Capitulo 14 – Restless (inquieto)
Inglaterra contra Bulgária. Era o primeiro jogo de Scorpius como apanhador do time do país, e ninguém sabia como seriam as coisas dentro do campo. Naquela noite finalmente saberíamos. Scorpius estava indo bem, impressionando a todos com suas manobras e seu exibicionismo. Estava em seu sangue demonstrar sua única e melhor habilidade.
Os outros jogadores também eram muito bons, eu até reconheci um ex-colega que fazia parte do time. Tudo estava indo bem para a Inglaterra... até que a Bulgária se demonstrou forte, usando o batedor Hector Krum como arma secreta. Ninguém acreditou quando o viu em campo. A Bulgária ultrapassara os pontos da Inglaterra em menos de dois minutos.
– Ah não acredito! Olhe só quem está ali, Hermione, que grande coincidência! – gritou meu pai, num tom bastante sarcástico. Todo mundo assistia aquele jogo, mesmo que fosse apenas um amistoso. Meu pai, até aquele momento, estava calado como se não acreditasse que Scorpius fosse tão bom mesmo – papai nunca confiou nas revistas que diziam que ele era um dos melhores jogadores de Quadribol.
Mas parecia que aquela tal de Hector Krum estava alcançando a habilidade que Scorpius tinha.
– É a cara do Victor Krum! – falou minha mãe, empolgada. – Fui ao baile de inverno com o pai deste rapaz, sabia, Rose? Botei o maior ciúme no seu pai.
Entendi por que meu pai parecia mais irritado com Krum do que com Scorpius, que já tinha perdido três chances de agarrar o pomo. Mas graças a Deus não começou a discutir com minha mãe, pois estava em um ótimo humor. O fato de ter visto que havia um livro meu publicado e o nascimento do filho de Albus com Jenny deixou todo mundo da família animado demais a ponto de se reunir para assistir ao jogo de Quadribol, mesmo que a atração principal fosse Scorpius Malfoy.
– Pode ser o filhinho do Victorzinho, mas não supera o apanhador do nosso time. – Mal acreditei ao ouvi-lo dizer isso.
– Pai, impressão minha ou você acabou de elogiar o meu namorado? – eu soltei um riso de alegria.
– Mas não estou dizendo que gosto dele – meu pai falou através dos onióculos que usava para ver a partida. Mesmo assim, já era ótimo!
– Scorpius agarrou o pomo! Ele agarrou o pomo! – gritou Hugo, que era fissurado por Quadribol desde que se entendia por gente. – VENCEMOS!
– VENCEMOS! – gritou meu pai para o tio Harry, que se abraçaram como uns doidos. Meus primos comemoravam como se a fosse a coisa mais feliz do mundo. Olhei para o telão, onde mostrava o rosto de um Scorpius satisfeito, mostrando o pomo-de-ouro em sua mão direita. A torcida gritava seu nome, os jogadores da Inglaterra o abraçaram quase o fazendo cair da vassoura.
Assim que o time comemorou no campo, a torcida também começou a esvaziar. Saímos do ginásio e fazia um tumulto na saída. Esperavam os jogadores da Inglaterra saírem para dar autógrafos e derivados.
O segurança, com uma varinha, fez uma barreira entre o portão e os torcedores, para não ficar muito tumultuado. Depois de muitos flashs, os jogadores foram embora com suas respectivas famílias. Scorpius estava entre um deles, carregando mochilas nas costas e usando uma roupa social – a qual os outros também usavam. Ele assinou um pôster para alguns garotos fanáticos. Apertou a mão de alguns homens que pareciam importantes.
Fiquei impressionada. Não o via com um sorriso de satisfação no rosto há muito tempo. Ele parecia tão completo por dentro, sabendo que vencera o jogo capturando o pomo-de-ouro. Aquele era seu maior ofício e fiquei tão orgulhosa que consegui chegar até ele e abraçá-lo com força.
– Parabéns, Scorpius! Foi excelente!
James e Albus estavam me esperando e gritaram para que eu me apressasse logo. Scorpius envolveu um braço no meu pescoço enquanto saíamos do ginásio. Meus dois primos o cumprimentaram, parabenizando-o.
– Você jogou bem, cara – falou Albus. – Eu ia socar tua cara se deixasse o Krum vencer.
– Mas ainda tem muito que fazer pra mostrar lealdade ao nosso time – James enfatizou. – Não que eu esteja criticando nem nada, foi boa a partida.
– Entendo o que querem dizer – Scorpius disse, apertando o braço ao meu redor. – Eu me sinto bem aqui. Melhor do que nunca.
Dei um sorriso feliz para ele.
– Então... vamos comemorar, o que acham? – falei.
