Capítulo 14.

- Aonde é que a gente vai? – quis saber Ju.
- Pra casa.
- Mas de táxi? É tão pertinho!
- É que este sapato está me machucando – respondeu Emma inventando a primeira desculpa que lhe veio à cabeça.

Juliana não questionou mais. Quando entraram em casa Emma ainda olhou para os lados desconfiada, porém não viu nenhum movimento suspeito. Regina, que a conhecia muito bem, percebeu sua intranqüilidade e quando ju saiu de perto questionou:

- Meu amor, o que foi que aconteceu?
- Não sei, Re, mas eu tive uma sensação muito ruim agora há pouco...

E relatou brevemente o ocorrido.
- Pode ser coisa da minha cabeça, eu sei. Mas por via das dúvidas eu não quero a Juliana longe dos nossos olhos por uns dias, pelo menos até a ida dela para a casa do vovô. Nessa semana vamos chegar sempre antes da aula dela terminar, certo?
- Tudo bem, vamos sim.

Nisto Ju veio para perto delas e mudaram de assunto.

Na semana seguinte Emma literalmente montou guarda na frente da escola, porém não avistou mais o estranho. Assim que Juliana entrou de férias elas a mandaram para a casa dos bisavós, que a aguardavam ansiosamente.

Emma e Regina aproveitaram para fazer uma lua-de-mel em casa, afinal depois que passaram a morar juntas eram os primeiros dias que ficavam totalmente sozinhas. O episódio da escola foi praticamente esquecido e Emma tentou se convencer de que tudo foi fruto de sua imaginação. Aproveitou as férias de Juliana, tendo mais tempo disponível, e entrou com a documentação solicitando a adoção da menina no Fórum.

No dia 22 Juliana retornou da fazenda do vovô Salim, sendo que suas aulas recomeçariam no dia 24. Tanto Emma quanto Regina estavam morrendo de saudades da filha, que também chegou demonstrando ter sentido a falta delas, apesar dos paparicos do vô Salim e da vó Ester. Até os avós Mary e David foram passar uns dias na fazenda com a neta.

O mês de julho transcorreu normalmente e agosto havia chegado com temperaturas muito altas e chuvas abundantes. Juliana, Regina e Emma costumavam tomar sorvetes pra amenizar o calor tipico da regiao.

Na manhã do dia sete de agosto, uma segunda-feira, o telefone do escritório do Magazine Libanês tocou e Emma atendeu. Era Regina que estava visivelmente transtornada no outro extremo da linha.

- Regis, meu amor, o que houve? Por favor, para de chorar e me diz o que aconteceu...
- Emma, vem pra casa, agora... – soluçava Regina.
- Pelo amor de Deus, o que foi que houve com a Juliana?
- Nada... ainda não...
- Como assim, ainda não?

Regina continuava soluçando e Emma desligou, dirigindo-se para casa imediatamente. Encontrou Regina desabada no sofá da sala e Antônia tentando fazer com que bebesse um copo de água com açúcar. Antes que Emm chegasse a perguntar qualquer coisa Antônia lhe disse, tentando tranqüiliza-la:

- A Ju está bem, está na escola.

Emma respirou aliviada e abraçou Reginaa, apertando-a junto a si. Se ju estava bem qualquer outra coisa poderia ser resolvida.

- Pronto... pronto. Tá tudo bem agora.

Regina abraçou com força. Aos poucos foi se acalmando e estendeu uma folha de papel para Emma. Ao ler o teor da correspondência Emma entendeu o porquê do desespero de sua mulher. Era uma intimação referente ao processo da guarda de Juliana Seu pai havia aparecido e pleiteava a guarda da filha judicialmente e fora marcada uma audiência para dali ha três semanas. Emma sentiu um aperto no peito e instantaneamente lhe veio à memória o homem que havia observado Juliana atentamente na escola.

- Desgraçado! – disse Emma mais para si mesma do que para Regina.
- O quê?
- Nada, pensei alto.
- E agora, Emma? O que vamos fazer? Ele vai tirar a nossa filha! O que vai ser da gente? – disse Regina recomeçando a soluçar.

Antônia havia ido para a cozinha e também chorava baixinho, não conseguia imaginar aquela casa sem as peraltices de Ju.

- Re... calma! – disse Emma segurando-a pelos ombros.
- Como calma? Nós vamos perder a Ju!
- Não vamos não!
- Como não Emma? Ele é o pai dela!
- E daí? NÓS somos a família dela! – respondeu Emma enfaticamente.
- Mas para a justiça ele é o pai, tem direitos sobre ela!
- Não é bem assim, Re.
- COMO NÃO? – disse Regina levantando o tom de voz, em desespero – Qual o Juiz que vai dar a guarda da Juliana para um casal de... de...
- De quê?...
- De... Você sabe!
- De que Regina? Tenha a coragem de dizer! DE LÉSBICAS? – exaltou-se Emma.
- É! De lésbicas... – repetiu Regina desabando num choro compulsivo.

