O final de semana transcorreu normalmente. O Templo das Bacantes, como qualquer casa recém-inaugurada, teve dois dias de lotação absoluta e, mesmo com as duas joias da casa afastadas por "acidentes de trabalho", a procura pelas amazonas e as meninas recém-chegadas trazidas por Milo, fora grande.
Saga tinha um sorriso indelével no rosto. O lucro de seu primeiro final de semana como mega empresário havia ultrapassado suas expectativas e, mesmo ainda muito irritado com seu acidente recente, o qual lhe mantinha inválido até o presente momento, conseguia comemorar brindando o sucesso de seu negócio no balcão do bar, junto a Aldebaran.
Já era quase final de noite. No salão apenas restavam os mais boêmios, ou os que ainda não conseguiram curar a bebedeira a tempo de voltar para casa.
— É, patrão. Se a casa continuar faturando assim, sabe que a gente para de comer arroz com ovo e passa a comer picanha na brasa! — disse o brasileiro soltando uma gargalhada, enquanto se servia de outra dose de cachaça.
— Que Atena te ouça, Touro! — respondeu o geminiano dando um gole em sua dose de Absinto — Ah, falando em comida... Essa semana é seu aniversário, não é mesmo? — completou o Grande Mestre, dando uma piscadela sugestiva ao taurino — E então? Vai sair aquele churrasco brasileiro de costume?
— Hum... mas é lógico! Ou tu acha que algum aniversário meu passa em branco? Nem que eu faça um churrasco com patinha de galinha, mas um churras maroto tem que rolar. Com um pagodinho, umas gatas sambando... Por sinal, levar as calcinhas para a festa eu deixo por tua conta. E quanto aos comes, esse ano vai ser regado! É pra tirar a barriga da miséria mesmo. Tô pensando em fazer umas paradas mais pesadas, só para os fortes!
— Ah, é? E o que seria?
— Surpresa! Vai preparando o teu bucho! E vai ter muita cerveja e caipirinha para desentalar tudo isso ai.
— Que os deuses nos protejam! — disse Saga rindo.
— Ah, sabe como é, patrão. Também sou filho de deus. Eu tenho meu direito de enfiar o pé na jaca pelo menos uma vez por ano.
Os dois caíram na risada e com um ultimo brinde se despediram para se encontrarem novamente na quinta-feira, no dia da festa de aniversário de Aldebaran.
E eis que o dia da festança chegou!
Em Peixes, Afrodite estava eufórico. Adorava uma festa e as de Touro, sendo regadas sempre a ótimos petiscos, bebidas típicas, sacanagem à lá brasileira e música barulhenta eram as melhores!
Armou-se com um figurino que para ele era tinha tudo a ver com o Brasil, composto por um micro short jeans e camiseta regata soltinha e cavada. Escovou bem os cabelos, meteu uma bota cano curto nos pés, marcou os olhos azuis com delineador, enfiou tudo que tinha de pulseiras em ambos os pulsos e partiu em polvorosa para a festa, mas não sem antes passar em sua estufa e apanhar um vasinho de porcelana sueca, no qual cultivou por meses uma rosa especial para o brasileiro, que quando floresceu naquela manhã era grande e robusta como o aniversariante.
Feliz da vida com seu presente em mãos, Afrodite descia as escadarias descontraído.
Quando passou por Aquário, deu um suspiro baixinho. Sentiu o cosmo do cavaleiro de gelo ali, que deveria ter vindo para o Santuário apenas para a festa de Touro. Não o via desde seu encontro inusitado na noite de estreia do Templo e não sabia como seria vê-lo após terem feito sexo.
Já de dentro da décima primeira casa, Camus terminava de se arrumar quando sentiu o cosmo de Peixes. Como esperava, Afrodite não pediu permissão para passar, nem aumentara seu cosmo para provoca-lo. Na certa o sueco tinha entendido bem o recado e aceitado sua condição de esquecer o ocorrido. Era melhor assim. Não teria mais problemas com ele e tudo voltaria a ser como antes. Apagaria solenemente de sua vida a noite que passara com Afrodite, não permitindo que um fato tão banal estragasse tudo que construiu para si, e para sua imagem.
Pensando assim, Camus esperou que Peixes se afastasse e, então respirou aliviado. Terminou de vestir uma calça de algodão branca, deixando a barra levemente dobrada, abotoou a camisa e nos pés colocou um chinelo de couro, já que era um almoço a beira da piscina. Apanhou a garrafa de vodca que trouxera da Rússia pra o amigo brasileiro e antes de sair fez uma ligação para seu braço direito na máfia, Ivan Ivanovenko, para passar umas instruções antes de sair.
Já Afrodite continuou descendo as escadas até parar em frente à Casa de Escorpião, onde deu um grito.
— Milooooo! Tô entrando, pára tudo!
Abriu a porta da sala sem cerimônia alguma, como se morasse ali, e deu de cara com Escorpião ainda com os cabelos molhados e uma toalha vermelha enrolada na cintura.
— Por Dadá! Será possível que você não tem roupa? Está sempre pelado ou de toalha! — repreendeu o amigo, entrando na sala e parando em frente a ele, que tomava uma cerveja despreocupado — E por que ainda está assim? Até eu consegui ficar pronto a tempo hoje!
— Tava procurando uns discos que tô querendo tocá hoje. Mas não acho de jeito nenhum! – disse Milo, que era sempre o DJ oficial das festas do brasileiro, por ser apreciador assíduo da batida quente latino americana.
— Ai também pudera! Nesse seu cafofo alofento* me admira muito você achar alguma coisa.
— Até parece que não te conheço, Fro Fro. Sei que tu é chegado no meu cheiro de macho! — disse Milo rindo.
— Se toca, Milo! E anda, vai se trocar. — retrucou Afrodite se jogando no sofá, cruzando as pernas e fazendo uma enorme bola com o chiclete que mascava — E ai? Não disse o que achou do meu modelito!
Escorpião colocou dois dedos no queixo e o observou o pisciano. Tinha que admitir, mesmo não gostando da fruta, que pernas e que coxas torneadas e roliças ele tinha! Imaginou ele em uma pista de dança de um baile funk típico carioca, lotado. As pessoas certamente se acotovelariam para vê-lo dançar. De súbito, ouviu um estalar de dedos e voltou à realidade.
— Ei! Acorda, Alice! — o sueco chamou sua atenção.
— Ah, mano. Eu tava te reparando pô! Cê não tá nada mal, Fro Fro. Mas falta um detalhe!
— E qual seria, gênio? Se for juízo nem adianta. Já nasci sem!
— Isso geral sabe! — respondeu Milo rindo — Vou me trocar. Guenta ai! Já volto com o seu detalhe!
Escorpião não demorou nada. A vida para ele era muito prática e logo voltou vestindo uma bermuda azul marinho, camisa polo verde, chinelos e suas inseparáveis correntes douradas no pescoço com pingentes que mais pareciam calotas de carros. Nas mãos trazia um boné aba reta rosa pink com detalhes em dourado.
— Toma. Era isso que faltava para ficar maneiro! — disse Milo, colocando o boné no topo da cabeça de Afrodite, bem acima das orelhas, o deixando mais alto pelo menos uns dez centímetros.
— Um boné alofento? Cruzes! — respondeu o pisciano se levantando do sofá e ajeitando o boné na cabeça.
— Mas é lógico! É uma festa brasileira, regada a funk, samba, pagode e muita sacanagem! — falou o grego dando um cutucão com o cotovelo no braço de Afrodite — Anda, Fro. Me ajuda a procurar os discos.
Afrodite fez um muxoxo, mas foi ajudar Milo a procurar os benditos discos.
Enquanto isso, na casa do aniversariante, Aldebaran estava agitadíssimo. Tinha preparado quase tudo, os comes, os bebes, deu aquela limpada na piscina, ajudou Milo, que esteve por lá logo pela manhã para montar a mesa de som e agora estava acendendo a churrasqueira quando Mu chegou e lhe deu um tapão nas costas.
— E ai, Debão? Nossa... que cheiro bom! Já vi que hoje vou tirar a barriga da miséria!
— Salve, Mu! — respondeu o taurino sorridente — Pois vai comer a melhor feijoada e churrascada da tua vida!
— É, mas... me parece que... tem algo queimando... — falou o lemuriano franzindo o nariz.
Imediatamente Aldebaran arqueou as grossas sobrancelhas e olhou para Mu em espanto.
— Ai minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Esqueci o mocotó no fogo! Guenta ai, Mu! Já volto! — gritou, já correndo para a cozinha de Touro.
Áries balançou a cabeça ainda rindo. Touro era todo enrolado, mas era um homem de um coração tão grande quanto seu tamanho.
— Ok, Deba. Fiquei á vontade! Eu vou subir até Virgem para apressar o Shaka. Sei que aquele lá é bem capaz de não vir se alguém não o tirar do casulo dele. — e esse alguém tinha que ser ele, óbvio.
Enquanto Mu subia as escadarias, cruzou com Shura e Máscara da Morte que desciam batendo papo. Sentia-se ainda meio constrangido perto deles depois que compraram-lhe uma noite com Marin, para que perdesse a virgindade, mas mesmo assim os cumprimentou cordialmente com um sorriso aberto no rosto e seguiu subindo as escadas.
Quando a dupla chegou em Touro logo foram cumprimentar Aldebaran que acabava de acender a churrasqueira. Deram-se um abraço triplo com muitos tapinhas nas costas, mas Touro e Câncer sempre fugindo da mão cortante do capricorniano.
Aldebaran recebeu os presentes com muito entusiasmo, afinal não era todo dia que se ganhava uma legítima espada de touradas e uma Magnum 44, feita pela Smith & Wesson, edição limitada com cabo em madrepérola e estojo em marfim. Realmente Máscara da Morte e Shura sabiam bem o que enchia os olhos dos homens!
Mesmo que não fosse usar nada daquilo, os guardaria com muito orgulho, assim como a escultura em bronze e ouro de um touro que Mu fizera para si.
Quase na mesma hora, Camus chegava à festa. O francês cumprimentou cordialmente os outros dois cavaleiros e então estendeu a mão ao anfitrião lhe parabenizando.
— Parabéns, meu caro Aldebaran. Trouxe-lhe uma vodca legitimamente russa. Da melhor qualidade! Espero que goste.
— Opa! Birita é sempre bem vinda! — agradeceu o brasileiro com um sorriso, dando um tapinha nas contas do francês e pegando em seguida a garrafa que lhe era presenteada — Valeu por ter vindo!
Camus se encolheu todo devido aquele contato tão desnecessário, mas não o repeliu. Detestava ser tocado, mas era um dia de festa e não ia criar caso.
— Oui... Oui...
— Vou preparar uma caipirinha no capricho para você. Vem. — falou, puxando o francês para o bar improvisado ao lado da churrasqueira.
Enquanto Aldebaran preparava a bebida, mais convidados chegavam à festa.
Saga, muito elegante dentro um traje de verão composto de bermuda preta, camisa branca, chinelos e óculos escuros, vinha todo sorridente e satisfeito, acompanhado por Geisty e Shina. A morena deslumbrante dentro de um minúsculo biquíni amarelo, que contrastava divinamente com seu tom de pele caribenho, canga transparente amarada na cintura, cabelos presos em uma trança jogada ao lado de um dos ombros e sandália de saltos altíssimos.
Shina vinha logo atrás. Também trajava biquíni, mas vestia um short jeans por cima e acenava toda sorridente para Shura e Máscara da Morte, já indo de encontro a eles com seu típico ar extrovertido.