– Comemorar – alguém atrás de nós falou. – Quanta coincidência, estava pensando a mesma coisa.
Draco Malfoy.
Eu não o conhecia, apenas sabia que ele era base de toda a educação do homem que eu amava.
Nós quatro nos viramos. Scorpius me soltou aos poucos.
– Potters – acenou a cabeça para Albus e James. – E Weasley... – olhou para mim.
Nunca tinha olhado diretamente nos olhos de Draco Malfoy. Aquilo me assustou um pouquinho, mas não deixei transparecer.
– Olá... sr. Malfoy – tentei ser simpática. Não consegui.
– Que surpresa vê-los juntos outra vez. Depois de alguns anos. E é ótimo revê-lo, filho, está sempre na postura de um Malfoy independente dos relaxos da fama e celebridade. Há tempos que não via um ótimo jogador em campo. Especialmente quando este é meu filho.
– Oi, pai – Scorpius disse. – Não sabia que estava aqui. E a minha mãe?
– Astoria acabou de voltar à Mansão, teremos uma festa agora para toda a sociedade. Ela o esperava por lá... quanto tempo desde a última vez que a abraçou, Scorpius? Dois, três anos?
Olhei para o rosto de Scorpius, ele parecia intimamente envergonhado.
– Bom, eu preciso voltar pra minha casa. Jenny está me esperando – falou Albus, antes de ir embora.
– Veja a hora! – exclamou James, olhando para o relógio. – Albus vai precisar de ajuda para trocar a fralda do Davizinho. Tchau, Rose!
Eu não pensava em fugir daquela conversa, assim como Albus e James fizeram. Fiquei por lá, observando a tensão estabelecida entre pai e filho.
– Bem, eles vão perder uma grande festa – comentou o sr. Malfoy. – Por que não a convida também? – apontou para mim. – Estão todos convidados.
– Ora, ora, ora se não é Draco Malfoy – meu tio Harry apareceu de repente, junto com meus pais. Minha mãe parecia bastante séria, mas meu pai e Harry estavam rindo. – Não sabia que estava aqui. Estou impressionado com o filho que criou, é um excelente jogador.
– Realmente – meu pai concordou. – Ele puxou o lado dos Greengrass? Não lembro de você capturando um pomo-de-ouro com tanta destreza.
– Ron! – exclamou minha mãe.
– Ele tem tanto sangue de Malfoy quanto sua filha tem de Weasley – Draco falou firmemente sem se abalar. – Não é mesmo, Scorpius?
Scorpius pegou minha mão e disse: – Vamos embora, nada disso é da nossa conta.
– Ao que se refere? – perguntou.
– Eu me refiro a tudo – disse Scorpius. – O problema não é nosso se vocês se odeiam. Rose e eu não temos nada a ver com essa briguinha suas de colegial.
– Não estamos brigando – meu pai falou civilizadamente. – Ainda.
– E não vamos brigar – minha mãe enfatizou. – Vamos, querido, vamos voltar para a casa.
– Não, não vão – Draco interrompeu. – Convido-os a uma festa.
– Pai, não invente. Eles não vão aceitar.
– Realmente, Draco, estarei ocupado demais escovando meus dentes para ir a sua festa.
Eu detestava quando meu pai agia feito um adolescente ridículo. Minha mãe também, por isso ela agarrou o braço dele e pediu para parar.
– Astória está convidando vocês, não sou eu – continuou Draco. – Apenas dou o recado. Além disso, não é por nada, apenas para celebrar a vitória da Inglaterra.
– Nós vamos – meu tio Harry respondeu. Papai o encarou sem acreditar.
– Vamos nada, e o Guitar Hero que íamos jogar hoje? – retrucou.
– Você ia perder de qualquer jeito, Ron – Harry disse.
– Ótimo, Potter – sorriu Draco, e aquilo não combinava muito. – Pelo menos alguém aqui não está a fim de se lembrar do passado. A senhorita também vai? – perguntou a mim.
– Acompanharei seu filho em qualquer lugar – eu respondi.
– Até mais, então.
Assim que Draco aparatou, Scorpius bufou.
– Vocês não precisam ir, se não quiserem – ele disse. – Meu pai costuma inventar umas coisas idiotas mesmo.
– Nós vamos sim – meu tio garantiu. – Saudades da Mansão Malfoy. Ótimas lembranças... Vou chamar a Ginny também. Vejo vocês por lá.
Ele sorriu antes de aparatar. Meu pai estava de boca aberta.
– Às vezes acho que aquela cicatriz causa efeito débil na cabeça do seu tio – ele comentou. – Vai mesmo a essa festa, Rose?
– Parece que todos vão, pai – respondi.
