar relaxar e descansar e só depois, com a mente completamente sóbria, voltaria a esse assunto consigo mesma.. se é que o "assunto Snape" tinha qualquer relevância de fato para si.
Como se lesse os pensamentos de Hermione, Minerva prensa um pouco mais sua mão contra as mãos da garota, dispensando-lhe um novo sorriso, agora de uma doçura materna.
—Querida.. você precisa descansar, dormir.. dormir muito para repor as energias perdidas no coma. Deixe todo e qualquer assunto para quando sentir-se mais disposta e descansada...
Enquanto falava, Minerva ajeitava as costas de Hermione nos travesseiros de fronhas alvas e, muito levemente, empurrava a moça até eles, pelos ombros. Hermione, sentindo as pálpebras pesarem diante de seus olhos, nada diz, mas esboça um sorriso leve e meigo como agradecimento. A professora em seguida desdobra um grande e volumoso edredom branco de engenhosos bordados também em linhas brancas, cobrindo Hermione até o queixo.
Hermione apenas se ajeitou mais um pouco nos volumosos e fofos travesseiros, fechando os olhos de pálpebras pesadas e dormindo quase que instantaneamente. Passado alguns minutos sob o velo de McGonaggal, esta suspira de forma pesar, fechando seus olhos por instantes. O pior já havia passado. O impossível aconteceu. Hermione estava de volta do mundo dos mortos, aparentemente sã; isso só não era um milagre porque era magia... e, apesar de não crer em bobagens de sexto-sentido, adivinhação ou coisas que os valha, sentia que essa magia ainda faria muito mais e faria, talvez – e assim o esperava! – algo quase tão maravilhoso que o retorno à vida.
Era de madrugada, quase amanhecendo, quando Snape é despertado por insistentes e nervosas pancadinhas que tilintavam no vidro da janela do quarto onde dormia, em sua casa. Inicialmente amaldiçoou o que quer que fosse por despertá-lo de um merecido sono profundo, que havia há muitas noites não tinha o prazer de dormir. Ainda levou alguns instantes para compreender lucidamente que as pacadinhas insistentes e irritantes vinham da sua janela.
Logo que ficou completamente acordado, Snape pulou da cama num salto e em dois passos largos e apressados se encontrava à janela de vidraça, abrindo com apreensão. Nervosa e parecendo aborrecida, uma coruja branca entrou e sobrevoou a cama de Snape, largando nela um envelope igualmente branco com um lacre vermelho em cera. A coruja soltou um pio aborrecido e disparou pelo céu noturno rumo a direção da lua minguante. A sua penugem branca não permitia que ela desaparecesse no manto escuro da noite, e mais parecia um fantasma flutuando no ar, diminuindo de tamanho rápido e gradativamente.
Snape saltou sobre sua cama e, apreensivo, pegou o envelope branco e rompeu o lacre. Para receber uma correspondência do Hospital St Mungus a esta hora da madrugada, só poderia ser um caso urgente e grave. Intimamente, em preces instintivas, pedia a Merlin que não fosse absolutamente nada com Hermione. Ansioso, Severus quase rasga o envelope ao retirar o pergaminho de dentro dele, que desdobra com receios, mas rápido, e põe-se a ler rapidamente as poucas linhas escritas em pena e tinta. A carta veio assinada pelo próprio diretor do hospital.
"Prezado Sr Snape
Solicitamos sua presença ao Hospital St Mungus o mais breve possível. Recebemos
pacientes em estado gravíssimo, sendo que um deles é um sobrevivente da maldição
Crucius Kedrava, ao que supôs o nosso conselho devido aos sintomas apresentados
pela vítima.
Agradeço, desde já, a sua valiosa colaboração.
Atenciosamente:
Dr Behrens Krokowski – Diretor do Hospital St Mungus."
