Inside Out Battlefield
- Seu verme – grunhiu Flint, dentes cerrados. Apertava os punhos com força, cruzando os braços como se tentando impedi-los de agredir o garoto que estava com ele. Sentado e ansioso, ele batia os pés, o olhar preso nas juntas do piso de cerâmica daquela ante-sala.
Um jovem, com a mesma idade que ele, estava em pé do lado oposto da sala, os braços igualmente cruzados, porém um ar triunfante pairava em sua pessoa. Não sabia se pelo sorriso arrogante, se pela forma como os olhos acinzentados pareciam maliciosamente azuis ou se pelo jeito como o cabelo louro estava impecavelmente ajeitado para trás, mas Marcus Flint podia jurar que Draco Malfoy se sentia um cavaleiro nobre, delatando um herege à Igreja.
- Pode me xingar – Draco disse, naquele seu tom de voz desafiador de sempre – No fim, o verme vai ser você.
- Quem você acha que é? – Flint se levantou, partindo pra cima de Draco. Teve a impressão de ouvir a mãe começar a chorar do lado de dentro da sala da direção – Você acha que é menos bicha que eu?
- Minha mãe não precisa saber que eu gostei...
Marcus agarrou-o pelo colarinho:
- Mas eu vou saber, seu maldito.
Os dois passaram alguns segundos travando um duelo entre a maré alta e selvagem dos orbes de Marcus e o olhar nublado de Draco. O aroma de chuva adentrava suas narinas como um sinal da discórdia que se instaurara ali.
Largando-o, Marcus afastou-se, os ombros caídos num sinal de derrota. Draco observava quieto: mesmo com a vantagem de poder jogar a escola contra o moreno, ele sabia que receberia uma boa surra se o provocasse muito. Devia abusar de seu poder de influência só quando tinha certeza de que não seria danificado. Imagine ir para a aula no dia seguinte com o olho roxo...
- Você não sabe o que fez – disse, por fim, Marcus, voltando a sentar e se recostando na parede, o olhar perdido em algum lugar do teto – Você é tão mimado assim, seu babaca? – apertou os olhos com as mãos, perdido entre a raiva e o desespero.
O que diria à sua mãe? Suas constantes brigas haviam distanciado os dois a ponto de Marcus ter certeza de que a senhora Flint acreditaria mais na mãe de Draco que no próprio filho. E então? Como poderia lidar com a situação? Ele se rendeu à mesma fraqueza da mãe, afinal.
Draco franziu o cenho, demonstrando seu descontentamento, tanto com a pergunta do outro quanto sua reação. Virou o rosto para olhar através da janela que iluminava o ambiente de forma seca, o Sol típico do Verão dando um aspecto árido às cores.
- Mimado? – ele continuava sem encarar Marcus – Você me acha mimado por te querer? – ele parecia separar as palavras com seus delicados dedos, tal era o tom ressentido de sua voz – Me levou pra essa bosta de queimação de rosca e me descartou, como um brinquedo... Você é um merda, Flint! Isso é só uma conseqüência do que você gerou!
Nesse ponto, Marcus compreendeu o que havia acontecido. Arregalou os olhos, assustado. Era mesmo Draco Malfoy o rapaz que estava ali, falando aquelas coisas? Não achava possível que o louro admitisse tão fácil seu amor por ele, muito menos se mostrasse fraco assim. Draco era tido como um crápula, repugnado por boa parte dos estudantes daquela escola. Os poucos que se prestavam a acompanhá-lo em sua triste jornada pela escola eram interesseiros, visando uma futura ascensão social por conta do status da família Malfoy. Flint sabia disso, mas quem era ele senão um renegado também? Deu uma chance para o louro e acabou percebendo que este possuía mais problemas do que uma simples solidão crônica. Assim sendo, chegou a um ponto onde era insuportável continuar aquele relacionamento doentio onde os dois se dilaceravam sempre que conversavam, e transavam sempre que ficavam furiosos: era uma paixão destrutiva para Flint, e este acabou por terminar com Malfoy. Mal sabia ele que o outro garoto estava perdidamente apaixonado, muito menos que o término o machucaria tanto.