– Estou desconfiado – falou.
– Escutem, meu pai pode ser estranho às vezes – disse Scorpius – mas ele não é uma pessoa ruim. O máximo que deseja é demonstrar que agora é dono da Mansão, e faz isso convidando pessoas importantes para uma festa. Ele não seria capaz de colocar um suco de veneno na taça de vinho. Eu o conheço muito bem. Se não aceitam o convite dele, aceitem o meu. Não sei se fará muita diferença, mas...
Ao ouvir aquilo papai reconsiderou algumas idéias. Então disse ao seu estilo:
– Ficarei de olho em vocês dois então. Não quero vê-los se agarrando na minha frente, é pior do que uma taça de veneno ultrapassando minha garganta.
Eu e Scorpius nos entreolhamos:
– Isso é um sim – avisei, sorrindo.
Meus pais aparataram primeiro. Antes que eu e Scorpius os imitassem, um rapaz alto e carrancudo o chamou. Era Hector Krum, parabenizando-o. Logo depois, fomos em direção a Mansão dos Malfoy, um lugar que eu só ouvira na história, mas nunca visto pelos próprios olhos.
Maior do que a mansão somente Hogwarts ou Gringotes. Estava repleta de convidados no grande jardim onde havia a fonte.
– Não se intimide, ok? – Scorpius parecia preocupado. – Estou vendo alguns primos e tios meus.
– Não estou intimidada, acalme-se! – Estava estranhando o comportamento de Scorpius, sua postura rígida e os olhares que enviava para todos os cantos me deixou preocupada. – O que está acontecendo? Quem parece intimidado é você, sabia?
Ele não cumprimentou quase ninguém, agradeceu aos convidados que lhe elogiavam pelo jogo, mas saiu comigo do jardim e entramos no hall de entrada. Era maravilhoso, elegante, de uma família realmente aristocrata.
– É que... eu não esperava – ele me explicou. – Não vejo meus pais há mais de um ano, fico viajando muito, e eu não voltei pra cá quando ficamos juntos outra vez. Eles não aprovaram a minha idéia de jogar na França, mas eu fui. Não tive tanta coragem de voltar para cá e ouvir o que temo em ouvir deles.
– O que você temia em ouvir?
– Receava um dia eles não me aceitarem mais aqui nesta casa. Um medo infantil e bobo que tinha quando pequeno, mas mesmo assim me atormenta de algum modo. Sei lá. Veja o que fiz. Amo uma Weasley e jogava para um país no qual não nasci. Tudo o que os meus pais desprezam.
– Eles nunca vão deserdar você por isso – garanti, sentando-me no sofá que Scorpius ofereceu. Um garçom passou por nós e ele pegou duas bebidas. – Tive medo de contar aos nossos pais que estávamos namorando em Hogwarts, mas não pelo perigo de ser deserdada, fala sério! Foi mais por acreditar que meu pai pudesse te liquidar. Mas ele é bonzinho demais para isso.
– O negócio com a minha família não é brincadeira. Você nunca vai entender.
Eu entendia que Scorpius estava transtornado, mas não segurei o incômodo ao ouvi-lo falar daquela maneira, rude e grosso.
– Sei que não é brincadeira, só quis dizer que seus pais te amam e nunca fariam isso – disse, bebendo um gole.
Ele, que estava sentado ao meu lado, me encarou.
– Você sabe disso? Como pode ter tanta certeza?
– Eu garanto.
– Não pode dizer nada sobre a minha família. Sabe alguma coisa sobre ela, além de que odeia a sua?
Eu conhecia tanto aqueles ataques de raiva que o atingiam. Mas não conseguia me controlar quando não encontrava motivos para ela. O orgulho era maior por isso repliquei, inconformada:
– Você nunca contou sobre a sua família. Nunca contou como seus pais te tratam, nunca. Então retiro o que disse. Realmente não sei de nada. Desculpa, ta bom? Não quis te ofender.
– Mas não é – retrucou. – Nossas famílias são diferentes. Suas experiências com seus primos e com seus tios são bem diferentes do que as minhas.
– Escute...
– Deixa pra lá. É fácil pra você dizer que todo mundo se ama. Sua família é perfeita.
Encostei-me melhor no sofá e bebi mais um gole de vinho.
– Ela não é perfeita.
– Não? Veja só. Seus pais estão ali, de mãos dadas – ele apontou para meus pais na escada, abraçados. – E olhe só para os meus. Um em cada canto da mansão.
– Isso porque eles devem atender aos convidados.
– Mas não é só em festas, são todos os dias.
– Você acabou de me dizer que não os vê em um ano. Como pode saber disso agora?
