Era final de tarde e os últimos raios de sol penetravam nos becos imundos que cercavam o bordel da Sra. Dolores. Hermione sentiu um calafrio. Parecia que uma nuvem negra do mal encobria todo o local com seu manto. As lembranças da sua curta passagem pelo lugar não a ajudavam a olhar para casa de outra maneira que não fosse pavor. Havia oito homens armados com ela à espreita nas sombras do beco, mas isto não colaborou em nada para atenuar o medo que ainda tinha do bordel e da sua dona.

— Está vendo alguma coisa? — sussurrou Simas ao se aproximar de Hermione.

Hermione respondeu com um sorriso apagado. Ela sabia que ele estava se e referindo a fantasmas. Chegava a ser engraçado o modo como Harry e seus amigos adoravam falar sobre os vários dons dos Granger e dos Black quando ao mesmo tempo afirmavam que não acreditavam em nada daquilo. Ela se perguntou se eles já tinham percebido a freqüência com que agiam como se de fato acreditassem. Apesar disso, ela supôs que a curiosidade fosse muito melhor do que o medo.

— Sim — ela disse enquanto observava Luna tentando tocar em Neville e o homem se arrepiando e olhando confuso ao redor em busca da fonte do repentino calafrio que sentira. — De acordo com a minha contagem, estou vendo seis.

— Pare com isso. Está dizendo que tem seis corpos enterrados lá?

— Pode ser mais. Nem todos os espíritos ficam vagando, nem mesmo os de pessoas que foram assassinadas. Afinal, se a vida da pobre alma só se resumiu a desgraças, por que ficar?

— O fantasma que você viu o da moça chamada Luna. Ele está...

— Sim, ela está aqui, mas é tarde demais para tirar Neville daqui.

Simas soltou uma maldição, murmurou um pedido de desculpas e então olhou para o amigo.

— Isto irá matá-lo. Ele pensou que ela fosse uma traidora.

— Eu sei. Ela me procurou porque queria que ele soubesse de toda a verdade. Sinceramente, quem não iria acreditar na história de um reverendo? —Ela fez um afago no braço de Simas. — Vocês terão de ficar ao lado dele quando o pior acontecer.

— A história é horrível.

— Ah, é o que mais temo, pelo menos no que diz respeito ao que aconteceu a Luna, a revelação será muito dura. — Quanto mais pensava sobre Luna, mais Hermione chegava à conclusão de que a meiga e inocente filha do reverendo não tinha fugido com um soldado. Alguém havia raptado, ou mandado, Luna para longe do seu lar e mentido para Neville. — Lá vão eles —ela disse, distraindo Simas para que assim ele não fizesse mais perguntas
sobre Luna.

Hermione podia sentir a tensão dos homens ao seu redor. Dino e Simas estavam rijos e preparados lado a lado dos cinco agentes altos e fortões do gabinete da Rua Bow. Não foi muito difícil conseguir a ajuda dos tais agentes, uma vez que eles já andavam de olho na Sra. Dolores. Assim como também havia recompensas para quem encontrasse pessoas desaparecidas, e ela desconfiava que os agentes da Rua Bow esperassem encontrar algumas destas pessoas dentro do bordel. Ela sabia que a moça que fora namorada do filho de
Tucker estava lá e havia ouvido falar que os comerciantes tinham juntado uma recompensa para pagarem a quem a encontrasse. Os agentes da Rua Bow certamente não iriam para casa de mãos vazias.

Uma parte sua queria voltar correndo para casa, mergulhar na cama e se cobrir até a cabeça. Muito em breve, tudo iria trazer à tona muita tristeza e raiva ali. Hermione fortaleceu a sua determinação. Era para isso que tinha recebido tal dom. Era seu dever cuidar para que as almas perdidas que assombravam a casa da Sra. Dolores encontrassem um pouco de paz.
Pouco depois dos homens carregarem alguns barris de vinho para dentro, Artemis e Estefan saíram correndo e fizeram sinal para eles entrarem. Hermione pediu que os homens esperassem e entregou a cada um lenços fortemente perfumados para eles amarrarem ao redor do nariz e da boca, caso fosse necessário. O instinto lhe dizia que eles iriam precisar.