Naquela manhã Saga havia tido certo trabalho para convencer a amazona de Serpente a ir à festa de Touro. Geisty ainda estava muito abalada, para não dizer puta da vida, com tudo que havia lhe acontecido desde a estreia do empreendimento de Gêmeos que a tinha como atração principal. As marcas que Camus lhe deixara no rosto já haviam desaparecido, mas as marcas que Saga havia deixado em seu orgulho, essas ela ainda trazia vivas em sua alma. Por isso, na manhã da festa, Geisty estava decidida a ficar em seu quarto. No entanto, seus planos não foram bem sucedidos, já que Gêmeos usou de todas suas artimanhas para convencê-la e, por fim, conseguiu arrastar a moça, mesmo a contragosto, consigo à festa. Nada daquilo teria o mesmo sentido sem ela. Não agora que a tinha sob seu domínio.
De braços dados a ela, Saga se aproximou de Aldebaran e lhe cumprimentou com um abraço.
— Meus parabéns, Touro!
— Ah, mas você é muito soberbo mesmo, seu filho da puta! — disse o brasileiro dando uma piscadinha pra Geisty — Obrigado! Mas trouxe uma beldade só para você?
— Claro que não! — falou Saga, percebendo o olhar de cobiça que Aldebaran lançava para a amazona, que também olhava pra Touro, mas com cara de poucos amigos — Toma. — o geminiano enfiou a mão no bolso da bermuda e dele tirou um envelope, que mais parecia um convite — Seu presente. Uma noite inteira no meu bordel, no quarto mais luxuoso e com a bacante que você escolher! Salvo algumas exceções. — se corrigindo rapidamente.
— Ah, fera! Pode ter certeza que vou fazer bom uso da minha cortesia! — disse Touro soltando uma sonora gargalhada.
— Sei que vai! Mas e ai? Quais as iguarias brasileiras que você vai nos oferecer hoje? — disse o geminiano já sentindo o cheiro delicioso do churrasco enquanto corria os olhos ansiosos pelo local.
— Cara, tem muita raça de comida! Tem mocotó, feijoada gorda, churrasco completo... Tem cerveja, caipirinha... Aqui com o Dedão não tem miserinha não! E tem piscina, princesa. Pode dar um mergulho... — falou sorrindo matreiro, enquanto balançava as sobrancelhas conseguindo arrancar um sorriso de Geisty.
— Huumm... Pode ter certeza que vou dar sim, Aldebaran... um mergulho. — disse por fim a amazona, lhe estendendo a mão para cumprimenta-lo – Feliz aniversário!
Após os cumprimentos, Saga seguiu com Geisty até o balcão onde ficavam as bebidas, enquanto Touro ficou a observá-los. Ao reparar no andar languido da amazona, disse suspirante para si mesmo:
— Minha Nossa Senhora, Saga... Tu que é um cara de sorte! Que rabeta!
— Hum, rabeta? Quero! — disse de repente uma voz manhosa, e ao mesmo tempo Aldebaran deu um pulo para frente ao sentir um beliscão em suas nádegas.
— Eeeei! Tinha que ser tu, né Afrodite! — falou o brasileiro ao se virar para frente e dar de cara com o cavaleiro de Peixes todo sorridente para si. Nem teve tempo de mais nada antes de ser agarrado e puxando para baixo para ganhar um beijo estalado na bochecha.
— Parabéns, Touro chifrudo! Que seus dotes tenham potência por muitos anos! Toma seu presente. — entregou o vasinho com a rosa para o brasileiro.
— Ah, valeu, Afrodite! Que Deus te ouça! Que rosa linda! — respondeu sorrindo, já esticando a outra mão para cumprimentar exageradamente Milo que chegava ali com vários discos de vinil debaixo do braço.
— Fala Deba! Vamos por esse barraco para ferver?
— Fala, tu, moleque! Demorou, heim Milo! — disse Aldebaran indo colocar o vasinho com a rosa dentro de sua cozinha, enquanto Escorpião já caminhava pra a mesa de som acompanhando por Afrodite que lhe ajudava com os discos.
Depois que organizaram a playlist, Afrodite virou o boné para trás e correu os olhos pelo perímetro. Procurava alguém em especial e o encontrou no balcão do bar ao lado de Saga, que agora estava sozinho, pois Geisty, assim que vira Camus ali, fechou o semblante e deu meio volta, indo se juntar a Shina, Shura e Máscara da Morte na piscina.
Já Afrodite parecia mais interessado do que deveria no ruivo e só de vê-lo ali, seus lábios carnudos e perfeitamente delineados pela mãe Natureza já se curvaram pra cima num esboço de sorriso de satisfação.
— Acho que vou pegar uma bebida, Milo. — disse o pisciano, ajeitando os cabelos para trás das costas — Coloca aquela música que os brasileiros dançam com uma garrafa debaixo da bunda.
— Essa já tá na lista, Fro. Quero só ver você dançar na boca da garrafa! — falou o Escorpião, enquanto Afrodite lhe dava uma piscadinha e já cruzava o jardim em direção ao bar improvisado.
Peixes nem sabia que o clima ali estava bem pesado, já que Saga resolvera dar um ultimato ao francês, acerca do que acontecera à Geisty no dia da estreia.
— Eu só não te esfolo vivo, Camus, e não o mando pra outra dimensão... — dizia Gêmeos quando fora interrompido por Aquário.
— Porque ela é uma puta, Saga. E quem delegou essa função a ela foi você. — disse Camus com sua postura calma e irresoluta — Além do mais, eu paguei por ela. — concluiu, mas quando percebeu Afrodite passar a seu lado e esbarrar propositalmente o braço no seu, Camus ficou calado. Ainda tinha umas verdades a dizer ao geminiano, mas tudo que conseguia fazer era um esforço faraônico para tentar manter seu cérebro concentrado na voz de Saga e não na bunda de Afrodite, que naquele exato momento estava colada à sua, enquanto o pisciano se abaixava para pegar as latinhas de cerveja que estavam na parte mais baixa do freezer — "Merde! O que esse viado pensa que está fazendo?" — pensava, com os olhos fixos em Saga. Via a boca do grego se mexer, mas pouco absorvia de sua fala.
— Mas isso não te dá o direito de agredir as minhas funcionarias. Olha, Camus, a ordem é clara e a darei só uma vez. Não quero você, nem seus russos, tocando num fio de cabelo que for da Geisty. Não vou permitir uma afronta dessas no meu estabelecimento e bem debaixo do meu nariz. — dizia Saga de maneira firme, e olhar raivoso direcionado ao francês que lhe encarava meio apreensivo.
Recado dado, Saga nem esperou uma resposta e deixou o bar a passos firmes, dando as costas a Camus e Afrodite, que ficaram sozinhos por poucos momentos. Nessa hora, o aquariano aproveitou para se virar para Peixes e se afastar o máximo que pudesse dele. Não podia acreditar na audácia do outro em flertar consigo ali, no meio de todo mundo.
— Mas que merde pensa que está fazendo, Peixes? — sussurrou, o fuzilando com o olhar.
— Quem? Eu? Vim pegar uma cerveja. — respondeu Afrodite, devolvendo um sorriso ao mesmo tempo sínico e arrasador ao aquariano, que já sentia os dedos formigarem de raiva.
Não deixaria Afrodite fazer aquilo consigo. Em sua cabeça tinha deixado claro que a noite que passaram juntos nada tinha significado para si e que deveria ser esquecida pelo outro, mas parecia que Afrodite não entendera bem o recado. Teria que refrescar sua memoria.
Sendo assim, Camus suspirou e muito discretamente deu um gole da bebida enquanto saia de perto de Afrodite, mas antes olhou para ele e disse, com a lata quase colada aos lábios.
— Me encontre na parte nos fundos do Templo de Touro, dentro de dez minutos. Seja discreto.
Dito isso, Camus deixou o bar e seguiu até a mesa de som para cumprimentar Milo. Não via o Escorpião há tempos e mesmo que não tivessem nenhuma afinidade, ainda assim eram muito amigos. Só teria que esperar dar o tempo e a oportunidade certa para sair dali sem ser notado por ninguém.
Já Afrodite, no bar, acompanhava o aquariano com os olhos brilhantes e o ego em festa.
— Hum... Mais rápido do que pensei, heim, Camy, seu viado safado! — sussurrou para si mesmo, pegando a direção oposta e indo até a piscina cumprimentar os outros cavaleiros.
Enquanto isso, três casas acima, no Templo de Virgem, Mu tentava convencer Shaka a descer para a festa.
O cavaleiro de Virgem se abstinha de participar de quaisquer comemorações com seus colegas desde que Saga usurpara o trono e Mu se mudara em definitivo para Jamiel. Acostumado a ignorar a existência deles, Shaka se mantinha sentado em sua lótus em pose de meditação, enquanto Mu tentava mover a montanha.
— Vamos, Sha. Vai ser legal. — insistia.
— O que vou fazer nessa festa mundana, Mu? Para que devo ir a um lugar onde sei que ninguém preza pela minha presença? — dizia Virgem, de olhos fechados e rosto sério. Na verdade não queria ir também porque não sabia com que cara cumprimentaria Aldebaran depois de ter usado o telhado da casa dele para práticas mundanas.
— Eu prezo pela sua presença, Shaka de Virgem. Poxa, é a primeira festa desde que voltei a morar no Santuário e você, meu melhor amigo, não estará presente? — dizia Mu cruzando os braços — Vamos, por favor, vai ser legal. E depois, vai te fazer bem socializar um pouco, conversar, se distrair... Eu até ajudei o Deba na cozinha e preparei uns quitutes vegetarianos para você. Não garanto que estejam lá grandes coisas, mas...
Shaka ficou surpreso com a atitude de Mu. De todos ali, ele sempre fora o único que fazia questão de sua presença e demonstrava isso não só com palavras, mas com atitudes. Como agora, em que teve todo o cuidado em lhe preparar algo para comer na festa de Aldebaran, já que sabia que sua dieta era bem diferente dos demais cavaleiros. Diante de tudo isso, Shaka não tinha como negar o pedido do ariano, então desfez sua postura meditativa, descruzando as pernas e levitando para fora da lótus, até parar de frente para Mu.
— Algo me diz que eu não deveria ir, mas... Vou pelos quitutes vegetarianos e não pelas conversas. — disse fazendo charme, pois na verdade iria pelo cavaleiro de Áries.
Nenhum quitute ou socialização lhe poderiam ser mais prazerosos que estar na companhia de Mu.
Por isso, Shaka entrou em sua casa, substituiu a túnica budista por um traje mais civil, calça de algodão cru, camisa branca com mangas dobradas e um lenço indiano em torno do pescoço, o qual deixava as pontas caídas em paralelo sobre o tronco. Passou a mão em uma mandala que tinha pendurada na janela de seu quarto, a qual lhe atribuíra a função de afastar os espíritos famintos, juntou com alguns incensos e com a ajuda de Mu fizeram um embrulho.
Sentia-se estranho, porém estar ao lado de Áries era mais satisfatório que qualquer mal estar que seus colegas devassos pudessem lhe causar — "O que custa, né Buda? É só uma festa de aniversário. O que pode acontecer de ruim?" — pensava, pois fazer o social não era com ele. — "Então para que ir?"
A resposta o aguardava na porta do quarto o observando com olhos vidrados, enquanto ele penteava os longos cabelos.
Shaka então guardou a escova dentro da gaveta da penteadeira e se voltou a Mu, caminhando até ele de olhos fechados.
— Pronto, senhor Áries. Vamos enfrentar os leões! Já que não tem outro jeito.
