Olá, desculpe a demora em publicar um novo capítulo, mas estou trabalhando em casa como freelance e recebi uma grande demanda, por isso não consegui postar nada aqui em muito tempo. Vou comentar rapidamente às reviews que recebi até então:

MariaSchneeWitten: que bom que tem gostado de como estou construindo Helen em minha história. Concordo com você, tudo o que ela faz no cativeiro é motivada pelo horror de passar por todo aquele sofrimento outra vez. E ela é uma mulher mais madura agora do que quando estava no campo, por isso não está se submetendo à Amon. O capítulo anterior foi feito apenas para mostrar que embaixo das finas camadas de roupas, Amon Goeth ainda é o mesmo, mas também passou por um processo de amadurecimento, também envelheceu e já não sente necessidade de ocultar nada dela. Obrigada por sempre me incentivar a seguir. Sua história para mim é uma inspiração.

Duduccia: muito obrigada por sempre acompanhar a história e por me incentivar a continuá-la. Sim, a reação de Helen foi totalmente inesperada por Amon, vamos ver como as coisas vão ficar agora. Espero que goste desse capítulo!

YoursAnnie: o final foi realmente complicado para Amon, espero que este capítulo, com bastante ação, te agrade também. Volte sempre!

Alexandra: o mais interessante sobre Amon é que podemos esperar tudo de um personagem assim. Nossa, não sabia dessa neta nigeriana de Amon! Gostaria de saber mais sobre ela, vou pesquisar, obrigada pela informação. E volte aqui para comentar novamente!

Flavia: como é bom ler suas críticas em português, sinal de que você não está precisando do tradutor para acompanhar. Sempre fico preocupada que o tradutor possa cometer erros e deixar a história confusa. Amon é um homem muito perigoso, Helen ousou fugir, vamos ver como será o reencontro deles após esse acontecimento. Volte sempre e me diga se gostou deste capítulo, beleza?

Kajsa: desculpe a demora em publicar um novo capítulo. A história deu mais uma virada, acho que Amon vai precisar endurecer um pouco mais novamente, mas, garanto, é para o bom andamento da história. E espero que goste e comente outra vez o que achou!

LadyHermioneMalfoy18: querida, que bom que gostou. Concordo com você, o capítulo anterior apenas mostrou que Amon luta entre a sanidade e surtos de loucura e violência. Talvez ele realmente acredite que Helen possa redimi-lo disso tudo. Para escapar aos seus crimes, ele abriu mão de tudo, inclusive de sua família. É um homem extremamente solitário e talvez tenha colocado obsessivamente em sua cabeça que precisa de Helen para ser feliz. Espero que goste desse capítulo.

DamonandElenaSalvatore: você tem razão, a história agora vai mudar um pouco para os dois e as coisas ficarão complicadas para Helen. Mas ela hoje é uma mulher mais forte, diferente da garota apavorada, então, por isso achei importante mostrar a tentativa de fuga, pois ela é uma mulher que não se deixa subjugar assim tão fácil. Bem que Amon gostaria de ser mais leve com Helen, mas até agora ela não permitiu que ele fizesse isso. Por favor, leia e me diga o que achou desse novo capítulo.

Vanja: bem-vinda! Eis o novo capítulo. Espero que possa voltar aqui e me dizer o que achou.

Susy: por enquanto, Helen ainda não está pensando com toda clareza, tudo o que ela quer é fugir. Por isso está complicado que os dois mantenham conversações mais próximas do normal. Vamos ver como as coisas vão ficar após a tentativa de fuga. Por isso, sinto que esse capítulo ainda não mostre conversas normais, mas, acredite, é para o bem da história.

Marianne: bem-vinda. Sinto muito não escrever minha história em inglês. Tive ajuda na tradução do primeiro capítulo e estou pensando em traduzir os demais para o inglês também, mas acho que não vai ficar muito bom, mesmo assim, quero tentar. Que bom que insistiu no tradutor, espero que ele não tenha te dado muito trabalho, traduzindo coisas de um jeito incompreensível. Espero que, nos próximos capítulos, Helen mencione Sam, ou quem sabe ele apareça, não é mesmo? Amon não vai desistir, ele arriscou tudo, toda sua nova vida para tê-la ao seu lado, por isso, vai procurá-la com todas as suas energias. Obrigada por acompanhar minha fic e espero ver novos comentários seus por aqui.

É isso, obrigada a todas que acompanham "O Labirinto", eis o novo capítulo!