Scorpius não respondeu. Apenas me olhou de uma maneira estranha, como se me condenasse por um pecado que eu disse. Alfinetei-o, tinha certeza. Mas esta não era minha intenção. Não foi possível ouvir o que ele ia dizer, pois Draco apareceu a nossa frente. Levantei-me do sofá e disse:
– Vou deixá-los a sós...
– Não se incomode Srta. Weasley – ele disse. – Quero conversar com vocês dois. Por que não venha jantar uma noite aqui com Scorpius, para nos conhecermos melhor.
– Ela não quer – Scorpius falou friamente.
– Deixe-me ouvi-la dizer que não quer então.
Mas eu queria. Por mais hesitante que eu estivesse, aceitei a proposta do pai de Scorpius. Meu pai disse que eu nunca iria ficar interessada em conhecer a família Malfoy, mas eu estava. E muito. O sr. Malfoy sorriu para mim quando lhe dei a resposta que ele queria. Mas Scorpius nem parecia que tinha vencido um jogo de Quadribol. Parecia ter esquecido tudo.
– Por que aceitou? – perguntou quando abriu a porta de um quarto espaçoso. As cortinas eram verdes, o abajur, tudo. Havia uma foto que se mexia, estava na escrivaninha. Era Scorpius com dez anos mais ou menos e estava segurando sua primeira vassoura. Seus pais estavam ao lado dele, satisfeitos.
– Porque eu quis – respondi analisando os detalhes da foto. – Eu quero conhecer a sua família, tirar minhas conclusões. Estou farta de ouvir a dos outros, a do meu pai, entendeu?
– Eu não quero que você se machuque.
– Por quê? Acha que podem me matar?
– Não, mas podem ofendê-la. Eles não... são familiarizados com os Weasley. Sempre querem expor defeitos. E talvez lhe digam coisas que podem nos separar.
– Que coisas? – perguntei rispidamente. – O que eles podem dizer para nos separar agora? Nada. A não ser que você seja casado e tenha um filho.
Ele sentou na cama e me puxou calmamente para ele. Soltou um fraco sorriso. Fiquei em pé olhando seu rosto bonito e passei um dedo no seu cabelo jogado.
– Desculpe ser de uma família tão complicada – ele disse, segurando minha cintura.
– Só não entendo uma coisa. Por que você não gosta de falar sobre ela?
– Nunca achei que poderia se interessar por uma família que se aliou às trevas antigamente.
– Eu quero saber tudo sobre você, Scorpius – falei, colando meus lábios nos dele por alguns segundos. – Mas sinto que gosta de se fechar diante desses assuntos, como se você fosse um mistério, um enigma.
– Rose, o que você escreveu em seu livro está praticamente tudo o que eu sou. Você me conhece tão bem quanto eu mesmo.
– Mas não conheço as pessoas que te ajudaram a mantê-lo nesse mundo. A ser o que você é.
Scorpius pediu para que eu sentasse na cama. Ele se levantou e foi em direção a uma escrivaninha, abrindo a gaveta. Pegou um álbum de fotos e sentou-se ao meu lado outra vez.
– Se está tão interessada como diz... pergunte qualquer coisa.
Então foi ali, na cama de seu antigo quarto, que conheci um pouco sobre a família Malfoy. Um pouco porque nem tudo o que Scorpius falou era tudo o que se sabia sobre uma família tão grande e rica. Falou como se sentia pressionado quando alguém da família dizia a importância de manter o nome na família. Disse como era crucial não se misturar com sangue-ruins, nem trouxas, nem traidores de sangues. Contou sobre como a Mansão Malfoy foi construída. Ficamos deitados durante horas na cama enquanto ele me contava, com aquela voz baixa e sussurrante. Notei que ao falar de seu pai ele parecia estar falando de um herói, e ao falar de sua mão era como se falasse de uma rainha. Scorpius sempre os amou.
– Eles têm seus defeitos. Os erros são justificáveis, mas poucos compreendem – disse.
– Você se sente orgulhoso de alguma coisa que eles fizeram?
– Sim. Meu pai é um homem verdadeiro. Mas a quem admiro muito é minha avó. Ela salvou a vida do seu tio Potter.
– Ah, é, como assim?
– Em meio à guerra, Voldemort achava que Harry Potter estava morto. Minha avó disse que ela fora a encarregada para tirar essa dúvida. Mentiu a Voldemort que ele estava morto só para saber, pelo sr. Potter, se meu pai ainda estava vivo no castelo, onde aconteceu a batalha.
– Meus pais nunca me disseram isso sobre a sua avó.
– Talvez seu tio nunca tenha contado a eles.
– Agora eu sei – sorri, levantando-me da cama. – Bom, não acha melhor voltarmos para a festa?
