XIV. Hope¹

Já havia completado 18 dias desde que Roger pedira para ver os exames de Ikki, que aceitara a mudança de apartamento um dia depois de o médico pedir um tempo para pensar sobre o assunto. Shun e Aiolia estavam aprendendo o inglês a uma velocidade inacreditável, o que facilitava muito as coisas. A cada dia de angústia e expectativa por uma resposta do pai, Fênix tinha cada vez mais certeza de que seu caso era irreversível, embora o neurocirurgião não admitisse. No fundo, Fênix sabia que o suíço estava tentando arrumar alguma explicação, algum milagre e talvez não desistisse, mesmo depois de muitos anos. Afinal, era seu filho que estaria precisando de ajuda e não toleraria a derrota.

Embora não gostasse de confessar, a ajuda de seu pai fora muito oportuna e o apartamento que agora estavam o deixava sentir-se menos dependente, mais vivo. Ikki já conseguia fazer quase tudo sozinho e com as adaptações necessárias, teve uma maior liberdade. Graças ao colchão especial, não teve mais problemas de coluna e já ia sozinho da cadeira a outro móvel, inclusive à cama. Roger nunca comentou a respeito, mas Fênix sabia que muitas dessas adaptações tinham sido coisas do neurocirurgião e decidiu fazer de conta que não havia notado. Afinal, se o suíço não revelou ser o responsável pelo feito, era para não ferir o orgulho e o brio do deficiente que a cada dia dedicava-se mais à reabilitação, chegando ao ponto de aceitar um convite para participar de uma equipe amadora de basquete em cadeira de rodas, da qual ele era o mais jovem e, conseqüentemente, uma espécie de mascote.

Era sábado e não teria fisioterapia ou reunião do grupo de reabilitação na parte da manhã. Apenas um jogo de basquete à tarde. Estranhamente, Ikki acordou e sentou-se na cama, encostando-se na cabeceira. Ele não dormia mais no mesmo quarto de Shun, pois sabia que o irmão acabaria tentando ajudar-lhe de alguma forma. Não por pena ou subestimar as suas capacidades, mas por que isso fazia parte de sua personalidade. O jovem Andrômeda sentia prazer em ajudar as pessoas e Fênix admirava esse lado solidário, mas queria ser novamente o homem forte e orgulhoso, mesmo com as limitações que a sua paralisia lhe proporcionavam.

Geralmente, ele acordava, trocava o pijama – que se acostumou a usar – por outra roupa que usaria em casa e iria à cadeira de rodas, o único meio de chegar à cozinha. Naquele dia, retirou o lençol que ainda cobria parte de suas pernas e passou a fitar os membros inertes. Numa estranha tortura, passou as mãos sobre as coxas e espreitou a cadeira de rodas. Por mais acostumado que estivesse àquilo, agora sentia algo estranho, decisivo. Era como se, pela primeira vez visse aquele objeto como uma parte de seu corpo, de si mesmo, mas não revoltou-se. Tomando cuidado para não ferir a pele fria e insensível dos membros inferiores, Ikki parecia querer ter certeza que não haveria estímulos e sensações. Fechou os olhos e continuou a apalpar e tentar arranhar as pernas. Gargalhava ao perceber que não havia sensibilidade, quando sentia seus dedos percorrendo alguma espécie de objeto e novamente abriu os olhos. Sabia que não estava enlouquecendo, mas estranhamente sentia que os membros inferiores não lhe pertenciam ou obedeciam e passou a encará-los com um sorriso sádico nos lábios.

"Bom dia dorminhoco!"

"Bom dia, Aiolia.", Ikki agradeceu por estar de costas para a porta e de Aiolia não ter percebido o que estava fazendo até então. "Que horas são?"

"Nove e 27.", falava consultando o relógio de pulso.

"Já? To com uma preguiça...", diz alongando os braços e o tronco.

"Esse tempo está realmente chato! Também relutei pra sair da cama... tava tão quentinha e gostosa..."

Ikki ri da expressão de Aiolia. Precisava dividir sua angústia com alguém e sabia que o grego seria sua melhor opção. Antes de começar, respira fundo e volta a ficar sério.