Não sei como eu consegui fazer o que eu acabei de fazer. Depois de tomar o meu café, coloquei o vestido e os sapatos mais confortáveis que encontrei, escovei os dentes e preparei meu espírito para o que viria a seguir. Fui até a porta sem fazer barulho, com o cabide nas mãos. Vi a chave girar lentamente e, quando o monstro entrou, eu o ataquei com raiva e de forma muito rápida. Consegui surpreendê-lo, pois tenho certeza que, em sua soberba, ele não pensou que eu tentaria machucá-lo. Atinjo-o em cheio em uma de suas mãos, que ele usou na tentativa de defender-se assim que percebeu meu golpe contra ele. O corte foi superficial, mas mesmo assim, vi que começou a sangrar bastante.

Como ele não previu meu ataque, acabou se distraindo quando tentou se defender. Foi a oportunidade preciosa que eu estava esperando, então aproveitei para correr. Quase tropecei em um pacote ou algo parecido que ele levava em mãos e pulei por cima dele. Foi tudo muito, muito rápido! Saí do quarto direto para àquele corredor comprido, escuro, repleto de tapetes finos e de portas. Consegui alcançar as escadas e, comecei a descer rapidamente. Eu ouvia seus gritos furiosos chamando um tal de Hans, mas, sinceramente, não esperei para ver quem era. Eu só estava tentando sair dali.

Nunca corri tanto em minha vida, na verdade, acho que essa foi a primeira vez em que eu realmente consegui ser muito rápida. O medo estava quase me dando asas! Eu sabia que não podia parar agora, precisava continuar se tinha intenção de fugir dali. Saí do hall da escada e fui correndo em direção à porta da frente. Foi então que me lembrei que ele havia dito que a casa estava muito bem trancada, logo, a porta da frente seria o primeiro lugar aonde iriam me procurar. Dei meia volta, e consegui ver Herr Kommandant no alto da escada; ele estava começando a descer, com a mão sangrando em profusão. Nunca pensei que um dia ficaria feliz em ser a responsável por causar tamanha dor em alguém, mas, nesse caso eu estava sim, bastante satisfeita. Um arranhão com um pouco de sangue ainda é muito pouco para ele...

Consegui alcançar outro corredor imenso, dessa vez no andar de baixo. A essa altura, já tinha mais gente atrás de mim, conseguia perceber a confusão, mas não olhei para trás nenhuma vez. Acho que não me viram quando entrei nesse corredor, porque os gritos e barulhos de passos atrás de mim simplesmente sumiram. Abri uma das portas e entrei em uma enorme biblioteca. Me refugiei atrás de uma grande mesa de carvalho, puxei a cadeira em minha direção e fiquei ali, escondida embaixo da mesa, tentando ocultar minha respiração ofegante... Meu corpo inteiro doía por causa da corrida. Jamais pensei que fosse ter essa coragem, jamais! À medida que meu coração foi se acalmando, percebi que ninguém ainda tinha entrado na biblioteca, o que confirmou que não me viram naquele corredor. Perto da mesa que me servia de refúgio tinha uma grande janela, que dava para o pátio. Tive a impressão que essa janela não estava lacrada como as janelas do meu quarto e senti um sopro de esperança invadir meu coração. Se eles não entrassem aqui, quem sabe eu conseguisse uma oportunidade para sair sem ser vista. O problema é que provavelmente ele havia acionado o tal Hans e àquelas duas bruxas para vasculharem a casa. Não sei se os demais empregados sabem da minha existência e também não sei se existem pessoas vigiando o jardim, mas eu espero sinceramente ter a oportunidade de tentar. Se eu conseguir permanecer incógnita por aqui mais um tempinho...

Meu coração ainda aos saltos, aos poucos começa a se recuperar. Não sei porque, mas o trecho final de uma velha canção em iídiche de repente toma conta dos meus pensamentos e inunda o meu coração de nostalgia.

Ir vet, kinder, elter vern,

Vet ir aleyn farshteyn,

Vifl in di oysyes lign trern,

Un vi fil geveyn.

Az ir vet, kinder, dem goles shlepn,

Oysgemutshet zayn,

Zolt ir fun di oysyes koyekh shepn,

Kukt in zey arayn! 1

Minha mãe costumava cantá-la em nossa casa, sempre que passávamos por qualquer tipo de problema, desde os mais simples, como um escorregão, até os mais profundos, que começamos a enfrentar durante os anos da guerra. Como uma vez em que Anna voltou da escola coberta de lama, da cabeça aos pés. Os ataques aos judeus já haviam começado na Polônia, mas não eram ainda tão assustadores. Pelo menos não para nós. Não até aquele dia... Lembro perfeitamente do rosto de criança de minha irmã, tomado pela lama e completamente incrédulo, quando entrou em nossa casa (isso ainda antes do gueto). Minha mãe olhou para ela, não disse uma palavra, apenas largou o pano de enxugar a louça, olhou para Anna e a abraçou, assim mesmo, suja como estava. Ainda lembro da voz doce de minha irmã, tentando encontrar respostas, enquanto minha mãe a conduzia pelas escadas, a caminho do banheiro. Eu as segui, pois queria saber como tudo tinha acontecido.

