Capítulo 14: Revelação Chocante
Na casa de Edgar e Jéssica, estavam os dois perto do telefone. Edgar pegou no telefone.
"Então liga lá. E sê convincente." disse Jéssica.
"Claro que vou ser." disse Edgar. "Está tudo planeado. Até tirei uns dados de cliente da internet e tudo. Vai ser tudo perfeito."
"Será que isto vai mesmo trazer problemas ao Ricardo?" perguntou Jéssica.
"Esperemos que sim." disse Edgar, marcando o número de telefone.
Depois de alguns minutos à espera, ouvindo música do outro lado da linha, Edgar conseguiu falar com uma operadora.
"Boa tarde, fala..."
"Não me interessa o seu nome." disse Edgar, num tom autoritário, fazendo com que a sua voz parece de uma pessoa mais velha. "Quero falar com um supervisor seu, por causa de uma reclamação sobre um colega vosso."
"Eu necessito dos seus dados para poder aceder à conta. Estou a falar com?" perguntou a operadora.
"Humberto Damião." respondeu Edgar.
Depois de Edgar fornecer os dados que obtivera da internet e de aguardar mais alguns minutos, um supervisor veio falar com ele à linha.
"Eu tenho uma reclamação a fazer sobre um empregado vosso, de nome Ricardo Esteves. No outro dia liguei para aí, para pedir uma explicação sobre uma situação que aconteceu e fui muito maltratado. Insultou-me, não deu ajuda nenhuma e ainda me colocou em espera, aqui a ouvir música, durante mais de vinte minutos."
Edgar continuou com mentira atrás de mentira, enquanto Jéssica sorria. Depois, quando desligou a chamada, Edgar parecia contente também.
"Vão tratar a minha participação e depois ligam. Isto foi o que eles disseram, mas dei-lhes um número aleatório, para não nos poderem identificar." disse Edgar. "Pelo menos há-de haver alguma confusão com o Ricardo."
"É bem feita." disse Jéssica, pensativa. "Mas é tão pouco. Só um problema no trabalho? Queria mais..."
"Temos de ir com calma, Jéssica. Não podemos exagerar logo assim ao início." disse Edgar. "Depois, com o tempo, avançaremos para melhores planos."
Para Além da Adolescência
Na tarde do dia seguinte, quando Ricardo chegou ao call center para trabalhar, o seu chefe chamou-o para falar com ele.
"Ricardo, recebemos uma reclamação sobre o teu atendimento." disse o chefe, num tom bastante sério. "Uma reclamação muito grave."
"Grave? Mas eu não atendi mal nenhum cliente. Tenho dado o meu melhor." disse Ricardo.
"Não é o que o cliente que nos contactou a reclamar de ti disse. Ora bem, o cliente disse-nos que..."
O chefe recitou todas as reclamações que tinham sido feitas, enquanto Ricardo abria a boca de espanto.
"Isso é mentira!" exclamou ele. "Um nunca insultei nenhum cliente. Porque é que o haveria de fazer?"
"Responde-me tu a isso."
"Eu juro que não fiz nada disso. Oiçam todas as chamadas que recebi e comprovem."
"É isso que estamos a fazer." disse o chefe. "Estamos a analisar a situação e, se isto for verdade, vão haver consequências muito graves para ti."
Um pouco mais tarde, no apartamento de Célia e Linda, as duas estavam a preparar o jantar. Linda estava bastante nervosa.
"Ai Célia, só me arranjas complicações." disse Linda. "Convidar o professor Francisco para vir cá jantar... francamente!"
"Não te queixes, maninha. Tu até estás toda contente por ele vir cá jantar, por isso não te faças de irritada."
"Tu queres atirar-me para os braços dele, Célia. Não pode ser!"
Célia, que estava a fazer um pouco de arroz, olhou para a irmã, aborrecida.