Snape inspirou de forma falha, ainda apreensivo. Certamente não era nada a ver com Hermione, mas apenas pensar em lidar com uma nova vítima sobrevivente da Crucius Kedrava lhe dava calafrios. Não pelo medo de encarar novamente esse desafio de testar mais uma vez suas poções, mas pelo medo de crer que elas poderiam não surtir qualquer efeito na nova vítima. Não poderia prever o estado como o paciente se encontrava, mas algo tinha a absoluta certeza: era possível que suas poções não trouxessem a pessoa de volta à vida e no máximo a transformaria num vegetal. Só esperava que não o cobrassem a todo o custo a melhora dessa vitima tomando por base a completa restauração de Hermione Granger... ele não gostaria de revelar a ninguém que se utilizou de uma arte proibida para trazê-la de volta ao mundo dos vivos e jamais tornaria a fazer isso por qualquer pessoa que fosse, além dela.
Na ala hospitalar para pacientes em estado leve, Harry Potter dava trabalho aos enfermeiros que com muito custo tentavam manter o rapaz deitado na cama. Harry se debatia nervoso, meio entontecido pelo ataque que havia sofrido numa emboscada de jovens Comensais da Morte. Dois enfermeiros, um de cada lado de Harry e segurando firmemente seus braços, tentavam manter o rapaz descontrolado imóvel enquanto a medibruxa do plantão daquela noite lhe aplicava uma injeção de entorpecente para acalmá-lo antes que ele se machucasse gravemente. Antes de o tranqüilizante fazer efeito, Harry ainda se debatia e gritava em alto brado.
—RONY! PRECISO VER O RONY! PRECISO VER O RONY!
—Seu amigo ficará bem! – Dizia a medibruxa, numa tentativa frustrada de manter a voz calma, enquanto aplicava a injeção em Harry.
—NÃO! O RONY NÃO! AQUELE.. MALD..ito... ele... ele...
O entorpecente fez efeito quase instantâneo. Os enfermeiros largaram os braços de Harry e a medibruxa o recostou carinhosamente ao travesseiro. A voz de Harry se tornava embargada e suas palavras fracas e inteligíveis enquanto seus olhos verdes tornavam-se vidrados como olhos de um recém cadáver.
Vendo que tudo havia voltado ao controle, a medibruxa deu ordem a um dos enfermeiros que permanecesse no quarto de Harry dando-lhe assistência e para controlar novamente a situação caso o rapaz despertasse em ira, novamente. O outro enfermeiro seguiu a medibruxa que saiu apressada e apressada avançava pelo corredor branco e asséptico repleto de portas que davam para diversos quartos particulares do hospital.
— Você sabe me informar se o comunicado já foi entregue ao Sr Snape? – Perguntava a medibruxa que quicava pelos passos apressados e ajeitava os óculos de armação pesada sobre o rosto.
— Sim, doutora! – Respondeu o enfermeiro, prontamente. — Uma coruja solicitando a presença do Sr Snape já foi enviada pelo próprio Dr Krokowski.
— Muito bom! Mais uma vítima sobrevivente daquela maldição nojenta! Talvez haja mesmo uma cura para isso e que tal maldição não é irreversível como a própria Avada Kedrava.
— Com a salvação daquela primeira vítima sobrevivente, a Srta Granger, é muito possível que em breve se consiga reverter totalmente esse caso! – Disse entusiasmado o enfermeiro.
— A Srta Granger foi um caso especial! – Censurou a medibruxa. — Não podemos criar esperanças baseadas no caso dela!
— Mas, não entendo, por qu...
A medibruxa virou-se abruptamente para o jovem enfermeiro que era umas duas cabeças mais alto que ela e que lhe exigia que curvasse o pescoço para encará-lo nos olhos. De forma ríspida e com tom de ponto final, a medibruxa o dirigiu um olhar penetrante e furioso, apontando o dedo indicador ao rapaz.
— Esse assunto está encerrado, rapaz! São ordens superiores que não devemos falar sobre isso até que pontos obscuros da recuperação da paciente sejam lucidados. Até lá, mantenha-se quieto!
