Capítulo 13 – Todas as Informações São Obtidas
O sol nasceu cedo. Spark ainda estava exausto devido à batalha contra o grande demônio. Saiu de mansinho, não colocou sua armadura, apenas uma camisa de algodão. Starfumos não estava muito movimentada, viu alguns rostos conhecidos que sorriram e acenaram para ele. Uma jovem assassina, que ele nunca havia visto, veio correndo, com um rosto altamente preocupado, mas Spark precisava admitir, era uma vail muito bonita. Ela chegou até ele e não mediu o que falava, apenas abriu a boca e deixou as palavras saírem todas ao mesmo tempo.
- Ai, graças a deus que você está bem! Quase morri de preocupação! Soube que você se feriu gravemente... Já está melhor? Ainda sente dor?
Spark ficou um pouco confuso. Um misto de curiosidade, incômodo e orgulho em sua cabeça. Olhou de modo muito sério para a assassina que se atirava sobre ele e tentava puxar sua camisa, enquanto ele a segurava pelos pulsos.
- Mas eu nem sei que você é! Perdeu o juízo garota?
Bolt vinha se aproximando, mas ao avistar a situação embaraçosa, preferiu assistir de longe e rir das tentativas de Spark para afastar a vail descontrolada. Após muita resistência, ela desistiu e partiu. Bolt foi até o irmão, e ainda rindo, lhe disse.
- Quem era?
- E eu sei lá! Garota maluca, nunca a vi na minha vida! – Reclamou Spark arrumando a camisa.
- Ok, se você diz... Mas deixando isso de lado, trago uma notícia e é provável que você não goste muito. Parece que houve uma reunião entre os generais e lideres da guilda, e, obviamente, não fomos porque estávamos em Aidion.
Realmente, Spark não gostou nada de ouvir aquilo. Independente de onde estivessem, independente de qual líder ou general não estivesse presente, uma reunião do conselho devia ser composta por todo o conselho. Todo ele. Sacudiu os cabelos claros para longe do rosto e ralhou.
- Não interessa! Ficamos um dia apenas dentro de Aidion. É uma coincidência enorme a reunião ter ocorrido justamente ontem. E o pior, é ninguém ter pensado em adiar por mais um dia para achar e avisar todos os líderes.
- É estranho, mas não é uma farpa. Thews quer falar ele mesmo com você. Encontrei com ele a caminho daqui. Expliquei que você está se recuperando, ele irá esperar a tarde passar e virá à noite. Tudo bem pra você? Use esse tempo para descansar.
- Descansar uma ova. Vou aproveitar o tempo e juntar as provas de que a guilda está afundando por culpa de má administração. Vou colher alguns depoimentos, preciso me apressar.
Bolt segurou o ombro do irmão, seus olhos azuis escuros perfuraram a paisagem enquanto olhava ao redor. Calmamente falou com Spark.
- Calma Spark, você não acha que talvez Thews não te avisou da reunião justamente por isso? Talvez seja justamente por você tentar mostrar que a administração está ruim. Provavelmente ele não quer que você fale isso para os outros generais. É possível que ele queira tentar acalmar todo mundo de um modo mais sutil que o seu.
- Não vai dar certo, e você sabe disso tanto quanto eu. Thews não vai tomar nenhuma decisão rígida contra Lehti ou qualquer outro general. Bom, o tempo está passando, vou recolher um material e depois retorno. Tem algum plano para hoje?
- Estou querendo estrear este cajado novo... Acho que Dizzy e eu vamos fazer uma pequena expedição pelas trilhas abandonadas ao norte do Forte de Arena. – Enquanto falava, Bolt apertou seu cajado, e imediatamente chamas fantasmagóricas alaranjadas brilharam na ponta.
Despediram-se e Bolt partiu. Spark entrou em casa, afivelou sua armadura apressadamente, passou a mão pelos cabelos e com determinação batendo a porta atrás de si, foi atrás das pessoas que ele sabia que poderiam lhe dar depoimentos sobre as falhas dos generais e dos líderes. Falhas dele, inclusive, também foram relatadas naquele dia. O assassino corria contra o tempo.
A cada depoimento colhido pensava "Com essas provas, muita coisa terá de ser modificada, mas os problemas começarão a melhorar." Em teoria, uma ótima ideia... Mas, na prática...
