– Já é a terceira vez – Rússia repetiu, ofegando – e eu não vou te deixar vivo para uma quarta. Amarrem-no.
Ucrânia, rindo, empurrou Doitsu até o mastro em que estava a bandeira alemã, e atou-o ali.
– Uma bala – rosnou Rússia, com uma risada sinistra – é bom demais para você. Eu vou cortá-lo aos pedaços – anunciou, então, tranquilamente, atando uma faca na ponta do fuzil. Em seguida, espetou Doitsu com ela no ombro, lentamente. O alemão trincou os dentes, impedindo-se de gritar. Ele tremeu e ofegou. Quando Rússia tirou a faca, porém, ele caçoou, frio:
– Não tenho medo de você, Gengis Khan.
– Grande coisa – Rússia sorriu, andando até o Alemanha e aproximando o rosto do dele. – Eu quero te causar dor, não medo. E isso – ele fincou a baioneta improvisada no pé do Doitsu, que, pego de surpresa, não conseguiu conter um berro – eu sei que está dando certo.
Rússia recuou.
– Mas, de fato, já perdeu a graça. Vou te transformar numa peneira e acabou a história – ele disse, mirando bem entre os olhos do Alemanha, e engatilhando a arma.
Assustado, porém orgulhoso até o fim, Alemanha gritou:
– Deutschland über Alles! [1]– mas seu grito foi apagado por outro que, este sim, impediu Rússia de puxar o gatilho.
– Correio! Correio de casa! – anunciou um mensageiro, que vinha correndo da retaguarda das linhas russas. Houve um momento de tensão, Rússia ainda com o olhar e o sorriso insanos pousados sobre o inimigo. Mas algo disparara dentro dele. Ainda atento, ele gritou:
– Tem carta pra mim?
– Com certeza, senhor. Deve ter pra todo mundo, do jeito que a bolsa está pesada. Não fosse isso e eu tinha chegado antes.
Silêncio pesado entre os países, com o rumor dos soldados pegando suas cartas como pano de fundo. Rússia respirava pesadamente. De repente, baixou a arma.
– Não vou desgraçar minha alma eliminando uma nação sem permissão. Eu tenho vida além disso aqui. Você não vale tudo isso. Tragam os papéis da rendição incondicional.
Estônia veio tropeçando para a frente, abrindo uma maleta. Acabara de tirar um grande maço de papéis, um tratado enorme e detalhado sobre como ficaria a configuração da Europa agora que o Rússia ganhara a guerra, já subscrito pelo França e os outros, e o Alemanha ia dizendo que não assinaria nada, preferia morrer, quando Rússia, mudando mais uma vez de ideia, pegou o calhamaço e o rasgou como se fosse uma só folha de papel manteiga.
– Quer saber? – ele disse. – Também não quero a porcaria das suas terras. Eu tenho gente que gosta de mim, coisa que xenófobos idiotas como vocês não sabem aproveitar – ele zombou, soprando os pedacinhos do tratado rasgado nos rostos dos inimigos. Os aliados de Rússia não pareciam bem certos de que rasgar o tratado fora uma boa, mas nenhum tinha vontade de discutir com ele precisamente agora. – Me alcança outro papel aí e uma caneta, Estônia – Rússia pediu.
Entregando a ele um saco vazio de pão (o único outro papel que possuía no momento) e uma caneta, Estônia curvou-se para que Rússia pudesse apoiar-se em suas costas pra escrever o novo tratado de rendição incondicional.
– Nós, Alemanha, França, Itália, etc., solenemente juramos nunca mais invadir a mãe Rússia sob pena de ter nossas cabeças sarnentas separadas dos pescoços – resmungou Rússia, enquanto escrevia. – Assine – rosnou, entregando o papel e a caneta para o Veneziano, que estava perto e tinha as mãos livres.
– Rus, e nós? – pediu Ucrânia, alargando os olhos. Rússia pegou o papel de volta.
"P.S.", acrescentou, "o mesmo vale para quem invadir a Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia, Letônia, Estônia, Finlândia e qualquer outro país europeu que faça fronteira com a Rússia." Pensou mais um pouco. "Inclusive a Polônia porque só eu posso invadir a Polônia", acrescentou.
– Hey! Isso, totalmente, não faz sentido! – Polônia protestou, mas não lhe deram ouvidos. Estavam todos assinando, até o Alemanha. No fim das contas, uma nação sempre tem um lado que só quer sobreviver.