- Draco, olha – ele começou, tentando buscar uma maturidade que não pertencia à sua idade para argumentar. Quatorze anos não eram nada se comparados à vasta gama de possibilidades humanas, e Marcus odiou o fato de não ser um simples animal nesse momento – Eu, ah... Foda-se você, Draco! Eu não tenho de me desculpar ou ser cortês com um cara que acabou de foder com a pouca vida familiar que eu tinha! Isso é absurdo!
- Absurdo?! – Draco foi ao encontro de Flint como um raio busca a terra na tempestade – O que é absurdo? O fato de eu me amar mais que a você? É isso?
Seu rosto estava colado no de Flint, e ele respirava pesado, tentando segurar toda a sua mágoa para si.
- Eu te amo pra cacete, se você quer saber! Você me apodreceu com esse seu jeito maldito e... – ele voltou a se afastar um pouco, abaixando a cabeça a ponto de alguns fios de cabelo escorrerem por seu rosto como mel – Eu sei lá o que houve! Mas se você acha que vou deixar de ser um Malfoy, está muito enganado.
- Você é ridículo, Malfoy. Nem por cima você ficava, sua bicha...
Nesse momento, um barulho fez os dois jovens se endireitarem: a porta da sala do diretor estava se abrindo lentamente, e esta guardava o resultado que mudaria o rumo da história daqueles garotos.
- E então? – perguntava Oliver, olhando atentamente para o rosto de Marcus. Ele sentia a tensão no corpo do outro, sinal de que a história ainda ia longe – O que aconteceu?
- Ah – Marcus coçou a testa, ponderando se deveria seguir adiante. Não foi preciso muito tempo para maquinar sua resposta – Minha mãe ficou puta ao descobrir que o filho era uma bicha que abusava dos colegas no chuveiro...
- Mas foi o Draco que começou a te-
- E no que você acha que a minha mãe acreditou? Você acha que eu não tentei argumentar? Tentei de todo jeito falar que nunca nos envolvemos, que não encostava nele fora das quadras de futebol, mas você acha que ela me ouvia?
"Ela queria mais era uma razão para estar de igual para igual comigo. Para ficar decepcionada comigo da mesma forma que eu fiquei com ela", pensava Marcus, tomando o cuidado de não proferir nada disso para Oliver. Era totalmente desnecessário envolvê-lo no nó que era sua relação com a mãe.
- Que horror – disse Oliver, indignado. Ficou um tempo sem falar, xingando mentalmente a senhora Flint com todas as forças – Mas então... Foi por isso que você se mudou para essa escola?
- Isso mesmo. Minha mãe entrou num acordo com a Malfoy fêmea lá – Marcus mirava a janela, pensando se o azul do céu era mais claro que o de seus olhos – Se eu saísse de Hogwarts, ela não espalharia nada.
- Como se isso fosse impedir o viado de fazer alguma coisa – bufou Wood.
- Olha – Flint piscou, surpreso com a idéia de Oliver. Não havia cogitado a possibilidade até então – Por incrível que pareça, acho que ele nunca espalhou nada. Mas também... Seria muito idiota da parte dele começar a falar pelos cantos que eu peguei no pau dele, não acha?
Os dois deram risada, imaginando a cena de Draco correndo pela escola só de toalhas, aos berros, pedindo ajuda porque alguém havia tocado seu pênis, e as pessoas responderiam "Ah, bichinha. Curtiu, né?".
Ficaram um tempo abraçados, o vento assobiando uma melodia romântica na nuca dos dois. Oliver estava ajeitado no ombro de Marcus, que começou a sussurrar:
- Mesmo com tudo isso, eu estou feliz de ter mudado de escola – dizia Flint, temendo acordar Wood – Afinal, só assim eu pude conhecer você.