O grupo saiu marchando rumo ao bordel e Hermione seguiu logo atrás num ritmo bem mais lento. Ao passar por Artemis e Estefan, ela fez um sinal com o dedo em riste para que os dois fossem para as carroças. Ela não se surpreendeu quando os dois obedeceram sem discutir. O rosto pálidos dos meninos indicaram que a cena que ela estava prestes a encarar era muito mais do que eles poderiam suportar, e ela agradeceu a Deus por ter insistido que Darius nem pisasse naquele lugar, naquele dia. Ela amarrou o lenço perfumado ao redor do rosto e seguiu Simas, que gentilmente tinha diminuído o passo para que ela pudesse alcançá-lo.

Harry manteve o gorro puxado para baixo enquanto seguia Tucker e o filho dentro do bordel. Os dois irmãos de Hermione fizeram o possível para manter a Sra. Dolores e seus dois seguranças distraídos. Tucker também manteve o fluxo da conversa numa tentativa de abafar as ordens da Sra. Dolores para que passassem à medida que eles avançavam pela cozinha e
seguiam por uma despensa enorme. Eles tinham acabado de alcançar a porta que Tucker dissera que levaria à adega onde o vinho costumava ser guardado quando os homens da Sra. Dolores finalmente conseguiram tirar os meninos do caminho. Antes que ela pudesse se colocar entre eles e a porta da adega, o filho de Tucker disparou à frente e conseguiu abrir a porta.

Bastou o odor para confirmar as suspeitas de todos. O agente da Rua Bow que estava disfarçado de ajudante do Tucker agiu com rapidez, segurando a Sra. Dolores e apontando uma pistola para a cabeça dela. Harry colocou no chão o pequeno barril que carregava e tirou do bolso um saquinho que Hermione tinha enchido de lenços fortemente perfumados. Ele nem quis saber como ela sabia que eles iriam precisar dos lenços. Era muito difícil imaginá-la contemplando corpos em decomposição ou coisas do tipo. Ele disse aos meninos
empalidecidos que fossem chamar os outros enquanto distribuía os lenços perfumados. Em seguida, ele amarrou um lenço sobre o nariz e a boca do homem que segurava a .

— O que vocês vão fazer? — Ela gritou. — Eu disse para deixarem os barris na cozinha. Tem algo podre na adega. O cheiro pode estragar o vinho.

— Sim, e nós sabemos exatamente o que está apodrecendo lá embaixo —berrou de volta o homem que a segurava. —Acabou de enterrar mais uma lá, não foi? Deveria ter enterrado mais fundo, velha tola. Para que o fedor não delatasse seus crimes.

— Não tenho nada a esconder! Se tiver alguma coisa lá embaixo, não fui eu, garanto que não tenho nada a ver com isso. Pensei que ratos de rua que tivessem entrado lá, só isso. Você poderia me dar um desses lenços? — ela praticamente implorou.

— Não. Respire fundo. Está sentindo o cheiro da forca, não está? — Ele olhou para Harry e os outros. — Desçam até lá se tiverem estômago para que meus homens chegarem, já terei amarrado esta vadia e então me juntarei a vocês.

Bastou um olhar de relance para os homens da Sra. Dolores para que Harry tivesse certeza de que eles não tentariam nada. Tucker, seu filho e Neville começaram a descer a escadinha estreita de madeira. Harry estava prestes a segui-los quando os outros chegaram. Rapidamente, eles ajudaram o agente da Rua Bow a amarrar a Sra. Dolores e seus seguranças, que se declararam inocentes até serem amordaçados. Em seguida, ele viu Hermione entrar logo atrás de Simas. Ele meneou a cabeça para ela enquanto dois agentes da Rua Bow passaram correndo rumo aos degraus, deixando outros dois para cuidar dos
prisioneiros e mais dois para vigiar as duas portas a fim de que ninguém pudesse fugir do lugar. Simas e Neville hesitaram um momento e então desceram a escada. Harry tentou deter Hermione quando ela começou a segui-los.

— Não, Harry, preciso descer — ela disse.

— Não será uma cena bonita — ele disse, apesar de já saber de antemão que, pela determinação que vibrava nos olhos dela, ela não lhe daria ouvidos. —É pior do que eu jamais poderia imaginar.

— Eu sei e acho que vai ser ainda mais difícil para o seu amigo Neville. A Luna dele está lá embaixo.