"Ouve uma coisa, Linda. Tu és a minha irmã mais nova e estás apaixonada pelo Francisco. Ele parece ser boa pessoa, por isso tens de ir à luta e conquistá-lo ou queres ficar sozinha para sempre?"
"Célia..."
"Como tu não fazes nada, eu tenho de ajudar, obviamente. Já te bastou que o estúpido do Cesário te engravidasse e fugisse, deixando-te a ti sozinha para criar um filho. Tens de agarrar a felicidade agora, com um homem decente. Achas que estou errada?"
"Não é isso, Célia. Tu sabes bem que..."
"Sei que estás a ser muito parva por não o tentares conquistar. O máximo que pode acontecer é ele não querer nada contigo e pronto." disse Célia.
Linda abanou a cabeça.
"Mas eu vejo-o todos os dias. Já viste como seria se ele não quisesse nada comigo e depois eu o tivesse de ver todos os dias? Seria complicado e embaraçoso para mim." disse Linda, suspirando. "Ele vem cá jantar, mas não te atrevas a deixar-nos sozinhos. É só um jantar e mais nada, ouviste?"
"Como queiras. Não vos vou deixar sozinhos, então." concordou Célia.
Linda pareceu mais satisfeita, enquanto Célia sorria para si própria. Podia não os deixar sozinhos, mas não queria dizer que ficasse parada sem fazer nada para ajudar a vida amorosa da irmã.
À hora marcada, a campainha do apartamento tocou. Célia foi abrir a porta, pois Linda estava demasiado nervosa para o fazer. O professor Francisco estava do outro lado da porta, sorrindo com um saco na mão.
"Olá. Seja bem-vindo." disse Célia, sorrindo também. "Entre."
"Obrigado. Trouxe gelado para a sobremesa." disse o professor, entrando no apartamento.
"Que simpático da sua parte. Não era necessário, mas agradeço." disse Célia, pegando no saco.
Foi pô-lo na cozinha, enquanto Linda cumprimentava o professor e Tomás saía do seu quarto, animado, com alguns carrinhos na mão e se aproximava do professor, querendo que o professor brincasse com ele. Célia olhou para a cena e sorriu.
"Ah, os três fazem uma família perfeita. Assim é que devia ser." pensou ela. "O professor Francisco é um cavalheiro. Trouxe sobremesa e tudo. Já não há muitos homens como ele. Por isso é que tenho de ajudar a Linda a ficar com ele, senão perde um óptimo homem para ela. Também tenho de arranjar um assim para mim. Mas não este. Ele é para a Linda e não para mim. Agora, se isto fosse uma novela, eu ainda fazia de irmã má que queria roubar o pretendente à outra irmã. Que estupidez. Eu nunca faria isso à minha irmã. As pessoas que escrevem novelas são todas malucas, com essas ideias psicadélicas."
Depois de um pouco de conversa na sala, enquanto Tomás brincava, os quatro sentaram-se à mesa.
"É uma comida simples." disse Linda, quase em tom de desculpa. "Frango, batatas fritas e arroz... nada de especial."
"Ora, eu aprecio uma refeição feita em casa e gosto de comidas simples." disse o professor, provando um pouco do frango. "Está muito bom."
"Foi a Linda que fez. Ela é uma óptima cozinheira. Sabe fazer tudo na cozinha. E cuida de uma casa como ninguém." disse Célia, abanando a cabeça. "Dava uma boa esposa para qualquer homem. Francisco, diga-me cá, você por acaso não está a namorar, não?"
Linda engasgou-se com um pedaço de frango e começou a tossir, enquanto Célia continuava a olhar para o professor e Tomás se divertia a picar as batatas com o garfo, sem as comer.
"Não, não namoro ninguém." respondeu o professor.
"Ah, estou a ver. E por acaso é gay?"
Linda arregalou os olhos e tossiu com o dobro da força.
"Sente-se bem, Linda?" perguntou Francisco, preocupado.
"Ela está bem. Bebe água que isso passa, Linda." disse Célia, voltando a sua atenção para o professor. "Então, responda lá."