Seu embaraço por dizer aquelas palavras era tanto que ele mal prestou atenção no sorriso de Oliver, que fingia dormir.
Havia uma parte da história, porém, que Marcus ocultara. Não por esquecimento ou desconsideração para com o trecho; era mais uma precaução: não achava necessário colocar aquilo nos ombros de Oliver, muito menos que era algo a ser compartilhado com alguém. Ele encarava aquilo como seu fardo, o preço por ter sido tentado a cair nas garras de um prazer pecaminoso.
Naquele mesmo dia, ele e sua mãe não trocaram palavra alguma durante a volta para casa. Com o fim do ano letivo chegando, Marcus achava que ter garantido notas medianas seria o suficiente para agradar a senhora Flint, mas, com aquele incidente, sua pontuação nas matérias seria a última das preocupações dela.
Descendo do carro, a senhora Flint se deparou com uma vizinha. Marcus lembrava muito bem da cena: sua mãe desanuviara a feição, cumprimentara a tal vizinha, comentando que o filho – no caso, ele – tinha ido muito bem nos exames finais. Em seguida, fechara o semblante, demonstrando o desgosto somente para o filho.
Sentaram-se em sofás separados: a senhora Flint ajeitou-se com certa distinção, como se estivesse inúmeras classes sociais acima do filho; já Marcus, este se contentou em se jogar, de braços cruzados, no sofá que estava.
- Você pegou alguma recuperação? – ela perguntou, seca.
- Não – respondeu o rapaz, rebatendo no mesmo tom. Se aquilo era uma luta, ele fazia questão de ficar no mesmo nível que ela.
- Então porque você me presenteou com algo indecoroso assim?
Ele odiava o hábito da mãe de querer parecer uma nobre da antiguidade, e ela sempre manifestava isso com vocábulos não muito usuais pra cima dele, como se fosse obrigação de um moleque de quatorze anos ter o dicionário todo na ponta da língua. Ela provocava cada célula dele com pequenos gestos, sempre ocultando suas intenções com uma feição inexpressiva – uma cínica dos infernos.
- Porque justo isso? Você acha que eu quero isso pra mim? – ela insistiu, percebendo que poderia continuar com o sermão mais um pouco. Marcus estava esperando o momento certo para explodir – Você pensa que o nome Flint é só seu, Marcus? Você acha que tudo o que nós conquistamos foi dado de graça, foi achado na rua, é?
Ele estalava, um por um, os dedos da mão esquerda – sua paciência estava se esgotando.
- Acha que a minha imagem é de uma palhaça? Acha que-
- CALA BOCA! – ele gritou, punhos e dentes cerrados – Você sabe se aquilo tudo era verdade?! SABE?! Aquela imbecil pode ter muito bem te enganado, mãe! – ele se levantou, dando passos apressados em frente ao sofá da mãe – Porra, não pergunta nem pro filho o que houve!
- Como se meu filho me falasse a verdade... – ela torceu os lábios com nojo, como se cuspisse as palavras seguintes – Você me traiu, Marcus.
Ele estacou. Respirou fundo algumas vezes, fechou os olhos, endireitou a coluna.
- O quê? – ele perguntou, por entre os dentes.
A senhora Flint estranhou a reação de Marcus, fingindo não ter ouvido a pergunta do filho.
- O que você disse, mãe? – ele repetiu, os punhos pulsando – Hein?
A mãe se acalmou e, num tom de voz desprezível, voltou-se para ele:
- Eu disse que você me traiu, Marcus – ela insistiu, levantando-se e tentando forçar o rapaz a encará-la.
- Eu? Eu te traí, é isso? – ele abriu os olhos lentamente, focando-os na janela à sua frente.