— Não pode ser.

Simas passou por ele e assentiu.

— Dane-se o que é verdade ou não agora, mas, se ela diz que é eu acredito. — Ele desceu a escada correndo.

— Hermione, você não precisa descer — Harry insistiu, nem um pouco surpreso pelo tom de desespero que escapou da sua voz.

— Preciso. Meu dom pede que eu faça isso. Tem almas atormentadas lá embaixo, Harry. Elas precisam que eu as ajude a encontrar a paz merecida. —Ela segurou a mão dele e o conduziu escada abaixo, parando apenas para sair do caminho de Dino,que subia correndo de volta, murmurando algo sobre mais pás e cobertores. —Vá ajudá-lo, Harry.

— Hermione...

— Não. Ninguém vai me dissuadir.

Ele pressionou a boca coberta com o lenço sobre a testa dela e em seguida saiu correndo atrás de Dino. Lentamente, Penélope começou descer para o que ela poderia chamar somente de inferno na terra. O cheiro vinha de uma jovem que estava acorrentada a uma das paredes. Provavelmente não fazia muitos dias que a moça tinha morrido, mas os vermes tão comuns nos becos escuros e em locais abafados haviam feito seu trabalho grotesco. O que mais
horrorizou Hermione foi que as chaves para abrir os grilhões que prendiam a moça estavam dependuradas bem ao lado, mas fora do alcance da pobre. A crueldade do ato estava muito além da sua capacidade de compreensão. Próximo ao corpo que os agentes da Rua Bow soltavam, estava o espírito de uma mulher, mas o que inundou os olhos de Hermione de lágrimas foi a visão do espírito de um garotinho parado ao seu lado.

"Ajude-o, ele me encontrou."

Reconhecendo a voz de Luna, Hermione virou e viu Neville muito pálido olhando para a cova que ele tinha acabado de abrir. A pá escorregou de suas mãos quando ele caiu de joelhos. Rapidamente, Hermione se aproximou e pousou a mão sobre os cabelos de Neville. Enquanto ela se perguntava como ele poderia saber se aquela era Luna, ele removeu um anelzinho do dedo do corpo.

Quando ele ergueu os olhos para Hermione, lágrimas desceram em cascata pelo seu rosto, cortando o coração de Penélope ao ver a dor profunda que os olhos de Neville emanavam.

— Como? — ele perguntou. — Será que o amante a abandonou?

Hermione viu Luna balançar a cabeça.

— Não havia nenhum amante, Neville.

"Meu pai mentiu. Meu pai me atirou neste inferno em troca de um saco de ouro."

— Oh, não. — Tudo só parecia piorar, Hermione pensou e se perguntou quanto mais eles ainda poderiam suportar. — Realmente, nunca houve outro.

— Ela está aqui? — Neville sussurrou e olhou ao redor.

— Ela disse que o pai mentiu para você, que ele a trocou por um saco de ouro.

— O próprio pai a vendeu para um bordel? Um reverendo?

"Lady Logbottom pagou. Conte a eles."

— Contar para quem?

"Aos meus irmãos e minhas irmãs. Conte a eles."

— Pode deixar que cuidarei disso. Assim como Neville.

— O que ela quer? — Neville perguntou. — Faço qualquer coisa. Sou capaz de fazer qualquer coisa para compensar o meu erro. Eu falhei com ela. Deveria ter acreditado nela e em ninguém mais. Deveria ter procurado por ela.

— Neville, o homem é um reverendo com uma reputação impecável. É claro que você acreditou no que ele disse. Luna quer que contemos aos irmãos e às irmãs dela sobre o que o foi feito com ela. Acho que ela teme que eles estejam correndo perigo. Eles precisam ser avisados caso o pai resolva ganhar mais algumas moedas às custas de mais alguns dos seus filhos. — Ela observou enquanto Harry e Dino se aproximavam da beirada da cova de Luna e
iniciavam a dura tarefa de remover o corpo e envolvê-lo em um cobertor.

"Ele não tem culpa de nada."

— Ela não o culpa por nada — ela esfregava as costas de Neville enquanto Luna sussurrava na mente de Hermione toda a história horrível do seu destino.

Um grito chamou a atenção de Hermione, que ajudava Luna a confortar Neville. Ela olhou ao redor e viu o filho de Tucker apertar algo e soube que ele tinha acabado de encontrar a sua namorada.