"Sabe, eu tava pensando em tudo o que me aconteceu desde que fui pra Ilha da Rainha da Morte. A minha vida já deu tantas voltas que parece ficção..."

"Não fique assim, logo tudo voltará a ser como antes."

"Não, não vai! Mesmo se eu voltar a andar ou trajar a armadura de Fênix... Nada será como antes!... Agora sei que tenho uma grande família, amigos e o quanto eu estava errado ao andar por aí sem rumo, como um lobo solitário. Não fui só eu quem mudou não... Shun também mudou e até mesmo você está diferente. Se um dia antes d'eu ir ao Santuário me falassem que nós ficaríamos tão íntimos, eu mandava internar o louco e tenho certeza que você faria o mesmo. Eu sinto que, assim como as minhas pernas, o Ikki que vivia isolado e fugindo não só dos outros como de si mesmo está morto e, sinceramente, espero que ele nunca renasça, pois estou gostando dessa minha nova fase, apesar de tudo..."

"Pode deixar. Se depender da minha vontade, você vai enjoar de mim..."

"Estou falando sério.", Ikki repreende.

"Eu também."

Ikki sabia que não era isso que precisava falar com Aiolia. Tinha que dividir o que passava dentro de si, o medo que sentia pelo que estava sentindo, a angústia por não poder sentir as pernas e tudo o que passava em sua cabeça desde que acordou do coma. Não sabia se estava realmente sofrendo, mas era muito estranho. Se tivesse tido as duas pernas amputadas, talvez fosse algo mais real, concebível, mas ver as pernas ali, aparentemente saudáveis, lhe causava muitos questionamentos. Novamente, ficou com o olhar fixo na parte paralítica de seu corpo, apalpando, passando a mão de leve, enquanto conversava com o amigo.

"Sabe, parece estranho, mas eu já não lembro como é sentir o frio dos ladrilhos no inverno ou o calor das areias no dia mais quente de verão sob meus pés, castigando-os e desafiando os limites do meu corpo, da minha resistência. Tem dias que eu acordo e me pergunto se não foi um sonho, se eu realmente já pude andar, sentir minhas pernas..."

"Calma, amigo.", Aiolia fala, sentando-se ao lado de Ikki. "Confie em você mesmo, confie no Roger! Logo isso tudo não passará de uma parte de seu passado. Voltaremos a lutar juntos, como uma equipe, acredite!... Mesmo assim, você sabe que pode contar comigo sempre que precisar desabafar."

"Eu sei!", sorri. "Eu tava passando as mãos nas minhas coxas e foi tão estranho... tão irreal!", respira fundo antes de conseguir encarar o grego nos olhos e recomeçar a falar num tom melancólico. "Senti como se elas não fizessem parte do meu corpo, parecia um monte de massa grudada à minha cintura, uma mistura forte e até certo ponto resistente, mas que não fazia parte de mim. Ao mesmo tempo, eu observei a cadeira de rodas e me pareceu tão familiar... Esta sim pareceu ser um membro do meu corpo, pertencer a mim. Foi assustador! O mais incrível foi que, pela primeira vez senti como se essas pernas...", bate levemente nas próprias coxas, "pertencessem a outra pessoa. Na verdade, me pareceram que fossem de um cadáver e cheguei a ter nojo delas. Eu tenho certeza que não estou enlouquecendo, mas..."

"Shhh! Já passou, está tudo bem agora. Eu estou aqui e posso garantir que isso foi só uma espécie de pesadelo...", Aiolia o abraça fortemente. "Agora pense no Shun e recomponha-se. Ele não gostará de vê-lo assim."

Aiolia segurava-se para não chorar e Ikki tentava uma forma de ficar mais calmo. O japonês movimentou-se na cama e, com um sorriso, lembrava de seu irmão. Com muito orgulho, comentava com o amigo:

"Shun... Meu irmão é uma pessoa maravilhosa que só tive a oportunidade de conhecer realmente depois do acidente."

Sorrateiramente, Shun chegava à porta e não foi notado por nenhum dos dois. Não gostava de fazer isso, mas queria ouvir o que o irmão pensava dele e se escondeu atrás da parede. Alheio à chegada do mais novo, Ikki continuava de uma forma carinhosa e levemente emocionada.