- Ora, como se você não-
Ele se virou de forma mecânica, o asco no olhar refletindo todo o seu ódio. Cuspiu no chão da sala e, com um tom de voz que indicava fúria enjaulada, disse:
- Você é uma vadia.
A senhora Flint não pensou duas vezes e logo o som de seu tapa na pele jovem do rosto de Marcus ecoava pelas dependências da casa. Seus olhos flamejavam, assim como os do filho.
- Seu miserável! Eu te sustentei por todo esse tempo e é assim que você se porta?
- Você é uma vaca, mãe! Uma vaca ridícula que se importa mais com imagens do que com o filho, nojenta! – ele berrava, o nariz a um palmo do da mãe – VOCÊ ME TRAIU PRIMEIRO!
Assim, saiu correndo rua afora. Uma chuva de verão forte e pesada começara a cair, e Marcus sentia sua pele sendo dissolvida pelos pingos ácidos que caiam em sua tez. Era como se um balde de piche estivesse recobrindo todo o seu ser, isolando-o da realidade e enclausurando-o dentro de si. O céu chorava por ele, e só isso o convencia a guardar qualquer lágrima que ousasse escapar de seus orbes. Naquele dia, ele voltou tarde da noite, jantou e ouviu a mãe gritar que o mudaria de escola no semestre seguinte.
Aquele incidente fora algo definitivo para a relação que Marcus tinha com sua mãe. Ouvindo os argumentos dela, o moreno pode concluir que imagem era tudo o que a mãe tinha para si: desde os primórdios, quando apanhava do pai, ela abdicara da justiça para manter a imagem de casal feliz que transmitia para outros casais, fazendo questão de salientar como o senhor Flint era bom marido toda vez que o assunto com as amigas caia nisso. Era um ser deplorável que gostava de provocar inveja nas outras pessoas, e acabava por sacrificar sua família para que isso acontecesse.
"Você me traiu", as palavras dela ecoavam na cabeça de Marcus. Como ele poderia ter traído uma mulher que abandonou sua chance de ter uma vida normal? A culpa não era dele se seu pai a maltratava, muito menos se ela escolheu viver com isso – não, ele não fez nada para agravar a situação. A traição não era dele, mas dela.
Aquela casa se tornara o inferno.
No dia seguinte, um aviso foi afixado em cada corredor, referente à festa inter-escolas que estava para ser realizada. Descrevia como seria a celebração, os trajes necessários, os critérios para convidados vindos de fora, os pratos a serem servidos e as atividades programadas.
- O quê?! – exclamou Flint, estupefato – Eles vão nos obrigar a aprender dança de salão?! Eles acham que isso aqui é algum filme da Disney por acaso?
Oliver riu, dando um tapa nas costas do moreno.
- É, meu caro... – ele passou o braço pelos ombros de Marcus, tal qual um bêbado – Isso é que dá inventarem de trazer garotas pra cá. Já acham que a gente é tudo viado que curte essas coisas...
Eles riram juntos, compartilhando as imagens mentais que tinham de ambos dançando: Oliver sendo guiado por uma machona e Marcus destruindo os pés da garota que estivesse com ele. Nessas horas, o sentimento de terem nascido um para o outro era palpável, como uma nuvem que se transforma em um algodão doce, seu sabor inigualável satisfazendo os dois.
Não demorou muito, o colégio começou a dar aulas de dança clássica ao invés da habitual Educação Física. Como era uma escola exclusivamente masculina, a direção decidiu que os alunos dançariam entre si, revezando na hora de guiar a dança. Com isso, embora a idéia de dançar comportado perturbasse Flint, era delicioso poder tocar Oliver ali, ao ar livre, sem medo ou qualquer tipo de censura: para os instrutores e demais ao redor, eles eram só amigos praticando dança, ávidos em aprender direito para devorar o máximo de garotas que pudessem. Para eles, é claro, aquilo era tudo um grande baile particular, onde um seria sempre o par do outro. Cada passo em sincronia, cada respiração compassada, cada toque na cintura ou no ombro, cada giro... Tudo era um grande sonho, um palco onde todos assistiam sem interferir, sem acabar com o momento deles – e só deles.