— Preciso ajudar os outros — ela disse a Neville ao se levantar. — Eles precisam encontrar a paz.

Neville a segurou pela mão.

— Apesar de tudo que pensei, nunca deixei de amá-la, nunca perdi as esperanças de que ela pudesse voltar para mim e explicar tudo.

— Ela sabe. Mas você precisa permitir que ela vá embora, Neville. Ela precisa de paz.

Hermione começou a passar de espírito em espírito, em busca do mínimo de informação que conseguisse de cada um e ajudando-os a finalmente partir. Ela ignorou os olhares de soslaio dos homens que davam continuidade ao árduo trabalho de remover os corpos. Até que finalmente restava somente Luna. O espírito da moça ainda pairava ao redor de Neville, que já não chorava mais, mas segurava com força o anel e fitava paralisado o cobertor que envolvia os restos mortais da sua amada.

— Neville— disse Hermione, desviando o olhar do rapaz em sua direção. —Você precisa deixar que ela parta. Este lugar não é para ela, mas ela não pode partir a menos que você permita. Ela precisava seguir adiante.

"Diga a ele para encontrar o amor novamente. Ele não pode permitir que a tristeza e a traição fechem seu coração."

— Eu direi — Hermione sussurrou. Ela analisou Neville se levantar. Dedo por dedo, ele foi soltando o anel.

— Adeus, meu amor — ele sussurrou, beijou o anel, guardou-o no bolso e em seguida virou para ajudar os outros.

Justamente quando Luna desaparecia sorrindo, um dos agentes da Rua Bow se aproximou de Penélope e disse:

— Você tem o dom da visão, não tem?

Hermione assentiu na direção de Neville.

— Foi a noiva dele que deu origem a esta busca. — Ela olhou ao redor e contou dez covas. — Tantas assim! — E franziu a testa ao se dar conta de repente de que tinha visto mais de dez fantasmas.

— Esperamos encontrar mais. — Ele meneou a cabeça quando Hermione empalideceu. — Aquela mulher é dona deste bordel há mais de dez anos. Mandei Tom buscar mais homens. Ainda têm muitos outros cômodos onde precisamos vasculhar. A adega tem saída para mais dois cômodos de cada lado. Engraçado eles terem deixado coisas como anéis e pulseiras com os mortos.

— Enterraram todas as provas de que estas pobres almas passaram por aqui.

Ele concordou com um aceno de cabeça.

— Acho que tem toda a razão. — Ele soltou um suspiro pesado. — O rapazinho foi o mais difícil.

— O nome dele era Tini.

— Isso mesmo — disse Tucker ao se aproximar dos dois. — Era o filho do açougueiro. Eu o reconheci pelo gorro. Foi a mãe do garoto que fez para ele, e ele estava orgulhoso do presente. Ele estava desaparecido havia três anos.— A senhorita conseguiu mais nomes? — o agente da Rua Bow perguntou a Hermione, em seguida rapidamente sacou um bloquinho e começou anotar os nomes que ela ia dizendo, todos os dezessete.

— Acho que será difícil para o senhor explicar como conseguiu estes nomes — Hermione disse quando terminou.

— Vou pensar em algo, não se preocupe. Não há mais nenhum fantasma?

— Não.

— Gostaria de saber se a senhorita poderia nos ajudar a verificar se tem mais corpos enterrados aqui. De acordo com esta lista, ainda faltam mais sete corpos. Economizaríamos tempo e suor se soubéssemos onde estão todos.

— Posso ajudar nisso. Não são apenas os espíritos que posso ver. Posso sentir onde o corpo está enterrado. Arrume algo para que eu possa marcar os pontos e farei uma busca pelo restante deste inferno.

— Enquanto isso, vamos levar os corpos de Meggie e de Tini para os pais deles — disse Tucker. — Eles enviarão as recompensas diretamente para a Rua Bow. O açougueiro também tinha oferecido uma. — Tucker olhou para Harry e seus amigos. — Homens bons. São poucos os da classe dele que teriam feito isto.

Hermione forçou um sorriso

— Eles são mesmo homens muito bons. Nenhum tinha certeza se eu realmente tinha visto um fantasma, mas mesmo assim fizeram de tudo para descobrir a verdade. Sinto muito pela perda do seu filho.