Ao mesmo tempo em que o último inimigo assinava a rendição, o carteiro finalmente alcançava Rússia, e lhe entregava um envelope amarrotado.
– Desculpe a demora, senhor; havia mesmo muitas cartas.
– Net problem, drug [2]. Vou te pedir mais um favor; corra e vá contar da vitória ao nosso povo.
– Ah, senhor, mas eu estou muito cansado! – protestou o homem. De fato, seu aspecto era terrível; as botas quase não tinham mais sola. – Acabei de chegar.
– Vá – mandou Rússia. E o homem se pôs a caminho, resmungando. – Ei! – Rússia chamou. – Não tem muito, mas vai te animar a ir mais rápido – disse, jogando para o homem seu frasquinho de bolso. O mensageiro abriu um sorriso de orelha a orelha, e, depois de tragar do frasco, saiu saltitando. Rússia voltou-se para os outros, sorridente. Andando até o França, que começou a tremer, Rússia arrancou uma pena do quepe dele. Pegando o tratado com o Estônia, que já o tinha recolhido, beijou o papel de pão e depois a carta que segurava na outra mão.
– Senhores, uma festa de triunfo me espera! – ele exclamou, curvando-se numa reverência zombeteira. – Do svidanyia! [3] E que não seja no campo de batalha, para o bem de vocês.
Rússia deu as costas a eles e começou a marchar despreocupadamente para casa, sendo logo seguido por seus aliados. Desarmados ainda que livres, os inimigos não ousaram impedi-los.
Rússia estava quase certo sobre a festa. Ela não estava pronta ainda quando ele chegou, para que pudesse ser considerada um triunfo, mas não foi por falta de esforços.
Fazia muito tempo que eu não tinha notícias do campo de batalha. A última fora aquele terrível bilhete escrito com sangue. Então, a aflição só não me consumia totalmente porque, graças aos bombardeios, eu tinha muito que fazer. Nesse período, aprendi a trabalhar mais pesado que muito macho. Eu mesma reparei várias partes da casa do Rússia que tinham sido derrubadas, cortando madeira numa floresta próxima, aplainando as tábuas, pregando, produzindo a tinta, pintando... Naturalmente que o trabalho era muito lento, ainda mais que eu tinha que executá-lo sozinha, e consertar tudo eu jamais conseguiria. Mas era melhor, porque assim eu me mantinha ocupada o tempo todo, e não tinha tempo para pensar no front, nem de noite, quando capotava de tão cansada.
Havia períodos, no entanto, sem trabalho a fazer. E eu ficava lá, naquela imensa casa às escuras (por causa do blackout), às vezes com fome, porque já tinha consumido minha ração diária.
Nessas horas, eu pensava em muitas coisas, mas principalmente duas. Pensava em como era bom ter nascido no Brasil, onde não há guerras. E desesperava, tentando encontrar uma forma de ajudar o Rússia a sair dessa. Até que as duas ideias se sobrepuseram, e outra nasceu: vou escrever para o Brasil, pedir que entre na guerra para ajudar o Rússia.
Muitas coisas me impediam de fazer isso, contudo. Além da relativa falta de tempo, mensageiros, e papel, por assim dizer. Será que era justo envolver meu país, quase virgem de guerras, numa encrenca cruel como aquela, matando possivelmente muitos dos meus compatriotas para salvar um país que pouco ou nada tinha a ver com eles? Como escrever para o Brasil – nesse mundo eu não o conhecia! Devia dirigir a carta a quem? E outra: será que ele me atenderia?
No fim das contas, muitas coisas se passaram até que eu finalmente criei coragem. Então, escrevi a carta em termos apelantes, selei-a, e aguardei pela próxima vez que aparecesse alguém, a quem eu pediria que levasse a epístola. Eu mesma não iria – tinha que esperar pelo Rússia.
Só que da próxima vez não apareceu alguém – apareceu uma multidão.
Uma verdadeira horda de mulheres se aproximou da casa naquela manhã, fazendo tanto barulho que eu pensei se tratar de outro bombardeio, ou mesmo um ataque de artilharia. Elas cantavam, acho que uma música diferente cada, por isso a confusão. E algumas dançavam, também, ou choravam, ou riam! Eu sei que catei um rifle e corri pra porta, nem sabia manusear aquilo, mas não ia entregar minha pele fácil.