"Não é por ele ter cuidado de mim, mas nesse tempo eu pude prestar mais atenção no meu irmão e ver o homem que ele se tornou. Eu sempre o tratei como um bebê desprotegido, mas agora vejo que ele não é tão indefeso ou fraco como eu pensava... Não sei se foi por ter cuidado dele desde bebê, mas para mim Shun parecia uma frágil boneca de porcelana, que poderia se desfazer a qualquer toque mais brusco e que precisava dos meus cuidados constantemente, mas eu pude perceber que ele tem um enorme poder oculto... É algo incrível e invejável, até mesmo aos cavaleiros de ouro. Tenho certeza que se ele não se importasse tanto com os outros, poderia mostrar sua verdadeira força e me superaria sem esforço.", Ikki faz uma pausa e encara o grego nos olhos, demonstrando o quão sincero estava sendo e que não estava admirando um irmão e sim um herói, um guerreiro, um verdadeiro cavaleiro de Atena. "Sabe, Aiolia, hoje eu tenho orgulho de dizer ao mundo que sou irmão do cavaleiro de Andrômeda, um guerreiro justo, sensível e poderoso!... Se hoje me aparecessem com a proposta de voltar no tempo e evitar o acidente, eu recusaria sem pensar duas vezes. Por pior que possa parecer, eu agradeço ter passado por essa tragédia, pois foi graças a isso que conheci a verdadeira face do Shun. Foi a única forma de conhecer essa pessoa maravilhosa que ele é e pude não só entende-lo, como admira-lo..."

"Ikki...", Aiolia comove-se.

"Niisan?", Shun finalmente aparece na porta e se aproxima do irmão. Aiolia dá espaço ao garoto, que chora copiosamente no peito de Ikki. Fênix sorri ternamente enquanto acaricia os cabelos do caçula. Andrômeda finalmente se acalma e limpa as próprias lágrimas. "Te amo, niisan!"

"Você foi o melhor presente que o destino me deu, Shun. Hoje eu posso afirmar que eu te amo e o quanto eu o admiro. Obrigado por tudo, irmão!", Ikki o abraça e deixa algumas lágrimas cair.

"A cena está linda, comovente, mas, se continuar, será a primeira vez que uma enchente atingirá o décimo andar de um apartamento em Londres."

"Ih! O Leão está com ciúmes? Olha, você também é muito especial para mim.", Ikki confessa rindo da brincadeira do grego.

"Pra nós niisan, pra nós!", Shun se levanta e abraça Aiolia, brincando com ele.

"Eu só não digo que te amo pra não estragar a minha reputação e por ser meio... estranho."

"E quem disse que quero ouvir um homem dizendo que me ama, Ikki?"

Todos caem na gargalhada e Ikki finalmente resolve se trocar e sair da cama. Shun havia pego uma calça de agasalho num tom grafite escuro, uma camiseta branca e uma jaqueta preta de agasalho para o irmão vestir. Enquanto não chegava a hora do almoço, ficaram brincando na sala com vários jogos de cartas, dos quais Shun sagrou-se campeão no placar geral e Aiolia foi o perdedor, recebendo inúmeras gozações dos irmãos. Às 11 horas, Andrômeda decidiu preparar o almoço e assim que o cheiro invadiu a sala, os outros dois foram à cozinha, provocando o mais novo e experimentando o tempero. Arte que custava broncas e leves tapas na mão aos dois intrometidos.

-------------- # XIV # --------------

Na tarde daquele mesmo dia, Shun, Aiolia e Ikki voltavam do jogo de basquete, trazidos pelo ônibus especial da clínica, devidamente adaptado. Ao chegar ao portão do edifício, avistam Saori, Hyoga e Seiya.

"Vocês desenvolveram telecinese? Eu ia interfonar agora mesmo!", brinca Seiya, coçando a cabeça ao ver os amigos chegando.

"Saori? Pessoal? Estava com saudades...", confessa Shun, indo ao encontro dos amigos.

"Preciso conversar com você, Ikki.", anuncia Saori.

Ikki já esperava que a jovem viesse atrás dele por causa do testamento que a obrigava achar algum descendente de Mitsumasa Kido e o jovem sabia ser filho legítimo dele. Mesmo assim falou calmamente, como se não desconfiasse dos motivos da visita.