"Ah, não, não sou gay. Simplesmente não estou a namorar neste momento." respondeu o professor.
"Estou a ver. Olhe, sabe uma coisa, ocorreu-me agora uma ideia, vinda assim do nada. Não foi uma ideia que eu estivesse a pensar há imenso tempo nem nada do género, mas não quer sair algumas vezes com a minha irmã? É que vocês dão-se bem e tudo e se calhar até formavam um bom casal." disse Célia. "Não concorda?"
Linda, que entretanto parara de tossir, estava agora pálida de morte. Tomás tinha mandado o garfo para o chão e não estava a prestar atenção a nada, enquanto Francisco pestanejava algumas vezes, apanhado de surpresa.
"Eu... nunca tinha pensado nisso." disse ele.
"Mas devia ter pensado. A minha irmã não é rica, mas de resto é um bom partido. É bonita, carinhosa, boa mãe, boa dona de casa... não sei se é boa no sexo, mas depois se quiser comprova isso. Que tal marcarem um encontro? Que tal na sexta-feira à noite? Estás de acordo, não estás, Linda?"
"Célia, eu..." começou Linda, sendo interrompida logo de seguida.
"Ela está de acordo." disse Célia, sorrindo ao professor. "Passe cá por casa por volta das nove e meia para a vir buscar. E não venham tarde, heim? Eu fico a tomar conta do Tomás."
O professor Francisco acabou por concordar sobre o encontro e Linda ficou super embaraçada. Depois do jantar ter terminado, Linda foi deitar Tomás. Célia conversou com o professor, sempre referindo Linda nisto ou naquilo. Algum tempo depois, o professor foi-se embora.
"Célia, tu és maluca?" perguntou Linda, zangada. "O que é que estavas a pensar?"
"Em juntar-te com o professor. E como vês, graças a mim, já têm um encontro marcado e ele não foi adverso ao facto de irem sair. Linda, devias estar contente."
"Eu... ó Célia, já não namoro há tanto tempo. Tenho medo. E se correr mal o encontro?"
"Relaxa. Vai correr tudo bem." disse Célia, confiante. "E ficas já a saber que, quando for a altura do casamento, tens de me convidar para madrinha."
"Casamento? Célia, estás a delirar."
"Eu tenho um bom pressentimento quanto a vocês os dois. Com a minha ajuda, vão chegar lá, tenho a certeza."
Para Além da Adolescência
Passaram-se três dias. Ricardo estava bastante aborrecido e nervoso por causa da reclamação que tinha sido recebida no call center. Os amigos estavam do seu lado.
"Obviamente que não ias ser ofensivo para nenhum cliente." disse Elisa, abraçando o namorado. "É um equívoco com certeza. Se calhar a pessoa trocou o nome. Se calhar disse Ricardo, mas foi atendido por um Rodolfo ou Renato."
"Só quem não te conhece é que poderia acreditar que ias ofender assim uma pessoa, meu." disse Bruno. "Tu não fazes mal a ninguém, nem insultas ninguém. Pensando nisso agora, és uma seca."
"Ao ouvirem as chamadas, vão perceber que não passa tudo de um mal entendido." disse Liliana.
"Ou então alguém quis mesmo prejudicar o Ricardo, de propósito." sugeriu Amanda.
"Que ideia. Porque é que alguém haveria de fazer isso, Amanda?" perguntou Jéssica, de modo sonso. "Estás a delirar."
Amanda lançou-lhe um olhar frio. Mais tarde, quando Ricardo foi para o trabalho, o seu chefe disse-lhe que, depois de analisadas as chamadas, tinham percebido que não houvera nenhuma irregularidade.
"Contactámos a pessoa cujo nome estava na ficha de cliente, mas a pessoa não sabia de nada. Alguém se apropriou dos dados dela e nos contactou." explicou o chefe. "E foi para te prejudicar. Não compreendo porquê."