– Pobeda! – elas berravam. – Pobeda, g-ja. Érika, pobeda! [4]
Demorei um instante para traduzir a palavra, mas assim que entendi, deixei cair a arma e corri para o meio delas, gritando e pulando como uma louca, sujando a mim mesma e às outras com respingos de neve derretida.
Elas me contaram que, pouco antes do nascer do dia anterior, tinha chegado um mensageiro a uma aldeia distante; o pobre estava com os bofes pra fora de tanto correr, mas anunciou "Ganhamos!" antes de desmaiar. As habitantes da aldeia mal tinham acreditado; até que ouviram, ao longe, as vozes do exército se aproximando. Então tinham corrido, avisando de aldeia em aldeia , de cidade em cidade, e o resultado era esse boliche de mulheres que eu via, prontas para preparar uma festa pra receber os seus homens. Sim, agora que eu reparava bem, a maioria delas trazia alguma coisa de comer, ou uma garrafa de vodka, ou algum enfeite para a casa.
E nós pusemos mãos à obra.
"Dia da Vitória, quão longe estava de nós,
Como uma brasa encolhida no fogo minguante.
Verstas de distância, queimadas e empoeiradas.
Nós fizemos tudo o que podíamos para apressar esse dia. (...)"
Essa velha canção do fim da Segunda Guerra [5] chegou antes do que esperávamos, entoada por vozes graves, e pegou-nos ainda preparando a casa para recebê-los. Sem hesitar, porém, deixamos as panelas, tachos e faixas de lado e corremos, amontoando-se na frente da porta. Em geral sou educada, mas nesse dia saí acotovelando todo mundo pra conseguir um lugar bem na fila da frente.
"Olá, mãe, nem todos de nós voltamos...
Desejo correr de pés descalços no orvalho!
Metade da Europa, nós atravessamos, metade da Terra,
Nós fizemos tudo o que podíamos para apressar esse dia."
Pra dizer bem a verdade, a aparência deles nos chocou. Alguns vinham apoiados em pedaços de pau, muletas improvisadas porque tinham perdido uma perda; outros eram carregados por dois colegas, porque já não tinham nenhuma; outros estavam sem braço; com tapa-olho; e aos que nada faltava, também sobravam hematomas e feridas sangrentas. O Rússia, mesmo, mancava levemente e estava coberto de sangue, parte dele, parte dos inimigos.
Quando eles chegaram a uma distância razoável, disparei com as outras – até porque, se tentasse ficar, teria morrido atropelada – e me preparava pra saltar dois metros e me lançar ao pescoço do Ivan, como faziam as esposas, filhas e irmãs dos soldados ao meu redor, mas ele esticou as mãos para frente para me impedir.
– Não! – exclamou. Então sorriu. – Você está tão bonitinha nesse traje típico, vai se sujar! – disse, me olhando carinhosamente. Esqueci-me de mencionar que muitas das minhas companheiras decidiram vestir roupas tradicionais para homenagear a nação, e me arranjaram uma também. Mas eu devo ter feito uma cara de decepção meio estilo gatinho do Shrek, porque Rússia fez uma careta bem humorada, despiu o dólmã e limpou as mãos e o rosto com ele, largando-o no chão e abrindo os braços pra que eu me atirasse neles, o que fiz com gosto. Ele riu.
– Certo, certo, vais ter mais de mim mais tarde – disse, colocando-me no chão. – Você está bem? – perguntou, levemente ansioso.
– Sim, e você?
– Estarei melhor depois de um banho e um pouco de vodka – confessou, com um sorriso fraco. – Mas ver você inteira já ajudou bastante. E elas. Fica mesmo bem em você, essa roupa – comentou, fitando-me com a cabeça inclinada – apenas... – após revirar os bolsos, ele retirou de um deles uma pena azul espetada num clipe torcido em forma de gancho. Inclinou-se e prendeu aquele ganchinho na minha orelha, momento em que eu finalmente entendi que era um brinco. – Agora sim! Hehe, uma brasileira russa. Fiz pra você a caminho – ele explicou, corando levemente. Então brincou: – Quero te ver sambando na festa com esses tacões. Sim, eu percebi que você está de salto, está um pouquinho menos anãzinha – e riu.
– Vá tomar banho, Rússia! – eu exclamei, feliz, cruzando os braços e estreitando os olhos para ele.
– Vou mesmo, não aguento mais ver sangue – ele concordou, caminhando faceiro para dentro de casa. Ainda me lançou um sorriso zombeteiro por sobre o ombro.