Passaram tanto tempo praticando que nem perceberam as férias chegando, e logo se instaurou um dilema perante os estudantes: a escola permaneceria aberta, dando a chance dos rapazes escolherem, com consentimento familiar, se ficariam por ali ou se voltariam para suas casas. A maioria queria voltar para casa, celebrar as notas com os pais, rever amigos, reviver velhas rotinas, mas nem todos podiam se dar a esse luxo. Os pais de muitos eram ocupados o suficiente para não ter como dedicar grande atenção, outros preferiam ter os filhos sob a tutela da escola, garantindo um uso mais proveitoso do tempo e, enfim, uma série de outros empecilhos e justificativas.
Oliver era um dos que queria voltar para ter com a família, aproveitar mais tempo do que só a semana do Natal e Ano Novo, mas sabia que, ficando na escola, poderia aproveitar meses de calmaria com Marcus, já que a escola reduzia suas atividades para grupos de leitura e pequenas palestras até a volta às aulas. Ele não sabia muito bem o que escolheria, mas achou melhor discutir a idéia com Flint antes de qualquer coisa.
- Bom, então eu tenho... – Marcus começou a contar com os dedos, estirado no chão de seu quarto – Ah, tenho muitas semanas com você aqui, e depois você disse que vai passar... Quantos dias?
- Duas semanas, cabeçudo – respondeu Oliver, sentado ao seu lado, acariciando os cabelos morenos do outro – Você devia ver sua família também – começou, sabendo que estava se arriscando ao propor aquilo – Mesmo a sua mãe-
- Acho que o jantar já está servido! A gente come e depois vê se as aulas de dança vão continuar nas férias – disse Marcus, ignorando a sugestão do outro e se levantando bruscamente. Espanou a sujeira de suas roupas, se chacoalhou e estendeu a mão para Oliver, confiante. Não queria pensar se visitaria a mãe ou não naquele momento: as coisas estavam tão tranqüilas, eles estavam tão felizes e bem, não havia porque arruinar sua paz interior com a inquietude que sua casa trazia. Estava progredindo com sua mãe, mas algumas coisas ainda doíam, ainda não tinham cicatrizado, ainda o atormentavam – Vamos?
Juntos, foram jantar e, em seguida, verificar o quadro de avisos. Com grande disposição, o gigante da recepção, Hagrid, respondeu que as aulas de dança ocorreriam com mais freqüência, principalmente porque a data da festa parecia ser em meados de outubro.
Embora estivesse se esforçando para se conter, Marcus Flint podia ser terrivelmente ansioso quando cismava com alguma coisa, e naqueles dias de julho ele não conseguia discernir o que era pior: o fato de ter de se separar de Oliver dali a algumas semanas ou ter de encontrar Draco Malfoy dali a poucos meses. Era tudo uma questão de encarar os fatos da forma menos incomoda, e o moreno não teve sucesso em descobrir que forma era essa. Tirava o máximo de proveito de todos os momentos com Oliver, como se fosse a última vez que se veriam – o que até gerou certa impressão de estar num clima suicida por parte de Oliver. Algo do tipo "Ele está aproveitando seus momentos finais".
Mas não era bem assim que as coisas funcionavam na cabeça de Marcus. Para falar a verdade, ele não sabia muito bem se as coisas estavam funcionando. Quase um ano se passou desde aquele incidente e, embora seu primeiro instinto o mandasse ser um completo babaca com Draco, socá-lo até a morte e estuprar suas tripas, ele sabia que aquilo só arranjaria outra transferência, outros problemas, outras brigas com sua mãe.
Parou por um instante, fazendo com que Wood reparasse em seu olhar: era um olhar focado em si, como se suas íris estivessem ampliando sua própria mente.