EmmA novamente a aconchegou em seu peito, abraçando-a com força, tentando reconforta-la e passar-lhe uma segurança que ela mesma tinha dificuldade em sentir. Lágrimas escorreram de seus olhos mel e EmmA sentia como se fossem gotas de lava incandescente a queimar-lhe as faces. Ficaram chorando abraçadas em silencio por longo tempo. Emma tentava ordenar seus pensamentos e não deixar que o desespero a impedisse de tomar as providencias que se faziam necessárias naquele momento. Com delicadeza afastou-se um pouco de Regina, beijou-lhe a testa e lhe disse pausada e convictamente, encarando-a nos olhos:

- Regina, eu te prometo, ninguém vai levar a nossa filha embora. Ninguém. Confia em mim.

Regina deu um suspiro profundo e assentiu com um movimento de cabeça. Enxugou as lágrimas de seus olhos e tomou as mãos de Emma entre as suas.

- Eu confio, meu amor, eu confio.

Emma esboçou um sorriso. Levou as mãos de Regina até seus lábios, beijando-as com suavidade. Respirou fundo, levantou-se e pegou o telefone. Ligou primeiro para Dona Eda, pedindo que fosse pegar Juliana na escola e ficasse com ela à tarde, talvez até o outro dia. Pelo seu tom de voz a velha senhora percebeu que algo não ia bem. EmmA prometeu explicar-lhe depois, mas que ficasse sossegada, pois tudo se resolveria. Pelo menos por enquanto Emma estava tranqüila em relação ao pai de Juliana, ele não tentaria pegá-la à força, muito pelo contrário, tentaria pelos meios legais, "mas por que?", pensava Emma, "porque somente agora?". Alguma coisa não fechava naquela história.

Logo em seguida ligou para sua advogada e grande amiga:

- Marília? Emma. Preciso de você aqui ainda hoje.
- Como?
- Isso que você ouviu. Ainda hoje. Estou reservando passagem pra você num vôo pra hoje. (...) Como não pode? Teus filhos já são homens, minha amiga. E marido não conta. Você tem cinco marmanjos em casa que podem muito bem se virar sem a mamãezinha por um ou dois dias. Marília, por favor, é muito importante. É a minha vida que está em jogo...
- Tudo bem, Emma. Pelo teu tom de voz dá pra perceber que boa coisa não é. Você pode me adiantar alguma coisa?
- É a Juliana. O pai dela apareceu, e quer a guarda.
- Huuum... casinho complicado.
- Eu sei, por isso preciso de VOCÊ, que é a melhor profissional que eu conheço.
- Sei... não tente me bajular, Srnhorita Swan. Eu já concordei em ir.
- Eu te amo, sabia? Se você não fosse hétero, e se eu não amasse a Re.. você não me escapava!
- Boba! – riu-se Marília.
- Estamos te esperando.
- Deixa eu arrumar a minha mala, então. Bye.
- Bye.

Logo em seguida Emma reservou uma passagem aérea para Marília no vôo das dezesseis horas. Também telefonou para a loja avisando que não retornaria naquele dia. Em seguida sentou-se ao lado de Regina que já estava aparentemente mais calma.

- Amor... alguma coisa nessa história não está fechando. Olha só, porque um pai totalmente ausente apareceria somente agora? Me conta de novo e em detalhes a história da Ju.

Regina repetiu a história que Emma já conhecia e ela prestava atenção em cada detalhe, mesmo que pudesse parecer insignificante.

- Bom, então a irmã desse sujeito ainda trabalha no hospital, e sabe que você está com a Ju, e provavelmente sabe que nós estamos morando juntas, uma vez que eu vou seguidamente te buscar no hospital. Bom, outra coisa, se a mãe da Ju morreu em decorrência de um acidente de trânsito ela tem um seguro em dinheiro depositado em Juízo, não tem?
- Tem, mas é uma conta que só poderá ser mexida por Juliana, quando completar maioridade. – respondeu Regina.
- Ou?...
- Ou... se o responsável provar que precisa da quantia para prover os cuidados que ela necessita enquanto é menor...
- Bingo! – disse Emma - O ordinário quer o dinheiro.
- Não pode ser só isso...
- É só isso! Um homem que nem sequer registrou a filha, que nunca quis conhecer a menina e deu no pé antes dela nascer, vai querer o quê? Ganhar o céu? Não seja ingênua, Regina.
- Pois é... você pode ter razão sim...
- Eu tenho certeza. Agora vamos esperar a Marília para ver o que podemos fazer. Mas enquanto isso precisamos manter a calma, entendido?
- Entendido.
- Re, a Juliana precisa da gente nesse momento, e temos que estar bem. Precisamos passar confiança pra nossa filha, pois medo ela vai sentir por si só quando souber o que está acontecendo.
- Eu sei.
- Então vamos melhorar essa cara! Vai lavar o rosto e vamos almoçar.
- Eu tô sem fome...
- Eu também, mas precisamos comer alguma coisa. As pessoas pensam melhor de barriga cheia!