"Vocês deram sorte! Eu estava no jogo de basquete... Entrem!"

"Basquete? Como...", Seiya perguntava, visivelmente assustado.

"Ikki está jogando basquete em cadeira de rodas e faz muito sucesso na equipe.", Shun fala serenamente.

Ikki e Aiolia começam a abrir o portão e adentrar o edifício, mas, estranhamente, Saori, Hyoga e Seiya não fazem menção de mover-se. Um carro pára atrás deles. Para surpresa de Shun, descem Keshi, Keiko, Yuki e um senhor de cabelos grisalhos.

"Shun!", as crianças gritam e correm até o jovem.

"Mãe, Keiko, Yuki? Como...", Andrômeda comenta, um pouco assustado.

"Achei que gostariam da surpresa.", Saori afirma.

"Adorei!", diz o rapaz se abaixando para abraçar Keiko e Yuki, que já estavam ao seu lado. Ele dá um beijo na bochecha de Keiko, que devolve com um sonoro e molhado beijo na bochecha do irmão.

"Boa tarde, Shun. Esse é Matisui Hajime², meu marido e pai da Keiko e do Yuki."

"Oh, prazer senhor Matisui!", Shun cumprimenta, já em pé, fazendo uma reverência japonesa.

"Hajime, esse é Shun, meu segundo filho."

"O prazer é meu, Shun.", retribui a reverência. "Realmente as crianças tinham razão, você é muito parecido com Keshi..."

Shun cora perante o senhor, não sabendo muito bem o que falar. Logo os irmãos mais novos começam a distraí-lo com as novidades e perguntas típicas de crianças que o jovem faz questão de responder e dar toda a sua atenção.

De onde estava, Ikki nada poderia ouvir do que poderia estar acontecendo no portão, mas estranhou a demora do irmão. Para piorar, um vaso de folhagens o impedia de ver através da porta de vidro espelhado e por isso dirigiu-se para lá. Não precisou avançar quando apareceu perante a porta e viu os irmãos mais novos correndo até si. Shun aproximava-se calmamente, sendo seguido pelos demais visitantes. Ikki sorriu ao ver as crianças, abraçou Yuki e pegou Keiko no colo, a abraçando e recebendo um inesperado beijo no rosto.

"Olha só! A porcona sujou toda a calça do niisan", bradava Yuki, com certa inveja e apontando para as pernas da calça preta, com marca de lama na altura dos pés da menina.

"Ah! Desculpa...", pedia Keiko, visivelmente constrangida e ameaçando a descer do colo de Ikki.

"Não fique assim, querida!", pedia Ikki, a segurando delicadamente pela cintura e virando o rosto da menina para encarar o seu. "Se tem algum culpado aqui sou eu! Eu a pus no meu colo sem me importar se seus pés estavam limpos ou sujos. Na verdade, nem perguntei se você queria...", falava calmamente até ser interrompido pela menina.

"Eu quero!... Gosto de você...", se aconchegava manhosamente no peito do irmão, que acariciava os cabelos da menina.

Ikki virou-se para o menino, bradando: "Yuki, você não deve falar assim com uma dama! Ainda mais se for sua irmã... Você deve protegê-la, deve amá-la assim como ela o ama.", percebeu o quão constrangido o menino estava e o olhar que ele dirigia a cena. Não foi preciso mais nada para o ex-cavaleiro notar que o irmão tivera uma crise de ciúmes e saber o que deveria ser feito. "Se eu falo isso é por ter percebido a tua força.", falava em tom carinhoso. "Sei que é capaz de atender ao meu pedido, protegendo a nossa irmã e ainda me ajudar... Ou estou enganado?"

"Não! Sou forte o bastante pra cuidar dos dois."

"Gostei de ouvir. Agora só falta pedir desculpas à Keiko para provar o grande homem que é."

"Desculpa, Keiko. Você sabe que sou um bobo às vezes..."

"Tudo bem, não foi nada.", a menina respondia sorrindo.

"Vamos subir ou não?", gritava Aiolia, segurando o elevador.