Tucker assentiu.

— Ele tem sofrido muito, mas saber é sempre melhor do que ignorar. —Em seguida, ele se foi.

O agente da Rua Bow trouxe um saco cheio de gravetos de acender fogo que ele provavelmente tinha apanhado na cozinha, e Hermione começou a triste missão de encontrar as outras covas. Quando finalmente terminou, o número total de mortos tinha alcançado trinta e dois e ela estava exaurida de corpo e alma. Ela subiu os degraus que conduziam ao andar de cima e se deparou com o bordel em completo silêncio. Hermione se perguntou quantos não haviam sido levados para encarar a prisão, um julgamento e, sem dúvida, a forca. Depois de tudo que vira, descobriu que simplesmente não se importava com o que pudesse acontecer com nenhum deles.

Assim que pisou fora do bordel, ela se viu envolvida nos braços fortes de Harry. Hermione removeu o lenço que usara sobre o rosto e se aconchegou a ele, em busca de forças e de um pouco de consolo.

— Neville quer levar Luna para casa, agora — ele disse. — Já mandei os meninos para casa.

— Obrigada.

— Permita que eu a leve para casa também.

— Não, nós iremos com Neville.

— Hermione, você parece muito cansada.

— O trajeto é muito longo?

— Não. O pai dela é reverendo em uma pequena vila, que fica ao sul da cidade.

— Então irei com vocês.

—Por quê?

— Porque fui eu quem viu Luna. Falei com ela. Neville pode querer fazer perguntas. — Ela suspirou. — Pode ser necessário que eu esteja lá para ajudar os irmãos e as irmãs de Luna a acreditar na verdade sobre o pai deles, e foi isso que Luna nos pediu.

Harry franziu a testa.

— Neville pode até ter perguntas a fazer, mas tem certeza de que elas não podem esperar? Talvez isso seja algo que ele devesse fazer sozinho. Você pode falar com os irmãos dela outro dia.

— Não. Luna me disse algo que não contei ao Brant. Preciso dizer a ele. Só não sei ao certo como. Se o confronto com o reverendo não trouxer toda a verdade cruel à tona, então terei que me pronunciar.

— O que pode ser pior do que um homem vender a própria filha para um bordel?

— Ah, mas não foi o reverendo que fez isso. De certo modo, ele vendeu Luna ao aceitar as moedas e permitir que ela fosse levada. No entanto, desconfio que ele não soubesse qual destino a aguardava, mesmo assim não se outra pessoa que tratou da venda daquela pobre moça para aquele inferno.

Ashton teve um péssimo pressentimento sobre o que ela diria, mas perguntou:

— E quem foi?

— A avó de Neville.

Harry pressionou o rosto contra o pescoço de Hermione e soltou um longo palavrão antes de erguer a cabeça.

— Vamos acabar logo com isso.

Neville não permitiu que o corpo de Luna fosse colocado em outro lugar senão no assento da carruagem. Hermione compreendeu o receio do rapaz de que os restos mortais da sua amada fossem tratados como uma carga qualquer, mas isso significou que ele seguiu sozinho com a morta. Talvez tivesse sido melhor assim, ela concluiu ao se juntar aos outros na segunda carruagem. O homem precisava de um tempo para sofrer sozinho — Isso poderia lhe dar forças para enfrentar o próximo golpe.

Ela recostou ao corpo de Harry enquanto lutava para se esquecer de tudo que havia visto naquele porão. Os quatro homens permaneceram em silêncio e Hermione desconfiou que eles também estivessem tentando lutar contra as tristes lembranças daquele lugar. Era difícil conceber como alguém poderia ter tanto desrespeito pela vida. A Sra. Dolores era um monstro.

— Ele está se remoendo de culpa por não ter procurado por ela — disse Simas, quebrando o silêncio abruptamente.

Harry assentiu.

— Vai demorar até que ele compreenda que não teve culpa por ter acreditado na palavra de um reverendo, considerado por todos como um homem virtuoso.

— Como um reverendo de uma vilinha ao sul de Londres sabia onde poderia vender a filha?

Após uma rápida troca de olhares com Hermione, que concordou com um aceno de cabeça, Harry contou a eles sobre a participação de Lady Logbotton.