- Eu não entendo, mamãe! Eu não fiz nada... Apenas respondi a uma pergunta sobre o nosso país, na escola. E, quando estava indo para casa, seis colegas de classe me seguiram, a mim e à Chana... Eles nos cercaram e... e era a mim que eles queriam, pois não provocaram Chana.

- O que eles falaram? – perguntei, muito curiosa.

- Falaram que, como judia, eu deveria ter me calado quando o professor fez uma pergunta sobre a Polônia. Disseram que eu não sou polonesa, mãe... Me chamaram de judia suja e que alguém como eu precisava saber qual era o meu lugar... Chana tentou me defender, mas eles a agrediram também. – Judeu sempre protege outro judeu. Cale a boca, Chana, a conversa não chegou no chiqueiro... Falaram assim conosco, dessa maneira.

- Meu Deus! – soltei essa exclamação, ao que minha mãe prontamente respondeu.

- Shhh, Helen! Não blasfeme!

- Chana não gostou e tentou acertar Karol, mas ele é mais forte, mãe... Ele e os outros! Foi então que Karol berrou aos outros: - Vamos jogá-las ali na beirada da estrada... Choveu a noite inteira, está tudo cheio de lama!

- Todos concordaram e nos arrastaram até lá. Mãe, eles só pararam depois de terem esfregado o meu rosto, e o de Chana, no lamaçal.

Foi então que vi os olhos sempre altivos de minha mãe encherem-se de lágrimas. Ela segurou o choro o quanto pôde, mas Anna e eu não. Enquanto passava a esponja nos braços de Anna, disse: - Filha, não sei quanto tempo essa loucura toda irá durar, mas a partir de hoje eu a levarei até a escola. Você não passará mais por isso se eu estiver ao seu lado.

- Mãe, não adianta! Karol me disse que se eu contasse a verdade a vocês, nada mudaria, que a Polônia não gosta de pessoas "como nós" e que vamos entender isso muito em breve. O que ele quis dizer com isso, mãe?

- Ele não quis dizer nada... Ainda bem que você não reagiu, minha filha, pois isso poderia ter sido ainda pior.

- E quem disse que eu não reagi?! – comentou, entre lágrimas, a minha irmã.

- Filha, o que você fez?

A expressão de minha irmã mudou de, chorosa para irônica em uma fração de segundos.

- Karol pensa que é forte. Mas ele só é forte quando está em grupo. Na hora em que ele me jogou na lama, estava sozinho.

- E? - perguntou minha mãe.

- Bem, posso dizer que eu e Chana tivemos companhia na lama.

- Você o puxou para a lama? – dessa vez quem perguntou fui eu, já iniciando uma gargalhada.

- É claro! - Anna contou, agora mais alegre. - Ele também vai precisar lavar o uniforme hoje. Os amigos dele nem o ajudaram, ficaram lá, dando risada da gente. Na verdade, acho que riram mais dele na lama do que de nós duas.

- Pois foi bem-feito! – falei, ainda rindo.

- Helen, não encoraje sua irmã! – Então minha mãe voltou os olhos para Anna e disse: - Filha, se isso acontecer de novo, por favor, não reaja!

- Ah, mãe, me desculpe, mas eu não tenho sangue de barata!

- Pois é melhor ter, Anna... Tempos difíceis para nós estão chegando. É melhor não provocarmos.

Acho que, naquela época, nem mesmo minha mãe sabia exatamente o que nos esperava. Estávamos condenados, não éramos mais cidadãos poloneses, como sempre pensáramos que fôssemos. Agora éramos párias, apátridas indesejados, mas ainda não cientes de tudo o que nos aguardava... Lembro que vi nos olhos de minha mãe um desamparo que não achava certo, eu, em minha pouca idade, achava que mãe e pai sempre saberiam como nos defender, sempre teriam todas as respostas. Mas, a medida que Anna contou o que se passou, e, mesmo bancando a forte, chorou e demonstrou sentir medo, percebi que mais e mais minha mãe se enfraquecia, sofria calada, por não ter condições de nos ajudar, nem ao menos com respostas que dessem sentido à selvageria que estava só no começo, e, pior, perpetrada por pessoas que até bem pouco tempo eram nossos vizinhos, colegas de escola, gente que nos conhecia desde que tínhamos nascido, gente que frequentou a nossa casa, comeu de nossa comida, tomou a nossa água, o nosso vinho. Eu simplesmente tinha muito dificuldade em entender essas coisas. Por isso eu não tive vontade de voltar para a Polônia após a guerra, por sentir que minhas raízes haviam sido arrancadas há muito tempo e que o peso de me sentir apátrida jamais sairia do meu coração. Todas aquelas ofensas, todo aquele ódio, aquilo me afastou da minha terra para sempre. Eu não conseguiria voltar para a minha casa em paz, sabendo que ali passamos por tantas ofensas, tantas humilhações, tanta vergonha... E depois, nem casa mais nós tínhamos lá... E por quê? Por quê, meu Deus?