Bolt se encontrou com Dizzy no Forte de Arena e juntos partiram para uma trilha abandonada que saía pelo portão leste do Forte e seguia pra norte. A trilha era bem acidentada, capim crescia pelas margens. O céu nas terras da União era sempre escurecido, em tom de ferrugem, mas não impedia que o sol castigasse a colina pela qual a trilha serpenteava. Os dois pagãos corriam leves, instigados e impacientes para testar o poder dos novos cajados que flamejavam em suas mãos. Ao chegarem a um planalto da colina, avistaram um pequeno acampamento de elfos renegados na planície abaixo. Dizzy olhou curiosa para Bolt e perguntou.
- Elfos... Nas terras da Fúria? Como conseguiram atravessar as fronteiras?
- Não sei Dizzy, mas observe o comportamento deles. Não é normal. Parece uma tribo bárbara. Não se comportam como elfos... Comportam-se como uma tribo de trolls... Que diabrura é essa?
- Devem ser os Adaga Sangrenta. – Dizzy cerrou os olhos tentando puxar detalhes da memória.
- Conhece? – Bolt virou-se para ela assombrado.
- Não. Ouvi meu antigo mestre mencionar o nome de uma tribo de elfos estranha apenas... Mas como nunca tinha ouvido falar nada mais que isso quando andava na Aliança... Só podem ser eles.
Mantiveram a corrida e desceram a trilha. O sol continuava forte. Bolt, mesmo usando uma cota de malha leve, suava muito e seu cabelo trançado grudava. Aproximaram-se do acampamento rústico. Os elfos se comportavam de um modo muito primitivo e peculiar, não eram imponentes como seus iguais. Pareciam animais selvagens.
"Como alguém fica desse jeito?" pensava Dizzy.
Diminuíram o passo, agacharam e passaram por entre as barracas. Com rápidos sinais de mão, os dois pararam e se organizaram. Contornaram uma barraca próxima, um para cada lado, com objetivo de testar seus cajados contra os elfos de comportamento estranho. Plano simples e eficaz. Surpreendê-los com fogo cruzado. Bolt apertou seu cajado, lançou sobre ele sua mente e sua energia, e o cajado brilhou. De sua ponta, chamas fantasmagóricas brotaram. Dizzy fez o mesmo, e seu cajado também ardeu em chamas.
Com um rápido olhar e um aceno que indicava que estavam prontos, ambos levantaram e conjuraram esferas de energia, que irromperam dos cajados e explodiram nas costas do elfo mais próximo. Mas, diferente do que Bolt imaginou, sua magia não ardeu em chamas assim como seu cajado. O elfo atingido foi jogado ao chão e não mais levantou, mas, o restante dos elfos no rústico acampamento já brandia adagas encurvadas e cuspiam palavras em um dialeto estranho. Bolt concentrou energia em seu cajado, e mais uma vez lançou uma esfera de energia. E mais uma vez sem sucesso. Sua magia ainda era composta de energia pura. O elfo alvo de sua magia desviou facilmente, e iniciou uma corrida contra ele. Dizzy tentou conjurar raízes para impedir o elfo de continuar sua investida feroz, mas com o canto de seu olho viu outros dois elfos correndo em sua direção.
"Droga!".
Interrompeu a conjuração e com grande agilidade, saltou para trás quando uma das garras enferrujadas passava rente ao sei peito. Aproveitando-se do movimento, concentrou sua energia no ar, e dobrou os ventos, criando um enorme tornado. Os dois elfos atacantes foram jogados vários metros para o alto e caíram como frutas podres. Dizzy também estava incomodada. Esperava ver o turbilhão que ela criou ardendo em um tornado de fogo, mas parecia que aquelas chamas fantasmagóricas não incendiariam absolutamente nada. O grito de Bolt chamou sua atenção, ela se virou e conjurou um raio, que atingiu em cheio a cabeça do elfo, que implodiu carbonizado, mas não sem antes ferir o ombro direito de Bolt. Dizzy correu para junto de seu amigo e o amparou.
- Você está bem?
- Sim, foi só um arranhão superficial. O que mais me incomoda são estes cajados... Imaginei que inflamariam nossas magias, mas só o que vejo são magias normais! Como pode? Já tentei tudo que veio a minha mente, mas... CUIDADO!