"Vamos...", falava Ikki, mais para quem estava perto do que ao grego. "Yuki, você me ajuda a ir ao elevador?"

"Ajudo!", respondia o menino com o peito estufado, sorridente e começando a empurrar a cadeira de rodas na direção de Aiolia.

-------------- # XIV # --------------

"É sobre meu pai, não é?", perguntava Ikki.

Apesar dos protestos de Pégaso, Ikki levou Saori para seu quarto, onde teriam uma conversa a sós com ela. Não era um assunto fácil para nenhum dos dois, pois a menina sabia que o rapaz à sua frente sempre sofrera muito nos tempos de criança. Ironicamente era o herdeiro legal de toda aquela fortuna e por isso a garota o encarava sem saber direito por onde começar. Teria que fazer um pedido de desculpas, devolver a herança... eram tantas coisas!

"Já deve saber que sou filho de Mitsumasa Kido."

"Sim, mas achei que não soubesse... Eu... Bem, devo um pedido de desculpas por tudo o que passou e..."

"Já passou! Minha mãe contou tudo. Contou como fui gerado, quem era meu pai. Só não soube dizer se eu tinha irmãos paternos..."

"Sobre a sua concepção, a única coisa que eu sei é que meu av... er... seu pai tinha problemas de fertilidade e teve que fazer um longo e caríssimo tratamento para ter um filho. Ele queria um filho forte, bonito e inteligente e por isso escolheu a dedo a mãe de seu herdeiro. Como seria único, tinha que ser perfeito!"

"Entendo! Ele deve estar se revirando no túmulo agora. Desprezaria-me se me visse hoje, assim..."

"Você não teve a oportunidade de conhecer seu pai assim como eu o conheci e por isso posso garantir que sinta orgulho de você, esteja onde estiver!"

"Tem razão! Eu não conheci meu pai e por isso não vou discutir sobre ele, mas nunca poderei ter o mesmo respeito e carinho que você aprendeu a ter. Talvez eu nunca o considere como um pai, pois não fui amado. Ele sabia quem eu era, sempre soube e mesmo assim...", fica cabisbaixo e resolve não continuar, suspirando fundo antes de retomar o diálogo. "E agora, o que vai acontecer?"

"Como único herdeiro, você ganhará o que é teu por direito. Poderá assumir a empresa, a mansão... Recuperará o que é teu por direito!"

"Até parece que foi tudo armado. Justo agora que não posso lutar, que tenho grandes chances de ficar eternamente preso a esta cadeira de rodas, o destino dá essa guinada... Você, que sempre teve tudo, foi criada como única herdeira do meu pai não tem direito a nada e eu que sempre sofri nas mãos dos empregados, fui humilhado de todas as formas possíveis, descubro que sou dono daquilo tudo.", Ikki aproveitou o fato de Saori sentar na cama e se aproximou da garota, a olhando nos olhos. "Saori, você sabe que eu não sei dirigir a empresa, não entendo nada do mundo dos negócios e que ao tomar o seu lugar, a deixaria sem nada e mesmo assim veio até mim... Seja sincera, faz isso por pena ou amizade?"

"Faço por justiça!", respondeu demonstrando o quão ofendida estava.

"Desculpe! Não queria ofendê-la."

"Você ainda está muito confuso... Vejo o medo em seus olhos."

"Não quero falar sobre isso.", Ikki respondia, relembrando a conversa que tivera com Aiolia naquela manhã. "Saori, eu sei que para você, Mitsumasa Kido sempre será seu avô e que não tenho preparação nenhuma para assumir a empresa, mas sei que está fazendo um belo trabalho. Aceitaria continuar no comando? Não tenho idéia de salários, cargos e por isso não posso fazer nenhuma proposta convincente. Só posso afirmar que eu gostaria que você continuasse à frente da empresa como sempre esteve."

"Sério? Mas tem profissionais muito mais experientes e bem preparados..."

"Ninguém conhece as empresas da família Kido como você."

"Ikki...", ela o abraça e recebe outro abraço em resposta. "Só tem um problema: mais cedo ou mais tarde terei que assumir todas as responsabilidades como Atena e passar a morar no Santuário."

"Você saberá arranjar alguém para substituir-lhe. Afinal, não pretendo assumir a empresa, pelo menos não tão cedo..."