A saudade profunda de minha mãe foi substituída, assim mesmo, de repente, por uma sensação de vazio, de inutilidade, que toma lentamente conta do meu espírito. – De que adianta tentar escapar? – Eu vou mesmo conseguir sair daqui? – Será que esse homem finalmente vai me matar? Eu não entendo como funciona a cabeça doentia dele... Por mais que eu tenha plena consciência que ele sente algo muito forte por mim, ainda não entendo sua audácia, sua coragem em se aproximar de mim, em quase me enlouquecer a ponto de eu ser internada em uma ala psiquiátrica aqui em Viena. Não entendo por quê ele quis me levar à força. O que ele pensa que vai acontecer? Que eu vou compactuar com seus planos loucos? Que vou me afastar de Sam com a história ridícula que ele acha que pode funcionar? Que eu posso ser capaz de me apaixonar por meu próprio algoz e carrasco de tantas pessoas que eu amei? Eu sinto em cada palavra que ele diz, tanto ódio, tanto nojo, tudo nele está subentendido e, por isso mesmo, não aceito que alguém que sinta tanto nojo do que eu sou e do que eu represento possa ao mesmo tempo me amar. Não é possível!

Ele me batia tanto! Acho que, se pudesse colocar essa história em um patamar um pouco mais razoável, se ele realmente gostasse de mim, acho que seria o primeiro a tentar me proteger, a me defender, a me preservar do que quer que fosse lá naquele maldito campo. Mas nunca foi assim! Eu era esbofeteada pelo erro mais primário, pela inocência de um comentário, por um jeito de olhar... Apanhei tanto desse homem que simplesmente não sabia mais como me aproximar sem, de repente, despertar sua ira! Não era algo racional, com o qual eu pudesse lidar, como cheguei a explicar a Herr Schindler uma vez. Lembro muito bem quando, no porão, em meio a lágrimas, disse, olhando nos olhos carinhosos e compreensivos de Herr Direktor que, "não existem regras. Se eu me comportar de um determinado jeito, Herr Kommandant não vai me machucar". Não, não existia nada disso. Ele simplesmente fazia o que queria no campo... E se ele achasse que eu merecia uma surra por deixar a sopa em uma temperatura inadequada para seu paladar sensível, "de cavalheiro", eu iria apanhar por isso, ou por motivo nenhum. Simples assim. Então, apesar dos olhares, das atitudes e de todo o resto que fui percebendo com o tempo, com os comentários de Herr Schindler, e, hoje, com o sequestro e as atitudes de Herr Kommandant, ainda assim, eu não aceito!

Eu não acho que seja amor. Deve ser algo relacionado à posse, a um capricho, a algo proibido para ele e que, justamente por ser proibido, se tornou interessante. Afinal, ele pode ter qualquer pessoa, qualquer mulher. No meio de tantas mulheres arianas, por que ele cismou logo comigo? O que eu despertei nele que nem mesmo eu entendo? Eu não sou uma feiticeira, como tantas vezes ele me acusou. Tudo o que eu fiz na villa foi tentar conservar a minha vida, evitei ao máximo me aproximar dele, procurava não irritá-lo, mas nada disso adiantou...

Minha respiração torna-se novamente irregular e tento afastar esses pensamentos, pois tenho medo que entrem aqui e me encontrem. É como se os meus pensamentos gritassem e eu pudesse ser ouvida nos quatro cantos desta mansão. E eu preciso sair daqui, só não sei ainda como...

De repente, ouço um barulho na porta, o que faz com que eu me encolha ainda mais sob a mesa.

- Oh, Deus, por favor, que não percebam que estou aqui. – penso, enquanto luto para manter o controle da minha respiração.