Ele concordou. Ao sairmos do quarto, descemos as escadas, encontrando várias pessoas pelo caminho. Alguém abraçou Scorpius com força.
– Mãe?
Era Astoria, mãe de Scorpius. De repente ela começou a falar poucas e boas para o filho, chamando-o de infantil, mas que mesmo assim ficou orgulhosa do jogo que ele vencera naquela manhã.
– Não precisa me chamar de infantil, mãe, eu sei que o que fiz não foi certo. Mas eu precisava sair desse país.
– Então por que voltou? Cansou da França?
– Realmente, cansei mesmo – respondeu. – Podemos conversar depois sobre isso, a senhora deve atender aos convidados.
– Farei isso agora. Quem é a senhorita que está lhe acompanhando? – Astoria me encarou.
Ela era uma mulher elegante, um rosto fino e os olhos eram azuis claros, além de bonitos. Tinha o cabelo liso e negro, diferente dos Malfoy. Era educada, porém não muito simpática. Talvez por ter visto o filho com uma Weasley, e sabia que isso não era legal.
Quando eu me apresentei, ela se lembrou.
– Como os tempos mudam – foi apenas o que comentou. – Aproveitem a festa.
Embora sorrisse um pouco, não disse mais nada, e se afastou.
– Scorpius, eu acho melhor ir embora – falei.
– Sabia, você está se sentindo rejeitada.
– É uma surpresa para ela, eu notei. Ou você nunca disse nada sobre mim a sua família?
Ele demorou a responder. Apenas negou com a cabeça.
– Ela não liga muito para isso, na verdade. Acha que você poderia ser como as... outras, entende?
– Sim, entendo – falei, com a cara fechada.
Ele deu uma risada.
– Qual é, Rose, minha mãe nunca se importou com a minha vida sexual.
Afastei-me um pouco.
– Que foi? – encarou-me, sério desta vez.
– Você não tem apenas uma vida sexual comigo. Mas eu espero ter entendido errado o que acabou de dizer.
– Vai brigar comigo por causa de uma simples verdade que acabei de dizer?
Eu me senti ofendida.
– Quer saber, realmente vou embora agora – falei. – Você está precisando conversar com a sua família, é evidente. Até parece que tem medo dela.
Eu estava me afastando, quando Scorpius agarrou meu braço.
– O que foi que eu falei de errado?
Olhei nos olhos dele. Na realidade, Scorpius não falou nada de errado. Ele até mesmo disse a verdade. Tínhamos uma vida sexual, afinal não conseguíamos mais ficar longe um do outro. Mas o problema foi ter percebido o modo como disse aquilo. Como se tudo o que tivéssemos fosse apenas resumido a sexo. Como se nada mais importasse para ele, nem mesmo o amor. Antes eu concordava com isso, mas tudo havia mudado, eu tinha certeza do amor que ele sentia por mim e eu por ele, inevitavelmente. Só que, no entanto, a maior parte da mágoa foi por saber que ele nunca havia contado a sua mãe sobre nós dois.
– Se sua mãe não interessa pela sua vida sexual, Scorpius, talvez ela se interesse pelos seus sentimentos.
– Por que se importa tanto com o que nossa família vai pensar da gente, Rose? Não vamos nos casar nem nada, vamos? Não, ótimo. Então deixa tudo como estava.
Fiquei calada por um tempo até ele soltar meu braço.
– Se realmente eu tivesse a importância que você diz que eu tenho a você, não teria problemas em se esforçar para juntar a nossa família.
– Ah, Rose, dá um tempo! – ele se irritou outra vez. – Eu não vou mais falar nada, cansei.
– Então vou voltar para minha casa!
– Ótimo. Eu não posso mandar em você mesmo, faça o que bem entender.
Estressada, dei as costas para ele e saí pelo jardim. Draco Malfoy me viu e gritou:
– Mas já vai embora?
– Sim, e obrigada pelo convite.
– Rose, espera aí... – Scorpius me chamou, cansado, mas Draco impediu-o de ir atrás de mim.
– Deixe-a em paz.
E, obedecendo ao pai, deixou que eu fosse embora sozinha.
Lia o jornal de manhã no sofá. A primeira crítica sobre o meu livro foi publicado. Como receava, era uma crítica relevante, mas não dei importância aos aspectos negativos que encontraram na minha narração. Diziam que só faltava um pouco de originalidade, mas ninguém mais tinha originalidade. Tudo era muito clichê. Até mesmo falar que nada tinha originalidade.
Fui interrompida pela batida na porta. Era Haley Geller, minha vizinha de apartamento, e ex-melhor amiga do meu primo.
– Bom dia, Rose, por acaso você tem fermento? Eu estava fazendo bolo a modo trouxa e acabei esquecendo-me de comprar fermento!