"Tudo bem, respeito a sua decisão. Obrigada por tudo! Ah sim... Já mandei reformar a mansão Kido. Colocarei elevadores, rampas e tudo o que for necessário. Talvez seja cedo para isso, mas acredito que seja o melhor..."

"Não se preocupe com a mansão, pode continuar morando nela, afinal, aquele lugar é a sua casa! Também devo agradecer por tudo o que fez mesmo antes de saber quem eu era... Agora vamos voltar à sala antes que pensem besteira..."

Saori responde com um sorriso e um aceno de cabeça, levantando-se da cama e dirigindo-se à porta. Ikki a segue, indo em direção à sala.

-------------- # XIV # --------------

"Alguma novidade?", pergunta Shun.

"Sim, descobri ter uma irmã gêmea!", responde Hyoga animadamente.

"Sério? Que legal! Você deve estar muito feliz.", comenta Andrômeda.

"E como. Eu a conheci, ela mora no Brasil e a única língua que sabe falar é o português. A minha sorte foi ter levado o Aldebaran como intérprete. Ela é muito inteligente, culta, alegre e... é quase uma cópia da minha falecida mãe.", suspira. "Mas ela teve sorte. Os pais adotivos são simpáticos, acolhedores e tem uma boa condição financeira apesar de não serem ricos. Touro disse que eles são muito simples e se espantou com o conhecimento do pai dela sobre o Brasil. Qualquer coisa que ele falava, mesmo um canto de fim de mundo – o que parece ser comum por lá –, ele já se localizava, comentava algo sobre a região... Foi muito interessante. Eles nos forçaram a jantar com eles, a mãe fez saladas simples, bonitas e saborosas, o pai assava carne de boi como se fosse a coisa mais corriqueira... sério, nunca vi tanta carne na minha vida! E naquele variedade. Tinha algo como filé, costela e outros nomes que não gravei. Comi tanto que não conseguia nem andar direito depois."

Nesse momento, todos caíram na gargalhada e Ikki se aproximava dos amigos. Hyoga não parava de falar na irmã e nos parentes adotivos. Comentou sobre a feijoada que experimentou, o famoso feijão com arroz que adorou, as carnes de frango, peixe, peru e carneiro que teve a oportunidade de conhecer em formas nunca dantes imaginadas pelo loiro e as paisagens dos lugares pelos quais passava. Contou em detalhes o dia que foi pescar com a família da irmã e o quanto sofreu com o calor, mesmo estando em plena primavera e no sul do país. Enquanto relatava os acontecimentos, passava o álbum com mais de 60 fotos que havia tirado durante os 20 dias que permanecera com eles. Terminou relatando sobre a intenção dos pais da irmã em adotá-lo também, mas que teve que recusar devido às suas obrigações como cavaleiro de Atena.

"Nossa! Não é que a irmã do pato é bonitinha? Ela tem namorado?"

"Não, mas antes que qualquer gavião tente algo, terá que passar por mim."

"Só isso? Sou o primeiro da fila então. Marquem uma viagem ao Brasil!", pedia Ikki.

"Eu também quero!", brincava Aiolia.

Enquanto os rapazes se divertiam com Hyoga, Shun carinhosamente pergunta a Seiya:

"Já achou a Seika?"

"Ainda não há pistas. Quando penso que cheguei perto, tenho que recomeçar do zero, mas não vou desistir. Nunca!"

"É assim que fala!", Shun o encoraja.

É nesse momento que todos ouvem o barulho de uma chave se mexendo na porta. Como ninguém havia saído, os visitantes estranham, mas os moradores do apartamento não reagem, sabendo de quem se tratava. Roger entra e se assusta com o número de pessoas ali, ficando estático ao ver Keshi novamente.

Ikki e Shun percebem a reação do pai e logo conseguem faze-lo voltar a si. Apresentam-no a todos como se fosse o pai dos dois, para espanto de Saori que fica ainda mais incrédula ao ver o homem tratar os dois como se fossem filhos e chamar o ex-cavaleiro de Fênix de Ricky. Tudo é devidamente explicado, omitindo as partes mais chocantes e fantasiando outras. Shun nunca gostou de mentir, mas sabia que a ocasião pedia tal ato e foi surpreendentemente coerente e convincente em tudo que afirmou, espantando a mãe e o pai com a versão que arranjara para seu passado.