Os passos são leves, o que me acalma um pouco, pois os passos de Herr Kommandant sempre foram pesados, duros, e eu seria capaz de reconhece-los mesmo que se passassem mil anos. O medo fez isso comigo. Mesmo não sendo ele, permaneço encolhida embaixo da mesa, tentando não ser percebida. Escuto o barulho forte de um trovão e olho para a janela, o céu, que até pouco tempo estava claro, de repente fica coberto de nuvens e sinto que uma forte tempestade se aproxima. Foi então que ouço os passos se afastando e a porta abrindo e depois fechando com um baque surdo. Decido dar uma espiada, apenas para ter certeza que posso tentar sair dali, afinal, está trovejando e relampejando bastante, o que me dá certa segurança em afastar a cadeira dali sem ser notada. Empurro delicadamente a cadeira, evitando fazer o menor ruído, saio debaixo da mesa e, ainda de joelhos, ergo a cabeça para olhar em direção à porta.

Um raio lá fora ilumina toda a biblioteca e sinto o sangue fugir do meu rosto quando olho para a porta e percebo que a aprendiz de bruxa, a filha de Frau Künzel, está parada em frente à porta, muito séria. Iluminada pelo raio, sua figura pálida e angelical parece ainda mais fria e assustadora para mim. Percebo que ela coloca a mão no bolso do avental e pega algo, que reconheço como um apito. Ela faz menção de levá-lo à boca, mas, parece hesitar um pouco. Aproveito a chance e me levanto de trás da mesa, calculando todos os meus movimentos, para não assustá-la. Continua relampejando muito lá fora.

- Moça, por favor, tenha piedade! – falo, com a voz embargada e bem baixinho, mas suficientemente audível para ela. – Me deixe sair! Finja que não me viu! Eu te imploro, tenha piedade... Seu patrão vai me matar, por favor... Piedade!

Não sei se consigo convencê-la, mas sinto que ela continua hesitante, rolando o apito entre seus dedos, como se sentisse que realmente deveria me dar uma chance. Percebo que os olhos dela são mais suaves que os de sua mãe, sempre tão duros, tão inquisitivos.

- Eu... Se você me deixar sair por aquela janela. – Aponto para a janela da biblioteca. – Prometo que ninguém ficará sabendo. Serei muito rápida e discreta... Só preciso que você me deixe ir e ninguém saberá que você me viu.

- Não... Não adianta sair por aí. – De repente, ouço a menina falando comigo, também em um tom sussurrante. – O pátio é vigiado, Herr Prauchner é muito zeloso de sua privacidade e segurança!

- Mas vai chover... Olhe... – Tento me aproximar dela com bastante cautela. – Com essa chuva, tenho certeza que posso sair sem ser notada. Se tiver alguém lá fora, certamente vai se abrigar da chuva em algum lugar. Esse pátio é enorme... Juro para você que consigo correr e me esgueirar sem ser notada!

- Eu... Eu... - ela hesitava.

- Por favor! Ninguém vai saber que você me viu, eu juro!

De repente, sinto os olhos da menina se aquecerem com uma espécie de compaixão ou então, motivada pelo que pode ser considerada uma travessura de sua parte, sempre tão cumpridora dos seus deveres. Ela olha profundamente em meus olhos, hesita um pouco, mas então, decidida, me pega pela mão, e me leva até a janela. A essa altura, a chuva já chegou com uma força espetacular. Ventos fortíssimos vergam as sebes, pinheiros e demais árvores do belo pátio e os raios, trovões e relâmpagos continuam assustadores. Mas, a chuva é perfeita para que eu possa sair sem ser notada, pois está ficando cada vez mais forte, o que dificultará ainda mais à procura por mim. A garota me olha mais uma vez, solta a minha mão, se afasta e diz.

- Essa janela está apenas com a tranca normal, é só abri-la e poderá sair.

- Obrigada, querida, muito obrigada! – Faço menção de me aproximar e beijar suas mãos, mas ela se afasta mais e faz um gesto brusco, indicando que eu devo sair.

Abro a janela, e uma rajada de vento invade a biblioteca e espalha tudo o que estava em cima da mesa pelo chão. O estrondo desses objetos caindo é inevitável, mas a tempestade está tão violenta, que acredito que o barulho foi abafado. Pulo pela enorme janela, sem olhar para trás e vou me esgueirando, pela lateral da mansão, até que resolvo correr por minha conta e risco, rumo ao que parece ser um bosque, que deve levar ao fim do terreno, a um muro, a algum lugar... Corro de uma forma desesperada, não consigo ter a cautela que disse à menina que teria, pois preciso achar uma saída. O pátio é imenso, é como correr pelo jardim de um palácio! Infelizmente escuto o apito que ela tinha em mãos. Acho que se arrependeu de ter me ajudado, mas não a culpo. Ela é só uma menina! Só espero que ninguém tenha ouvido, ou que pelo menos demorem tempo suficiente para que eu possa me embrenhar nesse bosque...