— Os leões não, senhor Virgem, o Touro! Olééé! — disse Mu numa empolgação de dar inveja e imitando um toureiro, pegou no braço de Shaka e o puxou dali as pressas, antes que ele pudesse mudar de ideia.
Quando estavam descendo as escadarias de Câncer, encontraram com Aiolia que ia para Touro a passos lentos. O semblante de Leão era meio desanimado e cabisbaixo e não passou despercebido por Mu, que logo se aproximou dele lhe dando um tapinha no ombro.
— Que desanimo é esse, Olia? Parece que está indo para um enterro e não a uma festa. — disse Mu rindo.
Aiolia ergueu a cabeça para olhar o lemuriano e percebeu que Shaka estava logo atrás deles.
— Puxa! Até sua divindade, o Buda! Que milagre te fez sair de casa e se juntar aos pobres mortais, Shaka? — falou o leonino, dando uma risada sem graça para o loiro.
— Cuida da sua vida, Aiolia. — respondeu Virgem em tom austero.
— Eeeei, vocês dois não vão começar, né? — disse Mu se colocando no meio — Qual o problema, Aiolia? Sua aura está escura, triste. Há algo errado?
— Você deveria saber melhor que ninguém, né, cavaleiro de Áries? Claro que há algo errado. Eu deveria estar agora com a Marin, mas ela não fala comigo há dias, desde... desde... desde a maldita noite da estreia daquela pocilga. Você transou com a garota que eu gosto, seu idiota. — disse o leonino em tom exacerbado, já encarando Mu com um olhar nada amigável, quando Shaka, sem querer, acabou com o dilema que se iniciava ali.
— Não, ele não transou. — disse Virgem simplesmente.
— Shakaaa! — Mu deu um grito, pois era um segredo dele com Marin, como fora combinado.
— Como é que é? — Aiolia novamente se voltava para Mu, agora o encarando nos olhos com curiosidade e espanto — Você... você não transou com a Marin?
— Zeus! O que faço com você? — suspirou Mu, enquanto olhava para Shaka desanimado, depois encarou Aiolia e disse em tom de voz mais baixo — Não, Olia. Eu não transei com a Marin, mas ela me pediu para confirmar que sim, ou o Saga poderia castiga-la. Mas, por favor, depois falamos sobre isso. Era para ser segredo.
— Mas... por que ela não me disse nada? Por que ela não fala comigo? — dizia Aiolia transtornado, mas ao mesmo tempo feliz de certa forma.
— Ah, por Buda! Eu saí de casa para ir a uma festa e não para ficar batendo boca na escadaria desse necrotério. — disse Shaka se referindo à casa de Câncer, e em seguida desceu os degraus e apanhou Mu pela mão – Aiolia, Marin está na festa, então por que não pergunta diretamente a ela por que ela não fala com você?
— Pois é isso mesmo que eu vou fazer. — disse Leão, passando pelos dois cavaleiros feito um bólido. Aquela novidade tinha mexido com seus brios e renovado suas esperanças. Naquele dia tinha que se acertar com Marin, ou enlouqueceria.
Assim que entrou em Touro, Aiolia percorreu todo o recinto a procura da amazona ruiva, a encontrando sentada à beira da piscina ao lado de Shina e Shura. Como era de se esperar toda sua bravura virou fumaça e se dissipou assim que colocou os olhos verdes nela. — "Mas que merda!" — pensou desapontado consigo mesmo por não ter coragem de ir falar com ela. Então caminhou as pressas até o bar, pegou uma jarra grande de caipirinha e encheu o copo, pedindo às bênçãos do álcool que lhe devolvessem sua coragem!
Enquanto isso, na piscina, Saga retirava a camisa e os chinelos e ia se sentar na borda ao lado de Geisty. A amazona, que estava dentro da água, mas com os braços sobre a borda, segurava um drink todo colorido entre os dedos e parecia imersa em seus pensamentos. Com o olhar perdido no vazio, ela analisava sua atual situação ali pela enésima vez, e não notara quando o geminiano se colocara a seu lado, sendo desperta apenas quando ouviu sua voz grave em tom baixo.
— Está boa a água? — perguntou.
— Hum... razoável. Não é o mar do Caribe, mas dá para aproveitar. — alfinetou a morena sem olhar para ele, dando um gole em seu drink.
Saga então colocou seu copo na borda e mergulhou, emergindo logo em seguida ao lado dela. Chacoalhou os cabelos para tirar o excesso de água e se colocou na mesma posição em que ela estava.
— Sei que sente saudades do Caribe, mas pode ser feliz aqui na Grécia também. — falou Gêmeos, enquanto olhava Shina puxar Marin e Shura para irem dançar. Ao longe, na mesa de som, Milo balançava os braços e assoviava num convite aos colegas para curtirem a música.
— Ser feliz? Aqui? Vivendo em um bordel como prostituta?... Eu acho que não! — disse a amazona em tom ríspido olhando diretamente nos olhos do grego de forma severa — E antes que eu te mande para puta que o pariu, Saga, vamos mudar de assunto? Me diga: Já melhorou da sua contusão? — disse com um risinho debochado.
Saga suspirou. Por que era sempre tão difícil conversar com aquela amazona? Não tirava sua razão, entendia perfeitamente porque ela se mantinha na defensiva, mas parece que toda tentativa sua acabava frustrada. Pegou o copo que deixara na borda da piscina e deu um gole generoso.
— Já sim. — respondeu com ar de indiferença, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ouviu Milo gritar o nome de Geisty lá da mesa de som, a chamando para se juntar a eles. Sentiu raiva, porém mais raiva lhe deu ao olhar para o lado e ver Geisty sorrindo e abanando a mão em resposta ao escorpiano.
— Que bom que já está curado, Saga. Isso significa que já posso começar a fugir de você! — disse debochada, tomando impulso para sair da pisciana. Sentou-se na borda e olhou para o geminiano — Com sua licença, chefe. Eu vou dançar com Milo. — completou, se levantando e indo apanhar a canga para amarrar na cintura e ir se juntar às amazonas que dançavam animadas no meio do jardim.
Saga franziu as sobrancelhas em descontentamento. Definitivamente a festa não tinha começado bem para si. Primeiro o bate boca com Camus, agora essa afronta de Geisty que teve a pachorra de lhe deixar sozinho para ir dançar com Milo, aquele maldito escorpião dos infernos.
Quando achou que não podia ficar pior, viu Mu chegando na festa acompanhado de ninguém mais ninguém menos que Shaka de Virgem.
— Não! O Buda de galocha aqui? — rosnou, praticamente fuzilando o loiro com o olhar, enquanto o via indo cumprimentar Aldebaran próximo ao bar — Eu não deveria ter saído da minha cama hoje! Caralho do Hades!
Ao oposto de Saga, Milo estava em um de seus melhores dias. Cercado de beldades como gostava, o escorpiano mexia nos mixers animando a galera com os hits da terra de Aldebaran. Esse por sinal, cheio de samba no pé, já vinha se juntar às amazonas com todo seu gingado, tirando Geisty para dançar, que não titubeou nem por um segundo. Não tinha o samba no pé nato de Touro, mas tinha todo um gingado caribenho que arrancava arrepios de um certo escorpiano.
Um pouco mais afastados, estavam Mu e Shaka. Áries foi buscar um drink para o amigo indiano, que observava Aiolia em toda sua pasmaceira olhando para Marin dançando com as amazonas. Viu quando a Águia avistou Mu e lhe abanou a mão animada. Olhou para Áries e o viu retribuir a saudação sorridente. Estranhamente sentiu-se incomodado, então coçou a garganta e cutucou Aiolia.
— Se não disser a ela que você não é um babaca, ela não vai adivinhar sozinha. — sussurrou Shaka. Não sabia por que, mas em sua cabeça algo lhe dizia que deveria manter Marin longe de Mu.
— Não pedi sua opinião. — falou o Leão, com a voz já meio pastosa depois de três copos de caipirinha.
— Eu acho que deveria tirar ela para dançar. Mesmo que essa música seja terrível. — continuou Shaka.
— Eu também acho! — falou por fim Aiolia, entregando seu copo vazio a Virgem e indo se juntar aos cavaleiros e amazonas que sacudiam o esqueleto na pista de dança improvisada.
Shaka então foi colocar o copo sobre o balcão e voltou para se sentar junto a Mu, que o chamava com dois coquetéis de frutas nas mãos.
— Toma, Sha. Experimenta. — falou Áries lhe entregando um dos copos.
— Eu não bebo. — respondeu Virgem em tom serio.
— Ah, eu sei, eu também não, mas isso nem é bebida de verdade. E está bem fraquinho. Anda, Shaka, relaxa. Isso é uma festa. — disse Mu, empurrando o copo contra ele até que o virginiano o pegasse, mesmo a contragosto.
— Bem, só esse. — respondeu Virgem dando um gole e constatando que era muito bom, ao contrario da música — Buda! Que barulheira! Como as mulheres brasileiras conseguem balançar o véu harmoniosamente nesse ritmo? — disse, enquanto olhava Shina e Máscara da Morte ensaiarem uns passos de funk. Estava incomodado com a música, com as danças libidinosas, com Marin de sorrisinhos para Mu e principalmente com a vaca sendo assada na brasa.
Longe dali, no entanto, outra pessoa além de Shaka e Saga, também tinha seus próprios motivos para se sentir bem incomodado na festa.
Camus esperava Afrodite no lugar combinado, atrás dos rochedos que ficavam ao fundo da casa de Touro. Estava apreensivo e nervoso, afinal tinha que dar um ultimato em Peixes e deixar claro, dessa vez, que não queria nenhuma aproximação com ele.
Olhou no relógio soltando uma lufada de ar ao constatar que Afrodite estava cinco minutos atrasado, mas ergueu a cabeça e se virou para trás quando sentiu, de repente, um aroma delicioso de rosas acariciar seu olfato. Então viu Peixes ali, parado, olhando para si. Tão lindo como nunca!
Camus sentiu sua vontade vacilar quando seus olhos se cruzaram com os dele e, numa espécie de transe, não conseguia se mover ao vê-lo caminhar até si lentamente, parando a poucos centímetros de distancia apenas.
— Bon jour, Camy? Já está com saudades? — disse Peixes com um sorriso.
Ao ouvir aquilo, Camus sentiu seu coração disparar. — "Camy?" — pensou injuriado. Que merda de apelido era aquele? Desde quando lhe dera intimidade para que lhe pusesse apelidos?... Na verdade havia lhe dado sim, e muito mais que intimidade!
Enraivecido consigo mesmo, Camus franziu a testa, olhou de forma severa para o pisciano e o agarrou pelo braço, o puxando com certa brutalidade para mais perto de si, até ficarem cara a cara, com os rostos quase colados.
— O que pensa que está fazendo, Peixes? Enlouqueceu? — rosnou as palavras como uma fera.
Afrodite por sua vez, assustou-se com o agarrão e também com o modo rude de Camus. Depois daquele beijo não imaginou que Aquário voltaria a lhe tratar com violência e, já se colocando na defensiva, ergueu o braço livre com o qual segurava uma lata de cerveja na mão e despejou um pouco do conteúdo na cabeça de Camus, que reagiu de imediato.
— Seu... seu viado de merda, eu vou te matar! — disse o aquariano chacoalhando Afrodite pelo braço, enquanto esfregava o rosto para se livrar do liquido que escorria pelas têmporas.