"Nem eu. Nunca fiz mal a ninguém." disse Ricardo.
"Enfim, esqueçamos o assunto. Ricardo, peço desculpa se duvidámos de ti, mas tínhamos de analisar a reclamação a fundo."
"Eu compreendo."
"Mas está tudo bem. Não fizeste nada de mal e, deixa-me que te diga, o atendimento nas tuas chamadas é bastante bom. Continua com o bom trabalho."
Para Além da Adolescência
Na manhã do dia seguinte, Jéssica e Edgar vinham a sair da sua casa.
"Obviamente que já devem ter descoberto que não passou tudo de uma mentira." disse Edgar. "Aquela reclamação foi falsa, mas meteu medo no Ricardo."
"Foi giro vê-lo aborrecido e receoso de ser despedido por uma coisa que não fez." disse Jéssica, sorrindo maliciosamente. "Enfim, temos de fazer um novo plano."
"Vamos pensar nisso." disse Edgar.
Nessa altura, ambos viram que a sua vizinha Amélia, uma mulher de sessenta anos, magra e de cabelo grisalho, se vinha a aproximar deles.
"Bom dia, jovens." disse ela. "Está um bonito dia, não está?"
"Sim, está. Bom, nós temos de ir para a escola." disse Edgar.
"Ah, sim, não vos quero empatar. Só uma coisa. Então os vossos pais, por onde é que eles andam?"
"Já lhe dissemos, da outra vez que perguntou, que eles estão a viajar. São pessoas muito ocupadas." disse Jéssica, friamente.
"Mas a viajarem e a deixarem os filhos assim sozinhos? Não é normal."
"Nós já sabemos cuidar de nós. Somos maiores de idade. Não se preocupe." disse Edgar. "Vamos, Jéssica."
Os dois afastaram-se rapidamente, em direcção à escola. Jéssica estava agora aborrecida.
"Aquela mulher faz muitas perguntas." disse ela. "Está a meter-se onde não é chamada."
"Ela não sabe nada, nem vai saber. Está descansada."
"Pois não estou. Se ela se atravessar no nosso caminho e for um perigo para nós, temos de acabar com ela. Tu sabes disso, não é Edgar?"
"Para já, ela não é um perigo para ninguém. Não te preocupes com ela agora. Nunca vai descobrir a verdade sobre nós."
O tempo foi passando e a turma teve aula de educação física, a última aula da manhã. Os rapazes tomaram banho no balneário. Bruno já não implicara mais com Leandro no balneário e nenhum dos colegas o fazia ou parecia demasiado incomodado por ele tomar banho junto deles.
À medida que tomavam banho e se vestiam, iam embora, para irem almoçar. Edgar foi-se vestindo com lentidão. Leandro tinha-se demorado mais no final da aula, a falar com o professor, pelo que se atrasara no banho também. Quando o último colega saiu do balneário, deixando apenas Edgar e Leandro sozinhos, Edgar sorriu. Leandro terminou de se vestir e Edgar aproximou-se logo dele.
"Precisas de alguma coisa, Edgar?" perguntou Leandro.
"Preciso. De ti."
No momento seguinte, Edgar empurrou Leandro para a parede e beijou-o. Leandro arregalou os olhos e de seguida tentou afastar Edgar, que estava determinado a beijá-lo. Leandro tentava libertar-se, mas Edgar tinha-lhe prendido os braços. De seguida, com toda a força, Leandro deu uma joelhada no meio das pernas de Edgar. Edgar afastou-se, gemendo de dor.
"Ai! Ah." gemeu Edgar, olhando para Leandro. "Magoaste-me."
"Claro, seu estúpido. Que ideia foi a tua?" perguntou Leandro, furioso. "Achas que podes beijar-me assim? Ainda por cima, forçares-me a beijar-te também? Não me estavas a largar e não me deixavas afastar, por isso tive de agir. Tiveste o que merecias, Edgar."