Acho que estou justamente no pátio que dá para os fundos da casa, pois, mesmo correndo como louca, não acho nada que indique que estou saindo da propriedade. Corro em direção ao bosque, mas sinto que estou fazendo bobagem, pois sei que não é prudente se esconder embaixo de árvores em uma tempestade furiosa como essa. Mas também, quais são as opções que eu tenho agora? Estou completamente ensopada e encontro dificuldades em continuar correndo em meio a tantas árvores. Escorrego em uma pedra lisa e vou ao chão em questão de segundos. Acho que perdi a consciência por um longo tempo, pois quando acordei, sentindo a torrente de água gelada me machucando o rosto e sinto que tudo em meu corpo dói...

Mas estou desesperada, preciso sair dali e começo a me arrastar pelo mato, procurando me ocultar o máximo possível entre as sebes. Tento descansar um pouco e vejo que, fora alguns arranhões, eu vou ficar bem, não quebrei e nem desloquei nada.

Foi então que ouço ao longe o que parece ser latidos de um cão de grande porte. Instintivamente lembrei de Rolf e Ralf, a dupla formada por um cão pastor e um dogue alemão que tanto terror infligiram aos prisioneiros de Plazsóvia. Conforme o som dos latidos se aproxima, mais força eu faço para me arrastar dali. Meu tornozelo direito dói muito por causa da pisada em falso e do escorregão. Dói tanto que eu não consigo me levantar e isso estava me atrasando. Nunca senti tanta determinação em conseguir algo e foi justamente essa força desconhecida que foi me empurrando ainda mais bosque adentro, o que permitiu que eu conseguisse me ocultar entre algumas amoreiras. Tentei ficar encolhida para não chamar atenção, mas meu tornozelo me impedia que mudasse muito de posição. Finalmente um dos cachorros, que me pareceu ser um sabujo, muito popular entre caçadores de raposas, me encontrou. Ele não foi agressivo, mas não parou de latir e fazer festinha ao meu redor, feliz em ter encontrado a "caça" do seu patrão. Logo, senti um facho de luz de lanterna nos meus olhos e reconheci Hans, o homem baixo e forte que havia me levado do hospital alguns dias atrás. Protejo meus olhos com uma das mãos, enquanto tento com a outra mão afastar o sabujo, que a essa altura puxava a minha saia, como se quisesse me arrastar mais para perto do homem.

- Herr Prauchner, a moça está aqui! Achei, achei! – começou a gritar, com um servilismo na voz que achei extremamente irritante.

O homem tentou se aproximar de mim, do mesmo modo que o cão, mas no momento em que ele ofereceu o braço para me ajudar, eu fingi aceitar e o puxei com força, como fez minha irmão ao empurrar Karol na lama com ela, tantos anos atrás. Se fosse para me levar dali, pelo menos também iria ao chão, sujaria de lama suas roupas bem cortadas e precisaria levar um tempo maior do que o planejado para me alcançar. Tentei me desvencilhar do homem, mas, ainda ao chão ele se jogou sobre mim com toda a sua força, o que me fez gritar ainda mais. Eu queria ser ouvida, tive esperança que algum vizinho pudesse ouvir a confusão, mas infelizmente estava no meio de um bosque, sem a mínima noção do meu entorno ou se havia mesmo algum vizinho por perto. O barulho da tempestade abafava meus gritos ainda mais. Continuo gritando enquanto Hans me segura como a um animal de grande porte. Ergo a minha perna esquerda, que não está machucada e consigo acertar um belo chute entre as costelas de Hans, que dá um grito de dor. E então, sinto um novos facho de luz nos iluminar.

Abaixo a minha perna e vejo que é Herr Kommandant, usando uma bela capa de chuva e um enorme guarda-chuva negro. Apesar da forte chuva, consigo ver que a mão que segura o guarda-chuva está grosseiramente enfaixada com um pedaço de pano que acredito ser da camisa que ele usava quando o ataquei. Engraçado que ele teve tempo de apanhar uma capa e um guarda-chuva, mas não perdeu tempo fazendo um curativo em sua mão. O pedaço de tecido que faz às vezes de curativo está manchado com o seu próprio sangue. Ele me olha de forma fria e implacável e diz:

- Helen, Helen. – sua voz é baixa e eu mal consigo ouvi-lo por causa da chuva. – Vamos para casa!

- Vá para o diabo que te carregue. Eu não volto pra lá! – gritei, com todas as minhas forças.

Então ele voltou as costas para mim e disse:

- Hans, você já sabe o que fazer.