– Tenho sim – falei, rindo. – Está acabando mas não estou pretendendo preparar nada hoje. Quer entrar?
Haley assentiu e me seguiu até a cozinha.
– O que estava fazendo? – perguntou.
– Lendo a crítica do meu livro.
– Ah, é! Fiquei sabendo que você ta aí com livros publicados. Muito legal, mesmo. Espero um dia ter tempo de ler o que aprontou. Mas e quanto ao trabalho, ainda fazendo resenhas na revista Pasquim?
– Os editores adoraram meu trabalho, eles não reclamaram nenhuma vez – respondi enquanto procurava o fermento.
– Olha que beleza! Achou?
Peguei o fermento na prateleira e entreguei a ela.
– Obrigada, Rose. Vou trazer um pedaço do bolo quando ficar pronto.
– Estarei esperando, hein?
Ela abriu a porta para sair e tomou um susto ao se deparar com ninguém menos que James Potter ali. Ele se abaixou para pegar o fermento que havia caído no chão.
– Não vai crescer sem isso – ele disse, entregando-lhe.
– Eu sei – Haley replicou, e passou por James na porta.
– Haley, espera – ele a chamou no corredor. – Precisamos conversar, urgentemente.
– E eu preciso fazer meu bolo crescer urgentemente porque eu estou morrendo de fome.
– Podemos ir a um restaurante aqui perto. Eu pago.
– Por que você não leva outra garota? Quero comer o meu bolo.
– Quero um pedaço também.
– Não estou lhe oferecendo.
As vozes foram sumindo à medida que James ia atrás de Haley pelos corredores. Não fazia idéia de como James estava pretendendo voltar a falar com ela, mas não insisti em saber. Naquela tarde fui à casa de Albus e Jenny para ajudá-los com Dave, que parecia mudar a cada dia que passava. O cabelo dele era ondulado, curto e preto, uma mistura evidente dos pais.
– Oi Dave – sorri para ele, que estava deitado no sofá enquanto Jenny, um tanto desajeitada, vestia-lhe uma roupa. – Está pegando o jeito, não está?
– É uma coisa estranha de mãe, não sei te explicar – falou Jenny, concentrada. – Mas Albus está sempre ajudando.
Depois que Dave já estava vestido eu o segurei no colo. Ele fazia algumas expressões engraçadinhas me fazendo rir. Agarrou meu nariz e deu risada por isso. Era um bebê muito esperto.
– Olha só o que eu comprei pra você! – exclamei pegando uma miniatura de robô e ele agarrou com a mão.
– Ai Rose você adora mimar esse garotinho, né? Não precisava – Jenny sorriu. – Ele já tem bastantes brinquedos.
– O que custa ter mais um? – falei, entregando-lhe o novo.
– Bom, eu vou tomar banho e acordar o Al. Minha mãe vem passar o dia aqui. Cuida do Dave pra mim enquanto isso?
– Sem problemas.
Fiquei brincando com Dave enquanto esperávamos a mãe de Jenny aparecer para o almoço. Albus não parecia tão animado assim para ver a sogra. Tanto que tive de lhe repreender quando ele fez um muxoxo ao ouvir a porta bater. A sra. Gilmore era engraçada, eu sempre morria de rir com ela, mas porque as piadas eram feitas especialmente sobre Albus, que detestava. Ela ainda o chamava de Albinho porque nos conhecia desde quando éramos crianças. Tudo bem que eu não ia gostar que minha sogra ficasse lembrando-se dos micos que eu paguei na adolescência, mas acho que eu não tinha nenhum problema com isso já que minha sogra não me conhecia.
Enfim, o almoço foi super divertido.
– Fazia tempo que não dávamos boas risadas – exclamou a sra. Gilmore. – Por que não vem em casa qualquer dia desses? Garanto que teremos muitos assuntos, principalmente sobre homens.
– Ela está comprometida, mãe – Jenny avisou.
– E daí? – ela disse. – Não significa que ela ainda ache outros homens gostosos.
– Exatamente – concordei.
Tinha me esquecido o quanto era legal passar o dia com a sra. Gilmore. Bom, era estranho chamá-la de senhora, pois Sally – este era seu nome – parecia mais uma adolescente do que mãe de uma filha de vinte e um anos. Com seu humor sarcástico e o modo como ela agia com todos nós, chegando a fazer James e Hugo considerarem ela uma mãe gostosa, Sally realmente parecia uma jovem. Engravidou cedo, com dezessete anos, o que explicava quase tudo. Até mesmo o que ela sempre falava: "nunca se esqueçam de usar camisinha!", quando passávamos as férias na casa dela.