— Para um cavaleiro do gelo você está muito esquentadinho, prin-ce-si-nha do papai! — retrucou Afrodite, pronunciando as palavras finais pausadamente e encostando seus lábios nos de Camus ao mesmo tempo em que dobrava o joelho e passava a coxa no meio das pernas do aquariano — Mata nada, Camus, e larga meu braço agora, ou eu vou gritar, e todo mundo vai querer saber por que você está aqui atrás da casa do Touro me agarrando... E eu juro que vou adorar contar!
— Você... non seria louco de fazer isso, Peixes! — ditou Camus com o rosto trêmulo de raiva, rangendo os dentes e inconscientemente baixando a temperatura em torno deles.
— Não? Experimenta encostar um dedo em mim, sem que eu tenha permitido ou pedido, para você ver se eu não teria coragem! — disse Afrodite em tom ameaçador, encarando o ruivo nos olhos — Eu acabo com a sua reputação de hétero convicto em um segundo, princesa.
Camus perdeu a fala, mas não porque não tinha vontade e razão suficientes para enfrentar Afrodite, e sim porque o corpo do sueco colado ao seu e sua postura altiva, somadas às ameaças de humilhação que ele lhe fazia, jogaram Camus novamente naquele mesmo terreno misterioso de quando se entregara a Afrodite na noite de estreia do Templo das Bacantes. Ouvir o sueco lhe ameaçar, lhe humilhar o estava deixando excitado! — "NON! Por todos os deuses! De novo non! Non aqui!" — pensou em desespero quando sentiu uma pontada forte no baixo ventre.
— Você é louco por acaso, Camus? — a voz do sueco despertou o francês, que piscou algumas vezes e olhou em seus olhos — Me beijou daquele jeito, me disse aquela frase bonitinha e agora vai começar a me agredir de novo, como sempre fez? Ah, tá boa? — com um safanão se soltou da mão de Camus e vendo que ele não reagia, deu alguns passos à frente, forçando o aquariano a caminhar para trás até bater com as costas na parede de pedra, ficando prensado entre ela e seu corpo — Ou me trata como uma dama ou todo mundo vai ficar sabendo que o Mago do Gelo na verdade é Feiticeira! — concluiu num sussurro, dando uma lambida no queixo do ruivo para seu completo desespero.
— Aquele beijo non significou nada... Foi... Foi só um beijo. Você mesmo disse que o que fizemos non foi nada além de uma transa. — disse Camus meio gaguejando, enquanto tentava empurrar o pisciano, dessa fez com cuidado — Afrodite... eu... tenho uma reputação a zelar. Non posso... non posso ser visto com você. Entenda.
— Não, Camus, aquilo não foi só um beijo... — sussurrou Peixes, novamente empurrando Aquário contra a parede, mas dessa vez forçando seu quadril contra o dele, deixando claro que estava tão excitado quanto ele — E você sabe disso. Eu sei quando sou beijado com desejo... com paixão! — encostou seus lábios no pescoço de Camus lhe dando um beijo quente na pele suada.
— Afrodite, ponha algum juízo na sua cabeça. — gemia Aquário quase sem forças, lutando contra tudo que o impelia a agarrar aquele sueco atrevido e de fato lhe tomar novamente a boca num beijo há muito desejado — Eu sou o segundo no comando na Vory. Sou eu quem comanda todos os negócios dos russos com a Grécia...
— E dai? Eu não ligo... Eu quero você. — sussurrou Peixes encarando Camus nos olhos.
— Eu sou um símbolo para eles. Sou um modelo de líder e... tenho uma imagem a zelar... Você, como todo mundo, sabe que os russos tem verdadeira repulsa por homossexuais. Mesmo se quisesse, eu nunca poderia te tratar diferente. Entende? Você... Non pode falar comigo daquele jeito, merde! Faz ideia do que aconteceria non só a mim, mas a todo esse Santuário se descobrissem o que fizemos? S´il vous plaît, pense com a cabeça, Afrodite. Eu sou homem, non pode esperar nada de mim.
— Homem? Ora, eu também sou homem. — disse Peixes rindo, dando um gole na cerveja que sobrara na latinha.
— Non! Você é uma droga de uma bicha, Afrodite, e eu non posso me envolver com você. — falou Camus e na mesma hora levou uma cusparada de cerveja direto no rosto.
Porém nem teve tempo de reagir, pois Afrodite jogara a lata no chão e agora o segurava pelos ombros, o forçando a olhar para si enquanto falava em tom ríspido.
— A quem você quer enganar, Camus de Aquário? Você ficou assim mansinho agora, me dando explicações das quais eu já estou cansado de saber, porque eu descobri o seu segredo. O que não significa que vou sair por ai contando para todo mundo que você é uma bicha tarada e que gosta de se vestir de mulher. A menos que você me dê motivos para fazer isso, como está fazendo agora. Eu não admito mais que você me ofenda, está entendendo? Se me tratar feito uma rainha e não um pano de chão como sempre fez, o seu segredo estará bem seguro comigo, mon chèr! — aproximou o rosto do dele e lambeu a cerveja que escorria pelo queixo do francês — Hum... Você não é o primeiro que me pede para ser discreto, mas é o primeiro que não assume a própria boiolice!
— Eu... eu non gosto de me vestir de mulher, Afrodite. Por Atena, você entendeu tudo errado! — sussurrou Camus, sentindo a ereção de Peixes, assim como todo o corpo dele pressionar o seu de uma forma deliciosa.
— Se liga, Camus. Quem estava apertando meu braço e me chamando de viado de merda há cinco minutos? E não estou vendo nenhum russo por aqui para você precisar manter as aparências me agredindo. Você está mentindo para si mesmo e se você não se comportar, mocinha, eu vou transformar sua vida num inferno! — ameaçou, tomando enfim a boca de Aquário sem aviso prévio.
O francês fechou os olhos ao sentir a língua morna do sueco em contado com a sua. A essa altura era inútil negar e esconder seu desejo, por isso enlaçou a cintura de Afrodite com os braços e aprofundou ainda mais o beijo, roçando seu corpo contra o dele de forma febril. Tinha sonhado com aquele momento desde que saíra pela segunda vez do quarto do pisciano.
Mordeu os lábios do sueco ao mesmo tempo em que entrelaçava seus dedos nos cabelos de perfume único dele e invertia as posições, agora o prensando contra a parede sem separar as bocas um só segundo, até que, momentos depois, Afrodite se afastou apenas o suficiente para poder falar com Camus.
— Mas meu silêncio também tem um preço. — sussurrou no ouvido de Aquário.
— Um preço? Achei que tivesse pago pelos seus serviços. Tem meu cheque em branco. — respondeu Camus, levando uma das mãos para dentro do short do pisciano para acariciar seu membro sem nenhum pudor, se deliciando com a ereção firme do outro — Eu non sou sempre tão bonzinho, papa. Muito cuidado com o que me pede. — disse dando um apertão nas nádegas do outro com a mão que estava livre.
— Aiii. Cuidado com essa área. Sofri um acidente e estou resguardado. — soltou um gemido manhoso.
— Está com o traseiro machucado? — disse Camus deixando escapar uma risada — É bem a sua cara se machucar justo na bunda, Afrodite de Peixes... — completou e em seguida segurou no queixo do sueco e o fez olhar em seus olhos, enquanto falava com os lábios quase colados aos dele — Vamos deixar uma coisa bem clara aqui. Eu non vou entrar em seus joguinhos. Se me chantagear, eu mato você. Aquela noite foi um equivoco e nunca mais vai se repetir. Essa brincadeira acaba aqui. Eu vou voltar para a festa e non quero você de gracinhas perto de mim. Entendeu?
Afrodite deu um sorriso e sem quebrar o contato visual colocou a língua para fora e lambeu o lábio inferior do aquariano, estreitando as pálpebras e lançando um olhar arrebatadoramente sensual para Camus, que sentiu o ar até lhe faltar.
— Tolinho... Você não percebeu que aquela noite acabou de se repetir? Aqui. Agora mesmo? — disse Peixes, enfiando as mãos por baixo da camisa do francês e lhe arranhando o torço musculoso — Não tenho medo das suas ameaças, Camus. Eu sei que não vai me matar. Não é isso que você quer. Admita para si mesmo que quer transar comigo mais uma vez.
Irritado, Camus segurou nos pulsos do pisciano e o afastou de si com certa rudeza, já caminhando apressado em direção à casa de Touro para regressar à festa. Detestava admitir que o outro estava certo, que o que mais queria, desde que deixara seu quarto naquela ocasião era que aquela noite se repetisse.
Já Afrodite tinha experiência suficiente para saber que Camus blefava tentando manter a pose. Por isso mesmo que rindo ajeitou os cabelos meio bagunçados e a roupa amarrotada e seguiu ligeiro atrás dele. O agarrou pelas costas sem aviso e propositalmente projetou o quadril para frente, fazendo o ruivo sentir sua ereção roçar em suas nádegas.
— Eu quero você de novo. — sussurrou Peixes no ouvido dele — Amanhã, no meu quarto do bordel.
— Eu non vou, você sabe disso. — disse Camus fechando os olhos e tentando controlar a respiração. O contato do membro rijo com seu traseiro lhe causava um frisson sem igual e ele se maldizia por isso.
— Ah, você vai sim! Eu sei que vai. — continuava Afrodite com suas provocações, lambendo e mordiscando o lóbulo da orelha do aquariano — E vai me levar um presente bem bonito, brilhante, digno da minha beleza. — soltou Camus, deu uma volta em torno dele, parando cara a cara e lhe dando um selinho nos lábios — Mas preste atenção: Não quero que me traga nada em caixinhas ou estojos de veludo invocado. Quero meu presente vestindo você. Ma très très belle princesse! — deu um tapa na bunda de Camus, virou-lhe as costas e saiu rebolando de volta à festa, dando umas olhadas para trás enquanto caminhava, para um Camus completamente perplexo.
Aquário estava, para variar, sem reação. Para piorar sua situação e seu humor, sentiu as calças apertadas, tamanha sua excitação. — "Mas que... merde!" — pensou rangendo os dentes.
Não só não havia conseguido dar uma lição em Afrodite, como a conversa havia saído tolamente de seu propósito e de seu controle. Havia chamado Peixes ali para dar um basta em suas provocações e acabou sendo intimado a um novo encontro as escuras. Irritado e frustrado pelo desenrolar dos fatos, chutou algumas pedras que estavam a sua volta e socou uma das colunas em ruinas a esfarelando como areia. Respirava ofegante, de raiva, inconformismo, ansiedade e tesão! Esfregou o rosto tentando se acalmar.
Se pudesse mataria Afrodite, mas não antes de passar outra noite com ele!
Quando Camus adentrou o jardim da casa de Touro, vindo pelos corredores laterais para parecer que chegava do local onde ficavam os banheiros, logo viu Afrodite no centro da pista de dança improvisada remexendo os quadris com toda a desenvoltura que lhe cabia, ao lado e Máscara da Morte e Aldebaran. Com sorte ninguém tinha dado pela falta deles, já que a "conversa" nos fundos da segunda casa tinha sido mais longa do que desejara. E o que era pior: fora puro tempo perdido. Ou não.
A verdade era que enquanto Camus se dirigia ao bar para pegar um drink e esfriar a cabeça, só conseguia pensar no beijo e no corpo do pisciano lhe apertando, arranhando, provocando. O perfume delicioso e inebriante dele ainda estava encalacrado em suas narinas e Camus só despertou porque tomara um esbarrão de Saga, que estava ali para se servir de outra dose extra de cachaça.
Os dois se olharam torto e sem dizer nada, cada um passou a mão em sua bebida e de lá saíram soltando fogo pelas ventas.
