Noite de angústia
Em território inimigo, Thorin vê as coisas piorarem
Thorin estava extremamente mal-humorado com toda aquela situação. Estar na casa de inimigos, ser manipulado pelo mago — o que mais faltava acontecer?
Aí houve a comoção às suas costas. Ele se virou e Bilbo estava carregando Anni em seus braços. Ela estava desacordada.
E Thorin viu sangue nas mãos do hobbit. Muito sangue.
— Mahal...!
Gandalf alertou.
— Precisamos fechar esse ferimento. Aqui, rápido.
O grupo já estava na ala reservada aos visitantes, onde eles acampariam. Bilbo e Gandalf deitaram Anna num saco de dormir e então viram que a roupa dela estava encharcada de sangue, o que ninguém tinha visto antes.
Elrond comentou:
— Ah, um de vocês foi ferido. Vou mandar remédios. — Ele disse algo a Lindir em élfico, que saiu apressado.
Thorin resolveu ignorar o elfo, limitando-se a ficar ao lado de Bilbo, olhando o rosto de Anna com o coração apertado. A pele dela estava fria, cinzenta, os lábios pareciam azulados. Gandalf passava o cajado acima do corpo dela e de repente o cristal se acendeu.
— A perda de sangue foi maior do que parece — disse Gandalf, sombrio. — O corte ficou escondido. Foi profundo e muito insidioso, mas não atingiu nada vital. Por favor, peço a todos que se virem. Vou ter que abrir a roupa dela.
Thorin quis saber:
— Vai ficar bem?
Gandalf deu de ombros.
— Tudo vai depender dessa noite. Precisará de cuidados constantes.
Bilbo se ofereceu:
— Eu faço isso. É minha responsabilidade.
— Não, estava de guarda a noite passada, Mestre Baggins — lembrou Thorin. — Deixe comigo.
Gandalf fazia um curativo e pediu:
— Bilbo, meu rapaz, por favor, ajude-me aqui.
Bilbo notou:
— Não é um corte de lâmina.
— Não — concordou Gandalf, e Thorin viu que ele tirou uma garrafinha do meio das vestes para limpar o corte. — Foi um corte feito pela garra de um warg. Ele deve ter fincado a garra tentando agarrar sua presa. As garras são como ganchos afiados, às vezes cortam a pele como se fosse manteiga, e não se sente o ferimento. Só espero que não seja venenoso.
Thorin reprimiu um arrepio ao ouvir a descrição. Que isso acontecesse com a pequena... E ela fez isso para proteger a ele.
Toda a companhia estava ali, acompanhando (de costas) os procedimentos. Gandalf também forçou Anna a beber um gole mínimo daquela água que levava, como tinha feito assim que a encontraram na caverna dos trolls.
O elfo Lindir voltou com uma bandeja, que Gandalf aceitou e deixou ao lado. Havia uma tigela com uma pomada verde, e o mago espalhou a substância pastosa no corte, com ajuda de Bilbo. Depois os dois cobriram o corte com pano limpo (também na bandeja) e ajeitaram a roupa de Anna para cobri-la e deixar o remédio agir.
Gandalf se ergueu, dizendo:
— Podem vê-la agora. Devemos deixar o sono contribuir com seu potencial de cura.
Lord Elrond disse:
— Amigos, fiquem à vontade. Vou mandar refeições para todos. Cuidem de seu ferido, descansem. Se precisarem de qualquer coisa, podem chamar. Mithrandir, gostaria de lhe falar, quando puder.
E saiu. Thorin quase tinha se esquecido da presença de Elrond.
— Gandalf — disse Thorin, com sinceridade —, obrigado por cuidar dela.
Mas o mago não parecia aliviado:
— O perigo está longe de ter passado, Thorin. Ela deve ter febre, delírios. Deve procurar manter a temperatura dela constante. Aquecida, se puder. Lembre-se: ela vai ficar pior antes de melhorar. Não há garantias.