Quando anunciei que precisava ir embora, Sally insistiu para que eu ficasse. Gostava tanto de mim que eu a considerava minha segunda mãe.
– Prometo que vou visitá-la, Sally – sorri para ela, e depois tive que ir embora.
Passei o final da tarde correndo na pracinha ao lado do meu prédio. Eu me sentia bem quando fazia algum exercício.
Estava na quarta volta da praça, conseguia distinguir toda vez que passava por um banquinho vazio. Na quinta vi que alguém tinha sentado nele. Scorpius estava de volta, e segurava uma flor.
– Você fica tão sexy quando corre, sabia?
– Eu estou toda suada, Scorpius, não fique muito perto que...
Ele me entregou a flor.
– Uma rosa para você.
Meio que me derreti com esse gesto. Ele não era de ficar me dando flores.
– Ah, brigada.
– Você tem alguma coisa para fazer hoje à noite? – perguntou.
– Nada planejado, por quê?
– Venha jantar comigo na mansão. Eu conversei com minha mãe, ela ficou interessada em conhecê-la.
Fiquei surpresa, não esperava que fosse ser tão de repente.
– Bom, eu... eu preciso me ajeitar primeiro.
– Não estou com pressa – ele sorriu para mim. – Estarei esperando você por lá.
Antes que eu dissesse alguma coisa, Scorpius já havia aparatado.
Devo dizer que não foi um jantar tão estranho como pareceria. Quando fui lá descobri que os Malfoy gostavam de falar sobre si mesmos. Eram misteriosos, como Scorpius. Embora ainda não gostassem de mencionar o sobrenome Weasley na mesa, eles me respeitaram, me trataram com educação. Astória ficou atenta as coisas que eu dizia, e enquanto Draco e Scorpius estavam no outro lado da sala, ela me disse:
– Scorpius mudou bastante desde Hogwarts. Quando voltei a falar com ele, mal o reconheci. Virou um homem.
– Eu sei – disse. – Garanto que a senhora o ensinou a ser quem ele é.
Ela me encarou com outro olhar.
– Não, talvez não seja apenas por mim. Scorpius roubava coisas na escola e quase foi expulso várias vezes. Quero dizer que você o fez mudar, eu reconheço isso. O mesmo ocorreu a Draco, ele constata hoje que o casamento o curou. Você e meu filho já... – Astoria hesitou – pensou em casamento?
Eu quase engasguei.
– Não, não. Não é isso o que Scorpius quer, ele não é assim.
– Entendo. Tem aversão a casamentos. Mas e quanto a você?
– E-eu? Eu não tenho aversão, mas também não sou ansiosa. Não fico pensando nisso.
– Certo. Saiba uma coisa, Srta. Weasley, você é importante para o meu filho. Ele nunca iria convidá-la para jantar conosco se não o fosse. O fato de ser uma Weasley, de todas as maneiras, não vai contribuir nada em relação a este jantar. Foi interessante.
– Eu digo o mesmo, sra. Malfoy. Obrigada por me receber em sua casa.
– Aproveite o resto da noite. – Então, elegantemente, com uma postura rígida, se levantou do sofá e entrou em algum lugar daquela mansão enorme. Depois não a vi mais.
Scorpius se aproximou de mim, com as mãos no bolso.
– Gostou do jantar?
– Foi ótimo – sorri. Ele pegou minha mão e me levou até a escada, subimos e entramos em várias salas, e ele me mostrou todas. Conheci a mansão naquela noite, até mesmo a grande biblioteca fascinante que a família Malfoy tinha. Depois entramos no quarto de Scorpius. Vi como era de um adolescente, tinha alguns pôsteres de times de Quadribol pelas paredes.
– Não entro aqui há muito tempo – ele comentou. A cama era de casal, os lençóis grossos e verdes, e os travesseiros aconchegantes. Ele se jogou nela, e fechou os olhos.
– Parece confortável – falei, enquanto andava pelo quarto a procura de algo interessante. Havia uma caixa de som. Liguei-a com a varinha. Nela, começou a tocar uma música, o som do violino soou todo o quarto, mas não era uma música clássica, depois a batida da música ficou agitada. Não conhecia a música, mas era ótima.
– Ficou calor de repente, não acha? – disse Scorpius, abrindo os botões da camisa que usava.
– Não me provoque – soltei meu cabelo do laço que estava e tirei o casaco, ainda andando pelo quarto até chegar perto da cama. Joguei a peça da roupa nele. Ele ficou de joelhos e tentou me pegar pela cintura só que dessa vez eu não deixei. Puxei-o para mim pela camisa até ele sair da cama.