Um elfo pulou por cima de uma barraca brandindo uma adaga de osso. Bolt precisava admitir, mesmo na estranheza de serem rústicos e quase irracionais, ainda eram elfos. O inimigo caiu ágil no chão, agachado, e girando sua perna esticada, derrubou os dois pagãos. Outros quatro elfos já estavam preparados para quando eles caíssem.
Bolt não deixou de perceber "parecem animais, mas não são. Estão lutando de modo tático. Estavam nos encurralando e conseguiram nos cercar. E agora?".
Dizzy e Bolt caíram de costas no chão e perderam o fôlego. Com enorme rapidez, o elfo bestializado se jogou por sobre Dizzy, sua adaga de osso em direção ao pescoço da pagã. Os outros elfos também pularam sobre os dois. Bolt clamou pela Deusa, e durante algum tempo que não se sabe quanto, tudo paralisou, e Bolt se viu em um lugar escuro onde havia apenas um foco de luz sobre ele. A doce e sutil voz de sua mãe tocou seus ouvidos.
- Meu querido filho, por que está tão tenso?
- Mãe, preciso de ajuda. Nossos novos cajados não funcionam como achamos que funcionariam. Estamos numa enrascada. Ajude-nos!
- Meu filho, você está tentando entender uma arma que não deve ser compreendida, apenas sentida. Não tente entender a chama fantasma, apenas a sinta! Deixe a raiva queimar em seu peito, sinta o fogo do ódio e canalize por seu cajado. Sei que você é capaz.
- Obrigado pelo conselho mãe, mas talvez seja tarde. Os elfos nos cercaram.
- Vá meu filho, experimente seu cajado. Vou ver o que posso fazer. – Soou a voz com uma risadinha.
A risada venenosa e a voz falsa de sua mãe não o incomodavam como incomodavam a Spark. Para ser sincero, era essa habilidade de tolerar e ignorar que davam a Bolt a vantagem de ser ajudado pela Deusa sempre que precisava. Ele abriu os olhos. Dois elfos estavam parados em pleno ar acima de sua cabeça com adagas em punho. O elfo que os derrubara estava sobre Dizzy, com a adaga pausada no ar a centímetros de sua garganta. Outros dois elfos estavam congelados em uma corrida em sua direção.
"O tempo congelou. Só eu consigo me movimentar... Útil!" pensou Bolt.
Levantou-se, e pensou em conjurar um feitiço, mas lembrou que Dizzy seria atingida, então puxou a pagã de sob o elfo e a arrastou até o meio do acampamento paralisado no tempo. Mas nesse momento, tudo voltou a se mover. Bolt sentiu vento em seu rosto, virou-se a tempo de ver as expressões de espanto dos elfos ao cravarem suas adagas no chão de terra aonde era para haver dois vails caídos. Dizzy pulou assustada. Ela também não esperava ainda estar respirando. Levou a mão à garganta para ver se continuava intacta e passou a mãos pelos cabelos castanhos bagunçados. Pensou em perguntar a Bolt o que aconteceu, mas ao ver o rosto de concentração do pagão, ela parou de boca semiaberta. Sem abrir os olhos, Bolt falou para ela calmo e direto.
- Dizzy, me consiga alguns segundos, por favor.
Tomando a frente, Dizzy conjurou grossas raízes do chão, mas os elfos eram velozes, e saltaram quando as raízes brotaram. Era exatamente o que ela esperava que fizessem. Sorrindo por seu rápido plano dar certo, concentrou sua força no solo, e com um grande tremor, fissurou o chão sólido onde os elfos cairiam. Ao pousar no chão, perderam o equilíbrio e desabaram nos buracos e rachaduras que a pagã tinha aberto.
Foi tempo o suficiente.
Bolt já começava a sentir sua raiva canalizar através de seu cajado, e então sentiu o calor das chamas fantasmagóricas. Concentrou-se no ar e o dobrou em enorme tornado. Mas, desta vez, para assombro dos dois pagãos, e talvez um rápido assombro maior dos elfos, o turbilhão gerado ardeu com fogo fantasma, e o grande tornado de chamas engoliu os elfos, as adagas, as barracas, a vegetação e o que mais conseguiu atingir. Bolt sentiu uma fadiga instantânea. Mas estava com enorme satisfação. Seu cajado funcionara. Suas magias agora estavam mais poderosas do que nunca. Ensinou Dizzy como fazer funcionar a chama do cajado, e ela rapidamente o dominou. Descansaram alguns minutos no campo de batalha deserto e em chamas, e então partiram.