Estávamos num dos salões mais amplos da casa do Rússia, e era incrível a quantidade de gente que havia ali. Também a quantidade de comida, considerando que havíamos acabado de sair de uma guerra. Eram todos humanos como eu: soldados, mulheres, babushkas e dedushkas [6], e até mesmo crianças. No começo estranhei a ausência de outras nações, especialmente dos bálticos, mas depois me ocorreu que eles deviam estar comemorando com seus próprios povos. A banda estava preparada, com as harmônicas a postos, mas nós guardávamos silêncio. Todos esperávamos o Rússia, a estrela da festa.
De repente, a ampla porta se abriu com violência. Rússia estava parado no limiar, de braços erguidos e expressão gloriosa, envergando um belíssimo uniforme militar de gala. A banda começou a tocar a Korobushka – mais conhecida como a musiquinha do Tetris, e Rússia entrou dançando, com passos largos e elegantes, ainda que cômicos para um ocidental. O pessoal em volta começou a bater palmas e gritar "Hey!" nas horas certas da música, alguns animando-se mais e batendo o pé também, ou balançando o corpo.
Chegando ao meio do salão, Rússia fez parar a música com um gesto da mão. Silêncio.
– Bem, o que estão esperando? Ataquem! – exclamou, indicando a comida. Alguns já obedeciam ao comando, quando ele gritou – Esperem! – e caminhou até a mesa mais próxima, apanhando uma taça e enchendo-a. – Antes, um brinde à Mãe Rússia!
A ideia foi saudada com entusiasmo. Todos pegaram bebida também; havia inclusive suco para as crianças ali, e foi com isso que eu brindei.
– Para que nunca falte saúde, amor e comida na velha Rússia, nem homens para puxar da espada! – Ivan fez a saudação. Todos exclamaram palavras de concordância, e viraram os copos.
Depois houve um banquete; ocupada com os preparativos, eu nem tinha percebido o quanto estava com fome. Mas já se falou demais de comida nessa história, então vamos apertar um fast forward e pular essa parte.
Quando as crianças já estavam pesadas, e portanto foram levadas por suas mães pra dormir, os velhinhos cochilavam pelos cantos a despeito da música alta, e os homens já estavam altos, é que a festa animou-se mesmo. Os músicos tocavam vivamente canções folk russas e ucranianas, e todo mundo dançava de forma desorganizada e alegre. Até eu arrisquei alguns passos, já que ninguém ia me notar no meio da bagunça. Dancei sozinha, com outras moças, com uma velhinha, e com alguns rapazes atraentes. Sorte que o Rússia estava distraído.
Dali a pouco, ouvi uma agitação cercando o Ivan. Não entendi o que estavam falando, mas ele ria. Após um instante, fez sinal de concordância e abriu caminho até os músicos, pedindo a um deles que lhe emprestasse a balalaica. O rapaz entregou o instrumento, com todo o respeito, Rússia perguntou, com uma careta:
– O que querem que eu toque?
– Qualquer coisa! – alguém gritou. Ele encolheu os ombros, rindo, e começou a vibrar as cordas do instrumento.
Ele fechou os olhos, e eu vi que se perdeu na música. Caramba, há poucas coisas como uma música bem tocada, e ele definitivamente sabia tocar. Eu já tinha sacado qual era a do Ivan, e das outras nações também: eles eram habilidosos em muitas coisas, porque em seu país (isto é, neles mesmos) sempre havia algumas pessoas que tinham talento para o que quer que fosse. Quanto mais gente talentosa houvesse, melhor o país desempenhava alguma tarefa; dificilmente surgiria algo para o que não fossem capazes, muito embora cada país se destacasse de maneiras diferentes, como o Japão em fazer objetos minúsculos e inteligência artificial.
Rússia tocou algumas músicas alegres, e depois algumas tristes, e como se sua alma estivesse ligada com a música, foi ficando visivelmente triste, assim como os russos em volta. Então, percebendo que aquele definitivamente não era o espírito da festa, ele devolveu a balalaica ao dono, pedindo que este voltasse às canções saltitantes, e foi afogar as más lembranças que o tinham assaltado. Em dois minutos já estava bem de novo, de pé em frente a um sofá, e contando a um grupo que se amontoara ao redor dele sobre sua própria valentia na batalha. Eu me aproximei pra ouvir também, e tomei lugar no estofado.