"Não podes recusar-te a beijar-me." disse Edgar, furioso.
"O quê? Estás louco? Afasta-te de mim. Não quero nada contigo."
Mas no momento seguinte, Edgar avançou novamente, prendeu os braços de Leandro e beijou-o outra vez. Leandro começou a debater-se novamente. Nesse momento, Amanda surgiu pelo balneário adentro e ficou surpresa ao ver os dois a beijarem-se. Preparava-se para se ir embora rapidamente, pensando estar a interromper um momento íntimo, quando viu que Leandro se estava a debater. De imediato, avançou.
"Larga o Leandro!" gritou ela.
Surpreendido pela aparição de Amanda, Edgar afastou-se um pouco, quebrando o beijo. No momento seguinte, Leandro conseguiu libertar um braço e, com toda a força que tinha, deu um murro na cara de Edgar. Edgar cambaleou para trás e Amanda pôs-se ao lado de Leandro.
"Ele beijou-me à força e não me queria largar." disse Leandro.
"Seu nojento!" gritou Amanda, furiosa, olhando para Edgar. "Eu sabia que não eras boa pessoa. Nem tu nem aquela loira oxigenada de um raio!"
Edgar, ainda mais furioso que dantes, encarou os dois.
"Nunca mais te aproximes de mim!" gritou Leandro.
"Senão vamos à polícia, ouviste?" ameaçou Amanda.
"Vocês vão arrepender-se disto." disse Edgar, com a voz alterada e cheia de ódio. "Vão arrepender-se mesmo, podem ter a certeza."
"Ah, agora estás com a ameaças? Pois podes enfiá-las num lugar que eu cá sei!" exclamou Amanda, exaltada. "Fora daqui, seu parvalhão! Põe-te a andar antes que te pregue dois pares de estalos!"
Edgar agarrou na sua mochila e saiu do balneário rapidamente.
"Obrigado Amanda." disse Leandro. "Tu... foi surpreendente a tua atitude."
"Achas que sim? Estava com uns nervos que nem te digo! Aliás, ainda estou. Disse-lhe das boas, não foi? Mas tu estás bem?" perguntou ela.
"Estou, obrigado. Ainda bem que apareceste."
"Tu estavas a demorar imenso tempo. Eu e a Liliana estávamos à tua espera para almoçar e então como eu já tinha visto quase todos irem embora, decidi vir aqui chamar-te. O auxiliar nem estava ali à porta e eu também não estava importada se via algum rapaz nu. Aliás, teria sido interessante... quer dizer, ainda bem que vim para te salvar." disse Amanda.
"Salvaste mesmo. Fico a dever-te uma."
"Bem, somos amigos, não é? Temos de nos ajudar uns aos outros." disse Amanda.
Leandro sorriu-lhe.
"Estás diferente Amanda. Para melhor, é claro." disse ele. "Mas ouve, pelo menos para já, não quero que contes isto a ninguém, por favor."
"O quê? Então ele tenta beijar-te à força e agora queres manter segredo disso?" perguntou Amanda. "Ele até nos ameaçou."
"Para já, é melhor assim, por favor."
"Está bem, como queiras. Já estás despachado? Quero ir almoçar. Estou cá com uma fome. Estás situações de stress abrem-me o apetite."
Mais tarde, quando a hora do almoço estava a acabar, Jéssica caminhou para a sala de aula. Não tinha visto Edgar depois da aula de educação física, pois ele não fora almoçar com ela, nem atendera o telemóvel quando ela lhe tentara ligar.
Quando ia para entrar na sala de aula, ouviu duas vozes e parou. Eram Regina e Ivo, que estavam a conversar. Tinham ido almoçar a um restaurante indiano que abrira recentemente perto da escola. Como nenhum dos outros gostava de comida indiana, tinham ido só os dois.
"Ivo, tens de te declarar à Liliana de uma vez por todas." insistiu Regina, abanando a cabeça. "Senão nunca mais ficam juntos."