Em pé, procurei seus lábios rapidamente. À medida que sua língua tocava a minha com urgência ele tirou a camisa. Nós fazíamos aquilo tantas vezes mas o efeito que meu corpo obtinha toda vez que o via sem aquela peça da sua roupa não mudava nenhum pouco.
Agarrei seu rosto com as duas mãos, afundando-as nos cabelos dele. Scorpius me jogou na cama, carregando seu peso quente ao meu corpo. Ao som da música, a coisa ficou mais excitante.
– Não tem perigo de alguém... nos escutar? – eu perguntei, deixando-o abrir minha calça.
Ele negou concentrado em acabar com o desejo que seus olhos afogavam. Apreciava-me com os lábios, como toda vez fazia sem hesitar.
– Eu preciso te falar uma coisa... – ele sussurrou, a respiração quase ofegante.
– Agora não – eu estava impaciente, excitada, como ele. Invertemos a posição, eu fiquei sobre o seu corpo, beijando seu peito, descendo até o abdômen. Ele passou as mãos no rosto enquanto eu lhe tirava as calças, parecia ter esquecido do que ia falar, e me puxou de novo para me beijar e tomar conta de todo o controle.
Nossas as roupas já não pertenciam ao nosso corpo. Mais uma vez me uni a ele, com convicção e amor. Era inevitável. Lutei para não me exaltar tanto com o ritmo alucinante que nossos corpos se moviam, mas o orgasmo chegou tão intensamente que puxei sem querer os cabelos de Scorpius, que estava transpirando e respirando com dificuldade, que foi impossível não gritar.
Ele nos cobriu com o cobertor e adormecemos lá mesmo. No dia seguinte, acordei com seus dedos acariciando meu rosto. Sorriu quando abri os olhos.
– Que loucura, não devíamos ter feito isso na mansão dos seus pais – eu falei, dando risada.
– Você tem muita mania de se arrepender só quando acorda – comentou, achando graça. – Mas a mansão é minha também.
– O que mais você quer da vida com uma mansão e uma casa na ilha?
– Ficar com você – ele me beijou.
– Você já está comigo.
– Eu sei – falou, e havia algum sentimento oculto na sua voz ao dizer aquilo. – Mas... eu preciso lhe dizer uma coisa.
Apoiei o cotovelo no colchão e olhei bem para ele.
– O que foi? É algo sério?
Então ele disse:
– Eu vou precisar ir embora. Não posso continuar voltando para Londres todos os dias.
– Por que não?
– O Quadribol. Vai ter a copa nacional, eu não vou conseguir ficar em Londres com você.
– E... onde pensa que vai conseguir ficar?
– Liverpool. Os treinos vão acontecer por lá e vai ficar mais fácil para mim, entende?
– Você vai embora de novo? – eu fiquei confusa.
– Eu preciso. Mas não vou te deixar, venha comigo.
– Scorpius, eu moro em Londres.
– Eu sei que vai ser difícil você deixar tudo o que construiu em Londres, mas... para a minha carreira, eu não posso abandoná-la. Nem ela nem você.
Encostei minha testa na dele e disse que não estava exigindo que abandonasse seu maior ofício.
– Quando que você vai?
– Amanhã. E eu pensei em tudo. Posso te ajudar a divulgar seu livro em Liverpool, ou em outro lugar do país, mas não quero ir embora sem você.
– Não vai se livrar de mim facilmente, Malfoy – eu garanti. – Distância não é problema, mas eu preciso pensar, ok?
– É somente outra cidade, se o problema é sua família você pode aparatar...
– Então porque você não continua aparatando? Estava tudo bem até agora, não estava?
– Porque eu quero morar com você todos os dias, Rose, é difícil de entender isso? E será tão fácil em Liverpool para a minha carreira, e se você aceitar, para nós dois também. Porque ficar aparatando desgasta muito quando se faz isso toda hora, e se você não vir morar comigo eu vou ter que aparatar toda hora. E esqueceu como são os treinos de Quadribol?
Pisquei algumas vezes. Aquela notícia me pegou de surpresa.
– Mas é claro que não preciso da resposta agora – ele disse. – Terá o dia inteiro para decidir.
N/A: Huuuuuum, este capítulo ficou grande :D me bateu inspiração durante esses dias e resolvi continuar Restless. Aqui está o capítulo, espero que tenha ficado bom. Comentem, viu? Se não fica difícil de escrever, sem saber suas opiniões.
Obrigada a Bruna, CahBigaiski e Cullen MA pelos comentários, e a Dadi Potter, minhas sinceras desculpa pela demora, e agradecimento por contar os dias até o próximo capítulo que quer ler, nunca imaginava que alguém ficaria tão ansiosa para ler as continuações! Obrigada mesmo!
Até mais,
Belac.
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