Gêmeos não estava nada contente em ver Geisty dançando de maneira tão saidinha com Milo. Jamais admitiria ali, tampouco daria o braço a torcer, mas estava morto de ciúmes. Se pudesse explodir uma galáxia inteira na cabeça de Escorpião o faria sem pestanejar, mas como não podia descontou sua raiva na feijoada, no toicinho de porco, no mocotó delicioso, que felizmente tinha sido salvo e nas caipirinhas!
A cada rebolada da amazona de Serpente e cada sorrisinho galanteador de Milo para ela, Saga mandava uma garfada de feijão preto com carne seca para dentro, empurrando farofa, couve e tudo junto, mastigando com tanta raiva que chegava suar.
Alheia a tudo, Geisty dançava descontraída. Com um coquetel colorido em uma das mãos e os ombros largos de Escorpião na outra, ela tentava acertar o passo a cada movimento, sempre lançando olhares para lá de provocadores para o Grande Mestre. Estava o provocando e estava se divertindo horrores! Via a animação de Escorpião e Touro, sambando e rindo enquanto acompanhavam a letra da musica, que para ela era quase indecifrável.
"Toda vez que chego em casa, a barata da vizinha está na minha cama..."
Sem mais se aguentar de curiosidade, a amazona se aproximou do escorpiano e falou rente a seu ouvido:
— Milo, o que está falando na música para vocês rirem tanto? – perguntava inocente a morena, a qual foi trazida para mais perto pelo loiro que enlaçou sua cintura num abraço forte.
— Gatinha... é sem-vergonhice! Eu te explico, mas vamos aproveitar pra beber umas, ficar no brilho, porque hoje é de grátis. Deba tá de patrão bancando geral! – falou o Escorpião, fazendo um sinal de positivo para Aldebaram.
— Se deu bem... Safado! — o taurino respondeu com um sorriso, depois desviou os olhos do casal que dançava agarradinho e avistou Saga sentado ao lado da mesa de comidas, visivelmente furioso — Benza Deus. — exclamou e foi tirar Shina para dançar.
Saga estava tão possesso com aquela situação ridícula que nem percebera que estava sentado ao lado de quem menos queria ver perto de si naquele dia. Shaka de Virgem em pessoa.
O guardião da sexta casa zodiacal e o cavaleiro de Áries riam juntos enquanto observavam o desempenho desastroso de Aiolia em conseguir dançar com Marin, que de tudo fazia para ignorá-lo, uma vez que ainda estava muito magoada com ele pelo atrevimento de tê-la tentado comprar no maldito leilão da noite de estreia.
Já haviam dado cabo de bem uns cinco drinks coloridos e aparentemente inofensivos. Porém tanto Mu, quanto Shaka eram fracos para bebida. O indiano um pouco mais, pois comia bem menos que Mu, que já batia um terceiro prato de mocotó com dobradinha.
Foi quando Shaka tentou se levantar para ir apanhar mais um drink que ele se deu conta do quão estava pelo álcool. Assim que se viu de pé, sentiu o mundo girar e o arremessar para um amontoado de pelos azuis. A cabeça de Saga.
Gêmeos quase enfiou a cara no prato, mas seu reflexo fora mais rápido e ele teve tempo de erguer o braço e empurrar o outro para longe de si.
— Ei! Mas o que... Argh... — rosnou com raiva, olhando para o loiro — Tinha que ser você, né, Buda de galocha! Por que não abre a porra desse olho e olha por onde anda? — disse nervoso.
— Olha, zóó! Não é que vozê sempre está onde não deve, Gêmeoss? — respondeu Shaka excepcionalmente rindo.
Ao lado deles, Mu percebeu o clima se esquentando. Saga e Shaka num mesmo lugar e há uma distancia tão perigosa sempre era sinal de alerta. Rapidamente colocou seu prato de mocotó no chão e já se levantou para ir acalmar os ânimos, porém mal teve tempo de mudar o passo sentiu uma mão lhe agarrar o punho com força e lhe puxar para a pista de dança.
— Vem carneirinho! Vou te ensinar uma dança Odara*! — dizia Afrodite todo eufórico — Vai Mc Miluxo! Manda ver a música da garrafa! — gritou para Milo, o qual já se posicionava na mesa de som para atender ao pedido do pisciano que sem cerimonia nenhuma apanhava uma garrafa das tantas vazias que haviam por ali e a colocava no centro da pista de dança.
Foi só os primeiros acordes da música começar que Afrodite já colava seus quadris aos de Mu, rebolando e tentando levar o ariano a fazer o mesmo, que já bem alegrinho devido a bebida, ria e tentava acompanha-lo, esquecendo-se completamente de seu intendo inicial, o qual era evitar uma guerra de mil dias entre Gêmeos e Virgem.
Esses por sinal, ainda estavam batendo boca, alheios aos dançarinos que se divertiam no centro do jardim.
— Pelo caralho alado do Hades! Que mal eu fiz para ter um encosto feito você na minha vida, Shaka de Virgem? Por que não vai ver se eu estou acendendo o relógio zodiacal e me deixa em paz? — dizia Saga, jogando o prato ao lado, e gesticulando nervoso ao mesmo tempo em que encarava o virginiano.
— Aaah, quer zaber o que vozê fez? Será que é porque vozê matou o Patriarca? Tomou o trono que não era sseu por direito? Transssformou um Zantuário Zagrado em um antro de corrupção e zodomia? Quer mais? — dizia Shaka, com a voz meio molenga e o corpo cambaleante. Estava tão bêbado que falava com o dedo apontado para Gêmeos sem ter a mínima noção do perigo.
— Se não tirar esse dedo da minha cara agora, Virgem, vai ficar sem ele. — disse Saga, já se levantando da cadeira e quase caindo para o lado também, já que estava tão bêbado quanto o virginiano, e enquanto tentava se endireitar, olhou para frente e viu uma cena que lhe vinha bem a calhar naquele momento.
No meio do jardim, Afrodite segurava na cintura de Mu com ambas as mãos, conduzindo os quadris dele com movimentos circulares no que parecia um rebolado. A famigerada garrafa estava no chão, entre as pernas do ariano, e em volta deles amazonas e cavaleiros batiam palmas, dançavam e incentivavam os dançarinos, numa brincadeira descontraída.
Saga sorriu e então olhou para Shaka novamente. Sabia o quanto Virgem e Áries eram amigos, pois desde crianças viviam grudados e agora que Mu voltara não seria diferente. Assim como sabia que Shaka era metódico e puritano e com certeza não gostaria nada de ver o amigo rebolando na boca de uma garrafa. Nessa hora soltou seu veneno.
— Se eu fosse você, Virgem, me preocuparia menos comigo e abriria os olhos. Sabia que Afrodite está louco para pegar o Mu desde a noite da estreia da minha casa noturna? — disse com um sorriso de canto.
— O que?... Do que eztá falando, idiota? — respondeu Shaka, já mudando seu semblante sério para um curioso.
— Pois é isso mesmo que você ouviu, seu Buda de galocha. Ninguém aqui é como você. Nem o Mu, que é todo certinho, é um chato como você. Ele pelo menos tenta se divertir como gente normal. Olha lá. — disse Saga com deleite, e na mesma hora agarrou na manga da camisa de Shaka e o virou para onde os colegas estavam dançando.
Shaka não podia acreditar no que seus olhos, agora arregalados, viam!
Mu tentava acompanhar a dança que Afrodite fazia, mas se mexia todo desengonçado, ao passo que morria de rir de si mesmo, nem se importando com os risos dos colegas. Pelo contrário, os via rir de si e ria mais ainda, agora propositalmente fazendo gracinhas e entrando na brincadeira.
Peixes, que não era bobo nem nada, aproveitou-se do momento de descontração de Áries para lhe tirar uma casquinha e fazer ciúmes a Camus, então segurou no rosto de Mu com ambas as mãos e lhe deu um selinho estalado nos lábios.
Seria um simples gesto trivial se não tivesse despertado a ira de Shaka de Virgem.
Mu por sua vez, parou de dançar na mesma hora. Ficou duro, com os olhos arregalados olhando para Afrodite, surpreso! Porém, nem teve tempo de dizer ou fazer nada, pois quando ia olhar para o lado à procura de Shaka, não sabendo ao certo porque estava preocupado se Virgem vira o que acabara de ocorrer ali, ouviu a voz grave do amigo se sobressaindo à música que tocava.
— TENBU HÖRIN! — em segundos o espaço em que todos estavam reunidos fora preenchido por dezenas de figuras de Buda — Privação dos sentidos do tato e da visão! — disse Shaka e no mesmo instante, cavaleiros e amazonas foram imersos num mundo de escuridão sem poder se mexer.
Como se o tempo e espaço tivessem sido congelados e Virgem era o dono absoluto daquela dimensão nova, ele caminhou lentamente até o centro do jardim onde estava Mu, que apesar de paralisado como todos ali podia enxergar, já que Shaka não lhe privara a visão.
Pegou na mão do ariano e o puxou para perto de si. Depois deu alguns passos na direção de Afrodite e como se toda sua raiva se concentrasse em sua mão direita, a fechou com força e mandou um soco certeiro no rosto do pisciano, que sem ver o que lhe atingira, apenas caiu no chão de bunda, dando um gemido abafado.
— Eu zei que me esscutam, seus mundanos. — disse Virgem — Jamaiss vou permitir que nenhum de vozêis, secto de pervertidos que seguem a esse usurpador corrupto e devasso do Gêmeoss, manchem com sua indezência a honra de um cavaleiro nobre como o Muuu. Seus pederastas! Venha Muu de Áriesss. Eu vou te zalvar dessa corja! — completou, e teleportou Mu e a si mesmo para o telhado da casa de Touro.
Sua intenção era teleportar-se para a casa de Virgem, porém estava muito bêbado e o telhado de Aldebaran fora o mais longe que conseguira.
Na mesma hora que deixara o jardim, Shaka desfez seu golpe, permitindo a todos que voltassem ao normal, porém cada um ali se entreolhava com semblantes assustados, não acreditando que o cavaleiro de Virgem tivera a audácia de lhes desferir um golpe contra, até que o anfitrião acalmou os ânimos falando o plenos pulmões:
— Calma gente! Foi Jesus! Jesus que passou aqui e deixou o silêncio! — passando a mão no rosto, enxugando o suor que vertia tamanho o seu nervosismo, ate rir sozinho da situação — Maluco, e eu achando que dessa vez a minha baguncinha não ia ter barraco. Hump! Demorou, mais rolou. Já tava até sentindo falta. — esticou a mão para ajudar Afrodite a se levantar do chão — Tinha que ser culpa tua, né não viado? O que fez dessa vez? Pro Buda, ainda por cima!
— Eu? Nada! — respondeu Peixes, levantando a camiseta para enxugar o sangue que escorria do nariz — Eu lá sei o que deu no loirudo pra me dar um coice?
— Sei... nada. Quem nada é peixe! Anda, vem pôr um gelo nessas tuas ventas. — falou o brasileiro rindo — Galera a festa continua. Ainda tem muita feijoada, churrasco e mocotó! — gritou a todos, enquanto acompanhava Afrodite até o bar, e para a surpresa de Peixes e azar de Camus, colocou um de frente com o outro — Aí, Aquário, quebra essa: bota um gelo na cara desse peixe beijoqueiro que vou mexer a fraldinha lá na brasa.
Touro se afastou deixando para trás um francês e um sueco que se olhavam ressabiados.
— Bem feito. Você mereceu esse soco.
— Ah, é? Porque beijei o Mu e não você? Sabe muito bem que preferia beijar você, né Camus. — disse Afrodite, tombando o corpo pra frente para aproximar o rosto de Camus.