"Regina... tenho medo da rejeição. Ela nem deve gostar de mim. Ainda por cima sou negro..."
"Pára com isso!" exclamou Regina, zangada. "A tua cor de pele não importa para nada. Se ela gostar de ti, é por seres como és, independentemente da raça."
Jéssica sorriu maliciosamente.
"O Ivo gosta da Liliana? Ah, mas isso é uma maravilha." pensou Jéssica. "Ele é preto e estou mesmo a ver que a Liliana não vai querer nada com ele. E ele não se quer declarar, porque sabe que vai ser rejeitado e sofrer. Se calhar até acabam por deixar de ser amigos. Bom, ele não lhe quer contar, mas se eu, por acaso, como uma amiga preocupada, contasse à Liliana sobre o que sei... ah! Vai ser muito divertido."
"Faz como quiseres então, Ivo." disse Regina, exasperada. "Não insisto mais, mas tu é que ficas a perder por não contares à Liliana que estás apaixonado por ela."
Dando meia volta, Jéssica afastou-se, com o objectivo de procurar Liliana.
"Vou já contar-lhe e acabar com isto. Quero aquele pretinho para mim." pensou Jéssica. "E quando me fartar dele... logo se vê."
Jéssica procurou Liliana, mas não a encontrou antes de dar o toque de entrada. Só acabou por conseguir falar com ela quando terminou a penúltima aula do dia. Jéssica estava intrigada porque Edgar tinha estado bastante calado durante toda a tarde, mas falaria com ele depois. Pediu a Liliana para ficarem as duas a falar na sala de aula, enquanto os outros saíam.
"O que queres, Jéssica?" perguntou Liliana.
"Precisava de falar contigo. É importante."
"Está bem, mas sobre o quê?"
"Eu vou contar-te isto, porque sou tua amiga e quero o teu bem, obviamente. Não é como se eu fosse uma maluca que tem um plano maléfico e te quer fazer mal ao contar-te isto." disse Jéssica, rindo-se e depois voltando a recompor-se. "Bem, eu ouvi uma conversa que te diz respeito."
"Que conversa?" perguntou Liliana, confusa.
"É o seguinte, ouvi, sem querer obviamente, porque eu não sou uma pessoa que ande por aí a escutar às portas ou a ouvir as conversas dos outros deliberadamente... bem, ouvi uma conversa entre o Ivo e a Regina. Falavam de algo relacionado a ti."
Liliana lançou um olhar aborrecido a Jéssica, incentivando-a a chegar ao cerne da questão rapidamente.
"Eles estavam a falar de ti porque, descobri eu pela conversa que ouvi, o Ivo está apaixonado por ti."
Liliana abriu a boca duas vezes, sem que saísse nenhum som e só à terceira vez conseguiu falar.
"O Ivo gosta de mim?" perguntou ela.
"Sim. Foi o que ouvi. A Regina queria que ele te contasse, mas ele estava reticente a esse respeito." disse Jéssica. "Achei que devias saber, obviamente."
"Ah... sim, obrigada." disse Liliana, pensativa.
"O que é que vais fazer agora? Se fosse eu, ia logo ter com o Ivo e dizer-lhe que tirasse o cavalinho da chuva. Podes ter muito melhor, Liliana. Além de que ele é preto. Diz-lhe para te esquecer."
Jéssica sorriu em encorajamento, mas Liliana não lhe prestou muita atenção. Logo de seguida, deu o toque de entrada e os alunos voltaram à sala de aula. Jéssica ficou a observar Liliana durante quase toda a aula. Liliana parecia muito pensativa, ainda mais calada do que o normal, mas a sua expressão não revelava o que lhe passava pela cabeça.
Quando a aula terminou, os alunos começaram a sair, mas Liliana aproximou-se de Ivo e pediu para falar com ele. Jéssica saiu com os outros, mas ficou para trás, pois queria ouvir o que ia acontecer. Tentou que Edgar ficasse com ela, mas ele foi-se embora rapidamente, sem esperar.