Regina sorriu. Emma era muito especial mesmo. Conseguia transmitir uma segurança e uma força interior capaz de dar ânimo em qualquer situação, por mais difícil que pudesse parecer. E mesmo que as evidências e a razão apontassem para uma situação desesperadora, ao lado de Emma, e ouvindo-a falar, tinha a plena convicção de que não perderiam a filha.

Por volta das dezenove horas um táxi estacionou em frente à casa delas. Marília desembarcou e ajeitou os cabelos lisos e loiros que teimavam em escorregar do coque preso por duas hastes de madeira atravessadas, que ostentava no alto da cabeça. Ajeitou o óculo de armação redonda na ponta do nariz e esperou que o motorista retirasse sua mala do veículo. Equilibrou-se no topo de sua sandália de salto agulha altíssimo, segurando sua pasta de couro junto ao peito e a bolsa no ombro direito. Emma foi ao seu encontro, pagou a corrida e abraçou Marília.

- Obrigada por ter vindo, muito obrigada mesmo. Fico te devendo essa.
- Vou anotar no meu caderninho...
- Deixa que eu pego a tua mala. – disse Emma.
- Deixo! É o mínimo que a senhora pode fazer para compensar esse meu desvario de viajar em menos de seis horas!

Emma riu e abraçou novamente a amiga, que era pequena e magra, e praticamente sumia no abraço da Loira, mesmo tendo sua altura aumentada em pelo menos doze centímetros pelo salto da sandália.

Marília, já instalada confortavelmente numa poltrona reclinável, após tomar um banho e comer alguma coisa, pediu que a amiga contasse em detalhes o que estava acontecendo. Munida de uma prancheta, um bloco de folhas pautadas e uma caneta de escrita fina e vermelha, fazia anotações enquanto Regina e Emma repetiam novamente e em detalhes a história toda.

- Bom, recapitulando então: - proferiu Marília – o suposto pai abandonou a companheira ainda gestante, não registrou a filha, nunca procurou a menina até o presente momento e nunca sequer contribuiu em nada para a criação de Juliana. Ponto a nosso favor.

Regina sorriu feliz com a colocação de Marília, que continuou:

- No entanto, a lei brasileira é clara, os pais biológicos têm prioridade sobre qualquer outro familiar, desde que possuam condições de prover aos filhos a satisfação das necessidades básicas de alimentação, educação, moradia e garantia de dignidade.

Regina levou as duas mãos ao rosto evidenciando desânimo. Emma envolveu-a pelos ombros, numa atitude de proteção e conforto.

- Regina – continuou Marília – você não sabe sequer o nome desse homem?
- Não, a mãe da Ju nunca falava nele, ao contrário, qualquer referência que pudesse remeter a ele fazia com que mudasse de assunto ou se fechasse totalmente. As poucas vezes que falou dele foram sobre seus gastos com outras mulheres e no jogo, além das bebedeiras.
- E ela alguma vez referiu agressões físicas?
- Não. Pelo menos não para mim.

Marília fez mais algumas anotações e concluiu:

- Bem, minhas amigas, ainda é cedo para que eu possa emitir qualquer parecer. Amanhã quero ter vistas ao processo com a procuração que você me passou Emma, e somente então, de posse dos dados desse sujeito, é que vou começar a elaborar uma estratégia. Amanhã eu levanto a ficha dele. Mas até lá vamos aguardar. Eu só quero que vocês saibam que é um caso difícil, e que depende muito também do entendimento do Juiz que dará o veredicto. E vamos nos preparar para lidarmos com preconceitos e com juízos de valor. Preciso ser mais clara?
- Não. – respondeu Emma.

Regina somente sinalizou com a cabeça.

- Ótimo então. Mas eu quero deixar bem claro também, principalmente para você Regina, que ainda não me conhece o suficiente, que eu farei o possível para que tenhamos ganho de causa, e que não podemos entrar nessa batalha se não tivermos a convicção de que é possível sairmos como vencedoras. Entendido?

Emma sorriu confiante. Essa era a Marília que conhecia, a advogada brilhante que seria capaz de garantir a Juliana o direito de permanecer com elas, com a família que considerava como sua, com as mães que amava e que a amavam como se a tivessem parido.