As crianças, que até então brincavam e corriam pelo apartamento, começaram a apresentar sinais de cansaço. Keiko dormiu no colo de Ikki, Yuki resolveu entregar-se ao sono deitado no sofá, usando as pernas de Shun como travesseiro. Ao perceber, Andrômeda levou o menino a seu quarto e o deitou numa cama vaga. Hajime carinhosamente pegou a filha, que já estava só de meias, e a levou ao quarto de Ikki, a pedido do mesmo.

Quando os dois voltaram à sala, Roger se levanta e vai até Ikki.

"Já tenho um laudo definitivo dos exames. Quer ouvir em particular ou posso contar a todos?"

"Conta logo! Teriam que saber mesmo..."

"Ok! Bom, eu reuni uma vasta e experiente equipe médica de diversas especialidades: fisioterapeutas, psiquiatras, neurologistas, fisioneurologistas, neurocirurgiões, e outros que eu achei necessário. A cada dia, a cada pista eu procurava o auxílio de colegas que poderiam ser úteis. Depois de muita discussão, pesquisa, troca de conhecimentos, percebemos que o seu problema constitui-se não só de uma lesão no cérebro como também de um problema psicológico."

"Fala logo! Vou ficar assim pra sempre, não vou?"

"Não exatamente. Infelizmente as chances de voltar a andar normalmente são de menos de 0,6 por cento.", Roger afirma, causando suspiros coletivos e um olhar de luto em Hyoga, Seiya, Saori e Keshi. "Mas as chances de você livrar-se da cadeira de rodas é de quase 60 por cento. Na verdade, os mais pessimistas avaliaram em 40 por cento e os mais otimistas, como eu, chegaram a elevar o índice para 70 por cento."

"Ouviu, niisan? Temos uma chance! Você vai voltar a ficar em pé.", Shun comemorava, abraçado ao mais velho.

"Sim, Shun. Devo essa vitória a você que me encorajou desde o início."

"Parabéns, Ikki! Eu disse que conseguiria.", Aiolia põe a mão em um de seus ombros, sorrindo.

Aos poucos os outros iam incentivando o jovem. Roger permanecia calado e precisou de todo seu auto-controle antes de comentar sobre os riscos da cirurgia. Não seria tão fácil ou mágico como imaginavam, pois se tratava de uma complexa e delicada cirurgia no cérebro e qualquer erro poderia ser fatal ou fazer o paciente regredir, ou pior, ficar aleijado para o resto da vida. Foi um choque e uma grande decisão, mas Ikki resolveu tentar e entregou a armadura de Fênix aos cuidados do Santuário, pois como o próprio pai havia dito, eram muito pequenas as chances dele voltar à ativa. Saori relutou até decidir aceitar e disse que ela ficaria guardada aos cuidados de Mu, que a devolveria quando o amigo fosse buscar.

Agora poderiam ter uma esperança, mesmo que remota e embora a um preço muito alto. Sabiam que, ao findar da cirurgia, ou Ikki sairia recuperado ou se sobrevivesse, dependeria de cuidados especiais pro resto da vida. Decidiram apoiar o amigo e confiar em Roger que demonstrava ser o mais interessado em curar o seu filho.

CONTINUA


¹Esperança, em inglês.

²Os japoneses costumam falar o sobrenome na frente do nome.


Hoje devo agradecer à Sinistra Negra e à Pisces Luna, que betaram esse capítulo! Obrigada por tudo amigas. Também quero agradecer aos reviews que tanto me incentivaram. Como devem ter percebido, mandei a resposta por e-mail. Sempre que quiserem ver a resposta, é só deixar o endereço de e-mail no review. Até a próxima!

Dúvidas? Pedidos? Críticas? Sugestões? Podem mandar e-mail! a sornasp (arroba) yahoo. com. br ou cliquem no botão "go" aí embaixo e mandem bala! Prometo aceitar a tudo de braços abertos. Para quem já está de férias, boas férias! Para quem ainda vai passar pela época de provas, boa sorte!