"Mas que raio de bicho lhe mordeu?" pensou Jéssica. "Agora não importa. Depois falo com ele. Quero apreciar o espectáculo da Liliana a rejeitar o Ivo."
Liliana tinha fechado a porta da sala, mas Jéssica encostou o ouvido à porta para ouvir melhor a conversa.
"Sobre o que é que queres falar, Liliana?" perguntou Ivo, curioso.
"Ivo... ai, que embaraço... eu... disseram-me que tu gostas de mim." disse Liliana, encarando Ivo. "É verdade?"
"Tu és minha amiga..."
"Não é isso. Disseram que tu estás apaixonado por mim. É verdade?" perguntou novamente Liliana.
Ivo ficou petrificado. Não contara que Liliana soubesse como ele se sentia em relação a ela. Hesitou por alguns segundos e depois acabou por acenar afirmativamente.
"É verdade, sim. Estou apaixonado por ti, mas não te queria contar..."
"Porquê?" perguntou Liliana.
"Porque... sei que não sentes o mesmo e seria complicado... mas tu descobriste sem eu te dizer..." disse Ivo. "Liliana, eu peço-te que esqueças isto. Não quero que deixemos de ser amigos."
Do outro lado da porta, Jéssica esperava a reacção de Liliana.
"Vá, diz-lhe que nem consegues continuar a ser amiga dele. Magoa-o." pensou Jéssica.
"Ivo... eu nunca namorei, nem sequer me tinha apaixonado por ninguém, mas a verdade é que me sinto muito contente quando estou contigo e... acho que também gosto de ti." disse Liliana.
"A sério?" perguntou Ivo. "Tens a certeza?"
"Certeza absoluta não tenho, porque como já te disse, nunca me tinha apaixonado antes, mas... acho que podíamos tentar namorar. Eu não percebo nada de namoros, é verdade..."
"Mas podemos aprender os dois." concluiu Ivo. "Se aceitares namorar comigo."
"Isso é um pedido?" perguntou Liliana.
"Sim, é." respondeu Ivo.
"Então, eu aceito."
Ivo sorriu-lhe e de seguida aproximou-se mais. Ivo não beijava ninguém há bastante tempo e Liliana nunca tinha beijado ninguém, pelo que aquele primeiro beijo foi bastante desajeitado, mas importante para os dois. Do outro lado da porta, Jéssica estava vermelha de raiva.
"Raios partam aos dois!" quase exclamou ela. "O meu plano saiu todo ao contrário. Em vez de os afastar, acabei por os juntar. Raios!"
E Jéssica saiu dali rapidamente, indo para casa.
Enquanto Jéssica saía, furiosa, do edifício, Linda estava a terminar de arrumar uns dossiers numa prateleira, enquanto Tomás tentava ler um livro de banda desenhada, apesar de ter começado a escola há pouco tempo e de mal saber as letras. Pouco depois, o director aproximou-se de Linda.
"Linda, preciso que vá à papelaria aqui da escola e me tire cem fotocópias deste documento." disse o director, entregando uma folha a Linda.
"E é preciso ser agora?"
"Sim, é urgente." respondeu o director. "E depois de tirar as fotocópias, é preciso que sejam encadernadas. A Maria Gorete da papelaria vai ajudá-la, claro. Vá agora."
"Então levo o Tomás e..."
"Deixe-o estar, que ele está entretido. Mas vá que eu preciso disso com urgência. Demore o tempo que precisar, mas traga-me isso em condições."
"Sim, senhor. Volto já então."
Linda pegou na folha de papel, disse ao filho para se comportar e partiu em direcção à papelaria. Ao chegar lá, viu que a porta estava fechada.
"Que estranho." pensou Linda. "A Maria Gorete não está aqui? Se calhar foi ao bar comer alguma coisa."
Linda dirigiu-se ao bar da escola e uma das funcionárias esclareceu-a.