— Todos nós sabíamos que ela era super protetora em relação à ele, principalmente depois que os pais de Neville morreram e ele se tornou o seu único herdeiro e que ela não tinha ficado feliz com a escolha dele, mas nunca imaginei que ela fosse capaz de cometer um crime como este contra uma mulher inocente.

Passado o choque, os amigos de Harry começaram a discutir como poderiam ajudar Neville e o que deveria ser feito com relação à Lady Logbotton. Hermione fechou os olhos e se entregou a um cochilo no conforto dos braços de Harry. Não estava nem um pouco ansiosa pelo confronto com o reverendo, mas precisava garantir que as promessas que tinha feito a Luna fossem cumpridas.

Quando a carruagem parou, ela se endireitou e piscou os olhos. Levou um momento para que conseguisse ignorar as preocupações. Quando estava prestes a perguntar o que eles fariam em seguida, Dino soltou um palavrão e saltou da carruagem. Simas seguiu logo atrás. Enquanto Harry ajudava Hermione a descer, ela viu que Harry já havia encontrado o reverendo e o arrastava em direção à carruagem onde jazia o corpo de Luna.

— Isto não vai dar certo — murmurou Harry.

— Não vejo nada de errado por ele estar bravo com o homem que enviou a própria filha para a morte — disse Hermione enquanto se apressava para acompanhar as longas passadas de Harry.

— Não estou certo até onde a ira e a dor de Neville podem levá-lo nem acho que seja algo agradável de ver.

A princípio, Hermione viu apenas a casa. Era um belo chalé com telhado de colmo e cercado de canteiros de flores. Ela se perguntou como um lugar tão belo e que parecia inocente podia abrigar um homem como aquele. Em seguida, ela viu as crianças. Eram oito ao todo. Quatro meninos e quatro meninas. Todos estavam parados do lado de fora, junto à porta, assistindo com olhos assustados ao modo brusco com que Neville tratava o pai delas. Ela desconfiou que a visão dos cinco homens, que obviamente pertenciam à aristocracia, só serviria para aumentar ainda mais o medo das crianças.

Justamente quando ela avançou um passo na direção das crianças, o mais velho dos quatro meninos começou a se mover rumo à carruagem onde Neville abria a porta e empurrava o reverendo para dentro, seus irmãos o seguiam hesitantes.

— Harry, não permita que as crianças vejam o corpo — ela disse quando conseguiu alcançá-lo. — Tente impedi-los. Eles não devem ver a irmã daquele jeito.

— Veja o que o senhor fez com sua própria filha — Neville disse ao entrar na carruagem e tirar o cobertor para mostrar o corpo de Luna. — O senhor mentiu. Ela nunca fugiu com um soldado. O senhor vendeu sua filha para um bordel e ela morreu lá.

— Não! Não! — O reverendo tentava recuar, impor alguma distância entre ele e o corpo da filha. — Nunca a enviei para um lugar de pecado.

—Mas o senhor a vendeu para alguém que o fez, não foi? Encheu os bolsos de ouro com a venda dela.

Hermione deu uma olhada nas crianças e percebeu pela expressão de cada um que eles sabiam sobre o dinheiro. Ela ficou satisfeita ao ver que Harry contava com a ajuda de Dino para impedir que as crianças se aproximassem da carruagem, mas nada podia impedir que eles ouvissem toda a horrível verdade do que havia sido feito com Luna. Eles seriam alertados sobre o pai, como era o desejo de Luna, mas Hermione não pôde deixar de se preocupar com quão profundamente aquilo tudo poderia magoá-los.

— Eu precisava de dinheiro! — o homem gritava e chorava quando Neville o atirou no chão. — Tenho muitos filhos, e o meu salário como reverendo nunca foi muito. O que eu poderia fazer? Mal conseguia colocar comida na mesa.

— O senhor poderia ter dado permissão para que ela se casasse comigo, como era a minha intenção. Falei com senhor sobre isso, dei um anel a Luna. Poderíamos ter nos casado assim que corressem os proclamas. Isso teria ajudado.

O reverendo balançou a cabeça.

— Não, ela não permitiria. Ela ameaçou a minha posição. Tive de fazer o que fiz.

— Ela?