–... e então veio o França se arrastando pelo meio do pântano. Era o único caminho que me sobrava, e eu nunca imaginaria que eles estavam cobrindo aquele também, se o cara não tivesse começado a reclamar que a lama ia fazer mal pro cabelo dele. Eu pensei "Posso pegá-lo como refém", mas depois me ocorreu que provavelmente ninguém ia nem se importar com isso.
– Ai! – uma moça exclamou, nervosa, cobrindo a boca com a mão. – E então?
– Então eu cavei. Me enterrei e fiquei quietinho, esperando. Eles acamparam quase em cima de mim, assim eu consegui ouvir seus planos para o dia seguinte. Ao mesmo tempo, fui rasgando a terra com as unhas, cavando um túnel pra longe dali. Foi como me safei, mas saí bem machucado dessa – Rússia contou, observando as feridas ao redor de suas unhas. – Sim, curta bem o seu Vasya, pois foi por pouco que ele escapou – acrescentou, para a moça, que foi correndo atrás do seu namorado. Rússia bebeu mais um gole da garrafa que tinha na mão. Então me localizou.
– Mas olha quem está aqui! – ele exclamou, em tom de prazerosa surpresa. – Faz horas que te procuro para dividirmos uma taça – verificando a impossibilidade de sentar ao meu lado no sofá lotado, ele ajoelhou-se na minha frente. – Vodka? – ofereceu, erguendo a garrafa.
Fiz que não com a cabeça.
– Ah, pára! – Ivan franziu as sobrancelhas. – Você bebeu vinho com o Veneziano por nada, e agora se recusa a tomar um pouquinho de vodka pra celebrar minha vitória? – ele exclamou, chateado.
Droga, que saia justa!
– Ah, Vanek, é que o meu estômago... Tudo bem. Mas só um pouquinho.
– Aê! – ele comemorou, fazendo rir as pessoas que estavam em volta. – Tragam um copo.
Recebendo o copo, ele despejou dois dedos daquele líquido transparente e me estendeu o recipiente, perguntando com ironia:
– Assim, mocinha?
Sem responder, peguei o copo e bebi tudo num gole só. Tenho que perder esse costume.
Um fato sobre a genuína vodka russa: ela tem, em média, um teor alcoólico de 50%, o que significa que falta pouco pra estar acima do limite permitido no Brasil. Algumas marcas, na verdade, são proibidas no nosso país. E mais: lá ela é bebida pura. O que significa que eu quase tive um troço. Depois disso, naturalmente, minha percepção ficou prejudicada, de modo que o que eu narrar daqui por diante, não tenho como assegurar que foi assim que aconteceu.
Vanek riu.
– Viu? Você está viva.
– Não tenho tanta certeza – eu respondi, me apoiando nos ombros dele, enquanto sentia o fundo das minhas tripas furar. Quase podia ouvir o "Fsssss...". Ele riu de novo, enchendo uma caneca para si e tomando-a. Já não era a primeira; a essa altura ele estava até um pouco vesgo.
Rússia resolveu dançar mais um pouco. Como eu não vomitei, o álcool começou a chegar no meu sangue, e logo eu corri e pedi para o Rússia me ensinar a dançar com ele. A verdade é que nos divertimos a valer. Os saltos que ele dava, batendo no pé, depois bailando agachado, pareciam fáceis à minha mente bêbada, e eu me desmontei toda tentando imitar. Depois, um pouco por piedade de mim, outro porque queria tomar fôlego, ele me carregou nas costas para um canto mais parado, onde voltou a contar aos circunstantes das suas proezas de guerra.
–... e eu tinha apontado a minha arma para a cara feia do Alemanha e ia estourar os miolos dele – Rússia falou, imitando sua própria postura com os braços – mas então chegou o mensageiro... com a sua carta – ele me disse, afagando meu rosto com um dedo – e eu pensei comigo mesmo "Dane-se esse mal amado, tenho mais o que fazer". E vim.
Ivan ficou um momento em silêncio, pensativo, com o cotovelo apoiado no braço do sofá. Eu estava no colo dele, sorrindo idiotamente e balançando os pés, feliz.
– Na verdade, eu gostaria de ser amigo deles – ele comentou, encolhendo os ombros. – Mas o que fazer se eles não querem. Me desafiaram. "Quem na Rússia com a espada surgir, pela espada perecerá" – ele citou o lema do país; seu lema.
– ...perecerá – eu ecoei, com ares de quem diz algo muito profundo.
– E eu ganhei de todo mundo! – bradou Rússia, erguendo e esvaziando sua caneca mais uma vez. – Eu sou um herói! Não é verdade, Erikushka?