"A Maria Gorete teve de sair à pressa. O filho teve um acidente de carro e está no hospital. Não corre perigo de vida, mas ela foi logo para lá." explicou a senhora do bar. "Já não volta hoje, com certeza."
"Que chatice... bom, obrigada pela informação."
Linda fez o caminho de volta ao edifício das aulas. Iria contar ao director que não estava ninguém na papelaria. Talvez ele lhe desse a chave suplente da papelaria.
"Eu também consigo tirar as fotocópias e encaderná-las." pensou Linda.
Ao entrar no edifício, já não avistou nem Tomás, nem o director.
"O director deve ter levado o Tomás para o gabinete dele, para o entreter por lá enquanto trabalhava." pensou Linda, começando a subir as escadas até ao gabinete do director.
Ao chegar à porta do gabinete, parou subitamente antes de bater, pois ouviu a voz de Tomás, a gritar. Ficou alarmada de imediato.
"Cala-te rapaz!" exclamou a voz do director, do outro lado da porta. "Não faças barulho."
Linda ouviu a voz de Tomás, um pouco sumida, mas não percebeu o que ele estava a dizer.
"Vá, a tua mãezinha não está aqui agora. Tens de obedecer ao tio Américo. Vou só baixar-te as calças e vamos brincar. Fica quieto."
Subitamente, Linda ficou branca como a cal e, como um puzzle, todas as peças encaixaram. O director, severo em tantas coisas, tinha sido tão benevolente com ela por ela trazer o seu filho pequeno ali para a escola, no horário de trabalho. Ouvira tantas vezes dizer e ela própria dissera que o director gostava de crianças. Mas agora percebia que não era o que pensara.
"Oh não!" pensou Linda. "Agora percebi. Meu Deus! O director é um pedófilo!"
No momento seguinte, Linda tentou abrir a porta, mas não conseguiu, pois estava trancada.
"Abra a porta agora! Abra!" gritou ela, desesperada.
Ivo e Liliana vinham a sair nesse momento da sala de aula. Tinham-se beijado mais algumas vezes e estavam felizes por agora estarem a namorar. Ao avistarem Linda, desesperada, aproximaram-se rapidamente.
"Abra a porta!" gritou Linda, a plenos pulmões.
No momento seguinte, a porta abriu-se de rompante e o director apareceu, parecendo bastante aborrecido.
"Mas para que é que é tanta gritaria?" perguntou ele.
Delfina, que estava a limpar uma sala ali perto, apareceu à porta, alertada pelos gritos.
"Mas que raio se estará a passar?" pensou ela. "Claro, tinha de ser a badalhoca da Linda a fazer escândalo."
Delfina aproximou-se rapidamente dos outros, para saber o que se estava a passar. Linda empurrou o director para o lado e entrou no gabinete, abraçando o filho, que tremia.
"Mamã." disse Tomás, chorando.
"Ele caiu e magoou-se." mentiu o director.
"Mentiroso! Eu ouvi o que disse! Queria baixar as calças ao meu filho!" exclamou Linda, furiosa. "Filho, o que é que o director te fez?"
"Ele tirou as calças para baixo e mostrou-me a pilinha." respondeu Tomás. "E queria que eu tirasse as minha calças para baixo também, mamã."
À porta do gabinete, o director estava com uma expressão furiosa na cara, enquanto Delfina, Ivo e Liliana abriam a boca de espanto.
"Meu Deus..." disse Liliana.
"O senhor é um pedófilo!" exclamou Ivo.
O director virou-se para os encarar.
"É tudo mentira. Eu nunca faria nada disso." disse o director. "É tudo uma calúnia contra mim."
"O director é uma pessoa decente." assegurou Delfina.
"Você é um pedófilo!" gritou Linda, fazendo todos olharem para ela. "Mandou-me ir tirar fotocópias para poder ficar a sós com o meu filho e fazer-lhe isto, seu nojento!"
Continua…