Bilbo arregalou os olhos.
— C-como assim não há garantias? O que isso quer dizer? — Bilbo olhou para um, depois para o outro, viu os olhares pesados e arregalou os olhos. — Não!... Ela pode morrer?
— Sim, ela pode. Mas, se isso acontecer, não terá sido sua culpa, Bilbo Baggins. Ou de ninguém. — Gandalf olhou severamente para Thorin. — Não importa o que outros digam.
O líder da companhia sentiu o recado e disse ao hobbit:
— Lamento o que disse antes, Mestre Baggins. E ninguém mais vai reclamar de suas ações a esse respeito.
Gandalf sorriu, mas alertou:
— Preciso tratar de outros assuntos com Lord Elrond, mas estarei por perto. E se algo inesperado acontecer com ela, devem me chamar imediatamente.
Quando Gandalf saiu, os outros ficaram meio sem saber o que fazer, todos parados, olhando Anna. Thorin recomendou a todos:
— Procurem descansar. Tem comida chegando. Depois de comer, procurem dormir.
Bofur chegou perto de seu líder e perguntou, penalizado:
— A pequena — ela vai ficar bem?
— Vamos cuidar dela, Bofur.
— Se precisar de ajuda, pode me chamar.
Óin veio olhar Anna.
— A menina não parece nada bem. Acha que esses elfos sabem o que fazem? Quer que eu dê uma olhada na pequena?
Thorin procurou tranquilizá-lo.
— Gandalf é quem está cuidando dela. Vamos esperar.
— Essa pequena parece ser uma coisinha frágil — comentou o anão curandeiro. — Mas ela tem mithril nas veias. Resiste como se tivesse sido forjada em um bom metal.
— É o que parece, meu amigo — concordou Thorin. — Fique por perto, Óin. Podemos precisar de você.
— Zai dashunizu — respondeu ele, em Khuzdul. — A seu serviço.
Thorin assentiu, voltando-se para Anna. Ela parecia dormir um sono intranquilo, com respiração acelerada e semblante angustiado. Ele viu uma moringa com água e molhou um pano limpo com água para refrescar a testa dela. Aquilo pareceu ajudar.
Bilbo surgiu em seguida, com uma tigela de sopa para Thorin.
— Aqui. Trouxe o jantar.
— Pode comer — disse Thorin ao hobbit. — Quero cuidar dela.
— Já tomei a sopa — garantiu Bilbo. — E você não será de grande ajuda a ela se não se alimentar.
Thorin assentiu e aceitou a tigela. Bilbo se sentou ao lado dele.
— Ela é uma criatura surpreendente, não? — comentou Bilbo, olhando Anna. — Quando penso que não posso mais ficar surpreso com as coisas que ela faz, algo assim acontece.
— Por isso quero mais uma vez me desculpar pelo que falei antes — emendou Thorin. — Eu estava... nervoso.
— Eu entendo — disse o hobbit. — Mais do que imagina.
O desconfiado anão o encarou.
— E o que isso quer dizer exatamente?
Bilbo olhou para os lados para garantir privacidade.
— Tenho visto o modo como olha para Anna quando ela está distraída. E a menos que eu esteja enganado, porque ela é mesmo surpreendente, acho que ela o olha de volta da mesma maneira. Devia falar com ela.
Thorin encarou Bilbo com atenção, e foi um olhar tão intenso que o pobre hobbit ficou desconcertado.
— E-eu quero dizer... — tentou dizer Bilbo. — Não que eu esteja... Er, não tenho nada a ver com isso, eu só, bom, sabe, é que-
Foi interrompido secamente:
— Mencionou alguma dessas suas conclusões com ela, Mestre Baggins?
O hobbit empalideceu e começou a gaguejar:
— E-eu? Não, claro que não. Por Eru, não falei nada a ninguém, nada mesmo. Eu juro!