Snape atravessava o corredor de St Mungus em passos largos e apressados, acompanhado do diretor do hospital, o Dr Behrens Krokowski. Como um deja vu, rumava apreensivo para o UTI. Como de praxe, o Mestre de Poção mantinha-se com expressão grave e silencioso, apenas ouvindo os relatos de Krokowski. Logo chegaram ao CTI que era subdividido por pequenas salas que mantinha os pacientes isolados uns dos outros. Prontamente um enfermeiro se aproximou dos dois homens, indicando o leito da vítima da Crucius Kedrava que estava sendo assistida, naquele momento, pela medibruxa chefe de plantão.
O Diretor Krokowski e Snape se apressaram até o leito e foram recepcionados pela medibruxa que lhes dirigia um ar grave e carregado.
Era mesmo um deja vu. Snape parou prostrado frente ao leito, onde jazia a vítima de aparência mórbida e quase desfigurada por queimaduras de diversas intensidades no corpo nu oculto apenas pela leveza de um lençol esverdeado. Algumas chagas estavam em carne viva ainda e ao paciente era administrada por via venosa, por tubos e agulhas aplicadas em seu braço esquerdo, uma poção leitosa. Pela deformidade do rosto não fora possível reconhecer imediatamente a identidade da vítima. Apenas poucos tufos de cabelos chamuscados permaneciam na cabeça do rapaz. A respiração de Snape falhou e ele jamais imaginaria que em sua vida sentiria pesar pela pessoa que ali estava morrendo...
Quantas crianças que ele educou ainda veria tombar nessa maldita guerra que jamais se finalizava!
Fim do 14º capítulo - continua
By Snake Eye's - 2004
N/A:
Behrens Krokowski – É a junção de nomes de dois personagens do livro 'A Montanha Mágica' do ótimo Thomas Mann, escritor alemão autor de obras incríveis e humanistas como 'Morte de Veneza' e 'Tony Krüger'. É muito interessante como ele trata o tema amor, que, para Mann, este ultrapassa até mesmo a barreira do convencional. Fãs de SS-HG gostariam muito de suas obras, não que tenha sido retratada (pelo menos nas obras que li) algum romance entre um cara mais velho e uma garota mais nova, mas retrata o amor platônico, imaculado, provido de apenas admiração, por pessoas de mesmo sexo e diferenças etárias grandiosas. São, realmente, obras fascinantes, pois é igualmente fascinante a narrativa de Mann, um apaixonado pelo ser humanos e histórias simples.
!
É, eu sei, não deveria postar um capítulo com essas condições, principalmente
depois de ter levado quase 1 ano para atualizar a Caleidoscópio... mas,
infelizmente, é isso que resta de Snake :(
Lamento muito em dizer que já não tenho mais a mínima vontade de escrever fics.
O horário que me é possível fazer isso é completamente inapropriado, já que
estou cansado depois de um dia cheio com o trabalho, a mente muito cansada
também... se ao menos me fosse permitido escrever pela manhã, que é quando
surgem as idéias e a vontade de escrever, talvez eu não estivesse nessa
decadência que agora me encontro. Pois é, é essa a realidade que se mostra: a
época de Snake foi curta e já passou; o que sobrou é meramente a obrigação de
terminar aquilo que foi começado. Já não é mais uma questão de crise e sim uma
questão de falta de oportunidade. As coisas na minha vida mudaram um bocado
nesses últimos meses (quase um ano) e isso se refletiu diretamente aqui. Já não
tenho mais o tempo disponível que antes tinha, quando comecei a escrever..
talvez o mal tenha sido que comecei muito tarde nessa de fanfics...
Mas vamu que vamu! Aos trancos e barrancos vamos levando as pendengas. São
apenas 3 fics para finalizar (e, ao que parece, Caleidoscópio, que foi a
primeira de todas, será a última a se encerrar!) e as finalizarei, mas sem data
prevista.
Eu sei, eu as decepcionei. Mas a vida é assim mesmo... até aqui no mundo virtual
repleto de alteregos, pessoas inexistentes.
Desculpe.
ټ Snake Snake ٽ