— Non começa. — respondeu o ruivo, encostando o dedo no nariz de Peixes e o empurrando para trás, aproveitou para estancar o sangue criando uma fina camada de gelo interna, sem ferir a pele dele — Se non calar a boca por bem...
— Você vai vir calar por mal? Vem, Camus... cala minha boca com a sua, vem! — sussurrou o pisciano, mas na mesma hora Aquário elevou um pouco mais seu cosmo e o gelo no nariz de Afrodite começou a lhe resfriar a garganta, fazendo sua língua ficar dormente e extremamente gelada.
— Non... se non calar a boca por bem, vou congelar sua língua e transformá-la em pó de gelo. — disse Camus em tom ríspido, já deixando o local para ir se juntar à Aldebaran na churrasqueira. Só quando se afastou de Peixes descongelou sua garganta, para alívio do outro que já sentia dificuldades em respirar.
Porém, Afrodite em nada se abalou. Nem com o golpe de Shaka, nem com o coice que ele lhe dera, tampouco com gelo de Camus, literalmente. Aquele dia estava sendo divertidíssimo para ele.
Ao contrário de Virgem, que tudo que pensava era que não deveria ter ido àquela droga de festa.
No telhado de Aldebaran, Shaka tentava se manter em pé sem envergar o corpo para o lado enquanto falava. Nunca havia consumido álcool em todos os seus dezoito anos de vida e bastou alguns drinks para lhe deixar com a visão turva e o controle motor abalado.
Olhava para o rosto de Mu apontando o dedo indicador, mas não que tivesse a intenção de ameaça-lo ou repreende-lo, mas porque via pelo menos uns três Mus à sua frente e apontando para o do meio sabia que era com ele a quem deveria se dirigir.
— Mu, eles esstão te desvirtuando... Estão te tiiirando do caminho da luz! — dizia, e então deu uma volta em torno de si mesmo, esfregando a cabeça com as mãos — Não posso permitir isso. Tenho que zelar por você...
— Sha... se acalma. Ninguém está tentando me desvirtuar, eu só estava dançando. — dizia Mu pacientemente, olhando para o rosto corado do amigo.
— Danzando? Como vozê tem coraaagem de chamar aquela indecência de danza, Muuuu? — gritava com Áries o olhando nos olhos — Aquilo não é danza, Muuu... O que a Síbila faz é que é danza de verdade...
— Quem?
— Síbila... ela danza como se pisasse em nuvens... Ralej se apaixonou por ela quando... quando a viu danzar nas ruinas do mercado... Ela... flutuava e balançava o véu com zenzualidade... — dizia o virginiano balançando os braços como se quisesse repetir os movimentos de dança que via quase todos os dias na novela e que agora se desenhavam em sua mente, mas de repente voltou a ficar sério e apontar para o rosto de Mu — Aquele baiacu beijoqueiro quer se aproveitar de você. Igual a Hanna... a irmã da Síbila que quer tirar Ralej dela... Shaka não vai deixar.
Mu estava bem bêbado, mas não tanto quanto Shaka. Ouvia o que ele dizia e tentava conectar as coisas como podia. Não sabia quem era Síbila, mas tinha uma lembrança vaga de que podia ser a personagem do filme que assistiram juntos.
— Sha, eu não sabia que ia ficar chateado por eu ter ido dançar com o Dido... Ele é assim mesmo. Não fez por mal... — dizia Mu de forma calma e apaziguadora — Me desculpe se te magoei.
— Me magoou zim... mas eu perdoo... — disse Virgem se aproximando dele e lhe segurando o rosto corado com ambas as mãos — Dezde que me prometa que não vai maiss danzar essas danzas indezentess com garrafa debaixo da bunda... A danza é a voz da alma, Mu... Uma conexão entre o corpo e o essspírito... Tem que ser linda... suave... para ser sublime!... Se quiser, Shaka te ensina.
Mu sentia as mãos quentes de Virgem em seu rosto que a essa altura já queimava como brasa. A respiração ofegante e acelerada contrastava com os olhos parados, que estavam fixos aos do outro. Shaka falava de uma forma tão sedutora que era praticamente impossível para Mu continuar mantendo sua postura sempre tão respeitosa, e para não explodir naquele momento, abriu a boca e falou sem nem pensar duas vezes.
— Eu quero! Dança para mim, Sha? Por favor? Eu adoraria ver você dançar para mim. Você sabe dançar como Síbila dançou para Ralej?
Shaka deu uma cambaleada para trás e soltou o rosto de Mu.
— Se eu zei danzar? Mas é claro que eu sei danzar. Que merda de indiano eu zeria ze não soubesse danzar, Mu?... Você que não sabe... — afastou-se de Mu dando uns passos para trás — Senta ai! — indicou o chão com o dedo indicador — Zeeenta ai, Mu! Eu vou danzar para você! — já ia tirando o lenço que usava sobre os ombros e aproveitou que lá embaixo a música mudara um pouco para uma batida mais eletrônica, porém mais calma e cadenciada, e começou a se movimentar.
Ainda que meio cambaleante, Shaka conseguia com muita graça e perícia, sincronizar os movimentos que fazia com o tom e o ritmo da musica que estava tocando. Depois balançou o lenço no ar, o passando pela cabeça de Mu num gesto bem provocativo, para depois girara-lo em torno de si mesmo, ao mesmo tempo em que mexia os quadris com movimentos de dança do ventre. Vez ou outra jogava o lenço para o ar e saltava para apanha-lo, rodopiando em torno de si mesmo. Seus longos cabelos dourados pareciam ter vida própria e bailavam envolvendo seu corpo com graça e magia.
Com as mãos juntas, como na posição que ficava de costume quando meditava, e com o lenço sobre elas, Shaka mexia somente a cabeça e nessa hora aproveitava para olhar para Mu e lhe sorrir.
O lemuriano nessa altura estava em estado de graça! Nunca imaginara que Shaka, sempre tão recatado, pudesse esbanjar tanta sensualidade e erotismo juntos. Foi uma grande surpresa. Aliás, uma surpresa instigante e que agravava ainda mais a situação do lemuriano apaixonado.
Foi praticamente impossível conter sua excitação, a qual crescia a cada movimento sensual que Virgem fazia — "Não faz assim, Shaka! Pelos deuses!" — pensava Mu sentado no chão, os olhos tão vidrados no indiano que mal piscavam, as pernas unidas tencionavam seu membro já muito excitado, os dedos dos pés se contraindo e o peito prestes a explodir.
Foi quando Shaka novamente girou o véu em torno de si e se curvou para frente para jogá-lo sobre a cabeça de Mu, que o lemuriano não mais se conteve e num gesto rápido e impensado agarrou Virgem pela cintura e o puxou para seu colo.
Shaka caiu meio desajeitado, com as pernas para o lado e o tronco colado ao peito de Mu. Ria da atitude do outro, mas então seus olhos se cruzaram e seus lábios experimentaram pela primeira vez uma proximidade singular, quase se tocando.
Nessa hora Virgem ficou sério.
— Assim você me enlouquece, Shaka... — disse Mu num sussurro rouco, esfregando a ponta do nariz na bochecha do virginiano —...Eu... eu preciso... — não completou a fala, pois preferiu demonstrar com gestos sua intenção, encostando os lábios trêmulos nos do loiro iniciando um beijo.
Um arrepio na espinha fez Shaka encolher os ombros e fechar os olhos. Só com aquele leve toque sentiu uma pontada em seu baixo ventre e a sensação de milhares de borboletas se debatendo em seu estômago. Então segurou com força nos ombros largos de Mu e fez um bico, aprofundando o beijo.
Como nunca havia beijado não abriu a boca e achava demasiadamente estranho o fato de o ariano ficar forçando a língua dele na passagem entre seus lábios.
— Mmmm... Mu...
Apesar de tantos beijos vistos em anos de novelas e filmes, os quais teoricamente tornavam o virginiano um especialista no assunto, na prática era bem diferente. Estava muito nervoso, mal conseguia controlar sua respiração, mesmo sendo um perito nessa prática! Porém, no quesito meditação e não beijo de língua.
Teria que abrir a boca? Mas se abrisse a boca, o que teria que fazer? — "Será que tenho que passar a língua na língua do Mu? Buda! Que delícia! Será?" — pensava, meio zonzo ainda.
— M-Mu... — sussurrou, levando as mãos aos cabelos de Áries, emaranhando seus dedos nas madeixas.
— Shii... Abre a boca, Shaka. — pediu Mu febril de desejo —... Eu preciso provar sua boca! — seus olhos agora estavam fixos aos lábios do virginiano, que acatara ao pedido de pronto abrindo a boca para receber a língua de Mu num beijo tão sonhado.
Shaka não podia acreditar que estava acontecendo! Estava beijando Mu, ou quase!
O cheiro dele era algo extraordinário e o levava a loucura. A pele, o cabelo, a voz de Mu... Tudo naquele ser exótico tinha o poder de tirar sua razão e seu autocontrole. A sensação da língua dele em contato com a sua era sublime. A boca era macia, quente, e a língua era suave e explorava a sua com movimentos circulares e delicados.
Shaka criou coragem e também se atreveu a colocar a própria língua na boca de Mu, mas foi com pressa demais, muito afoito, fazendo o lemuriano separar os lábios para lhe instruir.
— Hum... assim mesmo, mas com mais calma... — sussurrou Mu, segurando no queixo do loiro com uma das mãos e o puxando para baixo, deixando a boca dele entreaberta —...devagar... — disse, tomando os lábios do outro novamente, que agora procurava imitar o ariano acompanhando seu ritmo.
Quando menos perceberam estavam trocando um beijo digno de Bollywood!
Já com os lábios inchados, rolavam deitados na laje de Touro um por cima do outro, sem separarem as bocas nem por um segundo.
Shaka estava perdido naquelas sensações novas tão prazerosas. Como Mu era delicioso e como beijá-lo era fantástico!
Que Síbila e que Ralej que nada. Mu e a vida real eram muito mais excitantes!
— Hmm, Mu... beijar você é tão bom! — dizia, enquanto beijava o ariano, até que parou subitamente, colocando uma mão no peito de Mu e a outra sobre a própria boca — Ezpera! Não eztou me sentindo bem... Não Mu... isso não é certo... Buda! O que estou fazendo? — questionou, e na mesma hora puxou Mu de volta para si lhe beijando novamente, depois o afastou de novo — Por Buda, Mu, isso não é certo... Você é meu amigo...
— Sha... e se ... se eu te disser que quero mais? Mais que beijos? Mais que ser só seu amigo? — disse Áries, olhando nos olhos de Virgem.
Fazia um esforço tremendo para controlar sua excitação, pois sentia o nervosismo do outro pela sua aura. Tinha vontade de toma-lo para si ali mesmo, mas não era dessa forma que queria perder a virgindade. Bêbado, com um amigo mais bêbado ainda, e no telhado de Touro. Por isso respirou fundo, girou seu corpo e se colocou deitado por cima de Shaka, olhou em seus olhos com carinho e criou coragem para dizer o que já queria ter dito há tempos:
– Sha... Não sei se consigo ser só seu amigo.
Shaka abraçou o ariano com ternura e então olhou novamente para seu rosto. Queria lhe dizer que também sentia algo muito maior e mais forte que apenas amizade, mas de repente as duas pintainhas na testa do lemuriano como num passe de mágica se tornaram quatro e a imagem de Mu começou a se distorcer e girar diante de seus olhos.