- O que foi? – perguntou o rapaz de cabelos castanhos, deitado em sua coxa esquerda, bocejando. Faltava muito pouco para adormecer, mas ele sentiu que deveria demonstrar sua atenção nos trejeitos do moreno.
Marcus piscou, em silêncio. Não, o pior problema não seria Draco. Eles poderiam muito bem se evitar o baile inteiro – bastava que ele, Marcus, arranjasse desculpas para se desvencilhar do outro. Não. O problema era o outro: sua mãe. Sim, as normas do baile permitiam aos estudantes que trouxessem suas famílias, algo natural considerando o fato de ser uma confraternização para promover laços sociais. Mas ter sua mãe ali, com seus olhos de gavião em Oliver, o fez explodir por dentro. Engolindo seco, procurou alguma resposta pronta para dar ao goleiro, mas nada mais vinha à sua cabeça além de "Nada". E foi o que ele disse.
- Como "nada"? – o goleiro bocejou novamente, lutando contra a vontade de dormir. Esfregava os olhos, pensando se deveria se levantar para acordar. Decidiu permanecer deitado – Dá pra ver que você tá concentrado em algo.
- Eu só estava olhando para as paredes – nem o próprio Flint acreditava em suas respostas, de forma que o tom que usava era vago, diminuindo à medida que cada palavra acabava.
- Conta outra – murmurou Oliver, antes de desistir e fechar os olhos por completo – Não era em nada desse quarto...
Não demorou muito, ele dormiu. Marcus gostaria muito de dormir e acordar em casa, onde uma mãe atenciosa e compreensiva levaria café da manhã para ele e seu namorado – no caso, Oliver – em seu quarto, perguntando se havia dormido bem e se Oliver não gostaria de ficar para o almoço. Mas a realidade estava muito longe disso... Ele sentiu uma pontada no estômago, a cena de uma mãe fútil medindo Wood dos pés à cabeça fazendo-o ter certo nojo do sangue que tinha em suas veias. Wood não era o mais nobre cavalheiro quando se tratava de trajes, mas era o mais cordato rapaz por dentro, cheio de uma gentileza digna dos príncipes de contos de fadas com finais felizes. Era um mito encarnado, e Marcus não podia permitir que Hades colocasse suas garras nele.
Tinha de bolar um plano, nem que gastasse todo o seu tempo sem Oliver para isso. Era até bom saber que teria uma ocupação. Assim que Oliver se fosse...
- Você me liga quando chegar? – perguntou o moreno, acariciando as maçãs do rosto de Oliver.
- Ah, quê isso – o goleiro revirou os olhos, rindo – Até parece que sua esposa vai viajar para ver a família e você tem de ficar trabalhando...
- Tá, que seja – Marcus fez bico, tal qual uma criança – Depois eu sou ignorante e você vem me falar que-
- Te amo? – os olhos de Wood brilhavam, e o moreno não teve como resistir àquilo.
Era simplesmente encantador saber que aquelas estrelas no olhar de Oliver só apareciam no seu céu, na sua realidade, no seu sentimento cada vez maior pelo goleiro. Sorriu, beijando calorosamente os lábios de Wood, completando em seguida, com um ar de mais velho:
- Se eu não tivesse que te sustentar com meu salário...
Os dois riram, e Oliver bateu a porta, largando um Marcus sozinho, à mercê do ócio. Ainda olhou por um tempo pela janela, procurando qualquer sinal de que o outro não poderia mais viajar e teria de ficar por lá. O carro que o buscaria quebrou, os pais viajaram de última hora, a chuva não permitiria, qualquer coisa. Mas nada aconteceu, e Flint teve de se conformar que era hora de se dedicar ao plano de tirar a inocência – ou o pouco que ele deixara intocado – de Oliver da vista de sua mãe, o que não seria fácil, e às aulas de dança.
Sim, as aulas de dança.