Com uma força descomunal, Hans se levanta e me puxa com força para o seu colo. Eu ainda tento protestar, me mexer, mas a dor no tornozelo direito estava realmente começando a incomodar muito. Herr Kommandant deve estar muitos passos à frente, pois não o escuto mais. Olho para os olhos de Hans e então é como se minha memória abrisse um portal e eu finalmente o reconhecesse.

- Günther? Oberscharführer Günther Fritzl? É você mesmo?

Ele me olha fixo nos olhos e dá um meio sorriso, como se tivesse ficado satisfeito que eu pudesse me lembrar daquele primeiro-sargento que vivia na cozinha do campo, sempre perguntando se Herr Kommandant tinha tomado toda a garrafa de vinho do jantar. Quando sobrava, ele sempre pedia que eu a levasse até ele. Nunca me agrediu, nunca fez menção de fazê-lo; na verdade, Fritzl era um dos poucos que não me incomodavam em Plazsóvia. Era uma espécie de bêbado tranquilo, que não perturbava os prisioneiros que trabalhavam na villa por saber que ali ele tinha que se comportar um pouco mais adequadamente. Apesar da cordialidade que tinha comigo ou com quem estivesse a serviço do comandante do campo, eu já tinha ouvido histórias horríveis sobre ele açoitando com um chicote de montaria os presos que trabalhavam em uma das fábricas. Reconhecê-lo me fez desistir de continuar gastando minhas energias com ele, pois pelo menos no campo ele sempre se mostrou um fiel escudeiro de Herr Kommandant. Me resignei em seu colo, enquanto saíamos do bosque para o gramado aberto, que estava, tal como nós, totalmente encharcado de chuva.

Quando saímos do bosque, um Mercedes preto estava à nossa espera, para facilitar nossa ida até à mansão. Hans abre a porta traseira e me joga lá para dentro. O movimento que ele fez para me colocar dentro do carro me empurra com força para cima do colo de Herr Kommandant, que estava ali à nossa espera. Caio com o rosto virado para o seu colo e preciso apoiar as minhas mãos em suas pernas para conseguir me levantar. Sinto a porta se fechar atrás de mim e vejo que Hans já tomou seu lugar no assento do motorista e liga o carro, rumo à casa.

Olho para Herr Kommandant, enquanto afasto do meu rosto, com certa raiva, meus longos cabelos sujos de lama, folhas e gravetos. No entanto, ele não olha para mim, permanece com os olhos fixos em algum ponto do caminho, ou em nada.

O carro faz a volta pelo quintal e para em frente à porta dos fundos. Vejo que a bruxa velha e a garota estão à nossa espera. Hans, ou melhor, Oberscharführer Fritzl sai do carro, abre a porta e me puxa para fora com uma força espantosa. Não consigo apoiar meu tornozelo direito, e o oficial não hesita em me pegar novamente no colo. Vejo Herr Kommandant sair do carro, abrir novamente o guarda-chuva e se encaminhar para a porta da casa. Entramos na sequência e olho friamente para Frau Künzel, que me encara e fecha a porta atrás de nós. Hans me coloca no chão. Herr Kommandant fecha o guarda-chuva, tira com toda a calma a sua capa elegante e vejo que ainda está com a camisa desta manhã, rasgada perto da barriga e completamente manchada de sangue. Então ele volta seus olhos azuis para mim, me encara sem esboçar nenhuma reação e diz:

- Consegue andar?

- Se o Oberscharführer Fritzl me colocar no chão, posso tentar.

O comandante não esboça reação alguma diante do meu reconhecimento, mas percebo que Frau Künzel abaixa a cabeça. A garota, filha da bruxa parece não entender nada do que está se passando ali.

- Hans, coloque-a no chão. – ele fala o nome falso desse homem com uma naturalidade espantosa. Como se minha descoberta não tivesse feito a menor diferença para ele.

Seu capanga cumpre as ordens direitinho. Tento firmar meu tornozelo do jeito que posso, mas a dor é insuportável. Fico meio torta, mas em pé. E, ao olhar para ele eu finalmente reconheço o monstro de Plaszóvia! Ele estava apenas adormecido sob camadas de roupas finas e falsos gestos de cavalheirismo. É como se seus olhos adquirissem nova cor, eu consigo ver a raiva tingir de vermelho aqueles olhos tão azuis e expressivos. O rosto dele é uma mistura de ódio, frieza e dor, pois vejo que o sangue manchou mesmo o punho de sua camisa branca.

- Consegue andar? – ele pergunta novamente, com a voz forte, porém ainda cordial, apesar de seus olhos dizerem exatamente o contrário.