Sentiu um enjoo terrível lhe revirar o estômago de súbito e franzindo a testa disse:
— Mu... não eztou me zentindo bem. Acho que Buda está me punindo. Logo agora que reencontrei você! — falava mole e trocando as letras — Preziso ir pro meu jardim, Mu... Tenho que morrer no meu jardim... mas não quero deixar você aqui... Mu de Áries... meu amado Mu.
O lemuriano por sua vez, estava tão nervoso esperando pela resposta de Shaka que em algum momento se perdera nas palavras desconexas que ele dizia — "Ele está muito bêbado. Será que fiquei assim daquela vez no bordel quando subi para o quarto da Marin? Se foi, ele não vai se lembrar de nada amanhã." — pensou entristecido, até que arregalou os olhos e piscou algumas vezes, percebendo só então que entre aquele monte de palavras sem nexo, entre Budas, morte e jardim, Shaka dissera "meu amado Mu"!
Ficou emocionado! Seria mesmo verdade? Seriam seus sentimentos correspondidos pelo virginiano?
Com um sorriso no rosto, apertou Shaka contra si e enterrou seu rosto na curva do pescoço dele. Apesar do estado de embriagues, a aura de Shaka irradiava amor e era tudo que Mu precisava saber naquela hora.
— Você também é o meu amado, Shaka de Virgem. — sussurrou em seu ouvido, logo em seguida teleportando aos dois para o jardim da sexta casa, debaixo das árvores Salas Gêmeas, as quais ele próprio ajudara Shaka a plantar quando ainda eram crianças.
Já anoitecia quando no Templo de Touro a festança ainda rolava solta. Contudo, os festeiros de plantão já haviam passado o dia todo bebendo e comendo do bom e do melhor, e agora cada um se ajeitava como podia.
Camus estava sentado em uma rede pensativo. Levemente embriagado, o cavaleiro de Aquário até se esquecera de manter a pose e disfarçar os olhares cobiçosos que lançava ao cavaleiro de Peixes, o qual dançava descontraído ao lado de Milo que já estava mais bêbado que um gambá.
Naquela altura ninguém iria reparar no flerte de Camus. Cada um lidava com sua própria embriaguez como podia.
Quando Afrodite viu que Milo não se aguentava mais em pé, o ajudou a caminhar até o interior da casa de Aldebaran e o deitou no sofá da sala. Se surpreendeu quando deu de cara com Aiolia e Marin que se pegavam no sofá ao lado.
Finalmente o Leão conseguiu convencer a ruiva a ouvi-lo e, olhando nos olhos de Marin com muito carinho e sinceridade, Aiolia lhe pediu perdão por ter dado um lance nela na noite da estreia do bordel. Disse que só fizera aquilo para evitar que Máscara da Morte ou Shura a comprassem, mas que nunca pensou em tê-la para si de outra forma que não fosse por amor.
Talvez por efeito das muitas caipirinhas de saque, ou mesmo porque o coração da Águia sempre batera mais forte pelo Leão, Marin baixara a guarda e finalmente o perdoara. Não lhe contou o motivo pelo qual havia aceitado entrar no negocio sujo de Saga, mesmo após Aiolia insistir muito, mas ficou aliviada e esperançosa quando ele lhe prometeu tirar o mais rápido que pudesse daquele bordel.
Nem a presença, mesmo inconsciente, de Milo ali ao lado, roncando e balbuciando algumas palavras enquanto dormia, atrapalhou os beijos quentes e apaixonados do casal.
Do lado de fora, mesmo sem o DJ a música ainda embalava Shina, Shura e Máscara da Morte, que dançavam uma espécie de dança do maxixe, com a amazona de Cobra no meio e os dois cavaleiros dourados se esfregando nela.
Afrodite passou ao lado e ergueu as sobrancelhas ao olhar para eles. Sabia muito bem onde aqueles três iam terminar a festa naquela noite. Ele mesmo nunca terminava uma festa dormindo sozinho, mas excepcionalmente naquele dia já havia conseguido o que queria!
Parou atrás da rede onde Camus ainda estava sentando com um copo de caipirinha na mão, enquanto olhava para o céu estrelado. Concentrou seu cosmo e fez surgir uma rosa vermelha absurdamente perfumada na mão do francês, que se assustou de imediato e a fechou as pressas, escondendo o presente antes que alguém pudesse notar aquela maldita flor entre seus dedos.
— Te espero amanhã, princesse du papa! Espero que vá com uma lingerie por baixo dessas casqueiras de homem sério que você usa. — sussurrou somente para ele ouvir — Vou adorar despir o mafioso malvado e encontrar uma linda princesa russa.
— Vai sonhando com isso, Afrodite. — respondeu Camus no mesmo tom de voz — Sonhar non é proibido, sua bicha deslumbrada.
Peixes riu baixinho.
— Boa noite, Camus. Prometo que essa noite deixo você dormir. Já amanhã... — disse, já se afastando do aquariano e deixando a festa.
Camus por sua vez soltou um suspiro de alivio e ao mesmo tempo de aflição. Em sua mente, por mais que quisesse deixar Afrodite esperando até mofar, por mais que quisesse matar Peixes e acabar com o dilema, tudo que conseguia pensar era em uma estratégia para poder entrar no quarto do pisciano sem ser visto por ninguém. Já imaginava que teria que escolher uma das prostitutas, subir com ela, transar, mesmo sem vontade, e dar um jeito de sair pelos fundos e entrar no quarto de Peixes.
— Merde. — pensou, frustrado consigo mesmo. Esperou um pouco e foi se despedir de Aldebaran que estava na beira da piscina às gargalhadas com Geisty, a qual parecia muito bêbada, porém eram os dois únicos sobreviventes até então.
Quando a amazona de Serpente viu o aquariano, levantou-se da espreguiçadeira e mergulhou na piscina. A presença de Camus era para ela a mais indesejada de todas e só de olhar no rosto do francês sentia tanto ódio que sentia seu estômago revirar.
Enquanto Aquário agradecia a Touro pelas ótimas comidas e bebidas, Geisty nadava até a borda oposta, onde Saga já há algum tempo dormia sobre uma boia.
Gêmeos, após o barraco que Shaka dera na festa, tentou mais uma vez se aproximar da amazona, mas novamente fora esnobado com maestria, quando Geisty, já bêbada, tirara Milo mais bêbado ainda, para dançar um ritmo mais lento e sensual.
Enfurecido, Saga passou a mão em uma garrafa de whisky e fora para a piscina. Deitou-se sobre uma boia e entre uma dose e outra no gargalo amargurou sua raiva e seu ciúmes até pegar no sono ali mesmo, pois havia comido mocotó e feijoada para um mês inteiro!
Quando a amazona se aproximou dele, pensou em jogar água em seu rosto, ou lhe dar um caldo. Estava bêbada, mas ainda assim notou que ele estava muito pálido. Tocou na testa do geminiano e percebeu que ele suava frio e tinha leves tremores.
— Mas que merda! Ei! Saga! Acorda! — chamou sacudindo de leve o ombro do cavaleiro, mas não obteve resposta, então ergueu a mão e chamou Aldebaran — Ei, Aldebaran, acho que o Saga está passando mal. Me ajuda tirar ele da piscina.
Mais que depressa, Touro pulou na água e sem dificuldade nenhuma colocou o geminiano sobre os ombros e o tirou dali.
— Deba, acho que ele bebeu demais. Melhor leva-lo para o Templo de Gêmeos, não acha? — disse Geisty que já se colocava ao lado deles toda preocupada.
— O Grande Mestre enfiou o pé na jaca. — gargalhou o taurino — Isso significa que a minha festa foi o regaço! Bora levar ele pra casa.
Aldebaran, junto com Geisty, levaram Saga para o templo de Gêmeos. Chegando lá, a amazona, que já conhecia o local de anos atrás quando ainda namorava Kanon, guiou o taurino até o quarto que seria o de Saga. Assim que o deitaram na cama, lhe tiraram o short e a cueca molhados e o cobriram com um lençol fino, sempre rindo muito da situação do outro. Porém Aldebaran tinha que aprontar uma das suas e enquanto Geisty ia até a cozinha fazer um chá para deixar para Gêmeos quando este acordasse, pois certamente estaria de ressaca, Touro tirou uma caneta hidrográfica do bolso da bermuda e começou sua obra de arte, rabiscando todo o corpo do geminiano com desenhos obscenos de órgãos sexuais masculinos e dizeres como "me coma", "põe na bunda", "adoro chupar", "Grande Mestre dos prazeres".
Aldebaran chorava de tanto rir e só depois de deixar o rosto de Saga todo cheio de desenhos bizarros é que se deu por satisfeito e guardou a caneta no bolso.
Quando Geisty entrou no quarto trazendo consigo uma bandeja com chá, quase a deixou cair quando olhou para o grego todo rabiscado.
— Aldebaran, você não presta, homem! — disse em voz baixa, caindo na risada — Subiu no meu conceito! — colocou a bandeja sobre o criado mudo e se sentou na beirada da cama.
Riram mais alguns minutos analisando a "obra de arte" e então, depois de se despedir, Touro voltou para seu templo, pois ainda tinha muita festa para aproveitar.
Já Geisty ainda ficou alguns minutos ali deitada ao lado de Gêmeos. Como não havia ninguém por perto e o grego estava inconsciente pela bebida, se deixou baixar a guarda e cobriu o corpo do geminiano com o lençol com todo o cuidado que lhe cabia. Passou a mão pela testa dele lhe secando o suor e acariciou os cabelos úmidos. Pegou-se surpresa pelo próprio ato. Em sua mente tentava entender que tipo de sentimento a levava a ficar ali, por longos minutos apenas o olhando dormir, preocupada com seu estado de embriaguez, e por que se dispôs a lhe preparar um chá para ajudar a suportar a ressaca matutina.
Foi quando percebeu que não deveria estar sondando seus sentimentos por Saga de Gêmeos, pois era algo assustador constatar que, por mais que tentasse, não conseguia odiá-lo, como afirmava para si mesma. Sempre que afirmava isso, suas palavras acabavam jogadas ao vento, uma vez que sabia que não brotavam de seu coração já tão maltratado por Kanon e agora enganado por Saga. — "Foi apenas um beijo." — repetia para si mesma mentalmente. Mas quando pensava do beijo que trocaram um sentimento forte a acometia, um sentimento que percebeu cumplice da parte do geminiano e que envolveu aos dois da mesma maneira. Não podia estar tão errada. Não novamente.
Ao constatar o fato, uma amargura a abateu de súbito e Geisty se levantou da cama. No entanto, antes de sair em definitivo para a sua elegante prisão domiciliar no Templo de Baco, a amazona olhou uma ultima vez para Saga, lhe desejando um boa noite mudo. Talvez voltar a morar na Grécia não fosse de tudo ruim, como Gêmeos lhe dissera, mas não seria nada fácil. Não iria aceitar viver uma vida de ilusões novamente, não se permitiria a isso e não sucumbiria novamente as ilusões do coração, as quais não podia controlar com seu cosmo!
Os primeiros raios do sol inundavam o Santuário de Atena quando Gêmeos se remexeu na cama sentindo um enjoo terrível. Abriu os olhos devagar. Estava todo suado e de repente um arrepio lhe arrebatou de uma forma intensa, ao mesmo tempo em que sentia como se houvesse um monstro se remexendo dentro de sua barriga.
Percebeu-se em seu quarto no templo de Gêmeos e, intrigado, tentava puxar pela memoria como havia ido parar ali. Em vão. Tudo que se lembrava era de ter pego uma garrafa de whisky e ido parar na piscina para ficar bem longe do maldito Escorpião do rabo torto e de Geisty.