O sol ainda queimava forte no céu. Era meado de uma tarde quente. A pior parte para Spark era ouvir relatos dos erros dele próprio. Mas não havia escolha. Ele também era do conselho, vice-líder, também tinha sua parcela de culpa. Omissão. Foi o que ele mais ouviu sobre suas falhas.
"Mas não mais! Ahh meu amigo, não mais!" pensou ele.
Sobre Thews foram as mesmas reclamações... Omissão. Mas a reclamação comum da maioria com quem falou era sobre a falta de paciência e de compreensão de Lehti. Mas, naquele momento, a caminho de casa e refletindo sobre o assunto, não era a atitude descontrolada de Lehti que o incomodava, mas sim Thews não tomar uma atitude.
Chegou a Starfumos e passou apressado para casa, mas, seu caminho foi interceptado por Silly. Ela o olhou bem daquele modo típico, arrogante e delicado ao mesmo tempo, e disse com seu típico tom de voz provocante e debochado, fazendo biquinho.
- Onde você estava demente, estou atrás de você desde cedo!
Ele apenas sorriu. E ela sorriu de volta. O assassino balançou a cabeça e disse.
- Pobre garota, desde quando devo satisfação a você?
- Ahh cale a boca! – Respondeu a amiga virando o rosto.
- Só brincando. Estava juntando umas informações sobre os problemas da guilda.
- Trate de me contar tudo!
- Sim claro, mas, o que queria comigo?
- Encontrei Bolt e Dizzy perto de Arena, e ele me disse que você tinha ido juntar depoimentos para apresentar na reunião.
- É... Consegui bastante coisa. – Disse Spark soltando a presilha do peitoral da armadura enquanto andava até a porta de casa.
- Algo contra mim? – Silly perguntou curiosa seguindo atrás.
- Até que não. Nem contra você, nem contra Bolt, e nem contra Maximo. Os únicos mencionados fomos eu, Thews e Lehti.
- Ahh, por falar no Maximo e na Lehti... Soube de uma coisa bacaninha sobre os dois. – A pagã suprimiu um riso malicioso com a mão.
- Sei que você vai me contar, querendo eu ouvir ou não, não é!? Então vamos entrar, me fale sobre isso e eu te conto tudo que ouvi hoje. E se demorarmos um pouco, talvez Bolt consiga ouvir também e eu não precise repetir para ele.
Os dois se acomodaram na pequena sala da casa dos dois irmãos, e Silly começou a contar a sua novidade enquanto Spark retirava as grevas e as botas.
- Parece, ouvi dizer, que Maximo e Lehti estão... Como posso explicar?
- Eu que vou saber? Se você que sabe a notícia não sabe explicar, imagine eu que nem sei a notícia!
- Eles estão... Juntos. Sabe, acho que há um romance.
- Nunca os vi juntos. E além do mais, ela, uma vail... Ele um nordein... Maximo tem o maior intelecto que já vi dentre os nordein, mas uma vail se apaixonar por um nordein... Não entendo muito. Sabe, tem a diferença de tamanho, e de cultura, e tudo o mais. – Spark coçou a cabeça e tirou os cabelos claros do rosto.
- Você que é um idiota e não entende nada! Meu pai e minha mãe também não eram da mesma raça. Não há nada de mais nisso, e acontece mais do que você imagina! Quero só ver o dia que você se apaixonar por uma nordein e pagar sua língua. – Silly cruzou os braços, possessa.
Mas passos familiares chamaram a atenção de Spark. E então Bolt, seguido por Thews entraram na pequena casa. Thews fez um cumprimento com a cabeça, e Spark e Silly cumprimentaram da mesma forma. Spark olhou de relance para Bolt. Queria ter tido tempo de conversar com o irmão antes de falar com Thews. Nessas horas, Bolt sempre sabia o que fazer. Thews pigarreou e, com sua voz de trovão, iniciou a conversa.
- Fiquei sabendo do que houve em Aidion. Que bom que estão vivos. Vocês nos preocuparam. Procuramos por vocês, mas ninguém soube nos explicar onde estavam. Houve uma reunião do conselho, e vim repassá-la para você.
Mas Spark o interrompeu com um aceno de mão.
- Antes preciso te dizer umas coisas.
- OK, diga.
- Melhor se sentar.