Era apenas uma palavra, mas Hermione sabia que não era a única para quem aquela única palavrinha havia significado algo muito alarmante. Fúria. Dor. Medo. Simas e Dino rapidamente se aproximaram de Neville. Ela começou a duvidar de sua opinião de que seria melhor para Neville ouvir toda a verdade sobre a sua avó dos próprios lábios do reverendo. O que o homem acabava de dizer era praticamente o mesmo que apontar o dedo para Lady Logbotton. Somente aquela mulher poderia ser ela, e Neville rapidamente entendeu
tudo. Ele parecia perigoso.

O reverendo obviamente sentiu o perigo que corria, pois começou a recuar no chão, como se fosse um estranho caranguejo. Neville acompanhou a desajeitada tentativa de escapar do homem. Era uma dança estranha que foi se tornando ainda mais sinistra à medida que Dino e Simas se aproximavam para acompanhar o passo de Neville. Hermione sentiu um aperto por dentro enquanto esperava que algo, qualquer coisa, acontecesse.

— Você disse ela, — A voz de Neville soou mais como o rosnado de um predador do que como qualquer outra voz que ela já tivesse ouvido. — Ela ameaçou a sua posição. Só há uma pessoa que poderia fazer tal ameaça. Exceto eu, é claro. O senhor por acaso está me dizendo que foi minha própria avó que lhe pagou e então levou Luna daqui?

O reverendo abriu a boca, mas nada saiu. Para espanto de Hermione, o menino mais velho abruptamente empurrou Harry e confrontou Neville. Ela viu um brilho de esperança pairar sobre a face do reverendo, mas o olhar furioso, desgostoso e profundo que seu filho lançou varreu todo e qualquer resquício.

— Meu nome é Peter Loovegood, sou o filho mais velho dele — disse o menino. — Foi Lady Loogbtoon quem veio aqui para ter uma conversa particular com meu pai, pouco antes do desaparecimento de Luna. Não tenho como contar ao senhor tudo que foi dito, mas de repente havia dinheiro novamente. — Peter suspirou, seus olhos brilhavam cheios de lágrimas que ele lutava para não derramar. — Eu preferia que ainda tivéssemos Luna. — Ele deu uma olhada em direção à carruagem. — Vamos enterrá-la. Não permitirei que meu pai conduza o funeral...

— Peter! — Beeman gritou, mas se encolheu quando Neville o encarou.

— Seria uma blasfêmia, considerando que foi ele quem a enviou para a morte.

— Não fiz isso!

Peter baixou os olhos para o pai, seus irmãos se colocaram ao seu lado, e todos tinham o mesmo olhar de desgosto e revolta.

— Sim, foi o senhor que fez isso. O senhor sabia que ela nunca iria conseguir voltar para nós. Foi por isso que mentiu, dizendo que ela havia fugido para a Espanha com um soldado. Não tenho dúvida de que foi o senhor mesmo que escreveu a carta, informando sobre a morte dela. E que só esperou pelo momento certo para nós entregar. Para onde o senhor imaginou que uma mulher que não queria de forma alguma que a nossa Luna se casasse com o filho dela pudesse enviar a garota? Acho até que ela deve ter dito ao senhor. Talvez não diretamente, mas insinuado o suficiente para que o senhor soubesse qual seria o
destino da nossa irmã e mesmo assim não se importou.

— Não, filho, eu nunca teria feito isso.

— Pretendo enterrá-la no cemitério da minha propriedade — disse Neville, tanto ele quanto Peter ignoraram o rompante do reverendo. — Mandarei avisar o horário da cerimônia. Você e seus irmãos serão bem-vindos. O seu pai não. Acredite — ele baixou os olhos para Beeman —, não fosse por estas crianças eu seria capaz de expulsá-lo desta casa e desta vila. — Neville voltou os olhos para Peter. — De qualquer maneira, avise se ele tentar se livrar de um de vocês ou se os agredir. Posso até não conseguir fazer isto pelas vias legais, mas de agora em diante eu me nomeio guardião de vocês. Podem me tratar de acordo.

Neville se virou para entrar na carruagem, mas seus amigos o detiveram. E Simas perguntou:

— Você gostaria que fôssemos juntos confrontar a sua avó?

Por um longo momento, Neville apenas fitou o corpo da jovem com quem ele queria se casar envolto no cobertor e então olhou para Simas.

— Eu não tenho avó.