Resmungou algumas palavras quando se sentou na cama, mas nem teve tempo de apertar as têmporas doloridas pela ressaca, que logo precisou correr para o banheiro.
— Por Atena! O que está acontecendo comigo? — resmungou, enquanto sentia como se suas entranhas estivessem saindo de seu corpo.
Suando em bicas, toda vez que tentava deixar o banheiro precisava voltar correndo. Nunca havia passado tão mal em toda sua vida e já punha a culpa nas caipirinhas e naquela comida pesada de Aldebaran.
Queria ir atrás de Geisty, pois imaginava que ela estivesse se esgueirando por algum canto engalfinhada com Milo, mas passou pelo menos uma hora sentando no vaso e tudo que queria naquele instante era conseguir tomar um banho e voltar para a cama.
Quando finalmente conseguiu se levantar, andou até a pia e então olhou-se no espelho, para seu completo horror e surpresa.
— Mas que porra é... essa?... GEISTYYYYYYYYYYYYYYYYYYY!
Em sincronia perfeita com o grito de Saga, na mesma hora em Virgem, Shaka abria os olhos assustado e se sentava na grama.
Olhou em volta e percebeu que estava em seu jardim, debaixo das Salas Gêmeas, e na mesma hora alguns flashes de memória lhe vieram à mente.
— Por... Buda! — sussurrou para si mesmo, se recordando da maldita dança, de Afrodite com o demônio no corpo beijando Mu, de ter tirado os sentidos dos colegas e ido para o telhado de Touro novamente, onde dançara para Mu e o beijara na boca — POR BUDA! — dessa vez gritou em espanto, e quando percebeu Mu deitado na grama a seu lado se remexendo, assumiu sua tradicional pose de meditação, fechou os olhos, e fingiu estar em transe.
Áries abriu os olhos devagar, não conseguindo impedir um bocejo. Não estava se sentindo tão mal dessa vez, fisicamente falando, mas ficou triste pelo desfecho da noite, pois podia ver Shaka a seu lado muito sério e se julgou culpado por ter se aproveitado do estado de embriagues do loiro para beija-lo. Sentiu-se um mau caráter e agora teria que assumir o que fez.
— Bom dia, Shaka. Sei que não está meditando. Precisamos conversar.
Mu estava certo. A quem ele queria enganar, ali, meditando totalmente descomposto, com a camisa aberta até o umbigo, toda amassada, uma manga caída por um dos ombros, os cabelos todos bagunçados e embaraçados e o rosto cheio de grama colada. Porém se manteve firme. Suspirou fundo e abriu os olhos para encará-lo.
— Bom dia, Mu! — disse desfazendo a postura e relaxando os ombros — Sobre o que aconteceu ontem à noite... Buda já havia me alertado acerca das armadilhas do álcool... — disse levantando-se do chão — Então, eu acho que lhe devo desculpas, pois... não deveria ter bebido e ter lhe colocado nessa situação constrangedora. — estendeu a mão para Áries para ajuda-lo a se levantar também.
Porém, quando Shaka levantou Mu do chão e olhou novamente em seus olhos verdes, percebeu que não adiantaria mais lutar consigo mesmo, contra seus sentimentos, pois sempre falharia miseravelmente.
Ali, tocando na mão de Áries, mergulhando nas orbes esmeraldas de seus olhos, Virgem tomara uma decisão que mudaria para sempre sua vida.
— Mu, esqueça tudo que eu disse. Eu quero lhe fazer uma pergunta. — disse em tom firme e ágil, para não perder a coragem — Eu quero saber se devo te dar bom dia com um aperto de mãos, como fazem os amigos, ou... Ou com um beijo, como fazem os casais de namorados. Porque... mesmo que eu caia em desgraça por não estar cumprindo a minha missão aqui na Terra, e por estar indo contra os ensinamentos que Buda me passou, eu não suporto mais a ideia de ficar longe de você!
Surpreso e afobado, Mu não conseguia esconder a felicidade de ouvir aquelas palavras. Com um sorriso enorme no rosto resplandecente de alegria, Áries soltou a mão de Shaka e lhe segurou o rosto com ambas as mãos, lhe dando um beijo urgente e pleno de paixão antes de conseguir lhe responder qualquer coisa verbalmente, e só depois de longos minutos de beijos quentes e selinhos carinhosos é que o ariano abriu os olhos e olhou profundamente nas íris azuis claras do virginiano.
— Ah, Shaka! Por mim, você pode me dar bom dia com beijos pelo resto da minha vida! — disse emocionado.
— Então é isso? — Shaka disse sorrindo, enquanto Mu agora lhe distribuía beijos estalados por todo o rosto, ao mesmo tempo em que retirava algumas folhas de grama que estavam grudadas nos cabelos loiros e na pele pálida — Somos um casal, Mu?
— Sim! Sim! Claro que sim, Sha!
— Mas é que... bem... — disse Virgem surpreendendo o outro mais uma vez — Eu... Como vou te dizer isso? A verdade é que eu nunca... Mu, a verdade é que eu não me preparei para levar uma vida normal. Digo, namorar, casar, ter família, filhos. Você sabe disso. Eu me preparei a vida toda para ser um monge. Para iluminar meu espírito e não ter que voltar mais para esse ciclo condenado de reencarnações! — dizia pegando nas mãos de Mu — E estava muito avançado no meu caminho, até você voltar de Jamiel e... Eu não sei como te falar isso, Mu... mas eu preciso de um tempo para pensar. Eu gosto de você. Muito mais do que apenas como amigo. Porque eu tenho vontade de... de te tocar... de te beijar... — ficou vermelho e baixou a cabeça, encarando a grama — Mas sabe que não poderia sentir nem fazer nada disso. Então, não estou sabendo lidar com essa situação. Quero dizer, não posso abandonar minha missão. Por Buda, Mu, estou tão confuso. — puxou o ariano para um abraço forte.
Mu ficou triste, pois no fundo sabia bem o tamanho do problema que enfrentariam para ficar juntos, até estranhara ser ele a propor serem um casal. Shaka era um garoto muito jovem, porém já muito responsável e disciplinado e sabia que ele não abandonaria suas convicções tão facilmente, ou não antes de pensar muito e ponderar. Contudo o que sentia por Virgem era maior que qualquer medo que pudesse fazê-lo desistir antes mesmo de tentar.
— Esta tudo bem, Shaka. Eu jamais obrigaria você a algo. Eu entendo... eu acho!
Mentira. Não entendia não. Estava era fazendo um esforço tremendo para ter fé de que nada os impediria de viver plenamente o que sentiam um pelo outro.
— Que bom, Mu.
— Só saiba que eu faria qualquer coisa nessa vida para ver você feliz, mesmo que isso signifique me afastar de você para que possa seguir seu caminho em paz. Aceitarei a decisão que tomar, porque... porque minha felicidade depende da sua, Shaka. Mesmo que me afastar de você novamente seja a ultima coisa que eu queira nessa vida.
— NÃO! — Shaka deu um grito — Não quero que se afaste nunca mais! Mu eu gosto de você, seu tonto! Por Buda, não está entendendo? — disse desesperado, chacoalhando o ariano pelos ombros e rindo — Mu, eu quero ficar com você, mas entenda. Eu tenho que meditar e tenho que conversar com Buda. Preciso falar para ele da minha decisão e ouvir o que ele tem a me dizer. Por isso preciso de um tempo. Eu sei que os casais, eles... quando estão juntos... você sabe... você quase fez com a Marin. Eu fiz um voto de castidade e se vamos ser um casal... bem, são tantas coisas que tenho que rever e decidir! — disse, passando a mão no rosto do lemuriano.
Então a confusão de Mu fora sanada. Finalmente ele entendera os medos e preocupações de Shaka e achou normal ele pedir um tempo para pensar. O problema era sexo!
— Ah, Sha, então era isso? — disse vermelho como um pimentão — Não vamos pensar nisso agora, ok? Vamos dar tempo ao tempo e ir com calma. Temos muito tempo pela frente. Não precisamos ter pressa.
— Sim, não precisamos ter pressa. — respondeu Shaka sorrindo.
Como são tolos os apaixonados!
— Ah... Se agora estamos namorando e somos um casal, não pode haver segredos entre nós. — disse Shaka, pegando na mão de Mu e o puxando para dentro do Templo de Virgem — Eu vou te contar uma coisa, mas tem que me prometer guardar segredo.
Mu ficou sério de imediato. Estava apreensivo e quando Shaka cruzou todo o templo e o levou para seu quarto, Áries sentiu seu coração pular no peito, até que...
— Mu eu menti para você. — disse o indiano, largando a mão de Mu e caminhando até a TV — Essa televisão não é da avó do Aldebaran, é minha.
— Como é que é? — disse Mu arregalando os olhos e não conseguindo conter uma risadinha — Essa TV é sua?
— Sim. E... — Virgem então andou até a cama, ajoelhou-se e uma por uma foi retirando todas as fitas dos filmes que mantinha ali escondidas, bem de frente aos olhos de um carneiro totalmente incrédulo e surpreso — Eu... eu adoro cinema e todos esses filmes aqui são meus. Enquanto todos os cavaleiros acham que eu fico aqui só meditando e meditando, eu na verdade estou com a cara colada na TV vendo filmes ou novelas, que aliás, está quase na hora da reprise do capítulo de ontem que perdi por causa da festa. Me desculpa ter mentido. Tenho uma reputação a zelar.
— Você não existe, Shaka de Virgem. — disse Mu aos risos. Novelas? Só mesmo Shaka para ter um segredo tão "cabeludo"!
Mu então se sentou ao lado dele no chão e lhe acariciou o rosto meio corado de vergonha.
— Seu bobo. Então aquele dia que entrei aqui e ouvi aquela música...
— Sim, eu estava vendo a novela. Era o casamento da Síbila com o Ralej.
— E no desespero você danificou a própria TV e inventou toda aquela história...
— Exato.
— Conseguiu me enganar direitinho. — Mu riu — Então, que tal se a gente vir o capitulo da novela e depois um filme. Hoje tenho o dia todo de folga.
— Jura? — os olhos de Shaka se iluminaram e mais que depressa juntou um punhado de fitas cassete nas mãos todo empolgado — Podemos ver esse! As Brumas do Ganges! — esticou a fita para que Mu a apanhasse — Fala de uma rainha, a Misha, que reuni sete cavaleiros para tomar um reino que foi tirado dela por sacerdotes malignos banguelas. Tem um ferreiro no filme que conserta armaduras. Sempre pensava em você quando assistia. — sorriu, abraçando Mu por trás e cheirando seu cabelo — Eu amo você, Mu. Pode achar que estou sendo precipitado em dizer isso, mas... Eu acho que o amo desde a primeira vez que te vi. Depois disso, passou o tempo, você partiu, e eu continuei vendo você nos filmes, nas novelas, nos meus sonhos...
Mu sentiu uma felicidade impar em ouvir aquilo. Era como se Shaka fizessem dele as suas palavras e a sua história, pois trazia o loiro no pensamento e no coração desde quando o vira chegar ao Santuário de Atena, ainda criança.
— Eu também, Sha. Você sempre foi a luz que iluminava minha vida quando estava no exílio em Jamiel. Eu amo você. — beijou o virginiano com ternura.
Shaka estava vivendo um conto Bollywoodiano e, como em todo conto de fadas, ainda iria enfrentar muitos desafios até chegar a seu "...e viveram felizes para sempre"!
Glossário Afroditesco
Alófi – mau cheiro. Alofento – fedido.
Odara – grande, fabulosa, espetacular.
Casqueira – coisa ruim. / Trapos, roupas velhas, bregas ou fora de moda.