– Daaa... – eu falei, subindo e descendo os dedos pelo nariz comprido dele, e rompendo num acesso de riso.
– Então diga, Erikushka, diga na minha língua! – ele cochichou no meu ouvido, abraçando-me com tanta força que quase fez meus olhos saltarem.
– Ty geroi, Vanek-Rossyia! [7] – eu gritei, jogando os braços para o alto e rindo mais. Ele riu também e beijou meu rosto várias vezes.
– E você vai ficar pra sempre aqui comigo, não vai, Erikitka? – ele disse, em voz exaltada, me fazendo cócegas. – E eu vou te proteger.
– Da, konechno – eu respondi, baixinho, abraçando-o como a um mishka, um ursinho.
– Então vamos dançar! – ele se levantou de supetão, esquecendo que eu estava no colo dele, e eu caí no chão. Ele me levantou, rápido, pedindo desculpas engroladas, e começamos a girar e pular pela sala, junto com os outros, rindo e batendo nas coisas, cantando...
A dança era muito divertida, eu me atrapalhava um pouco, mas a parte mais difícil era do homem, eu praticamente só tinha que pisar e girar. E Ivan dançava muito bem; dava gosto de ver. Incrível como ele ainda tinha energia, não só por a festa já ir adiantada e ele ter dançado desde o começo, mas principalmente por fazer isso depois de um dia de marcha puxada voltando de uma batalha. Eu, tonta da vodka e de voltear pelo salão, não aguentei tanto quanto ele; sentei-me no canto de um divã e fiquei observando, juntando-me aos coros que cantavam, quando eu sabia a letra. Um tempo depois, ele se jogou ao meu lado com um suspiro, corado e feliz.
– Ei, Érika – sussurrou, apoiando a cabeça no meu ombro – Se eu fosse totalmente humano, e não um país, eu gostaria tanto de transformar essa sua trança em duas – demorei pra entender o galanteio [8]; meu cérebro estava lento, e se anuviou mais ainda quando ele pressionou os lábios quentes contra a minha nuca. Um arrepio me atravessou da raiz dos cabelos aos mindinhos dos pés. – Você me causa sensações estranhas – Ivan disse, traduzindo perfeitamente o que eu mesma estava sentindo.
– Isso é o que te causa sensações estranhas – eu disse, vermelha como meu vestido, apanhando uma garrafa de vodka que estava pela metade na mesinha ao lado. Tomei um golinho e dei o resto para o Rússia, que riu e a enxugou, quebrando a garrafa em seguida.
– As duas, certo? – ele piscou pra mim e, com energia renovada e um grito de – Hey! – saltou de pé e recomeçou a dançar com alguns soldados.
Quanto a mim, aquele pouquinho adicional de bebida foi fatal pra me derrubar de vez; recostei-me no braço do divã, adormecendo aos poucos, enquanto a sala virava um borrão diante dos meus olhos. Depois disso, tenho somente uma vaga lembrança de braços fortes me erguendo no ar, e a voz do Rússia cantarolando "Otchi tchyornye" [9] baixinho, enquanto o resto do barulho da sala ficava para trás...
1 "Alemanha acima de todos!". É também o título do hino alemão.
2 Sem problema, amigo.
3 Até a vista.
4 Vitória! Vitória, Srta. Érika, vitória!
5 Chama-se "Den' Pobedy" (Dia da Vitória), o que explica o título do capítulo. Foi criada em comemoração à vitória russa na segunda guerra, que é o que se comemora nesse feriado, Dia da Vitória, a entrada dos exércitos russos em Berlim em 09/05/1945.
6 Babushkas: vovós, velhinhas. Dedushkas: vovôs, velhinhos. Tecnicamente, o plural correto em russo seria "babushki" e "dedushki".
7 "Você é um herói, Ivan-Rússia!". Pronúncia: Ti guerói, VAnek-RassYia!
8 Na antiga tradição Rússia, só as mulheres solteiras podiam usar uma trança, já que as casadas tinham de usar duas tranças. Não creio que isso seja costume ainda hoje, exceto talvez em alguma área rural esquecida do mundo.
9 O nome da música é "Olhos escuros".
*Esta fic também está sendo postada nos sites Nyah! Fanfiction, e Animespirit. Lá, eu pude colocar mais notas, com links para imagens de referência para as roupas mencionadas, ou músicas, ou danças. Caso queiram dar uma olhada...