- Você já me perguntou isso. Eu acho que sim.

- Ótimo. Vou levá-la então aos seus novos aposentos.

- Novos aposentos? - comenta Frau Künzel. – Mas eu não preparei outro quarto para ela...

Então Herr Kommandant, me pega pelo braço e começa a me puxar com força. Meu tornozelo está muito dolorido e eu não consigo firmá-lo, o que com o puxão, vou novamente ao chão. Ele parece não se importar, continua me puxando como se não fizesse diferença para ele que eu esteja em pé ou sendo arrastada como estava.

- Mas eu preparei. – disse ele. - Aparentemente, essa senhora não gosta de ser tratada como hóspede, então será tratada ao modo que está acostumada: como prisioneira. Não é mesmo, sua cadela judia?

Com força espantosa, ele me arrasta pelo braço esquerdo por todo o corredor. Vejo os empregados observarem um tanto incrédulos à cena, principalmente a filha de Frau Künzel, que a essa altura deve estar muito arrependida por ter feito soar aquele apito. Como não consigo de jeito nenhum acompanhar seus passos largos, vou sendo arrastada pelo chão. Fico com as pernas ainda mais cheias de marcas da fricção forçada da minha pele contra os tapetes e o chão do corredor, mas me seguro e não dou um grito. Não vou dar a esse canalha o gosto de me ouvir gritar, pois sei por experiência própria que ele se sente poderoso quando inflige dor aos outros.

Finalmente chegamos a uma porta, ao final do corredor dos fundos. Ele abre essa porta e acende uma luz mortiça. Vislumbro uma escadaria de pedra e meu sangue congela outra vez. Ele desce as escadas me arrastando, o que me machuca ainda mais e não consigo mais segurar a dor que estou sentindo. Ele me arrasta até a metade do que parece ser uma adega, e olho com horror que os móveis reproduzem à perfeição o pequeno quarto em que eu dormia no porão da villa. Ele então se aproxima, me ergue bruscamente do chão, me pega com força no colo e me arremessa naquela cama frágil com violência.

- Sua estúpida! Pensei que você fosse um pouquinho mais esperta! – ele grita.

- Eu... Eu disse pra você na igreja que se tentasse chegar perto de mim novamente eu o mataria. – digo, ofegante, completamente molhada, tremendo de frio e de medo.

- Cale a boca! – ele grita novamente e com a mão machucada, me dá um tapa forte, que deixa meu rosto em chamas. Novamente, apesar da dor excruciante eu não emito um som. Ele continua – Vai precisar mais do que um cabide para me matar.

Nisso, ele se afasta da cama e vai em direção às escadas. Então ele se vira e me olha de um jeito tão aterrador, que me encolho na cama. Mas, para minha surpresa, ele dá um suspiro profundo e ajeita seu cabelo para trás, que a essa altura também está todo bagunçado, como nos tempos em que ele ficava bêbado no campo e andava para lá e para cá com o uniforme e todo o resto em desalinho. Sua expressão varia rapidamente de furiosa para uma calma espantosa, como se ele tivesse se forçado a ficar calmo... Essa atitude inesperada dele me deixa ainda mais assustada, pois sei que se trata de fingimento, que o verdadeiro Amon Goeth não se contentaria em me dar apenas um tapa. Nos velhos tempos, ele só ajeitaria o cabelo depois de quase me matar com uma sucessão de golpes rápidos e precisos. Mas não foi o que aconteceu dessa vez.

- Creio que agora você esteja muito cansada. Vou deixá-la descansar. Espero que goste de suas novas acomodações – Ele se afasta e sinto seus passos pesados subirem a escada.

Essa atitude fria e controlada me pega de surpresa. Eu vi o quanto ele ficou alterado, senti sua fúria no fortíssimo tapa que levei, mas, nunca, nunca mesmo o vi recuperar tão rápido a calma. Ainda que fingida, essa atitude me deixa realmente surpresa. O problema é que sim, estou mesmo muito cansada, mas também estou encharcada. Sinto que ele deixou que eu saísse e me molhasse assim para que amanhã eu esteja mais "mansa", doente, quem sabe. Mas, não quero dar esse gosto a ele. Se eu não vou sair daqui por bem, certamente sairei por mal. Preciso descansar e recuperar as minhas forças. Não vou deixar esse homem me subjugar outra vez, não posso, não vou...


1. Tradução do trecho da canção, para o inglês:

Oyfn Pripetshik – On the cooking stove

When you grow older, children,

You will understand by yourselves,

How many tears lie in these letters,

And how much lament.

When you, children, will bear theExile,

And will be exhausted,

May you derive strength from these letters,

Look in at them!