Pela reação de Bilbo, Thorin achou que o hobbit estava a impressão que a espada de Thorin estivesse prestes a ser usada contra ele devido a suas palavras. Tentou tranquilizá-lo:
— Não precisa ficar nervoso, Mestre Baggins. Comentou suas suspeitas com mais alguém?
— Não. Nem ouvi nada sobre isso dos outros. Mas não me parece ser segredo para ninguém — exceto para ela.
Thorin pareceu intrigado.
— Para ela? Mesmo?
— Não é que ela não seja perspicaz — ressaltou Bilbo. — Sabe que ela é bem esperta. Acho que ela apenas está assustada demais e preocupada demais com outras coisas no momento para perceber.
— Que coisas?
— Com a segurança dela, com a segurança da companhia, com o fato de você achá-la uma inútil e/ou inválida, em não ser um fardo, em como ela vai voltar para a casa dela, seja lá onde for... Só para mencionar algumas.
— O que ela fala com você?
— Oh, muito pouco. Ela guarda um grande segredo, como se fosse uma grande carga, e não divide isso com ninguém. Mas dá para ver que ela confia em nós.
— Em você, ao menos. — Thorin não conseguiu evitar soar amargo. — Ela não gosta de mim.
— Isso não é verdade — contestou Bilbo.
Thorin não escondeu o arrependimento, ao lembrar:
— Eu a fiz chorar, Bilbo. Duas vezes. Eu a magoei.
— Sim, é verdade. Mas notou como ela ficou feliz quando você se desculpou? Devia ver o sorriso no rosto dela.
Thorin o encarou, como se não acreditasse no que ouvia. Bilbo continuou:
— E o brilho nos olhos dela quando vocês discutem? A paixão, o fogo!
— Então você acha...?
Bilbo revirou os olhos.
— Se vocês não conseguem enxergar o que está bem diante de seus olhos, são dois idiotas. Ou teimosos. Ela já provou que pode ser bem geniosa.
Thorin franziu o cenho.
— E como ninguém me disse nada a esse respeito? Balin é meu conselheiro mais fiel...!
Bilbo deu de ombros.
— Questão de respeito. Mais do que líder dessa companhia, você é o rei deles. Eles não querem ser desrespeitosos com assuntos privados do rei. Se quiser a opinião da companhia sobre isso, terá que perguntar.
Thorin calou-se, esquecendo a sopa e encarando Anna. Ela parecia ainda mais cinzenta, os lábios roxos, a respiração curta. De repente, Thorin esqueceu tudo, alarmado.
— Ela não está bem — comentou.
O anão se chegou para junto dela, pondo a mão em sua testa.
— Está gelada...! — Thorin pôs a mão no pescoço dela. — A respiração dela é fraca.
Bilbo sugeriu:
— Precisamos mantê-la aquecida. Mais cobertores.
Thorin tirou o casaco de pele e colocou sobre o corpo dela. Bilbo ajeitou outras cobertas. Anna não acordou. Mas soltou um suspiro profundo e pareceu respirar melhor.
Os dois se entreolharam. Bilbo tentou tranquilizar o anão.
— Gandalf disse que ela iria piorar antes de melhorar. Está indo tudo como esperado.
— Vai ser uma longa noite — disse Thorin. — Deve descansar enquanto pode, Mestre Baggins.
— Estarei aqui perto — disse ele, virando-se. — Vou deitar ali, mas pode me chamar.
— E, er, Mestre Baggins — chamou Thorin. — Sobre nossa conversa...
Bilbo deu de ombros:
— Não me lembro de conversa nenhuma. Boa noite, Thorin.
O líder da companhia observou o pequeno hobbit se ajeitar em seu local no chão, a mente voando. Duas pequenas criaturas pareciam ter virado seu mundo de pernas para o ar. Ele certamente não imaginara nada daquilo quando reunira a expedição para retomar Erebor.
